Running head: POEMA À LUZ DE BUBER

ARTIGO

O poema a escutatória à luz da filosofia de Martin Buber

The poem of listening in the light of Martin Buber's philosophy

Alessandra Pires Barreto 

Faculdades Integradas da América do Sul

Resumo

O homem vive em sociedade e daí se apreende que é um ser social, vivência suas experiências com outros indivíduos, sendo assim “liga-se” a outros na chamada relação. É sobre relação do homem com o mundo que o filósofo Martin Buber se debruça, sendo essa seu objeto de estudo. O livro Eu e Tu é a obra que melhor expressa o cerne de sua filosofia e tem como objetivo demonstrar que todos tem a capacidade de se relacionar de forma dialógica e precisam desenvolver essa habilidade, ou seja, de se relacionar considerando que há outro. A relação homem-mundo admite uma dualidade, a atitude Eu-Tu que constitui ato essencial do homem, atitude de encontro entre dois parceiros na reciprocidade e na confirmação mútua e a atitude Eu-Isso constituída pela a experiência e a utilização do outro, uma atitude objetivante. Considerando esses pressupostos filosóficos, o presente artigo objetiva correlacionar a filosofia buberiana com o poema A escutatória de Rubem Alves por considerar que ambas as obras versam pelo mesmo tema, o encontro. O poema foi dividido em vinte e três versos para facilitar a correlação e alguns pontos foram elencados para a correlação. Conclui-se então que Rubem Alves e Martin Buber concordavam que para viver assim seria necessário que cada um revesse seus comportamentos e os alinhasse com a consideração do outro, pois tal postura  é o revelar-se do humano.

Palavras-chave: filosofia de Buber; Eu-Tu; Eu-Isso; escuta; encontro

Abstract

The man lives in society and from there it is learned that he is a social being, experiencing his experiences with other individuals, thus being "connected" to others in the so-called relationship. It is about the relationship of man with the world that the philosopher Martin Buber focuses, this being his object of study. The book I and Thou is the work that best expresses the core of its philosophy and aims to demonstrate that everyone has the ability to relate in a dialogical way and need to develop this ability, that is, to relate considering that there is another one. The man-world relationship admits a duality, the I-Thou attitude that constitutes the essential act of man, an attitude of encounter between two partners in reciprocity and mutual confirmation and the I-That attitude constituted by the experience and use of the other, a objective attitude. Considering these philosophical assumptions, this article aims to correlate the buberian philosophy with the poem A escutatória by Rubem Alves, considering that both works deal with the same theme, the encounter. The poem was divided into twenty-three verses to facilitate the correlation and some points were listed for the correlation. It is concluded then that Rubem Alves and Martin Buber agreed that in order to live like this it would be necessary for each one to review their behaviors and align them with the consideration of the other, because such a posture is the revealing of the human.

Keywords: Buber’s philosophy; I-Thou; I-It; listening; encounter


O poema “A escutatória” à luz da filosofia de Martin Buber

The poem ‘a escutatória” in the light of Martin Buber's philosophy

“Somos seres sociais”, é o que diz certa máxima que tem seu sentido de existir, organizações grupais são tão antigas quanto o próprio homem. Essa característica não pode ser dissociada do humano, ainda que alguns prefiram viver sozinhos. Diante disso, faz-se necessário entender o significado de ser social e viver em sociedade. No dicionário da filosofia encontram-se conceitos para social e para sociedade:

a) que pertence à sociedade ou tem em vista suas estruturas ou condições, b) que diz respeito à análise ou ao estudo da sociedade (Abbagnano, 2007, p. 912).

a) campo de relações intersubjetivas, ou seja, das relações humanas de comunicação, portanto também b) a totalidade dos indivíduos entre os quais ocorrem essas relações; c) um grupo de indivíduos entre os quais essas relações ocorrem em alguma forma condicionada ou determinada (Abbagnano, 2007, p. 912).

Dessas significações pode-se entender que sendo o ser humano social não vive só, por isso “liga-se” a outros na chamada relação. A não ser na hipótese de alguém morando isolado em algum canto do mundo sem contato com outros homens é que não haveria relação nem sociedade, pois em todos os outros casos essa dimensão da condição humana se apresenta.

Os indivíduos ao redor do globo apresentam características comuns que os fazem ser categorizados como seres humanos. Uma delas é a relação que, segundo Abbagnano (2007, p. 841) consiste no “modo de ser ou de comportar-se dos objetos [indivíduos] entre si”. Enquanto modo de ser, é importante salientar que o ser humano se constitui biopsicossocial e espiritualmente envolvendo aí aqueles que o circundam e o modo como lida com sua existência e com a existência do outro. Ao comportar-se, o indivíduo também não pode fugir do que é construído socialmente, pois muitos de seus comportamentos são aprendidos e modelados pelos adultos enquanto se é criança e suas possibilidades enquanto “gente crescida” também se concretizarão na dependência de um com o outro.

Ao destacar a relação como uma das características humanas importantes chega-se à questão do caráter qualitativo. Não sendo possível a hipótese de alguém solo no mundo que não nutra ou não tenha nutrido nenhum tipo de relação, qual a qualidade das relações que os homens constroem entre si? Pode-se dizer que a qualidade das relações mantidas prediz sobre como as sociedades caminham e os resultados que são vivenciados.

Às voltas com reflexões como essas e outras tantas relativas às relações humanas e sendo impulsionado desde jovem ao contato com as pessoas, o filósofo Martin Buber instaurou uma nova forma de se compreender as relações. Na filosofia do diálogo, como ficou conhecido seu trabalho, o filósofo traz os conceitos de diálogo, realidade dual, atitudes do homem frente ao mundo, relação, encontro (Buber, 1923/2009).

O principal livro do escritor em relação a sua filosofia é a obra Eu e Tu de 1923. Segundo Zuben (2009, p. 10), o livro está dividido em três partes intituladas palavras, história e Deus respectivamente e traz de modo geral que “o lugar dos outros é indispensável para a nossa realização existencial”.

Segundo Ramon (2010), a obra Eu e Tu tem como objetivo demonstrar que todos têm a capacidade de se relacionar de forma dialógica e precisam desenvolver essa habilidade. Ao desenvolver essa capacidade de diálogo, o homem é capaz de realizar sua plenitude de ser humano. Não é possível desenvolver-se dialogicamente tendo por base apenas uma das duas atitudes que ele descreve.

Buber, por meio de suas vivências, entendeu que a relação é essencial e fundamenta a existência humana, pois “o homem é um ente de relação ou que a relação lhe é essencial ou fundamento de sua existência” (Zuben, 2009, p. 25). A relação se concretiza no entre, nessa dimensão “onde o encontro recíproco ou dialógico acontece” (Ramon, 2010, p. 540).

Nesse acontecimento que é o encontro dialógico, o mundo se apresenta ao homem e esta precisa responder a este que se apresenta. Segundo Luczinski e Ancona-Lopes (2010, p. 78), o modo como o homem se apresenta são “formas de responder à realidade, que sempre solicita um posicionamento”.

Tal posicionamento se refere às atitudes Eu-Tu e Eu-Isso. O Eu dessas duas atitudes é o mesmo, não há dois, o que acontece é a “dupla possibilidade de existir como homem [de revelar-se como humano]” (Zuben, 2009, p. 26). A escolha entre uma atitude ou outra é uma decisão baseada na relação homem-mundo, pois elas não podem acontecer ao mesmo, por isso se alternam e se entrelaçam constantemente.

Atitude Eu-Tu

Essa atitude também é chamada de relação para Eu-Tu que constitui “ato essencial do homem, atitude de encontro entre dois parceiros na reciprocidade e na confirmação mútua” (Zuben, 2009, p. 26). Nessa relação o Eu encontra o Tu que se apresenta tornando-se presente para ele, mostrando-se em sua totalidade. O Eu não pode existir de forma independente, ele mesmo só é Eu quando encontra o outro na relação.

Os momentos de relação Eu-Tu são breves e, inevitavelmente, se tornarão Eu-Isso. Ninguém pode experienciar apenas o Eu-Tu, pois isso há alternância entre as atitudes. Segundo Buber (1923/2009, p. 63) “os momentos em que Eu-Tu se estabelece são inquietantes, singulares, mas indispensáveis e o Tu via de regra se torna um Isso depois”.

O Eu se torna Eu na relação com o Tu e este Tu pode ser qualquer ente, a relação Eu-Tu não se encerra entre humanos. Lima (2008, p. 233) afirma que “um verdadeiro encontro entre pessoas ou entre uma pessoa e a arte também pode ser uma relação Eu-Tu, pois a outra pessoa ou a arte é experienciada sem rótulos ou limites e é, consequentemente, conectada a tudo, a Deus”.

Na filosofia buberiana, a existência humana é inseparável da dimensão de encontro com o outro que pode se dar em um dos dois tipos de atitudes. Entretanto, maior ênfase é dada à relação para Eu-Tu, pois é nessa dimensão de encontro que o Ser se mostra completamente tanto para o outro como para si mesmo e por isso há a atualização. Segundo Zuben (2009, p. 32) “o Tu orienta a atualização do Eu e este, pela sua aceitação, exerce sua ação na presentificação do outro que, neste evento, é o seu Tu”, é por isso que nessa relação reciprocidade é tão importante.

Atitude Eu-Isso

Essa atitude também é chamada de relacionamento para Eu-Isso e não se refere a desqualificação do outro, mas a forma como esse Eu se apresentará no encontro. Nesse relacionamento há “a experiência e a utilização [do outro], atitude objetivante” (Zuben, 2009, p. 25), não está inserido em uma dimensão dialógica, mas sim monológica. Segundo Lima (2008, p. 233) “relações ‘Eu-Isso’, por outro lado, são mais típicas do viver cotidiano, com a outra pessoa ou meio/agente/veículo transmissor percebido como objeto, como separado”.

O que mais difere das duas atitudes está na postura que o Eu assume, “no relacionamento Eu-Isso, se o Isso está presente ao Eu não podemos dizer que o Eu está na presença do Isso. (...) no relacionamento Eu-Isso o outro não é encontrado como outro em sua alteridade”. Um exemplo é um relacionamento abusivo, um dos parceiros é o “possuidor” do outro e o trata como coisa, sua posse, ignorando totalmente a totalidade do parceiro, suas vontades e decisões.

Esse exemplo é apenas uma das possibilidades do relacionamento Eu-Isso, pois essa atitude é essencial na vida humana. Como dito, as duas atitudes se alternam de modo que nem se vive só no Eu-Tu nem apenas no Eu-Isso. É importante salientar que o Isso pode ser qualquer ente em relacionamento para um Eu desde que seja experiência para este que sempre torna o Isso posterior a esse Eu.

 O homem experencia seu mundo e essas experiências ou a atitude que escolhe permite de a relação tirar respostas do explorado constituindo Eu-Isso. A experiência não pode acontecer no entre, pois ao experenciar o outro não toma partido. Buber (1923/2009, p. 45) afirma que

o experimentador não participa do mundo: a experiência se realiza ‘nele’ e não entre ele e o mundo. O mundo não toma parte da experiência. Ele se deixa experienciar, mas ele nada tem a ver com isso, pois, ele nada faz com isso e nada disso o atinge.

No relacionamento para Eu-Isso não há presença nem presente, tudo é passado, organizado no tempo e espaço, categorizado. Apesar de necessário o homem se organizar e utilizar seu mundo em objetividades, ninguém pode viver, prioritariamente, nesse relacionamento. Aquele que se relaciona por essa atitude, se contentando com o mundo das coisas encontra um refúgio, mas que ao longo de sua vida se mostrará debilitado.

Estar em constante contato com o mundo pelo Eu-Isso pode caracterizar o “egótico aquele que se relaciona consigo mesmo ou o homem que entra em relação com o seu si-mesmo” (Zuben, 2009, p. 29). Enquanto na relação Eu-Tu, a pessoa está livre e se aproxima do Ser, o egótico se afasta do Ser e busca constantemente afirmar seu modo de ser, que pode ser entendido como cristalizado, aqui não há atualização.

Zuben (2009, p. 10) afirma que desde jovem já havia em Buber a semente da relação em que “o lugar dos outros é indispensável para a nossa realização existencial” seja ela pela relação Eu-Tu ou pelo relacionamento para Eu-Isso, dessa forma Buber (1923/2009, p. 81) afirma que “homem algum é puramente pessoa [Eu da relação Eu-Tu], e nenhum é puramente egótico [Eu do relacionamento Eu-Isso]; nenhum é inteiramente atual e nenhum totalmente carente de atualidade. Cada um vive no seio de um duplo Eu”, porém há homens que são mais pessoas que outros por decidirem se presentificar ao Tu, enquanto outros são mais egóticos por escolherem utilizarem os entes, mas do que encontrá-los.

Ambas as atitudes frente ao mundo são formas que o homem tem de se revelar como humano (Zuben, 2009) e ao revelar-se o mesmo é existência, é consciência de si e do outro. Dessa forma, padrões de comportamentos podem ser adquiridos, alterados e/ou negados pelo abrir e fechar de gestalten. Entendendo assim, foi escolhido o poema A escutatória de Rubem Alves para correlacionar com a teoria de Buber por acreditar que o autor nessa obra conseguiu de forma lírica traduzir a necessidade do encontro e do diálogo autêntico. Portanto, o objetivo do presente artigo é correlacionar as duas obras elencando os pontos que ambas versam pelo mesmo tema, o encontro.

Método

        O instrumento utilizado é a transcrição do poema A escutatória que foi organizado em versos para facilitar a correlação posterior conforme disponibilizado por Marin (2018). Organizado assim, o poema apresenta vinte e três versos que falam sobre a experiência do autor em relação a sua vivência com o encontro.

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil…

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”.

Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer…

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.

Contou-me de sua experiência com os índios.

Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.

(Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as ideias estranhas).

Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio.

A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Ouçamos os clamores dos famintos e dos despossuídos de humanidade que teimamos a não ver nem ouvir.

É tempo de renovar, se mais não fosse, a nós mesmos e assim nos tornarmos seres humanos melhores, para o bem de cada um de nós.

É chegado o momento, não temos mais o que esperar.

Ouçamos o humano que habita em cada um de nós e clama pela nossa humanidade, pela nossa solidariedade, que teima em nos falar e nos fazer ver o outro que dá sentido e é a razão do nosso existir, sem o qual não somos e jamais seremos humanos na expressão da palavra.

Resultados e Discussão

        Nos primeiros versos, o autor informa sua necessidade de criar algo novo chamado escutatória em contraponto ao existente curso de oratória. Isso porque falar é fácil, a oratória insere-se na dimensão da retórica criada na época de Platão com objetivo específico de convencer. Segundo Abbagnano (2007, p. 856), retórica é

arte de persuadir com o uso de instrumentos linguísticos (...) portanto, o retórico é hábil em falar contra todos e sobre qualquer assunto, de tal modo que para a maioria das pessoas, consegue ser mais persuasivo que qualquer outro com respeito ao que quiser.

        Pode-se perceber por essa definição que na oratória ou arte da retórica, o outro não é considerado, sua opinião sobre qualquer assunto não é considerada, visto que o objetivo é convencer. Rubem Alves estranhando esse posicionamento, afirma que se torna necessário então, aprender a dimensão da escuta, considerar o outro na relação.

        Amatuzzi (1990) ao comentar as obras de Rogers, Merleau-Ponty, Ricouer e Buber, apresenta um exemplo sobre a dimensão do escutar. Em certa oportunidade, uma professora ao ouvir uma pergunta de seu aluno responde-a, porém, o mesmo fica sem a resposta. Para o autor, a professora respondeu ao seu aluno sem de fato ter ouvido o que ele queria perguntar, “o que não foi realmente ouvido? O significado (...). Ela não ouviu o significado real” (p. 1).

        Considerar o outro ao apreender o significado pleno do que diz refere-se ao ouvir realmente, escuta plena. O “ouvir é mais que observar, é estar em relação, e, portanto, tornar-se presente” (Amatuzzi, 1990, p. 2).

        Isso quer dizer que para o curso de escutatória que Rubem Alves propõe necessita-se de estar presente caracterizando a atitude Eu-Tu como postula Buber (1923/2009). É na relação Eu-Tu que se encontra a presença, é “no encontro dialógico [que] acontece uma recíproca presentificação do Eu e do Tu” (Zuben, 2009, p. 29).

        No terceiro verso, o escritor afirma “escutar é complicado e sutil” e essa é uma das características da relação Eu-Tu, pois para esta acontecer é preciso que o Eu se entregue totalmente ao Tu. A totalidade refere-se a uma entrega do Eu que não oculta nada de si, pois não tem reserva ao encontro. Buber (1923/2009, p. 46) explica esse conceito com o exemplo de uma árvore, “tudo o que pertence à árvore, sua forma, seu mecanismo, sua cor e suas substâncias químicas, sua ‘conversação’ com os elementos do mundo e com as estrelas, tudo está incluído numa totalidade”.

        Não é de se espantar que essa forma de relação, a escuta plena, seja complicada. Não é fácil para nenhum homem se colocar inteiramente frente ao outro, não esconder nenhuma parte de si, por isso Buber (1923/2009) afirma o caráter inquietante da relação Eu-Tu, porém indispensáveis. “Os momentos de encontro com o Tu se manifestam como episódios singulares, (...), mas que, no entanto, nos induzem perigosamente a extremos que debilitam a solidez já provada, e deixam atrás deles mais questões que satisfações, abalando nossa segurança (Buber, 1923/2009, p. 63).

        Nos versos seguintes, Rubem Alves versa sobre o silêncio de dentro, a resistência ao ímpeto de se colocar à frente do outro, “sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer”. Esse comportamento de não se calar a voz de fora nem fazer silêncio dentro contraria a relação Eu-Tu, pois esta se faz no entre, esse espaço que não é de ninguém, não há um interrompendo o outro, mas sim o Eu respeitando o Tu em reciprocidade.

        Nessa atitude, não tem um mais bonito que o outro, um é como o outro, ambos ensinam e ambos aprendem. Comportar-se em uma dimensão de vaidade refere-se ao comportamento do egótico (referente ao relacionamento Eu-Isso), pois ele

se delicia com seu modo-de-ser específico, que ele imagina ser o seu. Pois, para ele, conhecer-se significa fundamentalmente sobretudo estabelecer uma manifestação efetiva de si e que seja capaz de iludi-lo cada vez mais profundamente (...) ocupa-se com o seu "meu": minha espécie, minha raça, meu agir, meu gênio (Buber, 1923/2009, p. 84).

        Ao passo que na relação Eu-Tu, a pessoa descobre seu Ser, torna-se consciente de sua existência e do modo que a vivencia, “todos em silêncio, à espera do pensamento essencial” para Rubem Alves ou o Tu se apresenta ao Eu presente para Buber.

        O escritor arremata seu poema fazendo um chamado à comunhão. Para ele a beleza está onde um ouve ao outro, relaciona-se com esse outro de forma plena, em tudo que ambos são, “comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto”. E ao finalizar dessa maneira, faz menção a presença de Deus que para Buber é o Tu eterno.

        Segundo Zuben (2009), para Buber a relação com o humano é interdependente da relação com Deus, pois “absoluta presença na esfera do encontro com o Tu eterno tem seu correspondente no sentido da independência e da relação na esfera humana. Há como que um paralelismo entre a esfera humana e a esfera do encontro com o Tu eterno”. Não há como dissociar na concepção de ambos os autores a relação entre homens da relação com Deus, há aí dependência mútua.

        Buber (1923/2009) afirma “nada sei sobre um ‘mundo’ e sobre uma ‘vida no mundo’ que separe alguém de Deus (...). Aquele que verdadeiramente vai ao encontro do mundo vai ao encontro de Deus”.

        Por fim, Rubem Alves faz o chamamento para todos entrem em contato com sua humanidade e, isto, por meio da escuta plena que para ele dá sentido à existência, “é a razão do nosso existir, sem o qual não somos e jamais seremos humanos na expressão da palavra”. O mesmo afirma Buber em toda sua obra da filosofia do diálogo, visto que a relação “é essencial ou fundamento de sua existência” (Zuben, 2009, p. 25).

Considerações finais

Viver em comunidade requer de todos, posturas que permitam vivências saudáveis e harmoniosas. Rubem Alves e Martin Buber concordavam que para viver assim seria necessário que cada um revisse seus comportamentos e os alinhasse com a consideração do outro. Não se vive sós e por isso, não faz sentido que as posturas tomadas, independente da área, considere apenas seus próprios interesses.

O que ambos têm a ensinar constitui-se um processo. Sendo o revelar-se do homem dual, é necessário considerar que cada momento de Eu-Isso e Eu-Tu são aprendizagens e como tal modificarão o Ser, seja por um momento ou permanentemente.


Referências

Abbagnano, N. (2007). Dicionário de filosofia. Martins Fontes.

Amatuzzi, M. M. (1990). O que é ouvir. Estudos de Psicologia, 2, 1–4.

Buber, M. (2009). Eu e tu. Centauro. (Trabalho original publicado em 1923)

Lima, A. A. (2008). Textos clássicos: Carl Rogers dialogues. Revista da Abordagem Gestáltica, 14(2), 233–243.

Luczinski, G. G., & Ancona-Lopes, M. (2010). A psicologia fenomenológica e a filosofia de Buber: O encontro na clínica. Estudos de Psicologia, 27(1), 75–82.

Marin, B. (2018, 13 de junho). Texto de Rubem Alves “A escutatória” que traz uma visão sábia e muito pertinente para os dias de hoje, sobre a arte de escutar. Amo Minha Idade. http://amominhaidade.com.br/saude/texto-de-rubens-alves-a-escutatoria-que-traz-uma-visao-sabia-e-muito-pertinente-para-os-dias-de-hoje-sobre-a-arte-de-escutar/

Ramon, S. P. (2010). A psicoterapia dialógica de Martin Buber. Revista Psico, 41(4), 534–541.

Zuben, N. A. (2009). Introdução. In M. Buber, Eu e tu (pp. 5–42). Centauro.

Alessandra Pires Barreto 

Correspondência: alepb18@gmail.com

Revista IGT na Rede, v. 23, nº 44, 2026, p.1-18 DOI 10.5281/zenodo.20290648 

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526