ARTIGO
Atenção Psicológico a pessoas que fazem uso abusivo de drogas: Um olhar a partir da Gestalt-terapia
Psychological Care for Individuals with Substance Abuse: A Gestalt Therapy Perspective
Larissa Lobo
Unichristus
RESUMO
O uso abusivo de substâncias psicoativas tem sido um desafio complexo para a sociedade contemporânea. Neste contexto, a Gestalt-terapia se destaca como uma abordagem teórica relevante para a prática clínica, oferecendo ferramentas que valorizam a totalidade da experiência humana. Este trabalho analisa a contribuição da Gestalt-terapia na atenção psicológica a indivíduos com problemas relacionados ao uso abusivo de álcool e outras drogas, fundamentando-se em estudos que evidenciam suas teorias e técnicas. A pesquisa tem como objetivo identificar relatos de experiência e pesquisas que utilizam essa abordagem, além de compreender as ferramentas teóricas e práticas empregadas nas intervenções. A metodologia adotada foi uma revisão narrativa, analisando três artigos e quatro livros. Os resultados ressaltam as contribuições teóricas e técnicas da Gestalt-terapia para atenção psicológica a pessoas que fazem uso abusivo de drogas. Apesar das limitações, como a escassez de estudos sobre públicos específicos e suas particularidades, o presente estudo evidencia a relevância da Gestalt-terapia no tratamento da dependência química e sugere novas investigações para ampliar esse conhecimento.
Palavras-chaves: Atenção Psicológica; Drogas; Gestalt-terapia.
ABSTRACT
The abusive use of psychoactive substances has been a complex challenge for contemporary society. In this context, Gestalt therapy stands out as a relevant theoretical approach for clinical practice, offering tools that emphasize the totality of human experience. This paper analyzes the contribution of Gestalt therapy in psychological care for individuals with problems related to alcohol and drug abuse, based on studies that highlight its theories and techniques. The research aims to identify reports of experience and studies that use this approach, as well as to understand the theoretical and practical tools employed in interventions. The methodology adopted was a narrative review, analyzing three articles and four books. The results highlight the theoretical and technical contributions of Gestalt therapy to psychological care for individuals with substance abuse issues. Despite limitations, such as the scarcity of studies on specific populations and their particularities, this study underscores the relevance of Gestalt therapy in the treatment of substance dependency and suggests further investigations to expand this knowledge.
Keywords: Psychological Care; Drugs; Gestalt Therapy.
1. INTRODUÇÃO
O consumo de substâncias psicoativas tem sido uma constante na sociedade, uma vez que os indivíduos as utilizam por uma série de razões, que vão desde a socialização até rituais religiosos e expressões culturais. Portanto, essas substâncias que comumente chamamos de drogas, tem uma longa relação na história da humanidade e diferentes razões para explicar seu uso. Na atualidade, passaram a ser vistas como um problema social tendo em vista as mudanças culturais e os contextos em que estas passaram a ser utilizadas. Tendo em vista essa variedade de usos possíveis, podemos dizer que, as pessoas podem usá-las como uma forma de lidar com o sofrimento emocional, buscar prazer, promover interações sociais etc. (Crepop, 2019).
No entanto, ao longo do século XX, várias convenções das Nações Unidas consolidaram a visão de que o uso indevido de algumas drogas específicas representava uma ameaça à sociedade, sendo considerada um perigo que demanda atenção. Dessa forma, a preocupação do Estado em relação ao consumo de drogas resultou na adoção da política proibicionista. O proibicionismo é um paradigma que rege a atuação do Estado ao que se refere à proibição legal do uso, produção, distribuição e posse de certas substâncias consideradas como drogas ilegais. Essa política tem como objetivo reduzir a oferta e a demanda das substâncias psicoativas tendo como objetivo a redução do consumo e da comercialização das drogas (Fernandes, 2015).
Entretanto, os resultados insuficientes dessa abordagem são constantemente constatados, uma vez que, além de ser uma prática punitiva moralizadora, houve a criação do tráfico que movimenta vultosos valores há cada ano e não se observou a redução do número de pessoas que consomem drogas, sendo considerado atualmente um desafio de grande magnitude para a saúde pública do mundo todo (Soccal, 2012).
Sendo assim, segundo dados do Relatório Mundial sobre Drogas de 2022 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), aproximadamente 284 milhões de pessoas usaram drogas em 2020. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS) em 2021, apresentou um aumento de pessoas com transtornos mentais e comportamentais devido ao consumo de substâncias (Brasil, 2022).
Uma das alternativas à política proibicionista são as estratégias oriundas do paradigma da redução de danos, que é uma abordagem que se alinha com os princípios da Saúde Coletiva. Ao contrário do proibicionismo, esse modo de encarar a questão das drogas visa produzir um conjunto de intervenções e estratégias com a finalidade de minimizar os danos associados ao uso de álcool e outras drogas, sem necessariamente exigir a abstinência como única proposta terapêutica. Essa política possibilita oferecer suporte às pessoas sem desconsiderar seu contexto de vida e suas escolhas, respeitando sua autonomia e subjetividade (Machado et al., 2013).
Desse modo, embora a redução de danos não reconheça a abstinência como o único objetivo de cuidado para os usuários de álcool e outras drogas, ela não a exclui como possibilidade, pois ela parte do princípio que cada indivíduo faz sua própria escolha e dessa forma respeita a singularidade de cada um. Sendo assim, ela é uma abordagem de Saúde Coletiva que, em parceria com a comunidade, desenvolve intervenções para indivíduos considerando que, alguns destes, não podem ou não conseguem interromper o uso de drogas. Ela tem o objetivo de reduzir os danos sem recorrer à juízos morais ou à criminalização, diferentemente do proibicionismo. Seu propósito é assegurar que as pessoas que consomem drogas sejam detentoras de direitos, podendo garantir acesso à saúde, educação, cultura, trabalho etc. (Crepop, 2019).
No Brasil, a primeira ação voltada para a redução de danos ocorreu na cidade de Santos, em São Paulo, com a finalidade de conter a propagação do HIV. Durante o final da década de 1980, Santos registrava uma das mais altas taxas de infecção pelo HIV/AIDS no país por conta do uso de drogas injetáveis, o que levou à implementação de iniciativas de programas de distribuição de seringas aos usuários de drogas injetáveis (UDIs). A implementação inicial da estratégia de redução de danos gerou controvérsias e resistências, sendo criticada por supostamente incentivar o uso e consumo de substâncias (Machado e Boarini, 2013).
Como resultado, a estratégia de redução de danos foi gradualmente incorporada à legislação brasileira sobre drogas. Em 2003, essa abordagem ganhou destaque com a política do Ministério da Saúde voltada para a atenção integral a usuários de álcool e outras substâncias. Em 2005, foi estabelecida a Política Nacional sobre Drogas (Resolução n. 3/GSIPR/CONAD, de 27 de outubro de 2005) que adotou a redução de danos como um de seus princípios. Esta política foi uma mudança para reverter o foco da Política Nacional Antidrogas (PNAD), que era centrada na guerra às drogas, e para incluir a perspectiva do usuário na discussão. Desde então, a estratégia de redução de danos tem ganhado cada vez mais espaço nas políticas públicas do país. (Machado e Boarini, 2013).
Considerando esse cenário, buscando oferecer uma atenção psicológica abrangente e desempenhando um papel significativo no cuidado às pessoas que fazem uso problemático de álcool e outras drogas, a psicologia como ciência e profissão se vê convocada a realizar reflexões sobre seus instrumentos de cuidado.
Dentre esses instrumentos, a psicoterapia emerge como uma das formas de intervenção psicológica, uma vez que por meio dela é possível identificar e explorar as consequências e os motivos subjacentes que levaram ao uso de drogas, considerando o indivíduo em sua totalidade e levando em conta seu contexto psicológico, emocional e social.
De acordo com Cordiolli (2008), a psicoterapia se destaca como uma forma significativa de produção de cuidado, proporcionando um ambiente acolhedor e eficaz para a promoção do autoconhecimento e do desenvolvimento de habilidades emocionais. Por meio dela, o paciente desenvolve novos recursos para lidar com suas relações e emoções, bem como a modificar as percepções distorcidas de si mesmo e do ambiente em que está inserido. Além disso, na psicoterapia, o terapeuta atua como um facilitador na criação e na consolidação dos vínculos interpessoais do paciente, auxiliando no fortalecimento de laços do indivíduo com a sua família e comunidade, promovendo suporte emocional e reintegração social.
Para além da psicoterapia, a psicologia desenvolve inúmeras outras atividades interventivas nos âmbitos da promoção e prevenção da saúde, com intervenções que extrapolam o repertório do consultório e abrangem práticas grupais, comunitárias, no território, tecendo possibilidades múltiplas de cuidado.
Nesse contexto, a Gestalt-terapia, como uma das referências teóricas que embasa o trabalho da psicóloga e do psicólogo, pode oferecer ferramentas técnicas e teóricas enquanto abordagem humanista da psicoterapia, que valoriza a totalidade da experiência humana, enfatizando a importância da consciência do momento presente, da responsabilidade pessoal, além de respeitar a autonomia e subjetividade do cliente. Como prática situada historicamente e oriunda de outras experiências, cabe nos perguntarmos como a Gestalt-terapia tem construído reflexões e estratégias para lidar com a questão das drogas na contemporaneidade e quais são as ferramentas teóricas e técnicas aplicadas na atenção psicológica a pessoas que fazem uso abusivo de substâncias.
Portanto, o uso abusivo de álcool e outras drogas representa uma questão importante que permeia diversos aspectos da vida do indivíduo, constituindo-se como uma preocupação significativa no âmbito da psicologia, especialmente na prestação de atenção psicológica à essas pessoas, uma vez que muitos tratamentos se limitam à cessação do uso de drogas. A aplicação específica da Gestalt-terapia na atenção psicológica desses indivíduos carece de investigações teóricas e aprofundadas que avaliem sua aplicabilidade neste contexto particular. A insuficiência de estudos sobre a temática reflete uma lacuna no conhecimento científico, que pode comprometer a capacidade dos profissionais de saúde mental em oferecer intervenções eficazes aos jovens que enfrentam problemas relacionados ao uso de drogas. Portanto, este projeto tem como objetivo contribuir com conhecimento produzido pela Gestalt-terapia, promovendo a produção de evidências científicas que embasam abordagens clínicas na prestação de atenção psicológica a essa população e fornecendo suporte aos profissionais da Gestalt-terapia.
2.2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.2.1 Gestalt-terapia
Friedrich Salomon Perls (1893-1970), neuropsiquiatra alemão, iniciou seus estudos em Psicanálise no ano de 1924 sob orientação de Karen Horney, que o influenciou a se estabelecer em Frankfurt, com o intuito de retomar e aprofundar sua formação psicanalítica. Durante esse período, houve dois eventos que contribuíram significativamente para a formação de suas ideias. Primeiramente, atuou como assistente de Kurt Goldstein, neurologista e psiquiatra alemão, cuja teoria holística do organismo teve uma influência direta sobre o desenvolvimento posterior das obras de Perls. Além disso, conheceu sua futura esposa, Laura Perls, cujo papel se tornaria fundamental na criação da abordagem gestáltica (Esch et al., 2012).
Laura Posner Perls (1905-1990) desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da Gestalt-terapia. Ela não só contribuiu para a teoria como para a prática clínica, ajudando a expandir os conhecimentos da Gestalt-terapia ao longo do século XX. Laura conheceu Fritz Perls em 1926, e, em 1930, casou-se com ele, apesar da oposição de sua família. Laura teve um impacto profundo na Gestalt-terapia, trazendo uma abordagem única uma vez que lidava com facilidade no manejo de movimentos e expressões criativas advindos da sua experiência com a dança. Ela também teve grande influência nos conceitos de “contato” e “suporte”, que se tornaram pilares da prática terapêutica da Gestalt-terapia (Juliano, 2004).
Após três anos de casamento, Laura e Fritz Perls passaram a frequentar o grupo "Bauhaus", que era conhecido por suas posições políticas radicais. Em 1933, diante do crescente perigo representado pelo regime nazista, o casal decidiu deixar a Alemanha e se refugiar na Holanda. Lá, foram alojados em um campo de refugiados, onde permaneceram até que Fritz recebeu um convite para praticar psicanálise na África do Sul (Juliano, 2004). Ao se estabelecerem na África com a família, Perls iniciou seu processo de distanciamento da psicanálise, uma vez que suas ideias tinham recepções negativas entre os psicanalistas da época. Em 1946, eles emigraram para os Estados Unidos, onde as ideias de Perls foram acolhidas. Foi nesse contexto que ele conheceu o escritor e ativista social Paul Goodman, um dos colaboradores importantes na formação da gestalt-terapia (Esch et al., 2012).
A abordagem psicológica Gestalt-Terapia, foi criada nos Estados Unidos em 1951 e teve seu nascimento a partir da publicação do livro "Gestalt-therapy”: excitement and growth in the human personality”. O livro foi escrito por Fritz Perls, Paul Goodman e Ralph Hefferline. Segundo Belmino (2018), inicialmente Fritz Perls abordou Goodman com a intenção de tê-lo como editor da sua obra. Entretanto, este expandiu as ideias de Perls, tornando-se coautor do livro, logo, essa parceria ficou conhecida como a cisão inicial da Gestalt-Terapia. O livro se fundamentou em anotações advindas das experiências de Perls na África, além de debates ocorridos no “Grupo dos Sete”, implicando que tais discussões contribuíram para a construção da obra. Este grupo era formado por Isadore From, Paul Goodman, Paul Weisz, Sylvester Eastman, Elliot Shapiro, Laura Perls, Fritz Perls e posteriormente Richard Kitzler (Frazão e Fukumitsu, 2013).
A Gestalt-Terapia tem suas origens em uma diversidade de correntes filosóficas e terapêuticas, configurando-se, portanto, como uma abordagem humanista, fenomenológica e existencial. O humanismo, por exemplo, emergiu como um movimento significativo na Psicologia na década de 1960, representando a chamada "terceira força" no campo psicológico (Cordeiro, 2019). Seu propósito era voltar como foco a condição humana dentro do âmbito de estudo da Psicologia, contrapondo-se às abordagens predominantes da época. Este movimento buscava humanizar as práticas psicológicas, enfatizando a capacidade inerente do ser humano de compreender suas potencialidades e de se autorrealizar. Nesse sentido, como uma abordagem humanista, a Gestalt reconhece e valoriza a experiência individual de cada indivíduo, além de acreditar que cada ser tem um impulso inato para a atualização, isto é, para seu crescimento pessoal (Lima, 2008).
A fenomenologia, por sua vez, é uma corrente filosófica desenvolvida por Edmund Husserl, ela significa “estudo dos fenômenos", isto é, análise daquilo que se manifesta à consciência. Segundo Husserl (1913), o processo da tomada de consciência demanda a suspensão de crenças e teorias prévias, a fim de se concentrar na percepção real de uma experiência (Lima, 2008). Consequentemente, a fenomenologia teve uma relevante contribuição para a Gestalt-Terapia, uma vez que essa abordagem enfatiza que o sentido das coisas não está propriamente nelas, mas está associado à experiência e a interação do observador e do objeto observado. Dessa forma, essa corrente filosófica introduziu conceitos importantes para a abordagem, como a importância da tomada de consciência corporal e do tempo vivido, além de destacar a singularidade da experiência imediata de cada indivíduo, valorizando como ela é sentida e percebida no aqui-e-agora (Frazão e Fukumitsu, 2013).
Já o existencialismo refere-se a um conjunto de correntes filosóficas dedicadas à compreensão da existência humana em sua singularidade. Nesse contexto, cada indivíduo é concebido como um ser dotado de liberdade e possibilidades, logo sendo responsável pelas suas escolhas (Cardoso, 2013). Na perspectiva da Gestalt, o existencialismo trouxe relevantes contribuições, como a valorização da singularidade da experiência humana, uma vez que ao ser livre, cada ser assume e orienta sua experiência de forma subjetiva, tendo assim, construção ativa no seu próprio projeto de vida (Ginger e Ginger, 1995).
Segundo de Macedo (2015), a Gestalt-Terapia é definida como uma terapia centrada no contato, sendo este um elemento presente ao longo de todo o processo terapêutico e intrínseco ao terapeuta gestáltico. O contato é identificado como uma das necessidades psicológicas primordiais do ser humano e representa uma transição entre uma situação para outra. Conforme Fritz Perls (1976), a capacidade de estabelecer esse contato se dá principalmente através da visão, audição, tato, paladar e audição, no entanto ele só é estabelecido genuinamente pela percepção e tomada de consciência do indivíduo acerca da situação vivida.
Levando em conta o conceito de contato, o ser humano é introduzido em um processo conhecido como ciclo de contato-satisfação ou também conhecido como ciclo de satisfação de necessidade. De acordo com Ginger e Ginger (1995), neste ciclo, o indivíduo satisfaz suas necessidades em uma ordem hierárquica, cedendo espaço para outras necessidades à medida que elas são atendidas. Por exemplo, um indivíduo saudável é capaz, por exemplo, de discernir qual é sua necessidade principal no momento e direcionar sua atenção para resolvê-la, permitindo assim que outras necessidades surjam e eliminando as "gestalts abertas", que correspondem a necessidades não satisfeitas, isto é, situações não resolvidas (Cordeiro, 2019).
Sendo assim, a presença de múltiplas "gestalts abertas" acarreta um "distúrbio" na fronteira de contato. Essa fronteira representa um ponto de intersecção entre o eu e o resto do mundo, sendo diretamente influenciada pelas percepções, emoções, comportamentos e necessidades individuais (Ginger e Ginger, 1995). Esses distúrbios impedem o desenvolvimento do self, que na abordagem gestáltica é concebido como um sistema de contato composto por funções como id, ego e personalidade, e que processa a relação de contato da pessoa com o mundo. Portanto, o self representa a resposta subjetiva de cada indivíduo a determinadas situações, sendo a maneira como ele reage a estas (Cordeiro, 2019).
O ciclo do contato é composto por quatro fases distintas, cada uma delas marcada pela emergência de uma nova gestalt que demanda atenção. A primeira fase é o pré-contato, caracterizada pela ocorrência de sensações que gradualmente se configuram em uma figura perceptível, essa figura é formada a partir de estímulos que existem no ambiente. Em seguida, ocorre a fase de tomada de contato, na qual há a ativação da ação, com o ser humano mobilizando-se para atender à necessidade que está predominante, logo a excitação que houve na primeira etapa se tornará fundo e o objeto desejado se tornará figura. Posteriormente, na terceira etapa, o contato final estabelece uma associação entre a percepção da ação e a satisfação da necessidade, possibilitando a transição para a próxima fase, conhecida como pós-contato. Nessa fase, ocorre a retirada do objeto de satisfação e a assimilação da situação, propiciando o desenvolvimento pessoal e o fechamento de uma gestalt (Martín, 2013).
Consequentemente, ao ocorrer um contato, ocorrem mudanças, e assim, satisfação da necessidade e crescimento pessoal, resultando em assimilação do que é benéfico e rejeição do que é prejudicial (Silveira, 2007). No entanto, quando ocorre uma insatisfação das necessidades, ou seja, quando uma necessidade emergente não é atendida, torna-se impossível o fechamento de uma gestalt, caracterizando uma situação inacabada, gerando como consequência uma interrupção no processo evolutivo (Sanchez e Machado, 2017).
A impossibilidade de fechar uma gestalt resulta em empobrecimento na experiência de um indivíduo, levando-o a apresentar comportamentos e pensamentos rígidos e inflexíveis. Isso ocorre devido a uma interferência no processo de autorregulação, sendo, assim, interpretada como uma experiência neurótica. Portanto, a Gestalt-terapia compreende a neurose como uma interrupção do processo de ajustamento criativo, em que o sujeito se encontra sobrecarregado por situações inacabadas. Esse acúmulo de questões não resolvidas impede o indivíduo de seguir satisfatoriamente com seu processo de vida (Sanchez e Machado, 2017).
Na dependência de álcool e outras drogas, observa-se uma dificuldade para fechar uma gestalt, resultando em uma necessidade não satisfeita, uma vez que o indivíduo está dependente do uso dessas substâncias. Isso leva a uma perda de contato consigo mesmo e com o mundo, gerando dificuldade para ter novas experiências e a perda de criatividade para tal, isto é, causa um enrijecimento (de Macedo, 2015). Dessa forma, o uso frequente e prolongado de álcool e outras drogas pode levar o indivíduo a perder o controle sobre o seu funcionamento e capacidade de ajustamento criativo. Como resultado, a pessoa tende a desenvolver respostas rígidas, previsíveis e inflexíveis diante do ambiente, portanto, tendo um comportamento considerado neurótico (Tessaro e Ratto, 2017).
Sob a perspectiva da Gestalt-terapia, um ponto que também é considerado relevante é a dificuldade que algumas pessoas que utilizam substâncias podem ter em estar conscientes de seus corpos, sentimentos e necessidades, isto é, eles não estão aware das suas experiências. Essas necessidades são frequentemente suprimidas, colocando a substância em posição prioritária em relação a outros aspectos da vida. Além disso, a droga pode atuar tanto como uma função anestésica quanto prazerosa, agindo como um substituto de necessidades ou como uma forma de aliviar um sofrimento do sujeito que, ao longo do tempo, reprimiu a agressividade necessária para a assimilação e se moldou por meio de introjetos do ambiente em que vive (Tessaro e Ratto, 2017).
2.1 METODOLOGIA
2.1.1 Tipo de Estudo
O presente estudo consiste em uma revisão narrativa, cujo objetivo é responder à questão central: “Quais são as ferramentas teóricas e técnicas da Gestalt-Terapia aplicadas na atenção psicológica que fazem o uso abusivo de substâncias?”. Esse método proporciona uma visão abrangente de um tema específico, permitindo a integração e síntese de pesquisas e informações disponíveis da literatura. Ela foca em mapear o conhecimento produzido em determinada área, sem critérios sistemáticos para busca, retenção de artigos e extração de informações, sendo assim, ela possibilita uma exploração mais flexível e ampla do conhecimento produzido em determinada área (Rother, 2007).
De acordo com Rother (2007), os artigos de revisão narrativa são publicações que se prestam à descrição e discussão do desenvolvimento ou do estado atual de um determinado assunto, sob uma perspectiva teórica ou conceitual. Esses textos constituem uma análise da literatura científica, refletindo a interpretação e a avaliação crítica do autor. Embora sua evidência científica seja considerada limitada devido à dificuldade de replicação das metodologias empregadas, as revisões narrativas podem enriquecer o debate sobre determinadas temáticas, levantando questões relevantes e contribuindo para a aquisição e atualização do conhecimento em um curto intervalo de tempo.
2.1.2 Bases de dados consultadas
A busca dos estudos foi realizada no período de julho a novembro de 2024 na seguinte base de dado: Scientific Electronic Library Online (Scielo), na Biblioteca Virtual em saúde (BVS) e Literatura Latino-Americana e do Caribe (LILACS), mediante o cruzamento dos seguintes descritores: “Atenção Psicológica”, "Álcool”, "Drogas", “Gestalt-terapia". Além disso, foram incluídos livros de referência da Gestalt-terapia sobre o tema.
2.1.3 Critérios de inclusão e de exclusão
Foram considerados como critério de inclusão deste estudo, todos os artigos produzidos que abordem intervenções psicológicas relacionadas a Gestalt-Terapia com usuários de álcool e outras drogas, bem como artigos que estejam relacionados com os descritores definidos.
Foram excluídos desta pesquisa, editoriais, apostilas e outros materiais que não contemplam os critérios necessários para a pesquisa. Além disso, foram excluídos artigos que discutam a atenção psicológica sob o olhar de abordagens psicológicas diferentes da Gestalt-Terapia, aqueles que não foram produzidos nos últimos quinze anos e que não foram escritos na língua portuguesa.
2.1.4 Análise das informações
Para coletar os dados, foi realizada uma tabela, elaborada pela pesquisadora, contendo informações como: ano de publicação, título, autores, periódicos ou editoras e referências sobre Gestalt-terapia e o uso de drogas
2.1.5 interpretação das informações
A análise dos dados foi conduzida da seguinte forma: Inicialmente, será realizada uma leitura e análise dos artigos, além de organizá-los por similaridades em categorias temáticas.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram selecionadas sete pesquisas realizadas nos últimos quinze anos para compor o estudo, com base em critérios específicos de relevância e relação direta com o tema da atenção psicológica para usuários de álcool e outras drogas sob o olhar da Gestalt-terapia. As pesquisas selecionadas estão ilustradas no Quadro 1, dentre elas estão três artigos identificados em periódicos relevantes na área. Os estudos de Tessaro e Ratto (2015) e de Oliveira e Silva (2010) foram encontrados na base de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), que foi escolhida devido ao seu foco em publicações científicas de relevância para a América Latina. O artigo de Silva e Prado (2014), por sua vez, foi localizado na base Scientific Electronic Library Online (SciELO), uma das principais bases de dados de livre acesso para literatura científica de países em desenvolvimento. Nos demais periódicos, não foram encontrados estudos relevantes que se encaixavam nos critérios de inclusão. Essa limitação na disponibilidade de pesquisas na área indicou a necessidade de incluir capítulos de livros que abordassem o tema.
Para complementar esses achados, foram analisados capítulos específicos de três livros fundamentais sobre o tema: o Capítulo 5 com o título "O uso de drogas e o fenômeno da adição sob a ótica da Gestalt-terapia", escrito por Malgor e Silva (2021), no livro Psicopatologia na Clínica Gestáltica; o Capítulo 5, escrito por Souza (2023), no livro Gestalt-Terapia: Diversidade, Violência, Sofrimento e Inclusão, com o título "Gestalt-terapia e redução de danos: aproximações para o cuidado de pessoas que usam droga”; o Capítulo 7, escrito por Tessaro e Ratto (2017) com o título “Dependência química e Gestalt-terapia: aproximações possíveis", no livro Quadros Clínicos Disfuncionais e Gestalt-Terapia; e o Capítulo 9, escrito por Pellegrino (2022) com o título "Fenomenologia da embriaguez e das adicções”.
Tabela 1
Identificação Dos Artigos E Autores Selecionados
ANO DE PUBLICA ÇÃO | AUTOR(ES) | TÍTULO | PERIÓDICO OU EDITORA | CONTRIBUIÇÕES DA GESTALT-TERAPIA |
2015 | TESSARO, Luiz Gustavo Santos; RATTO, Cleber Gibbon. | Pessoas que dependem de drogas: ensaio de figuras e fechamento. | Revista da Abordagem Gestáltica | Desenvolvimento do autossuporte, experiência fenomenológica no aqui-e-agora. |
2010 | OLIVEIRA, Ingrid Bergma da Silva. | Tecendo saberes: fenomenologia do tratamento da dependência química. | Revista da Abordagem Gestáltica | Ampliação da consciência, autossupor te e ampliação das relações. |
2014 | SILVA, Aline Fagundes; CARBONERA, Alexandre; PRADO, Josiane Aparecida F. de A. | A luta de uma mulher contra a dependência química: Um olhar da Gestalt-tera pia. | Revista virtual IGT na rede | Acolhimento e escuta ativa para promover ajustes criativos e surgimento de necessidades mais saudáveis. |
2021 | MALGOR, Hermann Schreck; da SILVA, José Ricardo | O uso de drogas e o fenômeno da adição sob a ótica da Gestalt-tera pia. | Editora Juruá | Dependente químico na sua totalidade, contato e awareness prejudicados na dependência química. |
2023 | SOUSA, Welison de Lima. | Gestalt-terapia e redução de danos: aproximações para o cuidado de pessoas que usam droga. | Editora Summus | Gestalt-terapia e redução de danos, desenvolvimento de heterossu porte e autossuporte. |
2017 | TESSARO, Luiz Gustavo Santos; RATTO, Cleber Gibbon. | Dependência química e Gestalt-tera pia: aproximações possíveis. |
Editora Summus | Criação de autossupor te, autorregulação e criação de vínculo terapêutico seguro, importância de uma rede de apoio. |
2022 | PELLEGRI NO, Érika Fernandes Costa. | Fenomenologia da embriaguez e das adicções. | Editora Manole | Vínculo terapêutico como forma de retomar o tempo presente. |
Segundo Tessaro e Ratto (2015), na Gestalt-terapia, a dependência química é compreendida como uma forma de neurose. O indivíduo neurótico vivencia uma crise existencial, na qual sente que suas necessidades não são mais atendidas pelo seu modo habitual de agir. No entanto, ele não consegue modificar esse padrão. Isso significa que o neurótico apresenta uma figura rígida e inflexível, caracterizada pela ausência de recursos e criatividade para agir de outras formas.
Sendo assim, a Gestalt-terapia, embora disponha de técnicas, não oferece receitas prontas para lidar com situações específicas. Nesse contexto, o gestalt-terapeuta trabalha com a experiência fenomenológica do aqui-e-agora, sem julgamentos críticos, permitindo ao cliente a ampliação da consciência e da awareness. Além disso, entende-se que o usuário de drogas requer um suporte ambiental, uma vez que não encontra esse apoio em si mesmo. Portanto, o gestalt-terapeuta desempenha um papel fundamental nesse processo, pois possibilita que o paciente reconheça seus bloqueios, facilitando seu desenvolvimento pessoal. Para promover o autossuporte, o terapeuta não deve adotar uma postura de detentor de saberes e de superioridade em relação ao paciente, pois isso poderia aumentar a dependência do paciente. Assim, é essencial que o terapeuta atue como facilitador, ajudando o usuário a ser não aquilo que deseja ser, mas sim o que realmente é (Tessaro e Ratto, 2015).
Assim como afirmam Tessaro e Ratto (2015), Oliveira (2010) também discute sobre como indivíduos dependentes de álcool e outras drogas frequentemente apresentam dificuldades em reconhecer quais são suas necessidades predominantes ou em estabelecer sua relação com o meio de forma a satisfazê-las, tendo como consequência alterações nos processos funcionais de contato e afastamento.
Ainda no estudo de Oliveira (2010), a dinâmica patológica, como o uso abusivo de substâncias, é caracterizado pela fuga da conscientização e consequente rigidez no comportamento e na criação de recursos para novas situações, os quais são considerados os principais bloqueios para o desenvolvimento psicológico. Nesse sentido, o autor destaca a importância do "aqui e agora" na Gestalt-terapia, pois essa abordagem convida o paciente a concentrar-se em sua experiência presente, promovendo a conscientização. O autor também enfatiza a relevância de expandir a consciência do indivíduo, focando em como ele se comporta, em vez de investigar as razões por trás de seu comportamento.
Além disso, visando dar significado à prática de atenção psicológica aos dependentes químicos sob o olhar da Gestalt-terapia, Oliveira (2010) discorre sobre o conceito de "nutrição psicológica", que permite ao indivíduo maior liberdade diante das pressões sociais, ampliando sua capacidade de escolha e autonomia. Observa-se que, no caso de usuários de drogas, esse equilíbrio encontra-se prejudicado.
Conforme Silva et al. (2014), é destacado que dependentes de substâncias psicoativas costumam se alienar, substituindo objetos de desejo e necessidade por substitutos, como as drogas, sem considerar as consequências sociais dessa alienação. Na dependência, as funções de contato, encontram-se prejudicadas, tanto física quanto psicologicamente. Essa mudança afeta a interação do indivíduo consigo mesmo e com o seu campo relacional, moldando suas necessidades em torno da busca e do uso de álcool e outras drogas.
Nesse contexto, a Gestalt-terapia surge como uma abordagem terapêutica que promove acolhimento e escuta ativa. Esses profissionais adotam uma visão que o ser humano está em constante evolução, possuindo liberdade e responsabilidade nas suas escolhas e na sua formação de identidade. Essa perspectiva possibilita ao terapeuta aceitar e compreender a complexidade da experiência humana, auxiliando na criação de ajustes criativos e no surgimento de necessidades mais saudáveis, que começam a se manifestar (Silva et al., 2014)
No estudo de Malgor e da Silva (2021), traz a importância de olhar o ser humano na sua totalidade uma vez que a Gestalt-terapia observa o ser humano como um todo, sendo tanto afetado como influente nas suas relações. Nesse sentido, a Gestalt-terapia não olha o indivíduo apenas como “usuário de droga”, mas como alguém que enfrenta angústias, traumas, solidão e sofrimento. Essa abordagem terapêutica facilita o contato do paciente com a origem de seu sofrimento, promovendo uma compreensão mais ampla de sua experiência. Nesse contexto, a Gestalt-terapia auxilia o cliente a se tornar consciente de seu modo de estar no mundo, ampliando sua percepção e tornando-o mais responsável por sua maneira de agir no presente de sua existência. Além disso, a abordagem facilita o desenvolvimento do potencial criativo do indivíduo, permitindo que ele explore novas formas de se expressar no mundo (Malgor e Silva, 2021).
Sousa (2023) apontam que a Gestalt-terapia e a redução de danos dialogam entre si no campo das proposições éticas. As autoras compreendem que essa abordagem vai além da atenção aos sintomas, focando na recuperação da experiência do indivíduo no mundo e em sua identidade. Além disso, destacam que a Gestalt-terapia possui um compromisso com aspectos como transitoriedade, espacialidade, liberdade e responsabilidade. Nesse sentido, defendem que a redução de danos se alinha com a Gestalt-terapia, pois essa abordagem de saúde coletiva respeita a subjetividade do indivíduo ampliando sua liberdade e responsabilidade pessoal. Com base nesse entendimento, a Gestalt-terapia adota o conceito de heterossuporte, reconhecendo que o cliente precisa caminhar com autonomia, compreendendo e valorizando seu próprio potencial, a fim de desenvolver o autossuporte e se tornar capaz de tomar suas próprias decisões.
De acordo com o estudo de Tessaro e Ratto (2017), as pessoas dependentes de álcool e outras drogas demonstram respostas inflexíveis ao ambiente, sendo incapaz de utilizar variados recursos para lidar consigo mesmo e com o mundo ao redor. A falta de ajustamento criativo impede a adaptação a novas situações, resultando em um comportamento rígido. O uso contínuo e intensivo da substância faz com que o indivíduo perca o controle sobre esse hábito, o que representa uma intensificação desse funcionamento cristalizado. Além disso, as autoras apontam que as pessoas nessas condições apresentam um autossuporte limitado, direcionando sua energia quase exclusivamente para o comportamento de dependência. Muitas vezes, essas pessoas precisam recorrer a um suporte externo para ajudá-las e motivá-las a alterar esse comportamento, uma vez que não encontram os recursos internos necessários para tal mudança.
Ainda segundo Tessaro e Ratto (2017), a abordagem da Gestalt-terapia direcionada aos usuários de álcool e outras drogas vai além da simples eliminação do uso de substâncias psicoativas. Ela se concentra no fortalecimento do autossuporte e na autorregulação do indivíduo. A mudança no sujeito, segundo essa abordagem, só é possível quando o indivíduo consegue aceitar sua condição atual, em vez de buscar ser algo que ainda não é. Além disso, a Gestalt-terapia valoriza a construção de um vínculo terapêutico seguro, permitindo que, através desse relacionamento, redes de cuidado sejam formadas. Essas redes, ao fornecerem um heterossuporte inicial, auxiliam no processo de transformação do cliente, sendo uma estratégia central nessa abordagem.
Conforme Pellegrino (2022), a embriaguez e a adição resultam, em grande parte, da modificação repentina e intencional do estado de consciência, provocando uma mudança temporária nas percepções do indivíduo sobre si mesmo e sobre o mundo ao seu redor. Esse fenômeno também se caracteriza por uma dualidade, gerando sensações simultâneas de expansão e leveza em um espaço percebido como limitado, além de uma percepção de fluidez e intensidade nas relações interpessoais, que geralmente são superficiais.
No estudo, observa-se que esses fenômenos ocorrem de maneira singular em cada pessoa, o que torna inviável um tratamento padronizado. Entretanto, um dos principais aspectos a ser trabalhado é o estabelecimento de um vínculo terapêutico, que possa auxiliar o paciente a retomar a percepção do tempo presente e o foco no aqui-e-agora. Nesse processo, o terapeuta utiliza seus próprios recursos psíquicos para criar condições que permitam ao paciente, gradualmente, vivenciar as nuances do tempo e ampliar sua percepção do espaço (Pellegrino 2022).
Sendo assim, a análise dos estudos revisados evidencia a relevância da abordagem da Gestalt-terapia no tratamento da dependência química, destacando que a abordagem oferece técnicas e teorias suficientes para a prática clínica. No entanto, observou-se a necessidade de pesquisas mais amplas que abordam especificamente grupos ou públicos específicos, como, por exemplo, jovens usuários de drogas. Também é importante ressaltar que a Gestalt-terapia visa um tratamento personalizado para cada indivíduo, tendo em vista que essa abordagem trabalha com o sujeito em sua totalidade, sendo assim, essas demandas específicas emergem como uma estratégia fundamental para a eficácia do tratamento.
Além disso, as pesquisas destacaram a importância do heterossuporte e do autossuporte na atenção psicológica a usuários de substâncias. O objetivo do tratamento é evitar que o paciente desenvolva novas dependências, ajudando-o a reconhecer seu potencial e fortalecer sua autonomia. Com o heterossuporte, que é o suporte e acolhimento externo, o indivíduo pode desenvolver habilidades para lidar com o mundo e amadurecer, promovendo seu crescimento pessoal e autossuporte. Isso o leva a um funcionamento mais saudável e autossuficiente em suas relações (Orgler, 2012).
Os estudos também evidenciam a importância de trazer o paciente para o "aqui-e-agora", pois, assim, o gestalt-terapeuta amplia a consciência do cliente, permitindo que ele vivencie situações passadas ou futuras no momento presente. Dessa forma, o Gestalt-terapeuta ajuda o paciente a desenvolver a autopercepção, se envolvendo plenamente em suas experiências atuais. Esse processo permite que o paciente aprenda a “fechar gestalts”, isto é, concluir ciclos abertos e a atender suas necessidades de forma mais saudável e consciente (Costa, 2017).
Dessa forma, também foi evidenciado a relevância do vínculo terapêutico, uma vez que, sem relações genuínas, não é possível alcançar saúde emocional. Para pessoas que fazem uso abusivo de drogas, o contato terapêutico oferece uma forma de encontrar sentido na vida e promover o crescimento emocional. Esse vínculo ajuda o indivíduo a manter sua identidade e se conectar ao meio em que vive. À medida que o vínculo terapêutico se fortalece, os conflitos internos dessas pessoas emergem, tornando-se possíveis de serem trabalhados. O psicoterapeuta se esforça para estabelecer uma relação de confiança na qual o cliente possa experimentar profundamente a compreensão e acolhimento, ou ao menos sua tentativa. A abertura e a disponibilidade que acontece no vínculo terapêutico são essenciais para que esses indivíduos superem modos rígidos e limitados de viver, tornando-se mais criativos e flexíveis diante das situações da vida (Oliveira e Vieira, 2015).
Associar essas considerações à prática clínica é fundamental, pois, ao incorporar práticas de heterossuporte e autossuporte nas intervenções, os profissionais podem promover o desenvolvimento de redes de apoio que reforcem a autonomia dos pacientes e favoreçam sua reintegração social. Nesse sentido, a Gestalt-terapia não apenas proporciona um espaço para a exploração do "aqui-e-agora", mas também para a construção de uma vida mais saudável, autônoma e flexível, auxiliando os indivíduos a estarem em contato consigo mesmo e com as pessoas ao seu redor.
Dessa forma, a atenção psicológica destinada a usuários de álcool e outras drogas pode ocorrer tanto na psicoterapia quanto em instituições de saúde mental, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou nas Unidades de Atencao Primária (UAPS). Os profissionais têm a capacidade de aplicar os princípios da Gestalt-terapia para estabelecer vínculos significativos com os pacientes, enfatizando a importância da relação terapêutica e do acolhimento. Essa abordagem, auxilia no crescimento pessoal, permitindo que esses indivíduos atendam suas necessidades de forma mais saudável.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo revisou a atenção psicológica a usuários de álcool e outras drogas sob o olhar da Gestalt-terapia, revelando contribuições teóricas e técnicas dessa abordagem para o tratamento de dependentes químicos. A análise dos estudos evidenciou a eficácia da Gestalt-terapia no fortalecimento do autossuporte e heterossuporte, promovendo uma abordagem que valoriza o "aqui-e-agora", permitindo que o indivíduo entre em contato consigo mesmo e com o seu ambiente, assim, facilitando o fechamento de suas gestalts de forma saudável. Além disso, o estabelecimento de um vínculo terapêutico seguro mostrou-se relevante para esses indivíduos, uma vez que esse suporte é capaz de promover a abertura emocional do paciente e o enfrentamento das causas subjacentes à dependência. Portanto, os resultados dos estudos apontaram que, ao valorizar as vivências presentes e uma relação terapêutica segura, a Gestalt-terapia se mostra eficaz em possibilitar que o paciente desenvolva uma maior autonomia e responsabilidade em sua relação com o ambiente e consigo mesmo.
Sendo assim, as pesquisas e capítulos de livros selecionados evidenciaram que a Gestalt-terapia entende o uso abusivo de álcool e outras drogas como uma interrupção de contato e autorregulação, além disso, destaca a relevância do heterossuporte no processo terapêutico, onde o terapeuta atua como facilitador, ajudando o paciente a descobrir novas formas de entrar em contato consigo mesmo e com o ambiente. Esse papel de apoio implica caminhar ao lado do paciente, sem realizar as tarefas por ele, mas promovendo o desenvolvimento de seu autossuporte. Dessa forma, reconhecendo que cada indivíduo possui experiências e formas de funcionamento singulares, a Gestalt-terapia visa à individualização do tratamento. Essa perspectiva reforça a necessidade dessa abordagem na atenção psicológica para usuários de álcool e outras drogas.
Vale ressaltar que apesar das poucas pesquisas, os resultados encontrados e a relevância da Gestalt-terapia foram validados, uma vez que ela denota potencial para a atenção psicológica de usuários de drogas. Diante disso, a aplicação dos princípios da Gestalt-terapia, tanto em clínicas quanto em instituições como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), pode contribuir significativamente para a construção de uma vida mais saudável e flexível. A Gestalt-terapia proporciona aos indivíduos em recuperação uma experiência de autodescoberta e de fortalecimento de redes de apoio, promovendo uma reintegração social mais sólida e efetiva.
Além disso, ao longo da pesquisa, foi possível identificar a necessidade de um maior investimento em estudos que investiguem as teorias e técnicas da Gestalt-terapia aplicadas ao tratamento de pessoas com dependência de álcool e outras substâncias. Embora a literatura existente já ofereça contribuições relevantes, ainda há um campo considerável a ser explorado, especialmente no que diz respeito à utilização dessa abordagem em contextos de abuso de substâncias. Logo, é necessário uma atenção mais aprofundada, tanto do ponto de vista teórico quanto prático, a fim de melhorar a compreensão sobre o potencial da Gestalt-terapia no tratamento da dependência.
Outrossim, para sugestão de estudos futuros estudos seria relevante explorar metodologias qualitativas e quantitativas que aprofundem a análise de casos clínicos e práticas, investigando a aplicação dessa abordagem em contextos de atendimento diversificados, como na psicoterapia e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Esses estudos podem contribuir para ampliar a compreensão sobre o potencial da Gestalt-terapia na reintegração social e na recuperação da saúde mental, reforçando seu papel na construção de redes de apoio e no fortalecimento dos recursos internos de cada indivíduo em tratamento.
Dessa forma, embora o presente estudo apresente algumas limitações, ele reforça a importância da Gestalt-terapia como uma abordagem terapêutica humanizada e integrativa. Essa perspectiva valoriza a singularidade do paciente e promove seu desenvolvimento em direção a uma vida mais saudável, possibilitando o estabelecimento de contato consigo mesmo e com o ambiente. Tal conexão favorece o estabelecimento de relações interpessoais significativas, fortalecendo a rede de apoio social do indivíduo. Além disso, a Gestalt-terapia facilita que o paciente reconheça e atenda às suas próprias necessidades de forma mais saudável e autêntica, colaborando para uma autorregulação e o fechamento de suas gestalts.
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Unichristus
Correspondência: larissablc@hotmail.com
Revista IGT na Rede, v. 23, nº 45, 2026, p.1-22 DOI 10.5281/zenodo.22286772
Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526