ARTIGO

A Influência da família no processo de desenvolvimento  infantil: Uma reflexão à luz da Gestalt-Terapia.

The influence of the family on the process of child development: A  reflection in the light of Gestalt Therapy. 

Letícia Vieira de Souza

RESUMO:  

Este artigo tem como objetivo entender como as relações familiares podem  influenciar no desenvolvimento da criança, considerando que este é o primeiro  contexto do qual ela faz parte, sendo assim de grande significado para a  mesma. Do ponto de vista da abordagem gestáltica a família é um sistema que  influencia e é influenciado pelas partes que o compõe, sendo também uma  totalidade que buscará sempre o equilíbrio. A partir da pesquisa bibliográfica  traçamos, então, uma discussão a respeito do desenvolvimento infantil para  assim apresentarmos como a família se faz presente neste processo de acordo  com a Gestalt-terapia. Desta forma, acreditamos que este trabalho trará  subsídios teóricos e reflexões para a prática de psicoterapeutas infantis e,  também, para profissionais de outras áreas que pensam e discutem o  desenvolvimento infantil.  

Palavras-chave: Gestalt-terapia; Desenvolvimento infantil; Família. ABSTRACT:  

This article aims to understand how family relationships can influence the  development of the child, considering the fact that this is the first context in  which him/her takes part of and therefore it has great significance for him/her.  From the point of view of gestalt approach, the family is a system that  influences and is influenced by the parts that compose it, also being a totality  that always seeks for balance. From the literature reviewed, we draw some  discussions about the child´s development, and then we introduce how family is  present in this process according to Gestalt therapy. In this way, we believe this  work will bring theoretical subsidy and reflections to the practice of children  psychotherapists and also to professionals from other areas that think and discuss the child development.  

Keywords: Gestalt therapy; Child development; Family.

Introdução

De acordo com a abordagem gestáltica, a família é vista como uma totalidade  autorregulada, sendo inserida em outras totalidades e constituída pelos  indivíduos que a compõem, estando estes a todo tempo afetando e sendo  afetados uns pelos outros, em constante interação, buscando sempre a melhor  maneira de se autorregularem.  

Tendo em vista que para Gestalt-terapia o ser humano é único e relacional, é  importante destacar o contexto familiar como sendo de grande significado para  o desenvolvimento e o funcionamento da criança, considerando que este é o  primeiro contexto do qual ela faz parte, assim como sua importância nos  primeiros anos de vida.

Através de Zinker (2001), apresentaremos diferentes dinâmicas familiares,  como as famílias funcionais, tendo fronteiras fluidas e flexíveis, influenciando  positivamente no desenvolvimento da criança, assim como as famílias  retrofletidas – com fronteiras rígidas - e as famílias desorganizadas - com  fronteiras frouxas -, influenciando estas duas últimas negativamente neste  processo.

Sendo assim, o objetivo deste trabalho é apresentar o papel da família no  desenvolvimento da criança, promovendo a reflexão de que sua dinâmica de  funcionamento poderá influenciar no processo de desenvolvimento da mesma.  

A partir da pesquisa bibliográfica traçamos, então, uma discussão a respeito do  desenvolvimento infantil para assim apresentarmos como a família se faz  presente neste processo de acordo com a Gestalt-terapia.  

Desta forma, acreditamos que este trabalho trará subsídios teóricos e reflexões  para a prática de psicoterapeutas infantis e, também, para profissionais de  outras áreas que pensam e discutem o desenvolvimento infantil, tendo em vista  que muitas vezes o sintoma da criança é o revelador de entraves e dificuldades  no contexto mais amplo: a família.

Assim, este é um tema de grande importância, pois promove uma reflexão  sobre a realidade das experiências das crianças, esclarecendo que elas estão  ligadas ao meio externo, sendo influenciadas por ele e pelas relações fortes  que estabelecem, sendo enfatizado neste trabalho às do âmbito familiar.  

A abordagem gestáltica: uma breve apresentação da teoria.

Considerando que em Gestalt-terapia temos uma visão integral e não  fragmentada do homem, sendo esta embasada pelo holismo, Aguiar (2014) nos  diz que o ser humano é percebido como um ser global, como uma unidade.  Enquanto ser total, precisamos considerar suas características e os elementos  do campo no qual está inserido; isto significa compreendê-lo para além das  características isoladas, relacionando-as entre si e com a totalidade do campo mais amplo do qual o ser humano faz parte. Desta forma, quando uma parte é  afetada consequentemente a totalidade do indivíduo também será.

Como uma unidade indivisível, o homem se constitui a partir das relações que  estabelece com o mundo. Sendo este um processo contínuo e onde o campo e  seus elementos são fluidos e mutáveis, o ser humano é um constante vir a ser,  estando sempre em transformação e nunca estando pronto.

Assim, podemos afirmar que, além de global e relacional, o ser humano para a  Gestalt-terapia é implicado em seu contexto, sendo atravessado por inúmeros  elementos do campo do qual faz parte, afetando sua relação com o outro e  consigo mesmo.

Desta forma, acreditamos que além do indivíduo ser transformado pelo meio,  ele é totalmente ativo nesta dinâmica, sendo também transformador; ou seja,  assim como é influenciado pelo mundo, pode influenciá-lo e transformá-lo a fim  de que possa se tornar mais assimilável. Aguiar (2014) traz como exemplo a  própria criança, quando ainda é um bebê. Aparentemente um ser indefeso,  sem muitas capacidades de ação, sendo dependente do auxílio e cuidados do  adulto, porém, ele é totalmente ativo. A dependência do bebê gera um  desequilíbrio no campo familiar, necessitando de uma nova reconfiguração,  modificando toda a dinâmica de funcionamento da família e fazendo então com  que haja muitas transformações.  

Podemos observar que esta capacidade de ser ativo e passivo, de transformar  e ser transformado ao mesmo tempo, acontece de forma singular em cada  indivíduo. Com isto, vemos que para a Gestalt-terapia o ser humano é singular. Apesar de ter aspectos comuns, cada ser é absolutamente único. Contudo,  Costa (2002) acrescenta que não são os aspectos individuais que compõem o  homem que os define e lhes dá um significado específico e particular, mas sim  a organização de fatos, percepções, comportamentos ou fenômenos, o que nos  possibilita dizer que a singularidade desse ser total apresenta-se nesse todo e  não em características isoladas.

Assim, toda esta forma de ser-no-mundo do homem gestáltico é organizada  pelo que chamamos de autorregulação organísmica, na qual o ser humano  interage com o mundo no sentido de manter suas necessidades fisiológicas e  psicológicas, visando o melhor equilíbrio possível.

A família na perspectiva gestáltica

Como ser relacional, observamos que o primeiro meio no qual a criança se  apresenta em relação é o familiar. É neste primeiro contexto que ela é inserida  enquanto constituinte de um sistema, sendo convidada à interação e tendo seu  desenvolvimento influenciado por estas vivências de troca e construções  contínuas.

Em sua obra “A busca da elegância em psicoterapia”, Zinker (2001) descreverá  a família da seguinte maneira:

Um casal ou uma família é um sistema de indivíduos comprometidos  

a permanecer juntos por um extenso período de tempo, mantendo  

assim uma continuidade. [...] Além de meramente ficar juntos, um  

casal ou uma família estão comprometidos com tarefas conjuntas.  

Eles criam um lar juntos, criam filhos e interagem com sistemas  

maiores. Formam um subsistema dentro dos sistemas mais amplos  

da vizinhança, da cidade, do país e do mundo (ZINKER, 2001, p.74-

5).

Zinker (2001) irá dizer que independente da configuração familiar, existem  fronteiras ao seu redor, distinguindo e separando-as de outras famílias e outros  sistemas.  

Em Gestalt-terapia, quando nos referimos a fronteiras, estamos falando de  fronteiras de contato.  

O conceito de “contato” em Gestalt-terapia difere do sentido corriqueiro em que  esta palavra é usada em diferentes contextos. Segundo Silveira (2012), a  palavra “contato” define a troca existente entre indivíduo e ambiente,  considerando que organismo e meio são um todo indivisível. Sendo assim, a  autora diz que contato refere-se aos ciclos de encontros e retiradas no campo  organismo/meio. O contato ocorre entre duas realidades que estejam  disponíveis para o encontro, e quando o contato acontece um altera a natureza  do outro; podendo ocorrer de mim para comigo mesmo e de mim para com o  outro, sendo este outro humano ou coisa.

Contato em Gestalt-terapia, traz consigo mudança, transformação, crescimento  e ocorre dentro de um campo composto por partes ou regiões, implicando na  existência de delimitações ou fronteiras que chamamos em Gestalt-terapia de  fronteira de contato, sendo considerada uma fronteira entre eu mesmo e o  mundo.

Perls, Hefferline e Goodman (1997, p.43), apontarão que:

quando dizemos “fronteira” pensamos em uma “fronteira entre”; mas  

a fronteira – de – contato, onde a experiência tem lugar, não separa o  

organismo e seu ambiente; em vez disso limita o organismo, o  

contém e protege, ao mesmo tempo que contata o ambiente. Isto é,  

[...] a fronteira de contato – por exemplo, a pele sensível – não é tão  

parte do organismo como é essencialmente o órgão de uma relação  

específica entre o organismo e o ambiente.  

É a fronteira de contato que discrimina e limita o eu do não eu; é onde  acontece as trocas autorreguladoras, ocorrendo a seleção daquilo que é nocivo  e do que é nutritivo para o indivíduo, fazendo com que haja recusa ou  transformação do que vem do mundo para assim assimilarmos e integrarmos o  que for necessário para a volta do equilíbrio na relação organismo/meio.

O autor então abordou a noção de sistemas fechados e abertos, trazendo para  a perspectiva familiar, dizendo que os sistemas fechados seriam aqueles de  fronteiras rígidas e firmes, enquanto os abertos seriam os de fronteiras mais  fluidas e mais fracas. O que é igualmente explicado por Tellegen (1984)  quando diz que o sistema fechado é aquele que tem energia circulando dentro  de si mesmo, mas que por si só não mantém trocas de energia e de matéria  com o meio.  

Desta forma, podemos dizer então que, a família como sendo um sistema, têm  suas fronteiras rígidas e firmes ou fluidas e fracas, podendo ser sistemas  fechados ou abertos. O que definirá o tipo de sistema será a sua forma de  interação com o meio naquele determinado momento, constituindo-a como  funcional ou disfuncional.

De acordo com os tipos de fronteiras, Zinker (2001) nos apresenta alguns tipos  de famílias: as famílias funcionais, as retrofletidas e as desorganizadas. As  funcionais são aquelas de fronteiras fluidas e flexíveis, onde um ritmo gracioso  predomina, havendo solidariedade, unidade, mas também respeito de limites  para que a autonomia se desenvolva; sabem quando se aproximar e quando se  afastar de forma que estejam perto, mas não agarrados uns nos outros. As  famílias retrofletidas por sua vez, são aquelas com fronteiras impermeáveis,  duras e rígidas. Elas invertem a direção do fluxo, de forma que a energia fica  retida nela mesma, não sendo dirigida para o mundo mais amplo. Nestas  configurações dificilmente há privacidade, havendo superproteção e  consequentemente, não permite um senso de autonomia e independência.

Por fim, as famílias desorganizadas são as que têm as fronteiras muito frouxas,  não tendo nenhuma coesão. Elas geralmente têm séria perturbação do contato  e do apoio mútuo da família, e por conta disso, a comunidade tem uma fácil  intrusão. Os adultos deste tipo de sistema são aqueles que ficam separados  uns dos outros e das crianças, que por sua vez podem ser negligenciadas de  forma física e psicológica.

Entretanto, a noção de sistemas traz que as partes que os compõem estão  totalmente interligadas. Isso nos mostra que quando falamos de relações  familiares não podemos responsabilizar um único membro pela luta da família;  a dinâmica do sistema em si, num todo, é responsável pelas relações  funcionais ou disfuncionais. Zinker (2001, p.77) ainda acrescenta que “todas as  famílias vão desde o extremo da proteção mútua até a falta de atenção e senso  de alienação no outro extremo. Nenhuma família está sempre em equilíbrio  perfeito”.

Tendo em vista, então, que o equilíbrio se altera, Aguiar (2014) nos diz que a  perspectiva de totalidade autorregulada e relacional que a Gestalt-terapia  confere ao ser humano também é válida para nossa forma de perceber o grupo  familiar, assim como a noção de desenvolvimento contínuo da família,  considerando as sucessivas configurações sempre que há alteração no  equilíbrio do sistema.

Portanto, dizemos em Gestalt-terapia que a família é autorregulada e isso é de  grande importância no que se refere à criança, pois assim como os demais  membros se movimentam em prol da homeostase, a criança também influencia  e é influenciada por todas as partes e pelo todo, sendo ela muitas vezes o  ponto de equilíbrio para toda a dinâmica familiar.  

Assim, o comportamento da criança, ainda que incomode os pais,  

parece estar a serviço de um equilíbrio maior, o que na maioria das  

vezes não é percebido pela família. [...] Assim como o ser humano, a  

família desenvolve-se como totalidade em sucessivas  

reconfigurações com base em necessidades emergentes percebidas  

como um desequilíbrio momentâneo no campo. [...] A família, como  

totalidade, buscará a melhor forma possível de manter-se,  

obedecendo ao princípio da autorregulação e realizando  

ajustamentos criativos. Muitas lidarão de forma satisfatória com suas  

necessidades de equilíbrio, permitindo a manutenção do  

funcionamento saudável de cada um de seus membros. Outras, em  

busca de autorregulação, alcançam formas pouco ou parcialmente  

satisfatórias, fazendo que um ou mais membros sacrifiquem seu  

próprio funcionamento saudável em prol da manutenção da dinâmica  

familiar (AGUIAR, 2014, p.70-71).

Sendo assim, Silveira (2005) diz que se tratando de terapia familiar, um  sintoma então é encarado como expressão de uma disfunção no sistema.  Nesta visão, o indivíduo que apresenta algum sintoma, sendo chamado de  paciente identificado, é aquele que denuncia a doença do sistema familiar.

Apresentado aqui a noção de família para a Gestalt-terapia, falaremos agora  sobre o desenvolvimento infantil nesta abordagem assim como sobre a função  e a influência da família neste processo, sendo estas positivas ou negativas.

O desenvolvimento infantil e a influência da família neste processo.

Considerando a visão do homem na Gestalt-terapia, que foi explicitada  anteriormente, podemos dizer que sua visão de desenvolvimento se apresenta  diferentemente da tradicional, sendo esta última estabelecida como uma  linearidade na qual conteúdos universais e naturais fragmentam e reduzem o  homem em áreas ou marcos cronológicos.  

Aguiar (2014) diz que as teorias de desenvolvimento humano tendem a dar  ênfase a uma parte somente do funcionamento do homem, por exemplo, a  intelectual, a psicossocial ou a aprendizagem social, fazendo com que se  apresentem como “teorias da parte”. Já a Gestalt-terapia defende a visão do  todo no desenvolvimento e de como cada parte se relaciona e se articula.  Desta forma, assim como vemos em Ribeiro (1985), podemos dizer que a  Gestalt-terapia não separa o biológico do social, mas articula-os havendo uma  interação homem-mundo.

Sendo assim, o desenvolvimento para a Gestalt-terapia é ininterrupto nesta  interação, sendo uma relação caracterizada pelas possibilidades de ação e transformação do meio de forma que se ajuste da melhor maneira possível às  circunstâncias, se distanciando de uma característica de passividade.

Concordando com Costa (2002), toda esta interação se dá através do que  chamamos de autorregulação organísmica ou homeostase, fazendo com que  todo comportamento seja direcionado mediante às necessidades que surgem e  que precisam ser satisfeitas, buscando o equilíbrio e a melhor maneira de se  estar no mundo. Desta forma, Aguiar (2014) diz que este processo movimenta  o ser humano no mundo, abrindo espaço para aquisições e possibilidades de  transformação ao longo do tempo.

Frazão (1999) acrescenta ainda que o que possibilita esta interação do  indivíduo com o seu meio é o contato e a “awareness”, sendo esta última a  

capacidade de aperceber-se do que se passa dentro e fora de si no  

momento presente, tanto a nível corporal, quanto a nível mental e  

emocional. É a possibilidade de perceber, simultaneamente, o meio  

externo e interno, através de recursos perceptivos e emocionais,  

embora num determinado momento alguma coisa possa se tornar  

mais proeminente (FRAZÃO, 1999, p. 3).

Sendo assim, a autora afirma que para que haja essa percepção, a  “awareness”, é necessário haver contato, que como já descrito no capítulo  anterior, se dá através dos nossos sentidos, fala e movimento, e é uma das  condições básicas para o desenvolvimento, pois estando em contato a  mudança simplesmente acontece. Isso nos possibilita dizer que como o ser  humano está sempre em e fazendo contato, o desenvolvimento em Gestalt terapia não se restringe apenas a um período de tempo, ou até uma  determinada idade; o desenvolvimento é contínuo.

Quando falamos dessa interação do homem com o meio, trazemos também o  conceito de ajustamento criativo, onde em todo o tempo desse processo de  autorregulação, o organismo está se ajustando para que esteja em equilíbrio;  buscando sempre a melhor maneira possível no momento diante das situações  nas quais está inserido.  

Porém, Frazão (1999) nos diz que, no decorrer do desenvolvimento, a  satisfação de certas necessidades poderá rivalizar com a manutenção da  relação com o outro. Quando isto acontece, a pessoa, através do ajustamento  criativo, buscará formas diferentes de expressar suas necessidades, mantendo  ao mesmo tempo, a relação com o outro. Contudo, se essas tentativas  falharem, haverá conflito, de forma que o ajustamento, ao invés de ser  funcional, se tornará disfuncional e o funcionamento se tornará não saudável.

A escolha feita pela pessoa é sempre a escolha que aquela pessoa,  

naquela circunstância, com aquela experiência pôde fazer. A escolha  

feita foi em função de uma necessidade que considero absolutamente  

verdadeira e legítima: a de sobreviver psiquicamente, mantendo a

relação com o outro. [...] as respostas adaptativas necessárias à  

sobrevivência, que observamos em funcionamento não saudável,  

resultam de processos de autorregulação organísmica, são (em sua

origem) ajustamentos criativos e constituem aquilo que é possível

(FRAZÃO, 1999, p.7).

Desta forma, concordamos com Aguiar (2014) quando diz que o  desenvolvimento é caracterizado por este movimento de busca de equilíbrio, da  melhor maneira possível de configurar-se no mundo a cada momento, mesmo  que não seja a ideal ou totalmente satisfatória. A autora irá apontar que, deste  ponto de vista, os sintomas se configuram como tentativas de ajustamentos  criativos às condições do campo.

É através dos ajustamentos criativos, então, que a criança vai pouco a pouco  se constituindo, e se inserindo de forma cada vez mais ampla no mundo,  adquirindo recursos, assimilando, transformando, aprendendo e produzindo  coisas. Desta forma, podemos concluir que o desenvolvimento é uma sucessão  contínua de ajustamentos criativos e por consequência,  

a criança não é vista como um ser inacabado, imaturo ou imperfeito  

em contraposição a um indivíduo adulto maduro, desenvolvido,  

acabado; tampouco o desenvolvimento é visto como uma história de  

fases rumo a um objetivo final, mas como um percurso construído  

com momentos singulares sucessivos que são em si completos no  

aqui e agora de cada criança (AGUIAR, 2014, p.55).

Assim, podemos dizer que o desenvolvimento do ser humano se dá em  processo e não em períodos isolados e delimitados, onde uma sucessão  contínua de acontecimentos e vivências se dão no aqui e agora, possibilitando  experiências de crescimento.

Diante disso, Aguiar (2014) diz que este processo tem o seu início com a  indiferenciação entre o bebê e o mundo no qual ele está inserido, sendo um  período marcado pela total dependência da criança em relação ao adulto, mas  que vai caminhando para uma maior diferenciação e autonomia em relação ao  outro. Este processo de transferência do apoio ambiental para o auto-apoio, é o  que chamamos de autossuporte ou maturidade. Desta forma, vemos que “o ser  humano nasce em uma situação de total dependência do outro e  progressivamente adquire recursos para escolher aquilo que ele precisa do  outro e decidir de que forma e com que intensidade vai buscá-lo” (AGUIAR,  2014, p.56).

A mesma autora ainda afirmou que este caráter relacional do desenvolvimento  está presente desde a vida intrauterina, desde as transformações no organismo  da mulher e ao mesmo tempo no feto, que precisa do suprimento da mãe para  desenvolver-se até o meio nos quais estão inseridos, o que significa dizer que  até mesmo a gestação afeta todo o meio - família, trabalho, amigos etc. – e as  relações, sendo ao mesmo tempo afetada por estes.

Assim, a pré-história da criança é de tamanha importância quanto a sua história  relacional após o nascimento, pois a forma como ela foi recebida pelos adultos  e a configuração do campo a qual já estava inserida desde a gestação  encaminharão sua interação com o mundo. Desta forma, o bebê nasce já mergulhado no contexto maior de sua história de vida e experiências familiares,  que influenciarão as introjeções iniciais oferecidas a ele.

Antony (2010), então nos descreve esta introjeção inicial da seguinte forma:

A introjeção é o processo primário de internalização de crenças,  

valores e pensamentos transmitidos pelos pais, pela cultura e por  

outros ambientes significativos nos quais a criança vive. Pode  

interferir no desenvolvimento psicoemocional saudável e, se mal  

administrada, provocar distúrbios emocionais, produzindo uma  

inautenticidade do eu. A introjeção é uma mensagem que ouvimos  

sobre nós mesmos ou uma ordem que recebemos de nossos pais,  

desde criança, e “engolimos” sem assimilar. A criança inicialmente  

não tem consciência reflexiva desenvolvida que lhe dê a capacidade  

de digerir, significar, elaborar conceitos, normas, valores e  

imposições parentais. Ela tende a não questionar ou discriminar a  

validade dessas mensagens; não tem a habilidade cognitiva de  

pensar: “Isso não tem a ver comigo, isso não combina comigo ou isso  

tem a ver comigo” (ANTONY, 2010, p.92).

Posto isto, podemos dizer que este momento das introjeções iniciais é de  grande importância no desenvolvimento. São elas que, segundo Zanella (2010)  interferem e atualizam o desenvolvimento do bebê. Além de muito importante,  este é um processo muito delicado, tendo em vista que ainda não existe a  capacidade de elaboração e reflexão nos primeiros anos da criança.  

Segundo Ranaldi (2010), a criança vai recebendo e decodificando, do seu  modo, mensagens sobre si mesma que vão sendo introjetadas. Muitas vezes,  os autoconceitos que surgiram como consequência de introjeções advém de  palavras e frases ditas com certa frequência por pessoas significativas para  esta. Entretanto, por outras vezes também podem surgir de conclusões tiradas  pela própria criança referente às situações vividas.  

Sendo assim, a criança utiliza o mecanismo da introjeção como um instrumento  para adquirir conhecimentos, informações, normas, etc. e ao mesmo tempo ela  está completamente imersa no campo fazendo contato direto com tudo o que a perpassa. Desta forma, a criança, sem ainda muita aquisição de filtrar aquilo  que vem do meio, também introjeta aquilo que o campo está dizendo ao seu  respeito. Tomemos o exemplo trazido por Brito e Antony (2010) sobre a criança  abrigada que, geralmente, foi rejeitada desde a gestação. Ela entra em contato  com a dor da rejeição muito cedo e vive essa realidade por muito tempo. Ao  longo de seu desenvolvimento, ela carrega essa dor, confirmando sempre a  ideia de que não merece o amor do outro e passa a se comportar de forma que  os outros a rejeitem, provocando para que a tratem mal, pois acredita que é  merecedora de ódio.

Com isto, podemos perceber que as introjeções vão demarcando o  comportamento da criança, influenciando de forma muito direta sua forma de  ser-no-mundo.  

Pensando nas famílias com fronteiras rígidas e com fronteiras frouxas,  podemos pontuar que, na primeira, as introjeções iniciais presentes no início da vida vão dando contorno à criança, proporcionando segurança no que diz  respeito a receber normas, valores. Contudo, mediante a rigidez de sua  fronteira, este movimento poderá se cristalizar, se tornando disfuncional. Neste  caso, a criança permanece engolindo o que lhe é apresentando, não havendo  possibilidade para discriminação.

Já nas famílias com fronteiras frouxas, podemos observar que estas introjeções  iniciais se apresentam de forma fragilizada, onde muitas vezes há pouco  diálogo entre si, dando espaço para que outras relações assumam este papel e  influenciando diretamente no contorno que esta criança terá.

Assim também, Aguiar (2014) nos aponta que o bebê nasce com poucos  recursos para lidar com as demandas do mundo, fazendo-o completamente  dependente de outro neste primeiro momento. Com isto, estabelece uma  relação marcada pela indiferenciação com este outro significante, sendo a mãe  ou quem exerce essa função materna, que por sua vez terá a responsabilidade  de suprir as necessidades do bebê e de apresentar-lhe o mundo. Essa  dependência e indiferenciação, presentes no princípio, chamamos de  confluência inicial. Com isso, Antony (2006, p.4) diz:

O nascimento dá início ao drama da união/separação que constitui a  

“Gestalt” original inacabada. Antes de se separar do corpo acolhedor  

da mãe, o bebê esteve em um estado de fusão ou conexão quase  

absoluto, de dependência do organismo da mãe que tem a função de  

filtro emocional e nutricional das experiências do bebê. Ao nascer,  

rompe esse estado de confluência biológica primária, porém  

permanece a confluência psicológica, a indiferenciação entre eu - não  

eu, onde não há a consciência da existência psíquica de si mesmo ou  

do outro.

De acordo com Aguiar (2014), esta confluência inicial, aos poucos vai  possibilitando a construção de uma diferenciação através das introjeções  oferecidas ao bebê sobre o que é o mundo, quem é ele e quem é o outro. No  primeiro momento ele introjeta praticamente tudo, sendo um processo muito  importante e fundamental para o estabelecimento de um sentido de  organização, segurança e apreensão do mundo. Estas introjeções constituem  um conhecimento de si e uma noção de eu no mundo que está em relação com  o outro. Com a função organizadora que os cuidadores assumem, dizendo a  hora de dormir, de comer, o que é certo ou errado, vai se construindo esta  diferenciação e a criança vai aprendendo a internalizar sua possibilidade de  autorregulação. Ou seja, aos poucos vai estabelecendo um limite entre ela e o  outro, entre o que é dela e o que não é dela, se percebendo como um ser  separado do outro, com suas próprias necessidades e meios para supri-las.

Um ponto de muita importância para que aconteça a diferenciação entre a  criança e o outro é a possibilidade da discriminação. A criança que introjetava  tudo sem assimilação e reflexão, passa a avaliar o que vem de fora e descobre  que não precisa aceitar tudo que vem do mundo ou dos adultos, que algumas  coisas têm a ver com suas necessidades ou com aquilo que deseja, mas outras  não.

Conforme nos aponta Polster e Polster (2001, p.86-87):

A criança aceita qualquer coisa que ela não experimente rapidamente  

como nociva. Ela pode aceitar sua comida sob a forma em que lhe é  

oferecida ou pode cuspi-la. No início, não pode refazer a substância  

para que esta lhe seja mais adequada, como fará mais tarde quando  

começar a mastigar. Quando ela pode mastigar, aprende como  

reestruturar aquilo que entra em seu sistema. Entretanto, antes disso,  

ela engole confiantemente o alimento que lhe é proporcionado – e de  

um modo similar, engole também as impressões da natureza de seu  

mundo.

Partindo da perspectiva dos Polster, Aguiar (2014) nos apresenta dois tipos de  discriminação que, sendo permitidos e facilitados pelo ambiente, serão  fundamentais para o desenvolvimento da autonomia, de uma boa autoestima,  da capacidade de escolha e da responsabilidade: “a discriminação reativa e a  discriminação criativa”. A primeira, a autora assemelha ao cuspir, consistindo  em rejeitar aquilo que vem de fora e é percebido pela criança como não  assimilável ou não estando de acordo com suas necessidades. Nos primeiros  meses isso acontecerá de forma não verbal, como por exemplo, cuspindo a  sopinha. Mais tarde, verbalmente com negações e confrontos, dizendo os  “nãos” como forma de marcar suas necessidades singulares e afirmando sua  diferenciação do resto do mundo.  

A segunda, discriminação criativa, é a fase que se sucede à primeira, na qual a  criança vai crescendo e percebendo que algumas coisas são importantes para  ela, mas que talvez precisem ser modificadas, pois não servem totalmente da  forma como lhes foram apresentadas. Nesse momento, então, a criança passa  do engolir/cuspir para o ato da mastigação, experimentando a possibilidade de  transformar, recriar, negociar, não engolindo tudo por inteiro; transformando o  que vem do meio de modo que se torne nutritivo e satisfaça as suas  necessidades.

Aguiar (2014) nos aponta que a família assume o papel daquele que confirma o  ser humano em sua especificidade, possibilitando desta forma a sua  diferenciação com o outro. Ao mesmo tempo em que a família tem a tarefa de  acolher, satisfazer e oferecer proteção àqueles que a constitui, ela também  assume a tarefa de frustrar, aceitar as diferenças e facilitar o desenvolvimento  da autonomia.

Por esta razão, quando uma criança não estabelece vínculos familiares, ou  vínculos que supram o papel da família, Antony (2006) diz que geralmente elas  usarão o mecanismo da confluência pela necessidade de dependência,  cuidado, proteção, fazendo com que haja uma confusão de fronteiras entre ela  e o outro.  

Desta forma, Aguiar (2014) aponta que nas famílias onde não há coesão  alguma, com ausência do apoio mútuo entre os membros – famílias com  fronteiras frouxas, como explicado anteriormente – geralmente as crianças  ficam desprotegidas e precisam sobreviver com poucos recursos. Costuma-se  observar que essas

[...] crianças ficam famintas de atenção dos amigos, dos professores  

e dos vizinhos. Em alguns casos, tentam chamar a atenção roubando  

ou, de algum outro modo, pegando aquilo que não lhes pertence.  

Elas podem receber atenção por intermédio de ações disciplinadoras  

na escola ou de policiais. Seus sentimentos estão profundamente  

enterrados e suas fronteiras individuais não são facilmente acessíveis  

(ZINKER, 2001, p.80).

Por outro lado, também vemos em Antony (2014) famílias que estão  polarizadas na confluência, nas quais a diferença não tem lugar e por isso não  há possibilidade de troca. Sobre estas, Zinker (2001) irá dizer que as crianças  comumente poderão ter fobias escolares, dificuldade para sair de casa, casar se ou ir para faculdade, por exemplo.  

Estas famílias, se tendo suas fronteiras rígidas, possui o heterossuporte muito  fixado, possibilitando sentimentos de insegurança. Nas famílias com fronteiras  frouxas, essa confluência inicial que traz segurança neste primeiro momento,  muitas vezes é experimentada com muita fragilidade. Estas crianças possuem um heterossuporte muito fragilizado vindo da família, levando-as a buscar em  

outros meios e proporcionando possivelmente, também, o sentimento de  insegurança.

Outro elemento crucial neste processo de diferenciação é a vivência de limites,  entendendo-os não como imposições arbitrárias dadas em uma relação de  poder e autoritária, mas sim como forma de estabelecer um parâmetro de  mundo e de possibilidades de relação, trazendo segurança e certa  previsibilidade para a criança acerca do que pode enfrentar no mundo. Sendo  assim, o limite dá contorno, permitindo que a criança se diferencie do meio.

Considerando tudo isto,  

ao enfatizarmos a importância dos limites no desenvolvimento do ser  

humano, é fundamental destacarmos a necessidade de equilíbrio ao  

oferecê-los, uma vez que o excesso de limites pode ser dificultador,  

em especial no que diz respeito ao desenvolvimento de autonomia, à  

capacidade de escolha e à resolução de problemas. Seu inverso é  

igualmente desastroso, contribuindo para crianças perdidas,  

inseguras e com uma noção equivocada do mundo, das pessoas e  

dos seus direitos e deveres (AGUIAR, 2014, p.65).

Ou seja, a vivência de limites nas famílias com fronteiras rígidas, pode se dá  em excesso, dificultando a autonomina e o desenvolvimento do autossuporte.  Nas famílias com fronteiras frouxas, a falta de limites, pode ocasionar crianças  perdidas, inseguras, podendo se colocar em situações de risco.

Sobre o papel confirmador que a família ocupa, é fundamental que a criança  seja confirmada como um todo, incluindo seus sentimentos e necessidades.  Como bem nos aponta Aguiar (2014), a confirmação se difere da aceitação, no  sentido de que confirmar, por exemplo, um sentimento de raiva não significa  aceitar a forma como essa raiva será expressa, quebrando objetos, batendo,  etc. A grande tarefa do adulto neste momento é então confirmar o sentimento  da criança, possibilitando-a perceber que é um sentimento como qualquer outro e ajuda-la a encontrar formas satisfatórias e adequadas de acordo com seu  contexto para que ele seja expresso.  

Ao contrário disso, quando o adulto critica e pune a criança por tal sentimento,  a mesma se sente má, inadequada e sem formas de expressá-lo, recorrendo a  mecanismos de evitação de contato e por vezes fazendo ajustamentos criativos  que mais tarde, se cristalizados, se tornarão disfuncionais, produzindo  possivelmente padrões de contato não nutritivos, como nos alerta Antony  (2006).

Neste aspecto, tanto nas famílias com fronteiras rígidas ou frouxas pode não  haver confirmação; na primeira, não se tem espaço para diferenciação, logo,  não há confirmação das necessidades pessoais, sentimentos e singularidade  

do sujeito, neste caso, da criança. Nas famílias com fronteiras frouxas,  geralmente a forma de se olhar para as necessidades singulares acontece de  forma fragilizada, quando se acontece, não havendo muitas vezes relações de  identificação uns com os outros, o que seria muito importante; porém, é cada  um por si, não havendo confirmação na maioria das vezes.

Considerações Finais

A partir da pesquisa bibliográfica realizada, vemos que a Gestalt-terapia traz  consigo a visão de que o homem é um ser de relação, que constitui e é  constituído pelas trocas com o seu meio, sendo este o campo no qual está  inserido. Desta forma, podemos ver que nesta abordagem o ser humano é visto  como um ser total, holístico, fazendo com que o olhemos para além da  individualidade, considerando sempre o seu contexto e os elementos  pertencentes a este, pois em todo momento o homem é atravessado por eles,  portanto, é através do contato com este campo e consigo mesmo que vamos  nos constituindo, buscando sempre o equilíbrio do organismo, visando a  autorregulação.

Podemos concluir, assim, que a família permeia este processo de  desenvolvimento do ser humano, tendo em vista que este acontece de forma  ininterrupta na interação homem-mundo. Especialmente na infância onde o  apoio ambiental é de fundamental importância, as relações que se dão dentro  deste sistema influenciarão de diferentes formas os comportamentos, os  ajustamentos criativos realizados e de um modo geral quem a criança está  sendo no aqui-agora, tendo em vista que ela faz parte deste todo, constituindo  e sendo constituída.

Dizemos então que o ser humano se autorregula baseado nas trocas  ambientais que realiza e, por isso, o tipo de relação entre a pessoa e o seu  meio determinará seus comportamentos e orientará a formação da sua  personalidade da forma que for possível no momento.

Posto então que as relações familiares influenciam diretamente este processo,  o sintoma da criança representa uma figura que se destaca de um fundo, de um todo – família - desorganizado e desarmonizado, sendo a “doença” da  criança a doença da família.

Assim sendo, podemos dizer que os pais podem influenciar diretamente a  personalidade de seus filhos quando projetam neles suas necessidades, suas  situações inacabadas, buscando reviver e fechar essas “gestalten” na relação  com os próprios filhos. A consequência disto é que muitas vezes a criança  introjeta estas “gestalten”, podendo se acomodar às necessidades dos pais e  deixando as suas de lado, em busca de satisfazê-los.  

Por fim, lembramos novamente que ninguém adoece sozinho. O mundo nos  adoece e nós adoecemos o mundo, pois somos seres relacionais. Sendo  assim, a falha muitas vezes não está apenas nos cuidadores ou na criança,  mas na dinâmica do sistema familiar, algo na forma de funcionamento que está  agindo de forma a gerar ajustamentos disfuncionais, interrompendo ou  bloqueando contatos e, por consequência, colocando sob ameaça a relação  familiar.

Concluímos essa reflexão, então, com as palavras de Antony (2006, p.6):

Após longa prática clínica, passei a considerar que as doenças  

psicológicas são doenças do AMOR: da falta de amor, do excesso de  

amor, do amor possessivo e egoísta, do amor deformado que gera o  

medo de amar e ser amado.

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NOTAS

Letícia Vieira de Souza - Graduada em Psicologia pela Universidade Federal  Fluminense; Pós-graduada em Gestalt-terapia Clínica pela Universidade Veiga  de Almeida.

Endereço de correspondência

Letícia Vieira de Souza

E-mail: leticiapsi.contato@gmail.com

Recebido em: 04/07/2017

Aprovado em: 11/10/2019

Revista IGT na Rede, v. 15, nº 29, 2018, p.265-280 DOI 10.5281/zenodo.15058563

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526