ARTIGO
Perspectivas fenomenológicas sobre o sofrimento psíquico na contemporaneidade
Phenomenological Perspectives on Psychological Suffering in Contemporary Society
Jeniffer Ferreira-Costa
Luana Cristina Campi Mariotti
Dante Ogassavara
Thais da Silva-Ferreira
José Maria Montiel
Universidade São Judas Tadeu
Larissa Fernandes Camargo
Universidade Cruzeiro do Sul
Resumo
Diante das exigências de produtividade e autossuperação em uma sociedade do desempenho, nota-se que o sofrimento é intrapsíquico e perpassa os modos de existência. Com isso, o presente estudo teve como objetivo analisar o sofrimento psíquico na contemporaneidade a partir de perspectivas fenomenológicas. Consistiu em uma pesquisa qualitativa e descritiva, caracterizada como revisão narrativa da literatura. Observou-se que fenômenos como o desenvolvimento de sintomatologia depressiva e burnout interligam-se a uma responsabilização individual, a qual pode gerar sentimentos de inadequação e vazio. Sob a luz das perspectivas fenomenológicas, percebe-se a importância da experiência vivida, do contato e da subjetividade, sobretudo no enfoque de intervenções que ampliem as possibilidades do ser, favoreçam a presença e resgatem o sentido, contrapondo-se à lógica produtivista contemporânea.
Palavras-chave: Angústia Psicológica; Esgotamento Psicológico; Desenvolvimento Humano.
Abstract
Given the demands for productivity and self-improvement in a performance-oriented society, it is evident that suffering is intrapsychic and permeates all modes of existence. Consequently, the present study aimed to analyze psychological suffering in contemporary society from phenomenological perspectives. It consisted of qualitative and descriptive research and was characterized as a narrative literature review. It was observed that phenomena such as the development of depressive symptoms and burnout are linked to individual accountability, which can generate feelings of inadequacy and emptiness. In light of phenomenological perspectives, the importance of lived experience, contact, and subjective experience becomes apparent, particularly in interventions that expand the possibilities of being, foster presence, and restore meaning, in contrast to contemporary productivist logic.
Keywords: Psychological Distress; Burnout, Psychological; Human Development.
Introdução
A compreensão do sofrimento psíquico na contemporaneidade exige o deslocamento de modelos explicativos centrados exclusivamente na dimensão intrapsíquica para abordagens que considerem as transformações socioculturais e econômicas que atravessam a constituição da subjetividade. Dessa forma, problematiza-se o advento de uma sociedade marcada pelo excesso de positividade, na qual o sujeito deixa de ser coagido por forças externas e passa a se autogerir sob imperativos de desempenho, produtividade e otimização contínua (Han, 2019).
De início, é importante considerar que a saúde coletiva é condicionada por uma rede multifatorial de causas, que abrange fatores hereditários, características do entorno imediato das populações e macrodeterminantes sociais da saúde. Neste ordenamento, aventa-se que a conjuntura social em que os indivíduos se situam é marcada por fatores protetivos e fatores de risco para a saúde, abrangendo elementos concretos, como a existência de dispositivos assistenciais, e abstratos, representados pelas atribuições culturais dos grupos (Ferreira-Costa et al., 2023). Parte-se da premissa de que cada período histórico apresenta formas específicas de adoecimento. Na contemporaneidade, tais sofrimentos têm sido frequentemente interpretados como alterações de natureza neuroquímica; no entanto, podem compreender efeitos de uma “violência neuronal”, que não se refere a aspectos fisiológicos, mas à forma como o sujeito se relaciona com as exigências sociais, marcadas pelo excesso de positividade, pela autocobrança e pela autoexploração material e simbólica. Nesse contexto, manifestações como depressão, burnout e transtornos de atenção são analisadas em estreita articulação com a lógica do capitalismo contemporâneo (Corbanezi, 2018).
Diante desse cenário, a compreensão do sofrimento psíquico não pode restringir-se à descrição de sintomas isolados, devendo considerar os modos pelos quais ele se apresenta e é singularizado no campo da experiência. Sob essa perspectiva, Dunker (2004) argumenta que o sofrimento psíquico é constituído como um processo de subjetivação, no qual o mal-estar adquire forma por meio de sua inscrição discursiva, articulando dimensões universais da condição humana às particularidades históricas e simbólicas do sujeito.
Diante dos vetores sociais que participam da formação de conjunturas assistenciais e de bem-estar da população, torna-se relevante ampliar os modelos teóricos que buscam compreender o sofrimento psíquico, considerando sua articulação com as dinâmicas socioculturais. Assim, este estudo objetivou discutir os fatores que configuram o sofrimento contemporâneo, especialmente no que se refere ao esgotamento e ao empobrecimento da experiência, à luz das contribuições da fenomenologia, da Gestalt-terapia e das reflexões críticas acerca da sociedade do desempenho.
Adotou-se um delineamento de pesquisa qualitativo e descritivo. Nestes moldes, propôs-se a coleta de dados em um único recorte temporal, com o intuito de descrever e interpretar o estado das variáveis, sem qualquer forma de controle ou manipulação delas (Campos, 2019).
No que se refere aos procedimentos de coleta e análise de dados, o estudo caracterizou-se como uma revisão narrativa da literatura, com estratégia de análise interpretativa e crítica do fenômeno investigado, permitindo a articulação entre diferentes referenciais teóricos e a construção de uma compreensão ampliada do sofrimento psíquico na contemporaneidade (Creswell, 2007). Vale mencionar que a revisão narrativa é um modelo investigativo oportuno por sintetizar, de forma breve e panorâmica, as contribuições previamente dispostas na literatura, de modo a permitir a atualização de profissionais com economia de esforço na captação e seleção de materiais relevantes (Rother, 2007). Ainda, a revisão narrativa expressa as compreensões historicamente situadas acerca de um objeto de estudo, podendo ser retratada como um marco temporal de determinado campo (Ferrari, 2015). Ao aproveitar materiais bibliográficos existentes, promove-se a eficiência da prática científica ao ampliar as discussões a partir de dados previamente coletados, viabilizando a concepção de novas inferências (Ogassavara et al., 2025).
A busca de materiais foi realizada entre os meses de fevereiro e abril de 2026, por meio das plataformas de busca Google Acadêmico, SciELO e PubMed. Utilizaram-se os descritores “sofrimento psíquico”, “cansaço” e “subjetividade”, em português e inglês, combinados de diferentes formas. Enquanto critérios de inclusão e exclusão, foram incluídos artigos publicados em periódicos científicos, livros por sua relevância para a discussão proposta. Não foi estabelecido um recorte temporal para a seleção das obras, de modo a contemplar tanto produções clássicas quanto contemporâneas, reconhecendo a importância de referenciais teóricos fundamentais para a análise do fenômeno.
A seleção dos materiais foi orientada pela relevância teórica para a compreensão do objeto de estudo, considerando-se produções que discutem a constituição da subjetividade na contemporaneidade e os fenômenos que condicionam o sofrimento psicológico. Nestes moldes, a seleção de materiais não foi limitada pelo arcabouço teórico que sustenta as análises, permitindo a inclusão de produções que dialogam com a fenomenologia, a filosofia contemporânea e a psicologia clínica.
O sofrimento psíquico na contemporaneidade não é retratado como um fenômeno restrito à dimensão intrapsíquica, mas como expressão de um modo de existência constituído na interface entre sujeito e contexto sociocultural. Evidenciou-se que o esgotamento ultrapassa a condição de sintoma isolado e se configura como uma forma de existência característica da contemporaneidade. Inserido em uma lógica orientada pelo desempenho, o sujeito é continuamente convocado à produtividade, à iniciativa e à superação de si, em um movimento que não admite interrupção. Nesse modelo sociocultural, orientado pela valorização da produtividade e da autossuperação, o sujeito encontra-se inserido em uma dinâmica de autoexploração, na qual se torna simultaneamente agente e alvo das exigências que o atravessam (Han, 2019).
Diferentemente da sociedade disciplinar descrita por Foucault (2014), na qual o poder operava predominantemente por meio da proibição, da vigilância e da normatização institucional, atualmente observa-se a emergência de formas mais difusas e internalizadas de controle, nas quais o sujeito assume para si a responsabilidade por seu sucesso e fracasso, incorporando lógicas de autoperformance e desempenho. Como sugere Queiroz (2018), os fenômenos neoliberais não se restringem aos efeitos sobre o sistema econômico; há também um componente racional que organiza modelos relacionais interpessoais e intrapessoais, explicitado quando o trabalhador se reconhece como uma “empresa de si mesmo”.
Safatle (2015) sugere que o sofrimento contemporâneo está profundamente ligado à internalização das exigências sociais e à responsabilização individual pelos fracassos. Tal dinâmica implica um enfraquecimento da alteridade, isto é, da abertura ao outro, na medida em que o sujeito passa a se orientar por parâmetros internalizados que limitam sua relação com o outro e com o mundo, aspectos fundamentais da existência. Nesse cenário, o fracasso deixa de ser interpretado como efeito de condições estruturais e passa a ser vivenciado como insuficiência pessoal, produzindo experiências recorrentes de inadequação, culpa e autodesvalorização.
Destaca-se ainda que um dos eixos centrais se refere à transformação das formas de violência, que deixam de operar predominantemente a partir de imposições externas e passam a se manifestar de maneira internalizada. Han (2019) aponta que, nesse cenário, desaparecem as fronteiras entre explorador e explorado, evidenciando uma reorganização das formas de sofrimento. Em diálogo com essa perspectiva, Lazzarato (2014) destaca que o sujeito é convocado a gerir a si mesmo como um projeto contínuo de otimização.
Conforme proposto por Han (2019), a sociedade do desempenho institui um regime no qual o excesso, e não a falta, torna-se o principal fator de sofrimento. Nessa mesma direção, Ehrenberg (2004) compreende a depressão como uma patologia da autonomia, associada à incapacidade de corresponder às exigências de autossuficiência impostas socialmente. Além disso, é destacado a aceleração social intensifica a experiência de sobrecarga e esgotamento, contribuindo para a perda de sentido nas experiências cotidianas. Dessa forma, propõe-se compreender o esgotamento não apenas como um quadro clínico, mas como expressão de um modo de ser-no-mundo marcado pela intensificação das exigências e pela ausência de pausas estruturantes.
O arcabouço teórico da Gestalt-terapia enfatiza a importância do contato e da awareness na constituição da experiência. Nessa abordagem, o sofrimento psíquico é compreendido como expressão de dificuldades nos processos de contato, nos quais o sujeito encontra limitações para estabelecer relações significativas consigo mesmo, com o outro e com o ambiente. Nesse sentido, a experiência de vazio e insuficiência, frequentemente descrita na contemporaneidade, pode ser interpretada como um empobrecimento da presença e da capacidade de sustentação da experiência, resultando em formas de existência marcadas pela dispersão e pela fragilidade do contato com o mundo (Perls, Hefferline, & Goodman, 1997; Yontef, 1998).
Amaral e Campos (2016) aventam a ocorrência de uma transformação dos referenciais simbólicos que orientavam a existência humana, resultando na intensificação da individualidade e na centralidade da performance de si. Compreende-se esse cenário como uma expressão de uma cultura do narcisismo e de uma sociedade do espetáculo, nas quais a aparência assume primazia sobre outras formas de constituição subjetiva. Aprofundando essa análise, Han (2019) problematiza a noção de liberdade na contemporaneidade ao indicar que, na sociedade do desempenho, ela assume uma forma paradoxal, na qual o sujeito se submete voluntariamente às exigências de maximização de si. Nesse contexto, a liberdade deixa de se configurar como ausência de coerção externa e passa a operar como uma coerção internalizada, tornando indistintas as posições de explorador e explorado.
É aventado que tal dinâmica seja associada ao predomínio da positividade ao instigar a eliminação da negatividade necessária à experiência de limite, contribuindo para a emergência de formas específicas de sofrimento psíquico, como a depressão, marcada pela autoacusação e pela sensação de insuficiência. A fragilização de referenciais tradicionalmente organizadores do sujeito contribui para a produção de experiências de desamparo e para a dificuldade de sustentação da alteridade, favorecendo formas de sofrimento indicadas pelo fechamento em si mesmo e pela necessidade de corresponder a ideais de desempenho. Tal perspectiva reforça a articulação entre processos subjetivos e dinâmicas socioculturais na compreensão do sofrimento psíquico na contemporaneidade (Amaral & Campos, 2016).
Essa configuração evidencia a emergência de formas específicas de sofrimento psíquico. Além da descrição sintomatológica (Dalgalarrondo, 2008), quadros clínicos que apresentam sintomatologia depressiva, por exemplo, podem ser compreendidos como expressões de um mal-estar social mais amplo, relacionado às exigências de autonomia e desempenho, quando analisados sob um viés fenomenológico e em consonância com os aspectos mais amplos desse arcabouço teórico. Nesse contexto, mais do que um conjunto de sintomas isolados, tais manifestações podem ser interpretadas como expressões de um modo de existência marcado pela redução da vitalidade, pela dificuldade de engajamento com o mundo e pelo enfraquecimento das experiências de sentido, aproximando-se das discussões que situam o sofrimento psíquico no contexto da sociedade do desempenho e do esgotamento.
No campo das relações de trabalho, as formas contemporâneas de organização laboral produzem modalidades específicas de sofrimento psíquico, frequentemente invisibilizadas por discursos que exaltam a produtividade e o desempenho. Nesse cenário, o sujeito é continuamente convocado a investir em sua própria performance, o que favorece a intensificação de processos de esgotamento. Nisto, a fenomenologia oferece um importante aporte teórico ao deslocar o foco da análise para a experiência vivida. A partir de Heidegger (2005), o sofrimento pode ser compreendido como um modo de ser-no-mundo definido pelo afastamento da experiência autêntica. Na existência orientada pela impessoalidade, o sujeito tende a afastar-se de sua singularidade, passando a operar segundo expectativas socialmente instituídas. O esgotamento, nesse sentido, evidencia uma ruptura na possibilidade de apropriação autêntica da própria existência.
De modo complementar, Merleau-Ponty (2011) destaca que a experiência humana se constitui na relação encarnada entre sujeito e mundo, sendo comprometida pela aceleração e pela fragmentação contemporâneas. Essa perspectiva encontra ressonância na obra de Ehrenberg (2004), que interpreta a depressão como uma patologia da autonomia, resultante da incapacidade de corresponder às expectativas de autossuficiência e realização individual impostas socialmente. Também Sartre (2007), destaca que a liberdade constitui uma dimensão fundamental da existência humana; no entanto, ela pode ser obscurecida quando o indivíduo se fixa em modos de ser que restringem sua capacidade de escolha. Com isso, a aparente autonomia revela-se paradoxal, pois, ao invés de ampliar horizontes, intensifica processos de autovigilância e autocobrança. O sofrimento, portanto, não se configura como resultado de imposições externas evidentes, mas emerge da adesão a exigências internalizadas que passam a operar como se fossem expressão da própria vontade.
A partir dos pressupostos filosóficos de Merleau-Ponty (2011), entende-se que o sofrimento contemporâneo está associado a um empobrecimento da experiência vivida, caracterizado pela fragmentação, pela aceleração e pela dificuldade de atribuição de sentido. Dessa forma, a experiência constitui-se na relação encarnada entre sujeito e mundo; entretanto, a intensificação dos estímulos compromete essa relação. De modo complementar, Crary (2013) argumenta que o capitalismo contemporâneo promove uma captura contínua da atenção, reduzindo as possibilidades de pausa e contemplação. Em diálogo com Heidegger (2005), esse processo pode ser compreendido como afastamento da existência autêntica, no qual o sujeito passa a operar segundo expectativas impessoais. O sofrimento manifesta-se, assim, como experiência de vazio e descontinuidade, evidenciando uma ruptura na relação do sujeito com o mundo.
Apesar do cenário apresentado, a análise indica que o sofrimento contemporâneo não se configura como um processo fechado, sendo possível identificar movimentos de resistência às dinâmicas que o sustentam. Tais movimentos não se apresentam como soluções imediatas, mas como deslocamentos na forma como o sujeito se relaciona consigo mesmo, com o outro e com o mundo. Nesse sentido, como assinala Safatle (2015), a experiência do sofrimento pode também abrir possibilidades de reorganização subjetiva, ao evidenciar os limites dos modos de vida sustentados pelas exigências normativas contemporâneas.
Sob uma perspectiva fenomenológica, a retomada da atenção à experiência vivida e a possibilidade de sustentação da presença configuram-se como condições fundamentais para a rearticulação do sentido. Conforme Heidegger (2005), a existência humana se constitui na abertura ao mundo, sendo a perda dessa abertura um dos elementos centrais do empobrecimento da experiência. De modo complementar, Merleau-Ponty (2011) destaca que a experiência se organiza na relação encarnada com o mundo, o que implica reconhecer que a fragmentação contemporânea compromete não apenas o pensamento, mas a própria forma de estar presente na realidade.
Retomando a Gestalt-terapia, esse empobrecimento da experiência pode ser compreendido como um enfraquecimento dos processos de contato, nos quais o sujeito perde a capacidade de sustentar uma relação fluida e integrada com o ambiente. Conforme Ribeiro (2007), o sofrimento emerge quando há bloqueios no ciclo do contato, comprometendo a possibilidade de assimilação da experiência e de ajustamento criativo. Nessa perspectiva, a fragmentação, a aceleração e a intensificação das exigências contemporâneas dificultam a formação de figuras claras na experiência, favorecendo estados de dispersão e esvaziamento. O sujeito, assim, permanece em contato superficial com o mundo, sem conseguir integrar plenamente suas vivências, o que contribui para a manutenção do sofrimento.
É oportuno destacar que as experiências que escapam à lógica produtivista, como a pausa, a contemplação e o encontro, podem favorecer a ampliação da consciência e a reorganização do campo experiencial. Autores como Crary (2013) apontam que a captura contínua da atenção nas sociedades contemporâneas reduz drasticamente as possibilidades de suspensão e reflexão, tornando tais experiências não apenas desejáveis, mas necessárias à preservação da própria experiência subjetiva. Como desdobramento, a construção de vínculos e a inserção em experiências compartilhadas assumem relevância na medida em que ampliam as possibilidades de relação com o mundo. Estudos indicam que a presença de redes de apoio e o engajamento em práticas coletivas associam-se a melhores indicadores de bem-estar e menor incidência de sofrimento psíquico (Barroso & Oliveira, 2019). Para além de sua função protetiva, tais experiências podem ser compreendidas, à luz da fenomenologia, como modos de reabertura ao mundo, favorecendo o restabelecimento do contato e da experiência relacional.
Nesse sentido, o sofrimento psíquico na contemporaneidade pode ser compreendido não apenas como manifestação sintomatológica, mas como expressão de um modo de existência marcado pela autoexploração, pelo empobrecimento da experiência e pela fragilidade do contato com o mundo. À luz da Gestalt-terapia, tal sofrimento pode ser entendido como decorrente de interrupções nos processos de contato, que comprometem a capacidade do sujeito de estabelecer relações significativas e de sustentar sua experiência no presente (Perls, Hefferline, & Goodman, 1997; Yontef, 1998). Essa configuração evidencia que, diante da intensificação das exigências de desempenho, torna-se necessária a retomada do olhar para si, compreendida como ampliação da awareness e da presença no aqui e agora. Conforme Ribeiro (2007), a retomada da fluidez do contato constitui condição fundamental para a reorganização da experiência e para a construção de formas mais integradas de existência.
A partir dessas considerações, as implicações clínicas deste estudo apontam para a necessidade de intervenções que ultrapassem a compreensão sintomatológica do sofrimento psíquico, voltando-se para a reconstrução da relação do sujeito com sua experiência. No âmbito da Gestalt-terapia, isso implica favorecer a ampliação da awareness, o fortalecimento do contato e a possibilidade de sustentação da experiência no aqui e agora, possibilitando que o sujeito reconheça e ressignifique seus modos de funcionamento diante das exigências contemporâneas. Tais intervenções envolvem a criação de espaços clínicos que possibilitem a desaceleração, a ampliação da presença e a retomada do sentido, contrapondo-se à lógica de desempenho e produtividade. Nesse contexto, o trabalho terapêutico volta-se para a reintegração da experiência, favorecendo formas mais autênticas de relação consigo, com o outro e com o mundo, contribuindo para a construção de modos de existência menos pautados pela autoexploração e mais orientados pela possibilidade de escolha e de contato.
Ao versar sobre os vetores que determinam a qualidade de vida da população, deve-se reconhecer a influência de fatores contextuais sobre as condições de vida e suas repercussões na percepção de si e do mundo. Dentre esses fatores, indica-se que os fenômenos culturais que permeiam os meios sociais moldam as possibilidades de vivência, estabelecendo modelos relacionais interpessoais e intrapessoais. Considerar os mecanismos de introjeção da cultura é oportuno, pois reafirma que a participação nas operações sociais é o meio pelo qual assimilamos e reproduzimos atribuições culturais, contribuindo para a produção da própria cultura.
Diante disso, ressalta-se que diferentes vertentes teóricas que compõem a fenomenologia auxiliam na compreensão do sofrimento psíquico contemporâneo a partir de múltiplas perspectivas. Compreender as peculiaridades ou especificidades do funcionamento humano pode favorecer as possibilidades de intervenção voltadas à promoção da saúde mental.
Ainda, entende-se que a vida contemporânea é marcada por diferentes movimentos que favorecem o estabelecimento de quadros de sofrimento, sobretudo no que tange aos contextos sociais de individualismo, que instigam a responsabilização individual e desconsideram condições comuns a determinados estratos e categorias sociais. Considera-se que a fenomenologia é uma abordagem compreensiva para estudar expressões da realidade, capaz de ampliar o entendimento sobre a vivência de diferentes fenômenos e sobre a composição das conjunturas sociais, tendo em vista a atribuição de significados sobre si no mundo. Em estudos futuros, fomenta-se a importância de aprofundar as discussões dispostas. Incluindo a realização de estudos empíricos a fim de investigar como sujeitos de diferentes contextos sociais, culturais e laborais vivenciam as exigências de desempenho, a autoexploração e o empobrecimento da experiência, compreender a atribuição de sentido e o sofrimento psíquico em distintos grupos e contextos.
Referências
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Revista IGT na Rede, v. 23, no 45, 2026, p.1-19 DOI 10.5281/zenodo.22919616
Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526