Running head: A ARTETERAPIA GESTÁLTICA NO DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES  

ARTIGO

A Arteterapia Gestáltica no Desenvolvimento Emocional de Crianças e Adolescentes

Gestaltic Art Therapy in the Emotional Development of Children and Adolescents

Marcos Aurelio Lordao Rocha 

Anhanguera  - Polo Itabuna-BA

Resumo

Este artigo científico tem como tema a arteterapia gestáltica no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes. O objeto de pesquisa é a utilização de recursos artísticos por gestalt-terapeutas brasileiros no atendimento de crianças e adolescentes com ajustamento criativo. O objetivo é estudar as contribuições do uso de recursos artísticos na Gestalt-terapia para auxiliar o desenvolvimento da saúde emocional. Fundamentado em Aguiar (2014), Ciornai (2004), D’acri et al. (2007), Freitas (2016), Matana et al. (2022), Murgo (2013), Norgren (2004), Pinto (2021), Rhyne (2000), Rodrigues (2000), Silva (2015), Vilagra et al. (2018) e Zinker (2007). Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, com método hipotético-dialético, realizado por meio de pesquisa bibliográfica. Parte-se da hipótese de que a Arteterapia na Gestalt-terapia pode favorecer a emergência de novas formas de enfrentamento das disfunções emocionais em crianças e adolescentes, contribuindo para a promoção da saúde emocional. Busca-se compreender em que medida essas práticas estimulam a criatividade e a expressão subjetiva, possibilitando maior autenticidade, espontaneidade e clareza na forma como crianças e adolescentes se percebem e enfrentam as adversidades. Os resultados encontrados mostram que a criatividade, a espontaneidade e a ludicidade são características inerentes à criança e essenciais para a saúde emocional, mas que podem ser negligenciadas em culturas que valorizam mais a razão que a afetividade. Em um processo de socialização que rejeita características consideradas infantis, a arte surge como um recurso terapêutico que auxilia no desenvolvimento emocional saudável. A leitura terapêutica das produções artísticas, dentro da arteterapia gestáltica, pode possibilitar que crianças e adolescentes desenvolvam ajustamentos criativos funcionais.

Palavras-chave: Adolescência. Arteterapia gestáltica. Infância. Saúde emocional.

Abstract

This scientific article addresses gestalt art therapy in the emotional development of children and adolescents. The research object is the use of artistic resources by Brazilian gestalt-therapists in working with children and adolescents with creative adjustment. The aim is to study the contributions of artistic resources in Gestalt-therapy to support emotional health development. The study is based on Aguiar (2014), Ciornai (2004), D’acri et al. (2007), Freitas (2016), Matana et al. (2022), Murgo (2013), Norgren (2004), Pinto (2021), Rhyne (2000), Rodrigues (2000), Silva (2015), Vilagra et al. (2018), and Zinker (2007). It is a qualitative study, using a hypothetical-dialectical method, conducted through bibliographic research. The study assumes the hypothesis that Art Therapy within Gestalt-therapy may foster the emergence of new ways of coping with emotional dysfunctions in children and adolescents, contributing to the promotion of emotional health. It seeks to understand to what extent these practices stimulate creativity and subjective expression, enabling greater authenticity, spontaneity, and clarity in how children and adolescents perceive themselves and deal with adversities. The findings show that creativity, spontaneity, and playfulness are inherent characteristics of childhood and essential for emotional health, but they may be neglected in cultures that prioritize reason over affectivity. Within a socialization process that dismisses characteristics considered childish, art emerges as an important therapeutic resource that supports healthy emotional development. The therapeutic reading of artistic productions in gestalt art therapy may provide children and adolescents with functional creative adjustments.

Keywords: Adolescence. Gestalt art therapy. Childhood. Emotional health.

Introdução

Observa-se que a arte se faz presente desde os primórdios da humanidade, com as pinturas rupestres em cavernas da pré-história, até a atualidade com as plataformas digitais, que podem transmitir arte virtualmente. Com o avançar das eras, a arte foi desenvolvida nas diversas civilizações, adquirindo utilizações e manifestações próprias em cada cultura. Atualmente, ela é vista não apenas como lazer, mas também como área profissional, além de meio pelo qual as pessoas expressam sua criatividade e suas emoções, trazendo benefícios para a saúde mental e favorecendo o desenvolvimento emocional do ser humano.

Percebe-se que o ser humano faz uso da arte como veículo para comunicar seus pensamentos, suas emoções, seus sentimentos, suas angústias, seu modo de ver o mundo, as pessoas e a si mesmo. É por meio da linguagem artística que o ser humano tem a possibilidade de expressar objetivamente sua subjetividade. Considerando que a habilidade artística é única do ser humano, fazer arte é muito mais que uma expressão de conteúdos subjetivos; é o próprio fazer-se humano. Diante da criatividade e subjetividade humanas, é no cruzamento destes elementos que a arte é produzida.

Na Psicologia, autores constataram o efeito terapêutico da arte na saúde mental, como Freud (1856-1939) e Jung (1875-1961). Porém, a utilização sistemática da arte como recurso terapêutico tornou-se um campo técnico e teórico específico apenas na década de 1940, nos Estados Unidos, com a iniciativa da psicóloga Margareth Naumburg (1890-1983). Outra profissional que ganhou destaque foi a psicóloga Rhyne (1913-1995), pioneira em utilizar a arteterapia dentro dos fundamentos da Gestalt-terapia. No Brasil, também na década de 1940, a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), por meio de seu trabalho no Hospital D. Pedro II (Engenho de Dentro, Rio de Janeiro) com pessoas com esquizofrenia, “ofereceu ancoragem para todos os trabalhos posteriores que surgiram de arteterapia” (Matana et al., 2022, p. 12).

Ainda no Brasil, a Arteterapia teve início como disciplina acadêmica com o primeiro curso de formação fornecido pelo Instituto Sedes Sapientiae em 1990, implantado pela arteterapeuta gestáltica Selma Ciornai (2004). Considerando a fundamentação teórica da Arteterapia Gestáltica, o psicoterapeuta utiliza os recursos artísticos tanto como terapia quanto inseridos no processo psicoterápico. Ou seja, o efeito terapêutico da arte é integrado em dois aspectos: o próprio fazer artístico e a ressignificação de suas vivências a partir do que foi produzido.

Compreendendo a criatividade como característica indissociável da vida, acredita-se na capacidade do ser humano de expressar sua subjetividade por diferentes meios, ser responsável pelo próprio desenvolvimento pessoal e encontrar significados relevantes em suas produções. Nesta abordagem, o psicoterapeuta gestáltica é um facilitador que convida a pessoa a novas experiências artísticas com a finalidade de entrar em contato com seus conteúdos internos e redescobrir novas formas de se expressar, ou seja, novos ajustamentos criativos funcionais. Entretanto, a condução dessas técnicas pode variar conforme o momento vital do atendido infância, adolescência, vida adulta ou idade mais avançada.

Pensando em como a infância e adolescência são fases de construção da identidade, marcadas por desafios emocionais e de maturação, entende-se que o atendimento a este público difere do atendimento a adultos. Observa-se que a prática do arteterapeuta gestáltico terá desafios e adaptações para tornar os atendimentos acessíveis às crianças e adolescentes. Portanto, este trabalho tem como objeto de estudo a utilização de recursos artísticos por gestalt-terapeutas brasileiros no atendimento de crianças e adolescentes com disfunções emocionais.

A fase do desenvolvimento humano da infância até a adolescência é marcada pela descoberta do mundo e pela formação da própria identidade, de modo que conflitos emocionais são considerados inevitáveis. Considerando que o enfrentamento desses conflitos é inerente ao desenvolvimento pessoal, coloca-se o seguinte questionamento: Quais são as possíveis contribuições da Arteterapia Gestáltica para o enfrentamento de disfunções emocionais de crianças e adolescentes?

Assim, este estudo parte da hipótese de que a utilização da Arteterapia na Gestalt-terapia pode favorecer a emergência de novas formas de enfrentamento das disfunções emocionais em crianças e adolescentes, contribuindo para a promoção da saúde emocional. Busca-se compreender em que medida tais práticas estimulam a criatividade e a expressão subjetiva, possibilitando maior autenticidade, espontaneidade e clareza na forma como crianças e adolescentes se percebem, aceitam suas limitações, reconhecem suas potencialidades e enfrentam as adversidades.

Portanto, o objetivo geral desta pesquisa é estudar as principais contribuições do uso de recursos artísticos na Gestalt-terapia para auxiliar o desenvolvimento da saúde emocional. Os objetivos específicos são: (1) identificar os tipos de recursos artísticos utilizados por arteterapeutas gestálticos no atendimento de crianças e adolescentes; (2) examinar como atender crianças e adolescentes com ajustamentos criativos e disfunções emocionais; (3) validar as contribuições da Arteterapia Gestáltica para o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes.

Justifica-se este trabalho no âmbito acadêmico pela necessidade de conhecer práticas psicoterapêuticas que fogem do convencional, oferecendo aos profissionais ferramentas diversas e adaptáveis a diferentes demandas. Dessa forma, o psicoterapeuta estará mais preparado técnica e teoricamente para o atendimento clínico. Além disso, observa-se o uso crescente de aparelhos conectados à internet devido à globalização. A idade de contato das crianças com esses dispositivos é cada vez menor, o que corrobora o aumento de psicopatologias. Assim, a visão integral da saúde defendida pela Gestalt-terapia, como forma de interação da pessoa com o meio em busca da autorregulação, é imprescindível para que crianças e adolescentes se desenvolvam de forma saudável e se tornem adultos mais equilibrados e felizes.

Metodologia

Esta pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza bibliográfica, com o objetivo de compreender as contribuições da arteterapia na abordagem gestáltica para o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes. A opção por uma revisão bibliográfica qualitativa justifica-se pela possibilidade de analisar criticamente produções científicas anteriores, de modo a identificar padrões e categorias relevantes que subsidiem a discussão proposta.

A estratégia metodológica adotada fundamentou-se na análise interpretativa do material encontrado, aproximando-se de uma abordagem hipotético-dialética, visto que buscou formular e discutir hipóteses explicativas sobre a intervenção dos profissionais arteterapeutas gestálticos, confirmando-as, refutando-as ou reformulando-as a partir da literatura analisada.

A coleta de dados ocorreu em 1º de outubro de 2022, no banco de dados eletrônico Google Acadêmico, utilizando-se operadores booleanos com o termo de busca: “arteterapia gestáltica AND (criança OR adolescente)”. Foram aplicados os seguintes filtros: publicações entre 2017 e 2022, em língua portuguesa, totalizando 54 resultados.

Foram estabelecidos critérios de exclusão: monografias (4), dissertações (3), livros (10), resumos (5) e Trabalhos de Conclusão de Curso com mais de 20 páginas (10), por não atenderem a critérios de padronização e revisão por pares. Como critérios de inclusão, selecionaram-se exclusivamente artigos científicos publicados em periódicos revisados por pares (17). A etapa seguinte consistiu na leitura dos títulos, palavras-chave, resumos e introduções, levando à exclusão de artigos não direcionados ao público infantojuvenil (11), fundamentados em teorias distintas da Gestalt-terapia (1) ou fora do período estipulado (1). Ao final, compuseram o corpus de análise 4 artigos.

Tabela 1

Resultados de Busca de Publicações Encontradas no Período de 2017 a 2022 e em Língua Portuguesa

Termos

Tipos de publicações científicas

                                         Total

Artigo

Tese

Dissertação

Resumo

Livro

TCC

Monografia

arteterapia gestáltica AND (criança OR

adolescente)

17

0

3

6

10

14

4

54

Nota. Fonte: Google Acadêmico (2022).

Essa pesquisa teve como foco obter informações, através de artigos científicos, as contribuições da utilização da arteterapia na abordagem gestáltica, especificamente, para o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes brasileiros com dificuldades em identificar, administrar e/ou expressar as próprias emoções; e em lidar com situações estressoras.

Referencial Teórico

Criatividade e Gestalt-terapia

Comunicar-se por meio da arte é uma capacidade humana que não se restringe aos considerados talentosos ou com habilidades artísticas especiais, pelo contrário, está presente em qualquer pessoa. O processo criativo de mudar a realidade, ressignificar uma experiência, trazendo novas formas de ser no mundo, misturando os elementos que compõe sua existência, reajustando-se às mudanças que surgem com a vida do cotidiano. Assim, o ser humano é visto através do pensamento gestáltico como um ser capaz de recriar sua história e ser o artista que usa a criatividade para moldar sua própria existência (Ciornai, 2004). Portanto, criatividade para a Gestalt-terapia é a capacidade humana de reinventar-se, de encontrar novas possibilidades para si mesmo e a própria realidade.

Desse modo, mesmo que a criatividade seja uma capacidade intrínseca ao ser humano, este pode às vezes não a utilizar ou utilizá-la de maneira que não favoreça seu desenvolvimento como pessoa. Neste sentido, a Gestalt-terapia relaciona a criatividade com seus conceitos de ajustamento criativo e autorregulação para descrever o funcionamento humano em seu processo de relação. Mas, para adentrar sobre estes conceitos é necessário primeiramente elucidar sobre a noção de totalidade do ser e o conceito de campo (Ciornai, 2004).

Freitas (2016) explica que Gestalt-terapia considera o ser humano em sua totalidade, integrado com tudo que está a sua volta, sejam objetos, pessoas, situações, lugares, vivências. Ou seja, tudo em que a pessoa tem contato de alguma forma dentro de um tempo e um espaço. Sendo este contexto espaço-temporal denominado de campo, conceito fundamentado na Teoria de Campo de Kurt Lewin (1890-1947). O ser humano está em constante interação com o campo e não pode ser compreendido fora desta relação organismo/ambiente, portanto, é um ser-no-mundo.

Visto que um ser-no-mundo é um ser-de-relação, a pessoa constantemente está modificando e sendo modificado pelo seu campo. Isto porque o ser humano é visto como ser ativo no seu próprio desenvolvimento pessoal e não um mero resultado do seu meio. A interação organismo/ambiente não é estática, mas dinâmica, se modifica a depender das necessidades e das adversidades que surgirem (D’acri et al., 2007; Rodrigues, 2000; Vilagra et al., 2018).

Observa-se que quando surge uma adversidade a interação organismo/ambiente sai do seu equilíbrio e, invariavelmente, o ser humano buscará restabelecê-lo. O restabelecimento da interação organismo/ambiente é chamado de autorregulação. Este conceito se origina da Teoria Organísmica de Kurt Goldstein (1878-1965) e compreende que o ser humano realiza um movimento natural de satisfazer a sua necessidade emergente a partir das condições disponíveis no campo. Entretanto, se a autorregulação não é concluída, a necessidade não atendida denunciará que a interação organismo/ambiente encontra-se ainda em desequilíbrio (D’acri et al., 2007; Rodrigues, 2000; Vilagra et al., 2018). E neste caso, o fluxo natural de crescimento humano encontra-se interrompido.

Desta forma, em busca da autorregulação, o ser precisará se ajustar para se adaptar às novas circunstâncias e, para tanto, utilizará sua criatividade a fim de encontrar soluções que correspondem às suas necessidades e resolvam os conflitos, este processo é denominado de ajustamento criativo. Contudo, o ajustamento criativo pode ser saudável ou não saudável, em outras palavras, ajustamento criativo funcional e disfuncional, respectivamente. Vilagra et al. (2018, p. 317) explicam como a criatividade está relacionada com o ajustamento saudável:

No ajustamento saudável, a criatividade pode ser entendida como posse pelo indivíduo da aptidão de se orientar pelas novas exigências das circunstâncias, possibilitando, inclusive, uma ação transformadora. [...] No entanto, se um indivíduo é forçado a conviver com uma situação de restrição por muito tempo, o seu modo de funcionamento é afetado, e passa a se comportar de outro modo disfuncional. Portanto, o funcionamento não funcional é o resultado de situações de limite, onde se forma um padrão de adaptação emergencial.

Essa capacidade humana criativa pode ser expressa tanto na arte quanto na terapia. Com isso, a Gestalt-terapia propõe ajudar no desenvolvimento da criatividade e expressão artística e seu objetivo é expandir a awareness do cliente. Esse termo em inglês se refere a um conceito da Gestalt-terapia que não possui tradução exata em português, mas que pode ser entendido de forma mais próxima como expansão da consciência. Ciornai (2004, p. 36) explica que esse termo significa “uma conscientização não só no nível mental e cognitivo, mas organísmica, do organismo como um todo, no e por meio do vivido”.

Em outras palavras, a pessoa se abre para a experiência que está sendo vivida no momento presente, no aqui e agora, de tal forma que utiliza todo seu organismo para interagir consiga mesma e com tudo o que for diferente a ela, sua alteridade. O que está relacionado com a concepção de saúde da Gestalt-terapia, na qual entende-se que ser saudável envolve a formação de ajustamentos criativos de maneira fluída, flexível, em que não haja interrupção ou fixação. Ou seja, compreende-se saúde como a interação com o outro, com o mundo e consigo mesmo que acontece de uma maneira espontânea, possibilitando condições para criar novas formas de interações que proporcionem a autorregulação (Ciornai, 2004; D’acri et al., 2007; Rodrigues, 2000).

Pode-se então observar a importância dada a experiência do sujeito e a forma de existir deste ser na sua vivência. Isto se deve ao fundamento existencial que estrutura a visão das pessoas da Gestalt-terapia. E, a partir disso, o gestalt-terapeuta se colocará na posição de investigador ativo da experiência do sujeito a fim de compreender o sentido que o próprio sujeito encontra nela. Aqui não se busca rotular ou identificar o significado por meio de referências intelectuais externas ao sujeito, mas busca encontrar o significado que emerge no instante em que se vivencia a experiência e considerando apenas aquilo que se manifesta na e através dela (Ciornai, 2004).

Para isso, o terapeuta usará dos fundamentos fenomenológicos para realizar um reconhecimento compreensivo sobre o que está sendo manifestado, ou seja, entender o fenômeno pelo próprio fenômeno. Além disso, baseia-se na relação dialógica entre terapeuta e cliente, que acontece no processo de troca existencial do encontro terapêutico. Neste encontro, o cliente e o gestalt-terapeuta estarão se abrindo para a possibilidade de se deixarem impactar pela totalidade da outra pessoa, sendo a qualidade desta relação construída ao longo do aprofundamento do diálogo. Cabe ao terapeuta orquestrar o dinamismo e a interrelação desta comunicação (Ciornai, 2004).

O Uso da Arte na Psicoterapia Gestáltica

Rhyne (2000) descreve seu trabalho de arteterapeuta gestáltica como uma experiência gestáltica de arte. Ela explica que a palavra experiência se relaciona com o processo de vivenciar ativamente nossos próprios eventos, percebendo-se enquanto eles ocorrem, como uma atividade artística por exemplo, experienciando a si mesmo durante o ato de criar. Sobre a palavra arte, a autora explica que acredita no “impulso criativo básico” da humanidade, no desejo de criar ser inerente ao ser humano. Sendo a arte entendida por ela como “as formas que emergem de nossa experiência criativa individual” (Rhyne, 2000, p. 42). Já o uso da palavra gestáltica se refere a Psicologia da Gestalt e a Gestalt-terapia, ambas utilizadas pela autora para compreender as experiências artísticas individuais, as formas criadas como mensagens internas que são exteriorizadas para que as pessoas as percebam de forma consciente.

A autora explica como o pensamento gestáltico se conecta com a experiência de arte, uma vez que o primeiro utiliza da percepção como via de acesso para a compreensão do modo de ser da pessoa e a segunda é uma forma de manifestação deste modo de ser e da percepção que a própria pessoa tem. Assim Rhyne (2000, p. 44) diz que a “forma como percebemos visualmente está diretamente relacionada à forma como pensamos e sentimos; a correlação torna-se aparente quando representamos nossas percepções com materiais artísticos”. E conclui que o uso da gestalt no seu trabalho “significa a habilidade para perceber configurações totais - perceber sua personalidade como uma totalidade de muitas partes que, juntas, formam a realidade que você é” (Rhyne, 2000, p. 44).

      Ciornai (2004) elenca características marcantes que compartilham a Gestal-terapia e a Arteterapia Gestáltica: priorizam a relação terapêutica; enfatizam em como o cliente responde ao processo terapêutico; atentam-se para a qualidade de contato que o cliente estabelece durante o processo e a forma de que escolhe e trabalha com os materiais. Continua dizendo que ambos os terapeutas devem “dar atenção à qualidade da experiência em curso, isto é, a quando o processo de contato e expressão flui de maneira contínua e energizada e a quando se torna emperrado, desvitalizado ou interrompido” (Ciornai, 2004, p. 42). Pode-se dizer que, de forma reduzida, ambas trabalham pautadas em como se dá a experiência subjetiva do sujeito quando entra em contato a produção da arte e na sintonia da relação entre terapeuta e cliente.

Nota-se também a arteterapia géstaltica, segundo Murgo (2013), prioriza o sentir ao invés do pensar e, por isso, usa o simbolismo pessoal como meio para se chegar à expressão e integralidade do ser. E, para isso, o foco é explorar o óbvio e abdicar quaisquer interpretações prévias. Isto significa que os símbolos trazidos pelo consulente, termo usado pela autora para se referir a pessoa atendida, não são primeiramente julgados, mas entendidos através da representação que a pessoa atribui a eles no momento que o utiliza. Até mesmo o que for aparente óbvio para o terapeuta ou consulente será explorado, a fim de que não se perca a manifestação integral do fenômeno.

E percebe-se que para realizar a leitura de todo o fenômeno, Murgo (2013) atribui etapas para o processo arteterapêutico gestático, os quais são: sensibilização, visualização, elaboração, registro e dar-se conta. A sensibilização consiste em utilizar técnicas de meditação ou respiração, com o objetivo de fazer a pessoa conectar-se com o sentir; a visualização se trata de imaginar e expressar uma imagem que represente a sensação ou emoção sentida; a elaboração é observar o que foi produzido e as relações que o cliente estabelece entre o símbolo imaginado e o expressado; o registro consiste em escrever sobre a como foi a experiência, quais emoções e sensações sentiu e quais as suas percepções; e, por fim, dar-se conta que se trata de realizar perguntas que foca-se no presente e amplia-se a consciência. Com isso, observa-se que a autora procura através dessas etapas levar a pessoa a compreender sua forma de se relacionar no mundo e perceber outras possibilidades de ajustamento criativo.

Somado a isso, Zinker (2007) descreve a Gestalt-terapia como uma terapia criativa. Em outras palavras, uma psicoterapia que utiliza da criatividade para auxiliar a mudança, isto é, auxiliar a ampliação da consciência e, a partir disso, gerar novas formas de interação. Então, o terapeuta tem a função de usar sua própria criatividade para proporcionar um ambiente que favoreça o processo criativo do cliente e a indagação deste sobre si mesmo.

Além do mais, o gestalt-terapeuta utiliza-se do experimento como ferramenta para estimular o cliente a vivenciar no processo terapêutico novos ajustamentos criativos, através do uso de brincadeiras ou de recursos artísticos, por exemplo. Mas, para que o experimento aconteça de maneira fluída, isto dependerá da criatividade do terapeuta e de seu olhar integral sobre o desenvolvimento humano. Desta forma, o terapeuta precisa oferecer um ambiente que Zinker (2007) descreve como congruente e desafiador, ou seja, que acolha a integridade da pessoa, mas também a convida a mudança.

Arteterapia Gestáltica com Crianças e Adolescentes

Tendo como base os preceitos da Gestalt-Terapia, sem criatividade o processo de autorregulação do organismo fica comprometido e, consequentemente, o ajustamento criativo torna-se disfuncional. No caso de crianças e adolescentes isso acontece da mesma forma. Se as respostas delas não variam quando as situações mudam, a percepção sobre suas necessidades e as exigências do meio fica distorcida, o que prejudica também sua autorregulação. Logo, elas se ajustam de forma disfuncional, chegando ao adoecimento (Silva, 2015; Vilagra et al., 2018).

Demandas que geralmente ocorrem nesse público é a disfunção emocional acompanhada de disfunções no relacionamento com os outros e consigo mesmos, além disso, podem ter vivências traumáticas não elaboradas. Entretanto, o que os adultos trazem ao consultório psicológico como queixas são comportamentos diversos que consideram impróprios. Uma das causas para essa disfunção emocional é o sentimento de negação que vivenciam na relação com os adultos (Norgren, 2004).

Tendo isto em vista, compreende-se que o terapeuta precisa reconhecer qual a demanda da criança e priorizar o que esta traz para a terapia. Uma vez que, a demanda dos responsáveis pode não condizer com a demanda da criança, por isso identifica-se que tanto os assuntos levantados pela criança, mas, principalmente, as suas formas de interação com o ambiente que manifesta na relação terapeuta são importantes para se compreender as necessidades reais da criança (Aguiar, 2014).

Como aborda Aguiar (2014), o psicoterapeuta da abordagem gestáltica não deve ter o foco no sintoma como algo a ser resolvido, mas entender que é a forma com a qual a criança encontrou para interagir com o meio, portanto, o sintoma é um ajustamento criativo que denuncia que alguma necessidade emergente não está sendo atendida. Por vezes, a manifestação do sintoma é o melhor meio que a criança encontrou para sinalizar aos adultos que precisa de ajuda.

E em se tratando do atendimento ao adolescente, identifica-se que a confiança na relação terapêutica é primordial. Como afirma Pinto (2021), o adolescente estabelece a autenticidade como critério para suas relações, portanto ele necessita perceber que o terapeuta está sendo autêntico e só assim poderá confiar na relação terapêutica. Porém, aponta-se que a confiança é construída ao longo da relação, conforme o adolescente perceber que o terapeuta está verdadeiramente disposto a tentar compreendê-lo sem lhe julgar ou lhe impor como deve conduzir sua vida.

Sobre o uso de recursos artísticos na Gestalt-terapia com crianças e adolescentes, Norgren (2004, p. 205) relata que:

Por meio do trabalho com arte, das conversas e reflexões a respeito, a criança ou adolescente vai entrando em contato, conhecendo a si mesmo, suas características, seu jeito, seus símbolos, bem como suas necessidades, desejos, medos, possibilidades. Vai se apossando dos aspectos positivos e negativos da sua vida, aprendendo a fazer escolher e a se colocar no lugar dos outros. Isso possibilita que tome consciência da própria forma e daqueles que estão a seu redor. Nesse ato de conhecer (ao objeto realizado, a si próprio, aos outros, ao mundo) o indivíduo se aperfeiçoa. Estar saudável, então, é criar, gerar movimento e novidades a cada instante [...] o disfuncional é a repetição constante de mecanismos neuróticos em vez de um processo espontâneo de autorregulação.

Na artepsicoterapia com este público, Norgren (2004) prioriza o diálogo sincero tanto do terapeuta com a criança ou adolescente e estes com a família. As intervenções devem considerar o contexto do cliente, já que é necessária a modificação do ambiente para que a terapêutica seja eficiente, e sempre partindo da compreensão que ele considere melhor para si. É importante, sempre que possível, conversar sobre o que foi realizado e a vivência do cliente. Além disso, a relação terapeuta deve propiciar abertura para a criança e adolescente expressem seus sentimentos e a construção ou fortalecimento da noção de si próprios. Auxiliando na diferenciação entre conteúdos internalizados de avaliações externas e percepções distorcidas a respeito de si, como também na descoberta do que eles desejam e na valorização da escolha (Norgren, 2004).

Resultados e Discussão

Os artigos escolhidos para a análise são das seguintes autorias, ordenados alfabeticamente: 1) Falaschi e Kimura (2021), que abordam a respeito da utilização de narração de contos com outros recursos arteterapêuticos para o desenvolvimento criativo de crianças do 1º ano do fundamental I, em seu ambiente escolar; 2) Morgano et al. (2021), que tratam sobre o desenvolvimento infantil e as consequentes perdas na fase adulta; 3) Ribeiro e Onativia (2019), que discorrem a respeito da relação entre criatividade e teatro em adolescentes do ensino médio; e 4) Vasconcelos et al. (2019), que tratam sobre as contribuições da arteterapia para o desenvolvimento psicossocial infantil.

As Disfunções Emocionais na Infância e Adolescência

Segundo Morgano et al. (2021), as crianças estão despidas de qualquer conhecimento prévio sobre o mundo, sendo o olhar de deslumbramento pelo desconhecido uma característica marcante nesta fase inicial da vida humana. Os adultos passam à criança os modelos sociais de certo e errado, os quais são ditados como normas que devem ser aceitas e seguidas por ela. Porém, como a criança não tem desenvolvida a capacidade para discernir o que lhe é nocivo ou benéfico, ela introjeta os conteúdos externos como verdadeiros. E a tendência é o processo de socialização interromper o fluxo natural de maturação infantil.

Isto porque, não é oferecido a ela espaço para a expressividade livre das suas potencialidades e de seus recursos internos. As características consideradas infantis, como a criatividade e a espontaneidade, são desvalorizadas no processo de se tornar adulto. Toda essa conjetura leva a um prejuízo no desenvolvimento do autossuporte, descrito como a capacidade de usar os próprios recursos internos para si mesma; a uma maior dependência de heterrossuporte, necessitando o apoio de recursos externos; dificuldades em identificar suas necessidades, potencialidades e seus sentimentos; e cristalização da sua atualização organísmica (Morgano et al., 2021).

Somado a isso, Falaschi e Kimura (2021) traz que nas circunstâncias culturais atuais a razão é mais valorizada que a afetividade, negligenciando o processo de espontaneidade e criatividade da criança. Consequentemente, ela é privada de experiências prazerosas e dominada para caber no mundo aceito pelos adultos. Assim, distancia-se do seu mundo interno e de sua capacidade de imaginar, importantes para o seu bem-estar emocional.

Entretanto, Aguiar (2014) defende que a introjeção não é necessariamente prejudicial para o desenvolvimento saudável, ela é importante para a criança se inserir na sociedade, mas se torna nociva quando não são oferecidos recursos para que ela exercite a sua capacidade de discriminação. O que confirma a fala de Morgano et al. (2021) e de Falaschi e Kimura (2021) no que tange a negação da utilização de recursos criativos e espontâneos, a fim de que a assimilação do mundo adulto ocorra sem possibilidades de divergências.

Além disso, Morgano et al. (2021) e Falaschi e Kimura (2021) ao evidenciarem como o processo de educação social enaltece o modo de ser adulto e despreza o modo de ser infantil, afetando o amadurecimento emocional saudável, confirma a percepção de Norgren (2004) sobre a origem do surgimento de disfunções emocionais na infância e também na adolescência. Mas também, corroboram com a fala de Silva (2015) e Vilagra et al. (2018) a respeito da importância da criatividade para o viver saudável, ou seja, a autorregulação organísmica.

A Relação Entre Arte e Desenvolvimento Emocional

Os autores dos quatro artigos supracitados concordam que é notório o uso da arte como recurso terapêutico para a promoção de saúde emocional. Como Vasconcelos et al. (2019) ao dissertarem que a expressão artística infantil favorece a exposição de si mesma, ou seja, aborda conteúdos de suas vivências, a forma como ver o mundo, como ela é e seu processo criativo. Por meio da arte, a criança expressa sentimentos, aprende a lidar melhor com situações diversas da sua vida, que por vezes podem ser desconfortáveis para ela, e com isso promove adaptação saudável ao meio.

Mas, afirmam que é a partir da leitura terapêutica da produção artística que a criança tem a possibilidade de traduzir o que acontece no seu mundo interno. A imagem que se produz está relacionada com a história de vida, com suas memórias afetivas e, por isso, é uma arte com sentido, emoções e que lhe sensibiliza. O que não pode ser expresso no meio social, ganha espaço para se manifestar e se explorar através da arte e da leitura terapêutica (Vasconcelos et al., 2019). Em consonância a essas contribuições, Vasconcelos et al. (2019) mostram também uma pesquisa de Valladares e Carvalho (2005) com crianças hospitalizadas, os quais comprovam o efeito da arteterapia na canalização positiva da ansiedade, na promoção de experiências prazerosas, na expressão da subjetividade e exploração das potencialidades saudáveis.

Bem como Morgano et al. (2021) ao citar as contribuições da arteterapia gestáltica por justamente utilizar o olhar através da arte como instrumento facilitador para se compreender os sentimentos, construir o processo de autoconhecimento, ampliar a consciência, e criar novas formas possíveis de se interrelacionar com os outros e o mundo. Além disso, explicam que a relação da criança se dá pela via da ludicidade, o que condiz com a forma da Gestalt-terapia de usar a criatividade para despertar outras maneiras de expressividade ao invés da oralidade. Sendo importante usar a ludicidade no setting terapêutico, pois considera-se como a expressão inerente do ser humano e, portanto, é essencial para o viver saudável.

Em contrapartida, Falaschi e Kimura (2021) evidenciaram em sua pesquisa que a junção da narração de contos com a arte plástica auxilia no reconhecimento de conteúdos internos. Para eles, os contos são uma representação de sentimentos e situações que a criança depara no seu dia-a-dia, por isso são também um recurso arteterapêutico importante para ajudar os psicólogos na identificação de experiências e percepções vividas pela criança.

Falaschi e Kimura (2021) realizaram sessões de arteterapia por meio de contação de histórias com 13 crianças do 1º ano do Ensino Fundamental I durante o turno das aulas, em dois encontros semanais, com duração de três horas, realizados ao longo de 35 semanas. Nesta pesquisa, os arteterapeutas usaram técnicas de relaxamento com as crianças, antes de iniciarem a contação de histórias, leram o conto escolhido, depois as crianças foram orientadas a realizarem uma produção artística relacionada a história que ouviram, e encerram com alguma atividade que fosse alto-astral (Falaschi & Kimura, 2021).

A partir disso, observaram contribuições emocionais positivas, como “diminuição da timidez, maior facilidade de comunicação, mais energia nas aulas convencionais” (Falaschi & Kimura, 2021, p. 47). Além de, “acolhimento de falas, emoções e opiniões, trocas afetuosas no tratamento entre as crianças, demonstrações de sentimentos de empatia e solidariedade” (Falaschi & Kimura, 2021, p. 48).

E, por fim, Ribeiro e Onativia (2019) mostraram o teatro como possibilidade para os adolescentes se desenvolverem corpórea e psicologicamente, pois estimula vários aspectos do ser humano, inclusive o emocional. Com isso, citam as principais contribuições do desenvolvimento da criatividade para o crescimento humano, os quais são: “surgimento de novas habilidades, talentos, inovações e possibilidade de resolução de problemas” (Ribeiro & Onativia, 2019, p. 9). A partir disso, pode-se perceber que o oferecimento de oportunidades para criar ajuda o desenvolvimento saudável do ser humano, além do “amadurecimento e autoconhecimento” (Ribeiro & Onativia, 2019, p. 10).

Mas também, descrevem que os adolescentes necessitam de experiências novas para se sentirem estimulados, pois é uma característica dos jovens estarem abertos para novas criações, para o universo artístico e para a disponibilidade de sentir. E através do teatro, os adolescentes terão a oportunidade de reconstruir o mundo ao qual pertence formulando novos sentidos e representações, portanto desenvolvem-se olhares de perspectivas diferentes sobre a mesma vivência. E esta possibilidade de transformação e indagação tem um efeito terapêutico, isto porque não se recria apenas o mundo, mas também se desenvolve um novo olhar a respeito de si mesmo.

Portanto, observa-se que a fala destes quatro autores confirmam a perspectiva Rhyne (2000) de que o ato de criar é inerente ao ser humano e a arte é o meio pelo qual a pessoa pode expressar seu modo de ser e suas percepções, como também seus pensamentos e sentimentos. Confirmam também as ideias de Rhyne (2000), Ciornai (2004), Murgo (2013) e Zinker (2007) sobre a arteterapia gestáltica como uma modalidade terapêutica que explora a criatividade e espontaneidade através de recursos artísticos diversos para auxiliar a pessoa se desenvolver de forma saudável, e não apenas emocionalmente, mas de maneira integral.

A Relação Terapêutica

Observa-se que a forma como o arteterapeuta conduz a relação terapêutica influencia na qualidade da terapia como propiciadora de mudanças saudáveis no modo de viver da pessoa atendida. Como se pode identificar na fala de Vasconcelos et al. (2019, p. 210) ao apontar que os arteterapeutas “organizam, ajudam a compreender, transformam e contribuem para a ressignificação da realidade”, ou seja, são facilitadores no processo de autoconhecimento de construção de novas perspectivas sobre as experiências vividas. Mas também, Vasconcelos et al. (2019) orientam que o arteterapeuta não deve tentar de qualquer forma mudar a criança, mas fornecer materiais possíveis que ela possa usufruir com mais efetividade a sua intenção criativa, além de dar espaço que ela também exerça sua autonomia sobre a intervenção. E concluem que a mudança acontecerá no percorrer do processo, através da própria experiência criativa.

Falaschi e Kimura (2021) também relataram que a postura que adotaram foi essencial para o alcance dos objetivos terapêuticos. Eles destacam que se procurou criar uma relação baseada no respeito e na confiança com as crianças atendidas. Observando na pesquisa que criar esse tipo de relação “permitiu que as sessões surtissem efeitos, além de favorecer as relações interpessoais, sendo perceptível uma postura mais amável, fraterna e empática” (Falaschi & Kimura, 2021, p. 47).

Pode-se perceber que a relação terapêutica descrita por Vasconcelos et al. (2019) e Falaschi e Kimura (2021) condizem com a postura adotada pelos arteterapeutas gestálticos, inclusive no atendimento de crianças e adolescentes. Os arteterapeutas gestálticos, portanto, valorizam a sintonia da relação entre terapeuta e cliente; procuram compreender a pessoa sem julgamento; não realizam imposições, mas respeitam o que a pessoa considera como melhor para ela; adotam uma postura dialógica; e se colocam como facilitadores do processo terapêutico (Ciornai, 2004; Murgo, 2013; Norgren, 2004; Zinker, 2007).

Considerações Finais

Diante dos resultados encontrados nesta pesquisa, percebe-se como confirmada a hipótese de que o trabalho da Arteterapia na Gestalt-terapia trabalha a criatividade e a expressão subjetiva facilitando-se assim o desenvolvimento de novas formas de enfrentamento para as disfunções manifestadas, além de ajudar na promoção da saúde emocional.

Quanto aos objetivos específicos, identificou-se que os arteterapeutas gestálticos usam a ludicidade, incluindo tanto recursos que usem a imaginação e brincadeiras quanto a arte plástica; examinou-se que o atendimento para crianças e adolescentes com disfunções emocionais deve ter como prioridade a qualidade da relação terapêutica, a qual deve ser baseada na confiança, mas também com paciência ao tempo que é necessário para que as mudanças saudáveis aconteçam sem qualquer imposição; e validou-se que a arteterapia gestáltica contribui positivamente no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes, ao utilizar a criatividade, a ludicidade e priorizar a relação terapêutica.

Pode-se avaliar também que a metodologia desta pesquisa foi eficaz na obtenção de dados necessários para se responder a hipótese e alcançar os objetivos. Apesar de se considerar escassa a quantidade de artigos que tratam sobre o tema. O que evidencia que a produção científica sobre o tema é pouco valorizada.

Vale destacar que não se pretendeu esgotar o tema, mas sensibilizar a comunidade científica e acadêmica sobre a sua relevância e instigar arteterapeutas gestálticos a produzirem mais pesquisas.

Portanto, nota-se que a arteterapia gestáltica contribui não só para o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes, mas para o desenvolvimento do ser como um todo. Isto porque a sua concepção de saúde é integrativa, sua forma de olhar para o ser humano é fenomenológica-existencial, além de retomar a forma de comunicação e expressão inerente ao ser humano que propicia ajustamentos criativos funcionais. Com isso, evidencia-se também como a produção artística, a leitura terapêutica e a relação terapêutica contribuem para o resgate do ser em direção a sua autorregulação organísmica.

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Marcos Aurelio Lordao Rocha 

Correspondência: mlordao@gmail.com

Revista IGT na Rede, v. 23, nº 44, 2026, p.1-31 DOI 10.5281/zenodo.20289807  Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526