Running head: RELATO DE EXPERIÊNCIAS MARCANTES E APRENDIZADOS NA GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA NA UFPA

ARTIGO

Relato de Experiências Marcantes e Aprendizados na Graduação em Psicologia na UFPA

Student Academic Journey in the Undergraduate Psychology Program at UFPA: Significant Experiences and Learning

Adelma do Socorro Gonçalves Pimentel

Camila Matias da Silva

Universidade Federal do Pará

RESUMO

Neste relato de experiência há um entrelaçamento entre a trajetória acadêmica, e a vivência de psicólogas. No plano pessoal, uma das autoras é descendente de um quilombo no Pará, enfrentando desafios para ingressar e permanecer na Universidade Federal do Pará, curso de Psicologia, por meio do sistema de cotas. Entre as inúmeras dificuldades situamos as ocorrências durante o ensino remoto na pandemia da COVID-19; conciliar estudos e maternidade solo. Com isso, ressaltamos a importância das políticas afirmativas e da bolsa permanência para a continuidade acadêmica de mulheres pretas, solteiras com filhos.  As disciplinas e os estágios que marcaram a formação em psicologia foram: clínica gestáltica, saúde e psicologia organizacional. Entre aprendizagens formidáveis destacamos a importância em desenvolver a escuta no presente, sem desviar o pensamento e o contato. Descrever aspectos da história vivida evidencia a superação de barreiras socioeconômicas e reforça a importância da educação pública inclusiva para a transformação pessoal e profissional na graduação em Psicologia.

Palavras-chaves: Relato de Experiências; Psicologia; Educação Inclusiva. Mulher; Quilombola

ABSTRACT

This experience report intertwines academic trajectories with the experiences of psychologists. On a personal level, one of the authors, a descendant of a quilombo (a slave community) in Pará, faced challenges in entering and remaining at the Federal University of Pará, a Psychology program, through the quota system. Among the numerous difficulties, we highlight the challenges experienced during remote learning during the COVID-19 pandemic; balancing studies with single motherhood. Thus, we emphasize the importance of affirmative action policies and the retention grant for the academic continuity of single Black women with children. The courses and internships that marked her psychology training were: Gestalt clinical psychology, health, and organizational psychology. Among the remarkable lessons learned, we highlight the importance of developing a listening ability in the present, without diverting thought and contact. Describing aspects of her lived experience highlights the overcoming of socioeconomic barriers and reinforces the importance of inclusive public education for personal and professional transformation in undergraduate psychology.

Keywords: Experience Report; Psychology; Inclusive Education; Women; Quilombola

INTRODUÇÃO

O presente relato de experiências objetiva apresentar um entrelaçamento entre aspectos da trajetória acadêmica e a vivência de uma psicóloga recém-graduada. No plano pessoal, uma das autoras é descendente de um quilombo no Pará, enfrentando desafios para ingressar e permanecer na Universidade Federal do Pará, curso de Psicologia, por meio do sistema de cotas a jornada acadêmica, de uma discente do curso de Psicologia, detalhando práticas marcantes e conhecimentos, obtidos durante a graduação na Universidade Federal do Pará (UFPA).

A narrativa implica em focalizar o percurso e o processo da rememoração e reflexões dos fatos passados relatados, na qual somos sujeitas da nossa própria história, mediante uma narrativa da vida, que faz sentido, visa clarificar e ressignificar aspectos, dimensões e momentos da formação. No dizer de Camila Matias da Silva (2025), após o ingresso, em 2018, no curso de Licenciatura Integrada em Educação em Ciências, Matemática e Linguagem, por meio do Processo Seletivo Especial-PSE para Indígenas e Quilombolas, percebi a falta de afinidade com o curso e que não me encaixaria naquela profissão, então optei por fazer uma nova prova, passando para o curso de psicologia. Na sequencia do texto, apresentamos o território onde o quilombo se localiza, a vida no lugar e o caminho para tornar-se psicóloga.

Vida no Território

Camila Matias da Silva (2025), nascida em 17 de setembro de 1991, atualmente com 33 anos de idade, primogênita de 04 irmãs é descendente quilombola, nascida em Vila de Alto Bonito, que pertence ao município de Cachoeira do Piriá (PA), localizado à margem do Rio Gurupi, divisa do Pará com o Maranhão, conforme figura 1:

Figura 1: Vila de Alto Bonito, Divisa do PA/MA.

Fonte:  Belezas do Meu Gurupi (MA), (2016).

 No cotidiano dos habitantes minha vida no interior era simples ligada à natureza, o dia a dia envolvia a pesca meu pai, que foi um excelente pescador, ele sabia exatamente onde encontrar os melhores pontos de pesca no rio. Além de trabalhar na roça com plantações e cultivo de frutas, verduras e maniva (mandioca) para a produção da farinha. Em casa como éramos todas mulheres, meu pai não nos obrigava a trabalhar com ele, mas ajudávamos no tratar dos peixes para alimentação e na lavagem das verduras e frutas, diariamente, para o nosso próprio consumo. Naquele tempo não tinha energia elétrica, e quando tinha iluminação noturna, era por algumas horas através de geradores, que eram desligados geralmente às 22h. Após esse horário usava-se lamparina à querosene. Televisão era raro em algumas casas, recordo que ouvíamos rádio para saber das notícias. Água para consumo vinha de poço artesiano, apesar das dificuldades, a vida em Alto Bonito era tranquila. Lembro-me de que, aos finais de semana, eu ia para a casa da minha avó Benedita, já falecida, que morava na comunidade quilombola de Bela Aurora, onde meu falecido pai nasceu. Bela Aurora também fica localizada às margens do Rio Gurupi. (Camila, 2025)

Figura 2: Comunidade de Bela Aurora.

Fonte: Quilombo Bela Aurora, 2019.

PRIMEIROS ESTUDOS

Em 1999 Camila iniciou a alfabetização, aos 08 anos de idade. Da escola, muitas recordações amorosas, era simples tinha apenas quatro salas de aula, uma secretaria, uma cozinha para o preparo da merenda e dois banheiros, estudei nessa escola até o 1° ano do ensino médio. As festas juninas e o desfile do 07 de setembro eram os melhores eventos da escola, gostava muito de dançar quadrilha e participar do desfile cívico, fazia parte da banda marcial, o instrumento que eu tocava era o prato, a comunidade parava para assistir ao desfile.

O ensino no seu lugar de origem era precário, devido à falta de professores para lecionar no ensino médio. Teve que mudar para casa dos primos em Belém para prosseguir com os estudos, concluindo o ensino médio em 2009. Após a conclusão do ensino médio, a necessidade a obrigou a entrar no mercado de trabalho para ajudar nas despesas da casa e no seu sustento também. Nessa caminhada fez um curso técnico em Segurança do Trabalho em 2014, período em que engravidou, e a partir desse momento percebeu que deveria seguir seus estudos para oferecer uma vida melhor para a filha gestada.

Acesso à universidade pela política pública afirmativa de cotas

A entrada na universidade é uma experiência única e diferenciada para cada pessoa. Camila sempre se questionava sobre como conseguiria entrar, e se um dia estudaria em uma instituição de ensino federal. Em 2011, fez o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) pela primeira vez e percebeu que sem recurso para investir em cursinho preparatório seria difícil alcançar uma boa nota, por esse motivo desistiu dessa possibilidade e se dedicou apenas ao trabalho, anos depois descobriu que poderia concorrer a uma vaga pela Lei de Cotas, o que mudou sua perspectiva.

A política de cotas, instituída pela Lei n. 12.711 e aprovada em 2012, decreta que as universidades federais reservem 50% de suas vagas para estudantes com renda igual ou inferior a 1,5 salário-mínimo per capita e que cursaram o ensino médio integralmente em escolas públicas. A lei também estabeleceu cotas para estudantes autodeclarados pretos, pardos e indígenas, além de pessoas com deficiência (Brasil, 2012).

Carvalho (2022), destaca que no início dos anos 2000 o sistema de ações afirmativas entrou em vigor com a promoção da reserva de vagas por meio de cotas sociais e raciais, sendo a Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ), uma das pioneiras na efetivação dessa política. De acordo com Santana (2021), as políticas de ações afirmativas, como o sistema de cotas, respeitam o princípio constitucional da igualdade, eliminando os efeitos da discriminação com base em raça, gênero e nacionalidade, realidade existente no âmbito educacional de ensino superior na qual a disputa é mais acirrada. Portanto, tais reparações são importantes tendo em vista o processo historicamente desigual de educar-se para com a população negra.

Braun, Oliveira e Marques-Silva (2024), apontam em seu estudo que a maioria dos estudantes, cerca de 81,6%, acessaram a UFPA por meio do sistema de cotas. A pesquisa demonstrou que o principal meio de acesso aos cursos foi através do Processo Seletivo Especial para Indígenas e Quilombolas (81,8%), seguido pela cota PPI, destinada a alunos Pretos, Pardos e Indígenas. Deixando evidente a grande abertura de oportunidades para grupos historicamente marginalizados, que ainda hoje enfrentam desafios acadêmicos significativos, desde a educação básica.

 A Universidade Federal do Pará (UFPA)

A UFPA é a maior instituição de ensino superior pública localizada na Região Norte do Brasil, fundada em 02 de julho de 1957 no município de Belém, tem 68 anos de profícua contribuição a produção do conhecimento em Psicologia, tendo o curso sido criado em 1973. Hoje em dia a UFPA com uma estrutura multicampi, com doze campi, distribuídos entre todo o Estado (capital/interior), com uma população de mais de 50 mil alunos de graduação, pós-graduação, educação básica, técnica e tecnológica. Abriga uma escola de aplicação, além de dois hospitais universitários e diversos laboratórios.

Acerca do Processo Seletivo Especial (PSE-IQ) / lei de cotas ressaltamos que é um procedimento seletivo destinado à seleção distinta para candidatos Indígenas e Quilombolas, que não realizaram ou iniciaram curso de graduação e que se encontrem em condições de vulnerabilidade econômica, social e educacional. Para a inscrição os candidatos precisam comprovar sua origem indígena ou quilombola por meio de documentos, como declarações oficiais de lideranças das respectivas comunidades, comprovante de residência, além de declarações de pertencimento étnico. As etapas do processo seletivo incluem uma prova de redação e entrevistas, apenas são entrevistados os candidatos aprovados na prova de redação.

Estudar entre dificuldades e resistências

Por três anos (2016, 2017, 2018) Camila tentou ser aprovada no processo seletivo, alcançando êxito no ano de 2018, adentrando no curso de Licenciatura Integrada. A escolha se pautou na admiração ao poder de transformação da educação, no entanto, ao longo do curso vivenciei a licenciatura em uma escola pública com 30 crianças em uma só turma e percebi que eu não conseguiria ser professora. (Camila Matias da Silva, 2025)

Desde o momento que entrou na graduação, sabia que sua vida acadêmica seria limitada, com problemas para participar de atividades externas como projetos de pesquisa e estágios, principalmente por morar sozinha com minha filha, tendo em vista a dificuldade de encontrar alguém para cuidar dela enquanto eu estudava. Refletindo sobre essa questão Mendes (2021a), enfatiza que a responsabilidade pelos cuidados com os filhos é frequentemente atribuída exclusivamente às mulheres, sendo um desafio enfrentado pelas estudantes mães ao ingressarem na universidade. Situação diferente entre os homens, sem as mesmas cobranças quando possuem responsabilidade em relação a paternidade, garantindo mais liberdade para se dedicarem aos estudos.

Em 2019 a prova de Mobilidade Acadêmica Afirmativa (MOBAF) ofereceu a Camila a oportunidade de trocar de curso, por meio de uma prova de redação. Entretanto, neste mesmo ano, ela e sua família de origem vivenciaram uma grande tristeza, por sua irmã, após o parto ter sido exposta a erro médico, tendo complicações de saúde. Deste moo, após 14 dias ela se deslocou de Bragança para Belém, internando-se na Santa Casa de Misericórdia, maternidade de referencia, onde recebeu o diagnóstico de sepse, conhecida também como infecção generalizada. Após 3 meses na UTI, ela saiu com vida, desafiando o saber médico, que só acreditaram na sua sobrevivência depois de vê-la recebendo alta.

Acompanhar a irmã no hospital favoreceu a Camila ter o primeiro contato com um profissional da psicologia,

No início sentia desconforto diante do psicólogo que fazia visita ao leito para conversar com os pacientes e familiares, eu hesitava em responder algumas perguntas para um estranho. No entanto, com o passar do tempo, comecei a confiar nele e expressar o que eu sentia, compartilhando meus pensamentos e sentimentos diante daquela situação.

Sobre essa questão, Moretto (2019a) destaca que, seja lá onde estiver situado, o papel do profissional de psicologia é desafiador e pode ser desconfortável, especialmente quando no contexto, o que domina é a ordem médica. O psicólogo pode ser visto como um estranho e seu trabalho pode ser mal interpretado, pois o primeiro contato do paciente é com o saber médico. Para Camila, contudo, aquele contato despertou seu interesse pela profissão, descobrir o impacto positivo que a psicologia pode ter na vida das pessoas; o psicólogo me dava suporte emocional todos os dias e sua presença se tornou uma fonte de conforto e segurança principalmente na hora da entrega do boletim médico.

Após esse acontecimento, aprovada na prova MOBAF Camila aguardava ansiosamente a chegada de 2020 para começar a estudar, embora não soubesse muito sobre o curso, estava determinada a focar nos estudos e dar o meu melhor, impulsionada por uma vontade imensa de aprender e ajudar as pessoas. Estava me preparando para o início das aulas que seriam no mês de março, mas logo começou-se a noticiar, em fevereiro, informações sobre casos de internação e morte por meio de infecção causada pelo Corona vírus. Infelizmente, em março, iniciou-se o que ficou conhecida como “pandemia da covid-19". No mesmo mês a UFPA emitiu uma nota inicial suspendendo temporariamente as atividades presenciais, mas logo após, ampliou-se para uma medida por tempo indeterminado.

Impactos da pandemia da covid-19 na formação

Apesar do medo e da incerteza do amanhã diante da pandemia, a expectativa de iniciar a graduação em psicologia era imensa; uma intensa vontade de conhecer a história da psicologia, os professores e a turma. A Resolução n. 5.294, de 21 de agosto de 2020, emitida pela gestão superior, instituiu o Ensino Remoto Emergencial (ERE)[1] e as atividades de ensino na UFPA iniciaram na forma online, em outubro do mesmo ano, dispensando o compartilhamento do mesmo espaço físico entre os docentes e discentes (UFPA, 2020). Alguns sentimentos decorrentes do contexto:  frustração em estudar online; alegria por realizar essa conquista; preocupação, em meio ao caos que o mundo passava; a forma como estávamos vivendo, pois, o distanciamento social era obrigatório para conter a disseminação do vírus.

Pela limitação no uso das tecnologias digitais, os alunos ficaram à espera do ERE até outubro de 2020, pois os professores precisavam adquirir conhecimentos sobre as metodologias digitais e o novo modelo de ensino, saindo do ensino tradicional para ajustar os conteúdos das aulas nas plataformas online. Dessa maneira, as aulas foram divididas em duas etapas, o modelo assíncrono, que se deu plataforma Google Classroom, onde foram anexados textos e atividades pelos professores, e o modelo síncrono, que acontecia por vídeo conferência ao vivo e gravada pelo aplicativo Google Meet. O meio de comunicação e disponibilização dos links das aulas se deu por meio do compartilhamento em grupo de WhatsApp ou e-mail, pelos professores de cada disciplina ministrada. Abrir a câmera para a participação durante as aulas era opcional, mas poderíamos usar o áudio ou o chat para esclarecer dúvidas ou registrar presença.

Teixeira e Nascimento (2010) destacam que o uso dessas ferramentas demonstrou que o sistema brasileiro não estava preparado para essa mudança, surpreendendo governo, secretarias, escolas e docentes, que tiveram que se adaptar o, que causou impacto significativo no ensino-aprendizagem, pois a maioria dos docentes e alunos nunca haviam tido experiência com essa ferramenta educacional. Por sua vez, Mello e Prado (2024) destacam a problemática da carência e desigualdade no acesso ao serviço. As autoras evidenciam a existência de marcadores sociais que impactam no processo de ensino-aprendizagem, na qual, estudantes e professores no contexto do campo e nas comunidades indígenas e quilombolas, se apresentaram como os mais afetados, tendo em vista a falta do acesso a tecnologias.

O novo modelo de ensino gerou em Camila uma mistura de expectativas, medo e dúvidas, pelo fato de não ter experiência em estudar na forma remota e em relação as disciplinas do primeiro semestre, que não havia cursado. Também, ela se encontrava de luto pois, seu pai havia falecido recentemente.  Assim, acumulava o sentimento de tristeza, à necessidade em conciliar aulas, com o trabalho doméstico de casa e cuidados com a filha,

Foram uma série de obstáculos para conseguir estudar naquele período: imprevistos com a internet, pois em sua casa não tinha Wi-Fi, e usava os dados móveis, o que dificultava a velocidade da internet, deixando a tela congelada ou com falhas no áudio. Havia uma grande quantidade de leituras; com o tempo fui aprendendo a manter a calma e conseguia driblar o sono para estudar de madrugada com mais tranquilidade.

Camila pontuou que umas das aulas mais fascinante foi a de Antropologia, em que o professor explicou sobre o psiquismo do ser humano desde a época Freudiana, a partir da obra Totem e Tabu: Freud refletia sobre o psiquismo, a organização social, e nossos desejos e controles de impulsos.

Após conhecer essa disciplina, ampliei minha reflexão acerca do ser humano, que não tem a capacidade de sobreviver sem a sociedade, sem o conhecimento construído socialmente, passei a refletir como somos egoísta e sempre priorizamos nossa sobrevivência o que muitas vezes não se torna um facilitador de um convívio social.

Oliveira (2020) enfatiza a interseção entre psicologia e a Antropologia, em que com objetos distintos contribuem pata a compreensão da complexidade das culturas, da relação entre ambiente, cultura e comportamento individual.

Na sequência dos estudos o volume de disciplinas aumentou. Após ficar reprovada em uma matéria Camila percebeu a necessidade em planejar sua rotina de estudos,

Refletindo sobre esse período, reconheço que o meu aprendizado ficou comprometido em algumas disciplinas; na disciplina Epistemologia, metade da turma desistiu, pois no ensino remoto era difícil a interação com o professor, que apenas abria a sala virtual colocava o texto e lia. Durante aquele momento, percebi que o ambiente presencial era fundamental para os estudos, o trabalho em equipe e esclarecimentos de dúvidas.

Naquele período, Camila buscou forças e motivação para continuar: as aulas de Gestalt I contribuíram para permanência no semestre. A professora, com seu jeito extrovertido, contagiante e sua alegria, nos ajudava a ter ânimo diante aquele contexto; além disso, conduzia as aulas com exemplos claros e acompanhados de atividades que envolviam toda a turma.

RETOMADA DAS AULAS PRESENCIAIS E O ESTÁGIO NA CLÍNICA ESCOLA

Em 2022 com o fim da pandemia, o retorno das aulas presenciais veio acompanhado de mais exigências, como seguir o protocolo sanitário, a perda da flexibilidade nos estudos e a gravação das aulas. Após tanto tempo de pandemia com atividades virtuais, havia um clima geral de felicidade em voltar ao convívio social, estar na universidade era motivo de grande vitória diante de tudo que passamos.

As alunas que também eram cotistas dividiam preocupações em relação a gastos com passagens de ônibus e materiais. Assim, ao acompanhar o site da UFPA Camila soube da abertura de editais de auxílios estudantis. Nessa perspectiva, Mendes (2021b) destaca que a noção de permanência na universidade parte da disponibilidade de renda como um fator fundamental para a garantia desse estudante na instituição. Dessa forma, a Universidade Federal do Pará (UFPA), por meio da Superintendência de Assistência Estudantil (SAEST), publicou a abertura do edital para o Programa de Bolsa Permanência (PBP), que é um auxílio financeiro criado em 2013 pelo Ministério da Educação (MEC) por meio da Portaria N° 389, de 9 de maio de 2013 (Brasil, 2013) destinado a estudantes indígenas e quilombolas em vulnerabilidade socioeconômica, fiz minha inscrição imediata no Sistema Gerencial de Assistência Estudantil (SIGAEST), plataforma onde os alunos realizam inscrições para auxílios e serviços ofertados pela UFPA.

Após a análise dos documentos enviados por Camila foi deferido o recurso que iria garantir sua permanência no curso; deste modo foi cursando os semestres, em que destaca o quinto semestre

Foi também como um dos períodos de maior aprendizado, com a disciplina Técnicas de Pesquisa Quantitativa. Até aquele momento, eu ainda não havia produzido nenhum artigo e não sabia como estruturar um, devido à falta de contato anterior com a disciplina Métodos de Pesquisa em Psicologia, no início do curso. Como requisito avaliativo, a professora propôs a elaboração de um artigo de revisão bibliográfica em grupo, com tema de livre escolha. No entanto, houve um sentimento de receio em realizar a pesquisa, medo em apresentar minha escrita, devido ao problema anterior que tive com outro professor e não conseguir contribuir de forma adequada com o grupo. Durante o período das aulas, estabeleci uma relação de confiança com a professora. Ao apresentar nosso trabalho, eu fazia questão de sentar ao seu lado, para receber um feedback detalhado sobre os aspectos positivos e negativos. A partir dessas interações ela identificou minhas dificuldades e no decorrer das correções, ela me ensinou como pesquisar em sites, onde eu poderia encontrar artigos relevantes, como trocar certas palavras por sinônimos para deixar o texto mais adequado a escrita acadêmica. Diante disso, posso afirmar que o incentivo que recebi, foi construtivo para o meu crescimento pessoal, compreendi que não poderia deixar certas inseguranças atrapalharem meu desenvolvimento acadêmico. A partir daquele momento passei a enfrentar as atividades com maior confiança sem medo de errar, a professora foi a causa principal nesse processo, e por isso expresso minha admiração e gratidão pela paciência, o conhecimento repassado, apoio e motivação, os quais contribuíram para o aprendizado da escrita acadêmica.

O início do sexto semestre foi marcado pela disciplina Avaliação Clínica e Processos Psicoterápicos. Ressaltamos um trabalho em grupo de visita ao Hospital Universitário João Barros Barreto, com o objetivo de explorar e compreender as práticas psicológicas no contexto do atendimento hospitalar e ambulatorial. Foram recebidos pelo psicólogo responsável pelo atendimento individual no ambulatório, que os levou a conhecer o hospital e os demais membros da equipe de atendimento psicológico, que estavam distribuídos nos andares do hospital fazendo a triagem e a escuta dos pacientes. Moretto (2019b) afirma é fundamental que o psicólogo que atua no hospital vá pessoalmente comunicar ao paciente que existe o lugar dessa oferta, para que o paciente possa vir a esse encontro, se assim o desejar.

Durante o Estágio Básico III em Saúde, objetivando conhecer distintas práticas da psicologia e de outras profissões ao campo da saúde na rede de atenção básica, especializada e hospitalar houveram visitas a Unidade Municipal de Saúde da Marambaia; ao Espaço Acolher, que é a casa de apoio em parceria com a Santa Casa, onde as pacientes vítimas de escalpelamento podem se hospedar durante o período de longo tratamento, e por último, o Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência 24 h.

No que tange a noção de campo há muitos os desafios, tanto na efetivação das práticas, quanto na construção dos saberes voltados para o contexto da saúde pública. Com isso, as instituições de ensino superior têm levantado diversos debates à necessidade de se aproximar dos serviços para compreender as reais demandas da população. Nesse sentido, Leite, Andrade e Bosi (2013), apontam que os cursos de graduação em Psicologia têm sido desafiados a incluir disciplinas que preparem os estudantes para atuar comprometidos com a realidade do sistema de saúde pública do país, contribuindo para a promoção da saúde das sujeitas.

O estágio em Clínica e o Trabalho de Conclusão do Curso (TCC) eram as ultimas etapas na jornada. Loyola, Conceição e Silva (2025), afirmam que a trajetória de universitários envolvendo, responsabilidades familiares, estudo e trabalho causam impactos significativos na saúde mental e bem-estar emocional, resultando em estresse, ansiedade e esgotamento emocional devido à falta de suporte adequado.

O estágio em Clínica em Gestalt-terapia se deu no contexto de triagem para o acolhimento, na Clínica Escola de Psicologia da UFPA. A Clínica foi criada em 1978, com o objetivo de organizar e coordenar as atividades referentes ao estágio curricular obrigatório em Psicologia Clínica. Como destacam Perfeito e Melo (2004), a triagem, no contexto da psicologia é um processo de conhecer quem procura atendimento, visando além dos sintomas, compreender as raízes do sofrimento, considerando seu contexto social, saúde mental e emocional do grupo ao qual ele está inserido.

De acordo com Porto, Valente e Rosa (2014), o processo de triagem pode ser considerado como porta de entrada inicial das instituições de saúde, onde ocorre o primeiro contato com o paciente que procura atendimento, sendo um momento importante para acolhê-lo, para uma compreensão melhor de suas necessidades diante de uma escuta ativa.

Na primeira semana sucedeu-se um encontro para apresentação do funcionamento da clínica e atividades administrativas relacionadas ao fazer do psicólogo, como guarda e registro documental, marcação de horários e realização de entrevistas de triagem. Para facilitar a organização dos estagiários, era necessário assinar o registro com o nome e o número da sala com antecedência para o acolhimento. Completou a formação leituras de artigos e roleplaying do processo de triagem em dupla.

Em Gestalt-terapia o estágio inclui, ainda, as atividades de revisão de textos sobre manejo clínico, primeira entrevista, orientação para que os estudantes realizem o próprio desenvolvimento emocional por meio da psicoterapia, de modo a evitar confluências, o cruzamento emocional com as queixas e dinâmicas psicológicas dos clientes.

Pimentel (2003) ressalta a compreensão de que cada psicoterapeuta em formação, gradativamente, definirá seu estilo de atuar. Muitas vezes, alguns começam imitando a supervisora, e/ou o autor que mais apreciam: Frederick Salomon Perls e seu estilo confrontativo; a maneira empática de Beatriz Cardella (1994, 2006) e o jeito da contadora de narrativas Jean Clark Juliano (1999). A autora também afiança que as bases da intervenção psicoterapêutica gestáltica com o cliente são: busca de não julgar o comportamento e as atitudes sociais (extremamente difícil); ampliar a conscientização sobre as formas que configuram sua existência e relações. Estes princípios são ancorados na fenomenologia existencial. Completam as bases, a sustentação da abertura pessoal do psicoterapeuta estagiário para ver e escutar os clientes; manter-se no presente sem distrações com o próprio psiquismo; vivenciar a empatia; acolher e frustrar consoante a identificação dos significados das narrativas trazidas pelos clientes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Concluir uma graduação transcende assistir aulas, implicando viver os espaços acadêmicos. Cursar Psicologia constitui-se uma experiência de alterar percepções sobre o conhecimento, dando um novo sentindo a futura inserção profissional no mercado de trabalho. Apesar das dificuldades e obstáculos enfrentados durante o percurso, as aprendizagens foram maiores, mantendo a motivação.

Ao completar o curso foi possível observar mudanças subjetivas na concepção do mundo e da pessoa, assim ampliou-se a capacidade de Camila de recomeçar, deixando de ser pessoa medrosa. Hoje, percebo-me uma psicóloga determinada a enfrentar qualquer desafio que vier pela frente e exercendo minha profissão com ética.

Finalmente ressalto e agradeço a empatia e o apoio mútuo dos colegas, docentes e pessoas que contribuíram direta e indiretamente ao alcance do objetivo de tornar-me uma psicóloga comprometida com o bem-estar humano.

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Adelma do Socorro Gonçalves Pimentel

Correspondência: adelmapi@ufpa.br

Camila Matias da Silva

Correspondência: camilamatias028@gmail.com

Universidade Federal do Pará

Revista IGT na Rede, v. 23, nº 44, 2025, p.1-15 DOI 10.5281/zenodo.18269369 Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526


[1] Resolução n. 5.294, de 21 de agosto de 2020 aprova, de forma excepcional e temporária, o Ensino Remoto Emergencial em diferentes níveis de ensino para os cursos ofertados pela Universidade Federal do Pará, em decorrência da situação de pandemia do novo Coronavírus –COVID-19, e dá outras providências. Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão, Belém, PA.