ARTIGO

Ajustamento criativo e duplo-vínculo na psicose: uma análise fenomenológica do filme Shine (1996)

Creative adjustment and double bind in psychosis: a phenomenological analysis of the film Shine (1996).

Thales Valim Angelo 

Universidade Federal de Santa Catarina

Resumo:

O presente ensaio teórico-reflexivo analisa o filme Shine (1996) a partir de uma perspectiva fenomenológico-relacional, compreendendo a psicose como um ajustamento criativo e um modo singular de organização da experiência. A análise investiga as dinâmicas interacionais paradoxais presentes na relação entre David Helfgott e seu pai à luz da Teoria do Duplo-Vínculo. Em seguida, aborda-se o sofrimento psíquico sob a ótica da Gestalt-terapia contemporânea, explorando os processos de awareness, fronteira de contato e a perda das funções do self. O artigo articula a trajetória do personagem com os princípios da Reforma Psiquiátrica e da atenção psicossocial, discutindo a arte como território existencial e ferramenta de uma clínica-estética capaz de favorecer a reorganização do contato e processos de desinstitucionalização subjetiva.

Palavras-chave: Psicose; Gestalt-terapia; Ajustamento criativo; Duplo-Vínculo; Reforma Psiquiátrica; Atenção psicossocial.

Abstract: 

This theoretical-reflective essay analyzes the film Shine (1996) from a phenomenological-relational perspective, understanding psychosis as a creative adjustment and a singular mode of organizing experience. The analysis investigates the paradoxical interactional dynamics present in the relationship between David Helfgott and his father in light of the Double Bind Theory. Subsequently, psychological suffering is addressed through the lens of contemporary Gestalt therapy, exploring the processes of awareness, the contact boundary, and the loss of self-functions. The article articulates the character's trajectory with the principles of the Psychiatric Reform and psychosocial care, discussing art as an existential territory and a tool for an aesthetic-clinic capable of fostering contact reorganization and processes of subjective deinstitutionalization.

Keywords: Psychosis; Gestalt therapy; Creative adjustment; Double bind; Psychiatric Reform; Psychosocial care.

Introdução

A transposição de histórias reais para a linguagem cinematográfica constitui-se como um desafio complexo, uma vez que a estruturação fílmica exige recortes narrativos que operam como dispositivos culturais de produção de sentido e subjetividade (Martins, 2017). O filme Shine (1996), dirigido por Robert Scott Hicks, ilustra essa dinâmica ao narrar a biografia do pianista australiano David Helfgott, um prodígio da música erudita que vivencia um colapso nervoso no ápice de sua formação acadêmica. A obra oferece um terreno fértil para a investigação acadêmica acerca das intersecções entre genialidade, sofrimento psíquico e dinâmicas familiares.

Historicamente, o cinema e a psiquiatria têm mantido uma relação de fascínio mútuo, na qual a sétima arte frequentemente atua como um espelho das tensões sociais em torno da saúde mental (Landeira-Fernandez & Cheniaux, 2010). Contudo, a representação cinematográfica da loucura não raramente incorre na perpetuação de estereótipos. No caso de Shine, a narrativa centra-se fortemente na relação autoritária e paradoxal entre David e seu pai, Peter Helfgott, o que demanda uma análise cautelosa para evitar leituras causalistas que culpabilizam exclusivamente o núcleo familiar (Rosen & Walter, 2000).

Embora o filme dialogue com representações associadas à esquizofrenia, este estudo não pretende realizar uma discussão diagnóstica de caráter psiquiátrico-formal. A noção de psicose é aqui compreendida a partir de uma perspectiva fenomenológico-relacional, sendo tomada como um modo singular de organização da experiência e de ajustamento no campo organismo-ambiente. É fundamental ressaltar que a análise cinematográfica, por sua natureza interpretativa e artística, não busca estabelecer diagnósticos clínicos, mas sim explorar as representações da experiência subjetiva e do fenômeno psicótico presentes na narrativa fílmica, delimitando os alcances e limites interpretativos da análise à esfera da compreensão fenomenológica e relacional.

O presente ensaio tem como objetivo analisar a trajetória de David Helfgott a partir de referenciais da Psicologia Sistêmica, da Gestalt-terapia contemporânea e dos pressupostos da Reforma Psiquiátrica. Afastando-se da visão nosológica tradicional, propõe-se compreender o ajustamento psicótico como um ajustamento criativo e um modo singular de organização da experiência no mundo (Silva, 2018; Carvalho & Costa, 2010). Nesse percurso, a Teoria do Duplo-Vínculo será mobilizada para elucidar as dinâmicas paradoxais familiares, enquanto a fenomenologia gestáltica e os princípios da atenção psicossocial fornecerão o arcabouço para a compreensão das modulações na fronteira de contato e do papel fundamental da arte nos processos de desinstitucionalização subjetiva (Quinhones & Quinhones, 2018; Amarante, 2020).

Percurso metodológico

Este estudo configura-se como um ensaio acadêmico de natureza teórico-reflexiva, fundamentado em uma análise qualitativa e interpretativa de narrativa fílmica. A escolha do filme Shine (1996) justifica-se por sua riqueza narrativa na representação de dinâmicas familiares complexas e do sofrimento psíquico, oferecendo um material empírico denso para a exploração dos conceitos de Gestalt-terapia e Psicologia Sistêmica. A análise do personagem David Helfgott é conduzida sob uma perspectiva fenomenológica, buscando a suspensão de julgamentos patologizantes para compreender a experiência da psicose como um dos múltiplos modos de ser-no-mundo, em vez de uma mera categoria diagnóstica (Perls, Hefferline & Goodman, 1951/1997). Ressalta-se que a análise cinematográfica, por sua natureza interpretativa e artística, não busca estabelecer diagnósticos clínicos formais, mas sim explorar as representações da experiência subjetiva e do fenômeno psicótico presentes na obra, delimitando seus alcances interpretativos à esfera da compreensão fenomenológico-relacional.

O percurso analítico estrutura-se em três eixos interligados, articulados por meio da análise fílmica de Shine (1996). Inicialmente, investigam-se as dinâmicas interacionais paradoxais presentes na relação entre David e seu pai, buscando compreender como mensagens contraditórias atravessam o campo relacional do personagem e se manifestam em cenas marcadas pela coexistência de afeto, controle e ameaça de abandono. Em seguida, analisa-se o processo de sofrimento psíquico a partir da perspectiva gestáltica, explorando de que modo o ambiente relacional impacta a organização do contato, a awareness e os modos de ajustamento do personagem ao longo de sua trajetória. Por fim, propõe-se uma leitura crítica da institucionalização psiquiátrica articulada aos pressupostos da Reforma Psiquiátrica e da Atenção Psicossocial, discutindo o papel da arte nos processos de desinstitucionalização subjetiva e a música como território existencial capaz de favorecer novas formas de contato e inserção relacional.

A seleção das cenas para análise foi realizada por meio de uma abordagem hermenêutica, orientada pelos referenciais teóricos da Gestalt-terapia e da Psicologia Sistêmica, que permitiram uma leitura aprofundada das dinâmicas de campo e dos processos de ajustamento. Os critérios utilizados para a seleção das cenas incluíram: 1) Relevância conceitual: trechos com potencial para ilustrar conceitos-chave como duplo-vínculo, ajustamento criativo, awareness e fronteira de contato; 2) Representatividade narrativa: cenas que retratam momentos decisivos na trajetória de David Helfgott, permitindo observar as modulações de sua experiência ao longo do tempo.

Cada cena foi assistida e revisitada múltiplas vezes, permitindo uma imersão na experiência fílmica e a identificação de padrões interacionais e expressões fenomenológicas relevantes. O processo de articulação entre o material fílmico e as categorias teóricas ocorreu de forma dialógica: os dados extraídos da narrativa foram interpretados à luz da teoria, buscando uma compreensão integral e não-reducionista que evitasse o uso do material apenas como ilustração, priorizando a lógica existencial do fenômeno representado

Desenvolvimento teórico-analítico

A dinâmica do duplo-vínculo em Shine

A estratégia narrativa de Scott Hicks explora a relação entre David e seu pai, Peter Helfgott, revelando um ambiente familiar marcado por um autoritarismo exacerbado. Para compreender a complexidade dessa relação, recorre-se à Teoria do Duplo-Vínculo (TDV) (Bateson, Jackson, Haley & Weakland, 1956/2000), cujos critérios descritos por Watzlawick, Beavin e Jackson (1967/1995) se manifestam de forma nítida na dinâmica fílmica.

A relação entre Peter e David caracteriza-se, primordialmente, por uma intensidade interacional de elevado valor de sobrevivência, na qual prevalecem mensagens paradoxais. Peter frequentemente exige afeto em meio à violência, instaurando um estado de confusão no qual David fica impedido de refletir ou abandonar o campo relacional. O paradoxo atinge o ápice na partida para Londres, quando Peter, em um abraço sufocante, comunica simultaneamente amor e aniquilação simbólica: “Se for, nunca mais voltará para esta casa. Nunca mais será o filho de alguém”. Aqui, as mensagens excluem-se mutuamente em níveis comunicacionais distintos, transformando-se em uma expectativa autônoma que não requer esforço posterior para se perpetuar, redundando em um padrão de comunicação que se retroalimenta e aprisiona o sujeito (Watzlawick et al., 1967/1995).

Contudo, é imperativo pontuar uma crítica ética à obra. Rosen e Walter (2000) apontam que o filme falhou ao dramatizar e perpetuar o mito simplista de que as famílias causam e são culpadas pela esquizofrenia. Pacientes e famílias inevitavelmente experienciam o sofrimento psíquico de formas diferentes, lutando com distintos aspectos da situação. Dissipar esse mito exige reconhecer que a dinâmica familiar é apenas um dos componentes de um campo complexo (Rosen & Walter, 2000). É crucial destacar que a teoria do duplo-vínculo é utilizada neste ensaio como uma ferramenta interpretativa para a compreensão de determinadas dinâmicas relacionais e comunicacionais, e não como uma explicação etiológica ou causal da psicose. A complexidade do fenômeno psicótico transcende qualquer tentativa de redução a um único fator, sendo compreendido aqui em sua multideterminação e singularidade fenomenológica.

A literatura clássica que revisa as bases da Teoria do Duplo Vínculo (TDV) já assinalava que os transtornos mentais são fenômenos de tamanha complexidade que admitem diferentes enquadramentos conceituais — genogênicos, quimiogênicos ou psicogênicos — sem que estes sejam necessariamente excludentes. Conforme pontuado por Watzlawick (1963), a exposição a situações estressantes ou paradoxais não é inerentemente patogênica, uma vez que a maioria das pessoas é capaz de adaptar-se a paradoxos relacionais sem desenvolver quadros de esquizofrenia.

Portanto, a TDV é mobilizada nesta análise não como uma explicação etiológica para a 'origem' da psicose de David, mas como um dispositivo interpretativo focado na identificação de padrões sequenciais característicos. O objetivo é compreender como o indivíduo, capturado em um universo de mensagens contraditórias, desenvolve hábitos comunicativos que são, em última instância, 'apropriados' ou lógicos dentro daquele campo específico. Essa perspectiva substitui a busca por um 'culpado' isolado pela análise de um sistema de retroalimentação (feedback) que aprisiona ambas as partes em um impasse comunicacional, deslocando o foco da patologia individual para a funcionalidade do comportamento no campo relacional. Ao reconhecermos que o sofrimento emerge na relação mútua com o ambiente, abrimos caminho para a perspectiva gestáltica.

A psicose na Gestalt-terapia: do déficit ao ajustamento criador

Sob o prisma da Gestalt-terapia, a psicopatologia é compreendida como um fenômeno eminentemente relacional (Carvalho & Costa, 2010). O contato é inevitável; a existência constitui-se permanentemente em relação. A saúde, portanto, reside na fluidez da fronteira de contato: o espaço onde o self se encontra com a alteridade (Alvim, 2019). Nos ajustamentos do tipo psicótico, a awareness compromete-se diante de um campo percebido como aniquilador. A psicose emerge como um ‘ajustamento de isolamento social’, uma tentativa desesperada de preservação organísmica em um campo insustentável (Belmino & Lima Neto, 2022).

A compreensão gestáltica da psicose afasta-se radicalmente das visões psiquiátricas tradicionais que a reduzem a um déficit cognitivo ou a uma falha biológica. Conforme destacam Santos Filho e Costa (2016), os sinais e sintomas ditos psicóticos são compreendidos como vivências autênticas e genuínas no campo da intersubjetividade. Sob a ótica de Perls, Hefferline e Goodman (1951/1997), a psicose é um ajustamento criador, uma tentativa do organismo de responder a um campo relacional insuportável ou demandante (Quinhones & Quinhones, 2018).

Dessa forma, é fundamental diferenciar o "surto psicótico" do "ajustamento psicótico" propriamente dito: enquanto o surto é o estado aflitivo de quem não encontra nos laços sociais condições para se ajustar, o ajustamento representa um esforço socialmente integrado de organização dos excitamentos. O termo "ajustamento criador" descreve, então, a ação do self operando no modo ego para criar, a partir do que é dado na fronteira de contato, aquilo que o organismo não pôde reter devido ao comprometimento da função id (Müller-Granzotto & Müller-Granzotto, 2008; Silva, 2018).

A experiência de David pode ser compreendida como um ajustamento criativo na medida em que, diante de um ambiente familiar opressor e de mensagens paradoxais, ele desenvolve modos singulares de organizar sua experiência e de se relacionar com o mundo. Como destaca Bomfim (2026), a autorregulação é um processo dinâmico e situado; a saúde não reside em uma estabilidade previsível, mas na capacidade do organismo de produzir respostas novas e adequadas ao campo presente. Na infância, o ajustamento de David manifesta-se através de uma introjeção defensiva das exigências paternas, onde ele ‘engole’ a pressão para ser perfeito como forma de garantir o pertencimento e a sobrevivência afetiva. O colapso de David após a execução do Concerto para Piano Número 3 de Rachmaninoff não deve ser lido como uma ‘quebra’ aleatória, mas como o limite desse ajustamento: quando o campo excede a capacidade de suporte do organismo, a catatonia surge como uma interrupção total e autopreservativa do contato.

O ajustamento criativo, portanto, não é a ausência de sofrimento, mas a capacidade de encontrar saídas e reorganizações diante de impasses existenciais, revelando a potência inerente ao organismo de se autorregular e de buscar o contato pleno. Autores contemporâneos como Ribeiro (2020) e Frazão (2023) têm aprofundado a discussão sobre o ajustamento criativo em contextos de sofrimento psíquico grave, enfatizando a importância de reconhecer a funcionalidade e a singularidade dessas respostas.

Teoricamente, a psicose é descrita como uma perda das funções do self, especialmente da função id e da função ego. Na função id, o fundo da experiência: as sensações corporais, os desejos e as necessidades básicas, torna-se fragmentado ou inacessível, impossibilitando que o self se apoie em um fundo seguro para o contato (Silva, 2018). David, ao ser bombardeado por introjetos paternos (“você tem de ser o melhor”, “a vida é cruel”), perde a capacidade de discriminar suas próprias necessidades organísmicas. O ajustamento psicótico, então, opera como uma manobra de isolamento: ao fragmentar a awareness, o sujeito protege o núcleo do self de um ambiente que se tornou invasivo e invalidante (Barros, 2021).

Nesse cenário, a esquizofrenia é compreendida como uma “tentativa de diálogo que não obteve resposta” (Santos Filho & Costa, 2016, p. 30), na qual o afastamento do mundo exterior opera como uma estratégia de continuidade existencial diante de um campo percebido como invasivo ou insustentável. A psicose, portanto, apresenta uma lógica existencial própria: constitui uma tentativa extrema de preservação subjetiva em contextos nos quais o contato genuíno foi proibido, invalidado ou pervertido (Silva, 2018).

 Em David, esse processo manifesta-se por meio de interrupções crônicas do contato, especialmente a deflexão e a dessensibilização. A deflexão, entendida como o evitamento do contato sem uma direção clara (Oliveira, Oliveira & Lobato, 2017), é observada em seu discurso acelerado e ecolálico, que desvia a energia do encontro para um fluxo contínuo de palavras que pouco favorece a intimidade (Quinhones & Quinhones, 2018). Já a dessensibilização, caracterizada pelo entorpecimento e pela diminuição da percepção corporal diante do contato (Oliveira, Oliveira & Lobato, 2017), atua como um anestésico emocional que lhe permite sobreviver ao ambiente asilar e aos eletrochoques sem ser completamente aniquilado pela dor.

Paralelamente, seus recursos existenciais, especialmente a música, tornam-se fundamentais para a sustentação de sua integridade subjetiva. Mais do que uma habilidade técnica, a música constitui um território existencial que lhe possibilita um saber sensível sobre si mesmo e preserva seu potencial de autoatualização mesmo durante a institucionalização. Quando os vínculos humanos falham ou se tornam ameaçadores, é por meio dela que David encontra condições para manter algum nível de contato consigo e com o mundo, evidenciando o caráter criativo e autorregulador de seus modos de ajustamento.

A arte como território existencial e reorganização do contato

A discussão sobre a institucionalização de David Helfgott em Shine ganha densidade ao dialogar com a obra de Goffman (1961/2001), que descreve o hospital psiquiátrico como uma “instituição total” capaz de produzir a “mortificação do eu” (Sampaio, 2020). No filme, esse processo manifesta-se pelo isolamento de David e pela ruptura de vínculos significativos, especialmente quando lhe são retirados tanto o convívio social quanto a possibilidade de exercer livremente sua relação com a música. Sua singularidade passa a ser subordinada à lógica asilar, evidenciando os efeitos subjetivos de práticas centradas na tutela e no controle. Essa leitura torna-se ainda mais fecunda quando articulada aos pressupostos da Reforma Psiquiátrica e da atenção psicossocial, que propõem modelos de cuidado orientados pela cidadania, pela autonomia e pela construção de redes de suporte capazes de reconhecer o sujeito para além do diagnóstico.

Nesse sentido, as contribuições de Amarante (2020) e Lancetti (2021) permitem compreender a trajetória de David como expressão de uma tensão entre dois paradigmas de cuidado em saúde mental. Enquanto a institucionalização produz isolamento e empobrecimento das possibilidades de contato, a atenção psicossocial aposta na circulação pelos espaços da vida cotidiana e na construção de territórios existenciais capazes de sustentar novos modos de ser. A saída de David dos muros do hospital e sua reinserção em ambientes comunitários, como o bar onde volta a tocar, podem ser compreendidas como movimentos de desinstitucionalização subjetiva, nos quais a vida recupera sua potência criadora fora da lógica de custódia. Nessa perspectiva, a música deixa de representar apenas uma exigência de desempenho ou uma projeção das expectativas paternas para tornar-se um recurso de reconexão consigo mesmo e com o mundo.

É justamente nesse ponto que a arte assume um papel central na narrativa. Após anos de silenciamento e exclusão, a música ressurge não apenas como técnica ou performance, mas como um território existencial capaz de reorganizar a experiência subjetiva. Essa compreensão aproxima-se das contribuições de Nise da Silveira (1992), para quem as atividades criadoras constituem importantes vias de expressão e reorganização psíquica. Sob a perspectiva gestáltica, a experiência artística não se restringe a uma atividade individual, mas emerge na fronteira de contato entre organismo e ambiente, constituindo-se como um acontecimento relacional. Conforme Zinker (1977/2007), a criatividade é uma função fundamental do self, responsável pela produção de respostas inéditas diante das demandas do campo. A arte amplia a awareness ao favorecer novas formas de percepção, simbolização e expressão da experiência vivida.

No percurso de David, a música não apenas organiza experiências fragmentadas, mas também cria condições para o reencontro com o outro. Ao voltar a tocar, ele realiza um novo ajustamento criativo, agora orientado para a retomada do contato social e da expressividade. A relação construída com Gillian, bem como sua inserção em novos espaços de convivência, favorece experiências de reconhecimento, pertencimento e acolhimento que ampliam suas possibilidades de participação no mundo. Mais do que restaurar capacidades previamente comprometidas, a atividade artística possibilita a construção de novos modos de existência, fortalecendo vínculos e produzindo sentidos renovados para a experiência do sofrimento psíquico (Leite, 2016; Schenkel et al., 2022).

À luz de Goffman (1961/2001), esse percurso pode ser compreendido como uma passagem da mortificação do eu para formas mais espontâneas e relacionais de existência. A reconstrução dos vínculos afetivos, a retomada da autonomia e a reinserção em espaços sociais demonstram que a saúde mental não se reduz à ausência de sintomas, mas envolve a capacidade de criar e recriar-se continuamente no mundo. Assim, a trajetória de David evidencia o potencial da arte como mediadora de processos de reorganização do contato, produção de subjetividade e desinstitucionalização, reafirmando a importância de práticas de cuidado comprometidas com a liberdade, a singularidade e a potência criadora da experiência humana.

Considerações Finais

A análise da trajetória de David Helfgott em Shine (1996) convida a uma reflexão profunda sobre o manejo clínico e social do sofrimento psíquico grave. Para além da síntese biográfica, este estudo evidencia que a marginalização e o estigma frequentemente decorrem de um campo que não compreende ou respeita a singularidade de um ajustamento diferenciado. David, cindido entre a lealdade familiar e a realização artística, acabou isolado em um hospital psiquiátrico que, ao privá-lo de seu instrumento, interrompeu o contato com as duas relações fundantes de sua existência: a música e a família. Sob uma lógica asilar que buscava a “cura” pela supressão do comportamento, o sistema agravou o sofrimento ao desconsiderar a lógica existencial do sintoma.

Este trabalho contribui significativamente para a Gestalt-terapia ao aprofundar a compreensão do ajustamento psicótico não como um déficit cognitivo ou falha biológica, mas como uma forma criativa e singular de ser-no-mundo. Ao deslocar o olhar do indivíduo para o campo organismo-ambiente, a abordagem reafirma a potência da clínica fenomenológica em enxergar a funcionalidade do sintoma, priorizando o respeito à dignidade humana mesmo diante de formas intensas de desorganização da awareness.

Para a compreensão fenomenológica da psicose, o estudo oferece uma análise de como as dinâmicas relacionais, como as mensagens paradoxais do duplo-vínculo, moldam a experiência subjetiva. Demonstra-se que o colapso do personagem não foi um rompimento aleatório, mas uma resposta subjetivamente possível diante de um campo que excedia sua capacidade de suporte. Assim, a psicose é lida como um esforço de preservação organísmica em um cenário de invasão e invalidade.

No âmbito dos debates contemporâneos em saúde mental, o artigo propõe uma reflexão crítica sobre a institucionalização e o papel da arte como vetor de desinstitucionalização subjetiva. Alinhando-se aos princípios da Reforma Psiquiátrica e da atenção psicossocial, a análise demonstra que a música funcionou para David como um território existencial capaz de produzir novos sentidos para a vida em liberdade.

Por fim, é imperativo reconhecer as limitações inerentes à análise de uma obra cinematográfica. Embora Shine seja rico em simbolismos, a interpretação fílmica é uma leitura de representações e não substitui a complexidade ética e clínica de casos reais. Investigações futuras poderiam explorar a aplicação desses conceitos em estudos de caso clínicos longitudinais ou pesquisas empíricas sobre o impacto de dispositivos culturais na saúde mental. Cabe, ainda, aprofundar a discussão sobre a ética da representação midiática da loucura e os desafios práticos da despatologização nos serviços de rede. Como legado, esta análise reafirma que a saúde reside na capacidade de criar e recriar-se no mundo, independentemente das sombras de um diagnóstico.

Referências:

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Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526