ARTIGO

“Quem sabe a dor da queimadura é quem está queimado”: experiências de pacientes queimados à luz da Gestalt-Terapia

"Who knows the pain of the burn is the one who is burned": experiences  of burned patients in the light of gestalt-therapy

Andreza Dantas Nogueira

Jeniffer Lene Barbosa Braz de Almeida

Deyseane Maria Araújo Lima

RESUMO:

O presente artigo tem como objetivo descrever a percepção dos pacientes queimados no Centro de Tratamento de Queimados de Fortaleza (CE), em relação ao enfrentamento desta enfermidade e sob a perspectiva da Gestalt Terapia. O estudo teve sua pesquisa desenvolvida segundo uma abordagem qualitativa e tendo como modalidade de investigação a pesquisa de campo. O local escolhido foi o Centro de Tratamento de Queimados do Instituto Dr. José Frota em Fortaleza (CE). As técnicas utilizadas para produção de dados foram a observação participante e a entrevista semiestruturada. Foi elaborado um roteiro de entrevista, composto de sete perguntas, as quais foram de grande importância para a coleta de dados descritivos dos voluntários, possibilitando serem criadas ideias sobre como interpretam a situação vivenciada. Participaram da pesquisa nove voluntários, onde a partir de seus relatos, pode se observar que durante o tratamento da enfermidade os mesmos enfrentam diversas dificuldades. E a maior dificuldade é a dor, que é uma experiência puramente subjetiva, porém simbolizada como: perda da vontade de viver, acúmulo de marcas físicas e psíquicas, dor da alma, dentre outras. Conclui-se sobre a relevância da atuação do psicólogo no hospital no trabalho com pacientes com queimaduras pode propiciar uma ressignificação de seu adoecimento.  

Palavras-chave: Dor; Queimaduras; Tratamento; Psicologia; Gestalt-Terapia. ABSTRACT:

The present article aims to describe the perception of patients with burn injuries at Centro de Tratamento de Queimados (Burn Treatment Center) in Fortaleza (CE), concerning the confrontation of this infirmity under the scope of Gestalt Therapy. This study was developed following a qualitative approach and field research as an investigative modality. The chosen place was Centro de Tratamento de Queimados (Burn Treatment Center) of Instituto Dr. José Frota in Fortaleza (CE). The techniques employed for the production of data were the participant observation and the semi-structured interview. An interview script, composed of seven questions, was elaborated. These questions, being relevant for the volunteers' data collection, allowed the conception of ideas on how to interpret the experienced circumstance. Nine volunteers participated in the research, resulting in the observation that these patients cope with several difficulties through the treatment. The pain, a purely subjective experience, is the biggest one. The loss of zest for life, the collection of physical and psychological marks and pain of the soul are some of the symbols for pain. The conclusion shows the relevance of the psychologist's performance among burned patients in the hospital, which can provide a resignification of their disease.

Keywords: Pain, Burns, Treatment, Psychology, Gestalt-Therapy.

Considerações Iniciais 

O presente estudo foi realizado a partir do interesse das autoras em ampliar  seus conhecimentos em Psicologia Hospitalar e Gestalt-Terapia. Portanto,  depois de algumas discussões sobre o possível interesse em pesquisar a  temática da queimadura no contexto hospitalar, foi visto que há um hospital da  rede pública de Fortaleza que é considerado referência no Norte e Nordeste  nos atendimentos aos pacientes vítimas de queimaduras e outros traumas,  segundo o Catálogo de Serviços da Prefeitura Municipal de Fortaleza - CE.  Portanto, observa-se que tal instituição seria o local mais adequado para a  pesquisa ser executada, mais especificamente no setor de queimados. 

Um trauma térmico, independentemente de sua extensão, é uma agressão que  pode causar danos físicos e psicológicos ao paciente. O mesmo, durante a  internação hospitalar, é acometido por muitos estressores físicos, onde o  principal deles é a dor. Além disto, há também os estressores psicológicos  devido ao paciente separar-se da família e do trabalho, ao acometimento de  mudanças corporais, à perda da autonomia, dentre outras (CARLUCCI, ROSSI,  FICHER, FERREIRA & CARVALHO, 2007).  

A queimadura é uma lesão na pele ou em outros tecidos, podendo acarretar  destruição parcial ou total de suas células. Esta lesão pode ser causada por  agentes térmicos, químicos ou elétricos. Dependendo da gravidade é  classificada em queimadura de primeiro grau, segundo grau ou de terceiro grau  (BRASIL, 2012). 

O tratamento deve ser executado em uma unidade especializada para  queimados por uma equipe multidisciplinar treinada para tais casos, como:  médicos especializados, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas,  fonoaudiólogos, etc. (GUIMARÃES, SILVA & ARRAIS, 2012). 

A atuação do psicólogo dentro do ambiente hospitalar vem crescendo bastante  comparada às últimas décadas. O avanço da Psicologia Hospitalar colaborou  com uma certa sistematização de apoio, manejo, acompanhamento e cuidado  que tal profissional pode oferecer, favorecendo, mas não determinando, que o  paciente venha a aderir ao seu tratamento, facilitando as intervenções médicas.  Logo, esse auxílio beneficia também o paciente na melhoria da qualidade de  vida e no avanço de sua recuperação (GUIMARÃES, SILVA & ARRAIS, 2012). 

Dentro dessa visão integral de saúde, o foco da psicologia hospitalar é a minimização do sofrimento provocado pela hospitalização, abrangendo não somente a internação em si (patologia), mas principalmente as consequências emocionais dessa experiência de institucionalização (CAMON, 1995).

Geralmente, é esperado que o psicólogo usufrua de uma abordagem  psicológica como forma de manejar seus atendimentos e por este motivo a  abordagem da Gestalt-terapia foi utilizada neste estudo para que se tivesse um olhar mais amplo da situação dos pacientes queimados e da forma como eles  enfrentam a internação e experienciam suas dores, em que desenvolve uma  perspectiva holística do ser humano, integrando, ao mesmo tempo, as  dimensões orgânicas, sensoriais, afetivas, intelectuais, sociais e espirituais  (GINGER & GINGER, 1995).

A pessoa com queimadura deve ser vista como um ser singular, que é repleto de subjetividade e que tem suas próprias características consequentes ao trauma que sofreu. Dentre essas características, a que mais se destaca é a dor (ROSSI, CAMARGO, SANTOS, BARRUFFIN & CARVALHO, 2000).

A questão que norteou este artigo foi: qual a percepção dos pacientes queimados em relação ao enfrentamento da enfermidade no Centro de Tratamento de Queimados de Fortaleza (CE)?

Teve-se como objetivo geral: descrever a percepção dos pacientes queimados em relação ao enfrentamento da enfermidade sob a perspectiva da Gestalt Terapia no Centro de Tratamento de Queimados de Fortaleza. E como objetivos específicos: compreender como as manifestações da dor são percebidas pelos pacientes queimados durante o tratamento; relatar a visão dos pacientes queimados sobre as dificuldades do tratamento; retratar a atuação do psicólogo hospitalar com os pacientes queimados sob a ótica da Gestalt-Terapia.

A relevância deste estudo para a comunidade científica será descrever a atuação do psicólogo no contexto hospitalar, promovendo a discussão de mais conhecimentos sobre o tema, devido à escassez de pesquisas sobre o assunto; ressaltar os aspectos físicos e psicológicos da queimadura; descrever a experiência de se vivenciar uma queimadura e suas possíveis consequências.

Salienta-se que se deve compreender junto aos participantes como é sentir-se paciente (passivo); dar a oportunidade para que os mesmos possam falar de suas dores, problemas, sofrimentos em relação ao tratamento que enfrentam; facilitar o processo de exposição de seus medos, aflições e anseios; compreender a importância dos atendimentos psicológicos durante a vivência da internação.

Consequentemente, pretende-se contribuir com a produção de mais conhecimentos e divulgá-los, especialmente para os estudantes que se interessam pelo tema e para os profissionais da área hospitalar, onde as dores, danos e sofrimentos são intensos e rotineiros.

2 Metodologia

O presente artigo teve sua pesquisa desenvolvida segundo uma abordagem qualitativa  por possuir características como: ambiente natural como fonte direta dos dados; é  descritiva; preocupação com o processo e não simplesmente com os resultados e o produto; análise indutiva dos dados; o significado é a preocupação essencial. Esta  abordagem volta-se ao estudo da compreensão do fenômeno em seu ambiente  natural, analisando o problema processualmente, sendo uma de suas maiores  contribuições (OLIVEIRA, 2007).

Além disso, este estudo teve como modalidade de investigação a pesquisa de campo,  pois entende-se que a mesma pretende buscar a informação diretamente com a  população pesquisada exigindo um encontro mais direto. As pesquisadoras  precisaram ir ao espaço onde os fenômenos ocorreram para reunirem um conjunto de  informações a serem documentadas e analisadas (GONSALVES, 2001).

O local escolhido para a realização desta pesquisa foi o Instituto Doutor José Frota  (IJF), que segundo o Catálogo de Serviços da Prefeitura Municipal de Fortaleza – CE  (sem data), é considerado o maior centro médico de urgência e emergência de nível  terciário da rede de saúde pública da Prefeitura de Fortaleza, sendo também  referência no Norte e Nordeste no socorro às vítimas de traumas de alta  complexidade, como fraturas múltiplas, lesões vasculares e neurológicas graves,  queimaduras e intoxicações, oferecendo atendimento 24 horas para casos de extrema  gravidade, por demanda espontânea ou por encaminhamento dos órgãos de  regulação de leitos municipal e estadual.  

Sobre o setor onde foi produzida propriamente a pesquisa, o Centro de Tratamento de  Queimados (CTQ) do Instituto Dr. José Frota (IJF), de acordo com o site da Prefeitura  de Fortaleza (2013), é referência em todo o País em tratamento de queimaduras. No  CTQ, são realizados tratamentos de média e alta complexidade. Cerca de 100  profissionais, entre médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos,  psiquiatras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, entre outros, formam uma equipe multidisciplinar que ajudam a tornar o Centro um dos melhores do Brasil. No CTQ do  IJF, são efetuados, em média, 50 a 80 curativos ambulatoriais por dia. Por mês, são  internados cerca de 50 pacientes. A taxa de ocupação varia entre 70% a 100% dos 30  leitos existentes. Diariamente, são executados os serviços ambulatoriais, de  internação e de emergência que funcionam 24 horas.

As técnicas utilizadas para produção de dados foram a observação participante e a  entrevista semiestruturada. Através de ambas, foi permitido que as pesquisadoras  pudessem ficar mais próximas dos participantes da pesquisa, bem como do ambiente,  fazendo com que fossem observados os aspectos não verbais dos pacientes ou os  que pudessem influenciá-los em seu enfrentamento da enfermidade, suas  manifestações de dor, dentre outros aspectos que viessem surgir e contribuir para que  fossem atingidos os objetivos da pesquisa da forma mais íntegra possível.  

Foi utilizado como instrumento um roteiro semiestruturado composto de 7 (sete)  perguntas para as entrevistas. Todas as perguntas e respostas obtidas auxiliaram na  resolução dos objetivos propostos. O uso do gravador foi autorizado por todos os  entrevistados, facilitando a posterior transcrição e análise de dados.  

As perguntas colocadas foram: Descreva sua rotina no CTQ. Você gostaria de falar  sobre como o acidente ocorreu? Qual a maior dificuldade do tratamento para você?  Que significado você daria para a sua dor? Existe/existiu alguma situação que você  acha que influenciou na piora ou na melhora da sua dor? O quê? Você está tendo  

atendimento psicológico aqui durante esse tempo de internação? Você acredita que  foi/é importante ter um acompanhamento com um (a) psicólogo (a)?

Outro instrumento utilizado na coleta de dados foi o diário de campo, que são registros  realizados pelas pesquisadoras que implicam as percepções sobre o campo de  atuação. Compuseram o diário de campo: conversas informais, observações de alguns  comportamentos considerados relevantes, falas e impressões pessoais, descrições  (aparência, modo de falar, e algumas particularidades), falas (diálogos, palavras,  gestos, expressões corporais, etc.), descrição do espaço físico (organização do  espaço).

A análise de dados coletados foi feita através da análise de conteúdo, escolhida por  ser uma técnica que visa à interpretação de material qualitativo de forma objetiva,  sistemática e com a riqueza revelada durante a coleta dos dados (BARDIN, 2009).  Durante a análise dos materiais, buscou-se classificá-los em temas e categorias, que  auxiliaram as pesquisadoras na compreensão do que estava por trás dos discursos  (SILVA & FOSSÁ, 2013).  

O desenvolvimento do estudo foi submetido e aprovado pelo comitê de ética e pesquisa do Instituto Dr. José Frota (IJF) e pela Plataforma Brasil, com parecer de número 2.376.078, bem como esteve em conformidade com a Resolução 466/12, que dispõe sobre a ética da pesquisa com seres humanos e que os sujeitos autorizaram sua participação através da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, tendo, portanto, a liberdade de desistir ou de interromper a colaboração neste estudo no momento em que desejassem, sem necessidade de qualquer explicação, sem penalização nenhuma e sem prejuízo à sua saúde ou bem estar físico.

Após a aprovação da pesquisa, as autoras compareceram ao local para realizar a coleta de dados. Já no interior do Centro de Tratamento de Queimados (CTQ), foram levadas ao posto das enfermarias, para checar na lista dos pacientes, quais deles estavam dentro dos critérios de inclusão do estudo, que foram: ser paciente queimado do CTQ, a partir de 10 (dez) dias de internação; estar consciente; ser adulto a partir de 18 anos de idade, de ambos os sexos, abrangendo a multiplicidade de causas dos acidentes, podendo ser qualquer uma.

Quando a lista dos pacientes internados foi avaliada, 12 (doze) pacientes estavam  dentro dos critérios de inclusão acima citado. Porém, no dia da realização da coleta  de dados, apenas 9 (nove) pacientes voluntariaram-se em contribuir com a pesquisa.  Os outros 3 (três) sentiram-se indispostos a colaborar.  

O anonimato dos entrevistados foi cumprido durante todo o decorrer do estudo. Sobre a maneira como foram chamados, optou-se por fazer uma homenagem às crianças vítimas da tragédia do massacre de Janaúba, denominando os pacientes com os respectivos nomes das vítimas fatais: Ana Clara, Cecília, Juan Miguel, Juan Pablo, Luis Davi, Matheus Felipe, Renan Nicolas, Thallyta Vitória e Yasmin.

O massacre de Janaúba foi um episódio ocorrido no dia 5 de outubro de 2017, em uma creche municipal no município de Janaúba, no estado brasileiro de Minas Gerais, onde o vigilante noturno da creche Gente Inocente, no bairro Rio Novo, ateou fogo em si mesmo, em uma professora e em diversas crianças, no qual deixaram vários feridos, além da confirmação de algumas mortes.

A escolha dos nomes fictícios para os pacientes relacionados ao massacre  deu-se por conta de ter sido uma tragédia que teve, como tipo de causa, o  fogo, bem como da repercussão manifestada não só pela mídia brasileira,  

como também estrangeira, além de ser considerada nacionalmente uma  tragédia catastrófica, que mobilizou todo o país.  

Foram entrevistados cinco homens e quatro mulheres. As idades variaram  entre 34 a 64 anos. Os casos diferenciavam-se em clínicos ou cirúrgicos. O  CID dos participantes englobava: T233 (Queimadura de terceiro grau do punho  e da mão); T300 (Queimadura, parte do corpo não especificada, grau não  especificado); T303 (Queimadura de terceiro grau, parte do corpo não  especificada) e T312 (Queimaduras envolvendo 20 – 29% da superfície  corporal).

A seguir, baseado em todos os materiais fundamentados e transcritos, foram  selecionados temas com categorias, compreendendo o relato de cada  paciente, através da submissão dos mesmos à análise de conteúdo.

3 “A dor é forte. Muito forte!”: O ato da queimadura

Para um maior entendimento do paciente e de suas experiências frente ao seu  processo de queimadura, salienta-se a importância da elucidação sobre o que  é a queimadura e seus agravos.

De acordo com os autores Rossi, Ferreira, Costa, Bergamasco & Camargo  (2003), as queimaduras podem ser classificadas em físicas e químicas. As  mesmas serão diferenciadas pelos agentes agressores. Por exemplo, na  primeira, os agentes agressores podem ser térmicos, elétricos e radiantes, já  na segunda, que são as químicas, os agentes são os ácidos ou álcali. As  causas dos acidentes dos pacientes entrevistados por agressores químicos  foram: acidente doméstico, violência doméstica, violência urbana e acidente  automobilístico, já por agressor físico competiu apenas: acidente de trabalho.  

A queimadura, portanto, é uma experiência de transferência de energia e trata se de um acontecimento com alta tensão, ocorrendo o contato de um agente  agressor para o corpo do paciente, ocasionando, assim, a morte das células e  deixando o paciente com profundas e devastadoras lesões (BOLGIANI &  SERRA, 2010).  

No Brasil, é dificultoso encontrar porcentagens recentes e atualizadas de casos  de queimaduras. Porém, Souza et al., (2009) afirmam que os pacientes  atendidos em hospitais nos territórios brasileiros respondem por cerca de  100.000 indivíduos atendidos anualmente, sendo as principais causas de  morbidade e mortalidade em nosso país.

3.1 “Muitas vezes chorei de dor”: O Tratamento e a Dor

Segundo Carlucci et al., (2007), ao sofrer uma queimadura, o paciente passará  por três fases de recuperação, englobando não só os aspectos físicos como  também os psicológicos. A primeira fase é o estágio crítico, de ressuscitação  ou de estabilização: corresponde as primeiras 72 horas após o acontecimento  do acidente caracterizando-se pela vulnerabilidade e fragilidade do paciente.  Quando o mesmo se estabilizar, passará para a segunda parte, que é uma fase  aguda de reabilitação: onde serão realizados os procedimentos considerados  bastante dolorosos e que geralmente fazem os pacientes criarem expectativas  em relação aos seus resultados, pois esses procedimentos ocorrem em um  momento de maior consciência de choque físico e psicológico do trauma. Por  fim, a terceira fase é a de reabilitação de longa duração: a mesma inicia-se  quando o paciente está prestes a ter alta hospitalar.

Interligando tais fases com o momento atual dos pacientes submetidos ao  estudo, pôde-se perceber que a maioria se situava na segunda fase, ou seja,  na fase aguda de reabilitação e os demais seguiam para a terceira fase,  prestes a receberem alta médica. Apesar de alguns já estarem internados há  muito tempo, suas condições clínicas ou cirúrgicas favoreciam a estadia da  maioria dos pacientes na segunda fase.

De acordo com a literatura, nas unidades de queimados de uma maneira geral,  a hora do banho e do curativo são consideradas os acontecimentos mais  importantes, porque todas as outras atividades têm alguma relação com esses  dois procedimentos, além de envolver a participação de um maior número de  profissionais da equipe, sendo esses os momentos onde a dor está mais  presente (ROSSI et al., 2000).

Tal fato entrou em consonância com a verbalização da maioria dos pacientes,  no que se refere à hora do banho como um dos momentos onde a dor mais  aparece. Os momentos depois do banho também são dolorosos, segundo eles.  

O tratamento é bastante doloroso né? Tanto o banho normal, como o  

banho anestésico .... Quando eu vou para os banhos, eu tento  

esquecer, entendeu? Eu vivo aquilo lá, mas eu tento apagar da minha  

mente depois. Eu faço assim, eu vou...e quando dói eu fico pedindo  

forças, no meu interior, dentro de mim. E depois eu tento apagar da  

memória. Eu tento não ficar sofrendo... tento apagar aquilo da minha  

mente. Mas é angustiante! Você já começa a sofrer quando sabe que  

vai para o banho, porque sabe que vai sentir dor. .... Quando eu vou  

tomar banho eu sempre peço pra colocar uma toalha no meu rosto  

pra eu não ficar me olhando e pra eu ficar pensando em outras  

coisas, sem focar o pensamento na dor (YASMIN).

Foi percebido que a hora do banho gera ansiedade, medo e desconforto. No  caso de Yasmin, tornou-se algo tão doloroso que a mesma já sofre por  antecipação só em saber que está chegando a hora. Este relato sobre a dor pode ser entendido como uma tentativa de comunicar uma experiência que,  muitas vezes, envolve comoção e sofrimento.

Os ferimentos ficam doendo, são ruins. Mas as dores...vão ficar marcadas!  (THALLYTA VITÓRIA).

Acredita-se que por trás desta simples frase, há uma imensidão de  significados. Essas marcas continuarão sendo tanto físicas (na pele) como  psíquicas (memória, lembranças). Esperar a cicatrização e os processos de  cirurgia plástica para tentar ao máximo manter suas características naturais  não serão completamente suficientes para esquecer o que enfrentou.

Segundo Sousa (2002), a dor pode ser definida como uma danificação nos  tecidos, sendo uma experiência puramente subjetiva, sendo que por esta  razão, toda pessoa a perceberá de forma diferente, pessoal e particular.

A capacidade de sentir a dor é primordial para a sobrevivência. Ela é o primeiro  indício de qualquer lesão tecidual. O calor, o frio, a pressão, a corrente elétrica,  os irritantes químicos e até mesmo os movimentos bruscos são alguns dos  estímulos que resultam em lesão ou ferimento, levando o indivíduo a adquirir  uma sensação de dor (SILVA & RIBEIRO-FILHO, 2011).

Diferente de outros sistemas sensoriais, todavia, o sistema sensorial  

para a dor é extremamente amplo; uma sensação dolorosa pode ser  

iniciada em qualquer parte do corpo ou no próprio sistema nervoso  

central (SNC). Vários locais são emparelhados aos vários tipos de  

sensações de dor. A sua percepção é claramente uma rica e  

multidimensional experiência, a qual varia tanto em qualidade quanto  

em intensidade sensorial, assim como em suas características  

afetivo-motivacionais. (SILVA & RIBEIRO-FILHO, 2011, p. 138).

Quando perguntados sobre qual o significado da dor, foi pedido aos pacientes  que dissessem em palavras o que aquela dor representava. Evidentemente, as  respostas de cada um foram singulares e subjetivas. Deram um significado  com palavras diferentes, mas que de certa forma se complementavam. No  mais, foi visto que faltam palavras suficientes para expressar a dor de uma  queimadura.

Cara... é um negócio sério, viu? Sei lá, não tem como explicar. Pra  

mim foi insuportável. Acho que foi a pior coisa que já aconteceu na  

minha vida. Porque ninguém quer sentir dor, né? Às vezes, um  

cantinho de unha te incomoda. Cara... é insuportável... insuportável!  

Não desejo nem para o meu pior inimigo, isso aqui. Já chorei várias  

vezes. (LUIS DAVI).

Este relato de Luis Davi sobre sua dor ser tão abominável, remete ao fato de  que esta é uma experiência tão forte, que não dá para ser pensada e nem  mesmo desejada ao pior inimigo. É como se tal momento para ele ficasse  suspenso: a reflexão foi praticamente impossível, dado o imenso e intenso  sofrimento físico e psíquico que viveu.

A dor é horrível, é muita dor. Tem coisas que eu até evito fazer  

porque sei que vai doer, tipo: fazer cocô! Porque quando vão me  

limpar, precisam me virar de um lado para o outro, aí eu não consigo  

nem dormir de tanta dor (ANA CLARA).

O discurso de Ana Clara apresenta muitas das limitações e dificuldades de  adaptação ao tratamento que os pacientes passam durante a internação.  Deixar de fazer certas coisas, até mesmo as necessidades fisiológicas, não  poder se locomover, nem comer e nem andar, foram também exemplos de  outros pacientes, remetendo-se tal fato, a uma grande tensão emocional e  desconforto físico.

Por conseguinte, o grau e a duração da dor que um paciente suporta vão  depender basicamente de alguns fatores, como: o seu estado emocional frente  ao acontecimento e ao tratamento, a extensão e a localização da queimadura,  o nível de ansiedade e de tolerância à dor, experiências anteriores, cultura e  faixa etária. Por ser algo multidimensional, os significados culturais, pessoais e  situacionais devem ser levados em conta pelos profissionais da saúde (ROSSI  et al., 2000).

Negromonte (2010, p. 17) aponta que a dor é a causa mais frequente de  consultas médicas, onde “a prevalência na população geral varia de 11% a  44%. No Brasil, um terço das consultas tem a dor como principal causa. A dor  está ainda entre as queixas de 70% dos demais pacientes”.

De acordo com Garrido (2005), o tratamento da queimadura é algo complexo e  longo, envolvendo cirurgias e enxertos. Os pacientes que precisam desse  tratamento passam por situações que os deixam incapacitados de serem  sujeitos autônomos de suas vidas, além do fato de eles precisarem se  distanciar do convivo com a família. Dessa forma, os pacientes precisam ter  paciência para conseguirem concluir o tratamento que pode durar dias,  semanas ou até mesmo meses.

A maior dificuldade é o tratamento em si mesmo. Os banhos, sabe? E  

a demora também... Não é um tratamento rápido sabe, você tem que  

depender das queimaduras sararem, tem que saber se vai fazer  

enxertos ou se não vai... Tudo você cria expectativa né? Então é tudo  

muito demorado, dependendo do grau da queimadura. Como eu tive  

muitas queimaduras, então eu já tô aqui há um mês, então é assim  

mesmo, muito demorado! (YASMIN).

Pelo fato da reestruturação do corpo do paciente queimado ser um processo  subjetivo e individual, a sua recuperação vai depender de múltiplos aspectos,  englobando por exemplo, como o mesmo interpreta suas emoções,  sentimentos vinculados ao acidente e ao tratamento, bem como sua situação  atual, onde tais interpretações podem ajudá-lo a ressignificar este momento  (GARRIDO, 2005).  

Por conta disso, o tratamento em si mesmo foi um aspecto muito relevante quanto às dificuldades enfrentadas. Os momentos dos banhos, os cuidados com as lesões, a necessidade de locomoção, a realização de enxertos, além  da demora do tratamento por ser lento, foram pontos destacados durante as  entrevistas e também durante o referencial teórico mencionado, visto que, para  cada situação dessas, haverá interpretações, emoções e sentimentos  diferentes, sendo também necessária neste momento uma maior aproximação  e cuidado da equipe para com o paciente.  

Entretanto, a rotina que os pacientes levam no CTQ foi considerada pelos  mesmos um aspecto favorável durante a internação. Foi unânime a  concordância de que o atendimento na unidade é humano e agradável. Existe  o cuidado e a paciência por parte da equipe médica. A alimentação e as  medicações (que aliviam as dores) são realizadas em seus devidos horários.

Bom, até aqui a rotina foi boa, graças a Deus, apesar da doença que  

não é coisa boa. Temos um bom tratamento, as pessoas tratam a  

gente bem, nos tratam até como se fôssemos crianças, de tão bem  

que eles nos tratam! Tem aqueles probleminhas com as dores, mas  

eles vêm, aplicam os remédios e tudo continua bem. (JUAN PABLO).

Essa questão do bom funcionamento acaba tornando-se positiva tanto para a  equipe como principalmente para os pacientes, que já estão confinados  naquele local, longe da família e de todas as atividades que faziam antes. Ter  um bom atendimento auxilia na diminuição das preocupações e estresses  advindos da hospitalização.

3.2 “Este acidente mudou completamente a minha vida ...”: O Paciente  Queimado

A pessoa que sofreu queimaduras e que precisa de internação e  acompanhamento da equipe especializada do hospital para a sua recuperação  enfrenta diversas complicações em todo o seu processo. Segundo Carlucci et  al. (2007), esse paciente enfrentará uma diversidade de elementos estressores  físicos, como: infecção, dores, perda de fluidos e acidose (acidez sanguínea  excessiva); e também elementos estressores psicológicos, que podem ser:  separação da família e do trabalho, despersonalização, perda da autonomia,  medo, dentre outros que podem surgir dependendo da particularidade de cada  um.

No que se refere à separação da família, tal circunstância foi revelada por um  paciente. O mesmo relatou o quão a saudade dos filhos dificultou no  tratamento. Estar sozinho e ficar sem vê-los foi o que mais o incomodou.

Encarar a vida foi a maior dificuldade (choro forte). Eu tinha acabado  

de vir de uma separação. Eu só estava com um mês e quinze dias de  

serviço. Aí eu lembrava muito da minha filha. Isso aí judiou muito de  

mim também. Ela também é de Brasília né?! Aí eu tenho ela de seis  

anos e outro filho de dezesseis anos (choro) Ah...! Isso me judiou  

demais! Não sou uma pessoa perfeita, mas sou muito família. Eu  

sempre fui! Aí você aqui... Você lembra mais ainda! (LUIS DAVI).

Este desabafo de Luis Davi leva-se, portanto, ao fato de que as sequelas da  queimadura podem alterar o convívio com outras pessoas, sejam elas da  família, do trabalho ou do convívio social, o que pode provocar sentimentos de  saudade e sensação de improdutividade por ter-se afastado do emprego que  entrou recentemente.

No que concerne à perda da autonomia, a dependência de ajuda foi muito  enfatizada durante a entrevista por uma paciente.  

É tão difícil ficar sem andar, sem poder fazer as coisas que você fazia  

antes... Ser só cuidada pelos outros! .... Mas se eu disser que esse  

acidente mudou completamente a minha vida... Que pena pra pior  

né? (risadas). Porque antes eu era bem ativa. Gostava de sair,  

vender coisas, arrumava minha casa e cuidava dos meus filhos... Tão  

bom! Eu só queria ter aquela minha vida de volta. Mesmo com as  

marcas né, mas ativa! (CECÍLIA).

Esta dificuldade da dependência de outras pessoas para realizar tarefas que  antes fazia sozinha, pode vir a causar sentimentos de inutilidade no paciente.  No caso de Cecília, expressar tal fato fez com que ela desse conta do quão  tornou-se passiva desde quando o acidente aconteceu.

No processo de internação, o paciente passa a ter também várias  preocupações com o seu corpo após o acidente, devido às incertezas de como  ficarão as cicatrizes, sequelas e o funcionamento do corpo. (CARLUCCI et al., 2007).  

De acordo com Garrido (2005, p. 05), “muitos dos pacientes não recuperam o  corpo que tinham antes do acidente, experimentando a morte do seu antigo  corpo...”. Tais preocupações com as cicatrizes no corpo foram descritas por  duas pacientes. Consequentemente, após a verbalização do medo ou da  vergonha, ambas enfatizam que as marcas de nada importavam comparadas  ao desejo da melhora e da recuperação. Cecília, portanto, explica:

No começo eu chorava muito quando via as cicatrizes... Mas aí eu fui  

vendo que isso não é nada. O importante é que Deus tenha me dado  

uma segunda chance. Mas quando a gente lembra que era boa...  

Que podia usar a roupa que queria... O corpo da gente sem nenhuma  

queimadura e sem nenhuma marca... É difícil... A gente quer voltar ao  

passado, mas não pode (risada). Ter que viver com o que tá né? E  

procurar melhorar (CECÍLIA).

Sabe-se, portanto, que as queimaduras afetam a estrutura do corpo de uma  pessoa e podem alterar sua imagem, e as reações a tais alterações são  influenciadas pelos padrões da sociedade de uma maneira geral. Essas  reações diante da mudança da imagem corporal estão relacionadas à forma de  como essa mudança é percebida pelos pacientes, que será de forma pessoal e  singular para cada um.

4 "Você chega a perder as esperanças de viver": O papel do psicólogo no  âmbito da saúde

A Psicologia da Saúde busca compreender e atuar sobre a relação existente  entre comportamento e saúde e comportamento e doenças, onde, através de  intervenções psicológicas, tenta contribuir para a melhoria do bem-estar dos  

indivíduos e das comunidades visando à promoção e manutenção da saúde e à  prevenção de doenças (TEIXEIRA, 2004).  

De acordo com os voluntários, o psicólogo é um profissional da saúde, que  colabora de forma positiva no tratamento e contribui para o bem-estar dos  mesmos. Quando questionados sobre a importância de um acompanhamento  psicológico, foi unânime a concordância de todos que sim. Para eles, o  psicólogo ajuda em relação ao emocional, a uma nova chance de ver e viver a  vida, incentivam e levam esperança. O relato de Cecília transmite bem a sua  percepção sobre este profissional dentro do hospital:

É muito importante porque você fica com o emocional muito...  

Perturbado né? Lembrando do acidente... De tudo! A gente fica sem  

ânimo, aí com a psicóloga a gente vai vendo que vai poder viver a  

vida da gente de novo. Não como era antes porque nosso corpo fica  

cheio de cicatriz e a gente fica vendo (CECÍLIA).

O paciente queimado terá maior qualidade de vida e motivação em sua  recuperação, à medida que os psicólogos possam dar voz a eles e também  considerar seus anseios e sofrimentos.

No Brasil, os primeiros movimentos mais consistentes da área de Psicologia da  Saúde foram em hospitais (ALMEIDA, 2011). Uma das inúmeras atividades do  psicólogo no ambiente hospitalar é entender a dor do paciente, que pode vir  expressa, ou não, por uma doença física, agregada a certo sofrimento e  impossibilidades. Quando este paciente quer ser escutado, ele também deseja  falar, na maioria das vezes, que a sua dor é uma “dor da alma” (SILVEIRA,  2006).  

Tal desejo de ser escutado pode ser percebido no relato de Juan Miguel:

É... Eu acho bom, porque as vezes a gente tá sozinho aqui e aí se  

aparecer alguém pra conversar, a gente já muda... Já temos um  

pouco mais de esperança. Porque você chega aqui queimado, que  

nem eu cheguei, as duas pernas. Passa um monte de dias sentindo  

dor... Você chega a perder as esperanças de viver (JUAN MIGUEL).

Neste sentido, percebe-se que para diminuição e alívio do sofrimento, a  compreensão e a escuta por parte do psicólogo podem auxiliar o paciente  durante o momento de internação.  

De um modo geral, sobre o acompanhamento psicológico dos pacientes do  CTQ, foi percebido que a psicologia realiza apenas um contato inicial com  alguns pacientes. Os voluntários não informaram o total de atendimentos realizados pela psicologia, contudo, deixaram claro que foram poucos e  somente no período inicial da internação. Portanto, os pacientes não usufruem  de um acompanhamento psicológico a longo prazo e sistemático.

5 “O tratamento dessa queimadura vem ocasionar umas dores, mas é  para o nosso bem”: A Gestalt-Terapia e o processo de saúde e doença

De acordo com Ginger e Ginger (1995), Gestalt é uma palavra alemã, hoje  adotada no mundo inteiro, pois não há equivalente em outras línguas.  Gestalten significa “dar forma, dar uma estrutura significante”. A Gestalt Terapia é uma abordagem humanista, fenomenológica e existencial,  fundamentada e influenciada por várias outras correntes filosóficas.

A respeito da origem da Gestalt-Terapia têm-se algumas divergências na  literatura, pois, para alguns autores, o fundador é Fritz Perls (psicanalista judeu  de origem alemã); para outros, não se pode falar de apenas um fundador, mas  de alguns fundadores, que compreendia um médico, um educador, dois  psicanalistas, um filósofo, um escritor e um especialista em estudos orientais,  nomeado de “o grupo dos sete”, composto pelos Perls, Fritz e Laura, Paul  Goodmam, Isadore From, Paul Weiz, Elliot Shapiro e Sylvester Eastman  (KIYAN, 2006; JULIANO, 1992).

Podemos situar a concepção da Gestalt-Terapia em torno dos anos 40, na  África do Sul, mas seu nascimento e seu batismo oficial datam de 1951, em  Nova York, mas foi bem mais tarde, na Califórnia, que ela ficou célebre,  durante o amplo movimento da “contracultura” (GINGER & GINGER, 1995).

O objetivo da Gestalt-Terapia é:

Tornar os clientes conscientes (“aware”) do que estão fazendo, como  

estão fazendo, como podem transformar-se e, ao mesmo tempo,  

aprender a aceitar-se e valorizar-se. A Gestalt-Terapia focaliza mais o  

processo (o que está acontecendo) do que o conteúdo (o que está  

sendo discutido). A ênfase é no que está sendo feito, pensado e  

sentido no momento, em vez de no que era, poderia ser, conseguiria  

ser ou deveria ser (YONTEF, 1998, p. 16).

A seguir, serão apresentados alguns dos principais conceitos da Gestalt Terapia em consonância com os relatos dos voluntários.

O primeiro deles é o processo de saúde e doença, onde a primeira seria a  relação entre o organismo e o meio, uma interação positiva, adequada e  benéfica, a ponto de satisfazer as necessidades do indivíduo em todos os seus  aspectos, sejam eles físicos, psíquicos, espirituais, etc. É estar em estado de  equilíbrio, homeostase, autorregulação (KIYAN, 2001). Portanto, saúde é saber  hierarquizar as necessidades, é ser flexível, é ter criatividade e  espontaneidade, é ter consciência da forma como se entra em contato com  determinado objeto a partir do meio. A segunda não significa paralisia ou  incapacidade. Sintomas não precisam desaparecer para que o retorno ao estado saudável aconteça. O não saudável é a impossibilidade de atualizar a  maneira de satisfazer as necessidades, é a cristalização, a estagnação em um  determinado momento (FUKUMITSU, CAVALCANTE & BORGES, 2009).  

Para a Gestalt-terapia, a saúde é fluidez, é holismo, é transformação. Não é  apenas ausência de doença ou ter todas as situações acabadas, mas saber  lidar de forma criativa nas mais diversas situações. Pode-se perceber na fala  

de Juan Pablo a forma como ele encontrou de lidar com as dores da  enfermidade, que foi, portanto, acostumar-se com ela.

O tratamento dessa queimadura vem ocasionar umas dores, mas é  

para o nosso bem, como eles dizem... É para o nosso bem! E a  

verdade seja dita, a gente acaba é se acostumando com essas dores  

(JUAN PABLO).

Neste sentido, pôde ser compreendido que acostumar-se com tais dores  também foi uma forma criativa de ajustar-se, de aceitar a situação de  sofrimento e de aceitar a si mesmo. É esperado, portanto, que um paciente  com esse tipo de consciência venha a aderir de forma positiva o tratamento.

Segundo Perls (1988, p. 20): “... quando o organismo se mantém num estado  de desequilíbrio por muito tempo e é incapaz de satisfazer suas necessidades,  está doente. Quando falha o processo homeostático, o organismo morre”.  Logo, funcionamento não saudável vai ser o funcionamento caracterizado por  interrupções, repetições, cristalizações destes processos, fazendo com que  ocorram formação de figuras fracas, desajustadas, mal definidas e confusas,  que consequentemente vão dificultando os possíveis contatos criativos, no  aqui-agora.

O desequilíbrio emocional, entendido na Gestalt-terapia como uma forma de  adoecimento, pode ter acontecido em algum momento durante a internação. É  esperado principalmente nos primeiros dias, devido ao fato de que o paciente  ainda possa estar se adaptando ao ambiente novo. Contudo, no momento das  entrevistas, não foi percebido nenhum tipo de desequilíbrio nos voluntários.

Outro conceito importante para a abordagem é o processo pelo qual o  organismo satisfaz suas necessidades interagindo com o meio para obter o  equilíbrio, mesmo em situações adversas, denominado homeostase (PERLS,  1988).  

Assim, por ser uma função aplicável aos aspectos fisiológicos e biológicos,  Perls não acreditava que os mesmos se sobrepunham aos aspectos  psicológicos, pois ele tinha uma visão holística do ser humano, uma visão de  indivisibilidade (KIYAN, 2001).

Esse processo de homeostase, a partir dos relatos dos voluntários, pode estar  relacionado como uma forma de enfrentamento que eles estabelecem, na  medida em que a rotina, os medicamentos e a religiosidade contribuem para  aliviar as dores e possibilitá-los de satisfazerem algumas de suas necessidades, sendo esta uma busca constante. Apesar de a queimadura ter  interrompido suas possibilidades de autorregulação com o meio, de  satisfazerem suas necessidades, foi percebido que mesmo com as  dificuldades, os pacientes estão numa tentativa por reestabelecer seus  equilíbrios.

O conceito de figura e fundo foi herdado da Psicologia da Gestalt, onde são  formadas hierarquias a partir do surgimento das necessidades do organismo. É  de acordo com a percepção de cada um, cabendo ao indivíduo escolher suas  prioridades/necessidades (KIYAN, 2001).

Para Perls (1988, p. 25): “... a necessidade dominante do organismo, em  qualquer momento, se torna a figura do primeiro plano, e as outras  necessidades recuam, pelo menos temporariamente, para o segundo plano”.  Portanto, quando a necessidade é satisfeita, a “gestalt” é fechada e antes o  que era figura, torna-se fundo.

Considerando que uma figura é um processo que emerge de um fundo,  ocupando o centro da atenção do indivíduo, percebeu-se que para alguns  voluntários, certas figuras emergiram durante a entrevista, como forma de  desejos. Isso foi compreendido a partir da repetição ou enfatização das  palavras.

Luis Davi, por exemplo, repetiu, várias vezes, que deveria suportar a dor.  Yasmin demonstrou que seu maior desejo era voltar para casa. Para Matheus  Felipe, cuidar da perna era sua maior prioridade. Juan Miguel enfatizou  diversas vezes que o sistema de medicações deveria ser melhorado. E o que  Cecília mais desejava era voltar a andar, repetindo isso muitas vezes.

Outra definição utilizada pela Gestalt-terapia é a “Awareness”. Não há uma  tradução que conceba o seu verdadeiro significado, porém afirma Yontef (1998,  p. 215): “‘awareness’ é uma forma de experienciar; é o processo de estar em  contato vigilante com o evento mais importante do campo indivíduo/ambiente,  com total apoio sensório motor, emocional, cognitivo e energético”.

Kiyan (2001) reflete que “awareness” é um processo de contato a partir da  relação entre (campo + organismo + meio), enfatizada por ter uma qualidade acentuada de atenção e sentido. Portanto, é algo sensorial, processual, contínuo, construído. É percepção, é consciência e modificação de  comportamento, no aqui e agora.  

O processo de avaliação da “awareness” nos voluntários tornou-se complicado.  Considerando tal conceito que tem como base um apoio sensório motor,  emocional, cognitivo e energético, pôde ser percebido que nem todos os  pacientes estavam totalmente com uma boa qualidade acentuada de atenção e  sentido, apesar de estarem conscientes cognitivamente. Alguns deles  apresentaram incongruência e tenacidade em alguns momentos da entrevista,  tornando-se confusos ao responderem algumas perguntas.

O conceito de contato e fuga, segundo Perls (1988), são meios que o indivíduo  tem de lidar na fronteira de contato e compara esse processo com as forças de  atração e repulsão do magnetismo.

Contato é relação entre sujeito e meio e ocorre na fronteira de contato. Serve  para o indivíduo satisfazer suas necessidades, ou seja, fechar suas figuras,  suas “gestalten”. Fuga ou retração é justamente o não estabelecimento de  contato. Para Kiyan (2001 p. 161): “... fugir não implica necessariamente num  comportamento defensivo neurótico. O que determina a adequação e asserção  desse comportamento está relacionado com a ‘awareness’ envolvida na  situação”. Portanto, em algumas situações talvez a fuga seja benéfica apenas  durante aquele momento. O que pode determinar em um comportamento  neurótico é a repetição, a cristalização e a generalização do comportamento de  fuga nas mais outras diversas situações da vida do indivíduo.

O contato com a dor aconteceu com todos os pacientes. Tratando-se de  queimaduras graves, é quase impensável o não estabelecimento com a dor.  Portanto, foi percebido que cada um dos voluntários tem suas formas de  enfrentar tal contato, adotando comportamentos de fuga que durante o  momento de dor, são realizados para suportar esse período angustiante.

É o caso de Yasmin, quando a mesma relatou ter que colocar uma toalha no  rosto todas as vezes que vai para o banho, pois não deseja ver como está seu  corpo, além de ser também para ela uma forma de não pensar na dor.

Quando eu vou tomar banho eu sempre peço pra colocar uma toalha  

no meu rosto pra eu não ficar me olhando e pra eu ficar pensando em  

outras coisas, sem focar o pensamento na dor. (YASMIN).

Negar a existência desse fato proporciona um alívio para Yasmin. Por  enquanto, desconhecer a realidade de sua situação física, em termos de  extensão dos danos é preferível para a mesma, na medida em que estabelece  uma representação de si apenas imaginada.  

O funcionamento da fuga também pôde ser compreendido através da recusa  de três pacientes em colaborar voluntariamente com o estudo. Ou seja, supõe se que os mesmos preferiram a evitação do contato direto com as  pesquisadoras, para que a ansiedade não fosse provocada.

A capacidade que o indivíduo tem a partir de suas relações com o meio, de  realizar o fechamento de figuras, sendo naquele momento, a melhor decisão a  partir da sua demanda organísmica é denominada ajustamento criativo, outro  conceito de extrema importância na Gestalt-terapia. É criação, é reação. A  relação da Gestalt-Terapia com a criatividade se estende também à concepção  gestáltica de funcionamento saudável (KIYAN, 2006).

Evidentemente que os processos de ajustamento criativo nem sempre levam  aos processos de crescimento saudáveis. Portanto:

Às vezes as pressões e cargas negativas do meio são tão fortes que  

a pessoa desenvolve defesas que terminam por limitá-la em sua  

existência. Estas defesas, no entanto, devem ser vistas como a  

melhor resposta que a pessoa pôde criar no momento e situação  

específica em que se encontrava. A limitação em questão não reside  

no tipo de defesas criadas, mas no fato de que frequentemente o  

indivíduo automaticamente as perpetua, sem dar-se conta que delas  

não mais necessita, ou que conta hoje com outros recursos que os de  

então para proteger-se (ou, com a possibilidade de criá-los)  

(CIORNAI, 1995, p. 03).  

Dessa forma, pode-se perceber que nem sempre o processo de ajustamento  criativo, remete a algo saudável, mas seja como for, ele permite ao ser humano  se ajustar da melhor maneira possível para que se relacione com os demais. Entendendo o ajustamento criativo como uma capacidade que o indivíduo tem  a partir de suas relações com o meio, de realizar o fechamento de figuras,  sendo naquele momento, a melhor decisão a partir da sua demanda  organísmica, pôde ser percebido que este conceito se associa bem a uma  forma de enfrentar a enfermidade. Os pacientes criam e reagem às situações  conflituosas da melhor maneira que podem, para lidarem com tais situações  em determinados momentos, de acordo com as condições e suportes que  possuem.

Pedir outros medicamentos mais fortes para aliviar as dores, adaptar-se à  rotina, ter fé e esperança foram vistos como forma de ajustamentos criativos  realizados pelos pacientes. Assim como a reação de fuga que Yasmin  estabelece na hora do banho. Assim como Renan Nicolas entende que a dor  tem um significado positivo. Assim como Juan Miguel deseja ficar recuperado  para que possa dar seu testemunho para o mundo inteiro, se for preciso. Assim  como Cecília relata que já tem experiência na hora do banho e não fica mais  nervosa antes de ir.

6 Considerações Finais

A partir do material transcrito, temas com categorias foram realizados nos  resultados deste estudo, compreendendo o relato de cada paciente, onde a  partir das entrevistas, da observação participante e dos diários de campo, pôde  haver um aproveitamento positivo quanto à conclusão dos objetivos propostos.

Sobre o ato da queimadura, foi mostrado que as causas dos acidentes dos  pacientes entrevistados ocorreram tanto por agressores químicos como físicos.  Cada paciente tem sua história de sofrimento, desde o acontecimento do  acidente até o momento atual internado. É necessário, portanto, entender o  paciente queimado enquanto pessoa, com suas características peculiares  consequentes ao trauma sofrido.

Em relação ao tratamento e a dor, foi visto que ao sofrer uma queimadura, o  paciente passará por três fases de recuperação, englobando não só os  aspectos físicos como também os psicológicos e, através dos resultados, pôde-se concluir que a maioria dos pacientes entrevistados situava-se na segunda  fase, ou seja, na fase aguda de reabilitação.

A respeito das manifestações da dor, de acordo com a maioria dos pacientes, a hora do banho aparece como um dos momentos onde a dor mais emerge. Os momentos depois do banho também são dolorosos. Quando perguntados sobre o significado da dor, a maioria falou de forma negativa.

No tocante as dificuldades do tratamento, foi observado que os banhos, os  cuidados com as lesões, a necessidade de locomoção, a demora do tratamento  por ser lento, além da realização de enxertos, foram alguns dos pontos mais  destacados durante as respostas. A saudade dos familiares foi referida como  dificuldade. A dependência/passividade foi também enfatizada durante a  entrevista.

O atendimento na unidade foi considerado muito eficiente, existindo o cuidado e a paciência por parte da equipe clínica. A alimentação e as medicações são realizadas em seus devidos horários. A medicação constituiu-se como uma das melhores formas de proporcionar o alívio das dores.

Com referência a atuação do psicólogo, foi percebido que a psicologia realiza apenas um contato inicial com alguns pacientes e, consequentemente, estes não usufruem de um acompanhamento psicológico a longo prazo. Sobre a importância de um acompanhamento psicológico, foi unânime a concordância de todos que sim.

Os principais conceitos da Gestalt-Terapia puderam ser aplicados diante da vivência e percepção dos pacientes queimados em relação ao enfrentamento desta enfermidade, estando, portanto, numa busca constante em reestruturar seus equilíbrios, ajustando-se da maneira que acreditam ser melhor.

A partir das entrevistas e da realização do diário de campo, foram observados  indícios de existências de dores emocionais e psíquicas, as quais foram,  muitas vezes, difíceis de explicar em palavras, mas que foram manifestadas  pelo olhar, pela forma de falar e principalmente pelo choro. Desta maneira,  observa-se neste estudo a forma como cada um dos participantes experiencia  as dores da queimadura, sendo uma vivência puramente subjetiva, porém  simbolizada como: perda da vontade de viver, acúmulo de marcas físicas e  psíquicas, dor da alma, dentre outras.

Este estudo também permitiu verificar a importância de intervenções da  psicologia, como o acompanhamento psicológico durante toda internação. O psicólogo inserido neste espaço tentará compreender o paciente queimado  adoecido, uma vez que a queimadura/doença não existe por si só, estando  situada em um sujeito que lhe dá forma e configuração própria. O sentido da  enfermidade e a descrição das vivências subjetivas do sofrimento emocional de  cada paciente são fundamentais no tratamento.

A quantidade de pesquisa ainda é escassa no campo da Psicologia da Saúde e  Hospitalar frente ao trabalho do psicólogo no atendimento ao paciente  queimado nas unidades de tratamento de queimados do Brasil, merecendo  novos desdobramentos e aprofundamentos em seus diversos níveis de  intervenção.

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NOTAS

Andreza Dantas Nogueira – Graduada pela Faculdade Maurício de Nassau – SE.

Jeniffer Lene Barbosa Bras de Almeida – Pós-graduanda em gestalt-terapia  pela Faculdade Ari de Sá em parceria com o IGC

Deyseane Maria Araújo Lima - Psicóloga Clínica. Doutora em Educação.  Mestre em Psicologia. Especialista em Psicologia Clínica (CFP).  Especialista em Educação à Distância. Especialista em Educação  Inclusiva. Formação em Gestalt-terapia. Formação em Gestalt-terapia com  crianças e adolescentes. Formação em Gestalt-terapia com casais e  famílias. Diretora da Vincular: Centro de Estudos, Pesquisa e  Psicoterapia. Professora da Graduação e Pós-graduação em Psicologia.

Endereço de correspondência:

Andreza Dantas Nogueira

E-mail: andreza16nogueira@gmail.com

Jeniffer Lene Barbosa Bras de Almeida E-mail: jenifferbraz86301149@gmail.com

Deyseane Maria Araújo Lima  

E-mail: deyseanelima@yahoo.com.br

Recebido em: 07/07/2018

Aprovado em: 25/09/2019

Revista IGT na Rede, v. 15, nº 29, 2018, p.242-264 DOI 10.5281/zenodo.15058549

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526