VOLUNTARIADO E ENCONTRO

ARTIGO

Voluntariado: servir como encontro de ser e de amar

Volunteering: serving as an encounter of being and loving

Alessandra Pires Barreto 

Faculdades Integradas da América do Sul

Resumo

O desempenho da atividade voluntária tem sentido na totalidade vivida e como cada indivíduo a desenvolve requer olhar para quem ele é. Os objetivos do presente trabalho foram compreender o processo vinculativo de voluntários veteranos em um instituto de atendimento a pessoa com câncer, investigar a presença de elementos do inter-humano, entender o sentido existencial da díade instituição-voluntário e descrever o processo vinculativo do voluntário com mundo circundante. Participaram deste estudo três mulheres voluntárias com mais de 18 anos. Foi utilizada entrevista fenomenológica e análise de dados conforme o método de Giorgi, conservando os cuidados ético-legais. A partir da análise de dados puderam ser identificadas três unidades de sentido: o caminho que faz o caminhante, servir como morada do amor e a mutualidade do encontro. A primeira unidade é sobre tornar-se voluntária com as dimensões crescimento pessoal, espiritualidade e confirmação. A segunda refere-se à experiência de autorrealização, promoção de bem-estar e atitudes de amor. Na última, a relação dialógica foi a característica presente, diante da doação de tempo, dedicação e disponibilidade e recebimento de gratidão e amizade. Concluiu-se que o processo vinculativo das voluntarias ao instituto está relacionado ao desenvolvimento pessoal e ao fortalecimento das relações como um todo.

Palavras-chave: voluntariado; câncer; fenomenologia; relações humanas.

Abstract

The performance of voluntary activity makes sense in the totality experienced and how each individual develops it requires looking at who he or she is. The objectives of this study were to understand the binding process of veteran volunteers in an institute for care for people with cancer, investigate the presence of inter-human elements, understand the existential meaning of the institution-volunteer dyad and describe the binding process of the volunteer with surrounding world. Three women volunteers over 18 years of age participated in this study. Phenomenological interviews and data analysis were used according to the Giorgi method, preserving ethical and legal care. From the data analysis, three units of meaning could be identified: the path taken by the walker, serving as a home of love and the mutuality of the encounter. The first unit is about becoming a volunteer with the dimensions of personal growth, spirituality and confirmation. The second refers to the experience of self-fulfillment, promotion of well-being and attitudes of love. In the last one, the dialogical relationship was the present characteristic, given the donation of time, dedication and availability and the reception of gratitude and friendship. It was concluded that the binding process of volunteers to the institute is related to personal development and the strengthening of relationships as a whole.

Keywords: volunteering; cancer; phenomenology; human relations


A sociedade ocidental moderna está dividida economicamente em três setores, e cada um deles se refere ao consumo de bens e serviços, como por exemplo, compras em lojas físicas ou on-line, consultas médicas, odontológicas, entre outros. Esses setores apresentam características específicas, porém, o terceiro setor que será melhor explorado nos próximos parágrafos só foi conceituado e nominado a partir da década de 90 (Madeira; Biancardi, 2003).

O primeiro setor é caracterizado pelos órgãos que compõem as esferas governamentais. As organizações privadas, direcionadas pelo mundo dos negócios e que visam principalmente ao capital, formam o segundo tipo. O terceiro, por sua vez, se caracteriza por serviços semelhantes aos ofertados pelo Estado, movimentando a sociedade civil dos interesses particulares para os públicos (Calegare; Junior, 2009).

Estão contidas no terceiro setor as seguintes instituições: associações; organizações filantrópicas, beneficentes e de caridade; organizações não governamentais; fundações privadas e organizações sociais (Anjos, 2007). Entretanto, antes que o termo terceiro setor se popularizasse, tais instituições já existiam, e suas atividades eram desenvolvidas pelo eixo da filantropia (Calegare; Junior, 2009).

Como afirmam Salci et al. (2020), o caráter dessas entidades é voluntário, o que significa dizer que a população beneficiária dos serviços não tem gastos financeiros. A relação não é de compra e venda, mas de doação, considerada uma relação altruísta. Segundo Rego, Zózimo e Correia (2017) estão embutidas no voluntariado as práticas de inclusão social e representação de interesses mútuos, entre outras.

Segundo Sapiro e Mattiello (2016), o termo voluntariado se origina do latim voluntariu, que significa alguém fazer ou não algo de forma espontânea, sem que seja coagido ou imposto, por isso a ideia de doação, generosidade e beneficência. A Lei n. 9.608 (1998, p. 1) considera serviço voluntário como “a atividade não remunerada prestada por pessoa física à entidade pública de qualquer natureza ou a instituição privada de fins não lucrativos que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência à pessoa”.

No Brasil, há em torno de 522.500 entidades sem fins lucrativos, das 5,5 milhões de organizações ativas cadastradas no Cadastro Central de Empresas, segundo o último levantamento do ano de 2016. A maior parte delas está localizada na região Sudeste, e cerca de um terço dessas instituições foi criada na primeira década do século XXI. A maioria dessas entidades se enquadra na categoria religião, seguido pela cultura e recreação, pelo desenvolvimento e pela defesa de direitos. Em seguida estão as categorias associações patronais profissionais e assistência social (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2019).

Para o correto funcionamento do serviço chegar até as pessoas que dele necessitam, faz-se necessário colaboradores. O termo para nomeá-los é voluntário, que se compromete com as instituições e desenvolve ações que lhe são direcionadas, fazendo-o livremente. Assim, ele demonstra responsabilidade, lança mão de suas habilidades, aptidões e conhecimento, doa seu tempo e age por generosidade, mutualidade, bem comum, apoio à sociedade e beneficência (Rego; Zózimo; Correia, 2017; Sapiro; Mattiello, 2016).

Acerca das vantagens mútuas entre voluntários e instituições não governamentais, Beckhauser e Domingues (2017; Sapiro; Mattiello, 2016) afirmam que as instituições se favorecem com a força de trabalho, promoção de mudanças, transformação e responsabilidade social. Os voluntários se beneficiam de suas ações nos âmbitos afetivo, político e ideológico.

Os benefícios individuais ainda incluem a gratidão, dimensão citada por Salci et al. (2020) em seu estudo, e os autores afirmam que esta aparece em conjunto com o reconhecimento e a satisfação. Ser grato é uma emoção considerada moral, com função pró-social e que significa retribuição por ter recebido algo de forma livre e gratuita, com efeitos para ambos os lados (Freitas; O’Brien; Nelson; Marcovitch, 2012; McCullough; Kilpatrick; Emmons; Larson, 2001).

A motivação para realizar uma atividade voluntária abarca diversas dimensões e múltiplas influências, sendo considerada complexa, social, pessoal e subjetiva. Esse tipo de atividade permite às pessoas desenvolverem habilidades, aprendizado, conhecimento, preparo para uma futura carreira profissional, construção de vínculo e um maior autoconhecimento. (Salci et al., 2020)

Nos estudos de Sapiro e Mattiello (2016), voluntários também relatam mais bem-estar, maior qualidade de vida, produção de endorfinas no sistema nervoso que gera sensação de prazer, melhora na função imunológica, diminuição no nível de estresse e ansiedade.

O bem-estar é um termo sinônimo de felicidade e, apesar de ser um construto com algumas conceituações diferentes entre si, tem se tornado objeto de estudo científico. Uma das características atualmente consideradas é ser possível desenvolvê-la e poder desfrutar de um estado de ser e de modo de interpretar o mundo e as situações de vida de forma mais positiva, ainda que diante de situações desafiadoras e difíceis (Ricard, 2007).

Outra dimensão que também é relatada como presente no trabalho voluntário é a espiritualidade (Beckhauser; Domingues, 2017). Esta se relaciona à abertura do homem ao outro, ao modo como este se relaciona com o mundo e dá sentido à sua vida. A espiritualidade é constituinte do ser humano, pois este é biopsicossocioespiritual e confere ao indivíduo senso de pertencimento ao seu ser, ao universo e, por conseguinte, aos outros (Cardella, 2015; Ginger; Ginger, 1995; Ribeiro, 2006; Ribeiro, 2009).

Além dessas, são descritas no trabalho de Amorim et al. (2019), realizado com voluntários em instituições de atendimento a pessoas portadoras de câncer, as categorias de valores, como: humanidade e altruísmo; aprendizado de habilidades e conhecimento; socialização por estar com amigos e novas pessoas; desenvolvimento profissional pelo uso de habilidades; proteção no sentido de compensação por se perceber afortunado e aprimoramento pelo crescimento pessoal.

O desenvolvimento dessas características também passa pela dimensão do cuidado, e esta é desenvolvida principalmente em situações de adoecimento, como no caso do câncer. A doença câncer é antiga e foi nomeada por Hipócrates no século IV antes de Cristo. Esse termo abarca mais de 100 doenças e se caracteriza pelo “crescimento desordenado de células que tendem a invadir tecidos e órgãos vizinhos” (p. 17), uma neoplasia maligna (Ministério da Saúde, 2011).

Segundo os estudos do Instituto Nacional de Câncer, estima-se que entre 2020-2022 ocorrerão 625.000 novos casos no país, e que o mais incidente será o câncer de pele. Em homens, o mais comum será o de próstata e, nas mulheres, o de mama, mantendo a tendência descrita no mesmo documento de 2011. Duas são as atuações gerais em casos de câncer, a primeira é o tratamento que inclui ações médicas de acordo com cada tipo para paralisar o crescimento das células doentes e a segunda são os cuidados paliativos quando não é mais possível tratar a doença. Quando não há mais sinais do adoecimento no organismo, mas ainda não é possível denominar o estágio de cura, chama-se remissão (Ministério da Saúde, 2019a).

No ano de 2019, mencionaram-se, no Relatório Painel-Oncologia, dados de 2013 a 2019 acerca dos cinco cânceres mais incidentes no país para monitoramento do início do tratamento pelo SUS. Os cinco lugares afetados foram: 1) mama; 2) útero; 3) próstata; 4) cólon e reto, e 5) traqueia, brônquio e pulmão. O tempo até o início do tratamento dos quatro primeiros foi de mais de 60 dias, e apenas no último tipo de câncer o tempo foi de 0 a 30 dias (Ministério da Saúde, 2019b).

Os principais tratamentos para o câncer são cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Cada procedimento é avaliado pelo médico conforme cada paciente e tem os objetivos de curar, prolongar e melhorar a qualidade de vida (Ministério da Saúde, 2011). Os tratamentos de quimioterapia e radioterapia se caracterizam pela incidência de agentes invasivos no organismo. Estes geram efeitos colaterais que podem afetar a qualidade de vida do paciente, como, por exemplo, náuseas, vômitos, lesão de esôfago, fraturas, má nutrição e lesões nas regiões afetadas pela radiação como mucosite, atrofia dos tecidos, perda de dente, entre outros (Sawada; Dias; Zago, 2006; Sawada; Nicolussi; Okino; Cardozo; Zago, 2009).

Quando o tratamento por diversos fatores não é possível e não há mais o que possa ser feito, os cuidados são paliativos, ou seja, se permite que o paciente tenha qualidade de vida e bem-estar com ações de manejo do sofrimento e prevenção da dor.         Os cuidados paliativos são recomendáveis quando se avalia que a doença é grave, progressiva e incurável, podendo ser iniciados desde o diagnóstico. Esta modalidade pode ser ofertada no ambiente hospitalar, com consultas periódicas, ou via internação domiciliar quando o paciente não consegue se locomover (Ministério da Saúde, 2011).

Para todos os tipos de tratamento faz-se necessária uma rede de apoio. Tanto sistemas quanto pessoas significativas, juntos, formam laços de relacionamento, importantes para o apoio e a proteção e essa rede inclui familiares, amigos, voluntários, entre outros (Juliano; Yunes, 2014).

Tais benefícios e características advindas do desenvolvimento do voluntariado demonstram a multidimensionalidade do ser humano, com demandas e necessidades diversas, cada uma intimamente ligada à outra. O olhar para essas e outras dimensões sobre a relação pode ser encontrado na abordagem gestáltica, que considera o homem de modo holístico, passível de transformação e de vir-à-ser, conforme suas potencialidades. Suas influências são as filosofias fenomenológicas, existenciais e humanistas e as teorias de campo, holística e da psicologia da Gestalt (Prestelo; Quadros, 2009).

Diante dessas conceituações, compreende-se que a atividade voluntária, seja em casos de câncer ou não, é parte do todo da pessoa que a exerce, ou seja, o desempenho dessa atividade tem um sentido na totalidade da vida. Esse entendimento é possível a partir dos escritos de Ribeiro (1985), ao desenvolver a ideia de todo e parte, postulando que não se pode seccionar o homem para entendê-lo, pois tudo o que há tem sentido a partir do todo, ou seja, a parte (trabalho voluntário) tem sentido a partir de algo maior, que é o próprio indivíduo.

A compreensão da totalidade dessa pessoa se faz ao retornar a ela, e esse questionamento é uma das postulações na qual se debruça o Existencialismo. Esta corrente filosófica se volta ao modo como o homem existe. Uma máxima importante dessa filosofia é “a existência precede a essência” (Sartre, 2014, p. 4), ou seja, o indivíduo existe e, ao longo de sua vida, se encontra consigo, se constrói e depois se define. Deste modo, também é livre para escolher o que for em sua vida, fazer a si mesmo a partir de suas escolhas e também ser responsável por aquilo que escolhe (Sartre, 2014).

A responsabilidade do homem é sobre si, mas inclui também as escolhas da coletividade. Quando se escolhe o melhor para si, se escolhe, nem que seja como modelo, o melhor para todos. Neste sentido, o projeto de vida pode ser entendido como um fazer-se ao longo da caminhada de vida, exercendo sua liberdade e responsabilidade de escolher e decidir (Sartre, 2014). Então, a partir da visão existencialista, trabalhar como voluntário pode ser considerada uma escolha, e esta parte do projeto de vida ou do eu.

Considerando-se essa visão filosófica, as pessoas fazem suas escolhas, e estas têm sentido para aqueles que as projetam. Compreende-se, então, a escolha de certos caminhos do voluntariado em detrimento de outros. No projeto existencial das pessoas que se voluntariam, seja de forma permanente ou apenas temporariamente, os sentidos para essa escolha podem ser chamados de motivação. Este termo, entendido como o exposto por Abbagnano (2007), se refere ao que se apresenta antes da ação, ou seja, um fenômeno interior de cada pessoa. Segundo Peres (2015), na concepção filosófica husserliana, significa dizer que os sentidos se apresentam de cada objeto (situação, experiência, vivência) a cada pessoa e, portanto, a motivação é individual e particular.

As motivações humanas para determinadas ações também podem estar ligadas à autorrealização, como definida pela teoria organísmica. Isso ocorre porque esse construto se refere às tentativas de realização de potencialidades inerentes, e é por meio destas que o organismo se torna mais desenvolvido e completo, sendo o realizar-se o princípio soberano de vida. Ao haver uma necessidade satisfeita, o indivíduo se encontra autorrealizado, considerando-se que, para cada um, a necessidade é diferente, e a forma de satisfazê-la também, caracterizando-se esse movimento como singular (Hall; Lindzey; Campbell, 2000).

Na busca pela satisfação de suas necessidades, o indivíduo precisa entrar em contato consigo ou com o ambiente. Consigo para identificar que há uma necessidade a ser satisfeita, e sua particularidade com o ambiente para encontrar nele os meios de satisfação ou perceber os impeditivos e como superá-los (Hall; Lindzey; Campbell, 2000).

Entrar em contato também se refere à relação, ao encontro, objeto no qual se debruça a filosofia buberiana, pois a troca pessoa-pessoa funda um aspecto essencial para que o homem se torne homem, que é a dimensão do entre. Sem que duas pessoas se encontrem, não há entre (Buber, 1923/2009). Então, a construção do ser humano, ou seja, seu projeto de vida está intimamente relacionado ao encontro com o outro, ao diálogo (Cardoso, 2013).

Nesse encontro, duas são as atitudes do ser humano perante o mundo circundante: Eu-Tu e Eu-Isso. Ambas as atitudes são importantes. Na primeira, a relação é mais valorizada do que conseguir algo e há contemplação, entrega de um a outro. Na segunda, a interação tem um objetivo, e há sempre um fim a ser alcançado com o contato (Buber, 1923/2009). Por meio da postura desenvolvida a partir da atitude Eu-Tu, a troca com o meio pode promover crescimento pessoal, e estar com o outro se torna vivenciar a alteridade, o diferente, encontrar-se e encontrar o outro. Por meio desse contato, há a oportunidade para desenvolver potencialidades e constituir a si mesmo (Cardoso, 2013).

O encontro transformador, conforme a filosofia dialógica, requer que algumas características estejam presentes. Uma delas é a presença que, segundo Hycner (1995), é difícil de conceituar, mas fácil de identificar ao ser vivido. Significa disponibilidade completa para o outro sem pré-julgamento, pré-conceitos, entre outros. Outra característica é a comunicação genuína e sem reservas que se refere ao envolvimento honesto com condições para que o diálogo ocorra. Também há a inclusão, que é a habilidade de imaginar a realidade do outro em si mesmo, sem perder sua própria experiência. E, por último, a confirmação, que é a apreensão e o reconhecimento de todo o ser da pessoa (Jacobs, 1995).

Essas características do encontro também estão presentes na conceituação de amor feita por Cardella (1994), amor que está intrínseco nas relações e que as fortalece. O amor é tanto um estado quanto uma maneira de ser, que possibilita se relacionar de forma autêntica consigo e com os outros, promovendo aceitação, valorização, proteção, confirmação, crescimento, mutualidade. É também um estado de apreciação, em que o outro é amado por apenas ser, sem condicionalidades.

No amor também está relacionado o ato de cuidar. Neste, estão implícitos o desprendimento de si, a abnegação e o voltar-se para o outro, caracterizados não somente pela afetividade, mas também pelo interesse genuíno e de atenção. É por meio do encontro que o cuidado se desenvolve (Cardoso, 2013).

Desenvolver o cuidado e todas as características descritas anteriormente se refere à multiplicidade do ser humano em suas necessidades. Algumas destas se tornam mais urgentes quando o assunto é saúde-doença, como no caso de diagnósticos de câncer. A constituição do Estado brasileiro se propõe a suprir algumas destas necessidades com a implementação de secretarias, projetos e políticas públicas. Entretanto, outras se tornam lacunas e, nesse espaço, se consolidam as instituições do terceiro setor (Sapiro; Mattiello, 2016).

Diante disso, a realização desse estudo se justificou-se pelo intento de promover conhecimento acerca de uma área crescente, que é o terceiro setor, e o trabalho voluntário que se encontra nele. Tal conhecimento, além de contribuir com a bibliografia sobre os temas citados, ainda permite a exploração do ponto de vista da pessoa que trabalha, possibilitando outros nortes de pesquisa, como o perfil de pessoas que se voluntariam, quais as especificidades do trabalho que desenvolvem, entre outros. Para isso, foi necessário o uso da metodologia fenomenológica, pois, por meio desta, o estudo propôs-se a alcançar o objetivo de apreender os sentidos do trabalho de cada um dos voluntários pesquisados.

O tema escolhido implica perceber os benefícios e desafios encontrados nessa vivência de voluntariado, podendo contribuir para novos fazeres nas instituições que trabalham com voluntários ou que pretendam recrutá-los. Por isso, a sociedade poderá se beneficiar com instituições mais preparadas para o atendimento e com voluntários que cuidam e são cuidados, ao terem suas especificidades de pessoa e trabalhador percebidas e acolhidas.

A pesquisadora se interessa por esse tema por ser voluntária em uma instituição que atua na promoção de atividades e serviços para portadores de câncer. Ser voluntária nessa instituição suscitou curiosidades desse processo ímpar, que é o adoecimento por câncer. Para as ações de voluntariado são necessários estudos sobre o tema, bem como o contato com outros voluntários, o que fez surgir a pergunta disparadora do presente trabalho. As atividades desenvolvidas pela pesquisadora envolvem o atendimento psicológico e a promoção de conhecimento por meio de palestras, permitindo o contato com as pessoas atendidas pelo instituto e compartilhamento de gratidão, companheirismo e cuidado.

Considerando-se o exposto, objetivou-se compreender o processo vinculativo de voluntários que estivessem há mais de três anos em um instituto que oferta atividades voluntárias a pessoas portadoras de câncer. Além disso, pretendeu-se investigar a presença de elementos do inter-humano na relação do voluntário com as pessoas atendidas, entender o sentido existencial da instituição na vida do voluntário e descrever o processo vinculativo do voluntário com seu mundo circundante.

Metodologia

Foram participantes deste estudo, mulheres com idade acima de 18 anos de idade que fizeram parte de projeto de voluntariado para pessoas com diagnóstico de câncer, na cidade de Caldas Novas, por dois a cinco anos, no instituto, e com ensino fundamental completo. Não fizeram parte da pesquisa as voluntárias afastadas das atividades de voluntariado por estarem em tratamento médico contra o câncer, em processo de luto ou em acompanhamento psiquiátrico.

Entretanto, duas das participantes que corresponderam aos critérios de exclusão foram mantidas na pesquisa, porque elas se interessaram no período de tempo estimado para essa etapa. Não houve tempo hábil para aguardar outras pessoas entrarem em contato. A busca foi realizada por aproximadamente um mês até o contato da terceira participante que atendia os critérios de inclusão e exclusão. Apesar disso, não se verificaram prejuízos nos conteúdos compartilhados.

Os materiais permanentes utilizados foram microcomputador, roteador de internet, aparelho telefônico e pen drive, e os materiais consumíveis foram papel tipo A4, lápis, canetas e caderno tipo espiral.

Fez-se uma entrevista fenomenológica semiaberta com a seguinte proposta disparadora: Descreva como é sua experiência de ser voluntário. Além desta, foram usados como instrumentos um questionário sociodemográfico (Apêndice A) e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (Anexo A).

O projeto foi enviado ao Comitê de Ética de Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de Goiás para as devidas avaliações e autorização concedida sob o parecer número 48637821.1.0000.0037. A pesquisadora se comprometeu com os procedimentos ético-legais, cumprindo as Resoluções n. 466 (Conselho Nacional de Saúde, 2012) e n. 510 (Conselho Nacional de Saúde, 2016). Após a aprovação, a pesquisadora publicou convite para participação da pesquisa em aplicativo de mensagens.

Há uma instituição que oferta serviços voluntários a portadores de câncer na cidade de Caldas Novas. Esta instituição tem um grupo no aplicativo WhatsApp que inclui todos os voluntários. Deste modo, foi enviado convite nesse grupo, e aqueles que tiveram interesse em participar e obedeciam aos critérios de inclusão foram informados sobre os objetivos da pesquisa, as questões éticas e de sigilo, conforme o TCLE.

Foi agendado horário para desenvolvimento da entrevista e assinatura do TCLE, disponibilizado antes do início da entrevista. Essa etapa foi na modalidade presencial, seguindo os protocolos para evitar a contaminação por Covid-19, a saber, manter distância superior a um metro, uso de máscaras e higienização de mãos e materiais utilizados. A entrevista foi gravada em áudio, em tempo médio de meia hora, para posteriores transcrição e análise de dados.

Após gravação e transcrição das entrevistas, foi utilizado o método de Giorgi e Sousa (2010) para analisar os dados, que consiste em quatro etapas. A primeira é realizar leituras gerais para apreender o sentido da experiência de forma ampla. Em seguida, as leituras tiveram como objetivo a divisão das falas dos participantes em tópicos temáticos (unidades de significado) que indicassem os sentidos da vivência como voluntários. Em terceiro momento, as unidades de significado identificadas foram “traduzidas”, ou seja, transformaram-se as expressões do senso comum para o significado psicológico. O último passo consistiu na síntese das unidades de significado psicológico, em que se descreveu a estrutura geral da vivência de cada participante.

Resultados e discussão

A comunicação carrega em si seus sentidos, pois, por meio desta, há a expressão e reflexão do vivido (Massiére, 2021), e em uma entrevista isso não seria diferente. No presente trabalho, as falas das participantes foram analisadas a partir do método de Giorgi e Sousa (2010), e elas tiveram liberdade para dizer o que lhes parecia coerente, gerando um conteúdo único e rico. Sendo assim, ao final da quarta etapa do método, foram elencadas três unidades de sentido: o caminho que faz o caminhante, servir como morada do amor e a mutualidade do encontro.

As colaboradoras deste estudo foram três mulheres voluntárias no instituto para pessoas portadoras de câncer, identificadas pelos nomes Esperança, Vitória e Graça. A participante Esperança está há três anos como voluntária, cursou o nível técnico de enfermagem e é uma das lideranças do projeto de voluntariado do qual faz parte. Quanto à sua saúde, teve câncer de mama há alguns anos, monitora seu possível retorno e não faz acompanhamento psiquiátrico. Sobre o processo de luto, ela informou que uma amiga próxima havia falecido, mas que gostaria de participar da entrevista.

A participante Vitória ajudou a fundar o projeto de voluntariado, e sua contribuição já completou cinco anos. Cursou o ensino superior em Gestão Pública e, devido ao tratamento contra o câncer, se aposentou. A respeito de sua saúde, se encontra em cuidados paliativos pela cronicidade do adoecimento e faz acompanhamento psiquiátrico por causa do quadro de ansiedade. Sobre o processo de luto, informou que “quase todo dia eu perco alguém”, referindo-se aos amigos em tratamento contra o câncer.

Graça é a terceira participante e está no projeto de voluntariado há quatro anos. Cursou o ensino fundamental e, diferente da experiência das outras duas, não tem diagnóstico de câncer e nem seus familiares. Não vivenciava, à época da entrevista, processo de luto, nem estava em tratamento psiquiátrico.

O caminho que faz o caminhante

Tornar-se é uma expressão que parece denotar movimento, sair de um ponto e desenvolver-se até o outro. Assim, essa categoria versa sobre a experiência das participantes do ponto inicial de seu voluntariado. A participante Esperança traz sua experiência como uma descoberta de si ao longo do tempo: “[...] eu cheguei devagarzinho achando que eu ia só lá de vez em quando fazer alguma coisa [...] mas eu fui me identificando cada vez mais e eu acho que eu estou conseguindo levar [...]”. (comunicação pessoal, julho de 2021)

É possível compreender, a partir dessa fala, que há um processo em que a participante conheceu seu local de voluntariado e, ao longo do tempo, desenvolveu suas potências enquanto pessoa. O homem é um ser dotado de potencialidades que, quando colocadas em prática, geram percepção de autorrealização (Freitas, 2016), se identificando também pela seguinte fala de Esperança: “[...] eu acho que eu cresci, estou crescendo ainda, que a gente não para, a gente está sempre evoluindo, então eu sinto assim que eu estou crescendo [...]”. (comunicação pessoal, julho de 2021)

O ser humano tem como necessidade tornar-se a si mesmo, e isso ocorre por um processo de desenvolvimento pessoal, crescimento (D’Acri; Lima; Orgler, 2012). Rogers (1997) afirma que esse processo se dá à medida que se experiencia, descobrindo os vários elementos de si, apropriando-se e tornando-se cada mais vez mais a si mesmo. De forma poética, acrescenta que esse processo é vivo, envolve sensação, respiração, oscilação, se percebendo, a cada momento, uma pessoa.

Embora não tragam a dimensão do crescimento em suas falas, Vitória e Graça apontam outros aspectos do tornar-se. A primeira descreve que, a partir de sua experiência como portadora de câncer, pode desenvolver suas ações como voluntária, vendo o outro como semelhante.

[...] eu sei tudo o que o paciente carente, o que é diferente quando você tem pessoas que, como é que se diz, são pé no chão como a gente mesmo, na mesma condição financeira, que não esperava passar por isso [...]. (comunicação pessoal, julho de 2021)

A vivência de Vitória como paciente, tendo suas necessidades, a auxilia a compreender as dificuldades das outras pessoas e a agir por meio dessa identificação. A participante, ao encontrar-se com o outro, se torna presente para ela, o aceita como é e confirma seu parceiro fundando um encontro genuíno, sendo este um dos elementos do inter-humano (Buber, 1982). Esse processo de inclusão é descrito por Yontef (2002) e Jacobs (1989), que afirmam que essa é uma atitude de ir até a experiência do outro, buscar sentir o que sente, sem perder a si mesmo.

[...] consegui me aposentar [...] minha família me apoia, então, mas tem outros que não tem, assim como tem outros que não tem esse apoio, então eu estou no instituto, quero ajudar, então ajudar, independente se tem o instituto ou não, eu ajudo [...]. (comunicação pessoal, julho de 2021)

A escolha de Vitória é usar sua experiência. Ela poderia se ocupar apenas consigo, cuidar apenas de si, num movimento chamado por Buber (1923/2009) de egótico, mas, ao contrário, vai em direção ao outro, estando aberta à relação. Esta abertura, segundo o autor, propicia que uma pessoa seja mais pessoa, mais humana.

Com Graça, a experiência de tornar-se voluntária acontece por meio da dimensão da religiosidade: “[...] se dispor a cuidar das pessoas no meu caso, eu creio que primeiro Deus colocou isso em mim, esse desejo, porque não é fácil cuidar das pessoas, não é fácil nem cuidar de mim [...]”. (comunicação pessoal, julho de 2021)

Conceber o divino, como se apresenta na fala de Graça, compõe a religiosidade, e esta é parte integrante da espiritualidade, dimensão constituinte do ser humano, visto ser ele complexo e multidimensional, se referindo à transcendência de si, de ir além de sua própria existência e viver pelo sentido, superando as questões de sobrevivência (Cardella, 2015). Pela espiritualidade é possível desenvolver sentido para a existência, e muitas religiões encorajam seus membros a desenvolver atividades de voluntariado como parte de seu credo. (Borchardt, 2015)

É possível que a percepção de Graça da missão divina em se voluntariar caiba ao que Buber (1923/2009) traz acerca da responsabilidade das pessoas em realizar e instaurar o divino no mundo, pois a relação com o Tu eterno não se refere a essa esfera somente, mas também a relação com os outros homens.

Na fala anterior, Graça cita a dificuldade de desenvolver a atividade de voluntariado e, no trecho abaixo, faz um paralelo entre tal dificuldade e motivação.

[...] eu falo que ser voluntário, igual eu te falei, não é para todo mundo, não é, porque não é um serviço que você pode fazer forçado, não é, se você for ser voluntario, “não, porque eu vou ser voluntário porque falaram para mim ser”, não, não vá. É um trabalho assim que você vai motivado, você vai assim “nossa, hoje eu vou visitar um paciente, sei que alguma coisa boa vai acontecer ali, mesmo que ele esteja em estado crítico, vai acontecer alguma coisa boa, a gente vai rir, vai conversar [...]. (comunicação pessoal, julho de 2021)

Para Graça, não ter uma motivação, a priori, para a atividade voluntária, teria como resultado a desistência perante as dificuldades inerentes ao trabalho. Faz parte do processo de desenvolvimento pessoal entrar em contato com as situações e assimilá-las ou rejeitá-las (Ribeiro, 2019), e isso não seria diferente no trabalho voluntário, pois faz parte do ser humano escolher o que melhor lhe cabe e continuar ou não.

A assimilação e rejeição podem estar correlacionadas aos aspectos da espiritualidade mencionados anteriormente, à questão do sentido que está ligado ao que é fundamental e à sobrevivência. Uma das motivações para se manter na atividade, apesar das dificuldades, seria o quanto esta contribui para a existência da pessoa, que renuncia suas necessidades imediatas ou satisfações momentâneas e coloca em sua caminhada um valor que a oriente (Cardella, 2015).

A fala de Graça denota ainda a importância da responsabilidade do existir, pois este se refere também à existência do coletivo. As escolhas que são feitas por um ressoam aos outros como modelo a ser realizado (Sartre, 2014).

O processo de tornar-se das participantes parte de diferentes experiências e traz em si a característica de ser único, fluído, contínuo, em que novos aspectos de si vão sendo incorporados, aceitos, reconhecidos. Perceber-se em fluidez tem como possível resultado a satisfação por ver-se como autor, caminhante, e não como produto acabado e fixo à espera do que lhe acontece (Rogers, 1997).

Em suma, tornar-se aqui perpassa pelas experiências de crescimento, confirmação e espiritualidade. Esse recorte da vivência delas não exclui tantas outras possibilidades de seus “vir-à-ser” e nem que em dado momento cada uma tenha contato com as dimensões elencadas pelas outras. A vida envolve não apenas o eu, mas como postula a filosofia buberiana, assim como também o nós e estar no nós fortalecem o eu em suas mais variadas facetas, incluindo o ser voluntário.

Servir como morada do amor

Ser voluntário nessa categoria se trata da atualidade do fazer, pois se entende que há uma diferença entre ser voluntário de quando em vez e vivenciar no cotidiano esse modus operandi. Enquanto isso, outras tantas experiências surgem e fortalecem a vontade de continuar na atividade. Esperança, na fala a seguir, diz que o voluntariado tem preenchido o que lhe faltava.

[...] eu ficava incomodada em só ir lá trabalhar meio período voltar para casa, então eu precisava preencher essa lacuna, vamos dizer assim, então hoje eu me sinto mais útil, eu procuro cada vez mais, mais coisas para eu fazer [...]. (comunicação pessoal, julho de 2021)

É possível perceber que o que era necessidade para Esperança foi satisfeita. Perceber uma lacuna incômoda em sua vivência a levou a buscar meios de satisfação e, como resultado, a percepção de ser útil. As necessidades impulsionam o ser humano a buscar satisfação e satisfaze-las é autorrealização. Segundo Zinker (2007), a satisfação de uma necessidade gera sensação de sentir-se bem consigo mesmo, tendo implicações na forma como a pessoa vê a si e suas ações. O bem-estar advindo da atividade voluntária também é descrito por Vitória:

[...] faz bem para minha saúde, faz bem para meu bem estar, você é amado sabe, você é amado por um pacote de bolacha que você leva ali para uma criança que não tinha, por uma roupa usada que a pessoa não queria mais, você lavou, costurou e levou para aquela pessoa, entendeu, então é fantástico, você se sente bem [...]. (comunicação pessoal, julho de 2021)

Ricard (2007) afirma que o bem-estar individual também envolve o bem-estar dos outros, Segundo ele, a felicidade individual é construída ao fazer os outros felizes também. O bem realizado ao próximo também está relacionado à profunda satisfação, duradoura em comparação a outras ações prazerosas que não envolvem cuidar de outros. Graça descreve uma dessas experiências de cuidado:

[...] então, eu penso assim, que cuidar das pessoas é se desprender, se desprender de muitas coisas, de você mesmo. Às vezes, a gente precisa ir para o hospital ficar com alguém, porque tem paciente que às vezes não tem parente, ou às vezes o parente tem que trabalhar não pode ficar lá e às vezes você precisa ir né [...]. (comunicação pessoal, julho de 2021)

Essa disposição para o outro descrita na fala acima encontra eco na fala das outras participantes quando traz os termos entregar, deixar, dispor, amar. A atividade voluntária é como forma de doação, ou seja, dar sem a espera de retorno (Salci et al., 2020). Esperança descreve sua experiência como “[...] algo assim de entrega né, eu deixar, não é que eu não tenha outras coisas para fazer não, eu tenho, mas esse dispor é isso, deixar alguma coisa sua para fazer alguma coisa para alguém [...]”. (comunicação pessoal, julho de 2021)

É possível apreender outra característica de ser voluntária nas falas das participantes, o altruísmo. Esse termo refere-se à dedicação aos interesses dos outros, a importar-se com o bem-estar alheio como parte de suas ações, sendo uma característica que pode ser aprendida e colocada em evidência em contraste com o egoísmo, que é a preocupação apenas consigo (Abbagnano, 2007). A fala a seguir de Graça descreve como os interesses dos outros estão acima dos seus, relacionando tal comportamento ao amor: “[...] é uma experiência boa e difícil. Boa por que? Porque estou me doando. Difícil por que? Porque eu vejo muito sofrimento [...], mas ser voluntário é isso aí, é amar sem esperar nada em troca [...]”. (comunicação pessoal, julho de 2021)

Cardella (1994) concebe o amor como característica que permite ao ser humano encontrar o outro em sua unicidade e humanidade. O estado de amor permite que o outro seja visto como é, como humano que, é tendo laços próximos ou não. Segundo a diferenciação da autora entre tipos de amor, pode se conceber a atividade voluntária como amor fraterno, aquele que é manifestado para a humanidade e se baseia na premissa de que todos são um. Vitória também descreve a dimensão do amor e como para ela amar é se dispor.

[...] eu me disponho assim pesquisadora, eu estou aqui assim, nem almocei acordei agora, se alguém ligar e realmente saber que aquela pessoa que me ligou está precisando, eu largo tudo ai, não tem almoço, não tem nada que me segura, se eu tiver com os netos eu coloco todo mundo dentro do carro e vou lá. É você ter amor ao próximo, se você não tiver, e você só tem a amor ao próximo através de um relacionamento, quanto mais você se relaciona, mais amor você tem [...]. (comunicação pessoal, julho de 2021)

O amor, presente nas falas de Vitória e Graça, relaciona-se a uma atitude dialógica ao movimentar de si para o outro e, para Buber (1982, p. 55), “sair-de-si-em-direção-ao-outro, sem alcançar-o-outro, sem permanecer-junto-ao-outro”. Na filosofia buberiana não seria possível amar ficando apenas em si, uma vez que amar quer dizer relacionar-se com o outro, estar disponível ao Tu.

Entretanto, essa mesma fala parece denotar um estado de prontidão, ser acionada e imediatamente responder. Tal comportamento pode se tornar prejudicial, visto que estar em alerta pode indicar estresse, e este se relaciona a situações negativas e positivas. Um pouco de estresse atua na movimentação do organismo para a ação, entretanto, um estado prolongado dessa resposta requer mais energia, provocando desequilíbrio e propensão a adoecimentos (Silva; Martinez, 2005). Apesar do adendo, essa não é uma relação de causa e efeito, pois é na vivência que as potencialidades e limitações se concretizam a depender do indivíduo e da sua capacidade de autorregulação.

Por fim, o ser se realiza enquanto está sendo, e este gerúndio se concretiza pelas escolhas do caminho (Giovanetti, 2017). Uma das escolhas que as participantes fazem todos os dias é de amar. Elas amam os pacientes e, por isso, se doam a eles em suas diversas necessidades. Segundo Cardella (1994), essa escolha envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento, e é ressonante, já que amar um forma-se espaço para amar mais. A abertura para amar abre espaço para ser amado de volta, a se sentir útil e a perceber em si o bem-estar.

A mutualidade do encontro

Entrar em contato é relacionar-se, ao mesmo tempo que consigo, com o outro, e este é o tema dessa unidade. Abertura diz respeito a estar em contato, e este é o comum a todos e em todas as atividades que o ser humano desenvolve (Jacobs, 1989). A participante Graça descreve uma de suas formas de entrar em contato, a partir do heterosuporte.

[...] muitas vezes não tem parente, não tem amigo, então ele tem o voluntario [...] Um paciente que tem o suporte do voluntário é diferente daquele que não tem, e os que tem quando sabe de algum que não tem, eles falam “você está perdendo seu tempo, vai pro instituto, você vai ver a diferença”, é esse o efeito [...]. (comunicação pessoal, julho de 2021)

Ter uma rede de apoio é um dos fatores de proteção para um desenvolvimento saudável de vida. Juliano e Yunes (2014) afirmam que ter alguém com quem contar faz diferença, principalmente em tempos de crise e dificuldade, pois auxilia a enfrentar e a superar tais momentos. A fala de Graça descreve como o voluntário agrega na vida dos pacientes, e que estes reconhecem de forma que até indicam o trabalho. Esperança também menciona essa agregação:

[...] você poder ajudar a pessoa a ter, assim, uma qualidade de vida melhor, isso é muito bom, e a maioria deles fala que tem esse retorno, né, de ver realmente uma melhora de vida, de pensamento, de querer viver, então ali, tudo agrega para a melhora do paciente [...]. (comunicação pessoal, julho de 2021)

O apoio dado aos pacientes se fundamenta na relação que estabelecem com o voluntário. O ser humano é ser de relação, precisa do outro em suas mais variáveis necessidades, há mutualidade, ambos recebem algo em troca quando estão em contato um com o outro (Ribeiro, 2006), assim como afirma Esperança:

[...] então da parte das meninas que ficam ali na sala, elas falam assim, olha, tinha pessoa com depressão que melhorou fazendo o trabalho de voluntario, então elas mesmo falam, isso está fazendo muito melhor para mim do que para o paciente, né, e eu em si me sinto mais útil, sabendo que ali a gente pode fazer o melhor para alguém [...]. (comunicação pessoal, julho de 2021)

Esperança descreve um dos frutos da relação, a confirmação, que está no cerne da cura, e se estabelece quando um olha o outro como é naquele momento, um reconhecimento do outro em sua peculiaridade, permitindo-o ser peculiar. A partir desse olhar de fora, olha-se para dentro e confirma a si mesmo no processo (Hycner,1995).

Estar com o outro no momento presente, de maneira genuína, reverbera no outro gratidão, e o retorno desse doar-se é perceber-se confirmada, aceita, útil. Na relação, a mutualidade se dá na via de mão dupla da confirmação, ser confirmada e confirmar o outro. Essa segunda faceta também pode ser percebida na fala de Vitória:

[...] porque como eu precisei, eu vejo a outras pessoas a mesma necessidade que eu tive nesse grupo de câncer [...] eu me sinto muito bem depois de ajudar o próximo e ver que aquela pessoa está bem, que eu consegui fazer alguma coisa por ele [...]. (comunicação pessoal, julho de 2021)

No desenvolvimento de seu trabalho, Vitória confirma o paciente, como se dissesse: “eu sei como é, está tudo bem se sentir assim, ter essa necessidade”. A compreensão dela da experiência do outro fortalece o vínculo ao ter abertura e cuidado, como expressa na fala a seguir:

[...] eles gostam de mim de verdade, sem ter nada, que nem estou te falando, é 0800, entendeu, é eles gostam de mim, eu vejo que realmente a gente tem, é, contato com as pessoas quando a gente está podendo, a gente vê ali a gratificação [...]. (comunicação pessoal, julho de 2021)

Relacionar-se também é mutualidade, reciprocidade, e o retorno muitas vezes é pela gratidão. Uma das características de ser grato se relaciona ao seu caráter social, auxiliando na promoção e manutenção da relação e fortalecendo laços (Pieta; Freitas, 2009), como menciona Graça:

[...] eu ligo para ver o que que é, quer conversar, ou quer me contar alguma coisinha que aconteceu de boa na vida, outro quer que eu vou lá pegar, tipo assim, “ah, eu tenho umas pimentas aqui, queria te dar uma pimenta”, tipo isso, “plantei no meu quintal”, então eles pegam uma amizade assim com a gente, passa a ser da sua família, né [...]. (comunicação pessoal, julho de 2021)

Jacobs (1989) afirma que, ao assumir uma atitude dialógica, uma completa mutualidade pode surgir, e esta é uma característica essencial ao equilíbrio social. Faz parte do fazer humano retribuir o que lhe é dado, seja algo material ou não (Gouveia, 2017).

Ainda que seja possível se relacionar sem estar envolvido na relação, este não é o caso das participantes. Os relatos são acerca de seu “estar-com”, pela oferta de heterosuporte, confirmação e gratidão. A partir disso, há o fortalecimento de laços significativos e transformadores, tanto para quem doa quanto para quem recebe. Graça finaliza: “[...] ser voluntário todo mundo ganha, ninguém perde. O paciente ganha, o voluntário ganha, todo mundo ganha, ninguém perde [...]”. (comunicação pessoal, julho de 2021)

O trabalho voluntário exercido pelas participantes mostra-se colorido, cheio de vida, cuidadoso e contínuo. Como dito anteriormente, são as experiências de cada uma delas que tornam o desenvolver de sua atividade única e particular, somando-se os esforços com outras voluntárias para levar bem-estar biopsicossocial aos pacientes por elas cuidados.

Considerações finais

A escolha por ser voluntário não pode ser visto isoladamente, mas sim ao considerar diversos fatores: o caso de cada participante dessa pesquisa, sua história de vida, seus valores e princípios, o momento em que o voluntariado se tornou uma possibilidade para elas.

Considerando-se isso, através das três unidades, foi possível observar o modo como cada uma das participantes se vincula à instituição. De modo geral, de suas falas pode se elencar que, por seu vínculo com a instituição, se veem desenvolvendo a si mesmas, são confirmadas em seu fazer e doar, há sentido para sua vida e se sentem felizes, amadas, alvos de admiração e gratidão.

Todos esses elementos acontecem por meio da relação e do contato e demonstram características do inter-humano, principalmente inclusão, confirmação e presença. Seu modo de agir cuidadoso parece ser genuíno, sem que sejam forçadas a isso, gerando a percepção de ser intrínseco ao seu modo de ser. Dessa maneira, a escolha de se voluntariar parece ter-lhes sentido, fazer parte de sua existência. Quem são fortalece suas ações de voluntariado, e este incrementa suas percepções de si e do mundo, bem como suas relações.

Entretanto, notou-se que a relação das participantes com o mundo circundante de forma ampla não foi alcançada pela entrevista, pois a última questão foi entendida por todas como se referisse apenas aos pacientes, e não foi melhor explorada com mais perguntas acerca de amigos, familiares e outros conhecidos.

Ainda, durante o processo de escrita dos itens teóricos, esbarrou-se na produção literária, visto que, na busca, houve poucos ou nenhum artigo cientifico a depender do filtro usado. O filtro Gestalt-terapia e voluntariado (e seus derivantes) não correspondeu a nenhum trabalho e, ao substituir o filtro por Psicologia e voluntariado, foi encontrada quantidade razoável, entretanto, a maioria com anos de publicação inferiores a 2015.

A questão do tempo também foi considerada referente à escolha das participantes, pois duas delas correspondiam aos critérios de exclusão. Não foram retiradas por não poder se esperar mais de um mês (período entre a primeira e a terceira participante entrarem em contato) para iniciar a coleta de dados.

Considera-se possível explorar ainda mais a relação do voluntariado e a abordagem gestáltica. Neste trabalho, temas surgiram, como voluntariado de pessoas portadoras de câncer, relação de voluntariado e espiritualidade, voluntariado e heterosuporte, entre outros. Abordar mais subtemas nessa relação contribuiria para maior número de trabalhos recentes e pelo olhar da abordagem gestáltica.

A pesquisa possibilitou um novo olhar para o voluntariado e para os indivíduos que dele fazem parte. No decorrer de sua realização, a pesquisadora entrou em contato com um modo de olhar para o conteúdo. Pode-se perceber ressonância em sua prática clínica de dois modos principais: traduzir a fala dos clientes em palavras-chave e obter correspondência em sua experiência e recuar em algumas intervenções, obtendo mais cuidado, buscando antes compreender o que lhe era dito. São, então, dois movimentos considerados importantes pela pesquisadora e que lhe têm agregado.


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Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526