ARTIGO

Gestalt-terapia e a clínica dos ajustamentos psicóticos

Gestalt Therapy and the psychotic therapy adjustment clinic

Dionatans Godoy Quinhones

Paola de Vargas Quinhones

RESUMO:  

O presente artigo discute a atuação dos gestalt-terapeutas na clínica dos  ajustamentos psicóticos. A questão central ocupa-se de verificar se tal atuação  se pauta na teoria do “self” apresentada por Perls, Hefferline e Goodman da  obra “Gestalt Therapy” (1951) e posteriormente desenvolvida por autores  contemporâneos. A fim de viabilizar tal análise propôs-se como principal  objetivo compreender, a partir do método fenomenológico, a atuação de  gestalt-terapeutas no contexto clínico no que tange a compreensão dos  ajustamentos do tipo psicótico e as técnicas mais utilizadas. Para isso foi  realizada uma pesquisa qualitativa de caráter exploratório, na cidade de Campo  Grande - MS junto a Gestalt-terapeutas que tenham experiência clínica, com o  propósito de inferir a partir dos relatos encontrados, se a teoria do “self” serve  de orientação para o acolhimento e posterior intervenção junto a esses  consulentes. Para a coleta de dados foi realizada uma entrevista semiestruturada, com 14 perguntas, junto a seis psicólogos clínicos que  assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE). A partir dos  resultados pode-se concluir que a teoria do “self” é uma influência significativa,  mas que ainda convive com orientações teóricas diversas daquelas propostas  nos textos originários da Gestalt-terapia, o que demonstra uma necessidade  cada vez mais urgente de reapropriação teórica dos Gestalt-terapeutas sobre  uma das contribuições mais importantes da Psicologia contemporânea, a saber  a teoria do “self” e suas influências e desdobramentos na compreensão dos  ajustamentos de busca, como fenômenos políticos e éticos do mundo atual.

Palavras-chave: Psicose; Gestalt-terapia; Ajustamentos psicóticos; Teoria do  “self”.

ABSTRACT:  

This article discusses the situation of the gestalt therapists in the psychotic  therapy adjustment clinic. The main question is centered in verifying if such  practice is based on the Self Theory presented by Perls, Hefterline and  Goodman in the book Gestalt Therapy (1951) and later developed by the  contemporary authors. In order to enable such analysis, the proposition of the  present paper is to understand, from the phenomenological method, the  performance of the gestalt therapists and the most used psychological  techniques. Thus, a qualitative research was conducted in the city of Campo  Grande, Mato Grosso do Sul, among the gestalt therapists who have clinical  experience in order to verify through the related cases if the Self Theory can be  used as an a guideline for the accommodation and intervention of the patients.  The data collection was made through the application of a semi structured  interview with 14 questions. The questionnaire was then applied to 06  psychologists who signed the disclosure agreement in order to be part of the  research. The results were instrumental to conclude the Self Theory has an  important influence but it still coexist with other theoretical orientations that diverge from the classical texts from the Gestalt therapy. This situation  demonstrates that there is an urgent need of the theoretical re appropriation of  the Gestalt therapists on the one of the most important contributions of the  contemporary Psychology, which is the Self Theory and its influences and  repercussions in the understanding of the search adjustments as political and  ethical phenomena in the modern world.  

Keywords: Psychosis; Gestalt therapy; Psychotic Adjustment; Self Theory.

INTRODUÇÃO

A psicose é vista no contexto da sociedade ocidental como “loucura”. Essa  compreensão se constitui a partir de uma leitura biologicista que a fundamenta  quase que exclusivamente em uma dimensão anatomofisiológica. Essa  compreensão foi formada historicamente por um trajeto cheio de altos e baixos  que causou uma reviravolta nos modos de representação da loucura, e isto  constitui o horizonte a partir do qual pretende-se visar o fenômeno da psicose.

Para Carvalho e Costa (2008), antes das transformações no campo da saúde  mental no Brasil a psicopatologia tradicional que caracteriza a psicose como a  perda do juízo da realidade e comprometimento do funcionamento mental,  social e pessoal, problematizando as tarefas e papeis do indivíduo era  praticamente onipresente e a única maneira de delinear esse ajustamento.  Sustentado por esse referencial o tratamento tradicional intervém com  fármacos, internação, contenção física e isolamento do indivíduo, a fim de  normatizá-lo aos padrões pré-definidos de saúde e de sociedade.

Com a reforma psiquiátrica, que se produz com o objetivo de acabar com  manicômios e internações e com esse modelo segregador de tratamento, foi  criada uma rede de serviços de atenção terapêutica e preventiva, materializada  nos CAPS (Centro de Apoio Psicossocial), que propôs um novo estatuto social  ao doente mental, promovendo cidadania e qualidade de vida. Consequentemente, a compreensão sobre a psicose começa a receber novos  referenciais, conforme atestam Carvalho e Costa (2008). Assim, associando-se  a esses movimentos históricos de emancipação da loucura, essa pesquisa se  propõe, amparada pela Gestalt-terapia, mais especificamente pela sua Teoria  do Self, a pensar uma clínica que compreenda os ajustamentos psicóticos sob  um enfoque mais criativo e inclusivo.

Pearls, Hefferline e Goodman (1997), que a partir deste ponto serão tratados  apenas como PHG, trouxeram um novo enfoque para a Psicologia amparados  pela fenomenologia, pela teoria organísmica, pelo holismo e por autores da  segunda geração da teoria da Gestalt (MULLER-GRANZOTTO, 2007), apenas  para mencionar os mais significativos a esta pesquisa, mas entendendo que as  suas influências também transitam em outras direções. Esta proposta  engendra, como não poderia deixar de ser, um novo olhar sobre o humano que  agora não será mais compreendido como resultado de uma falta ou de um  reforçamento ambiental, mas sim uma configuração criativa de funções que  operam sempre em prol de um crescimento. Consequentemente, essa  mudança na compreensão do ser humano reflete-se na compreensão de seus  ajustamentos, sejam eles neuróticos ou psicóticos. O que nos permite dizer  que, de certa forma, PHG adiantam em alguns anos aquilo que iria florescer no  final da década de 80 no Brasil, a saber, uma compreensão das Psicoses como  fenômenos de Campo e processos autorregulatórios, portanto, criativos.

Essa visão se ampara em muito na teoria organísmica de Goldstein (1939) que,  para PHG (1997), caracteriza-se como um processo no qual organismo está sempre em busca do seu próprio equilíbrio. Tal busca é intencional e  apriorística tendo como objetivo a produção de homeostase, ou seja, está  sempre intencionado para trocar com o ambiente de maneira espontânea e  criativa para promover o crescimento chamado também de autorregulação  organísmica.

Orientada pela teoria organísmica e pela fenomenologia, a Gestalt-Terapia  busca, a partir da teoria do self, superar a tese patologizante do indivíduo em  favor de um processo de auto criação, de busca de ajustamentos criativos em  situações com as quais não consegue lidar por falta de repertório ou por  excesso de demandas (expectativas) do ambiente. Desta forma, a psicose  deixa de ser caracterizada como uma patologia desfigurante para receber uma  compreensão mais positiva.

Assim, no contexto da teoria da Gestalt-terapia, o papel do clínico é auxiliar o  desenvolvimento psíquico do consulente, promovendo sua integração e seu  bem-estar, por meio de técnicas e aportes teóricos, que visam não a cura  (tradicionalmente entendida), mas uma forma criativa de lidar com as  demandas e dificuldades encontradas. Portanto, no que tange especificamente  à psicose, o clínico primeiramente deve partir do acolhimento, deixando de lado  julgamentos e acolhendo o indivíduo na forma como se apresenta, visando  assim preservar sua integridade e sua concretude, a fim de promover a  capacidade criativa do consulente de reintegrar suas partes dissociadas.

Articulando-se a uma fundamentação histórica e teórica da psicose,  principalmente pela perspectiva gestáltica, o presente artigo se propõe a  analisar as estratégias utilizadas por Gestalt-terapeutas, no contexto do  exercício clínico realizado na cidade de Campo Grande – MS, na intervenção  nos ajustamentos psicóticos, identificando assim características específicas  desta abordagem e possíveis formas de aprofundamento de seu aporte  técnico/teórico. Vale ressaltar que este trabalho apresenta os resultados de um  estudo exploratório que visa fundamentar uma pesquisa maior com  participação de gestalt-terapeutas de todas as unidades da Federação.  Também, faz-se fundamental mencionar que todos os preceitos da pesquisa  com seres humanos foram seguidos e a presente pesquisa foi aprovada por um  Comitê de Ética, com o número CAAE: 95686916.3.0000.5159.

Portanto, analisar as formas de intervenção produzidas por Gestalt-terapeutas,  à luz da teoria do “Self” , é um caminho de reafirmação das estratégias de  intervenção junto à psicose propostas pela Gestalt-terapia demonstrando que é  possível avançar na tarefa de constituição de uma clínica onde o acolhimento  ético e o questionamento político se façam possíveis, avançando na  consolidação de uma Clínica gestáltica propriamente dita.

HISTÓRIA DA GESTAL-TERAPIA

A psicoterapia proposta pela Gestalt-terapia concentra-se no “aqui agora”,  focando naquilo que o consulente traz no momento da intervenção. Num  primeiro momento isso pode parecer demasiadamente simples, contudo essa  compreensão está alicerçada numa poderosa fundamentação fenomenológica  que propõe a clínica gestáltica como uma clínica da vivência interna do tempo,  que rompe com as dimensões da causalidade, materialidade e cronologia; ao  passo que o terapeuta passa a ser considerado um analista da forma, ou seja,  ele se ocupa da manifestação das totalidades inatuais que se apresentam no  dado do “agora” estimulando o processo de significações que a consciência  opera sobre a forma que se apresenta, apercebendo-se das totalidades  significativas que emergem dessa operação. Esse processo é fluido e  dinâmico, motivo pelo qual assume-se que, conforme PHG (1997) a atuação  clínica que estimula o contato com a novidade que emerge da relação com o  campo é geradora de crescimento para o organismo. Um organismo saudável,  é um organismo que flui nas possibilidades abertas no agora.

Fritz e Laura Perls, Paul Godman e Ralph Herfferline e outros autores  importantes escolheram, em 1951, ainda que não sem conflitos, o nome  “Gestalt-Terapia” para esse modelo de psicoterapia. A intenção foi de juntar e  desenvolver as ideias e práticas clínicas psicoterápica desenvolvidas por Perls no início da década de 1940. Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2007)  indicam que essas ideias promoveram a revisão da clínica psicanalítica o que  posteriormente exigiu a incorporação da fenomenologia e de suas influências  junto à Psicologia da Gestalt, principalmente na sua segunda geração.

Holanda e Karwowski (2004) indicam que a Gestalt-terapia no Brasil ficou  reconhecida pelo trabalho de Thérèse Tellegen, uma holandesa que trabalhou  com o casal Polster, em San Diego, depois em meados de 1970 realizou trabalhos em São Paulo no Departamento de Psiquiatria da faculdade de  Ciências Médicas da Santa Casa, juntamente com Jean Clark Juliano. Desde  então veio desenvolvendo trabalhos na área sendo a primeira a publicar artigo  no Brasil sobre Gestalt-Terapia, intitulado “Elementos de Psicoterapia  Gestáltica”. Em 1973, foi desenvolvido um grupo de estudos sobre a Gestalt Terapia utilizando o “Gestalt-Therapy” (1951), esse grupo era composto por  Thérèse Tellegen, Jean Clark Juliano, Walter da Rosa Ribeiro e Tessy  Hantzsche.  

Com outros grupos de estudos e mais autores se juntando a esse movimento  como Paulo Barros, Lílian Frazão e Abel Guedes dentre outros, a Gestalt terapia cresceu no Brasil. O primeiro curso de especialização surgiu em 1976,  coordenado por Thérèse Tellegen e Tessy Hantzschel e Ana Verônica Mautner  e Antônio Carlos Godoy. Em seguida surgiu mais formações, mas apenas em  1981 em São Paulo surge o primeiro núcleo formal de Gestalt, como indicam Holanda e Karwowski (2004).

Ainda segundo Holanda e Karwowski (2004), o I Encontro de Gestalt terapeutas do Rio de Janeiro em 1986 coordenado por Teresinha Mello, teve  grade importância em seguida houve mais produções, encontros e workshops.

Porém, o desenvolvimento da abordagem não foi linear e muito menos livre de  problemas. A dificuldade de acesso ao texto fundador da Gestalt-terapia, por  problemas editoriais deixou suas marcas no desenvolvimento da área. Uma  delas é a formulação amplamente divulgada de que a gestalt-terapia é um  “experiencialismo ateórico” (NARANJO, 2006).

Essa compreensão, ainda que não compartilhada por todos os Gestalt terapeutas, se faz sentir e diversos momentos da produção gestáltica,  principalmente quando ela passou a ser associada a qualquer outro elemento  que estivesse na moda: “gestalt e arte”; “gestalt e cinema”; gestalt e (coloque  aqui o elemento que lhe parecer mais interessante)”, ao passo que autores da  chamada Psicologia do Ego passaram a figurar entre os textos usados para  fundamentar a teoria da Gestalt-terapia. Ginger e Ginger (1995) explicitam  numa espécie de árvore genealógica da Gestalt-terapia seu parentesco com a  psicanálise e sua proximidade com certas construções teóricas e práticas de  psicanalistas dissidentes. Porém, a verdade é que a teoria do Self, em termos  teóricos é uma formulação que, a nosso ver, nenhuma outra abordagem logrou  elaborar.

Em 1997, com a publicação em língua portuguesa do “Gestalt Therapy” (PGH,  1951), os gestalt-terapeutas tiveram a possibilidade de deter-se mais  demoradamente no texto inaugural da abordagem o que ajudou a reacender a  chama criativa da produção acadêmica e motivou alguns autores a ensejarem  uma releitura e uma retomada do “Gestalt Therapy” (1951), a fim de viabilizar  uma recuperação dos aspectos teóricos mais importantes dessa abordagem,  alguns desses autores, como o casal Muller-Granzotto, publicaram inúmeros artigos e livros em que aprofundaram a teoria do self de PHG (1997) como uma  forma de tornar a clínica gestáltica mais atual, sendo capaz de compreensão  dos mais diversos fenômenos da contemporaneidade, com a preocupação de  fazê-lo a partir das teses gestálticas de orientação fenomenológica, apenas.

TEORIA DO SELF

O sistema “Self” como um fator central da abordagem gestáltica é uma  bandeira que vem sendo levantada atualmente por alguns gestaltistas. Ainda  que não seja uma bandeira livre de conflitos. Isso se deve ao fato de que sua  elaboração é resultado do trabalho criador de Paul Goodman com poucas  contribuições diretas de Perls. Isso associado a outros fatores de ordem  histórica que não nos compete no momento a tornou uma teoria em desuso e,  segundo Ginger e Ginger (1995) deliberadamente ignorada por grandes  teóricos gestálticos como Cláudio Naranjo e o casal Polster. Seu  reflorescimento se deve ao trabalho insistente de autores gestálticos que se  propuseram o retorno ao texto original, e as teses em torno do “Self” como um  fator de diferenciação da Gestalt-terapia em relação à tradição da psicoterapia  já consolidada. Amparados por esses autores queremos propor neste artigo uma centralidade da Teoria do “Self” na construção de uma clínica gestáltica,  mais especificamente uma forma gestáltica de compreender e lidar com as  psicoses.

A retomada de uma teoria consistente sobre o “Self” nas suas formulações  históricas e seus desdobramentos contemporâneos é um tema que não nos  ocupa neste texto. A este respeito recomendamos a leitura de Távora (2014)  onde a autora transita pela história do conceito e pelas suas implicações na  constituição da clínica gestáltica. Também, não podemos deixar de mencionar  as contribuições de Isadore From, Jean-Marie Robine entre outros. Para situar  o tema da intervenção clínica no âmbito das psicoses nos pareceu importante a  leitura que o casal Muller-Granzotto (2012b) faz das chamadas funções de  “Self” ou função parcial de Self (Távora, 2014). Assim, faremos uma breve  retomada conceitual destas funções enfatizando suas vulnerabilidades, porém  reservando para outro momento as discussões de aprofundamento e crítica.  

O “Self” é “um sistema de contatos” (PHG, 1997), e como tal é dinâmico e  fluido (GINGER e GINGER, 1995). Távora (2014) propõe que o “Self” é um  “processo ativo e permanente de perceber, selecionar, interpretar, sentir,  valorizar, estimar, prever, agir, integrar e dar sentido a si e ao ambiente,  mapeando a si mesmo enquanto ação no campo”. Essa proposta de  conceituação articula-se com a tese defendida por Robine (2006) quando este  retoma Goodman (PHG, 1951) e reafirma o “Self” como fenômeno de campo.  Essa perspectiva borra as limitações físicas da relação corpo, mente, ambiente,  característica de uma psicologia tradicional e coloca essas dimensões em  relação constante de configuração e reconfiguração. Portanto, conforme  Távora (2014) alguém só pode ser si mesmo na relação com o campo. O que  nos abre uma perspectiva bastante interessante sobre a compreensão das  produções psicóticas. A psicose, portanto, vista a partir da teoria do “Self” não  pode ser entendida apenas como uma “ruptura com a realidade” ou uma  desordem eletroquímica, ela guarda mais dimensões que se tornam  importantes quando destacadas por esse panorama gestáltico. Ginger e Ginger  (1995) dizem que na psicose não há mais “ajustamento criador” pela  impossibilidade do indivíduo responder claramente às suas necessidade e às  demandas do mundo externo, estando “cortado da realidade”. Muller-Granzotto  e Muller-Granzotto apontam outra linha de argumentação ao destacarem um  processo criativo na Psicose, o que nos parece bastante adequado quando  pensamos em uma dimensão de “campo”. Mas, voltaremos a isso um pouco  mais adiante.

Retomando o tema das funções de Self, PHG (1997), denominou com o termo “self” uma instância psíquica do indivíduo, que desencadeia uma série de  funções fenomenológicas, às quais Goodman denominou de funções de  contato. São elas as funções Id, função Ego e função Personalidade.  

A função Id diz respeito aos hábitos motores e linguageiros formados no  passado e que retornam na atualidade como excitamentos, como orientação  afetiva para as novas ações, segundo os Muller Granzotto (2007). Ela é passiva, dispersa e irracional. A definição de passividade vem do ato de aceitar  sem compromisso, vem com excitamento anônimo para orientar a ação,  através do fundo de vividos que se tornaram hábitos. Para PHG (1997) a  função id é a retenção de algo que não se tornou conteúdo, mas sim hábito, ou  seja, presença do mundo em mim, a repetição de hábitos pode surgir como  excitamento que orienta a ação.  

A ação ou Ato, caracterizada pela função ego, que se trata do “fazer”, “decisão  a deliberação em favor de algo específico desempenhada pelo corpo atual,  seja ela linguageira ou de ordem motora. Ela pode ser identificada em duas  dinâmicas: o contato e o contato final. Os autores Müller-Granzotto (2007)  propõem que no contato é necessário entender a deliberação na qual o “self” se polariza, ela pode ser um ato de identificação ou uma possibilidade de  satisfação dos excitamentos no meio, seria o momento em que o “self”, abre  um horizonte de futuro para novas possibilidades.  

Quando tal excitamento foi aplacado pela ação de ato, ocorre a polarização em  uma representação daquilo que o próprio indivíduo fez, ou seja, o “self” assume  uma certa personalidade. Essa identificação é denominada função  personalidade corresponde à nossa capacidade para representar nossas  vivências de contato, poder do reconhecimento da identidade objetiva na qual  fluímos, fundamento pelo qual verbalizamos justificando nossos  comportamentos quando necessário. Para os Müller-Granzotto (2007) seria  uma forma de ligação social abstrata por meio da qual conseguimos  representar nossa unidade possível. O indivíduo precisa se apresentar ao  mundo a partir da função personalidade, através das atitudes e fala nas  relações interpessoais.  

VULNERABILIDADE DA FUNÇÃO ID  

A partir do sistema “Self” é possível compreender que quando ocorre a falência  de alguma função todas as outras também são comprometidas. Quando uma  função se torna vulnerável ela exige uma resposta do organismo no sentido de  buscar ajustar-se criativamente. Cada função apresentada expressa uma forma  própria de vulnerabilidade, ensejando ajustamentos específicos. Porém, A  vulnerabilidade que interessa a essa discussão é a chamada vulnerabilidade da  função Id que responde pela produção do ajustamento de busca (psicose).

A Gestalt-Terapia acredita segundo Holanda (1998), que a saúde e doença  constituem um processo dialético, cujas polaridades são definidas pelo estado  de organização e desorganização da pessoa. Ela interessa-se pelo  desenvolvimento do potencial humano criativo e partindo de sua dimensão  funcional para compreendê-lo como um todo. Esse olhar gestáltico devedor do  existencialismo está presente, segundo Holanda e Karwowski (2004) quando  se diz que o ser que está possibilitado de obter relações que se apresentam no  meio, havendo escolha e liberdade nesta configuração, é um ser-sadio. PHG (1997) identifica Id, ego e a personalidade como etapas principais para o  ajustamento criativo do indivíduo. O “self” conduz a função id enquanto à  disposição das sensações mais primárias, primitivas. Quando ocorre bloqueio  ríspido em algumas das etapas de contato, provoca um padrão de  comportamento que significa o desligamento de si e do mundo, ocorrendo  assim a ausência de sensações e percepções das configurações,  consequentemente interrompendo o fluxo de “awareness”, assim ocorre a  vulnerabilidade desta função sobrecarregando as demais funções no sistema  “self”.  

Pode ocorrer também de outro modo uma estimulação excessiva dos sentidos,  tornando o “self” inundado por sensações que não adquirem significado, por  não serem reconhecidas em outro nível da consciência. Gerando ajustamentos  psicóticos ou de busca, que são formas de contatar que procuram preencher  ou articular o fundo de hábitos que, espontaneamente, não se apresentam,  tornando um ajustamento criador, ocorre então formas de fixação à realidade,  ou a parte dela, como indicam Müller-Granzotto (2012b).

De acordo com Tenório (2012), à perturbação da função Id, compromete todas  as outras funções. Por esse olhar, a noção de “Eu” encontra-se comprometida,  o “self” não dá conta de integrar suas várias manifestações. Com isso sem a  atuação da função ego, o “self” torna-se cada vez mais fragilizado, indefeso, ou  seja, vulnerável.

Frazão e Fukumitsu (2014) estabelecem que diante disso o indivíduo para  autorregular-se, recorre ao processo de ajustamento criativo, para se ajustar  diante de suas necessidades, essa forma de ajustamento pode acontecer de  forma funcional ou disfuncional.

Com isto surgem comportamentos psicóticos, que são ajustamentos criadores,  na medida que viabilizam uma estratégia de vinculação com a realidade, ainda  que parcial. Essa compreensão, afasta-se daquela proposta Ginger e Ginger  (1995), quando estes negam à psicose um status criativo, e indicam a ruptura  com a realidade como único caracterizador desta produção. A gênese para tais  comportamentos psicóticos, acontece quando os hábitos não se apresentam ou  se apresentam em abundância e com muita intensidade. Assim quando o  indivíduo está exposto às demandas, seja elas vindas através de afeto, pedido,  convite à fantasia mais além das representações sociais disponíveis, ele busca  algo para fixar-se na realidade como ajustamento criativo o que justificaria a  compreensão da psicose como um ajustamento criador ou de busca. Para os  Müller-Granzotto (2012a) são três tipos de ação da função de ato nos  ajustamentos de busca: os ajustamentos de isolamento, os ajustamentos de  preenchimento de fundo e os ajustamentos de articulação de fundo.  

AJUSTAMENTOS DE ISOLAMENTO

Quando a função de ato é demandada por respostas sociais, que implicam  certo grau de excitamento, e o que se apresenta é um vazio de hábitos, ao  invés de respostas o que se produz é angústia. Para aplacar essa angústia o  indivíduo produz uma série comportamentos totalmente alheios às expectativas  dos demandantes, que pese serem estratégias de proteção, também  funcionam como estratégias de isolamento. Estes ajustamentos são mais  comuns, mas não exclusivos, em indivíduos diagnosticados com transtorno do  espectro do autista (ASD), que apresentam sintomas descritos pela psiquiatria  clássica, sendo elas: a falta de resposta e interesse pelas pessoas, contato  visual exíguo, as expressões faciais empobrecidas, diminuição de  comportamentos não-verbais, dificuldade de iniciar ou manter uma conversa,  padrões restritos, repetitivos e estereotipados do comportamento, obsessão por  partes de objetos, ausência de ações variadas, agressividades sem motivo  específico, embotamento afetivo, etc. (DSM-5). Barros (2014) indica que estes  comportamentos podem ser explicados pela necessidade de fazer estes tipos  de ajustamentos quando está inserida no campo social. É uma forma de defesa  das demandas por excitamento, pois seu fundo de vividos da função id não se  apresenta diante dessas demandas, que estão ligadas principalmente com  afetos pelo meio social.

Müller-Granzotto & Müller-Granzotto (2012b) afirmam:

Nossa hipótese está apoiada na observação do comportamento dos  

nossos consulentes, principalmente daqueles diagnosticados como  

autistas. Eles parecem não ter a sua disposição hábitos relativos às

vivências primitivas de interação com o meio. Tudo se passa como se  

os hábitos motores – por meio dos quais retomamos, mais do que os  

atos compartilhados na atualidade da situação, uma espécie de  

cumplicidade em torno de algo indeterminado que aqueles atos  

estariam - não se apresentasse entre nós. Ou ainda, é como se os  

gestos desempenhados pelos sujeitos de atos na concretude no  

agora não visassem uma dimensão atual. Nesse sentindo, eles  

parecem não “esperar” algo inédito, tampouco vibrar com a repetição

(p.154).

Discutir o autismo num tópico de psicose causa certo estranhamento, dado a  militância histórica para afastar essas duas produções. Não nos interessa  entrar nesse mérito, ficando esse tema aberto para ser desenvolvido em outra  oportunidade. O que nos interessa é que sendo o autismo uma síndrome  invasiva ou uma doença mental, o autista se vale do isolamento como  estratégia de defesa contra demandas por excitamento, estratégia esta que  outros também podem produzir quando também apresentarem certo grau de  vulnerabilidade de sua função de ID. Os autores Müller-Granzotto & Müller Granzotto (2012b) entendem que esses sujeitos que fazem ajustamento de  isolamento conseguem estabelecer relações por meio da inteligência social,  que é exatamente aprender a lidar com sentimentos que não vem  acompanhados de afeto, mas aprendidos para a socialização ocorrer,  ocasionando assim menos sofrimento para eles. Barros (2014) completa  dizendo que outra característica comum é que os indivíduos geralmente não operam com o nível subjetivo, por não haver doação de excitamentos para  essas demandas.

Assim, podemos concluir que ausência de excitamentos produzem como  estratégia de defesa, ajustamentos de isolamento e tais ajustamentos são  presentes nos quadros clínicos de autistas, sendo que a produção de uma  autista, ainda que não exclusivamente, é um ajustamento de busca, atitude  criadora que encontra no isolamento uma estratégia de contenção das  demandas sociais por excitamento.

AJUSTAMENTOS DE PREENCHIMENTO DE FUNDO

Para os Müller-Granzotto (2012b) os ajustamentos de preenchimento de fundo  ocorrem quando os fundos de vividos da função id são retidos, por isso o  sistema self precisa preencher este vazio de excitamentos, ocasionando assim  a resposta à demanda com uma criação, podendo ser alucinatórias (auditivas,  visuais, cinestésicas e verbais) que são consideradas bizarras pelo trato social.

Barros (2014) estabelece que a alucinação tem o papel de cumprir para este  sujeito uma função social, sendo a forma que o mesmo encontra para  responder as demandas, como uma forma de simular aos demandantes que os  excitamentos existem. Porém, esses ajustamentos são considerados bizarros  do ponto de vista de quem observa, que muitas vezes não permitem ou não  sabem lidar com esse indivíduo, consequentemente ele é excluído do meio  social.

AJUSTAMENTO DE ARTICULAÇÃO DE FUNDO

Müller-Granzotto & Müller-Granzotto (2012b), afirmam que neste tipo de  ajustamento ocorre a ausência de excitamentos diante das demandas sociais,  por essas estarem de forma excessivas e desarticuladas, por isso se  apresentam vários fundos de vividos e de várias maneiras, desta forma a  função de ato está exacerbada de excitamentos e ocorre também a fixação na  realidade.

Para Lavrati (2012, apud BARROS, 2014), os indivíduos que utilizam o  ajustamento de articulação de fundo acreditam que suas fantasias são a  realidade, desta forma a função de ato dispõem de duas estratégias de  organização para lidar com as muitas demandas que recebe, são elas as  alienações e em contrapartida, as identificações.  

Ainda segundo Barros (2014), a alienação ocorre em favor de alguma coisa  concreta na realidade social, havendo o deslocamento dos atos sociais. Com  isso a função de ato fragmenta-se no atual da realidade de maneira delirante e  dissociada em partes, para atribuir um sentido aos múltiplos codados (dados inatuais) que se apresentam. Isso explica o “delírio dissociativo” ou  despersonificação.

Müller-Granzotto (2012b) apontam que o delírio associativo ocorre quando os  excitamentos se apresentam na fronteira de contato e a função de ato não dá  conta de aplacar esse excitamento, com isso ocorre a alienação em favor de  um dado da realidade.  

Esses três ajustamentos de busca caracterizam as formações psicóticas e  diferentemente das abordagens tradicionais o termo “psicose” aqui não vem  carregado de uma conotação negativa como um rompimento com a realidade,  mas sim com uma característica criadora com a qual o indivíduo consegue de  alguma maneira se defender ou se articular com os diferentes dados oferecidos  na sua fronteira de contato. De certa forma, a psicose assim entendida é uma  formação funcional e relativamente pertinente que exige muito mais  acolhimento e uma oferta de cidadania do que uma intervenção corretiva.

METODOLOGIA  

Este artigo é o relato de uma pesquisa qualitativa de caráter exploratório, que  visa investigar como é a intervenção de Gestalt-Terapeutas no tratamento dos  ajustamentos psicóticos. Trata-se de uma pesquisa propedêutica a outros  desdobramentos, como a ampliação da amostra e posteriormente à discussão  em torno da formação dos Gestalt-terapeutas. A pesquisa se orienta pela  investigação fenomenológica que, segundo Cohen e Manion (1994, apud  BROWNELL, 2014) visa fomentar as percepções do indivíduo diante dos  fenômenos que são apresentados, construindo a experiência subjetiva de como  se é percebido e significado por ele mesmo e não de uma realidade externa e  objetiva.

No processo de coleta de dados foi realizada uma entrevista semiestruturada com seis psicólogos. O roteiro da entrevista tinha 14 perguntas qualitativas que  possibilitaram a abertura da descrição da experiência de modo que se tornasse  possível abordar livremente os assuntos tratados, com a intenção de  compreender os aspectos essenciais do fenômeno investigado, assim como  propõe Minayo (2006, apud CARDOSO, 2008).

A partir dos dados coletados foi realizada uma análise por meio do método  fenomenológico, este modo de pesquisa fenomenológica não exclui o valor das  pesquisas estatísticas, mas amplia o universo do conhecimento, sendo a  pesquisa qualitativa uma forma particular de fazer ciência que, ao invés de  centrar-se em dados estatísticos utiliza-se das descrições individuais, e das  conexões que fundamentam as interpretações vindas das experiências vividas.  Esse método foi escolhido por ser o modo mais adequado de estudo para  investigar o mundo vivido pelo sujeito, assim como atesta Sadala (2004).

Após a coleta de dados, cada dado dos entrevistados foi submetido a seis  procedimentos de leitura fenomenológica. A visão global, que são os  depoimentos vistos em uma perspectiva global, apontando conforme o  pesquisado vivencia os significados mais relevantes. A divisão em unidades de  significado, que permite por meio dos elementos significantes relatados pelo  sujeito, colher a estrutura presente na representação de Psicose para cada um.  Outro procedimento é a interpretação dos dados, que se refere a forma que o  pesquisador compreende cada significado que foi relatado de forma diferente  por cada entrevistado. Após feita essa interpretação é realizado a comparação  entre os dados levantados para cada sujeito, com a intenção de obter os dados  comuns, como também o registro de cada particularidade das experiências.  Após a compreensão dos elementos significativos relatados é possível alcançar  uma síntese. E por último a comparação dos resultados sobre o tema da  psicose junto com a atuação dos gestalts-terapeutas diante desse ajustamento,  seguindo assim o que estabelece Cardoso (2008).

Vale ressaltar que a pesquisa realizada foi submetida a um Comitê de Ética em  Pesquisa com seres humanos, CAAE: 95686916.3.0000.5159. Os profissionais  voluntários que estiveram de acordo a participar da pesquisa, assinaram o  Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE), que assegura os direitos  de confiabilidade, sigilo e o uso de informações e proteção aos participantes.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No que diz respeito ao perfil dos Gestalt-terapeutas que fizeram parte desta  pesquisa dos seis entrevistados, cinco são do gênero feminino. Dos 6 cinco  obtiveram sua formação em Campo Grande, MS, e um obteve sua formação no  Rio de Janeiro. Todos, como requisito para a pesquisa, tendo especialização  em Gestalt-Terapia com a média de atuação de 11 anos e meio, em áreas  como clínica e universidade como descrito na tabela abaixo.  

Tabela 1. Perfil dos entrevistados, quanto a especialização, abordagem de  atuação, tempo de atuação e locais onde atua ou já atuou.

Entrevistados

Especialização

Abordagem  

(ens) que usa

Tempo de  

atuação

Locais onde  

atua ou já  

atuou

Sujeito 1

Gestalt-Terapia.

Gestalt

Terapia.

6 anos.

Clínica.

Sujeito 2

Gestalt-Terapia,  Psicopedagogia,  Condução de  

Grupo em  

Fenomenologia  e Mestrado em  Psicologia.

Gestalt

Terapia.

11 anos.

Clínica,  

docente e  

psicóloga  

clínica.

Sujeito 3

Gestalt-Terapia  e Sociologia.

Gestalt

Terapia.

5 anos e 9  meses.

Clínica.  

Atuou como  prestador de  serviço em  avaliação  

psicológica e  como  

voluntário  

em Hospital.

Sujeito 4

Gestalt-Terapia.

Gestalt

Terapia.

3 anos

Psicóloga  

Clínica

Sujeito 5

Gestalt-Terapia,  Fenomenologia, Análise  

Reichiana,  

Terapeuta  

familiar e  

Mestrado em  

Educação.

Gestalt

Terapia e  

Análise  

Reichiana.

38 anos

Docente,  

Psicóloga  

Clínica;  

programas  

do governo.

Sujeito 6

Mestre em  

Psicologia da  

Saúde,  

especialista em  Psico-Oncologia  e Gestalt

terapia.

Gestalt

Terapia

6 anos

Clínica,  

Psicóloga  

Hospitalar e  docente.

Fonte: Dados próprios.

O primeiro assunto proposto na entrevista foi a compreensão dos profissionais  sobre a Psicose. O sujeito 1 caracterizou a psicose com a palavra “cuidado”.  Tal caracterização é bastante interessante para compreender esse tipo de  ajustamento, lidar com a psicose exige um nível de autocuidado e  autopreservação por parte do terapeuta, porém esse termo é melhor  compreendido como “envolvimento e compromisso”, torna uma ação  humanizada indo mais além de só procedimentos técnicos. Também vale  ressaltar que, segundo Oliveira e Carraro (2010), para Heidegger o cuidado  não é sinônimo de bondade, mas sim de entender o que realmente é  importante para o outro. Dessa forma é possível compreender que a  perspectiva de cuidado para o entrevistado é uma clara referência à influência  fenomenológica em sua formação.

A partir do que o sujeito 2 trouxe como discussão “Tem influência com o  conhecimento técnico”, pode-se perceber uma influência da psicopatologia  tradicional que propõem a psicose, palavra empregada por Feuchtersleben em  1845, como a presença de psicopatologia que compromete a personalidade e a  alteração nos processos físicos e psíquicos. Nesse modelo a palavra psicose  denota a presença de transtornos mentais, palavra caracterizada também na  fala do sujeito 5 “Transtorno”, ao remeter a ideia de insanidade, com isso nota se uma forte influência da psicopatologia tradicional com uma clara postura de  afastamento da teoria do Self, uma vez que prioriza na avaliação do sujeito o  uso das capacidades mentais superiores ou judicativas. Segundo Zanoni e  Serbena (2011), a classificação das doenças mentais, que atualmente são  representadas pelos manuais como DSM (Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana) e o CID  (Classificação Internacional de Doenças), norteia a atuação de muitos  profissionais da saúde. É importante salientar que uma das críticas a esse  modelo tradicional é a insistência de não olhar o indivíduo como um todo,  deixando de lado sua subjetividade e a do próprio profissional que olha esse  indivíduo. Como acredita Hillman (1975, 2011), os fenômenos psicopatológicos  podem ser vistos de forma diferente da ideia de anormal, errado e da conotação moral que classifica o sujeito nas normas. Esse modo diferente  possibilita a significação particular dos fenômenos vivenciados pelo sujeito que  sofre pelo fato de a psicopatologia estar presente na vida cotidiana desse  sujeito, e no sentimento singular que inclui a sensação de loucura individual.  Alinhado com essa ideia o sujeito 2, dando continuidade à sua fala diz “Uma  forma diferente de fazer contato com o mundo” faz uma abertura à  compreensão específica da Gestalt-Terapia que é a possibilidade de contato de  forma diferenciada, que segundo Carvalho e Costa (2010) é uma forma de  ajustamento criativo do organismo ao ambiente, mas não indo além disso, o  que acaba expressando mais um jargão clínico do que uma compreensão  significativa da psicose vista a partir da teoria do “self”.

O sujeito 3 trouxe como percepção da psicose a palavra “criatividade”, termo  bastante utilizado na Gestalt-Terapia, que valoriza a ação do indivíduo fazendo  uso de ajustamentos criativos para lidar de forma dinâmica e única com as  demandas vindas do meio. No entendimento de Carvalho e Costa (2010), a forma como o sujeito responde a satisfação de uma necessidade, é um  processo criativo por fazer uso de ajustamentos. O ajustamento de busca  (psicótico) é uma forma criativa desse indivíduo lidar com a falta de  excitamentos ou excesso deste para assim conseguir suportar a angústia que  lhe causa. Assim, ele precisa fixar-se em algum dado de realidade, esse  processo está relacionado com a autorregulação que para PHG (1997) são a forma do organismo se ajustar, ou seja, de buscar o equilíbrio para suportar as  demandas, como concordam também Müller-Granzotto (2012a).

Esse indivíduo psicótico muitas vezes não tem lugar no social e acaba sendo  representado apenas por sua “loucura”, essa questão foi exatamente que o  sujeito 4 trouxe como característica da psicose, a falta de representação social  para que possa atuar no meio, causando sofrimento e a forte necessidade de  reabilitação social que também foi discutida pelo sujeito 6, que ressaltou a  importância da família neste processo. Percebe-se que essas falas apontam  para a necessidade de indivíduos psicóticos serem auxiliados no momento de  crise por instituições e que fazem a manutenção do tratamento, com a intenção  de reabilitar esse sujeito para a sociedade, diminuindo dessa forma seu  sofrimento. Isto está de acordo com Rocha e Silva (2013, apud BRAGA;  FERNANDES, 2014) quando afirmam que esse sofrimento requer uma atuação  multiprofissional tanto para o sujeito quanto para os familiares. Essa tese é  aceita pela Gestalt-terapia, porém com uma mudança profunda de perspectiva.  O objetivo primordial da intervenção não é o de ajustar o indivíduo à sociedade,  mas ajudá-lo a defender-se das demandas advindas do meio social e ao  mesmo tempo preparar a sociedade para acolher as produções psicóticas  como plenas de cidadania. Portanto, as falas dos entrevistados revelam uma  reflexão sobre as questões políticas em torno da loucura, mas ainda não  apresentaram uma profunda compreensão da clínica da psicose proposta pela  Gestalt-terapia a partir da teoria do “Self”. 

Na questão dez onde os sujeitos entrevistados caracterizam a psicose na sua  concepção clínica, todos os sujeitos exceto os sujeitos 2 e 5, compreendem  como a vulnerabilidade da função id, provocando ajustamentos psicóticos por  causa das demandas sociais por produção e consumo, bem como por  inteligência social. Assim, a psicose pode ser entendida como uma forma de  ajustamento criativo para o organismo responder ao meio demandante. Essa  compreensão está alicerçada na compreensão das vulnerabilidades das  funções de Self, mais especificamente da função id. Porém, quando  aprofundarmos essa questão pela compreensão das estratégias de  intervenção, nota-se que apesar da compreensão teórica, a teoria do self ainda  não se constituiu no modelo norteador da prática clínica propriamente dita.

O sujeito 2 caracteriza como sendo a “mesma resposta da questão nove” e  acrescenta “Uma forma de ajustamento criativo, a tentativa do organismo de se  manter em equilíbrio”. Por mais que se perceba que o sujeito utilizou uma  terminologia técnica da Gestalt-terapia ainda se faz sentir a influência da  psicopatologia tradicional pois há um apego sistemático à compreensão técnica  afirmada anteriormente. A Gestalt então aparece aqui como uma estratégia de resposta “certa” sem nenhum recurso à vivências ou experiências que possam  dar sustentação a essa visão.  

Percebe-se que o sujeito 5 que compreendeu a Gestalt-terapia na sua  concepção clínica de forma diferente dos outros, onde sua fala era “Como um  desajustamento (bipartição), trabalha-se sempre com a integração. A psicose  reforça essa separação, por isso trabalhar com a unificação e reforçar o  positivo da pessoa, trabalhando a favor do cliente”. Com base na sua  compreensão foi possível notar que o mesmo utiliza recursos teóricos de outras  abordagens, como a psicanálise. Pois, sua fala representa a psicose como um  desajustamento e não como um ajustamento criativo de acordo com a Gestalt terapia, o que nos aponta direcionamentos para outras fases desta pesquisa,  quando analisarmos estritamente o processo formativo dos Gestalt-terapeutas.  

O próximo questionamento aos participantes, foi se os mesmos acreditam que  os Gestalt-Terapeutas possuem recursos técnicos e teóricos para trabalhar  clinicamente com pacientes psicóticos. Todos afirmaram que sim, os sujeitos 2,  3 e 4 justificaram suas afirmações.  

O sujeito 2 afirmou que esta abordagem trabalha com a pessoa em sua  totalidade, mesmo que a cognição desse indivíduo não esteja preservada.  Pode-se perceber que essa afirmação tem raízes fenomenológicas por  enxergar esse indivíduo como um todo, e da forma que se apresenta sem  necessariamente preocupar-se exclusivamente com seu cognitivo.  

Já o sujeito 3 compreende que não se deve olhar apenas o sujeito psicótico e  sim o campo e o social onde esse está inserido, ressaltando a teoria de campo  como um recurso teórico para sustentar essa justificativa. Segundo ITGT  (2016), na abordagem da Gestalt-terapia a teoria de campo indica o processo pelo qual o indivíduo pensa, ela auxilia na seleção do que é importante, além  de promover orientação para a comunicação. Preocupa-se com as  complexidades das relações de campo no presente desse indivíduo que  corroboram para a constituição do seu “self”. A definição de teoria de campo  para Yontef (1998):

Teoria de campo é um enfoque ou ponto de vista para examinar e  

elucidar eventos, experienciações, objetos, organismos e sistemas,  

que são partes significativas de uma totalidade conhecível de forças  

mutuamente influenciáveis, que, em conjunto, formam uma fatalidade  

unificada interativa contínua (campo), em vez de classificá-las de  

acordo com a natureza inata ou analisá-las com a finalidade de obter  

aspectos separáveis e fatalidades formativas e somáveis. A

identidade e a qualidade de qualquer evento, objeto ou organismo  

desse tipo apenas o é, em-um-campo contemporâneo, e somente  

pode ser conhecida, por meio de uma configuração, formada por uma  

interação mutuamente influenciável entre percebedor e percebido.

O sujeito 4 argumenta que “Sim, possui, o recurso sempre é o corpo do  terapeuta que auxilia o sujeito psicótico a lidar com as demandas sociais”. Esse recurso bastante utilizado como um modo de intervenção, segundo os Muller Granzotto (2012a), os indivíduos psicóticos não conseguem representar sua  própria unidade, para isso o terapeuta auxilia na elaboração desse discurso  sobre si para isso é necessário muitas vezes emprestar seu próprio corpo para  esse sujeito poder atuar.  

A questão doze onde foram respondidas apenas quem tivesse afirmado que a  Gestalt-terapia possuía recursos técnicos e teóricos para atuar na clínica,  sendo que todos os entrevistados responderam positivamente. A partir disso foi  questionado quais as melhores formas de intervenção junto aos indivíduos  psicóticos. A maioria dos entrevistados permaneceu numa perspectiva  fundamentalmente teórica sem explicitar uma técnica interventiva, mas um  modo generalizado de fazer clínica gestáltica com base no acolhimento às  produções dos indivíduos. Essa forma de compreensão não está equivocada  na sua gênese, porém não ilustra e nem diferencia o trabalho na clínica dos  ajustamentos evitativos (neurose) do trabalho com os ajustamentos de busca  (psicose), à exceção dos sujeitos 2 e 3 que enfatizaram a importância do não  enfrentamento que é uma característica da clínica gestáltica junto as psicoses,  mas ainda assim uma caracterização frágil por não indicar uma estratégia  específica.  

Os sujeitos 1, 3, 4 e 6 ressaltaram a importância da inclusão desse indivíduo  psicótico na sociedade, a partir do trabalho terapêutico com a família. É  possível analisar que esses sujeitos compreendem o trabalho junto a psicose a  partir da compreensão da teoria do Self, apontando o tralho clínico com o  psicótico e o meio que está inserido além do acompanhamento terapêutico,  porém com quase nenhuma expressão concreta de trabalho, o que expressa o  quanto os ajustamentos psicóticos ainda estão longe do fazer clínico dos  Gestalt-terapeutas.  

No que tange às intervenções possíveis, podemos ilustrar algumas alternativas  apontadas pelos Müller-Granzotto (2012b). Para os autores em tela, no caso de  ajustamento de isolamento, o primeiro passo é identificar as melhores formas  de aprendizado que valeria para desenvolver esse indivíduo. Outro passo  necessário para esse processo é conhecer a rotina familiar, escolar, no  trabalho e na própria relação com o sujeito, para se poder identificar quais os  tipos de demandas que causam reações de isolamento assim, possibilitando a  atuação na suspensão de tais demandas. Outro trabalho importante, na clínica  da Psicose, é desempenhado pela figura do acompanhante terapêutico, que se  trata de um trabalho amplo em que o terapeuta após a identificação das  demandas auxilia os cuidadores e o meio onde o indivíduo está inserido a  compreenderem quais demandas são geradoras de sofrimento e surtos,  possibilitando o desenvolvimento de estratégias de intervenção.

Nos ajustamentos de preenchimento de fundo, segundo os mesmos autores  Muller-Granzotto (2012b), esse ajustamento caracteriza-se por alucinações  geradas pela fixação deste individuo em alguma parte da realidade, cujo  objetivo é suprir os excitamentos que não se apresentaram quando

demandados. Os sujeitos 3 e 4 trouxeram como forma de intervenção o  acolhimento deste ajustamento na forma que se apresenta. Porém, para além  do acolhimento também pode-se citar o propósito de tornar essa alucinação  social a partir de um jogo de forma lúdica para que se possa trabalhar os  conteúdos apresentados, além do clínico “emprestar” sua linguagem e  percepção sem interpretar apenas descrever, para que de início o consulente  se aproprie de uma representação. Outra forma também de intervir é a própria  escuta e identificação das demandas, para neutralizá-las por meio do ensino (psicoeducação) à rede social desse indivíduo.

Nos ajustamentos de articulação de fundo, também é realizado o acolhimento  das produções dissociativas delirantes, através da escuta profissional,  possibilitando outra produção mais pacífica, ou seja, o terapeuta irá ajudar o  consulente a delirar de forma mais sociável, para não ameaçar a integridade  dele e do meio. Já nas produções associativas também não se despreza o  delírio, mas é importante o clínico caracterizar para o consulente o valor da  troca social que esse delírio produzido representa, desta forma o consulente  pode realizar contratos sociais que validem suas construções. O trabalho  conjunto com os cuidadores nesse ajustamento é necessário para que os  mesmos possam compreender a dinâmica do ajustamento. Assim, a  psicoeducação torna-se uma intervenção necessária.  

O sujeito 5 trouxe uma forma distinta dos outros entrevistados de intervir: “A  partir do corpo descobrindo sensações, sentimentos, levando a pessoa a  reintegração da sensação” o que é uma ilustração de uma forte influência  Reichiana, característica dos Gestalt-terapeutas que não encontraram ainda na  teoria do Self sua fundamentação. Perls, ao se unir com Wilhen Reich,  fundador da análise Reichiana, ambos percebiam o homem na sua totalidade,  e o corpo era a forma de expressão do interior de cada um, por isso a  importância da valorização a percepção do corpo na compreensão clínica, de  acordo com Ribeiro (1985 apud MENDES; BARATIERI, 2011). Contudo, a  separação entre interior e exterior não goza de sustentação na tradição  fenomenológica, criando um conflito de ordem epistemológica na compreensão  da gestalt-terapia.

Na questão treze foi investigado como os entrevistados compreendem o uso de  fármacos aos indivíduos psicóticos. Todos os participantes responderam que é  essencial para o processo.

Os autores Muller-Granzotto (2012b), trazem questionamentos sobre as  hipóteses psiquiátricas que acreditam ser de causas anatomofisiológica as  produções psicóticas. O questionamento dos autores se sustenta pela compreensão de que os tratamentos com fármacos não têm real eficiência  como sugerido na prescrição. Acredita-se que os fármacos ao agirem em  função de inibir as alucinações, acaba bloqueando outras regiões do cérebro o  que explicaria os efeitos colaterais. Esse bloqueio não permite que esse sujeito  se apresente da maneira como é, o que interfere no processo interventivo,  agindo apenas para inibir seus ajustamentos criativos. Esse uso de fármacos em indivíduos psicóticos tem características da psicopatologia tradicional onde  o louco era considerado um insano, incapaz e irresponsável, daí a necessidade  de intervenções baseadas em administração de fármacos para controlar e  normatizar esse indivíduo. A descrição da atuação sistêmica dos  benzodiazepínicos de primeira e segunda geração, produzida por Muller Granzotto (2012b) é bastante ilustrativa a esse respeito.

A questão quatorze ao perguntar sobre o papel da Gestalt-terapia, ela se  propõe a servir de confirmação da questão 12 que trabalha as formas de  intervenção, afim de verificar a fidedignidade e possíveis inconsistências  teóricas dos entrevistados.  

Todos os entrevistados permaneceram na sua compreensão dada na questão  doze, no entanto os sujeitos 3, 5 e 6 acrescentaram mais argumentos. O sujeito  3 acrescenta “O objetivo é possibilitar que eles vivam bem do seu jeito e com  os outros. Não é de colocar o indivíduo na produção neurótica capitalista, mas  sim que ele consiga viver bem nessas situações”, na sua compreensão a  importância de possibilitar que os consulentes que fazem ajustamento de  busca consigam viver de maneira funcional e do seu jeito criativo,  possibilitando a esses indivíduos estratégias para lidar com as demandas e não  “neurotizá-lo”. O sujeito 5 trouxe além da integração afirmada na questão doze,  apresenta também que “Se integre e seja feliz, conseguindo lidar com o  problema dele de forma favorável”, é possível perceber que nesta  compreensão para esse indivíduo psicótico ser feliz ele precisa lidar com seu  “problema”, a partir deste entendimento é claro como dito anteriormente deste  sujeito entrevistado, a forte presença de psicopatologia tradicional. O sujeito 6,  traz “Proporcionar alívio e conforto para a família envolvida realizando, por  exemplo, trabalhos com irmãos de psicóticos que muitas vezes se sentem  excluídos e sofrem”, esse sujeito confirma o cuidado com a família desses  consulentes psicóticos, e ressalta a importância de se trabalhar com o cuidador  e os irmãos do consulente que muitas vezes estão em sofrimento também.  

A fala livre que foi apresentada no final do questionário, com o objetivo de  investigar os elementos significantes para cada participante. O sujeito 1  apresentou na sua fala livre as compreensões abordadas nas questões  anteriores, porém trouxe “Também é importante o tratamento estar relacionado  com a inclusão desse sujeito no social. Por isso sou a favor dos meios que  possibilitam isso”. Argumenta a importância das redes de assistências aos  indivíduos psicóticos, a fala desse sujeito está alinhada as propostas da  reforma psiquiátrica do Brasil que de alguma forma traz uma preocupação  humanista, contudo relativamente diferente daquilo que os autores em tela  nesta pesquisa propõem como forma de trabalho gestáltico com os indivíduos  que utilizam ajustamentos psicóticos e com o meio o qual eles estão inseridos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da pesquisa exploratória realizada, nos dados coletados através de  entrevista semiestruturada, foi possível, a partir da aplicação do método  fenomenológico, perceber entre os participantes que o elemento teórico mais  utilizado pelos profissionais na compreensão dos ajustamentos psicóticos  baseia-se na Teoria do Self, o que em si mesmo, já é um grande achado de  pesquisa. Porém, também é verdade que essa compreensão ainda convive  com um sincretismo teórico que atua na formação histórica da Gestalt-terapia pelo mundo.

Dentre as influências transversalizadas nas falas dos entrevistados pode-se  identificar uma forte presença da psicopatologia tradicional, usada para  sustentar seus argumentos, percebendo a psicose como “problema” que  precisa ser resolvido ou contido. Inevitavelmente percebe-se que a maior parte  dos entrevistados traz esses fragmentos sem se dar conta e acabam  justapondo elementos teóricos distintos com o objetivo de compreender mais  profundamente o funcionamento do sujeito que faz ajustamento de busca. Visto  que os medicamentos são sempre associados a esses sujeitos como  importante para o processo, sem quase nenhuma crítica.

Outro fator importante que foi investigado foram as estratégias de intervenção dos profissionais à luz da teoria do “Self”, que propõem compreender o  funcionamento dos indivíduos a partir de funções fenomenológicas e os  contatos que o mesmo tem com o meio. Nos entrevistados que trouxeram um  pouco desta compreensão, nota-se uma preocupação de relacionar a teoria do  Self ao fenômeno pesquisado, por abordar a vulnerabilidade da função id, que  é a falência do excitamento que compromete a função de ato, ou seja, o  indivíduo não consegue fazer contato de uma forma saudável recorrendo os  ajustamentos de busca (psicose), como um modo de alcançar o equilíbrio do  organismo, ainda que um tanto quanto teórica, entende-se essa apropriação  teórica como algo bastante positivo no desenvolvimento da clínica gestáltica  junto aos ajustamentos do tipo psicóticos.  

A partir deste entendimento a psicoterapia proposta pela Gestalt-Terapia  concentra-se no aqui agora que o consulente traz no momento clínico, e da  maneira que traz, seja ela alucinatória, delirante ou “bizarra”, sempre preservando sua integridade e seus fatores socioculturais, físicos e o meio que  está inserido. Com o objetivo de promover a integração desse sujeito com o  meio social, consequentemente maior contato com o meio proporcionando  crescimento psíquico.  

No que diz respeito às intervenções propostas pelos entrevistados diante dessa  clínica, é possível perceber a fragilidade dos aspectos teóricos e a falta de  técnicas mais direcionadas aos ajustamentos psicóticos, contudo quando se  teve presente falas de experiências com esses indivíduos percebe-se que as  estratégias e técnicas mais presentes foram o acolhimento deste ajustamento,  a identificação das demandas para se poder intervir juntamente com familiares  e o meio social que esse sujeito psicótico está inserido.

Ao levantar as estratégias e técnicas a partir de cada ajustamento sendo eles:  ajustamentos de isolamento, os ajustamentos de preenchimento de fundo e os  ajustamentos de articulação de fundo não houve nenhuma fala específica  sobre as intervenções com ajustamentos específicos. As falas ficaram na  generalização. Porém, a principal semelhança que nelas se apresentam é a  importância de compreender a psicose não como inferior aos outros  ajustamentos, mas sim como uma forma de se manifestar de forma espontânea e criativa num mundo que não tolera a alteridade. E isso, tornou-se uma das  características mais centrais da Gestalt-terapia no acompanhamento de  indivíduos que produzem ajustamentos psicóticos. Apesar de a Gestalt-terapia  sofrer influências diversas na sua consolidação histórica, sua gênese como  lugar ético de acolhimento do estranho e a centralidade do humano como  processo criativo nos parece preservada em todas as falas. O que falta agora é  um aprofundamento teórico/técnico que habilite a Gestalt-terapia ao seu lugar  histórico, a saber, uma das forças mais produtivas da psicologia  contemporânea, capaz de análises e respostas a fenômenos diversificados de  maneira original e profunda. Cabe, então, aos Gestalt-terapeutas tomarem para  si esse empreendimento e ampliar essa abordagem a partir da teoria do “self”,  pois essa, apesar de ser a característica mais originária da Gestalt-terapia,  acabou ficando a margem das intervenções clínicas por muitos anos. O que  nos leva a continuar na jornada de investigação sobre o modo como a Gestalt terapia brasileira se apropria das construções teóricas em torno da teoria do  “Self”. Tema este que nos ocupará em reflexões posteriores.

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NOTAS

Dionatans Godoy Quinhones – Mestre em psicologia, psicólogo clínico e  professor de Psicologia Fenomenológica.

Paola de Vargas Quinhones - Psicóloga, gestalt-terapeuta e Mestrado em  Antropologia.

Endereço de correspondência:

Dionatans Godoy Quinhones

E-mail: godoy.dionatans@gmail.com

Paola de Vargas Quinhones

E-mail: paoladevargas@outlook.com

Recebido em: 14/02/2018

Aprovado em: 26/09/2019

Revista IGT na Rede, v. 15, nº 29, 2018, p.190-214 DOI 10.5281/zenodo.15058530

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526