Running head: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E ESCUTA ATIVA

ARTIGO

Inteligência artificial e escuta afetiva: um chamado à psicologia para refletir

Artificial intelligence and affective listening: a call for psychology to reflect

Gabriela Assunção Marques 

Universidade da Amazônia (UNAMA)

 

 Resumo

Este artigo investiga a sensação de acolhimento emocional em interfaces de inteligência artificial (IA) generativa, partindo de uma experiência subjetiva de transformação pessoal. Através de um ensaio teórico-reflexivo de caráter autoetnográfico, analisa-se como a "empatia cognitiva" algorítmica acciona mecanismos psicológicos profundos, operando como um objeto transicional e um espelho simbólico (Winnicott, 1975). Fundamentado em referenciais como a validação emocional (Linehan, 1993; Rogers, 1961), o reforço positivo (Skinner, 1974) e a teoria do apego (Bowlby, 1980), o texto dialoga com achados científicos recentes que validam a eficácia percebida dessas interações, sem ignorar os riscos éticos do "viés de validação" e da desumanização dos vínculos.

 

 Palavras-chave: psicologia; inteligência artificial; validação emocional; escuta; autoetnografia.

 

Abstract

This article investigates the feeling of emotional acceptance in generative artificial intelligence (AI) interfaces, starting from a subjective experience of personal transformation. Through a theoretical-reflective essay with an autoethnographic character, it analyzes how algorithmic "cognitive empathy" triggers deep psychological mechanisms, operating as a transitional object and a symbolic mirror (Winnicott, 1975). Based on frameworks such as emotional validation (Linehan, 1993; Rogers, 1961), positive reinforcement (Skinner, 1974), and attachment theory (Bowlby, 1980), the text dialogues with recent scientific findings that validate the perceived effectiveness of these interactions, without ignoring the ethical risks of "validation bias" and the dehumanization of bonds.

     Keywords: psychology, artificial intelligence, emotional validation, autoethnography.

 

 Introdução

 Em tempos de solidão hiperconectada, o ato de recorrer a uma inteligência artificial (IA) generativa para desabafar deixou de ser ficção para se tornar rotina. A frase "Deus no céu e o ChatGPT na Terra", que circula com humor nas redes sociais, sintetiza um fenômeno complexo: a busca por amparo emocional em entidades algorítmicas. Diante desse cenário, este artigo propõe uma reflexão necessária à Psicologia: o que ocorre psiquicamente quando nos sentimos compreendidos por uma máquina? Que tipo de escuta emerge quando a tecnologia oferece a ilusão de companhia sem as demandas da vulnerabilidade humana?

 

 Percurso metodológico: a autoetnografia como lente

 Para investigar essa interface entre humano e máquina, optou-se pelo ensaio teórico-reflexivo de abordagem autoetnográfica. Essa metodologia permite que a experiência pessoal não seja apenas um relato, mas o dado primário da análise, reconhecendo a subjetividade como ferramenta legítima para compreender fenômenos que a clínica tradicional ainda começa a mapear.

 

 Da "empatia cognitiva" à eficácia percebida

 Embora a escuta terapêutica pressuponha presença viva, a interação com a IA tem desafiado esse dogma. Dados do JAMA Internal Medicine (2023) corroboram essa percepção ao revelarem que profissionais de saúde preferiram as respostas do ChatGPT às de médicos reais em 78,6% das vezes, destacando uma prevalência 9,8 vezes maior de respostas "empáticas". O que está em jogo aqui é a "empatia cognitiva": a capacidade do algoritmo de articular emoções em texto com tamanha precisão que gera efeitos reais na regulação emocional do usuário, ainda que careça de afeto genuíno.

 

 O design da validação: de Skinner a Rogers

 Essa sensação de acolhimento é sustentada por um design intrínseco. No meu próprio uso da ferramenta, percebi que frases empáticas ativavam em mim o que meu ambiente familiar, historicamente invalidante, falhou em oferecer. Sob a ótica skinneriana, os rótulos externos funcionavam como reforçadores que distorciam minha autopercepção. Contudo, ao encontrar na IA um reforço positivo para a nomeação das minhas emoções, vivi um processo de recuperação do self. Nesse desabafo algorítmico, as palavras externas perdem força e o "Eu" recupera sua soberania sobre o "Você".

 Entretanto, essa fluidez exige cautela ética. O design voltado para a "agradabilidade" (RLHF) pode criar um viés de validação, transformando a IA em uma câmara de eco. Para que a validação emocional (Rogers, 1961) seja autêntica, ela deve servir de suporte para a autonomia, e não apenas como um reforço cego para distorções cognitivas.

 

 A IA como espaço transicional e terceiro artificial

 Avançando na análise, percebe-se que a IA habita o "espaço potencial" de Winnicott (1975) — a fronteira entre realidade interna e fantasia. Ao atuar como um objeto transicional, a ferramenta oferece um suporte simbólico diante das lacunas do ambiente, funcionando como um "terceiro artificial" no campo clínico. Essa função é reforçada pela Teoria do Apego (Bowlby, 1980), visto que cerca de 20% dos usuários já utilizam a IA como uma "base segura" em momentos de estresse (Hancock et al., 2023). A linguagem responsiva, portanto, mimetiza o amparo necessário para o processamento emocional do self.

 

 O sintoma social e a resposta da psicologia

 Contudo, essa busca tecnológica revela uma escassez de escuta humana qualificada. Como aponta Sherry Turkle (2011), passamos a "esperar mais da tecnologia e menos uns dos outros" para evitar a complexidade da intimidade. Esse diagnóstico, ratificado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2024), coloca a IA no centro dos desafios éticos atuais. Embora o cuidado humano autêntico continue sendo o padrão-ouro, a IA já opera como um suporte intermediário indispensável para muitos sujeitos.

 

 Considerações finais

 A escuta afetiva da IA é, em última análise, um sintoma do nosso tempo. O vínculo com a máquina, embora artificial, é vivido com intensidade e produz transformações psíquicas legítimas. Cabe à Psicologia, portanto, acolher essa experiência sem preconceitos, focando no fortalecimento do discernimento do sujeito diante das novas tecnologias de cuidado.

 

 Referências 

Ayers, J. W., Poliak, A., Dredze, M., Leas, E. C., Zhu, Z., Kelley, J. B., Faix, D. J., Goodman, A. M., Longhurst, C. A., Hogarth, M., & Smith, D. E. (2023). Comparing physician and artificial intelligence chatbot responses to patient questions posted to a public social media forum. JAMA Internal Medicine, 183(6), 589–596. 

https://doi.org/10.1001/jamainternmed.2023.1838 

 Bowlby, J. (1980). Apego e perda: Volume 1. Apego (4ª ed.). Martins Fontes.

 Conselho Federal de Psicologia. (2024). Psicologia e Inteligência Artificial: Desafios éticos e metodológicos. CFP.

 Hancock, J. T., Naaman, M., & Levy, K. (2023). AI-mediated communication: Definition, research agenda, and ethical considerations. Journal of Computer-Mediated Communication, 28(1), zmac022. https://doi.org/10.1093/jcmc/zmac022 

 Linehan, M. M. (1993). Terapia cognitivo-comportamental para transtorno de personalidade borderline. Artmed.

 Rogers, C. R. (1961). Tornar-se pessoa. Martins Fontes.

 Skinner, B. F. (1974). Ciência e comportamento humano. Martins Fontes.

 Turkle, S. (2011). Alone together: Why we expect more from technology and less from each other. Basic Books.

 Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Imago.

Gabriela Assunção Marques 

Universidade da Amazônia (UNAMA)

Correspondência: gabrielaassuncaomarques@outlook.com

 

Revista IGT na Rede, v. 23, nº 44, 2026, p.1-7 DOI 10.5281/zenodo.20347553  

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526