ARTIGO

Gestaltificação: sua gênese e elaboração

na obra de Afonso Fonseca

Gestaltification: your genesis and elaboration

in the Work of Afonso Fonseca

Gestaltificación: génesis y elaboración

en la obra de Afonso Fonseca

Marcelo Silva de Souza Ribeiro 

Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF

Juliana de Melo Borges 

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Pablo Nascimento 

Manuela Constant Pacheco 

RESUMO

O artigo analisa o conceito de “gestaltificação” desenvolvido por Afonso Henrique Lisboa da Fonseca (1954-2020) e sua relevância para a Psicologia Fenomenológico-Existencial, especialmente para a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) e a Abordagem Gestáltica (AG). Fonseca inovou ao integrar influências de Nietzsche, Brentano e Buber, concebendo a fenomenologia como ação, mais do que um sistema filosófico. A “gestaltificação” refere-se ao processo ontológico de constituição da ação, indo além da percepção para envolver implicação, compreensão e musculação, ou seja, a vivência ativa da experiência. Esse entendimento reformula conceitos da AG, como “contato” e “self”, inserindo-os na lógica fenomenológica da ação. A pesquisa, de caráter bibliográfico e teórico, analisa a emergência do termo e sua relação com "ação", "implicação" e "movimento". Por fim, propõe uma sistematização do conceito, situando suas origens e implicações, incentivando novas discussões sobre a Fenomenologia Gestaltificativa.

Palavras chaves: Fenomenologia; Psicoterapia Humanista; Gestalt-Terapia

ABSTRACT

The article analyzes the concept of "gestaltification" developed by Afonso Henrique Lisboa da Fonseca (1954-2020) and its relevance to Phenomenological-Existential Psychology, particularly the Person-Centered Approach (PCA) and Gestalt Approach (GA). Fonseca innovated by integrating influences from Nietzsche, Brentano, and Buber, conceiving phenomenology as action rather than a philosophical system. "Gestaltification" refers to the ontological process of constituting action, going beyond perception to involve implication, understanding, and embodiment—an active experience of existence. This understanding reshapes key GA concepts such as "contact" and "self," placing them within the phenomenological logic of action. The research, based on bibliographic and theoretical analysis, examines the emergence of the term and its relation to "action," "implication," and "movement." Finally, it proposes a systematization of the concept, identifying its origins and implications, encouraging further discussions on Gestaltificative Phenomenology.

Keywords: Phenomenology; Humanistic Psychotherapy; Gestalt Therapy

RESUMEN

El artículo analiza el concepto de "gestaltificación" desarrollado por Afonso Henrique Lisboa da Fonseca (1954-2020) y su relevancia para la Psicología Fenomenológico-Existencial, especialmente para el Enfoque Centrado en la Persona (ECP) y el Enfoque Gestáltico (EG). Fonseca innovó al integrar influencias de Nietzsche, Brentano y Buber, concibiendo la fenomenología como acción más que como un sistema filosófico. La "gestaltificación" se refiere al proceso ontológico de constitución de la acción, yendo más allá de la percepción para involucrar implicación, comprensión y corporeización, es decir, la vivencia activa de la experiencia. Esta comprensión reformula conceptos fundamentales del EG, como "contacto" y "self", situándolos dentro de la lógica fenomenológica de la acción. La investigación, de carácter bibliográfico y teórico, examina la emergencia del término y su relación con "acción", "implicación" y "movimiento". Finalmente, propone una sistematización del concepto, identificando sus orígenes e implicaciones, fomentando nuevas discusiones sobre la Fenomenología Gestaltificativa.

Palabras clave: Fenomenología; Psicoterapia Humanista; Terapia Gestáltica

INTRODUÇÃO

No campo da Psicologia Fenomenológico-Existencial produzida no Brasil, especialmente na interface entre a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) e a Abordagem Gestáltica (AG), a obra de Afonso Henrique Lisboa da Fonseca (1954 – 2020) constitui uma contribuição teórica pouco sistematizada, ainda que relevante, ao integrar leituras de Friedrich Nietzsche (2018), Franz Brentano (1995), Edmund Husserl (2006) e Martin Buber (2001) na proposição de novas interpretações para essas abordagens. Fonseca sustenta que a Fenomenologia, mais do que um sistema filosófico, constitui um movimento da vida e deve ser compreendida como uma Fenomenologia (Existencial) da ação.

Nesse percurso, Fonseca já apontava para ciclos de ação criativos, próprios da existência e relacionados às dimensões da consciência pré-reflexiva e reflexiva: um movimento que se dá primariamente na vivência direta e intencional do mundo que nos é “dado” e que, posteriormente, se desdobra sobre essa consciência pré-reflexiva. Buscando um revigoramento conceitual, mas também sensível à prática psicológica nos diferentes campos de atuação, o autor questiona os conceitos de “contato” e “self” por considerá-los ambíguos e insuficientemente definidos do ponto de vista teórico[1], sobretudo por carecerem de fundamentação fenomenológica. A partir dessa crítica, desenvolve o sentido de “gestaltificação” ou “gestaltificativo”[2] como intrínseco à própria fenomenologia enquanto ação.

Este artigo tem caráter teórico e recorre à análise bibliográfica da obra de Afonso Fonseca, tanto em seu legado textual quanto audiovisual. Parte-se da seguinte questão: como se constitui, ao longo da obra de Afonso Fonseca, o conceito de “gestaltificação”, e quais são suas implicações para a Psicologia Fenomenológico-Existencial? Diante disso, o objetivo geral deste trabalho é apresentar e discutir a gênese e a elaboração desse conceito na obra do autor. Como objetivos específicos, busca-se: (a) situar cronologicamente o surgimento do termo em sua produção; (b) diferenciar os sentidos de “gestaltificação” e “gestaltificativo”; e (c) discutir as implicações desse conceito para a ACP e a AG. A justificativa deste estudo decorre da relevância teórica da proposta de Fonseca e da ausência, na literatura acadêmica, de uma sistematização desse conceito, disperso em materiais textuais e audiovisuais de pouco acesso e difícil organização.

Segundo Fonseca, no canal do YouTube @lfnsah (2014), a gestaltificação é o próprio processo da consciência em movimento e, portanto, em ação. O autor aprofunda esse sentido de ação como condição constitutiva da consciência, uma dimensão ontológica que se manifesta simultaneamente como compreensão (constituição do logos, do “fenômeno-lógos”) e como musculação[3], já que a consciência é sempre consciência encarnada. A constituição da ação, enquanto compreensão e musculação, corresponde ao processo de vivência do acontecer fenomenológico-existencial, que se dá como “desdobramento de possibilidades”. Ao vivenciarmos algo, esse acontecer se manifesta como compreensão e como musculação, mantendo-se em movimento por meio de ações que se desdobram continuamente. Uma imagem que auxilia essa compreensão é a de uma pedra que cai em um lago: as ondas que se propagam em círculos ilustram o modo como a consciência, em ação, também se desdobra. Nas palavras do autor, “vivencialmente, as possibilidades emergem e se desdobram de um modo contínuo e múltiplo” (Fonseca, s.d.-a), enquanto forças cognitivas e plásticas, logos e ação.

As críticas de Fonseca aos entendimentos iniciais de “contato” e “self” situam-se, portanto, na não captação da ideia de contato enquanto ação — mais especificamente, enquanto implicação, compreensão e vivência fenomenológica de possibilidades e seus desdobramentos.

Ao empenhar-se em apreender essa perspectiva da ação em sua complexidade, Fonseca inaugura o entendimento de gestaltificação e seus possíveis impactos epistemológicos, teóricos, práticos e metodológicos para a Psicologia Fenomenológico-Existencial. Sem a pretensão de esgotar esses impactos, delimitamos aqui o sentido de gestaltificação a partir de uma síntese da série “Tópica Gestaltificativa” (vídeos 1 a 14, Canal @lfnsah; Fonseca, 2019a). Nessa produção, o autor sustenta que a ação é intrinsecamente compreensiva e da ordem da consciência pré-reflexiva, distinguindo-se da percepção. Enquanto compreensão, a ação pode ser meramente compreensiva ou compreensiva e muscular simultaneamente. A vivência da ação corresponde, assim, à vivência fenomenológica pré-reflexiva, que se dá por desdobramentos de possibilidades. Em ambas as modalidades, a ação é gestaltificativa por ser formativa: ela se constitui a partir do desdobramento de possibilidades, dando origem a formas na vivência do acontecer fenomenológico, no processo de figura e fundo. Essa constituição compreensiva ocorre mesmo após o episódio da ação, pois este é formativo, forma as coisas pelo decaimento e pela instalação da possibilidade uma vez encerrada sua duração. As coisas se constituem, assim, como instalação, como “coisificação instalativa”; enquanto formas, são gestaltens constituídas no processo da gestaltificação.

Essa elaboração radical, que Fonseca desenvolve a partir dos fundamentos teóricos relativos aos conceitos de contato e self, funda um novo olhar para a própria Psicologia Fenomenológico-Existencial, por ele denominado “Fenomenologia (Existencial) Gestaltificativa”. Cabe, portanto, refletir sobre a gênese e a elaboração desses entendimentos na obra do autor, não com a pretensão de estabelecer uma arqueologia conceitual ou uma “história teórica” de sua produção, mas de apontar as linhas de inspiração e as pistas que o conduziram à formulação da “Fenomenologia (Existencial) Gestaltificativa” (Sousa, Silva, & Fonseca, 2022).

Diante disso, importante questionar, para o escopo deste trabalho que o papel tiveram a Fenomenologia e o Existencialismo, sobretudo os legados de Nietzsche, Husserl e Buber, no desenvolvimento da ACP e da AG no pensamento de Fonseca? Como esses pensadores compreendiam o conceito de ação, na leitura do autor? De que modo Fonseca compreendia a ACP e a AG a ponto de reelaborá-las como gestaltificação? Quais contribuições o sentido de gestaltificação oferece ao desenvolvimento da compreensão fenomenológico-existencial?

Essas questões, ainda que não sejam plenamente respondidas nos limites deste escrito, orientam as reflexões propostas, evidenciando a fecundidade do percurso teórico aberto por Fonseca para os que se dedicam ao estudo de sua obra. Delimitado a esses objetivos, o artigo aborda o sentido de “gestaltificação” na obra do psicólogo alagoano Afonso Henrique Lisboa da Fonseca (1954 – 2020), inserida no âmbito da Psicologia Fenomenológica Existencial, notadamente na Abordagem Centrada na Pessoa e na Abordagem Gestáltica, perspectivas às quais o autor se dedicou ao longo de sua trajetória profissional.

AS DIFÍCEIS VEREDAS PARA A APREENSÃO DO SENTIDO DE GESTALTIFICAÇÃO

O sentido de gestaltificação constitui um dos aspectos mais originais da obra de Afonso Fonseca, associado à emergência de novas perspectivas para a Abordagem Centrada na Pessoa e para a Abordagem Gestáltica[4].

Apesar de sua relevância teórica e conceitual, o sentido de gestaltificação aparece de modo disperso ao longo da vasta produção de Fonseca, que inclui ensaios, artigos, livros e vídeos, sem uma organização sistematizada[5]. Essa dispersão provavelmente contribui para a menor visibilidade e para a dificuldade de apreensão da riqueza teórica legada pelo autor, que parece ter priorizado o desenvolvimento de suas ideias em detrimento de uma sistematização mais rigorosa de sua obra.

Parte da dispersão da obra decorre também do percurso de Fonseca à margem do meio acadêmico e de sua resistência às burocracias institucionais. Essa postura favoreceu a liberdade criativa do autor, mas também dificultou a organização sistemática de seus trabalhos: Fonseca acumulava as funções de escritor, editor e divulgador de seus próprios cursos e materiais. Ainda assim, é possível identificar esforços de sistematização, como a elaboração do “copião”[6], reunião de parte de sua produção em um único arquivo digital.[7]

Essas considerações reforçam a relevância dos objetivos apresentados na introdução, que foi situar, ao longo da obra de Fonseca, o surgimento do sentido de gestaltificação e sistematizar suas principais formulações teóricas.

SOBRE O CAMINHO DESTE TRABALHO

Este trabalho, como já anunciado, decorre de um estudo de caráter teórico e bibliográfico centrado na obra de Afonso Fonseca, abrangendo o período de 1976 a 2020, do início de sua formação com Carl Rogers até o ano de seu falecimento, com ênfase na produção realizada entre 2010 e 2019, período em que o termo gestaltificação aparece de modo mais recorrente. As fontes utilizadas foram seus textos, ensaios, artigos, livros e vídeos, disponíveis nos acervos digitais do autor, em seu canal do YouTube (https://www.youtube.com/@lfnsah) e em sites onde parte significativa de sua obra pode ser acessada[8]. Os critérios de seleção dos materiais consideraram: (a) a presença explícita dos descritores “gestaltificação” e “gestaltificativa”; (b) a relevância do material para a compreensão da gênese do conceito, mesmo em textos anteriores à sua nomeação; e (c) a disponibilidade pública e o acesso irrestrito ao conteúdo. A coleta de informações e a análise foram organizadas em três etapas, descritas a seguir.

Na primeira etapa, foi realizado um levantamento das fontes por meio da seleção dos materiais a serem lidos e assistidos, com o preenchimento de um quadro no qual as informações foram organizadas em colunas contendo tipo e título do material, ano de publicação ou divulgação, data de consulta, localização do material e síntese do conteúdo destacado. Para esse levantamento, foram utilizados os descritores “gestaltificação” e “gestaltificativa”. Como a ideia de gestaltificação é anterior à sua própria nomeação, o levantamento considerou também termos correlatos, para uma análise mais ampla e rigorosa, tais como “implicação”, “plexo”, “ação”, “movimento”, “self” e “contato”.

Na segunda etapa, as informações do quadro foram organizadas segundo a cronologia de produção do autor, de modo a identificar os modos como as ideias de gestaltificação foram se constituindo, bem como suas conexões e relações conceituais ao longo do tempo.

Na terceira etapa, as informações foram articuladas de maneira a explicitar o sentido de gestaltificação, situando as primeiras aparições do termo, descrevendo como esse sentido foi sendo apresentado ao longo da obra e evidenciando suas perspectivas teóricas. O procedimento de análise conceitual adotado teve caráter predominantemente hermenêutico, buscando estabelecer um diálogo interpretativo com o legado textual e audiovisual de Fonseca, de modo a reconstituir o percurso de elaboração do conceito a partir de suas próprias formulações.

Para fins de organização do artigo, apresenta-se inicialmente uma breve biografia e linha do tempo de Afonso Fonseca, de modo a situar o leitor pouco familiarizado com esse psicólogo brasileiro e a estabelecer a relação entre autor e obra. Em seguida, a seção seguinte é dedicada às perspectivas e aos desdobramentos do sentido de gestaltificação em suas ramificações conceituais — o sentido de gestaltificação em seu plexo. O artigo se encerra com as considerações finais, que indicam os limites deste estudo e apontam possibilidades de novos debates e pesquisas inspirados pela obra de Afonso Fonseca.

AUTOR E OBRA EM UMA LINHA DO TEMPO

Afonso Henrique Lisboa da Fonseca (1954 – 2020), nasceu em Maceió (AL) no dia 18 de janeiro de 1954 e faleceu em 24 de junho de 2020. Foi psicólogo clínico, facilitador de grupos e autor de livros, artigos e ensaios sobre a Abordagem Gestáltica e a Abordagem Centrada na Pessoa, transitando em vários campos do conhecimento[9].

Entre 1976 e 1977 fez formação vivencial com Carl Rogers, na Califórnia. Após o retorno ao Brasil, além de prosseguir com seus estudos, dedicou-se a formação de psicólogos e terapeutas fenomenológicos existenciais, sobretudo nas regiões Centro Oeste (Tocantes) e Nordeste (Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão). ​​Foi responsável por inúmeros programas de formação, em especial em relação à Abordagem Gestáltica e a Abordagem Centrada na Pessoa. 

Afonso se formou na primeira turma de Psicologia do Cesmac, na década de 1970. Foi um psicólogo de renome nacional e ministrou cursos por todo o Brasil, principalmente na região Nordeste. Teve também experiências internacionais e escreveu diversos textos e livros[10], além de produzir vídeos e áudios. Fonseca foi um estudioso dedicado da Psicologia Fenomenológica Existencial, da cultura brasileira, da filosofia fenomenológico-existencial e das filosofias orientais. Sua vida e seu modo de se relacionar refletiam, em grande medida, aquilo que pensava, refletia e acreditava.

Em relação ao material dos planos de curso que ministrava, fonte interessante de informações sobre o modo como Fonseca organizava e estruturava suas formações, observa-se o que estava sendo elaborado em sua obra. Ainda que não constitua fonte principal deste trabalho, esse material permite situar historicamente suas ideias. Tudo indica que, entre 2010 e 2011, o autor passou a empregar, de modo mais enfático, o termo gestaltificação.

 Entre 2007 e 2009, nas formações ministradas por Fonseca, uma das ideias mais originais e potentes era a fenomenologia enquanto desdobramento de possibilidades, aproximando os sentidos da arte trágica, do teatro, da arte da existência e das dimensões criativas. Era marcante o modo como o autor articulava a fenomenologia em relação permanente com a Filosofia da Vida de Nietzsche e a Filosofia Dialógica de Buber. Em 2010, Fonseca já falava de modo mais enfático sobre o desdobramento de possibilidades, das forças e, especificamente, dos desdobramentos da ação. Como era de seu costume, explorava as palavras a partir de suas habilidades filológicas, dando origem a sentidos novos e a outras compreensões no campo da fenomenologia existencial, o que abriu espaço para a formulação do sentido de “fenomenologia da gestaltificação”.

Contudo, cabe observar que o termo gestaltificação não aparece nos programas de formação de 2010, nem no programa de 2011 (em João Pessoa), o que não significa necessariamente sua ausência nos conteúdos ministrados, já que pode não ter constado da proposta escrita e divulgada. Nos programas de 2012/2013 (Paraíba), 2015/2016 (Alagoas) e 2015/2017 (Ceará), entretanto, a ideia de gestaltificação surge de modo enfático, o que coincide com a cronologia de sua produção audiovisual sobre o tema no mesmo período.

Quanto à produção audiovisual disponível em seu canal do YouTube, é possível notar que, a partir de meados da década de 2010, surgem de maneira significativa produções que abordam explicitamente a questão da gestaltificação — como o artigo em que Fonseca discute a metodologia gestaltificativa (Fonseca, 2012)[11]. Já em 2019, sua produção audiovisual aprofunda de modo mais pormenorizado a questão da gestaltificação, por meio de temas como “ação”, “musculação”, “tópicas gestaltificativas”, “implicação”, “compreensão” e “existênsia”[12]. Fonseca continuou, no entanto, a abordar temas já recorrentes em sua obra, como o pensamento de Buber, a dialógica e a Abordagem Centrada na Pessoa. Isso reforça a leitura de que, embora o termo gestaltificação possa parecer recente, desde o início de sua produção o autor já articulava contribuições da Fenomenologia, de Buber e de Nietzsche para pensar a ACP e a AG, inventividade que, mais tarde, ganharia corpo na “Fenomenologia Gestaltificativa”.

GESTALTIFICAÇÃO EM SEU PLEXO

Após sua passagem pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e por formações realizadas fora do Brasil, Fonseca retorna ao Nordeste no final da década de 1980 e passa a oferecer cursos de formação com módulos dedicados ao pensamento de Franz Brentano, Edmund Husserl, Martin Buber e Friedrich Nietzsche, além das filosofias orientais, voltados à fundamentação filosófica, epistemológica, teórica e prática da ACP e da AG. Nessas formações, a ACP e a AG não eram tratadas separadamente: os conteúdos eram abordados de maneira integrada, ainda que houvesse momentos dedicados, por exemplo, à vida e à obra de Carl Rogers e de Fritz Perls.

De modo geral, Fonseca destacava a contribuição de Brentano (2018) para uma fenomenologia empírica, portanto, uma fenomenologia da ação, enquanto vivência e criação. Em relação ao pensamento de Buber (2001), o autor enfatizava a dimensão dialógica da ACP e da AG, compreendidas como abordagens que concebem o movimento da vida na relação criativa e a existência como eminentemente relacional. Na obra de Nietzsche (2018), embora não seja possível, nos limites deste artigo, esgotar o quanto Fonseca se dedicou a esse filósofo, é possível identificar a afirmação da vida como perspectiva ética da existência e as forças criativas que emergem em um processo de devir.

Ainda correndo o risco de reducionismo, é possível dizer que Fonseca articulou, ao longo de sua produção, essas três contribuições principais, a fenomenologia empírica (portanto, da ação), a dialógica como condição criativa e a afirmação da vida como devir das possibilidades, sempre em diálogo com a ACP e a AG.

Embora seja uma produção mais tardia, os capítulos de “Fenomenologia Gestaltificativa”, publicados no “Copião” (Fonseca, s.d.-b), trazem passagens que registram a gênese da gestaltificação, com ênfase na questão da ação, na qual Fonseca situa a Fenomenologia como movimento da vida. Nesses capítulos, o autor reelabora temas já presentes em seu trabalho, como as contribuições da ACP e da AG, a empatia, a experiência organísmica, a dialógica e a tendência atualizante, evidenciando como a ideia de gestaltificação se relaciona ao movimento da vida, múltiplo, criativo e constituído por desdobramentos de possibilidades.

De modo mais tardio em sua obra, Fonseca indica que é na vivência da ação que se dão as possibilidades que dialogam e competem entre si, estabelecendo a criação. A gestaltificação é multiplicidade e ato criativo, pois emerge de possibilidades diversas, ainda que outras possam submergir, gerando dominâncias entre forças em competição, o que fundamenta a ideia de plexos[13] (Fonseca, s.d.-c).

Segundo o princípio da intencionalidade fenomenológica. de que toda consciência é consciência de algo, e vice-versa (Brentano, 2018; Husserl, 2006), encontra-se também o primado dialógico (Buber, 2001). Nesse sentido, a vivência é sempre vivência de possibilidades, pois é da ordem da relação e, enquanto relação, produção de sentidos. Por sua vez, a vivência de possibilidades enquanto movimento e ação da consciência, em seu primado dialógico, constitui compreensão. Esse princípio da intencionalidade, legado fundante de Brentano (2018), se dá na vivência. A respeito disso, Fonseca, sobretudo em sua obra tardia, afirmava que a vivência tem a ver com o acontecer, distinguindo entre o acontecer e o acontecido. Esse raciocínio permite estabelecer um paralelo com o modo ontológico de ser (o acontecer, pré-reflexivo) e o modo ôntico de ser (o acontecido, reflexivo) ou, em termos buberianos, com a relação Eu-Tu (acontecer, pré-reflexivo e implicativo) e Eu-Isso (acontecido, reflexivo e explicativo). É possível, ainda, relacionar essa distinção à noção nietzschiana de vontade de potência como força criativa da vida em seus ciclos de criação e decaimento. A partir dessas referências, Fonseca inova ao introduzir a noção de “compreensão musculativa”, que sugere a radicalidade da dimensão das forças, do movimento e do corpo no “ato”, como constituidores da consciência.

Fonseca (2019b) afirma, no conjunto de vídeos “Ação, compreensão e musculação” (vídeos 1 a 3), que a prática evidencia a possibilidade de compreender a concepção de gestaltificação, esclarecendo aspectos pouco tematizados da vivência fenomenológica enquanto movimento e dinâmica da vida, modos de ser, e não sistema filosófico. Segundo o autor, é necessário avançar na compreensão da dimensão musculativa da ação, dada a indissociabilidade entre o logos e a ação, o que justifica o neologismo “musculo-lógica”. A própria vivência da ação, em sua implicação compreensiva e musculativa, pode ser mais bem compreendida a partir da gestaltificação, sobretudo quanto à caracterização das implicações existenciais de uma definição da ação em seus aspectos compreensivos e musculativos.

A apreensão do sentido de ação é, portanto, fundamental para compreender o movimento e a dinâmica fenomenológica que constituem o ponto nevrálgico da obra de Fonseca. O caráter “muscular” da ação decorre justamente de ela não ser mecânica, mas viva e em movimento, tal como o músculo, que se contrai e se estende em suas forças de diástole e sístole.

Ao identificar os termos gestaltificativa e gestaltificação no “copião”, surge um questionamento relevante: seriam palavras utilizadas como sinônimos por Fonseca, ou designariam compreensões distintas, sendo uma superação da outra? Sendo sinônimas, restaria apenas a questão do emprego textual, por exemplo, “a abordagem é fenomenologia gestaltificativa” ou “trata-se de uma fenomenologia da gestaltificação”.

Por outro lado, essas palavras podem não ser tão arbitrárias assim. É possível que Fonseca tenha pretendido indicar que uma seria superação da outra, substituindo justamente em função da ideia de “ação”, permanecendo, por fim, o termo gestaltificação, e não mais gestaltificativa, por conotar maior precisão conceitual.

Nota-se, contudo, no conjunto da obra de Fonseca, o uso das duas formas, não como meros sinônimos, mas como modos de designar o mesmo fenômeno: a fenomenologia como ação, movimento e força criativa. O termo gestaltificativo qualifica o caráter criativo, implicativo e formativo desse modo de superação; já gestaltificação designa o modo de ação próprio do movimento da existência, isto é, o processo pelo qual essa qualidade formativa se atualiza. Em outros termos, gestaltificativo caracteriza uma qualidade ou disposição, o que é próprio da ação formativa, enquanto gestaltificação nomeia o processo em curso, o vir a ser dessa formação. Essa distinção, ainda que sugerida no conjunto da obra do autor, não é sistematizada por ele de modo explícito, permanecendo como uma discussão em aberto para pesquisas futuras.

A Fenomenologia da Gestaltificação (ou Gestaltificativa) propõe uma renovação radical do olhar sobre as abordagens de Psicologia Fenomenológica Existencial, em particular a ACP e a AG, ao situar a intuição originária da ação como central para conceber de modo inaugural conceitos clássicos dessas abordagens. A compreensão, da ordem do Eu-Tu, do acontecer, do pré-reflexivo e do implicativo é também cognitivo-ativa e muscular. Essa consciência apresentativa e pré-reflexiva, por ser vivência, é poiética, pois afirma o vir a ser das possibilidades na dinâmica de forças entre figura e fundo, das quais emergem formas em movimento de criação e decaimento. Como já indicado, a contribuição de Fonseca privilegiada neste artigo está em enfatizar a dimensão do movimento e da ação no modo de compreender fenomenologicamente a consciência, aprofundando, a partir daí, conceitos como contato e self[14].

CONSIDERAÇÕES INACABADAS

Em linhas gerais, a gestaltificação, segundo Fonseca, refere-se ao processo ontológico de constituição da ação, como desdobramento da compreensão fenomenológica da experiência. A ação não se limita à percepção: envolve implicação, compreensão e musculação, ou seja, a vivência da ação como constituição de formas e desdobramento de possibilidades.

A Fenomenologia da Gestaltificação retoma o entendimento artístico e criativo da experiência, relativamente pouco explorado no âmbito da ACP e da AG. Compreende-se que essa proposta reestabelece a apreensão da ação e do movimento, oferecendo sentidos renovados para conceitos como empatia, fronteira de contato e figura-fundo — ainda que esses desdobramentos não tenham sido explorados no escopo deste artigo, constituindo agenda para pesquisas futuras.

O legado teórico de Fonseca, retomado aqui em diálogo com sua obra, evidencia a necessidade de melhores conexões teóricas e metodológicas com o nível vivido dos fenômenos, o que pode contribuir para revigorar a ACP e a AG em termos teóricos e práticos.

A obra de Fonseca constitui um legado inspirador para a Psicologia Fenomenológico-Existencial, evidenciando a carência de aprofundamentos ainda pouco explorados por entendimentos fenomenológicos radicais na ACP e na AG. Como limitações deste estudo, destacam-se o caráter não exaustivo do levantamento bibliográfico — dada a dispersão e a ausência de sistematização da obra do autor — e a impossibilidade de esgotar, nos limites deste artigo, todas as implicações teóricas e práticas do conceito de gestaltificação. Sugere-se, como agenda futura, a investigação sistemática das relações entre gestaltificação e conceitos centrais da ACP e da AG, como contato, self, empatia e tendência atualizante, bem como estudos que aprofundem a diferenciação entre gestaltificação e gestaltificativo na obra do autor.

REFERÊNCIAS

Brentano, F. (1995). Psychology from an empirical standpoint. London: Routledge & Kegan Paul.

Buber, M. (2001). Eu e tu (N. A. Von Zuben, Trad.). Centauro. (Trabalho original publicado em 1923)

Fonseca, A. H. L. da. (2012). Metodologia gestaltificativa: O que se quer dizer quando se fala em uma metodologia gestáltica. Gestaltificativa. Revista IGT na Rede, 9(17), 223–247. http://www.igt.psc.br/ojs

Fonseca, A. [@lfnsah]. (2014, 2 de novembro). Gestalt. “Contato”, “self”. Ação fenomenológica [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=MfylEcbF1po

Fonseca, A. [@lfnsah]. (2019a). Tópica gestaltificativa (Vídeos 1–14) [Playlist de vídeos]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=D8m1CBxXiv8&list=PLEpggrfK5UJm-r0GBXMhfP2KXT9Pu_Jd8

Fonseca, A. [@lfnsah]. (2019b). Ação, compreensão e musculação (Vídeos 1–3) [Playlist de vídeos]. YouTube. [link a confirmar pelos autores — a URL constante no manuscrito original é idêntica à da referência anterior e deve ser verificada]

Fonseca, A. H. L. da. (s.d.-a). Gestaltificação e perfeição [Documento eletrônico]. eKisistencias. Recuperado em 5 de julho de 2024, de https://www.ekisistencias.com/_files/ugd/b10d94_822c23644e654182be89faaa9340e01f.pdf

Fonseca, A. H. L. da. (s.d.-b). Fenomenologia da gestaltificação [Documento eletrônico]. eKisistencias. Recuperado em 14 de dezembro de 2024, de https://www.ekisistencias.com/about-1-1

Fonseca, A. H. L. da. (s.d.-c). Cumplicidade e dramática da perplexificação da cumplexidade (e um guia para os cumplexos) [Documento eletrônico]. eKisistencias. Recuperado em 14 de julho de 2024, de https://www.ekisistencias.com/about-1-1

Husserl, E. (2006). Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica (M. Suzuki, Trad.). Ideias & Letras. (Trabalho original publicado em 1913)

Nietzsche, F. (2018). Genealogia da moral: Uma polêmica (P. C. de Souza, Trad.). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1887)

Sousa, F. H. de, Silva, R. de F. M. da, & Fonseca, A. H. L. da. (2022). Fenomenologia da gestaltificação: A alternância dos modos de ser como criação, superação, mudança e saúde existencial. Atena.

Marcelo Silva de Souza Ribeiro

Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF

Correspondência: mribeiro27@gmail.com 

Juliana de Melo Borges

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Correspondência: juliana.m.borges@gmail.com 

Pablo Nascimento

Correspondência: pablofnascimento@gmail.com 

Manuela Constant Pacheco

Correspondência: manuelapachecoconstant@gmail.com 

Revista IGT na Rede, v. 23, nº 45, 2026, p.1-22 DOI 10.5281/zenodo.22286772      

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526


[1]Afonso contemporiza essa questão em relação a Fritz Perls (precursor da Gestalt-terapia) uma vez que se tratava de um pioneiro e que lança as bases e trabalhou com o que havia em sua época.

[2]Há uma curiosa discussão acerca dessas palavras que iremos retomar ao longo do texto. Ainda que não haja a pretensão de esgotar o debate, pode-se afirmar que a palavra “gestaltificativa” diga respeito ao aspecto formativo, enquanto a palavra “gestaltificação” remeta a ideia mesmo de ação. Ambas apontam para o mesmo fenômeno, mas de modos diferentes. Todavia, parece ainda ser uma questão aberta ao debate.

[3] Esse sentido “muscular” é central para a elaboração da perspectiva gestaltificativa porque aponta justamente para a dimensão do movimento, da ação, inclusive de uma compreensão que não é só cognoscitiva, mas vivencial, encarnada

[4] Esse sentido “muscular” é central para a elaboração da perspectiva gestaltificativa porque aponta justamente para a dimensão do movimento, da ação, inclusive de uma compreensão que não é só cognoscitiva, mas vivencial, encarnada.

[5] Grande parte da obra de Afonso Fonseca se encontra de maneira dispersa em sites da internet sem uma devida organização. Há “fenomenologia gestaltificativa” (disponível em https://www.academia.edu/37569273/FENOMENOLOGIA_GESTALTIFICATIVA_docx) onde consta uma parte significativa sobre esse tema, mas ainda aí carecendo de organização para uma melhor difusão do conhecimento. Em um esforço de organizar a sua obra foi criado um site que reúne quase a totalidade de suas produções, incluindo o “copião”, disponível no site https://www.ekisistencias.com

[6] https://www.ekisistencias.com/_files/ugd/b10d94_822c23644e654182be89faaa9340e01f.pdf?index=true

[7] Afim de organizar, reunir e preservar um pouco mais a obra de Afonso Afonso, foi criado o site https://www.ekisistencias.com

[8] https://independent.academia.edu/FonsecaAfonso, https://www.geocities.ws/eksistencia/gtfe.html, https://eksistencia.wordpress.com/apresentacao/, https://www.ekisistencias.com

[9] Centro de Estudos Superiores de Maceió (CESMAC). Instituição criada em 1973 pelo cônego Cônego Teophanes Augusto de Araújo Barros.

[10] Escreveu livro, “Em busca de vida: da terapia centrada no cliente à abordagem centrada na pessoa”, com Carl Rogers e outros autores de grande impacto na Abordagem Centrada na Pessoal - ROGERS, Carl R.; O’HARA, Maureen Miller; WOOD, John K.; FONSECA, Afonso Henrique Lisboa da. Em busca de vida: da terapia centrada no cliente à abordagem centrada na pessoa. São Paulo: Summus, 1983

[11] Consideraremos a “produção tardia” de Afonso Fonseca, toda produção que se dá a partir de 2012.

[12] Afonso não criava palavras de maneira diletante, mas visava dar sentidos próprios. Nesse caso, a palavra “existensia” era escrita com S justamente para atrelar a condição de tensão de forças, tensão de forças que possibilita criação e indica movimento

[13] A palavra plexo tem, em Grego, um sentido original de tecer, entretecer, de tessitura, de trança; sentido este originado no trançamento, no trançado, dos pêlos das crinas dos cavalos. E, sem dúvida, na trança dos cabelos.

[14] Ainda que não se tenha aprofundado, de maneira específica, entendimentos sobre os conceitos de contato e self, pela via da gestaltificação, pois o trabalho se centrou na própria ideia da gestaltificação, é possível “sentir um horizonte” desses entendimentos e mesmo instigar possíveis outras produções que deem conta de intento