Running head: A ESCOLHA PROFISSIONAL EM TEMPOS DE SISU

ARTIGO

A escolha profissional em tempos de SISU: um fenômeno de campo

 

The professional choice in times of SISU: a field phenomenon

 

Juliana Rangel Sabatini 

Laura Cristina de Toledo Quadros 

UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

 

Resumo

O presente texto tem por objetivo trazer reflexões acerca da escolha profissional em tempos de SISU (Sistema de Seleção Unificada), através de discussões oriundas da pesquisa “Versões da Escolha Profissional em Tempos de SISU: um olhar gestáltico costurado pela TAR”. Tendo como principal proposta metodológica a Teoria Ator-Rede (TAR), acompanhamos grupos em redes sociais, sendo norteadas pela seguinte questão: o que o SISU faz as pessoas fazerem? Cerca de 380 publicações feitas nesses grupos foram analisadas durante dois anos. Inúmeras delas continham discussões que confirmavam a mudança ou a escolha da profissão de acordo com a nota tirada no ENEM. Nesse contexto, inspiradas pela abordagem gestáltica e a Teoria de Campo de Kurt Lewin, propomos compreender a escolha profissional como um fenômeno de campo, engendrada por múltiplas forças que perpassam esse processo, reverberando em como se pensar as orientações profissionais e a própria noção de escolha como algo não fixado na lógica do talento e do propósito de vida.

 

Palavras-chave: escolha profissional; SISU; gestalt-terapia; teoria de campo; teoria ator-rede.

 

 

Abstract

This text aims to bring reflections on professional choice, since SISU (Unified Selection System) was created, through discussions arising from the research “Professional Choice Versions in SISU times: a gestalt therapy look sewed by actor-network theory”. With the Actor-Network Theory (ANT) as its main methodological proposal, we followed groups on social networks, guided by the following question: what does SISU make people do? Around 380 publications written by these groups were analyzed over two years. Many of them brought discussions that confirmed the change or choice of profession according to the grade obtained in the ENEM test. In this context, inspired by the Gestalt approach and Kurt Lewin's Field Theory, we propose to understand professional choice as a field phenomenon, engendered by multiple forces that permeate this process, reverberating in how to think about professional guidelines and the notion of choice itself, as something not pointed to the logic of talent and life purpose.

 

Keywords: professional choice; SISU; gestalt-therapy; field theory; actor-network theory.

 

Introdução

 

O presente texto tem por objetivo trazer reflexões acerca da escolha profissional em tempos de SISU (Sistema de Seleção Unificada). A ideia central é discutir escolhas que são realizadas dentro da ambiência gerada por esse método de seleção, que, atualmente, é a principal forma de entrada em grande parte das universidades públicas no Brasil. Importante ressaltar que as discussões aqui trazidas são reverberações da pesquisa “Versões da Escolha Profissional em Tempos de SISU: um olhar gestáltico costurado pela TAR”, realizada pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) entre os anos de 2017 e 2019[1].

Explicitando sinteticamente o funcionamento do SISU, destacamos que aqueles que realizaram o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) podem submeter suas notas a um sistema próprio que as computa de acordo com o curso e a universidade escolhidos, gerando um ranking que é atualizado diariamente enquanto duram as inscrições. Os candidatos acompanham em que posição se encontram na classificação do curso escolhido após as atualizações cotidianas e conseguem ver se tem chances ou não de entrarem no curso pretendido, podendo mudar suas opções enquanto durar esse processo. Vale ressaltar que estão em cena vagas em cursos de universidades públicas de todos os Estados do país e que esse sistema está vigente no Brasil desde 2010 (Bertin, 2020).

Tendo como nossa principal proposta metodológica a Teoria Ator-Rede (TAR), o objetivo da referida pesquisa foi, então, acompanhar nos fóruns de discussões de redes sociais [2] – o Facebook – como se davam as escolhas profissionais dentro da lógica estabelecida por tal método de seleção, tendo como pergunta norteadora: O que o SISU faz as pessoas fazerem?

Essa noção de faz fazer é advinda da TAR, apresentada por Bruno Latour (2012) no livro “Reagregando o social: uma introdução à teoria do Ator-Rede”. O autor nos convida a pensar a sociedade como uma rede complexa de associações composta por humanos e não-humanos que, ao se relacionarem, atualizam-na a todo o momento. Nesse sentido, o olhar do cientista social buscará descrever as associações que se fazem entre os diversos atores que compõem o social.

Conceito fundamental nessa teoria, ator (ou actante) é tudo aquilo que tem ação, que se pode perceber agindo. Tudo aquilo que faz fazer algo. Para clarear esse conceito, referenciamo-nos no exemplo trazido pelo próprio Latour (2016), em seu livro “Cogitamus: seis cartas sobre as humanidades científicas, ao nos convidar a pensar a seguinte situação, descrito aqui com nossas palavras: suponha que você está escrevendo um artigo e o prazo de entrega está quase expirando. Para que seja possível cumpri-lo é necessário dispor de energia elétrica, computador, rede de internet, cadeira, mesa, conforto térmico do ambiente etc. A escrita flui muito bem até que o computador para de funcionar. Você tenta resolver, mas não consegue. Isso lhe faz buscar por um técnico que entenda do problema. Para isso, precisa de um telefone para contatá-lo e marcar de levar o aparelho para o conserto. O tempo que isso irá levar depende da disponibilidade do técnico, do problema que o computador tem, e assim por diante. Nesse simples exemplo cotidiano, podemos ver que as associações entre humanos e não-humanos são mais complexas do que se poderia imaginar, mas só foi possível percebê-las quando o computador parou de funcionar e lhe fez tomar algumas decisões. Aqui, nesse caso, o computador é o ator, pois ele lhe fez fazer algo, deixando à mostra a rede de conexões sobre a qual não se pode prever os movimentos, uma vez que ela se atualiza a cada nova conexão que se faz.

Nesse sentido, segundo a TAR, seguir os atores, sejam eles humanos ou não-humanos, em suas redes de conexões, será o objetivo do cientista social em seu contato com o campo de pesquisa, descrevendo os movimentos realizados enquanto os acompanhamos. Dessa forma, a ideia central da pesquisa em questão foi descrever as ações do SISU, focando em como ele agia nas escolhas profissionais, que efeito esse processo produzia, o que ele fazia os candidatos fazerem.

Uma das metodologias utilizadas para acompanhar esses movimentos foi através da observação de grupos de ENEM na rede social Facebook, nos quais foi possível testemunhar inúmeras discussões. Cerca de 380 publicações em tais grupos foram analisadas durante os anos de 2017 e 2018, encontrando-se as mais diversas narrativas. Dentre elas, algumas que confirmavam a mudança ou a escolha da profissão de acordo com a nota tirada no ENEM, trazendo algumas reflexões acerca do tema em questão, as quais nos conectaram com a Teoria de campo de Kurt Lewin (1973). As escolhas se moviam afetadas pela mudança de posição no ranking, não sendo, portanto, algo exclusivamente individual, sofrendo interferências diretas e imediatas do campo experiencial da(o) candidata(o). Assim, seguindo essas conexões, reverberou em nós a seguinte proposição: seria a escolha profissional um fenômeno de campo?

Ressaltamos que a noção de “campo” referencia também a noção de “espaço psicológico” proposta por Lewin (1973) e é uma das principais bases conceituais da Gestalt-terapia, a qual discutiremos melhor no decorrer deste texto. Ao pensar na forma como fazemos escolhas e nos comportamos, a ideia de que tal processo se dá num campo de forças e não na interioridade do sujeito, compreendemos que nossas ações são desdobradas dessas forças que incidem sobre nós. Destaca-se, aqui, que não se trata de uma mera expressão de causa e efeito; ao contrário, é um movimento de múltiplas possibilidades, que pode ser redesenhado a todo momento.

Portanto, seguindo a própria proposição da Teoria Ator-Rede, iniciaremos a discussão problematizando o campo da pesquisa, bem como a conexão que fazemos com a abordagem gestáltica. A partir disso apresentaremos a questão que move esse artigo, que é pensar a escolha profissional em tempos de SISU como um fenômeno de campo, tendo como referências a noção de campo proposta por Kurt Lewin e a abordagem gestáltica. Por fim, discutiremos algumas reverberações que o SISU produz tanto no processo da escolha profissional (na Orientação Profissional) quanto no viver universitário.  

 

 

A herança das reflexões: o campo de pesquisa e a Gestalt-Terapia

           

 

Spink (2003) propõe um campo de pesquisa não como um lugar físico, mas como o tema atual de determinado assunto. Tal proposta vem das reflexões desse autor ao revisitar Kurt Lewin, para o qual o campo seria uma totalidade de fatos psicológicos, que não necessariamente são reais em si, mas que são reais porque tem efeitos naquele que os vivenciam.

Isso significa que, quando vivenciamos uma experiência, temos um campo perceptivo que nos move naquele instante. Agimos de acordo com o que percebemos no aqui-e-agora da situação, sendo tal percepção composta por inúmeras forças que nos movem: nossas relações interpessoais, nossa história de vida e o que captamos dela, as preocupações do momento, as formas de receber informações sensoriais do ambiente, nosso humor etc. Algumas dessas forças podem nos impulsionar ou nos bloquear para determinadas decisões e comportamentos. Tudo se configura na forma como percebemos a experiência no momento em que ela acontece, que, no caso da Teoria de campo, significa dizer que depende de como se encontra nosso espaço de vida, o qual é composto por nós e o meio psicológico que se forma no contato com o ambiente em que nos encontramos. O meio é psicológico porque significa que é algo que é percebido por nós e tal como é percebido por nós. Esse espaço de vida é sempre em relação com o meio físico, sempre contextualizado, conectando inúmeros fatores que incidem no que se chama zona de fronteira, a qual é composta por fatores físicos do ambiente em que vivemos a experiência. Nesse sentido, pensamos e nos comportamos sempre em relação com o ambiente em que nos encontramos no momento da experiência, em conexão com a percepção que temos dela. Por isso, duas pessoas não narram a mesma história ao contarem sobre uma experimentação no mesmo ambiente (Ribeiro, 1985).

No caso deste texto, o campo de pesquisa é composto pelo tema a escolha profissional em tempos de SISU. Para observar os movimentos promovidos pela ambiência desse processo seletivo, dois grupos de ENEM da rede social Facebook foram acompanhados durante os anos de 2017 e 2018, nos quais foi possível realizar a análise de cerca de 380 publicações, observando os efeitos gerados pelo SISU no processo de escolha da profissão. O acesso aos referidos grupos se deu a partir da participação de uma das autoras como convidada de uma integrante para divulgar seu trabalho de orientadora profissional. Ao perceber a relevância das reflexões trazidas nas publicações de cada grupo sobre a temática da escolha da profissão em tempos de SISU, consideramos pertinente reconhecê-lo como campo de pesquisa.

Ao acompanhar as publicações realizadas em tais grupos, diversos temas foram encontrados: ansiedade; medo; insônias; preocupação em não conseguir entrar numa universidade pública, gerando mal estar e somatizações, promovidos pelo ranking diário da classificação nas vagas, onde hoje se pode estar dentro e amanhã já não estar mais entre os selecionados; mulheres que têm filhos com receio de fazer a prova e saber se conseguirão conciliar maternidade e estudos, questão essa que não aparecia em nenhuma publicação de homens; pessoas se mudando para outros estados para poder estudar, longe de suas famílias; trocas de materiais de estudos; gente se disponibilizando para ajudar com determinadas matérias; mudanças de opção de curso de acordo com a nota de corte do processo seletivo, entre outros.

Dentre os efeitos gerados por tal processo seletivo, o que será destacado aqui, por ser o tema deste artigo, é aquele que fala sobre as mudanças de opção ou escolha do curso de acordo com a nota de corte do processo seletivo. Ele foi encontrado repetidamente em inúmeras publicações, nas quais pessoas chegavam a pedir opinião sobre o que fazer em determinada situação, tais como perguntar para qual curso dava aquela nota ou se sua pontuação era melhor ser submetida para cotas ou ampla concorrência. Outras discussões giravam em torno do ter que entrar na universidade, projetando nisso a única forma de mudar a vida financeira da família.

As escolhas eram movimentadas por notas, mas conectadas com forças que, no campo gerado pela ambiência do SISU, constituíam redes de conexões entre humanos e não-humanos capazes de mudar vidas. Assim, o processo de decisão era multideterminado e, muitas vezes, possibilidades não pensadas durante o gestar dessa escolha (como, por exemplo, ir a outro Estado do país para cursar o que se queria, ou cursar um tecnólogo próximo ao curso originalmente pretendido ou, ainda, optar por um curso completamente diferente do pensado anteriormente), tornaram-se opções que concretizaram o acesso ao curso superior. Para muitos, não importava mais o curso, o que almejavam era estar em uma universidade pública para justificar o investimento feito no ENEM.

Acompanhar tais movimentos promoveu reflexões e nos levou a pensar a escolha profissional em tempos de SISU como um fenômeno de campo, descaracterizando a noção tradicional de escolha profissional pensada em habilidades, mercado de trabalho, ou até mesmo a ideia mais clássica de vocação. Rodrigues (2017) compreende a vocação como uma construção social “gerada de um lado pelo meio, do outro por condições subjetivas de cada indivíduo.” (p. 294). Já Mello (2002), tratando da escolha profissional, destaca que ela envolve tanto aptidões e desejos quanto um projeto de vida, considerando que uma escolha inadequada pode gerar sofrimento existencial e emocional ao sujeito. Embora essas considerações sejam pertinentes principalmente no que tange ao trabalho de Orientação Profissional, observamos que o SISU como sistema de acesso à universidade imprime outra dinâmica a esse diálogo vocação-escolha-projeto de vida, visto que, como já dito, muita(o)s candidata(o)s elegeram o curso que a(o)s permitiram entrar na universidade, criando-se outros sentidos para a noção de escolha. O campo, portanto, amplia nosso olhar e transcende a esfera particular da ideia de escolha nesse segmento.

Segundo Ribeiro (1985), a partir da década de 1940, todas as áreas do saber humano se voltaram para uma mesma realidade: o ser humano. Nesse contexto, abre-se uma importante discussão para a psicologia, como nos aponta o autor: “O homem é todo ele um ser de relações. Imerso no universo, tudo diz respeito a ele e com tudo ele se encontra em relação, consciente ou inconsciente.” (p. 18).

Sentiu-se, assim, a necessidade de um discurso que abrangesse de forma mais ampla a compreensão do ser humano em sua totalidade (mente, corpo, emoções etc.). Dentro desse cenário e das novas concepções acerca do homem, os autores da Gestalt-terapia construíram toda sua fundamentação tanto teórica quanto prática, herdando conceitos de algumas correntes influentes da época, tais como o humanismo, a fenomenologia, o existencialismo, a Psicologia da Gestalt e Teoria de campo de Kurt Lewin, o pensamento holístico, a Teoria organísmica de Kurt Goldstein, e do pensamento oriental como o Zen budismo e Taoísmo.

Tendo como principal fundador o médico e psicanalista alemão Friederich Salomon Perls, essa abordagem tem seu nascimento marcado oficialmente em 1951 com a publicação do livro “Gestalt Therapy: Excitement and Growth in Human Personality”, contando com contribuições de filósofos, psicólogos, psiquiatras, escritores e artistas judeus, alemães e austríacos, que lhe deram um arcabouço teórico e prático no qual o homem é visto como um ser relacional, que não pode ser dissociado do meio em que vive.

Nesse sentido, para a abordagem gestáltica a pessoa é vista como um ser que está no mundo e sempre em relação com. Esse ser é um todo organizado (que não pode ser separado de seus sentimentos, pensamentos e ações), em constante busca de homeostase, sempre constituído na relação organismo/ambiente. Nessa existência relacional com os outros e com o meio que o cerca, o homem, em um campo psicológico, nesse sentido ampliado, constitui-se através de sua percepção ao se relacionar com o mundo. Nesse campo ele faz escolhas o tempo todo, comportando-se sempre em contato com o que se faz presente no momento em que acontece a experiência. Esse processo de contato com o ambiente é um fluxo contínuo de experiências e escolhas, que se atualizam a todo instante, conforme as necessidades que precisam ser atendidas para sua satisfação.

Nesse processo de relação organismo/ambiente, a pessoa entra em contato tanto com o que lhe agrada quanto com o que lhe desagrada, necessitando, assim, realizar negociações para se manter em equilíbrio na relação com o ambiente que a cerca, o que a faz ser criativa para lidar com as limitações da existência atual, reconhecendo seus limites, bem como sua responsabilidade. Portanto, “o [...] homem que pode viver um contato íntimo com sua sociedade, sem ser tragado por ela nem dela completamente afastado, é um Homem bem integrado.” (Perls, 1981, p. 40), sendo esse o ser humano da Gestalt-terapia. Isso implica em se olhar de forma ampla para tudo aquilo que o contorna, aqui e agora, sempre em processo e mudança. Dessa forma, com a escolha da profissão não será diferente. O SISU e sua proposta de seleção nos leva a reconfigurar os modos de compreensão acerca desse processo de escolha conforme discutiremos a seguir.

 

A escolha profissional em tempos de SISU: um fenômeno de campo

 

 

Conforme afirmado anteriormente, uma das bases metodológicas fundamentais da Gestalt-terapia está relacionada à Teoria de campo e à Psicologia da Gestalt. Essa abordagem teórica, conhecida como a terceira força da psicologia, trouxe, dentre outras contribuições fundamentais para o fazer científico na psicologia, a noção de campo fenomenal herdado da física dos campos, que diz que o comportamento dos corpos é determinado pela distribuição de tensões gravitacionais e eletromagnéticas. Nesse sentido, campo e experiência são correlatos de tal forma que essa pode ser utilizada como um indicador das propriedades daquele (Engelmann, 2002).

Kurt Lewin (1973) trará essa noção para o que ele chamou de campo psicológico, o qual compreende tanto a pessoa quanto o seu meio (aquilo que ela percebe), envolvendo também variáveis não psicológicas (biológicas, sociais, físicas) do ambiente em que ele se encontra. A Teoria de campo, conforme foi denominada por ele, trata-se de um método que descreve o campo total do qual um comportamento atual faz parte, sendo regido pelo princípio da contemporaneidade, que significa que passado e futuro compõem o campo em um determinado momento conforme atualizados no aqui-e-agora. Afirma-se, por essa proposta, que o campo é um todo no qual as partes estão relacionadas e reagem umas às outras sendo influenciadas por tudo o que acontece em qualquer parte dele. Tudo é visto como um vir-a-ser, sempre se movendo. Como uma teia de aranha que se você toca em uma parte todas as outras vibram, podendo desestabilizar a teia toda.

Assim, para Lewin (1975, apud Yontef, 1998) “o comportamento é uma função do campo, do qual ele é parte; uma análise de campo começa com situações como um todo.” (p. 193). A abordagem de campo é holística. Os fenômenos são determinados pelo campo todo, onde tudo afeta o restante e a realidade percebida é configurada pelo relacionamento entre o observador e o observado. Por isso que se entende como sendo um campo psicológico, que é real na medida em que faz efeito em quem o percebe. Seguindo por essas trilhas, conforme Ribeiro (1985), “a Gestalt-Terapia afirma que a pessoa deve ser vista como um todo, ou seja, que seu comportamento só se torna compreensível a partir de sua visão dentro de determinado campo com o qual ela se encontra em relação”. (p. 95).

Dessa forma, a abordagem gestáltica inspira o questionamento aqui em foco, pois ao pensar que o SISU pode atuar nos modos de escolher ao criar um campo psicológico específico para tal momento, podemos pensar a escolha profissional como um fenômeno de campo, uma vez que o formato do SISU promove um dinamismo no campo psicológico, atualizando-o a cada instante. Isto é, cada vez que muda a posição no ranking, o campo e a pessoa mudam e é preciso agir a partir daquela nova configuração.

Nesse sentido, a escolha emerge desse campo de forças e se faz presente no aqui e agora da experiência vivida. Em alguns depoimentos nos grupos pesquisados, a reordenação da escolha acontecia no último minuto do fechamento do sistema. Isso produzia ansiedade, medo, às vezes decepção, mas também alívio, surpresa e novidade.  

 

 

Escolha profissional e reverberações

 

 

Considerando a escolha profissional em tempos de SISU como um fenômeno de campo, retomamos aqui possíveis forças que atuam nesse campo, as quais reverberam também nas orientações profissionais e no viver universitário.

Vamos pensar na pessoa que quer muito entrar em um curso de ensino superior e faz uma escolha de acordo com sua nota na prova do ENEM. Quem está vendo esse comportamento de fora, a princípio, pode criticar tal atitude: como pode alguém escolher uma profissão baseada pela nota que tira no ENEM? Porém, quando olhamos para algo que acontece, temos acesso a apenas uma parte do todo que ele representa. Por isso, uma escolha vista de forma gestáltica precisa se contemporizar no campo do qual ela faz parte.

Pela perspectiva de campo psicológico que trouxemos aqui para essa reflexão, podemos pensar em algumas das possíveis forças que vão constituir o campo que se faz diante de um ranking do SISU e que inclui também os não-humanos: os dias disponíveis para a inscrição, a quantidade de inscritos para determinado curso, a informação que se possui sobre a profissão e a universidade que a oferta, o acesso à internet, o tempo que a pessoa dispõe para acessar, a pessoa que escolhe, como ela está no dia, quais são seus atravessamentos de classe social, gênero, raça, a questão financeira familiar que impulsiona a pessoa a ver sua entrada na universidade como a única forma de mudar de vida e sair do ciclo inicial em que se criou, etc. Forças essas que podem impulsionar uma mudança de escolha de curso que não estava prevista ou bloquear alguma outra que se queria tanto. Desse modo, “o comportamento deixa de ser entendido como resultado de uma realidade interna da pessoa e passa a ser analisado em função do campo que existe no momento em que ocorre.” (Ribeiro, 1985, p. 95).

Sendo assim, dentro desse cenário que se faz no SISU, temos a escolha da profissão como um fenômeno do campo existente no momento do escolher, retirando a ideia de algo exclusivamente individual e permanente, reverberando no trabalho de orientação profissional, uma vez que dentro dessa perspectiva faz-se necessário pensar no orientador profissional como alguém que acompanha um processo, trazendo o orientando para uma tomada de consciência das possibilidades existentes do escolher que não se desconectam da concretude da vivência cotidiana e de seus atravessamentos, pois “o que temos de enfatizar é o trabalho, o movimento, o fluxo e as mudanças.” (Latour, 2012, p. 207).

É necessário destacar, também, que mesmo que a escolha possa acontecer no “aqui e agora”, ela reflete uma trajetória, uma vivência e, sobretudo, uma necessidade de experimentação. Daí a importância de ela não ser invalidada nem por quem a vive, nem pelos que a cercam.

Acompanhando o fluxo de depoimentos nos grupos de candidatos ao ENEM, constatamos que a pessoa que iniciava sua vida universitária poderia ser surpreendida de diversos modos, inclusive percebendo-se engajada na escolha que emergiu desse campo de forças, sem uma organização anterior ou, de outra forma, decepcionar-se com a escolha que sempre perseguiu. Além disso, o início da vida profissional no mundo atual enfrenta instabilidades que, muitas vezes, fazem esmaecer as fronteiras entre as diferentes áreas de conhecimento na qual as profissões também se movimentam. Essa mesma fluidez posta em cena pelo SISU como meio de entrada na universidade reflete-se, a nosso ver, no mundo do trabalho que está permeado de tensões, desafiando a ideia de um trabalho que perdure por toda uma vida. Isso também constitui uma das forças que atua nesse processo contemporâneo da escolha profissional.

Portanto, considerando as reflexões trazidas aqui através da abordagem de campo psicológico de Lewin, podemos perceber inúmeras forças atuando nesse momento do escolher e que nos fazem pôr em xeque a ideia de escolha profissional como algo exclusivamente individual, de pura satisfação pessoal e acabado. Nesse sentido, entendemos que o referencial gestáltico é bastante pertinente a essa reflexão por nos oferecer possibilidades de pensar a escolha profissional na contemporaneidade a partir dos aspectos dinâmicos que a perpassam no cenário atual, uma vez que passamos a lidar com esses fenômenos a partir de uma perspectiva integrada e atualizadora das angústias e motivações que tornam a escolha um processo e não uma ação definitiva.

 

 

O campo em ação: considerações finais

 

 

A proposta aqui trazida teve como objetivo principal discutir a escolha profissional como fenômeno de campo deslocando o olhar de uma perspectiva individual para uma perspectiva ampliada, conforme nos aponta a própria noção de campo psicológico preconizada por Kurt Lewin e destacada na abordagem gestáltica. Tal proposta evidenciou-se na pesquisa realizada que teve o SISU como um actante, um elemento que trouxe diferenças no processo de escolha.

Observamos que ainda são escassas as pesquisas que trazem o SISU como objeto de investigação, inclusive no segmento da Orientação Profissional. A dinâmica que o SISU introduz no processo de ingresso na universidade traz impactos fundamentais na ação da escolha profissional. Considerando essa nova forma e acompanhando pessoas em situação de exame para o ENEM, constatamos que a noção de campo psicológico traz contribuições relevantes para pensarmos tanto a escolha profissional quanto os seus desdobramentos na vida universitária e no mundo do trabalho.

Por ser uma prática recente, o SISU tem aspectos a serem estudados e ainda há muitas questões a serem exploradas a médio e longo prazo. Dessa forma, acreditamos que pensar o SISU como um atravessamento importante no processo de escolha profissional faz-se relevante e atual, bem como pensar a escolha de modo mais coletivizado e processual.

  

Referências

BERTIN, C. E. Quem criou o SISU? Confira esta e outras curiosidades. ViaCarreira. Disponível em: https://viacarreira.com/quem-criou-o-sisu/, acesso em: 20/05/2023.

 

ENGELMANN, A. A Psicologia da Gestalt e a Ciência Empírica Contemporânea. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, Jan-Abr, v.18, n.1, p.001-016, 2002.

 

LATOUR, B. Reagregando o social: uma introdução à teoria do Ator-Rede. Salvador: Edufba, 2012; Bauru, SP: Edusc, 2012.

 

__________. Cogitamus: seis cartas sobre as humanidades científicas. 1ª edição. São Paulo: Editora 34, 2016.

 

LEWIN, K. Princípios de Psicologia Topológica. SP: Cultrix, 1973. Trad. original principles of topological psychology, de 1936.

 

MELLO, F. A. F. O desafio da escolha profissional. 1ª edição. SP: Papirus, 2012.

 

PERLS, F. A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. RJ: Zahar Editores, 1981.

 

RIBEIRO, J. P. Gestalt-terapia: Refazendo um caminho. SP: Summus, 1985.

 

RODRIGUES, D. S. M. O processo de ‘construção’ da vocação profissional. Revista Científica Educ@ção, Miracatu – SP.  v.1, n.2, p. 283-295, 2017.

 

SABATINI, J. R. Versões da Escolha Profissional em Tempos de SISU: um olhar gestáltico costurado pela TAR. 2019. 101f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social). Program de Pós-Graduação em Psicologia Social. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 18/02/2019.

 

SPINK, P. (2003). Pesquisa de campo em psicologia social: uma perspectiva pós-construcionista. Psicologia & Sociedade, São Paulo, v.15, n.2, p.18-42, 2003.

 

YONTEF, G. M. (1998). Processo, Diálogo e Awareness: Ensaios em Gestalt-terapia. Summus Editorial.


[1] Dissertação de mestrado disponível para consulta em: http://www.bdtd.uerj.br/handle/1/15227. Acesso em 27/05/2023.

 

[2] Fundamental enfatizar dois pontos referentes a questão ética em pesquisa: 1) A referida pesquisa está isenta de registro e avaliação pelo sistema CEP/CONEP, conforme item III, do parágrafo único do Artigo 1º da Resolução 510 de 07/04/2016 do CNS, uma vez que utilizou somente informações de domínio público, oriundas de grupos da Rede Social Facebook. 2) As “Orientações para procedimentos em pesquisas com qualquer etapa em ambiente virtual” foram publicadas pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) em fevereiro de 2021, data posterior à realização da pesquisa que embasa este artigo. Contudo, cabe ressaltar, que ainda sem as devidas orientações legais e não necessidade de submissão de registro e avaliação por um comitê de ética, a referida pesquisa se preocupou com questões éticas, lançando mão de estratégias para não identificar integrantes que publicavam nos grupos, mesmo sendo de domínio público. O cuidado ético tomado na pesquisa está devidamente relatado em seu capítulo 4, item 1: “Caminhos para a Ética: pesquisando com redes sociais”. Para consultar o trabalho, acesse: http://www.bdtd.uerj.br/handle/1/15227.

Juliana Rangel Sabatini 

UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Correspondência: rangelsabatini@yahoo.com.br

Laura Cristina de Toledo Quadros 

UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Correspondência: lauractq@gmail.com

Revista IGT na Rede, v. 23, nº 45, 2026, p.1-21 DOI 10.5281/zenodo.20629903   

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526