ARTIGO

Bullying: uma perspectiva de intervenção com o agressor sob  enfoque da Gestalt-Terapia 

Bullying: a perspective of intervention with the aggressor under the  Gestalt Therapy approach

Ana Cristina Vitor Cardonha

Deyseane Maria Araújo Lima

RESUMO

Este trabalho tem por objetivo refletir sobre o “bullying” com o enfoque  psicológico, buscando compreender o agressor e relacionando à Gestalt terapia, com propósito de adquirir mais informações e conhecimento e ao  mesmo tempo subsidiar material que proporcione uma mudança na realidade  escolar e social. Nesta pesquisa, utilizamos escopo de cunho qualitativo, que  utiliza como método a revisão integrativa. As informações bibliográficas foram  coletadas a partir das redes de dados eletrônicas. O “bullying” é muito discutido  atualmente, haja vista sempre buscar intervenções eficazes para a  problemática. Para tanto, os profissionais devem estar preparados para lidar  com essa forma de violência. Contudo, as produções sobre o agressor são  escassas, e as intervenções visam todos os envolvidos. É de extrema  relevância proporcionar mais reflexões e desenvolver pesquisas sobre o  “bullying” e principalmente sobre o agressor.

Palavras-chave: “Bullying”; Agressor; Gestalt-terapia; Intervenção. ABSTRACT

The purpose of this paper is to discuss bullying from a psychological  perspective, therefore seeking to understand the aggressor from a Gestalt  Therapy approach on the purpose of gathering information and knowledge  likewise offer material that may provide a significative change in school and  social environments. The present study used a qualitative approach which uses  an integrative review method. The bibliographical information was gathered  from electronic database networks. As a matter of fact, bullying has been widely  discussed currently due to the need of developing more effective interventions.  Therefore, qualified professionals must be prepared to deal with this kind of  violence. However, researches on the aggressor perspective are minimal, and  the interventions cover all the individuals involved. Further research  development in bullying is essentially relevant, and, most importantly, on the  aggressor perspective.

Keywords: Bullying; Bully; Gestalt Therapy; Intervention.

  INTRODUÇÃO

Este artigo propõe uma reflexão sobre o agressor que realiza o “bullying”, o seu  acolhimento e as possíveis intervenções na perspectiva da Gestalt-terapia.  Nesse sentido, primeiramente, é importante pontuar que o “bullying” é um tema  bastante debatido por sua incidência e, por isso, é de extrema necessidade  fazer reflexões em busca de alternativas para amenizar essa prática e  encontrar estratégias de atendimento, visando diminuir o sofrimento e as  possíveis consequências que essa violência pode trazer.  

De acordo com Lopes Neto (2005), “bullying compreende todas as atitudes  agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente,  adotadas por um ou mais estudante contra outro(s), causando dor e angústia,  sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder” (p. 165).  

Em relação ao tema, percebe-se a necessidade de estudos nessa área com  enfoque psicológico no agressor, isso se justifica por observarmos um alto  índice de violência, que na maioria das vezes ocorre entre crianças e  adolescentes que estão em processo de desenvolvimento e necessitam de  auxílio na resolução de problemas.  

Dessa forma, é importante conhecer o contexto desse agressor, pois na  maioria das vezes já são rotulados como indivíduos ruins, e buscar  intervenções que promovam a conscientização, já que alguns adultos ainda  consideram esse tipo de comportamento uma brincadeira e acreditam que a  punição é a melhor forma de lidar com o agressor. Diante disso, percebe-se o  psicólogo como um profissional que tem um olhar diferenciado, e isso pode ser  de grande ajuda no enfrentamento ao “bullying”.  

O bullying traz prejuízos para os agressores, os pais, a escola e as vítimas.

O sujeito que vive de forma que priorize a violência, não traz  

sofrimento só para quem ele agride, mas também para ele próprio, já  

que há um desgaste emocional durante uma briga e algumas vezes o  

sentimento de culpa [...] Em longo prazo esse estilo de vida traz  

muitas dificuldades relacionais e o comportamento antissocial pode  

se intensificar podendo até mesmo gerar problemas com a lei

(CREMER, 2010, p. 142).

Em uma pesquisa realizada em 2016, pelo representante do secretário-geral da  ONU para o combate à violência contra a criança e pelo Fundo das Nações  Unidas para a Infância (UNICEF), com 100 mil crianças e jovens de 18 países,  constatou-se que, em média, metade deles sofreu algum tipo de “bullying” por  razões como aparência física, gênero, orientação sexual, etnia ou país de  origem. Essa pesquisa constatou que no Brasil a porcentagem é de 43% (BRASIL, 2017).  

É possível observar que alguns agressores de “bullying” não apresentam  remorso ou culpa e que algumas vítimas tornam-se agressores também. Para  Zoboli (2014), o agressor pode ser do sexo feminino ou masculino, e tem poder de liderança com atitudes violentas e perversas. Em relação a ser uma vítima  agressora, ela reproduz, repete os maus tratos sofridos. Nessa perspectiva,  questionamo-nos como se tornam agressores e quais são as responsabilidades  da família e da sociedade na construção desse agressor. Esses  questionamentos não são uma busca para justificar o comportamento agressor,  mas uma tentativa de entender o contexto em que essa prática acontece.  

É necessário pensar e debater sobre essa temática e, para tanto, a  psicoterapia é fundamental para esse indivíduo, uma vez que se percebe a  necessidade de desenvolver estratégias, já que cada um tem sua subjetividade  e singularidade para perceber e internalizar os acontecimentos e suas atitudes  de maneira diferenciada.  

Sob essa ótica, é possível trabalhar com intervenções que incluam os aspectos  da vida desse sujeito, levando em consideração o contexto em que ele está  inserido, como a família, a escola e a sociedade contribuem para que esse tipo  de violência se propague, além de como a psicoterapia em Gestalt-terapia  pode favorecer e ampliar o desenvolvimento desse sujeito.  

Visando a importância de enfrentar a prática do “bullying”, esse artigo busca  propiciar reflexões e um novo olhar sobre o causador desse tipo de violência,  pois esse fenômeno afeta muitas crianças e adolescentes e causa inúmeros  prejuízos para todos os envolvidos.  

A escolha desse tema é algo que sempre quisemos estudar, o “bullying” com o  enfoque psicológico, buscando compreender o agressor e relacionando a  Gestalt-terapia com o propósito de adquirir mais informações e conhecimento,  e ao mesmo tempo subsidiar material que proporcione uma mudança na  realidade escolar e social.  

Existem muitos estudos sobre o “bullying”, contudo, poucos trazem como foco  o agressor. É relevante conhecer o fenômeno e o contexto do agressor, a fim  de produzir uma intervenção que viabilize o processo de conscientização e  responsabilização desse sujeito. Portanto, faz-se necessário um estudo que  busque não rotular o agressor e proporcionar uma reflexão sobre ele como ser  humano, envolvido em uma sociedade em que a violência é constante, com o  intuito de minimizar possíveis atos e contravenções que esse sujeito possa vir  a apresentar no futuro, e visando expandir o olhar dos profissionais que lidam  com esse tipo de comportamento.  

O agressor, na maioria das vezes, é visto como problemático, que tem uma  família desestruturada e que merece punição por seu comportamento. Para  Cremer (2010), “[...] com foco na agressão e muitas vezes só punindo o  agressor não ampliamos o olhar e não desfazemos assim, o ciclo estabelecido”  (p. 114).

Diante do exposto, o objetivo geral da presente pesquisa é refletir sobre o  acolhimento ao agressor de “bullying” e as possíveis intervenções que podem  ser desenvolvidas na perspectiva da Gestalt-terapia, trazendo como objetivos específicos compreender o “bullying” no contexto social e histórico, discutir  sobre o comportamento do agressor de “bullying”, identificar possibilidades e  alternativas de intervenção com o agressor na abordagem Gestalt-terapia.

METODOLOGIA

Com o propósito de subsidiar material de pesquisa que possibilite reflexão  sobre a temática proposta, será utilizada a pesquisa qualitativa, a qual,  conforme Gil (2002), realiza-se através de um conjunto inicial de categorias em  geral, que é reexaminado e modificado sucessivamente, com vista em obter  ideias mais abrangentes e significativas.  

Como método, utilizou-se a Revisão Integrativa, que “[...] é um método que  proporciona a síntese de conhecimento e a incorporação da aplicabilidade de  resultados de estudos significativos na prática” (SOUZA et al., 2010, p. 102).  Ainda segundo as autoras, a revisão integrativa é uma abordagem  metodológica vasta referente às revisões que inclui estudos experimentais e  não experimentais; apresenta dados da literatura teórica e empírica; engloba  definição de conceitos, revisão de teorias e evidências; e, além disso,  possibilita a análise de problemas metodológicos.  

Para a elaboração desse tipo de revisão, Souza et al. (2008) sugerem um  processo dividido em cinco fases, a saber: 1) a elaboração da pergunta  norteadora, que é definir os participantes, as intervenções e os resultados a  serem mensurados; 2) a busca na literatura, a qual deve ser realizada em  bases eletrônicas, periódicos, referências descritas e publicadas; 3) a coleta de  dados, que é a extração de dados com a utilização de um instrumento que  minimize o risco de erros; 4) a análise crítica dos estudos incluídos, a qual  demanda uma abordagem organizada para ponderar o rigor e as  características de cada estudo; 5) a discussão dos resultados, etapa em que se  comparam os dados evidenciados na análise dos artigos ao referencial teórico.  A apresentação da Revisão Integrativa deve conter informações pertinentes e  detalhadas, baseadas em metodologias contextualizadas, sem omitir qualquer  evidência relacionada.  

No início do artigo, utilizou-se fontes secundárias e coleta de informações  bibliográficas pautadas no objeto de estudo, posto que houve orientação para  busca de artigos disponíveis nas redes de dados eletrônicas, tais como Google  Acadêmico, SciELO (Scientific Electronic Library Online), PePSIC (Periódicos  Eletrônicos de Psicologia), nos quais foram selecionados cinquenta e seis  artigos a partir das palavras-chave, como: “bullying”, “bullying e agressão”,  “bullying e Gestalt-terapia”, “bullying e intervenções”.  

No processo de exclusão, foram descartados os artigos com datas anteriores  ao ano de 2005, com o objetivo de utilizar artigos mais atuais. Foram excluídos  os que se apresentavam em língua estrangeira.

Para critérios de inclusão, foram utilizados a seleção de periódicos entre os  anos de 2005 e 2016, pois estes abrangem o início das pesquisas no Brasil e  também englobam as pesquisas atuais, que retratam a temática referente a  bullying, agressor e Gestalt-terapia.  

Foram selecionados, inicialmente, cinquenta e seis artigos acadêmicos que  apontam aspectos reflexivos e descritivos dos assuntos acima citados, foram  lidos os resumos e a partir dos critérios, foram mantidos dez, os quais são de  grande relevância para o desenvolvimento do artigo. Foi realizada uma leitura  seletiva com objetivo de verificar se os artigos continham informações úteis  para o trabalho, como também foi realizada anotações, ou seja, resumos  apontando suas partes principais.  

 Quadro 1 – Artigos selecionados para composição do presente estudo

AUTOR

TÍTULO

REVISTA

ANO

Analicia Martins de  Sousa

“Bullying” e projeto de leis no  Brasil: uma racionalidade  vitimizante e punitivas sobre  as relações humanas.

Revista  

EPOS

2015

Aramis Antônio Lopes  Neto

“Bullying” – comportamento  agressivo entre estudantes.

J Pediatria

 

2005

Eduardo Cremer

“Bullying”: a violência na  

escola contemporânea sob o  enfoque da abordagem  

gestáltica.

IGT na  

Rede

2015

Jorge Luiz da Silva,  Wanderlei Abadio de  Oliveira, Elvio Luciano  Bono, Marina Azôr Dib Marina Rezende  

Bazon e Marta  

Angélica Iossi Silva

Associações entre “bullying” escolar e conduta infracional:  revisão sistemática de estudos  longitudinais.

Psicologia:  Teoria e  

Pesquisa

2016

Kris Kristoferson  

Pereira

Consequências e implicações  do “bullying” nos envolvidos e  no ambiente escolar.

Revista  

Eletrônica  

de Ciências  Jurídicas

2014

Lélio Moura Lourenço;  Luciana Xavier Senra.

A violência familiar como fator  de risco para o “bullying”

escolar: contexto e  

possibilidades de intervenção.

Aletheia

2012

Leni de O. F.  

Zentarski; 

Mirian Gabriella  

Gomes da Silva.

“Bullying” e desrespeito: como  acabar com essa cultura na  escola.

Rev.  

Saberes

2016

Naiane Carvalho W.  Schultz, Denise  

Franco Duque,  

Carolina Fermino da  Silva, Carolina Duarte  de Souza, Luciana  Cristina Assini, 

Maria da G. de M.  

Carneiro.

A compreensão sistêmica do  “bullying”.

Psicol.  

Estud.

2012.

Norma Vicença  

Martins, Alan Almario.

“Bullying”: uma perspectiva  sobre o agressor.

Revista da  Universidad e Ibirapuera

2012

Guilherme Welter  

Wendt e Carolina  

Saraiva de Macedo  Lisboa

Agressão entre pares no  espaço virtual: definições,  impactos e desafios do  

“cyberbullying”

Psicologia  

Clínica

2013

Fonte: Elaborado pela autora.

Os periódicos selecionados para construção deste trabalho, em sua maioria,  discorrem sobre o agressor, mas trazem como foco a vítima, enquanto uma  minoria tem por foco o agressor. As intervenções sugeridas também são  propostas embasadas no sofrimento da vítima, alguns propõem que a punição  do agressor não resolve a questão e outros trazem a preocupação com as  consequências futuras desse tipo de violência.

1 – “BULLYING” NO CONTEXTO HISTÓRICO E SOCIAL

O “bullying” tem acometido crianças e adolescentes de forma prejudicial ao seu  desenvolvimento, trazendo muito sofrimento e atos extremos como o suicídio.  É um fenômeno que repercute muito na mídia, que vem sendo discutido há  algum tempo e várias pesquisas têm buscado formas de reduzir os danos que  essa violência causa, uma das grandes dificuldades apresentadas é o fato de  ser confundido com brincadeiras e por esse motivo continua se propagando.  

Segundo Cremer (2010), os dois primeiros países a se preocuparem com tal  comportamento foram a Noruega e a Suécia, que definiram o fenômeno pela  palavra inglesa “bullying”, designando um conjunto de agressões que se  caracterizam por uma diferença de poder entre os participantes, na qual o  poder citado acima representa força, controle.  

Um dos grandes pesquisadores nessa área é Dan Olweus, considerado  especialista mundial na área e reconhecido por ser pioneiro e fundador da  pesquisa sobre problemas de “bullying”.

Como relata Lopes Neto:

O Programa de Prevenção do Bullying criado por Dan Olweus é  

considerado como o mais bem documentado e mais efetivo na  

redução do bullying, na diminuição significativa de comportamentos  

antissociais e em melhorias importantes no clima social entre crianças  

e adolescentes, com a adoção de relacionamentos sociais positivos e  

maior participação nas atividades escolares (NETO, 2005).

De acordo com Cremer (2010), no Brasil, os primeiros estudos com o nome de  “bullying” surgiram na década de 1990, a primeira pesquisa realizada – que foi  referenciada em diversos trabalhos – foi a da ABRAPIA (Associação Brasileira  Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência), concluída em 2003  e a partir dela foi produzido o livro “Diga não para o ‘bullying’: programa  

redução do comportamento agressivo entre estudantes”, escrito por Lopes  Neto e Saavedra.  

Para definir o “bullying”, Lopes Neto (2005) relata que este compreende as  atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação  evidente, adotadas por um ou mais estudante contra outro(s), que causam dor  e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder e diz  respeito a uma forma de afirmação de poder interpessoal através da agressão.  

É importante destacar que existem as brincadeiras entre adolescentes e que  algumas são consideradas desagradáveis. Zentarski e da Silva (2016) explicam  que faz parte da ação de socialização fazer brincadeiras pontuais engraçadas,  imprudentes ou irritantes, comentários ou apresentar opiniões diferentes,  discussões ou brigas, dentre outras possibilidades próprias das relações  interpessoais e os conflitos ou ofensas pontuais, que implicam em mágoa ou  raiva passageira. Por esse motivo existe uma dificuldade em diferenciar essa  violência de uma brincadeira, alguns autores consideram que esse fenômeno  acontece há muito tempo, mas não possuía essa definição.  

Para se configurar o “bullying” é indispensável a presença da vítima, agressor e  testemunhas. A vítima é quem sofre a violência, para Martins e Almario (2012)  “[...] as vítimas (alvos) são alunos que estão expostos de forma repetida, e  durante algum tempo, às ações negativas praticadas por um ou mais alunos no  ambiente escolar”(p. 18), já Zaboli (2014) classifica as vítimas em três tipos: a  típica, que é aquela pouco sociável, frágil, submissa, insegura, com baixa  autoestima e que tem dificuldades para se impor tanto no modo físico, como  verbal; a provocadora, é aquela que atrai e provoca reações agressivas com as  quais não consegue lidar, geralmente tem atitudes irritantes e quase sempre  provoca tensões no ambiente em que frequenta; e vítima agressora, é aquela  que reproduz, repete os maus tratos sofridos, busca outra vítima mais frágil e  repete com ela todas as agressões sofridas, na escola ou em casa.  

As testemunhas (espectadores) muitas vezes só observam e não participam da  ação em si, algumas por medo e outras por simpatizarem com o agressor,  como relata Martins e Almario (2012), os espectadores (testemunhas) podem  ser ativos ou passivos e são aqueles que não participam diretamente da agressão, mas que passivamente contribuem para a formação do bullying,  complementando essa ideia, Zaboli (2014) cita que espectadores “[...] são  aqueles alunos que assistem e assumem a postura do silêncio” (p. 13).  

O agressor é o principal participante do fenômeno, é o responsável pelas  agressões, é visto como alguém que pratica a violência como algo natural em  busca de poder e reconhecimento. De acordo com a literatura, esse agressor  sente-se bem estando na posição de superioridade e não teme as  consequências de seus atos, normalmente não se responsabiliza por suas  atitudes e acredita que não está fazendo nada demais, apenas brincadeiras.  

Nessa perspectiva, Zentarski e da Silva (2016) explicitam que o agressor pode  usar formas silenciosas como gestos, expressões fisionômicas, bilhetes com  mensagens humilhantes, além de ataques virtuais, frequentemente estão  envolvidos em confusões e desentendimentos, subjuga, constrange, domina,  humilha, persegue os mais tímidos e vulneráveis e apresentam aspectos  particulares em seu comportamento que se distinguem dos outros, a exemplo  disso, irritabilidade e impulsividade.  

Pereira (2014) narra que os agressores podem ser de ambos os sexos, tem em  sua personalidade traços de maldade e desrespeito, muitas vezes essas  características estão associadas a um poder de liderança obtido através da  força física ou do assédio psicológico. Schuchardt (2012, p. 39) complementa  que o agressor “[...] força o grupo a ignorar o colega, fazendo de conta que o  mesmo não existe, desqualificando sua competência intelectual ou rejeitando  um pedido seu, dentre outros”.  

Muitos agressores são de famílias que vivenciam dificuldades e fazem parte de  um ambiente de violência, a partir dessa concepção, Lourenço e Senra (2012,  p. 45) apresentam que:

“As relações de desigualdade de poder na família revelam um lar com  

cotidiano hostil e permissivo em que há uso de violência como forma  

de disciplina, sem quaisquer habilidades para resolução de conflitos,  

o que leva as crianças e adolescentes reproduzirem tais condutas  

com colegas e professores”.

É importante destacar que fatores emocionais também podem influenciar  nesses comportamentos, Silva (2015, p. 9) alega que “[...] existem ainda  aqueles que vivenciam dificuldades momentâneas, como a separação  traumática dos pais, ausência de recursos financeiros, doenças na família etc.  A violência praticada por esses jovens é um fato novo em seu modo de agir e,  portanto, circunstancial”.  

Alguns autores apresentam preocupações pertinentes sobre o futuro desses  agressores, como da Silva et al. (2016) mencionam que, envolver-se em  situações de “bullying” como agressor prevê a participação em delitos graves,  apresentam maior probabilidade de cometer infrações se comparado às vítimas  e testemunhas. Ainda nessa perspectiva, Pereira (2014, p. 6) ressalta que,

“A consequência nos agressores se dá pelo o distanciamento e a falta  

de interesse ao conteúdo ensinado, projetando na violência uma  

forma de popularidade e demonstração de poder, em alguns casos  

essa violência habilita o agressor para futuras condutas violentas na  

vida adulta”.

É possível perceber que com o avanço da tecnologia e a facilidade de acesso  às mídias sociais, tem surgido uma nova configuração dessa violência, para  Wendt e Lisboa (2013) a inclusão da tecnologia nas casas e na escola causam  preocupações a respeito de assuntos como privacidade, segurança de  informações, com a exposição de conteúdos indesejados, pornografia,  publicidade ofensiva, manifestações de ódio, racistas e homofóbicas.  

O “bullying” virtual é uma violência realizada através das mídias sociais,  nomeada de “cyberbullying”, e a partir dessa realidade consequentemente  surge um novo tipo de agressor.  

De acordo com Silva (2010, p. 7), no “cyberbullying”,

“Os ataques ocorrem por meio de ferramentas tecnológicas como  

celulares, filmadoras, máquinas fotográficas, internet e seus recursos  

(e-mails, sites de relacionamentos, vídeos). Além de a propagação  

das difamações serem praticamente instantânea o efeito multiplicador  

do sofrimento das vítimas é imensurável. O ‘cyberbullying’ extrapola,  

em muito, os muros das escolas e expõe a vítima ao escárnio  

público”.  

O agressor nesses casos por vezes fica oculto, utiliza-se de contas falsas para  disseminar os ataques. Desta forma, “[...] os praticantes desse modo de  perversidade também se valem do anonimato e, sem nenhum constrangimento,  atingem a vítima da forma mais vil possível” (SILVA, 2010, p. 8). Wendt e  Lisboa (2013) relatam que “[...] a internet permite ao agressor recorrer à vítima  de inúmeras formas e a qualquer momento, alterando as delimitações  contextuais do bullying na escola” (p. 78).  

Há grandes consequências dessa violência na vida dos envolvidos, o agressor  passa por um processo de rotulações e punições, algumas vezes não se leva  em consideração o contexto em que o mesmo está envolvido, e não é  desenvolvido um trabalho psicológico com esse agressor. É importante refletir  sobre como as intervenções podem ser realizadas de maneira eficaz e como a  psicoterapia pode contribuir nesse processo de conscientização e  responsabilização.

2 - GESTALT-TERAPIA E POSSÍVEIS INTERVENÇÕES PARA ENFRENTAR  O “BULLYING”

A Gestalt-terapia teve seu início no ano de 1951, em Nova York, pelo chamado  Grupo dos Sete. Sua construção resulta das experiências e vivências de Perls  e dos debates realizados pelo grupo. Segundo Frazão (2013), “[...] o grupo dos  sete composto por Isadore From, Paul Goodman, Paul Weisz, Sylvester Eastman, Elliot Shapiro, Laura Perls e Fritz Perls, tendo Richard Kitzler  posteriormente se integrado ao grupo” (p. 11).

Segundo Ginger e Ginger (1995), a Gestalt-terapia tem em sua constituição  influências do Psicodrama, da Psicanálise, do Zen Budismo e de Reich,  baseou-se nas teorias da Psicologia da Gestalt, Teoria do Campo, Teoria  Organísmica e na Teoria Holística, e suas bases filosóficas advém do  Humanismo, da Fenomenologia, do Existencialismo e da Teoria dialógica.  

Para Frazão (2013) “[...] a Gestalt-terapia surge em meio a psicologia  humanista, que traz para psicologia uma nova visão de homem, significativa  diferente das disseminadas pela psicanálise e pelo behaviorismo – abordagens, na época, bastante deterministas” (p. 12).  

A Gestalt-terapia fornece um conceito de pessoa em sua totalidade, um ser não  dicotômico, que tem a possibilidade de ressignificar e mudar, Perls (1988)  afirma que o conceito holístico em psicoterapia possibilita lidar com o ser  humano como um todo, onde pode-se observar como as ações físicas e  mentais estão entrelaçadas.  

É uma abordagem que a partir de seus conceitos de base percebe o indivíduo  como um ser em construção, foca na “awareness”: “[...] tomada de consciência  da experiência atual” (GINGER; GINGER, 1995 p. 17), que acontece aqui agora. Segundo Costa (2014) “[...] o agora inclui o equilíbrio de estar aqui, é o  experienciar, o envolvimento, o fenômeno, a consciência” (p. 136).  

Essa abordagem enfatiza que o ser humano encontra-se na relação com o meio, buscando satisfazer suas necessidades (equilíbrio, funcionamento,  harmonia), que de acordo com Lima (2014), “[...] pela autorregulação podemos  sobreviver a essa demanda de sermos, para além de organismos, criadores e  criaturas que ao nos modificarmos, modificamos a nossa realidade” (p. 102).  

Essas modificações acontecem na interação organismo/meio, nessa  perspectiva Frazão e Fukumitsu (2014) explicam que “[...] é por meio do  contato que ocorrem as trocas entre indivíduo e ambiente, promovendo os  processos de crescimento e desenvolvimento humano” (p. 9). Perls (1988)  esclarece que “[...] o estudo do modo como o ser humano funciona no seu meio  é o estudo do que ocorre na fronteira do contato entre o indivíduo e o meio. É  neste limite de contato que ocorrem eventos psicológicos” (p. 31).  

Segundo Frazão e Fukumitsu (2014) “[...] é por meio do contato que uma figura  pode emergir do fundo, e o contato sintetiza a necessidade de união e  separação” (p. 9).  

De uma forma mais geral, Ginger e Ginger (1995) esclarecem que a Gestalt  não quer só explicar as dificuldades, quer experimentar soluções novas, sentir  como, mobilizar a mudança, não procurar um por quê.

Pensando na possibilidade de um atendimento individual para o agressor do  “bullying”, a psicoterapia deve ter como objetivo facilitar a ampliação da  “awareness”, e consequentemente integração desse indivíduo com o meio.  

Há casos em que os agressores são encaminhados para psicoterapia, e isso já  pode criar uma resistência em relação ao processo terapêutico, nessa  perspectiva, é de extrema relevância ter uma postura dialógica, como  Vavassori (2010) explica: “[...] a abordagem dialógica é o acolhimento da  alteridade, da singularidade do indivíduo dentro do contexto relacional.  Reconhecer e perceber a existência do outro, aceitá-lo e confirmá-lo em sua  existência, permite que o encontro aconteça de fato” (p. 6).  

Para corroborar com o manejo é possível utilizar técnicas e experimentos que  possibilitem o processo contínuo de conscientização das sensações,  sentimentos e emoções, a fim de que o agressor passe a ter consciência do  seu comportamento agressivo, das consequências de suas atitudes e a partir  disso possa a mudar.  

Kyian (2001) salienta que a utilização das técnicas deve sempre visar o  favorecimento da tomada de consciência e do contato do cliente com ele  mesmo, possibilitando a integração, a conscientização do momento presente,  através da espontaneidade e criatividade que isso pode trazer, o que propicia a  “awareness”. Ginger e Ginger (1995) fomentam que “[...] as técnicas só tem  sentido em seu contexto global, isto é, integradas em um método coerente e  praticados de acordo com uma filosofia geral” (p. 20).  

Essas técnicas podem ser utilizadas tanto no atendimento individual, realizado  no ambiente clínico, como também no atendimento em grupo que pode ser  realizado ambiente escolar ou clínico, sempre focando o processo de  conscientização.  

No atendimento individual, em nenhum momento o indivíduo deve ser  enquadrado em rotulações, deve ser visto para além do encaminhamento, o  psicoterapeuta deve estar livre dos conceitos pré-concebidos, como sugere  Zentarski e da Silva (2016), o terapeuta deve identificar e avaliar se não  percebe o agressor de forma negativa, por saber que ele causa sofrimento em  outros indivíduos (vítima), caso isso aconteça sem que o terapeuta perceba,  pode prejudicar o processo.  

As técnicas aplicadas em grupos, devem ser voltadas para os alunos, com o  intuito de que haja integração, momentos de vivências e trocas entre os  participantes, para os pais, a fim de conscientizá-los para que possam  reconhecer comportamentos e atitudes que esse tipo de violência produz,  incentivando-os a participarem da vida escolar dos filhos e para os  profissionais, com o propósito de que os mesmos consigam diferenciar o que é  brincadeira e o que é bullying, as mesmas podem ser inseridas nas dinâmicas  e aplicadas de acordo com o grupo onde o bullying será trabalhado .

Na interação pode ser usado um exercício de “Awareness” que costuma ser  usado como aquecimento; visando sentir o próprio corpo, reconhecer os  próprios sentimentos; “Dramatização” para mobilizar o corpo, a emoção,  vivenciando a situação (utilizando situações que ocorrem no “bullying”);  Polaridades, vivenciar sentimentos em profundidade (vivenciar os sentimentos  das vítimas, agressor e testemunha).  

No atendimento individual (clínica) com o agressor pode ser utilizado técnicas  que possuam caráter vivenciais, para que o mesmo possa expressar e expor  os sentimentos que se apresentam durante sua prática agressiva contra a  vítima, como possibilidades podemos utilizar: “Cadeira Vazia”, o terapeuta  utiliza uma cadeira para ser usada para representação personagens de  situações inacabadas, aspectos projetados ou outra possibilidade de  dissociação e conflito ; “Monodrama”, o protagonista desenvolve vários papéis  (de agressor, de vítima e de testemunha) da situação evocada por ele;  “Amplificação”, tornar explícito o que está implícito (os sentimentos existentes  durante as agressões); “Exageração”, o terapeuta diz o que deve ser  exagerado (de acordo com o que for exposto pelo indivíduo em relação ao  “bullying”) e essa eleição é determinante para o resultado do processo;  “Trabalho com sonhos”, é feito através da descrição, dramatização dos  diversos elementos dos sonhos, entre outras, pois vai emergir a partir do  cliente.  

E nesse contexto pode ser feito um processo de orientação aos pais buscando  conscientizá-los do envolvimento do filho nessa violência e sobre o papel  desempenhado pelo mesmo, incentivando sempre o diálogo e esses devem ser  ativos e estarem dispostos a mudanças.  

Por essa gama de possibilidades a Gestalt-terapia nos permite trabalhar o  sujeito individualmente ou em grupo, buscando facilitar o desenvolvimento da  empatia, de modo que o sujeito possa interagir respeitando a singularidade do  outro.  

Ainda no atendimento individual, Zentarski e da Silva (2016) em relação a  vítima, sugerem que a intervenção psicoterapêutica dê ênfase à constituição de  um vínculo sólido, fazer uso de trechos de filmes que ilustram situações que  remetam às vivenciadas pelo paciente. Em relação ao agressor, os autores  propõem fazer uma investigação das emoções, contextualizar em quais  momentos elas são evocadas, para possibilitar o desenvolvimento da empatia,  exibir relatos de casos, entrevistas, documentários e vídeos de casos reais  para que o mesmo se conscientize e perceba os danos gerados a partir das  agressões que comete.  

Schult et al. (2012) explicam que por ser um fenômeno complexo, é preciso  considerar que a intervenção em um fator reflete em todos os outros, tanto na  ocorrência como na sua prevenção.

Intervenção, de acordo com o Dicio (Dicionário Online de Português, 2017), é o  ato de exercer influência em determinada situação na tentativa de alterar o seu  resultado; interferência.  

Nessa perspectiva, Lourenço e Senra explicitam que,  

Quaisquer abordagens profissionais, preventivas ou de intervenção,  

devem ser efetivadas e consideradas sempre de modo  

interdisciplinar, acrescentando aí também a importância da  

intersetorialidade, para que o trabalho se configure como uma rede  

de proteção, assistência, estratégias educacionais e pedagógicas  

articuladas e metodologicamente definidas com objetivo promover  

bem estar e qualidade de vida a todas as crianças e adolescentes  

personagens da relação ‘Bullying’-Violência (LOURENÇO & SENRA,  

2012, p. 54).

A escola é apresentada como o ambiente onde mais acontece essa violência, e  a partir desse ponto de vista a intervenção deve contemplar todos os  envolvidos nesse contexto, já que cada ambiente possui suas particularidades,  Cremer (2010) coloca que uma intervenção distinta pode acolher os alunos. Os  profissionais da educação devem estar preparados, treinados para ouvir os  estudantes sobre como vivem e o que os leva a cometer atos agressivos contra  os colegas, podendo assim distinguir as situações e intervir coerentemente,  ressalta ainda que a intervenção não deve seguir modelos prontos.  

Conforme Pereira (2014) “[...] cabe à instituição escolar, a responsabilidade na  prevenção e vigilância constante de seus alunos para que o bullying não  ocorra. Identificar o problema e adotar medidas pedagógicas em relação aos  alunos agressores e participantes desse ato, para coibir tal prática” (p. 12).  Deste fato, concordamos com o autor de que a prevenção é um dos fatores chave para a inibição dessa violência, a reflexão que fazemos é que as  medidas aplicadas não sejam de afastamento ou punição, mas sim de  conscientização.  

Para Zoboli (2014), a escola deve trabalhar a socialização dos alunos e  desenvolver conteúdos que favoreçam à obtenção de conhecimento e bom  relacionamento interpessoal, e favoreça atividades que intensifiquem os  valores, tais como: amizade, solidariedade, respeito e paciência. E, dentre  outros, como exemplos dessas atividades, a autora sugere leitura de textos,  assistirem vídeos e palestras sobre “Bullying”, além de facilitar que discutam  em grupos.  

É preciso a participação de todos visando estabelecer diretrizes e ações que  priorizem a compreensão das consequências do “bullying”, é essencial o apoio  às vítimas, para que as mesmas se sintam protegidas e os agressores reflitam  sobre seus atos, para que a escola seja um ambiente saudável e seguro.  

É importante ressaltar como o papel da família é fundamental no  desenvolvimento do indivíduo e que a desestruturação e a violência que ocorre  nesse sistema pode desencadear em comportamentos agressivos como o “bullying”. Pereira (2014) discorre que para a formação de um ser humano, é  necessário que, “[...] desde a infância ele seja norteado por princípios, levem  valores éticos, morais, religiosos e cívicos, para se tornar um cidadão digno e  

respeitador, onde possa contribuir para uma convivência harmoniosa em  sociedade” (p. 10), e a base fundamental para a implantação e preservação de  tais princípios advém num primeiro momento da família e na sequência da  escola.  

A intervenção nesse contexto deve utilizar métodos que priorize a orientação  aos pais, a fim de conscientizá-los dos prejuízos que essa violência produz, e  de modo a pensar seu filho como uma possível vítima, agressor ou espectador,  fazendo-os refletir como poderiam lidar com essa situação, buscando  estratégias para cada um dos contextos.  

Em relação ao “cyberbullying” – por ser amplo – requer uma intervenção de  maior alcance e principalmente a participação dos pais. Wendt e Lisboa (2013)  sugerem que para proteger os jovens é preciso uma atitude dinâmica e atenta  por parte dos pais e responsáveis, é necessário que estes estejam próximos  dos seus filhos, para orientar e acompanhar o que eles realizam nas redes  sociais, essa presença não deve ser evasiva, mas também não pode ser  permissiva. Ainda segundo os autores, o enfrentamento nessa categoria  apresenta desafios, requer dos pais, professores e responsáveis por políticas  públicas, uma compreensão dessa nova geração de crianças e adolescentes  influenciados pelas tecnologias.  

Outras sugestões de intervenções voltadas ao agressor exposta por Martins e  Almiro (2012) é: “[...] discutem-se as ações desse agente em nível criminal, a  criança ou o adolescente sofre rotulações, como marginal ou personalidade  agressiva patológica” (p. 20). Ainda segundo os autores, seja na mídia, na  escola, na rua, quando se fala do agressor não é feita uma análise que avalie o  contexto histórico desse jovem, pensar o agressor como marginal, com punição  criminal é legitimar essa violência. Souza (2015) complementa ressaltando que  os mesmos são por vezes considerados “[...] malvados, mentes perigosas,  tidos como incorrigíveis, a visão é a de que eles devem ser denunciados,  identificados, contidos e punidos” (p. 50).  

São poucas as intervenções voltadas para o agressor, na verdade não focam o  indivíduo, e com isso esse comportamento produzido por ele vai sendo repetido  e sendo aceito como normal, porém, quando uma vítima chega ao extremo do  seu sofrimento, é que esse agressor é percebido e punido, devido a esse fato,  postula-se que trabalhar a conscientização e respeito às diferenças é algo que  pode mobilizá-lo.  

No entanto, é necessário avaliar a corresponsabilidade social, familiar e política  na construção desse agressor, pois como existe uma permissão social que  abona as chacotas e apelidos, como fazendo parte do desenvolvimento, fica  difícil definir as dimensões e de reconhecer quando alguém é um agressor.

As intervenções apresentadas demonstram que se deve compreender todos os  âmbitos de relações desses indivíduos, Schultz et al., reforçam:

Em esforço conjunto, pais, a comunidade e a escola devem criar e  

manter regras claras contra o ‘bullying’ e planejar estratégias de  

prevenção e tratamento, pois se sabe que a falta de intervenções  

efetivas contra esse fenômeno leva o ambiente escolar a tornar-se  

totalmente contaminado por sentimentos de ansiedade e medo que  

acabam por afetar todo o processo de convívio e aprendizagem

(SCHULTZ et al. 2012, p. 253).

Colocar em prática intervenções que produzam resultados requer empenho das  partes envolvidas, a intervenção deve contemplar as relações. Na psicoterapia  individual é possível buscar o crescimento e conscientização desse agressor, o  trabalho na escola pode ser direcionado para a orientação dos pais,  capacitação de professores e conscientização dos alunos.  

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O “bullying” é um fenômeno que causa grande sofrimento psicológico, apesar  de estar sendo discutido por várias áreas de conhecimento, ainda é muito  presente no cotidiano de crianças e adolescentes. A maior frequência é no  ambiente escolar, e tem se manifestado também através das mídias sociais. É  uma violência que prejudica todos os envolvidos, trazendo consequências  posteriores e resultados extremos de violência.  

A partir da pesquisa realizada foi possível constatar que o “bullying” precisa ser  encarado como uma violência que produz sofrimento, que os danos causados  repercutem para além da fase escolar, que as relações individuais e sociais  têm grande influência na propagação da violência e que algumas vezes o  agressor é apresentado por meio de rotulações, além de ser visto como um  possível infrator na vida adulta.

Destaca-se então, a importância dos profissionais da Educação estarem  preparados para lidar com o “bullying”, e o quão significativo é a participação  dos pais no enfrentamento. Sugere-se a participação de todos e as  intervenções devem ser direcionadas a todos os envolvidos.

Durante a pesquisa pôde-se encontrar algumas dificuldades na produção do  artigo, relacionadas a material que apresentasse dados e pesquisas sobre o  agressor, pois as produções com esse enfoque são escassas, o que  impossibilitou uma discussão sobre o mesmo, contudo foi compreendido o  quanto a Gestalt-terapia pode contribuir na produção de intervenções voltadas  tanto para os envolvidos, como para trabalhar individualmente esse indivíduo.  

Essa pesquisa propicia sugestões de intervenções que mobilizem e facilitem a  conscientização do agressor, através de um olhar psicológico e que podem ser  aplicadas em vários contextos, possibilitando assim uma diminuição dessa  violência, além de propor uma reflexão sobre o agressor, pois ele é o maior responsável pela ocorrência do “bullying”, onde seu modo de agir possibilita  fazer várias vítimas.  

Somando-se a isso, nessa perspectiva trazemos algumas reflexões que  consideramos significativas para a área psicológica, social, educacional, haja  vista, precisar discorrer mais sobre esse agressor, pois é importante saber  quem ele é, compreender como se percebe nas relações, como é o seu  contexto familiar, como se comporta em suas outras relações, e se a partir da  conscientização dos seus atos e do entendimento sobre sofrimento que causa  aos outros, se tem uma possibilidade de parar de repetir esses atos, são  perguntas que nos levam a querer futuramente produzir pesquisas de campo  com esse enfoque.  

Por perceber a indisponibilidade de intervenções que focam o agressor, e por  perceber que o mesmo só recebe atenção a partir das consequências que  produz na vítima, enfatizo que é de extrema relevância proporcionar mais  reflexões e desenvolver pesquisas sobre o “bullying”, e principalmente sobre o  agressor.  

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NOTAS 

Ana Cristina Vitor Cardonha – Psicóloga clínica graduada pelo Centro  Universitário Estácio de Sá do Ceará – CE. 

Deyseane Maria Araújo Lima – Psicóloga Clínica. Doutora em Educação.  Mestre em Psicologia. Especialista em Psicologia Clínica (CFP). Especialista  em Educação à Distância. Especialista em Educação Inclusiva. Formação em  Gestalt-Terapia. Formação em Gestalt-terapia com crianças e adolescentes.  Formação em Gestalt-terapia com casais e famílias. Diretora da Vincular: Centro de Estudos, Pesquisa e Psicoterapia. Professora da Graduação e Pós graduação em Psicologia. 

Endereço para Correspondência: 

Ana Cristina Vitor Cardonha 

E-mail: anacardonh@hotmail.com 

Deyseane Maria Araújo Lima 

E-mail: deyseanelima@yahoo.com.br 

Recebido em: 07/06/2018 

Aprovado em: 31/07/2019

Revista IGT na Rede, v. 15, nº 29, 2018, p.171-189 DOI 10.5281/zenodo.15058521

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526