Running head: RELAÇÃO DA GESTALT-TERAPIA COM O PARADIGMA DAS PSICOLOGIAS BASEADAS EM EVIDÊNCIAS: REVISÃO NARRATIVA

ARTIGO

Relação da Gestalt-terapia com o paradigma das Psicologias Baseadas em Evidências: revisão narrativa 

The relationship between Gestalt-therapy and the paradigm of Evidence-Based Psychologies: a narrative review

Vírnia Ponte Alcântara Ximenes

Paulo Coelho Castelo Branco

Universidade Federal do Ceará

Resumo

A pesquisa analisou a relação da Gestalt-terapia com o paradigma das Psicologias Baseadas em Evidências (PBE). A metodologia foi uma revisão narrativa atrelada às técnicas de leituras oriundas da pesquisa bibliográfica. Foram rastreados artigos, capítulos de livros, teses e dissertações. A pesquisa resultou na análise de treze obras descritas em suas proposições e apontamentos em relação ao tema.  Na discussão foram abordadas questões como: a abertura para pesquisa na comunidade gestáltica e o risco de sua marginalização, frente a outras abordagens com tradição de pesquisa no campo das PBE; os pressupostos epistemológicos tidos como essenciais para o desenvolvimento da pesquisa em Gestalt-terapia baseada em evidências; as diferentes abordagens metodológicas utilizadas na pesquisa em Gestalt-terapia baseada em evidências. Conclui-se que existe uma aproximação da Gestalt-terapia com a PBE no cenário internacional, mas no Brasil tal articulação é incipiente.

Palavras-chave: Gestalt-terapia, Psicologia Baseada em Evidências, Pesquisa em Psicologia.

Abstract

The research analyzed the relationship between Gestalt therapy and the paradigm of Evidence-Based Psychologies (EBP). The methodology consisted of a narrative review combined with reading techniques derived from bibliographic research. Articles, chapters, theses, and dissertations were tracked. The study resulted in an analysis of thirteen works, described in terms of their propositions and insights on the subject. The discussion addressed issues such as openness to research within the Gestalt community and the risk of marginalization compared to other approaches with a strong research tradition in the EBP field; the epistemological assumptions considered essential for the development of evidence-based Gestalt therapy research; and the different methodological approaches used in evidence-based Gestalt therapy research. It was concluded that there is a connection between Gestalt therapy and EBP in the international context, but in Brazil, this articulation remains incipient.

Key words: Gestalt Therapy, Evidence-Based Psychologies, Research in Psychology.

Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar, a procura por consultas com psicólogos no Brasil teve um aumento de 160%, de 2019 a 2022. Foram 34,9 milhões de sessões realizadas só em 2022, por meio de planos de saúde privados (Brasil, 2023). O censo da Psicologia brasileira apontou que, dentre os psicólogos atuantes, 73,1% estavam trabalhando com psicologia clínica em 2022 (Conselho Federal de Psicologia, 2022). A popularização da psicoterapia na cultura e na mídia, provocou, também, uma busca por tratamentos funcionais e com eficácia comprovada, como reflexo de uma sociedade que valoriza o desempenho e a excelência. Esse debate é complexo, ao instigar discussões acerca da validade e cientificidade da psicologia, acentuando os dilemas epistemológicos nos campos da Psicologia Clínica e da Psicologia Humanista (Stenzel, 2022).

Nesse cenário, surge a exigência de garantia de que os tratamentos ofertados em psicoterapia sejam eficientes e eficazes, tendo em vista os custos relacionados aos cuidados em saúde mental, tanto para os pacientes como para os terceiros pagadores (Luebbe et al., 2007). Deste modo, destaca-se o movimento das Práticas de Saúde Baseadas em Evidências, do qual emergem as Psicologias Baseadas em Evidências (PBE) como um paradigma que busca estabelecer e indicar práticas com validade clínica para o tratamento de variadas demandas. A PBE tem sua origem associada ao campo da Medicina Baseada em Evidências e surge no fim do século XX, principalmente em países como Inglaterra e Canadá (Faria et al., 2021).

A PBE tem se propagado internacionalmente, agregando diferentes áreas do conhecimento e categorias profissionais, especialmente no campo da saúde (Lacerda et al., 2012). São diversas diretrizes, propagadas por órgãos federais e associações de renome, que indicam a qualidade das evidências que dão base para recomendações da prática clínica (Spring & Neville, 2011).

No campo da Psicologia Clínica, essas recomendações são propostas, principalmente, pela APA – American Psychological Association (2006), que considera três pilares para a PBE: a) a melhor evidência de pesquisa disponível; b) a experiência ou expertise clínica; e c) as preferências, valores e características idiossincráticas do paciente (Spring & Neville, 2011).

Para a APA, a melhor evidência de pesquisa disponível é baseada em tratamentos que demonstraram eficácia mediante pesquisas rigorosamente controladas, como os ensaios clínicos randomizados, e outros estudos comprovadamente eficazes, realizados com populações específicas. Esses foram chamados de tratamentos com suporte empírico (TSE) - (Empirically Supported Treatments - EST) (Leonardi, 2016; Luebbe et al., 2007). Atualmente, a Divisão 12 da APA, a Sociedade de Psicologia Clínica, disponibiliza uma lista com todos os TSE descritos em manuais e com protocolos padronizados de intervenção para problemas clínicos específicos – por exemplo, indica-se Terapia Focada nas Emoções para depressão (Society of Clinical Psychology, 2023).

A Gestalt-Terapia (GT), por sua vez, é uma abordagem psicoterapêutica que surge, em 1951, com a publicação do livro Gestalt-therapy: excitement and growth in the human personality, escrito por Perls, Hefferline e Goodman (1951/1997). Inicialmente, essa abordagem foi concebida a partir de uma revisão da Psicanálise freudiana, com base em diversos aportes, como a teoria de campo, a teoria organísmica, a teoria dialógica, o existencialismo, a fenomenologia, a teoria da complexidade, dentre outros constructos que foram integrados e elaborados pelos seus fundadores e seguidores (Brownell et al., 2014). Ressalta-se que, epistemologicamente, a GT surge como uma perspectiva pós-freudiana e a sua ascensão ocorreu fora do cenário acadêmico e universitário, onde o paradigma positivista era dominante e norteava a busca pela validação clínica a partir de pesquisas empíricas e quase-experimentais (Perls et al., 1951/1997).

Ocorre que a GT, de modo geral, não é alvo de pesquisas que buscam uma comprovação de sua eficiência ou eficácia. Diversos fatores contribuíram para uma tendência anti-pesquisa e não comprovação empírica da abordagem, tais como a crítica ao intelectualismo, uma inclinação por processos formativos e interventivos mais criativos e inconvencionais, uma valorização do ensino e da prática experiencial – por meio da observação, demonstrações e oficinas, além do próprio afastamento de círculos acadêmicos. Tudo isso fez parecer que a GT se tratava mais de uma improvisação do que de um método que poderia ser planejado, quantificado e replicado (Gold & Zahm, 2014).

Contudo, com o advento da PBE, praticantes e pesquisadores da GT têm buscado aprofundar a teoria e comprovar a prática dessa abordagem, porém a quantidade e os tipos de pesquisas realizadas não se comparam às de outras abordagens, tal como a Terapia Cognitiva Comportamental, cuja eficácia é comprovada pelos estudos padronizados. Isso acontece em razão de que as pesquisas em GT, geralmente, limitam-se a estudar apenas uma técnica específica, como a cadeira vazia, por exemplo, ou porque não possuem projetos de pesquisa bem formulados ou estudos rigorosos para atender os atuais padrões (Gold & Zahm, 2014).

Este é um apontamento importante, pois, nos últimos vinte anos, os paradigmas de aceitação das psicoterapias mudaram radicalmente, em decorrência da PBE. Trata-se, pois, de uma tendência norte-americana, que propende a se repetir em diversos países, incluindo o Brasil. Nesse contexto, muitas empresas de planos de saúde somente estão financiando psicoterapias que se baseiam no modelo médico de redução de sintomas e de tratamentos de transtornos específicos, considerando aquelas que fazem em menor tempo, com menos custos e com evidência científica crível. A pressão dos planos de saúde fez com que a APA desenvolvesse, desde a década de 1990, inúmeras pesquisas para validar as psicoterapias, até chegar ao modelo dos tratamentos com suporte empírico, do qual a GT não faz parte (Gold & Zahm, 2014).

No entanto, essa discussão não é recente no campo da Psicologia. Remonta à década de 1950, quando o psicólogo alemão Hans Eysenck questionou a validade da psicoterapia. Desde então, diversos debates e pesquisas tensionaram a validade, eficiência e eficácia das psicoterapias. Enquanto as escolas psicodinâmicas e humanistas defendem a ideia de que todas as abordagens psicoterapêuticas têm validade (teoria dos fatores comuns), as escolas comportamentais e cognitivistas-comportamentais defendem a teoria dos fatores específicos, em que certas técnicas são mais eficazes que outras (Souza & Gonçalves, 2024).

Desse modo, os fatores comuns, também chamados de fatores contextuais, estão fortemente relacionados ao terapeuta e ao cliente, enquanto os fatores específicos se relacionam com o tipo de tratamento administrado, protocolos e técnicas específicas de cada abordagem psicoterápica. Até então, a teoria dos fatores específicos é dominante na APA. Esse movimento é influenciado por questões políticas como financiamento, popularidade nos círculos acadêmicos e “manualização” das psicoterapias, fatores que acabam privilegiando as abordagens comportamentais e cognitivo-comportamentais (Stenzel, 2022).

Entretanto, novas pesquisas demonstram a validade das psicoterapias a partir dos fatores comuns que apresentam a importância das habilidades relacionais no manejo clínico, das quais muitas remetem às abordagens humanistas (Stenzel, 2022). Esse movimento contemporâneo tem início com os trabalhos de Bruce Wampold, professor e pesquisador norte-americano, que desde 2001 vem discutindo sobre o tema. Nesse debate, de um lado estão os proponentes do modelo médico, que acreditam que as teorias e técnicas são os agentes da mudança em psicoterapia, e do outro lado estão os defensores dos fatores comuns (Elkins, 2019).

Um estudo acurado de Wampold (2015) trouxe uma lista com alguns fatores comuns, a saber: empatia; consideração positiva; congruência; colaboração de objetivos; expectativas; aliança; a pessoa do terapeuta; e adaptação cultural de tratamentos baseados em evidências. Esses achados corroboram a ideia de que teorias e técnicas têm pouca relação com a eficácia da terapia, enquanto fatores humanos e relacionais são determinantes potentes da eficácia terapêutica.

Sucede que a psicoterapia humanista chega às mesmas conclusões (Stenzel, 2022). Carl Rogers (1957/2020) em seu texto: As condições necessárias e suficientes para a mudança terapêutica da personalidade, publicado em 1957, já trazia os aspectos da empatia, consideração positiva e congruência como condições facilitadoras do processo terapêutico. Contemporaneamente, pesquisadores como Arthur Bohart e David Elkins são referências sobre os estudos que relacionam a psicoterapia humanista com as evidências dos fatores comuns em terapia. É importante salientar que a pesquisa dos fatores contextuais não endossa a psicoterapia humanista como única abordagem com validade, na verdade essa pesquisa demonstra que qualquer abordagem pode ser eficaz, se esses fatores estiverem presentes (Elkins, 2019).

Dessa forma, entende-se que o modelo dos fatores específicos ou dos tratamentos com suporte empírico não é a única estratégia para definir a eficácia de uma abordagem. Na verdade, esse modelo é criticado por voltar-se apenas para o tratamento de pessoas com diagnóstico de transtornos psiquiátricos. Além disso, é sabido que a maioria dos pacientes possui sintomas específicos, porém não suficientes para o fechamento de um diagnóstico exato. Também são desconsideradas as pessoas que buscam terapia para trabalhar questões individuais, como insatisfação no trabalho, problemas conjugais etc. Por fim, o fato de a psicoterapia ser manualizada pode comprometer a relação terapêutica (Leonardi, 2016).

Mesmo com todos esses pretextos, o modelo médico ainda é hegemônico. Tratamentos centrados na redução do sintoma são prioritários em detrimento de outras abordagens psicoterápicas, não só pelos planos de saúde, como também por diversos programas de pós-graduação em psicologia. Estes, sobretudo nos Estados Unidos, vêm reduzindo a amplitude de seus currículos e o financiamento de pesquisa para priorizar os tratamentos com suporte empírico (Gold & Zahm, 2014).

Destarte, a GT se encontra ameaçada de marginalização. Essa ameaça se dá não apenas pela questão da pesquisa, mas também porque outras abordagens têm se apropriado de aspectos teóricos e interventivos da GT sem reconhecer sua origem. Por exemplo, perspectivas como a Abordagem Intersubjetiva, a Terapia de Aceitação e Compromisso, a Terapia Comportamental Dialética, a Terapia Cognitivo-Comportamental baseada em mindfulness, terapia do esquema, dentre outras, trabalham com conceitos muito similares àqueles que a GT já postula há anos, como se fossem novidades recém-descobertas. Além disso, destaca-se a inserção de fundamentos teóricos e práticos oriundos da GT em uma abordagem neo-humanista que abrange, também, alguns fundamentos da Terapia Centrada na Pessoa e da Focalização: a Terapia Focada nas Emoções, a qual se situa no paradigma da PBE (Mendes & Greenberg, 2022).

Ante esse cenário, Gold e Zahm (2015) defendem que, para sobreviver ao Zeitgeist (contexto de ideias científicas e culturais de um tempo), a GT deve realizar seu próprio “ajustamento criativo”, realizando pesquisas que a posicionem na lista das abordagens “empiricamente validadas”. Desse modo, evitar-se-ia a marginalização da GT, em um cenário maior, mais contemporâneo e externo à sua comunidade de estudiosos e praticantes, e sua absorção indiscriminada (sem distinção, rigor, ordem e critério) por terapias mais recentes.

Destarte, o objetivo desta pesquisa é analisar a relação da GT com o paradigma da PBE. Para isso, foram investigados textos que relacionam a GT com as pesquisas dos fatores comuns e, também, com os fatores específicos. Logo, foi realizada uma revisão narrativa, em que foram incluídos dados da literatura teórica e empírica, além de estudos experimentais e não-experimentais que perpassam o tema.

Método

Empregou-se o desenho de uma revisão narrativa. Este método de revisão não necessita de um protocolo rígido ou de critérios sistemáticos para realizar a busca do material, assim como não é necessário esgotar as fontes de informação com estratégias de busca exaustivas. Desse modo, a seleção das fontes de pesquisa, assim como sua interpretação, foi arbitrária e ocorreu de acordo com a subjetividade dos autores. Logo, se realizou como um método oportuno para construção de uma fundamentação teórica inicial para embasar, sobretudo, teses e dissertações (Camargo-Júnior et al., 2023).

Sendo assim, os artigos de revisão são bastante apropriados para descrever o “estado da arte” de um determinado tema. Como são abrangentes, podem ter um escopo mais amplo, como livros, capítulos e artigos de revistas etc., entendidos como importantes para atualizar o conhecimento qualitativo sobre o tema em questão (Rother, 2007).

Como o objetivo desta pesquisa é analisar a relação da GT com o paradigma das PBE, e esse tema ainda não é amplamente debatido entre os psicólogos humanistas brasileiros, tornou-se oportuno ter critérios de seleção mais flexíveis para a busca do material. Logo, foram rastreados artigos, capítulos de livros, livros, teses e dissertações que estivessem em consonância com os interesses da pesquisa (Rother, 2007).

Destaca-se que esse estudo também seguiu os procedimentos metodológicos propostos por Lima e Mioto (2007) para realização da pesquisa bibliográfica a partir do uso de técnicas de leitura, que serão descritas a seguir.

A primeira etapa consistiu em Leitura de reconhecimento do material bibliográfico. Trata-se de uma leitura rápida para selecionar o material que pode apresentar informações pertinentes ao tema. Nessa etapa, foram realizadas buscas nas seguintes bibliotecas virtuais e indexadores: SciELO, PePSIC, LILACS, BDTD, Google Acadêmico (Scholar) e Google Livros, utilizando os descritores: “Gestalt-terapia”; “Terapia baseada em evidências”; “Pesquisa em psicologia clínica”, com uso do operador booleano AND; e “Gestalt-terapia baseada em evidências” e “Pesquisa em Gestalt-terapia” com o uso do operador booleano OR. Os descritores foram pesquisados em português e inglês. Os capítulos de livros e livros completos também foram obtidos por buscas suplementares, em que foram considerados tanto os arquivos digitais quanto os materiais impressos. Os materiais selecionados estavam em língua portuguesa e inglesa e disponíveis na íntegra para consulta online, além de outros que foram adquiridos pelos autores.

Conforme Lima e Mioto (2007), o segundo passo foi a Leitura exploratória, que se deu como leitura rápida para verificar se o material selecionado realmente era pertinente para a pesquisa. Desse modo, foi realizada a leitura dos títulos e resumos dos trabalhos publicados como artigos, dissertações e teses; e dos títulos, sumário e introdução dos materiais publicados como capítulos de livros. O critério de delimitação dessas duas etapas iniciais foi por conveniência temporal e saturação, a saber: a pesquisadora destinou três meses para busca recorrente e intensa, para compilar o material bibliográfico que foi possível de ser obtido. Quando houve repetição do material ou de informações que foram exploradas e obtidas pelas leituras, encerrou-se a busca por fontes textuais.

A etapa seguinte, Leitura seletiva, determinou o material que realmente interessava para alcançar os objetivos da pesquisa. Logo foi realizado um recorte e fichamento dos trechos bibliográficos que contêm ideias sobre o tema estudado. Já na etapa posterior, Leitura reflexiva ou crítica, foi realizado o estudo do material com a finalidade de ordenar e sumarizar as informações relevantes para o objetivo do estudo. Por fim, a etapa de Leitura interpretativa buscou relacionar os pensamentos descritos nas obras com a pergunta levantada pelo estudo. Nessa etapa, também foi possível construir um instrumento que permitiu realizar o levantamento das ideias relevantes (Lima & Mioto, 2007). Inspirado em Santos Filho e Castelo Branco (2023), esse recurso de leitura trouxe a identificação da obra, os principais conceitos trabalhados, as contribuições para o estudo, de modo a fomentar uma discussão sobre as relações entre a GT e as PBE, em termos de: aproximações e distanciamentos; continuidades e descontinuidades; proposições e lacunas teóricas e práticas; sugestões para futuros estudos.

Resultados

Inicialmente, foi realizada uma busca nas bases SciELO, PePSIC, LILACS, BDTD e nos sites de busca Google Acadêmico (Scholar) e Google Livros, utilizando os descritores mencionados anteriormente, em português e inglês. A Tabela 1, exposta em seguida, descreve o processo de obtenção dos resultados dessa busca.  

Tabela 1.

Processo de seleção do material para análise

Base de dados/Indexador/Serviço de Busca

Quantidade de textos encontrados na busca com os descritores selecionados

Quantidade de textos mantidos para análise, após leitura dos títulos, resumos, sumários etc.

SciELO

11

01

PePSIC

00

00

LILACS

02

00

BDTD

08

00

Google Acadêmico

Aprox. 50 mil

05

Google Livros

Aprox. 50 mil

07

Fonte: elaboração própria dos autores

Sobre a quantidade de textos encontrados na busca com os descritores selecionados, foi realizada uma leitura exploratória para averiguar a pertinência e disponibilidade do material por meio da leitura dos títulos e resumos dos artigos, das dissertações e das teses e dos títulos, sumário e introdução dos capítulos de livros. Em específico, observa-se que a busca nas bases do Google Acadêmico e do Google Livros não se mostrou profícua, ao gerar muitos textos; neste caso, adotou-se a estratégia de leitura exploratória somente nos 50 primeiros textos que apareceram nas mencionadas bases, estabelecendo-os como limite para definir possíveis achados bibliográficos. Com base nisso, extraiu-se 05 textos do Google Acadêmico e 07 do Google Livros.

Destarte, após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados treze trabalhos pertinentes para análise, sendo sete capítulos de livros e seis artigos acadêmicos. Alguns trabalhos foram excluídos por tratarem de temas não alinhados à pesquisa, por estarem indisponíveis para leitura ou devido à dificuldade em sua aquisição. Já os trabalhos incluídos estavam: em conformidade com a proposta da pesquisa; total ou parcialmente disponíveis para leitura, ou foram de fácil aquisição. Além disso, houve a saturação temporal, já que foram destinados três meses para busca e compilação do material.  

Na etapa de leitura seletiva, foi realizado um recorte e fichamento inicial dos textos, como mostram as tabelas 2 e 3, expostas a seguir.

Tabela 2.

Capítulos de livros selecionados para a pesquisa

Número

Título

do

capítulo

Título do livro

Ano

Editora

Autores

País de origem

Prática baseada na evidência

Manual de Teoria, pesquisa e prática em Gestalt-terapia

2008/2014

Vozes

Philip Brownell

Inglaterra

Research and Gestalt Therapy

Gestalt Therapy in Clinical Practice: From Psychopathology to the Aesthetics of Contact (Gestalt Therapy Book Series 2)

2013

Instituto de Gestalt HCC Italy

Ken Evans, Leslie Greenberg

Itália

Bridging Practice and Research in Gestalt Therapy

Towards a Research Tradition in Gestalt Therapy

2016

Cambridge Scholars Publishing

Jan Roubal et al.

Inglaterra

Warrant, Research, and the Practice of Gestalt Therapy

Towards a Research Tradition in Gestalt Therapy

2016

Cambridge Scholars Publishing

Philip Brownell

Inglaterra

Critical Realism as an Ontology for Gestalt Therapy Research

Towards a Research Tradition in Gestalt Therapy

2016

Cambridge Scholars Publishing

Alan Meara

Inglaterra

Research in Gestalt Therapy: a Way of Developing our Model

Towards a Research Tradition in Gestalt Therapy

2016

Cambridge Scholars Publishing

Margherita Spagnuolo Lobb

Inglaterra

Introduction and Framing of the Book

Handbook for Theory,

Research and Practice

in Gestalt Therapy

(2nd Edition)

2019

Cambridge Scholars Publishing

Philip Brownell et al.

Inglaterra

Fonte: elaboração própria dos autores.

Tabela 3.

Artigos selecionados para a pesquisa

Número

Título

Ano

Revista

Autores

País

‘What does a therapist do

when s/he does Gestalt

therapy?’ From the Conference

‘Exploring Practice-based

Research in Gestalt Therapy’,

2017

British Gestalt Journal

Peter Philippson

Inglaterra

The Gestalt Therapy Fidelity

Scale: A reply to Philippson

2017

British Gestalt Journal

Madeleine Fogarty

Inglaterra

Out of the Paris Conference: a step into exploring practice-based research in Gestalt therapy

2018

British Gestalt Journal

Vincent Béja et al.

Inglaterra

Gestalt Therapy Effectiveness: A Systematic Review of Empirical Evidence

2019

Open Journal of Social Science

Rosalba Raffagnino

Itália

Two risks and a third way: what research for Gestalt therapy?

2020

British Gestalt Journal

Vincent Béja

Inglaterra

A abordagem humanística no debate sobre psicoterapia baseada em evidências

2022

Revista da Abordagem Gestáltica

Lucia Marques Stenzel

Brasil

Fonte: elaboração própria dos autores.

Na etapa da leitura reflexiva, o material foi ordenado e sumarizado. Ao todo, foram lidos treze textos. A leitura foi conduzida em ordem cronológica, iniciando pelos mais antigos para se perceber o desenrolar dos debates em torno do tema. Apresenta-se a seguir o que foi sintetizado dessa etapa de leitura.

1) Iniciou-se pelo capítulo “Prática baseada na evidência” do livro “Manual de Teoria, pesquisa e prática em Gestalt-terapia”, escrito por Philip Brownell, originalmente em 2008 nos Estados Unidos e republicado em 2014 no Brasil. O autor inicia discutindo que evidências são relativas e dependem de um percurso ontológico e epistemológico que ampara a construção do conhecimento. Sugere que os Gestalt-terapeutas confiam no que fazem, mas que apenas seus testemunhos podem não ser suficientes para justificar a prática da abordagem, sendo necessárias outras formas de comprovar sua eficácia. Brownell (2008/2014) aponta a definição de PBE adotada pela APA e discute os Tratamentos com Suporte Empírico e como são pensados para populações específicas. Ele alerta que a APA não definiu os Ensaios Clínicos Randomizados (ECR) como único modelo metodológico capaz de gerar evidências sólidas, apesar de ser considerado o padrão ouro. Outros desenhos de pesquisa, como observação clínica, pesquisa qualitativa, estudo de caso sistemático, desenhos experimentais de caso único, dentre outros, podem ser utilizados em pesquisas. Dessa forma, Brownell (2008/2014) aponta como o método Séries Temporais de Caso Único (SCTS) tem sido utilizado por pesquisadores da GT e pode contribuir com demais estudos.

2) Seguiu-se pela leitura do capítulo “Research and Gestalt Therapy” do livro “Gestalt Therapy in Clinical Practice: From Psychopathology to the Aesthetics of Contact”, escrito por Ken Evans e Leslie Greenberg em 2013. Nessa publicação, Evans discute a mudança no cenário da psicoterapia na Europa, focando na crescente regulamentação e busca pelos tratamentos manualizados e pelas PBE. O autor critica a utilização de métodos quantitativos e ensaios clínicos randomizados (ECR) como padrão ouro para PBE. Nesse sentido, faz uma defesa dos fatores comuns e do uso de métodos qualitativos, como a pesquisa fenomenológica e a pesquisa centrada na relação, que fossem flexíveis ao contexto do trabalho da Gestalt-terapia na prática clínica. Greenberg, ao fazer o comentário do texto de Evans, aponta que a preocupação do pesquisador não deve ser com o método da pesquisa e sim com o rigor necessário para identificar processos específicos de mudança terapêutica, independentemente do método (Evans & Greenberg, 2013).  

3) O capítulo “Bridging Practice and Research in Gestalt Therapy”, escrito por Jan Roubal, Gianni Francesetti, Philip Brownell, Joseph Melnick e Jelena Zeleskov-Djoric, se trata da introdução do livro “Towards a Research Tradition in Gestalt Therapy”, publicado em 2016. Nesse texto, os autores enfatizam a mobilização da comunidade gestáltica para a pesquisa em busca de fortalecer o reconhecimento acadêmico e clínico da abordagem, apontando o desafio em sistematizar a espontaneidade da experiência presente e a necessidade de expandir as fronteiras de contato da abordagem. Além disso, os autores pontuam o risco de isolamento da GT frente a um movimento de tensões e desafios que buscam regulamentar as psicoterapias. Nesse sentido, apontam a Conferência de pesquisa em GT, em Cape Cod, ocorrida em 2013, e o Seminário de pesquisa em GT, em Roma, no ano de 2014, como eventos importantes para consolidar a tradição de pesquisa na terapia Gestalt (Roubal et al., 2016).

4) No capítulo intitulado “Warrant, Research, and the Practice of Gestalt Therapy”, escrito por Philip Brownell, do livro “Towards a Research Tradition in Gestalt Therapy”, de 2016, foi dada como consenso a importância da realização de pesquisas no campo. Nesse trabalho, Brownell (2016) destaca a necessidade de a GT identificar-se com uma filosofia da ciência adequada, realizar pesquisa com variadas metodologias e publicar esses estudos em revistas relacionadas à área. Sobre a filosofia da ciência, o autor debate a perspectiva da fenomenologia, mas enfatiza que o realismo crítico é uma base filosófica que possibilita explorar ideias sem pretender alcançar uma verdade absoluta, sendo uma visão compatível com o conceito de contato e campo descritos na abordagem.

5) Alan Meara, no capítulo “Critical Realism as an Ontology for Gestalt Therapy Research” do livro “Towards a Research Tradition in Gestalt Therapy”, de 2016, defende a incorporação da Teoria da Complexidade na GT. Meara (2016) aponta que a Teoria da Complexidade possibilita compreender a diversidade de processos e fluxos, caos, mudança e continuidade da GT, estando em diálogo com a noção de campo trabalhada pela abordagem. Além disso, defende o Realismo Crítico de Roy Bhaskar[1] como base ontológica e epistemológica da abordagem. Por fim, aponta uma conexão da Teoria da Complexidade e do Realismo Crítico com a Fenomenologia de Merleau-Ponty e sua discussão sobre corpo, percepção e realidade (Meara, 2016).

6) No capítulo “Research in Gestalt Therapy: a Way of Developing our Model”, escrito por Margherita Spagnuolo Lobb, também disponível no livro “Towards a Research Tradition in Gestalt Therapy”, publicado em 2016, a autora aponta a importância da pesquisa e reconhece a tradição da pesquisa fenomenológica aliada à Gestalt-terapia. Lobb (2016) aponta dois tipos de estudos importantes para serem desenvolvidos: a pesquisa de resultados, que pretende medir os resultados após a psicoterapia, e a pesquisa de processo, que averigua os aspectos do processo psicoterapêutico. A autora retrocitada exemplifica com alguns relatos de pesquisa e apresenta o estudo que desenvolveu em seu instituto para observar modos de contato e retirada em famílias com crianças de 5 a 7 anos. Para realizar o empreendimento, precisou validar uma escala específica.

7) A leitura foi continuada pelo artigo “‘What does a therapist do when s/he does Gestalt therapy?’ From the Conference ‘Exploring Practice-based Research in Gestalt Therapy”, escrito por Peter Philippson, no “British Gestalt Journal”, em 2017. Nesse texto, Philippson (2017) comenta que participou de uma conferência de GT em Paris, em maio de 2017. Nessa conferência, Madeleine Fogarty apresentou uma escala que estava desenvolvendo, a Gestalt Therapy Fidelity Scale (GTFS). O propósito dessa escala é avaliar se o que os Gestalt-terapeutas desenvolvem na clínica é realmente GT. Philippson (2017) apoia a pesquisa acerca da eficácia da GT, mas tece uma crítica à escala de Madeleine Fogarty, ao acreditar que a pesquisadora se apoiou em um paradigma ultrapassado da GT, baseando-se apenas na relação unilateral com o cliente e desconsiderando o campo relacional. Por fim, aponta a neurociência como ideia a ser seguida em pesquisa, retomando o trabalho de Goldstein e Perls com soldados de guerra (Philippson, 2017).

8) No artigo seguinte, “The Gestalt Therapy Fidelity Scale: A reply to Philippson”, publicado no “British Gestalt Journal”, em 2017, Madeleine Fogarty faz uma tréplica à crítica de Peter Philippson. A autora esclarece que o propósito de sua escala é avaliar se a prática terapêutica de um profissional é fiel aos princípios da Gestalt-terapia. Fogarty (2017) elucida que a escala foi desenvolvida a partir de um Estudo Delphi, com o apoio de mais de 60 especialistas, estando Peter Philippson entre os contribuintes. Além disso, a escala dialoga com os princípios da PBE, ao permitir diferenciar a GT de outras práticas, captando aspectos essenciais da abordagem. O instrumento é considerado um consenso internacional entre praticantes da GT e, também, oferece um ponto de partida para futuras pesquisas. Fogarty (2017) entende os desafios relacionados à construção de uma escala de fidelidade, mas acredita que utilizar a neurociência para medir interações, como sugeriu Philippson (2017), seria muito custoso.

9) No artigo intitulado “Out of the Paris Conference: a step into exploring practice-based research in Gestalt therapy”, escrito por Vincent Béja, Gianni Francesetti, Jan Roubal e Mark Reck, em 2018, se encontra um pouco da história que levou Paris a sediar a primeira conferência internacional sobre pesquisa em Gestalt-terapia fora dos Estados Unidos. Roubal e Reck (2018) contam que, na França, Suíça e Bélgica, a GT se desenvolve fora das universidades. No entanto, a Sociedade Francesa de Gestalt e o Colégio Europeu de GT realizaram, em 2008, uma Assembleia Geral de terapeutas em que discutiram a legitimidade da abordagem. Para tanto, organizaram, em 2010, uma reunião com cinquenta gestaltistas. Em 2011, foi criada uma comissão de pesquisa liderada por Vincent Beja. Paralelo a isso, desde 2008, a Associação Europeia de GT tinha um comitê de pesquisa coordenado inicialmente por Peter Schulthess, depois por Gianni Francesetti e posteriormente por Jan Roubal. Em 2014, esse comitê organizou o primeiro seminário sobre metodologias de pesquisa em Roma, com oitenta pessoas. Já nos Estados Unidos, Phil Brownell publicou um livro sobre pesquisa, coordenou um grupo de trabalho e organizou as primeiras Conferências Internacionais de Pesquisa em Terapia em Cape Cod. No fim, os autores apontam para um sentimento de comunidade que se torna mais evidente entre Gestalt-terapeutas, ao assumirem um compromisso com a pesquisa (Beja et al., 2018).

10) Deu-se continuidade com a leitura do capítulo “Introduction and Framing of the Book” do livro “Handbook for Theory, Research, and Practice in Gestalt Therapy (2nd Edition)”, de 2019, escrito por Philip Brownell, Peter Philippson, Madeleine Fogarty, Vincent Beja, Pablo Herrera Salinas, Jan Roubal e Tomás Rihácek. O texto se trata de uma introdução para a segunda edição do livro “Manual de Teoria, Pesquisa e Prática em Gestalt-terapia”. Os autores relembram que a primeira edição do livro foi elaborada entre 2006 e 2008, sendo traduzida em várias línguas, servindo como apelo para que os terapeutas gestálticos se preocupassem com a pesquisa. Dez anos depois, a comunidade gestáltica se empenhou em uma tradição de pesquisa, realizando quatro conferências internacionais de pesquisa até 2019. Além de discutir sobre PBE, tratamentos com suporte empírico e distintos métodos de pesquisa viáveis e apropriados para a GT, o texto traz um interessante debate entre os autores sobre “The Gestalt Therapy Fidelity Scale” de Madeleine Fogarty, abordando outros desafios da pesquisa no campo (Brownell et al., 2019).

11) Seguiu-se com a leitura do artigo “Gestalt Therapy Effectiveness: A Systematic Review of Empirical Evidence” de Rosalba Raffagnino, publicado no “Open Journal of Social Science” em 2019. O texto se trata de uma revisão sistemática acerca da eficácia da terapia Gestalt. O artigo revisa onze estudos escritos nos últimos doze anos, incluindo pesquisas publicadas em periódicos internacionais, nos idiomas inglês e italiano. As pesquisas sobre a GT destacaram sua eficácia em diversas áreas, especialmente em intervenções em grupo e contextos específicos. A autora destaca a Terapia Focada nas Emoções como uma abordagem neo-humanista com eficácia reconhecida e recomendada pela APA. Além disso, recomenda a ampliação da pesquisa na GT (Raffagnino, 2019).

12) Em “Two risks and a third way: what research for Gestalt therapy?” de Vincent Béja, publicado no “British Gestalt Journal” em 2020, Béja (2020) retoma o processo histórico e as conferências que incentivaram os Gestalt-terapeutas a se interessarem pela pesquisa. Também aponta o consenso sobre a necessidade de pesquisa na área, menciona alguns pesquisadores com trabalhos interessantes, cita a Terapia Focada nas Emoções e discute as dificuldades epistemológicas, metodológicas e políticas relacionadas à pesquisa em GT (Beja, 2020).

13) Conclui-se com a leitura do texto nacional de Lucia Marques Stenzel, intitulado “A abordagem humanista no debate sobre psicoterapia baseada em evidências”, publicado em 2022 na “Revista da Abordagem Gestáltica”. Salienta-se que foi o único texto nacional obtido que menciona a GT na interface entre psicologia humanista e PBE. A autora discute a crescente valorização da Prática Psicoterápica Baseada em Evidências (PPBE), no Brasil e no mundo. Aponta como as pesquisas de fatores comuns, em especial os que tratam da relação terapêutica, convergem com a psicologia humanista e aprofunda o debate analisando essa relação com textos de Carl Rogers (Stenzel, 2022). Por fim, aponta que o debate acerca da PPBE no campo humanista ainda é embrionário no Brasil. A autora reflete que as publicações da área estão concentradas na discussão filosófica e epistemológica ou em estudos de cunho histórico e teórico-conceitual. As poucas pesquisas realizadas apresentam metodologias qualitativas vinculadas ao método fenomenológico, ainda distante de uma discussão no modelo da PPBE (Stenzel, 2022).

Após essa leitura reflexiva sobre os treze textos compilados, procedeu-se a uma leitura interpretativa em que foi construída uma ordenação e comparação de ideias importantes como a identificação da obra, os principais conceitos trabalhados, os modelos epistemológicos apontados como relevantes para a GT, os relatos de pesquisas já realizadas e mencionados nos trabalhos e as sugestões de pesquisas/métodos a utilizar. A Tabela 4, apresentada a seguir, demonstra essa etapa que possibilitou uma instrumentalização para uma discussão ulterior.

Tabela 4.

Instrumento de leitura e discussão

Obra

Discussão

Modelos e epistemológicos apresentados

Relatos de pesquisas

apresentados

Pesquisas e métodos a utilizados ou indicados

Brownell, 2014.

Discute a diferença entre Evidências baseadas na prática x prática baseada em evidências; Apresenta uma pluralidade de métodos para produzir evidências para a GT.

Não apresenta.

Cita pesquisas realizadas com o método Clínical outcomes in routine evaluation (CORE) para avaliar a eficácia de tratamentos.

Indica o ensaio temporal de caso único.

Evans & Greenberg, 2013.

Discute Evidências baseadas na prática x prática baseada em evidências; Discute métodos apropriados para produzir evidências para a GT.

Fenomenologia, teoria de campo, holismo, filosofia dialógica, existencialismo, psicanálise relacional.

Cita uma pesquisa feita com crianças e adolescentes em terapia e outra pesquisa feita com exploração fenomenológica de eventos traumáticos.

Indica a pesquisa fenomenológica, pesquisa centrada na relação, pesquisa de processo e pesquisa de resultado.

Roubal et al., 2016.

Discute a relação entre GT e PBE.

Não apresenta.

Apresenta o livro do qual faz parte com diversas pesquisas e metodologias.

Apresenta o livro do qual faz parte com diversas pesquisas e metodologias.

Brownell, 2016.

Debate a questão do positivismo e pós-positivismo na pesquisa.

Realismo Crítico e Fenomenologia.

Dá o exemplo do Centro de Psicoterapia Gestalt de Santiago, Chile, com o desenvolvimento de estudos experimentais de caso único.

Indica o Estudo Experimental de Caso Único.

Meara, 2016.

Sugere o Realismo Crítico como uma Ontologia para a Pesquisa em Gestalt-terapia.

Teoria da Complexidade, Realismo Crítico de Bhaskar e fenomenologia de Merleau-Ponty.

Não apresenta.

Não indica.

Lobb, 2016.

Debate sobre a pesquisa em GT histórica e atualmente; Apresenta a pesquisa de processo e pesquisa de resultado.

Não apresenta.

Cita o modelo clínico que validou em seu instituto em que tentou validar uma medida observável chamada Gestalt measure.

Cita o Clinical Outcomes in Routine Evaluation – Outcome Measure (CORE-OM). Cita o Boston Change Process Study Group de Stern e colegas e Lousanne Trilogue Play de Elisabeth Fivaz-Depeursinge.

Philippson, 2017.

Tece uma crítica ao trabalho de Madeleine Fogarty sobre a Gestalt Therapy Fidelity Scale (GTFS).

Não apresenta.

Não apresenta.

Sugere pesquisas com neurociências.

Fogarty, 2017.

Responde à crítica de Peter Philippson sobre a Gestalt Therapy Fidelity Scale (GTFS).

Não apresenta.

Apresenta o processo de construção da escala via um estudo Delphi.

Não indica.

Vincent Béja et al., 2018.

Discute a necessidade de a GT se envolver com pesquisa.

Não apresenta.

Apresenta uma pesquisa que criou uma escala para medir a depressão em crianças. Apresenta a pesquisa

CORE para medir resultados, cita a Escala de Fidelidade à Terapia Gestalt.

Indica melhorias na pesquisa, mas não um método específico.

Brownell et al., 2019.

Debate sobre a pesquisa em GT e traz um debate sobre a Gestalt Therapy Fidelity Scale (GTFS).

Não apresenta.

Apresenta a Gestalt Therapy Fidelity Scale (GTFS), dentre outros.

Apresenta o CORE, o ensaio temporal de caso único, estudo de eficácia, dentre outros.

Raffagnino, 2019.

Revisão de pesquisas para discutir a eficácia da Gestalt-terapia.

Fenomenologia.

Apresenta diversas pesquisas sobre a eficácia da GT.

Indica melhorias na pesquisa, mas não um método específico.

Beja, 2020.

Discute a necessidade de a GT se envolver com pesquisa.

Não apresenta.

Apresenta a pesquisa com Séries Temporais de Caso Único de Pablo Herrera no Chile para transtornos de ansiedade e a Escala de Fidelidade à Terapia Gestalt.

Indica melhorias na pesquisa, mas não um método específico.

Stenzel, 2022.

Discute a Prática Psicoterápica Baseada em Evidências (PPBE) na psicologia humanista brasileira.

Fenomenologia, Existencialismo.

Não apresenta.

Não indica.

Fonte: elaboração própria dos autores.

Discussão

Baseado na leitura interpretativa, foram discutidos três pontos, a saber: a abertura para pesquisa na comunidade gestáltica e o risco de marginalização, frente a outras abordagens com tradição de pesquisa no campo da PBE; os pressupostos epistemológicos tidos como essenciais para o desenvolvimento da pesquisa em GT baseada em evidências; e as diferentes abordagens metodológicas utilizadas na pesquisa em GT baseada em evidências, como será visto a seguir.

Abertura para pesquisa e risco de marginalização da Gestalt-Terapia frente às Psicologias Baseadas em Evidências

Na década de 1990, Leslie Greenberg e colaboradores inspiraram Ken Evans a introduzir um Programa de Mestrado, voltado para pesquisa em GT, em uma universidade do Reino Unido. Após isso, um Programa de Doutorado foi implementado nos anos 2000. Essas devem ter sido as primeiras movimentações de Gestalt-terapeutas interessados na pesquisa em PBE. Evans, em 2013, alertava os Gestalt-terapeutas sobre um “vento frio” soprando em países europeus, trazendo um contexto político específico em psicoterapia, com a valorização da Prática Baseada em Evidências, regulamentação estatutária, tratamentos manualizados, dentre outras iniciativas no mesmo sentido. Na época, alguns países europeus restringiam o exercício da psicoterapia apenas para médicos e psicólogos, o que gerou tal empreitada organizacional acadêmica (Evans & Greenberg, 2013).

Segundo Jan Roubal et al. (2016), um exemplo dessa restrição ocorreu na Alemanha quando o governo sancionou apenas os profissionais da Terapia Cognitivo-Comportamental para exercer psicoterapia. Em outros países europeus, as companhias de seguro não reconhecem a GT como um método apropriado. Também na Europa, certos países começaram a exigir o curso de mestrado para psicoterapeutas exercerem a profissão. Desse modo, surgiram alertas para o risco de marginalização, isolamento e exclusão da GT dos futuros desenvolvimentos em psicoterapia, caso não haja pesquisas e publicações na área. Os mencionados autores observam, ainda, que organismos isolados não sobrevivem e não crescem, pois o crescimento se dá na fronteira de contato.

Nesse cenário, Brownell (2016) atenta para o fato de que a PBE se expandiu para quase todas as dimensões da esfera pública e privada. Essa expansão impacta o licenciamento de provedores e a oferta de educação. Até mesmo as políticas públicas têm se baseado em uma exigência por eficácia e eficiência. Logo, a abertura para a pesquisa se trata de uma necessidade de sobrevivência para a GT. O autor reconhece que vários escritores da GT estão se mobilizando para a pesquisa, discutindo filosofia da ciência, se apropriando de metodologias e realizando publicações em periódicos científicos. Assim, a abertura para pesquisa e necessidade de diálogo com a PBE é praticamente um consenso entre os autores estudados (Brownell, 2016; Lobb, 2016; Meara, 2016; Philippson, 2017; Beja et al., 2018; Brownell et al., 2019; Raffagnino, 2019; Beja, 2020).

Em sua fundação, a GT surgiu como uma abordagem subversiva, no panorama da contracultura, indo de encontro ao academicismo. Essa postura afastou a GT da pesquisa, presumindo uma prescindibilidade de comprovação (Beja et al., 2018). Por conta desse contexto, por muitos anos, a comunidade gestáltica se fechou para a pesquisa e desprezou o debate acerca das Práticas Baseadas em Evidências. No entanto, há uma crescente conscientização acerca da necessidade de pesquisa na GT para que ela seja reconhecida não apenas na clínica, mas também na academia. Os autores recomendam humildade e abertura para sobreviver às mudanças, afirmando que a pesquisa não é contrária ao ethos da abordagem, mas pode ser benéfica e conveniente para proporcionar uma compreensão mais clara e detalhada sobre seu funcionamento (Roubal et al., 2016).

Nos Estados Unidos da América, país de origem da GT, havia uma preocupação crescente com a marginalização da abordagem. Essa preocupação levou Philip Brownell a coordenar e publicar o primeiro livro sobre pesquisa, o “Handbook for Theory, Research, and Practice in Gestalt Therapy”, em 2008. Também foi criado um comitê de pesquisa, sendo realizada a primeira conferência internacional de pesquisa, em 2013, ocorrida no Gestalt International Study Center (GISC), em Cape Cod[2], organizada por Brownell e Joseph Melnick. O tema do evento foi: “Em direção a uma Tradição de Pesquisa na Gestalt-terapia”, em uma tradução livre. A pesquisa foi encorajada e havia várias categorias para apresentações de trabalho, como: Pesquisa Concluída ou em Andamento, Metodologia de Pesquisa, ou Filosofia da Ciência que Apoia a Pesquisa. Uma segunda conferência aconteceu em 2015 (Roubal et al., 2016).

É curiosa, também, a história da França, já que, em 2008, a Sociedade Francesa de Gestalt e o Colégio Europeu de Gestalt-Terapia organizaram uma Assembleia Geral de Gestalt-terapeutas. Nessa assembleia, uma estudante de mestrado apresentou uma dissertação conjecturando que a comunidade gestáltica tinha associação com comportamentos sectários e que essa associação era presumida pelas autoridades públicas francesas. Como resposta a esse trabalho, a comunidade de Gestalt-terapeutas franceses organizou um grupo de reflexão, com o intuito de dar mais legitimidade à abordagem e abri-la para o mundo. Na época, a pesquisa era escassa, quase inexistente, e não havia conexão entre a GT e as universidades francesas, assim como não havia conexão com as universidades suíças ou belgas. O grupo francês organizou uma reunião, em 2010, com cinquenta gestaltistas, para discutir a importância da pesquisa. Em 2011, foi criada uma comissão de pesquisa liderada por Vincent Béja (Beja et al., 2008).

Ainda em 2008, a European Association for Gestalt Therapy (EAGT)[3] criou um comitê de pesquisa presidido, inicialmente, por Peter Schulthess e, posteriormente, por Gianni Francesetti e Jan Roubal. Em 2014, o comitê de pesquisa da EAGT planejou o primeiro seminário educacional sobre metodologias de pesquisa em Roma, reunindo oitenta pessoas. Os organizadores do Seminário de Roma convidaram dez palestrantes que apresentariam distintas perspectivas teóricas e metodológicas importantes para a pesquisa em GT. No primeiro dia, discutiram aspectos gerais da teoria e da prática, apresentando modelos de pesquisa utilizáveis. Nos dois dias que se seguiram, apresentaram metodologias específicas como o uso do CORE, estudos de caso único, método qualitativo, avaliação direta dos resultados, dentre outros (Roubal et al., 2016). A EAGT ainda realizou uma conferência em Paris, na França, em 2017, e outra conferência internacional em Santiago, no Chile (Beja et al., 2008). De acordo com o portal da EAGT, em 2022 houve uma conferência em Hamburgo, na Alemanha, e outra conferência em Birmingham, na Inglaterra, está prevista para setembro de 2025 (European Association for Gestalt Therapy, 2025).

Nesse breve e contemporâneo panorama, observa-se que o diálogo entre a GT e a PBE está em expansão em diversas partes do mundo. Logo, os Gestalt-terapeutas estão ampliando a awareness de que o mundo da psicoterapia mudou, de que os sistemas de saúde estão reformulando políticas para aumentar a credibilidade e legitimidade da clínica e, portanto, é necessário fortalecer uma tradição de pesquisa que permita à GT solidificar seu espaço nesse cenário (Beja et al., 2008).

Pressupostos epistemológicos da pesquisa em Gestalt-terapia Baseada em Evidências

Ao se empreender práticas de pesquisa em GT, torna-se imprescindível discutir sobre os fundamentos epistemológicos que sustentam seus fundamentos teóricos e metodológicos. Sem uma compreensão epistemológica, arrisca-se comprometer a pesquisa, prejudicando a coerência interna e o desenvolvimento da abordagem enquanto um campo científico.

Comumente, existe um desentendimento acerca do que seriam os fundamentos epistemológicos e as teorias de base, nas pesquisas teóricas em GT. Evans e Greenberg (2013) apontam a fenomenologia, a teoria de campo, o holismo, a filosofia dialógica, o existencialismo e a psicanálise relacional como sendo as bases epistemológicas da GT[4].

A despeito desse apontamento, a aproximação com a PBE suscita na comunidade uma ampliação das bases epistemológicas da GT. Para tanto, Brownell (2016) tem apontado como base epistemológica o realismo crítico, além da fenomenologia, sendo consensuada como um fundamento epistemológico importante. Meara (2016) ainda aponta a teoria da complexidade, o realismo crítico de Bhaskar e a fenomenologia de Merleau-Ponty.

Para Brownell (2016), as ciências humanas e a psicologia são fundamentadas pela filosofia naturalista, cujo oposto seria a filosofia anti-naturalista ou sobrenaturalista, base para os estudos teológicos, por exemplo. Do mesmo modo, o autor defende que a psicologia é pós-positivista. O positivismo acreditava que o pesquisador e o pesquisado eram independentes um do outro, e que o conhecimento produzido através da pesquisa era uma verdade universal. Com o desgaste das ideias positivistas, surgem as correntes pós-positivistas, que acreditam que as hipóteses, conhecimentos e valores do pesquisador podem influenciar naquilo que é observado e estudado. Para os pós-positivistas, o conhecimento não é universal, e sim conjectural. Qualquer evidência encontrada em uma pesquisa é falível e imperfeita, por mais sólida que pareça. Desse modo, certas informações podem ser ignoradas em favor de achados de pesquisa mais confiáveis. Assim, o objetivo de uma pesquisa pode ser explicar situações, ou descrever relações causais, ou relacionar variáveis para formular ou testar hipóteses.

De acordo com Brownell (2016), a fenomenologia, o construtivismo social e o realismo crítico, por exemplo, seriam formas de pós-positivismo. Os achados da fenomenologia, na esteira do pensamento de Husserl, Heidegger e Merleau-Ponty, apontam que existem dois tipos de conhecimento: um conhecimento reflexivo, que é investigativo e lógico; e outro conhecimento que é fenomenológico, isto é, imediato, dado a partir da experiência, cujo sentido e significado são implícitos por meio do contato direto com o fenômeno. Nesse contexto, o ser humano é tido como um “corpo vivido”, pois cada pessoa nasce e vive em uma realidade com aspectos sociais, culturais, históricos já postos como premissa.

A GT é considerada uma abordagem fenomenológica, no entanto, sua postura fenomenológica é atenuada por outros princípios como a ênfase no contato, a dinâmica de campo ou as práticas experimentais. Assim, Brownell (2016) defende que o realismo crítico é uma meta-teoria consistente com a GT contemporânea e dá conta de sustentar sua abertura à pesquisa empírica[5]. O realismo crítico, por sua vez, abrange elementos ontológicos e epistemológicos que evitam se comprometer com a visão de um conhecimento absoluto da realidade social, colocando-se em oposição ao positivismo e às perspectivas construtivistas sociais. Para o realismo crítico, toda observação é falível e toda teoria é sujeita a revisão. Assim, o realista crítico questiona a capacidade de se conhecer a realidade por completo. Para tanto, aposta na utilização de múltiplas medidas, observações e métodos, que, quando triangulados, podem oferecer uma melhor compreensão da realidade.

Meara (2016) discute o realismo crítico a partir da visão de Roy Bhaskar, que defende uma estratificação ontológica em três níveis: o real, o atual e o empírico. O nível real é aquele em que os mecanismos causais ou generativos ocorrem, independentemente de serem conhecidos, por exemplo: a gravidade exerce suas leis inevitavelmente, quer os sujeitos tenham consciência disso ou não. O nível atual é aquele em que eventos ocorrem, independentemente de serem observáveis ou não, por exemplo: o buraco na camada de ozônio aumenta a cada dia, ainda que permaneça invisível a olho nu. Por fim, o nível empírico é aquele em que eventos são medidos ou experimentados. Para Meara (2016), o realismo está comprometido com a análise relacional dos mecanismos das estruturas sociais, como a família, a linguagem ou o Estado. Existe, pois, uma pluralidade de estruturas e mecanismos gerativos que, quando associados, conseguem produzir fenômenos sociais.

A visão ontológica da GT defende que a natureza da realidade é vista como um processo contínuo, sempre em mudança, em que todas as coisas existem em relação a outras, sendo envolvidas no processo, de modo que consequências não são obrigatoriamente explicáveis pelas leis da causalidade. O realismo crítico concorda com uma epistemologia relativista, mas não uma ontologia relativista, ao entender que o conhecimento sobre a realidade é socialmente construído, mas a realidade em si tem princípios mais amplos que podem, ou não, sofrer a influência desse conhecimento. Sendo assim, qualquer estudo de eficácia é probabilístico; no entanto, desenvolver uma abordagem com pressupostos padronizados pode aumentar a linearidade das suposições, assim como diminuir as perturbações ou flutuações relacionadas (Meara, 2016).

Meara (2016) também converge, além do realismo crítico, a teoria da complexidade, a fenomenologia e os achados de neurociência como pressupostos importantes a serem considerados pela comunidade de Gestalt-terapeutas. Para a GT, os seres humanos são constituídos em uma dimensão social, logo, parte do pressuposto de que os problemas psíquicos ocorrem, direta ou indiretamente, como consequência de dificuldades na vida social e nos relacionamentos interpessoais.

Portanto, em linhas gerais, a fronteira de contato da GT baseada em evidências é ampliada a partir de articulações, de suas influências epistemológicas clássicas, com o realismo crítico e pós-positivismo.

Abordagens metodológicas utilizadas na pesquisa em Gestalt-terapia Baseada em Evidências

Existe uma hierarquia que avalia e classifica evidências de pesquisa nos graus A, B e C. As evidências de grau A são aquelas obtidas por meio de experimentos controlados, especialmente por Ensaios Clínicos Randomizados (ECR), considerado o padrão ouro na pesquisa. As evidências de grau B são derivadas de estudos quantitativos bem elaborados e experimentos não randomizados. Já as evidências de grau C se referem a relatos de casos e exemplos clínicos (Evans & Greenberg, 2013).

Evans e Greenberg (2013) acenam para uma crítica ao fato de que as pesquisas qualitativas são desmerecidas no debate das PBE, sendo que são a principal abordagem metodológica empregada por diversos pesquisadores que estudam as psicoterapias com ênfase relacional. Os autores apontam que os ECRs não são a melhor opção para averiguar a eficácia de uma psicoterapia, principalmente daquelas abordagens que possuem ênfase na dimensão emocional e relacional. Esse método pode apresentar um desvio substancial da prática clínica em psicoterapia, tratando os clientes como receptores passivos de tratamentos padronizados. Para tanto, são incentivadas as pesquisas em configurações clínicas naturais e cotidianas, em pequena escala, posicionando as experiências dos usuários de terapia no centro da pesquisa. Desse modo, os autores indicam a pesquisa centrada na relação como uma solução ao problema.  Assim, os autores consideraram os ECRs, como principal critério para tratamentos baseados em evidências, demasiado simplista. No entanto, pontua que a dicotomia entre pesquisa qualitativa e quantitativa é equivocada e reducionista, pois o principal problema não está relacionado a uma questão de números contra significados.

Logo, o objetivo da pesquisa científica deve contemplar quatro etapas sequenciais: observação/descrição; mensuração; explicação/compreensão; e previsão. A pesquisa baseada em evidências tem operado apenas no domínio da previsão, como se fosse o ápice do método científico. Contudo, os pesquisadores devem esclarecer seus objetivos de pesquisa e adotar uma abordagem plural, evitando a idolatria a um método – a “metodolatria”. Primeiramente, é necessário levantar as questões de pesquisa e, posteriormente, escolher o método que melhor se adeque ao objetivo inicial (Evans & Greenberg, 2013).

Nem sempre os significados e experiências dos participantes, obtidos por métodos qualitativos, vão ser relevantes em um estudo. A observação, por exemplo, pode ser crucial para o desenvolvimento de uma pesquisa de processos. Observar o que as pessoas realmente fazem na terapia pode ajudar a explicitar, testar e revisartanto os pressupostos teóricos quanto os elementos constituintes de tratamentos específicos responsáveis pela mudança na psicoterapia (Evans & Greenberg, 2013).

A chave, para que a pesquisa em psicoterapia se torne uma ciência aplicada, é a identificação dos processos de mudança que produzem efeitos terapêuticos. Evans e Greenberg (2013) ilustram que, utilizando a observação intensiva do diálogo da cadeira vazia, identificaram-se os componentes essenciais para a resolução de questões inacabadas. Foi observado que uma pessoa passa da expressão das emoções secundárias, como culpa ou mágoa, ativando as emoções primárias não resolvidas. Esse processamento emocional e o surgimento de uma nova emoção levam a uma resolução, como o perdão ou a responsabilização de um terceiro, por exemplo. Aqueles que, durante a terapia, se engajaram nesses processos de mudança, se beneficiaram mais do que aqueles que não o fizeram ou do que aqueles que experimentaram apenas os efeitos de uma boa aliança.

Ainda existe a ideia da adoção de múltiplos métodos de pesquisa em psicoterapia. A APA adota uma definição de prática baseada em evidências em psicologia (PBEP) que engloba a integração da melhor pesquisa disponível com a experiência clínica, dando ênfase a características, cultura e preferências do paciente. Por considerar todas essas dinâmicas do campo, os autores acreditam que essa é uma perspectiva compatível com a prática da GT (Brownell et al., 2019; Brownell, 2016).

A APA aprova os tratamentos com suporte empírico (TSE) estipulados para populações específicas, identificadas em torno de um transtorno mental ou outros problemas específicos. Os TSE se mostraram eficazes em circunstâncias controladas, mas as PBEP vão além e incluem uma gama mais ampla de opções clínicas. A entrevista, a avaliação clínica, a conceitualização de caso e o relacionamento terapêutico também são considerados práticas baseadas em evidências, não se limitando a estudos controlados de eficácia (Brownell et al., 2019; Brownell, 2016).

Sendo assim, a “evidência” pode assumir várias formas, já que a APA valida diversos desenhos de pesquisa:

Eles incluem observação clínica, pesquisa qualitativa, estudo de caso sistemático, desenhos experimentais de caso único para examinar fatores causais nos resultados, estudos de processo-resultado para examinar mecanismos de mudança, estudos de eficácia em ambientes naturais, tratamentos randomizados controlados e estudos de eficácia para inferências causais em grupos, além de meta-análises para observar padrões em múltiplos estudos referentes aos tamanhos de efeito (Brownell et al., 2019, p. 06, tradução nossa).

 

As pesquisas conduzidas com o aval da APA buscam, pois, identificar dois pontos: o primeiro é a eficácia de um tratamento (se ele funciona e possui validade interna); o segundo é a efetividade de um tratamento (se ele se generaliza para outros contextos e possui validade externa). Isto posto, é sabido que várias pesquisas similares já foram realizadas no âmbito da GT, tais como relatos baseados em observações clínicas, descrições de estudo de caso, pesquisas qualitativas, estudos de efetividade em contextos naturais, estudos de tratamentos randomizados, metaestudos, dentre outras pesquisas realizadas com diversos pacientes, com distintos diagnósticos, em contextos variados (Brownell et al., 2019; Brownell, 2016).

Em psicoterapia, também é possível identificar essas duas necessidades na pesquisa: verificar a validade de um tratamento e entender o que muda e como muda durante o tratamento. Essas necessidades são resolvidas por dois métodos distintos de pesquisa em psicoterapia, a pesquisa de resultados e a pesquisa de processo (Lobb, 2016).

A pesquisa de resultados (outcome research) mede as diferenças existentes antes e depois da psicoterapia, comparando a condição do cliente antes e depois do processo. Nesse contexto, a psicoterapia deve ser realizada com instrumentos padronizados. Os resultados são avaliados após o término do processo. Na pesquisa de resultados, é medido o efeito do tratamento psicoterapêutico (Lobb, 2016).

Um exemplo de ferramenta utilizada para pesquisa de resultados é a Avaliação de Resultados Clínicos em Rotina - Medida de Resultado (CORE-OM). Essa ferramenta é utilizada em toda a Europa. A Federação Italiana de Associações de Psicoterapia recomenda sua utilização. Do mesmo modo, a Associação Italiana de Gestalt Terapia apoia e ensina os terapeutas italianos a utilizarem-na (Lobb, 2016). Pesquisadores do Reino Unido defendem a utilização do CORE para avaliar a eficácia de tratamentos (Brownell et al., 2019).

Por outro lado, a pesquisa de processo (process research) estuda os variados aspectos do processo psicoterapêutico, que podem ser avaliados durante a realização do tratamento ou no encerramento da psicoterapia, independentemente dos resultados. Esse tipo de pesquisa avalia aspectos relacionados ao processo terapêutico e tenta entender o que muda durante o processo, quais as principais condições para a mudança ocorrer, quais os aspectos relacionais (verbais e não verbais) que facilitam a mudança, dentre outros. Um exemplo de ferramenta utilizada na pesquisa de processo é a avaliação da aliança terapêutica, em diversas fases da terapia. A aliança terapêutica pode ser comparada com outras variáveis do mesmo processo, como, por exemplo, sexo, idade do cliente e do terapeuta, número de sessões realizadas, duração do tratamento, gravidade do diagnóstico, dentre outros (Lobb, 2016).

Nesse sentido, diversos métodos ou desenhos de pesquisa podem ser utilizados, a depender dos objetivos propostos. Brownell et al. (2019) apontam a inclinação da comunidade gestáltica em utilizar o método da “pesquisa de caso único” como uma estratégia de pesquisa. Também conhecido como análise de séries temporais de caso, ou pesquisa de séries temporais com caso único, ou ensaio temporal de caso único. Nesse desenho, o estudo se assemelha à metodologia experimental de grupo, mas utiliza uma unidade única para análise (N pequeno). O estudo é realizado em séries temporais e investiga o funcionamento da terapia e o mérito relativo do tratamento. Pode ser utilizado por terapeutas no contexto clínico para acompanhar os próprios resultados no trabalho com indivíduos, casais ou famílias. Atualmente, é um desenho de pesquisa bem estabelecido na comunidade de Gestalt-terapeutas (Brownell et al., 2019).

Portanto, é preciso reconhecer que a pesquisa em GT já deu passos sólidos rumo a uma tradição e reconhecimento em pesquisa. Estudos como o desenvolvimento da Escala de Fidelidade da Gestalt Terapia (Fogarty, 2017), ou a Escala Change After Psychotherapy (CHAP), método de pesquisa de resultado e de processo, utilizada por Lobb (2016) em seu instituto na Itália, denotam o andamento da pesquisa e a pluralidade de métodos empregados para aproximar a GT da PBE.

Considerações finais

O presente estudo teve como objetivo analisar a relação da GT com o paradigma da PBE, com o amparo de uma revisão narrativa atrelada a técnicas de leitura oriundas da pesquisa bibliográfica. Com base nas análises realizadas, foi possível elencar três eixos: a abertura para pesquisa na comunidade gestáltica e o risco de marginalização, frente a outras abordagens com tradição de pesquisa no campo da PBE; os pressupostos epistemológicos tidos como essenciais para o desenvolvimento da pesquisa em GT baseada em evidências; e as diferentes abordagens metodológicas utilizadas na pesquisa em GT baseada em evidências. Observa-se que: existe uma tensão política relacionada ao risco de apagamento e marginalização da GT; há uma preocupação em rever e ampliar os pressupostos epistemológicos da abordagem; assim como, tem se consolidado uma comunidade de pesquisa que se apropria de percursos metodológicos específicos para dar conta da aproximação com a PBE.

Com base nos resultados e discussões, conclui-se que, no cenário internacional, a pesquisa em GT baseada em evidências é relativamente jovem, mas não é mais um recém-nascido. Seria como se essa manifestação estivesse na adolescência, buscando uma identidade clara, uma forma corporal distinta e coordenada, mas com muita energia e ambição.

No Brasil, entretanto, a situação é bem distinta. A aproximação da GT brasileira com as tradições de pesquisa em PBE é embrionária e a discussão de uma GT baseada em evidências é incipiente. Um ponto específico difere o contexto nacional do contexto internacional: no Brasil, há um reconhecimento acadêmico da abordagem, de modo que, em diversos cursos de graduação em psicologia, existem disciplinas específicas voltadas para o ensino de GT ou disciplinas generalistas de Psicologia Humanista, cujo currículo aborda a GT. Esse fenômeno não é observável em países europeus que lutam por um reconhecimento acadêmico da GT.

Considera-se que, no cenário nacional, ainda existe resistência na busca pela validação científica das psicoterapias e um receio relacionado à “manualização” dos tratamentos, padronização de intervenções e valorização de fatores nomotéticos, em sobreposição aos fatores idiográficos. Os achados desta pesquisa são relevantes para a comunidade gestáltica brasileira, ao evidenciarem o que está acontecendo no cenário internacional que acena para a necessidade de a GT aproximar-se de uma tradição de pesquisa mais sólida. Recomendam-se, finalmente, outros estudos para mapear as pesquisas nacionais em GT e averiguar quais métodos são mais empregados e os principais achados clínicos. Pesquisas empíricas e compreensivas sobre a percepção de profissionais da GT sobre a PBE são necessárias para investigar qualitativamente o motivo da mencionada incipiência no Brasil.

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Vírnia Ponte Alcântara Ximenes

Correspondência: virniaponte@gmail.com

Paulo Coelho Castelo Branco

Correspondência: pauloccbranco@gmail.com

Universidade Federal do Ceará

Revista IGT na Rede, v. 23, nº 44, 2025, p.1-50 DOI 10.5281/zenodo.18746124 Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526


[1]À guisa de elucidação, o argumento base do realismo crítico de Bhaskar é que o pesquisador deve pressupor que os mecanismos e elementos causais que operam nos experimentos controlados continuam operando no mundo real, sendo um sistema aberto e caótico, considerando-se a independência dos mesmos eventos gerados por tais experimentos. Logo, o pesquisador é um agente causal de uma sequência de eventos no mundo real, mas não é um agente das leis que regem esses eventos (Hamlin, 2000).

[2]Cap Code ou Cabo Cod é uma península que fica localizada no condado de Barnstable, em Massachusetts, nos Estados Unidos.

[3]Associação Europeia de Gestalt-Terapia.

[4]É importante destacar que alguns autores consagrados, no Brasil, como Ribeiro (2012) e Holanda (1998), apontam, como base epistemológica da GT, uma divisão entre a) os fundamentos filosóficos, que seriam a psicologia humanista, a fenomenologia e o existencialismo; b) as teorias de base, que seriam a psicologia da Gestalt, a teoria de campo de Kurt Lewin e a teoria Organísmica de Kurt Goldstein; e c) os antecedentes pessoais de Perls, que seriam a psicanálise e as filosofias orientais. Esses seriam um sistema de crenças inerente à GT, mas não são necessariamente uma base epistemológica.

[5] Sterneck (2020) aprofunda a compreensão epistemológica da GT em relação ao realismo crítico e pontua que, do ponto de vista ontológico, a GT é monista, ao defender a unidade entre “corpo e alma”.  Entretanto, do ponto de vista epistemológico, adota uma posição dualista, ao enfatizar uma clara distinção entre o exterior e o interior: o mundo transfenomenal e o mundo fenomenal.