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Running head: A TEORIA PROCESSUAL E FENOMENOLÓGICA DO DESENVOLVIMENTO NA GESTALT-TERAPIA

ARTIGO

A teoria processual e fenomenológica do desenvolvimento na Gestalt-terapia

The processual and phenomenological theory of development in gestalt therapy

Leandro de Paulo Bomfim

Universidade Federal de Uberlândia - UFU

RESUMO

As teorias clássicas do desenvolvimento humano organizaram-se em modelos normativos que descrevem estágios sucessivos, como nas propostas de Freud, Erikson e Piaget. Apesar de fornecerem importantes referenciais para compreender a infância e a vida adulta, tais perspectivas tendem a universalizar trajetórias e reduzir a singularidade da experiência. A Gestalt-terapia, por sua vez, não apresenta uma teoria de desenvolvimento linear, mas oferece uma compreensão processual e fenomenológica centrada no self como função emergente do campo organismo–ambiente. Este artigo busca sistematizar essa proposta, mostrando como o desenvolvimento pode ser entendido a partir do contato, do ajustamento criativo e das fronteiras do self: organismo/ambiente, self/outro e personalidade. Defende-se que o crescimento humano, na Gestalt-terapia, não se reduz à adaptação a padrões normativos, mas à ampliação da capacidade de estabelecer contatos significativos, integrando dimensões corporais, relacionais e identitárias da experiência.

Palavras-chave: Gestalt-terapia; desenvolvimento humano; self; contato; ajustamento criativo.

ABSTRACT

Classical theories of human development were organized into normative models describing successive stages, such as those proposed by Freud, Erikson, and Piaget. Although they provided important references for understanding childhood and adulthood, these perspectives tend to universalize life paths and reduce the singularity of experience. Gestalt therapy, in turn, does not present a linear stage-based theory of development but offers a processual and phenomenological understanding centered on the self as an emergent function of the organism–environment field. This article aims to systematize this perspective, showing how development can be understood through contact, creative adjustment, and the boundaries of the self: organism/environment, self/other, and personality. It argues that human growth in Gestalt therapy is not reduced to adaptation to predefined standards but to expanding the capacity to establish meaningful contacts, integrating bodily, relational, and identity experiences.

Keywords: Gestalt therapy; human development; self; contact boundaries; creative adjustment.

INTRODUÇÃO

O campo da psicologia do desenvolvimento é historicamente marcado por teorias normativas que buscam descrever estágios ou fases universais do crescimento humano. Modelos como os de Freud, Piaget e Erikson organizam o desenvolvimento em sequências lineares, associando determinadas conquistas a faixas etárias específicas. Embora tais referenciais tenham fornecido importantes contribuições para a compreensão da infância, adolescência e vida adulta, também foram alvo de críticas por apresentarem um caráter normatizador, que tende a homogeneizar trajetórias individuais e desconsiderar a singularidade das experiências (Philippson, 2002).

A Gestalt-terapia, por sua vez, não dispõe de uma teoria estruturada do desenvolvimento humano nos moldes das psicologias clássicas. Desde sua sistematização original (Perls et al. 1951), a abordagem enfatiza a compreensão fenomenológica e processual da experiência, situando self[1] como função emergente do campo organismo–ambiente. Nessa perspectiva, o desenvolvimento não é concebido como a passagem por estágios fixos, mas como o constante movimento de diferenciação e integração que se atualiza nas fronteiras de contato.

Autores contemporâneos, como Philippson (2001, 2002) e Robine (2006), aprofundaram esse entendimento ao propor que o desenvolvimento humano pode ser compreendido em termos de dimensões coexistentes: organismo/ambiente, self/outro e personalidade. Essas fronteiras não se configuram como fases cronológicas, mas como modos de relação que revelam diferentes níveis de complexidade da experiência. Assim, a Gestalt-terapia oferece uma teoria processual e fenomenológica do desenvolvimento, centrada na singularidade, na intersubjetividade e na historicidade dos sujeitos.

Este artigo tem como objetivo sistematizar uma compreensão processual e fenomenológica do desenvolvimento humano na Gestalt-terapia, evidenciando como essa abordagem se afasta de modelos normativos e lineares e privilegia processos de contato, ajustamento criativo e constituição de self. A partir das fronteiras do self propostas por Philippson, busca-se articular essa perspectiva à clínica contemporânea, discutindo suas implicações clínicas e epistemológicas, especialmente no trabalho com casais e famílias, em que o desenvolvimento se manifesta como processo relacional em permanente co-construção.

METODOLOGIA

Este estudo configura-se como uma revisão conceitual de caráter teórico-reflexivo, fundamentada na fenomenologia e na epistemologia de campo da Gestalt-terapia. O percurso metodológico consistiu em articular criticamente teorias normativas clássicas do desenvolvimento humano, representadas, entre outros, por Freud (1905), Erikson (1963) e Piaget (1952), com os conceitos centrais da Gestalt-terapia, tais como self, contato, ajustamento criativo e fronteiras do self.

O critério de seleção do material bibliográfico baseou-se na relevância teórica para a compreensão processual e fenomenológica do desenvolvimento, priorizando obras fundadoras da Gestalt-terapia (Perls et al. 1951) e contribuições contemporâneas significativas (Philippson, 2001, 2002; Robine, 2006; Yontef & Jacobs, 2010).

A análise seguiu um procedimento de sistematização conceitual, no qual as noções gestálticas foram examinadas em contraste com os modelos normativos, de modo a evidenciar convergências, divergências e potenciais contribuições para a clínica e para a psicologia do desenvolvimento. Assim, não se trata de uma revisão sistemática nem integrativa, mas de um exercício de reflexão crítica orientado pela fenomenologia, que busca oferecer uma leitura situada e relacional do desenvolvimento humano.

DESENVOLVIMENTO HUMANO EM PERSPECTIVA: MODELOS NORMATIVOS E SUAS LIMITAÇÕES

As teorias clássicas do desenvolvimento humano estruturaram-se em torno da noção de estágios sequenciais, nos quais cada fase corresponderia a aquisições específicas necessárias ao amadurecimento psicológico. Embora tenham desempenhado um papel central na organização do campo da psicologia do desenvolvimento, tais modelos apresentam limites importantes quando aplicados a contextos clínicos que demandam maior sensibilidade à singularidade e à historicidade da experiência.

Na tradição psicanalítica, Freud (1905) concebeu o desenvolvimento psicosexual como um percurso universal que atravessa estágios: oral, anal, fálico, latência e genital. Cada fase estaria relacionada a zonas erógenas predominantes e a modos de satisfação pulsional. Fixações ou regressões em determinado estágio explicariam manifestações clínicas posteriores. Apesar da relevância histórica, essa concepção foi criticada pelo seu caráter reducionista, que tende a universalizar experiências e desconsiderar variações culturais e intersubjetivas.

Erikson (1963), ampliando a psicanálise, propôs a teoria psicossocial do desenvolvimento, composta por oito estágios que se estendem da infância à velhice. Cada fase é marcada por uma crise a ser superada, por exemplo, confiança versus desconfiança, identidade versus confusão de papéis. Embora reconheça fatores sociais e culturais, o modelo mantém um caráter normativo, ao pressupor que a resolução adequada de cada etapa conduz a um desenvolvimento considerado saudável.

Na psicologia cognitiva, Piaget (1952) descreveu quatro estágios do desenvolvimento cognitivo, sensório-motor, pré-operatório, operações concretas e operações formais, baseados em processos de assimilação e acomodação. Sua teoria foi decisiva para a compreensão da construção do pensamento lógico e da epistemologia genética. Entretanto, críticas posteriores destacaram seu viés universalista e a desconsideração de contextos históricos e culturais que modulam o desenvolvimento cognitivo.

Essas perspectivas, apesar de suas diferenças, compartilham uma mesma matriz epistemológica: a tentativa de sistematizar o desenvolvimento humano como sequência linear de etapas normativas. Tal concepção, no entanto, tende a obscurecer a diversidade das trajetórias de vida, homogeneizando processos singulares em padrões previamente estabelecidos. É nesse ponto que a Gestalt-terapia se diferencia, ao propor uma compreensão processual e fenomenológica do desenvolvimento, não como progressão linear, mas como movimento emergente e situado na relação organismo–ambiente.

Tabela 1

Comparação entre modelos normativos clássicos e a teoria processual e fenomenológica da Gestalt-terapia.

Aspecto

Teorias normativas clássicas (Freud, Erikson, Piaget)

Gestalt-terapia (teoria processual e fenomenológica)

Concepção de desenvolvimento

Sequência linear de estágios universais. Cada fase corresponde a aquisições específicas.

Processo contínuo, não linear, que se atualiza a cada contato no campo organismo–ambiente.

Centralidade

Idade cronológica e marcos normativos.

Singularidade da experiência e historicidade das trajetórias.

Visão de self

Identidade ou estrutura relativamente estável construída ao longo das fases.

Função emergente, relacional e processual, configurada no aqui-e-agora.

Critério de saúde

Adaptação bem-sucedida aos padrões esperados em cada etapa.

Capacidade de contato significativo, ajustamento criativo e abertura ao devir.

Ênfase metodológica

Explicação causal e universalizante.

Descrição fenomenológica da experiência vivida.

Papel da relação

Relacionamentos aparecem como fatores de socialização ou resolução de crises.

O desenvolvimento ocorre na fronteira de contato, em co-construção com o outro e o campo.

Dimensão clínica

Sintomas vistos como falhas ou fixações em etapas não superadas.

Sintomas compreendidos como ajustamentos criativos que preservaram self em determinado contexto.

Implicações clínicas

Intervenção orientada por fases ou estágios ideais; risco de normatização da experiência.

Intervenção voltada à singularidade do processo; valorização da diversidade e da plasticidade do contato.

Fonte: Bomfim, 2025.

GESTALT-TERAPIA: UMA TEORIA PROCESSUAL DO DESENVOLVIMENTO

A Gestalt-terapia concebe o desenvolvimento humano a partir de uma perspectiva processual e relacional. Desde sua obra fundadora (Perls et al., 1951), o foco não está em estágios predefinidos, mas no modo como self se constitui continuamente no campo organismo–ambiente. Nesse sentido, o desenvolvimento não é compreendido como progressão linear, mas como expansão da capacidade de contato e de ajustamento criativo diante das demandas contextuais.

Para Perls et al., (1951), self não é uma entidade estável, mas uma função emergente que se atualiza no limite entre organismo e mundo. É sempre relacional, processual e situado, manifestando-se como figura no campo fenomenológico. Dessa forma, o desenvolvimento humano pode ser compreendido como a ampliação da plasticidade e da complexidade do self em suas funções de contato, possibilitando novas formas de diferenciação, integração e autorregulação.

O campo organismo–ambiente, por sua vez, constitui o horizonte em que o desenvolvimento ocorre. Ao invés de conceber o indivíduo isoladamente, a Gestalt-terapia adota uma epistemologia de campo, em que sujeito e meio são compreendidos como interdependentes (Yontef & Jacobs, 2010). O crescimento, portanto, não se dá de forma autônoma, mas a partir das trocas dinâmicas no campo relacional, incluindo influências históricas, sociais e culturais. Nesse processo, o contato é o momento privilegiado em que o desenvolvimento se manifesta.

Em contexto clínico, esse processo torna-se visível nas formas concretas pelas quais os clientes se aproximam ou se afastam do contato. Em uma sessão terapêutica, por exemplo, um cliente descreve repetidos conflitos em seu relacionamento conjugal. Ao narrar a situação, alterna entre críticas intensas à parceira e momentos de silêncio prolongado, nos quais relata sentir um “vazio no peito”. Ao convidá-lo a permanecer com essa sensação corporal, o cliente passa a reconhecer uma mistura de medo e necessidade de proximidade. Nesse momento, o desenvolvimento não aparece como aquisição de uma etapa normativa, mas como ampliação da awareness acerca de seus modos de contato e de suas necessidades relacionais.

 O contato, entendido como a vivência na fronteira entre o eu e o outro, é o espaço em que surgem novas possibilidades de awareness, de escolhas e de reorganização da experiência. A qualidade e a variedade dos contatos realizados ao longo da vida expressam a trajetória de desenvolvimento de cada pessoa, revelando a capacidade de abertura, diferenciação e integração do self.

Outro conceito fundamental é o de ajustamento criativo, que descreve a maneira singular pela qual cada pessoa responde às demandas do campo. Em vez de se adaptar de forma passiva, o indivíduo cria soluções próprias para lidar com situações de desequilíbrio. O desenvolvimento, nesse sentido, pode ser descrito como o acúmulo de ajustamentos criativos que se sedimentam na identidade, mas que permanecem abertos à transformação quando novos contextos emergem (Robine, 2006).

Assim, a Gestalt-terapia apresenta uma concepção fenomenológica e processual do desenvolvimento, na qual o crescimento humano é entendido como a ampliação da capacidade de estar em contato, de responder criativamente às demandas do campo e de integrar novas formas de existência. Ao privilegiar a singularidade da experiência, essa perspectiva se diferencia de modelos normativos, oferecendo uma compreensão mais aberta, situada e relacional do viver humano.

AS FRONTEIRAS DO SELF COMO DIMENSÕES DO DESENVOLVIMENTO

A proposta gestáltica de compreensão do desenvolvimento pode ser aprofundada a partir do conceito de fronteiras do self, sistematizado por Philippson (2001, 2002). Para o autor,  self emerge e se organiza em três dimensões fundamentais, organismo/ambiente, self/outro e personalidade, que não se configuram como etapas cronológicas, mas como camadas coexistentes da experiência. Cada fronteira revela modos distintos de relação, que, em conjunto, sustentam o processo contínuo de constituição do self.

FRONTEIRA ORGANISMO/AMBIENTE

A primeira dimensão refere-se ao nível mais básico do contato, situado na relação sensório-motora entre corpo e mundo. Trata-se da experiência pré-reflexiva, sustentada pela percepção imediata, antes mesmo de se constituir uma diferenciação entre sujeito e objeto. Essa fronteira expressa a base vital do desenvolvimento, permitindo ao organismo perceber necessidades, responder a estímulos e manter a autorregulação.

Exemplo clínico: em sessão de casal, uma parceira relata sentir “um aperto no estômago” sempre que o diálogo conjugal se intensifica. Essa sensação corporal, vivida antes de qualquer elaboração cognitiva, evidencia o funcionamento da fronteira organismo/ambiente, em que o contato é experimentado diretamente no corpo.

FRONTEIRA SELF/OUTRO (FRONTEIRA-EGO)

A segunda dimensão refere-se ao espaço relacional no qual se dá a diferenciação entre eu e não eu. É na fronteira-ego que emergem propósitos, escolhas e responsabilidades, possibilitando ao indivíduo posicionar-se diante do outro. Essa fronteira é marcada pela intencionalidade e pela possibilidade de estabelecer ou recusar o contato, revelando a capacidade de negociar limites e afirmar a própria singularidade.

Exemplo clínico: Em uma sessão individual, uma cliente relata dificuldade em estabelecer limites com familiares. Ao explorar a situação no aqui-e-agora da sessão, percebe que frequentemente responde “sim” a pedidos que a sobrecarregam. Ao experimentar expressar, na sessão, uma negativa imaginária dirigida à pessoa envolvida, a cliente relata sensação de tensão inicial seguida de alívio. Essa experiência evidencia o funcionamento da fronteira self/outro, na qual a capacidade de diferenciar-se do outro permite reorganizar o contato e afirmar a própria posição no campo relacional.

FRONTEIRA DA PERSONALIDADE

A terceira dimensão relaciona-se à incorporação da experiência como parte da identidade. A fronteira da personalidade diz respeito aos processos de identificação e alienação retroflexiva, que definem o que é reconhecido como “meu” e o que é excluído da imagem de si. Nessa esfera, valores, compromissos e narrativas culturais são assimilados ou rejeitados, constituindo o solo identitário a partir do qual a pessoa se reconhece e se apresenta no mundo.

INTEGRAÇÃO DAS FRONTEIRAS

As três fronteiras não operam de forma isolada, mas em permanente inter-relação. O desenvolvimento humano, a partir da Gestalt-terapia, pode ser compreendido como a expansão da capacidade de transitar criativamente entre essas dimensões, integrando sensações corporais, diferenciações relacionais e identificações identitárias. Como enfatiza Philippson (2002), a fronteira é sempre o lugar da interação, em que self se reorganiza em função das demandas do campo.

IMPLICAÇÕES CLÍNICAS E EPISTEMOLÓGICAS

A concepção processual e fenomenológica do desenvolvimento humano na Gestalt-terapia tem implicações significativas tanto para a prática clínica quanto para a fundamentação epistemológica da abordagem. Ao compreender self como função emergente do campo organismo–ambiente, a Gestalt-terapia desloca o foco de uma leitura normativa e linear do crescimento humano para uma perspectiva situada, relacional e histórica.

No campo clínico, essa compreensão possibilita uma intervenção que valoriza a singularidade das experiências em detrimento de comparações com padrões pré-estabelecidos. Em terapia de casais, por exemplo, não se busca avaliar em qual “fase” do relacionamento os parceiros deveriam estar, mas investigar como cada um se posiciona nas fronteiras do self. As tensões que emergem no nível sensório-corporal, relacional ou identitário são reconhecidas como expressões legítimas do processo de desenvolvimento, a serem exploradas no diálogo e na awareness. Assim, a clínica gestáltica prioriza a qualidade do contato e a ampliação da capacidade de ajustamento criativo, em vez de promover a adaptação a modelos normativos.

Na clínica individual, essa perspectiva permite compreender sintomas e impasses não como falhas em um percurso esperado, mas como ajustamentos criativos que, em determinado contexto, preservaram a continuidade do self.

Em muitas situações clínicas, comportamentos inicialmente compreendidos como “problemas” revelam-se ajustamentos criativos desenvolvidos em contextos anteriores. Um cliente que evita conflitos diretos, por exemplo, pode ter aprendido essa forma de contato em ambientes familiares marcados por agressividade ou imprevisibilidade. No contexto terapêutico, ao reconhecer a função protetiva desse padrão, torna-se possível ampliar gradualmente o repertório de contato, experimentando novas formas de posicionamento no campo relacional.

O trabalho terapêutico busca ressignificar tais ajustamentos, ampliando o campo de possibilidades e favorecendo o surgimento de novas formas de contato. Essa abordagem se mostra especialmente pertinente em contextos de sofrimento ligados a identidades de gênero, relações amorosas e conflitos familiares, nos quais normas sociais rígidas frequentemente contribuem para experiências de alienação ou bloqueio de contato.

Do ponto de vista epistemológico, a Gestalt-terapia afirma-se como uma abordagem fenomenológica e de campo, que concebe o desenvolvimento humano não em termos de etapas universais, mas como processo emergente e situado. Esse posicionamento aproxima a Gestalt-terapia de perspectivas críticas contemporâneas, que também questionam a naturalização de estágios normativos e valorizam a pluralidade das trajetórias humanas (Robine, 2006; Yontef & Jacobs, 2010). A noção de desenvolvimento, nesse contexto, ganha um caráter dinâmico, fluido e relacional, em consonância com a compreensão do self como função em constante devir.

Essa concepção também desafia práticas institucionais e educacionais baseadas em modelos padronizados de normalidade, oferecendo uma alternativa que privilegia a diversidade e a contextualidade. A teoria processual e fenomenológica do desenvolvimento proposta pela Gestalt-terapia pode, portanto, contribuir não apenas para a clínica, mas para uma visão mais ampla de políticas de cuidado e de educação, nas quais a diferença e a singularidade sejam reconhecidas como valores constitutivos da existência.

CONCLUSÃO

A Gestalt-terapia oferece uma compreensão processual e fenomenológica do desenvolvimento, fundamentada no conceito de self como função emergente do campo organismo–ambiente. Essa perspectiva concebe o crescimento humano como ampliação da capacidade de contato e de ajustamento criativo, situando-o em permanente diálogo com a singularidade da experiência e com as condições históricas e culturais. As fronteiras do self, organismo/ambiente, self/outro e personalidade, constituem dimensões coexistentes que permitem compreender o desenvolvimento como movimento dinâmico, relacional e identitário.

Longe de descrever fases sucessivas, essas fronteiras indicam modos de interação que se atualizam continuamente e que revelam o caráter sempre inacabado do self. Do ponto de vista clínico, essa concepção desloca o foco da adaptação a padrões pré-estabelecidos para a valorização da diversidade de trajetórias, favorecendo intervenções mais sensíveis à singularidade dos sujeitos e de seus vínculos.

Do ponto de vista epistemológico, reafirma o compromisso da Gestalt-terapia com uma abordagem fenomenológica, de campo e relacional, que resiste à universalização das experiências e privilegia a multiplicidade dos modos de existir. A teoria processual e fenomenológica do desenvolvimento em Gestalt-terapia constitui, assim, uma contribuição original para a psicologia contemporânea, ao propor uma leitura não linear, mas situada, plural e criativa do viver humano. Seu aprofundamento, tanto em pesquisas quanto em práticas clínicas, aponta para caminhos fecundos de diálogo com outras perspectivas críticas e para a construção de práticas que reconheçam, no desenvolvimento, não um destino previamente traçado, mas uma abertura constante ao devir.

REFERÊNCIAS

Robine, J.-M. (2006). O self desdobrado: Perspectiva de campo em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus.

Yontef, G., & Jacobs, L. (2010). Gestalt therapy. In R. J. Corsini & D. Wedding (Eds.), Current psychotherapies (9th ed., pp. 299–336). Belmont, CA: Brooks/Cole.

Perls, F. S., Hefferline, R. F., & Goodman, P. (1951). Gestalt therapy: Excitement and growth in the human personality. Gouldsboro, ME: Gestalt Journal Press.

Philippson, P. (2001). Self in relation. London: Gestalt Journal Press.

Philippson, P. (2002). The emergent self: An existential–Gestalt approach. London: Karnac.

Erikson, E. H. (1963). Infância e sociedade (M. B. Cipolla Neto, Trad.). Rio de Janeiro: LTC.

Freud, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (J. Salomão, Trad.). Rio de Janeiro: Imago.

Piaget, J. (1952). A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: Zahar.

Leandro de Paulo Bomfim

Correspondência: leandrodepaulopsicologo@gmail.com

Universidade Federal de Uberlândia - UFU

Revista IGT na Rede, v. 23, no 44, 2026, p.1-19 DOI 10.5281/zenodo.19243466

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526


[1] Ao longo do meu percurso de estudos sobre o tema, optei por não empregar o artigo definido diante do termo self. A expressão “o self” tende a sugerir a existência de uma entidade em si, enquanto, na Gestalt-terapia, self é compreendido como um constructo teórico de natureza processual e relacional. A supressão do artigo definido busca, portanto, evitar a reificação do conceito.