ARTIGO

A Construção do Vínculo Terapêutico: Uma reflexão sob a  perspectiva gestáltica

The Construction of the Therapeutic Link: a reflection from the Gestalt  perspective

Edilza Wanderleia da Silva Queiroz

RESUMO  

O presente artigo busca promover uma reflexão sobre a construção do vínculo  terapêutico nas sessões iniciais do processo de terapia de grupo, ressaltando a  importância das mesmas para este fim. São abordados alguns elementos, entre  tantos outros, a serem observados pelo psicólogo nesta etapa do trabalho  terapêutico. São comentados subtemas como: o contrato, a postura terapêutica, a  presença terapêutica, a postura fenomenológica e a valorização do potencial do  cliente. Por fim, nas considerações finais, são tecidos comentários sobre a atuação  do psicólogo no trabalho com grupos.

Palavras-chave: Psicoterapia de grupo; Relação terapêutica; Vínculo terapêutico;  Gestalt-terapia.

ABSTRACT

The present article seeks to promote a reflection on the construction of the  therapeutic bond in the initial sessions of the process of group therapy, emphasizing  the importance of the same for this purpose. Some elements are addressed, among  many others, to be observed by the psychologist in this stage of therapeutic work. Subtopics are discussed as: the contract, the therapeutic posture, the therapeutic  presence, the phenomenological posture and the valuation of the potential of the  client. Finally, in the final considerations, comments are made on the performance of  the psychologist in working with groups.

Keywords: Group psychotherapy; Therapeutic relationship; Therapeutic link; Gestalt  therapy.

INTRODUÇÃO

O atendimento psicoterápico, em geral, constitui um desafio permanente ao  psicólogo, seja ele iniciante ou não. Entretanto, comparativamente, pode-se afirmar  que, na maioria das vezes, o atendimento a grupos terapêuticos requer um preparo  mais específico do que os atendimentos individuais. Isto se deve ao fato de que, no  grupo terapêutico, os fenômenos tendem a ser mais complexos, até por serem mais  numerosos, o que implica um número maior de variáveis a serem observadas,  requerendo do psicólogo uma atenção maior a esta modalidade de atendimento. A  este respeito, Vinogradov (1992, p.3), afirma o seguinte:

[...] Na terapia de grupo, [...] tanto as interações paciente-paciente quanto  

as interações terapeuta-paciente são usadas, à medida em que ocorrem no  

“setting” do grupo, para efetuar mudanças no comportamento mal-adaptado  

de cada um dos membros do grupo. Em outras palavras, o próprio grupo,  

bem como a aplicação de técnicas e intervenções específicas pelo  

terapeuta treinado, servem como instrumento de mudança. [...].  

Desta forma, conforme pontua Vinogradov na citação acima, tudo o que ocorre no  “setting” terapêutico pode promover mudanças, tanto as interações do grupo,  membros do grupo e psicólogo, quanto as intervenções e os recursos utilizados pelo  profissional no decorrer do seu trabalho. O psicólogo, então, precisa se preparar  para lidar com os desafios de cada encontro, trabalhando a partir dos fenômenos  que forem surgindo e, assim desenvolver seu trabalho da melhor forma possível.  Ribeiro (1994, p.40-41), afirma que para lidar com a complexidade do trabalho com  grupos, o profissional precisa ter sempre o sentimento de perplexidade e incerteza.  É fundamental manter o espírito de curiosidade durante todo o processo terapêutico.  Neste contexto, coloca o referido autor:

O grupo nos surpreende a cada instante. Sua motilidade e energia  

ultrapassam nossa capacidade de controle. A posição básica do terapeuta é  

aquela de observação paciente, da intervenção cuidadosa, da leitura  

humilde e comparticipada.  

Trabalhar com grupos é trabalhar com uma diversidade de fenômenos simultâneos a  cada encontro. O psicólogo precisa ter habilidade para transitar neste terreno que,  além de desafiador, sem dúvida, é um terreno muito fértil e cheio de possibilidades.

JUSTIFICATIVA DO TEMA

Inicialmente, cabe esclarecer que, contrariando as normas científicas quanto ao uso  da primeira pessoa do singular, optei por fazê-lo pelo caráter pessoal das  experiências relatadas e por considerar este caminho necessário à construção do  texto ora apresentado.

Minha primeira experiência com grupos ocorreu entre 2004 e 2005, no curso de  graduação em Psicologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ),  onde como parte prática do referido curso, trabalhei com grupos íntimos1 além de  atender casais e famílias a partir do referencial da Gestalt-terapia. Desde então,  comecei a me interessar pelo trabalho com grupos. Após a graduação, visando  aprofundar meus conhecimentos em Gestalt-terapia, ainda em 2005, fiz o Curso de  Psicologia Clínica: Uma Abordagem Gestáltica, promovido pelo Instituto de  Psicologia da UERJ (CEPUERJ), com a Professora Teresinha Mello da Silveira,  concluindo o mesmo em 2007.

Em 2008, já buscando me preparar para o trabalho com grupos, fiz o curso  “Treinamento para Coordenação de Grupos” no ICGT - Instituto Carioca de Gestalt terapia, onde pude obter um conhecimento geral sobre este modelo de atendimento.  Porém, o interesse pelo tema abordado no presente artigo surgiu a partir da  experiência vivida no atendimento a grupos terapêuticos, em 2012, como parte  prática do Curso de Especialização em Psicologia Clínica – Gestalt-Terapia  (Indivíduo, Grupo, Família), no IGT - Instituto de Gestalt-Terapia e Atendimento  Familiar2.  

Neste período a questão da importância do vínculo nas primeiras sessões dos  atendimentos de grupo sempre ficou muito presente. Neste estudo é considerado o  conceito de vínculo, coerente com o dicionário Aurélio, como tudo que ata, liga ou  aperta, ou seja, vínculo como aquilo que dá a liga na relação grupal, principalmente  no contexto específico do grupo acompanhado, em que contava com mais duas  psicólogas como coterapeutas na condução do mesmo.  

Diante do fenômeno da evasão de clientes atendidos no IGT, nos primeiros  encontros do grupo e vivendo a frustração da descontinuidade do processo  terapêutico, comecei a me indagar, consciente das múltiplas variáveis do campo,  sobre a atuação do psicólogo nesta fase inicial. As experiências vividas foram muitas  e impactantes. Todavia, ao buscar material que abordasse este tema verifiquei que  existiam poucos registros referentes às primeiras sessões de atendimento de grupo  na abordagem gestáltica. Diante desta lacuna, refletir, aprofundar e compartilhar  sobre o que foi vivido me instigou a escrever este artigo.

Desta forma, o presente estudo se justifica por abrir um espaço de reflexão sobre a  atuação do psicólogo na formação de um grupo terapêutico, enfocando a construção  do vínculo e a importância das primeiras entrevistas neste processo. Neste estudo,  pretende-se abordar os riscos e as possibilidades dessa caminhada.

OBJETIVO

  

1 Sistemas íntimos, na definição de Zinker (2001) : “todo sistema de inter-relacionamentos que se  constrói entre pessoas com relações marcadas pela continuidade.”(p.12). No IGT, este conceito foi  ampliado para grupos íntimos.

2 Ao longo de todo o artigo será usado a sigla IGT para fazer referência a este Instituto

Discutir a importância das sessões iniciais na construção do vínculo terapêutico,  visando contribuir para a instrumentalização do psicólogo no atendimento de grupos.  

METODOLOGIA

Este artigo foi elaborado através de uma breve revisão bibliográfica, tendo como  referencial teórico a abordagem gestáltica. O estudo se baseou em textos da  bibliografia do Curso de Especialização em Psicologia clínica do IGT3; em textos da  bibliografia do Curso de Psicologia Clínica: Uma Abordagem Gestáltica, promovido  pelo Instituto de psicologia da UERJ (CEPUERJ); em livros da biblioteca pessoal.  Também foram consultados artigos científicos selecionados por meio de busca no  banco de dados do Scielo. A pesquisa foi realizada considerando os últimos 10  anos. A busca no banco de dados foi realizada através das palavras-chaves: vínculo  terapêutico e Gestalt-terapia.  

O artigo é dividido em quatro tópicos: No primeiro tópico é apresentado um breve  relato sobre a experiência de atendimento de grupo que atendi no IGT. O segundo  tópico aborda a primeira entrevista no processo grupal e o vínculo terapêutico. O  terceiro tópico aponta alguns fatores importantes para a construção do vínculo  terapêutico: a) contrato, b) postura acolhedora, c) presença terapêutica d) postura  fenomenológica, e, e) valorização do potencial do cliente. Por último, são  apresentadas as considerações finais.

A EXPERIÊNCIA DA CONSTRUÇÃO DO GRUPO TERAPÊUTICO  

O atendimento de grupo no IGT se dá em coterapia. Cada turma do curso de  Especialização, após um período de preparação, se divide em duplas para  realizarem os atendimentos. Entretanto, a experiência da turma 15, da qual fiz parte,  se deu de outra forma. A turma era composta de cinco alunas. No momento de  iniciar o trabalho com grupos houve duas desistências. Diante da nova configuração  da turma, a formação das duplas ficou inviável. Foi quando o Coordenador do curso,  Marcelo Pinheiro, sugeriu o modelo de equipe reflexiva4 para o trabalho com grupo  terapêutico.

Assim sendo, este atendimento se deu em coterapia, utilizando o modelo de equipe reflexiva, no qual duas psicólogas permaneciam no campo e uma na sala de  espelho. Todas atuavam nas sessões, sendo que a terapeuta da sala de espelho,  quando desejava fazer alguma intervenção, interfonava e a questão era colocada  para o grupo. Algumas vezes, no decorrer da sessão, ela pedia para entrar e, então,  no momento próprio, entrava no campo e as três psicólogas conversavam sobre os  fenômenos ocorridos durante a sessão. Finalizada a conversa, a terapeuta da sala  

 3 Especialização em Psicologia clínica – Gestalt-terapia (Indivíduo, Grupo e Família) 4 Para maior conhecimento sobre o modelo de equipe reflexiva, sugere-se a leitura da monografia:  “Equipe reflexiva, quais as diferenças que criam diferenças? De Marcelo Pinheiro da Silva, Revista  IGT na Rede, Rio de Janeiro, RJ, v.2, n.3, 2006, Disponível em:  

http://www.igt.psc.br/ojs/viewarticle.php?id=51. Acesso em 20/07/2012.

de espelho saia e o grupo era convidado a conversar sobre o que foi falado pela  equipe terapêutica e como viveu aquele momento.

O atendimento de grupo durou 18 meses. Acompanhar e participar do  desenvolvimento do grupo foi uma experiência muito rica. Alguns clientes  permaneceram durante todo o período de atendimento; outros, porém, apesar de  todo interesse inicial, compareceram em algumas sessões e desapareceram sem  qualquer explicação, deixando as psicólogas com algumas interrogações sobre as  possíveis causas da desistência. Embora existam muitas variáveis no campo que  interferem nesta questão e cada cliente tenha seu tempo e faça suas escolhas,  existe algo que é também do psicólogo, e ainda algo que é resultante da relação  entre os membros do grupo e, em especial, entre o grupo e o psicólogo, sem o qual  a terapia propriamente dita não ocorre – o vínculo terapêutico.  

A partir desta experiência, fiquei me perguntando sobre a prática clínica do  psicoterapeuta, no que diz respeito a sua participação na construção do vínculo  terapêutico no início do trabalho com um grupo. Como o psicólogo pode trabalhar  este terreno, ainda desconhecido, para que o solo se torne propício ao  desenvolvimento do grupo? A primeira entrevista marca o início da psicoterapia. A  seguir será abordado o tema da primeira entrevista para o início do processo  terapêutico de grupo.  

A PRIMEIRA ENTREVISTA NO CONTEXTO DA TERAPIA DE GRUPO E A  FORMAÇÃO DO VÍNCULO TERAPÊUTICO

No início de toda relação, na maioria das vezes, as pessoas vão se apresentando e  se dão a conhecer aos poucos. Cuidadosamente vão arriscando novos passos  procurando observar até onde podem ir. Na psicoterapia não é diferente. Nos  primeiros encontros, psicólogo e cliente têm a oportunidade de iniciar uma relação  que poderá ser duradoura ou não, na medida em que ambos se sentirem  energizados o suficiente para investir nela. Silveira (1997, p.13) destaca o início  desta relação afirmando que:

As primeiras entrevistas são momentos de conhecimento e escolha mútua  

em que o cliente se apresenta pelos seus motivos, queixas, questões e  

história de forma peculiar, e o terapeuta se mostra pelo seu estilo pessoal,  

sua indumentária, seu escritório de atendimento e suas formas de intervir.  

As primeiras entrevistas são também momentos de acolhimento e  

preparação para o vínculo que começa a se fazer. A forma de presença do  

terapeuta é, portanto, fundamental para o tipo de relacionamento que vai  

acontecer.

De certo modo, apesar da participação do cliente neste processo, pode-se dizer que  o psicólogo tem uma grande responsabilidade no tom desta nova relação. Estarque  Pinheiro (2007, p.138) afirma que “[...]. A primeira entrevista é a porta de entrada, o  

‘cartão de visitas’ do terapeuta para seus clientes”. Desta forma, além do preparo  teórico, o psicólogo precisa ter um cuidado especial nesta etapa da psicoterapia.

A construção do vínculo terapêutico é fundamental para o desenvolvimento do  trabalho. Daí a importância da primeira entrevista na clínica, que é o momento inicial  da construção do suporte daquela relação. Cabe aqui esclarecer que, conforme  salienta Júnior (1995, p.56), em Gestalt-Terapia, a primeira entrevista corresponde a  todos os encontros iniciais que ocorram até que o psicólogo possa ter uma  percepção geral da dinâmica do seu cliente, do seu modo de funcionar no mundo,  ou seja, “a totalidade do seu padrão de interação no campo organismo-meio  ambiente, o que inclui os pontos de fluidez e os pontos de interrupção nesta  dinâmica”.  

Em seu artigo, o autor divide a primeira entrevista em três etapas: a) Estabelecendo  o vínculo; b) Explorando os dados e c) Delineando uma percepção diagnóstica,  sendo a primeira, o estabelecimento do vínculo, o pilar para as demais, devendo, por  esta razão ser priorizada pelo psicólogo. A este respeito, Júnior (1995, p.56) afirma o  seguinte:

O que justifica o terapeuta priorizar o estabelecimento de vínculo no início  

da Primeira Entrevista é o fato de que, sem este, a exploração de dados fica  

seriamente prejudicada e consequentemente, também a delineação  

“diagnóstica”, pois sem vínculo o cliente não traz dados de forma clara e  

ampla, tornando-se difícil a obtenção de um fechamento “diagnóstico”, e  

assim a efetivação de uma Primeira Entrevista.  

Sem o estabelecimento do vínculo terapêutico, a relação cliente/psicólogo fica muito  vulnerável, o que, provavelmente, levará à desistência por parte do cliente.  Entretanto, a construção do vínculo não é tarefa simples e, embora o mesmo seja  construído na relação cliente/psicólogo, cabe a este, como profissional conduzir este  processo.  

Ribeiro, (1994, p.88), aponta que, na maioria das vezes, os clientes não se  encontram pela primeira vez no grupo com o psicólogo. De alguma forma tiveram  algum contato anterior, seja em entrevistas ou quando são provenientes da terapia  individual. Segundo o mesmo autor “o terapeuta não deveria encontrar o cliente pela  primeira vez no grupo. Um encontro prévio com o terapeuta dá a sensação de  segurança ao cliente, sentimento este fundamental para se iniciar um grupo”.  

No grupo atendido no IGT, nos dividíamos para fazer as entrevistas iniciais, onde  cuidávamos do acolhimento inicial, de modo que cada cliente tinha contato com,  pelo menos, umas das psicólogas antes do início da terapia de grupo. Entretanto,  nem sempre é possível trabalhar dentro do ideal. Há alguns casos, como ocorre em  algumas instituições ou empresas, que o psicoterapeuta encontra com o cliente na  primeira sessão do grupo. Seja como for, o primeiro encontro de um grupo é  totalmente imprevisível. Ribeiro (1994, p.88) descreve muito bem a complexidade  deste momento:

É sempre um momento emocionante o primeiro encontro. Fantasias,  

medos, insegurança, incerteza, sensação de ser inadequado e doente  

perpassam quase que necessariamente a mente dos membros do grupo.  

Olhares fugazes, contatos rápidos e superficiais, risos nervosos, falas  

compulsivas e brincadeiras são comuns no primeiro momento.

Além disto, existem também as fantasias, os medos e a insegurança do psicólogo,  que, se não forem bem administrados, podem prejudicar muito o seu trabalho.  Segundo Tellegen (1984, p.71), “quem trabalha com grupos, [...], dificilmente  escapa, de tempos em tempos, a um sentimento de perplexidade diante da  imprevisibilidade dos eventos com os quais se vê confrontado”. Assim sendo, o  psicólogo precisa estar atento para lidar com o desconhecido.

Neste contexto, a primeira entrevista é de extrema importância para viabilizar o  processo terapêutico. Os primeiros encontros são o tempo existencial do grupo para  a construção da confiança no grupo e no terapeuta. É o momento próprio para a  construção do vínculo terapêutico. Como afirma Ribeiro (1994, p88), “O terapeuta  precisa de toda sua sensibilidade, competência e presença no primeiro momento.  Os primeiros momentos são decisivos para a vida do grupo”. Seja no atendimento  individual ou de grupo, a primeira entrevista é essencial ao trabalho terapêutico e,  como tal, deve ser alvo de muita atenção de todo psicoterapeuta.  

O que deve ser observado pelo psicólogo para que ele consiga construir este elo no  início do grupo terapêutico? No presente estudo são destacados alguns elementos  fundamentais para a construção do vínculo terapêutico, citados por, pelo menos,  dois autores da literatura consultada. São abordados os seguintes fatores: o  contrato, a postura acolhedora, a presença terapêutica, a postura fenomenológica e  a valorização do potencial do cliente.

ELEMENTOS FUNDAMENTAIS PARA A CONSTRUÇÃO DO VÍNCULO  TERAPÊUTICO

A construção do vínculo terapêutico não depende única e exclusivamente do  Psicólogo, mas depende também do cliente. Entretanto, o psicólogo, na relação  terapêutica, tem maior responsabilidade e possibilidade de facilitar este processo.  Para tanto, alguns elementos são fundamentais:

1 - O contrato

Estabelecer um contrato é o ponto de partida do processo psicoterapêutico. Através  do contrato são estabelecidos os limites da relação que se inicia, onde o cliente  (individual, família, casal ou grupo) e o psicólogo, se comprometem com o trabalho.  Tellegen (1984, p.77) destaca o papel do terapeuta na condução de um grupo e a  importância do contrato colocando:

[...], o terapeuta sempre tem uma função reguladora frente ao grupo e frente  

à instituição, na demarcação destas fronteiras que podemos chamar de  

contratuais. A explicitação do contrato equivalente a uma delimitação inicial  

de um “dentro” e um “fora” que asseguram a identidade do grupo enquanto  

sistema. E seja qual for o iniciador do grupo, o estabelecimento de um  

contrato inicial é, em si, um processo dinâmico de um acordo funcional  

básico onde já se delineiam questão de poder. Quanto mais claro o contrato  

inicial, melhor. [...].  

Silveira (1997, p.13-14) também aponta a importância do contrato para o  desenvolvimento da terapia, afirmando:

Considero aquilo que chamamos de contrato terapêutico como muito  

importante para o desenrolar do processo. O maior índice de desistência na  

psicoterapia é devido a mal-entendidos no contrato. Penso, então, no papel  

do terapeuta, no sentido de passar as informações de forma clara para que  

o cliente saiba o que ele nessa relação pode receber, com o que ele pode  

contar, até onde pode ir e decidir se aceita ou não as condições. Se por um  

lado quem estabelece as regras do contrato é o terapeuta, cabe ao cliente  

manifestar a sua opinião. Essa é mais uma oportunidade de verificar como o  cliente se relaciona com as propostas do terapeuta.

O contrato, além de dar as diretrizes para o processo terapêutico é também uma  ferramenta de trabalho para o profissional atento. Este momento é muito mais que o  estabelecimento de normas. Ele já é revelador da dinâmica de funcionamento do  cliente. Conforme afirma Estarque Pinheiro (2007, p. 150), “quando as regras são  estabelecidas de forma clara e precisa as chances de impasse diminuem.”  Entretanto, o contrato não pode ser algo engessado. Sempre que for necessário  deve ser esclarecido e revisto de acordo com a necessidade do grupo.

No grupo que atendi durante o curso no IGT, dois membros do grupo, em momentos  diferentes, extrapolaram o limite de faltas devido a problemas de saúde, que  envolveu internação e repouso absoluto. Após a recuperação, eles compareceram à  terapia e apresentaram laudos e atestados médicos, justificando assim suas faltas e  expressando o desejo de continuarem a terapia. De acordo com o contrato, ambos  deviam ser desligados do grupo. Os casos foram levados à Coordenação que,  após analisar a situação de cada um, autorizou a permanência deles no grupo.  

A flexibilização das regras foi muito importante no contexto geral da terapia. Este  momento propiciou uma grande oportunidade de trabalho com o grupo, onde, além  da revisão do contrato, outras questões que surgiram no setting terapêutico foram  tratadas. Tudo isto favoreceu o desenvolvimento e crescimento do grupo, que se  tornou ainda mais comprometido com a psicoterapia.

2 - Postura acolhedora

Como já citado neste estudo, Silveira (1997) coloca que o terapeuta se apresenta ao  cliente pelo seu consultório, sua vestimenta, seu estilo e seus modos de intervenção.

É importante que o espaço de atendimento seja um lugar agradável, acolhedor onde  os clientes se sintam bem. De igual modo, respeitando seu modo de ser, o terapeuta  precisa cuidar de sua apresentação pessoal. Além disto, Silveira (1997, p.13), afirma  que “as primeiras entrevistas são também momentos de acolhimento e preparação  

para o vínculo que começa a se fazer”.

De um modo geral, as pessoas chegam aos consultórios com grande sofrimento  psíquico. Falar sobre dores, muitas vezes dilacerantes, é algo extremamente difícil.  Somam-se a isto, em alguns casos, a vergonha e a culpa que carregam. Diante  disto, o psicólogo precisa ter uma postura acolhedora, reconhecendo e confirmando  o sofrimento do cliente, evitando julgamentos, sem fazer juízo de valor. Ele precisa  buscar respeitar o tempo do cliente, seus modos de expressão verbal e não verbal.  Citando Estarque Pinheiro (2007, p. 142):

A acolhida do terapeuta neste primeiro momento do processo terapêutico é  

um ponto muito importante de ser observado, pois, vale sempre lembrar que  

o cliente que vem buscar psicoterapia está ali porque de alguma forma está  

sofrendo. É fundamental que se busque facilitar esse primeiro contato para  

o cliente, ou pelo menos, não criar ainda mais obstáculos para o que já  

deve estar sendo muito difícil.  

Desde o início dos atendimentos, contando inclusive com as primeiras entrevistas  para o início da psicoterapia grupal, houve a preocupação com o acolhimento ante  ao sofrimento relatado pelos clientes. Desta forma, foi estabelecida uma relação de  suporte, que perdurou até o fim do atendimento.

Na primeira sessão do atendimento do grupo do IGT, no momento da apresentação,  uma cliente disse logo no início que não irai falar nada, pois ela tinha aceitado  participar da psicoterapia grupal para experimentar e ver como seria. Dissemos ao  grupo que poderia ficar tranquilo e que podia falar se e quando quisesse, pois todos  estávamos vivendo uma experiência nova e tudo o que é novo pode assustar um  pouco. Dissemos, ainda, que cada pessoa tem seu tempo e seu jeito próprio e que,  no espaço terapêutico nada era obrigatório e todos seriam respeitados nas mais  variadas forma de expressão. No decorrer da sessão, o grupo, pouco a pouco, foi se  colocando e, surpreendentemente, a cliente mencionada acima, foi a que mais falou,  inclusive colocando questões profundas.

Durante todo o processo terapêutico as psicólogas buscavam cuidar da relação com o grupo, promovendo um ambiente de aceitação e empatia e, de forma muito  cuidadosa e atenciosa, foram ao encontro do grupo, se disponibilizando plenamente  e se colocando inteiras na relação com o grupo, aceitando-o, reconhecendo suas  dores e o seu modo de existir no mundo, respeitando seu funcionamento.

O grupo encontrou um espaço de acolhimento e de respeito à sua forma de  expressão, onde se sentia livre para colocar suas questões e dar vazão aos seus  sentimentos e suas dores e alegrias e, em vários momentos, falava das suas  conquistas, afirmando a importância da terapia em sua vida.

A postura acolhedora das psicoterapeutas, demonstrando entenderem o grupo,  proporcionou um ambiente favorável à abertura do grupo.

3 - Presença terapêutica

Ribeiro (2006), escrevendo sobre presença relata um episódio vivido por ele em  1959, em sua ordenação para sacerdote. Naquela ocasião, ao ouvir seu nome dá  um passo a frente e diz “Adsum presente”. Ele diz que ao responder “Presente”,  tinha total consciência de que todo seu ser estava presente e afirma: “Eu era fé,  esperança, entrega, certeza, ousadia, humildade, convicção profunda de que,  naquele momento, todo o meu ser estava sendo entregue nas mãos de Deus”. Ou  seja, ele estava mergulhado naquela experiência, totalmente envolvido com aquela  situação.  

Ribeiro (2006, p.163-164), fala ainda de presença relacional, na qual se está  presente no mundo e para o mundo, em que presença significa basicamente ter  consciência da relação com o mundo e no mundo e, ainda, evoca outro aspecto: o  mundo está presente ou se faz presente, independente da vontade. Conceituando  presença ele coloca:  

[...], defino presença com base em mil horizontes, sendo presença

basicamente sentir-se inteiro. Presença é contato pleno comigo mesmo, é a  

consciência reflexa de minhas possibilidades no mundo, é ruptura em mim  

de qualquer dicotomia, é a consciência emocionada de minha humilde  

totalidade, [...].  

A definição acima nos remete à ideia de contato pleno, ou seja, o psicólogo só pode  estar inteiro na relação terapêutica se estiver em contato consigo mesmo. Como  afirma Ribeiro (2006, 165), “se o terapeuta não está presente em si mesmo,  dificilmente poderá ajudar os clientes, [...]”.

Ser psicoterapeuta requer comprometimento, entrega, dedicação, requer um  mergulho na experiência vivida a cada encontro. Ser psicoterapeuta é buscar estar  totalmente presente na relação com o cliente a serviço dele.

Hycner (1997, p.39), fala que presença é uma postura existencial. Ele afirma que  estar presente  

é trazer tudo de mim para dirigir-me neste momento a esta pessoa.  

Nenhuma outra preocupação é importante. É uma renúncia a todas as  

preocupações técnicas e a todos os “objetivos”. O único Objetivo é estar  

plenamente presente – uma meta, paradoxalmente, não atingível pela  

técnica.  

Um outro aspecto da presença terapêutica abordado por Hycner (1997), é a filosofia  dialógica, que postula que o ser humano é um ser relacional. Amorim (2007, p.69)  aponta que a abordagem dialógica surgiu com Buber, em 1923.

[...] Segundo Buber (1974, p.88), o dialógico inclui a relação e a atitude de ir  

na direção do outro, em busca da totalidade da existência humana. [...] O  

ponto central dessa abordagem é colocar o encontro como tema central da  

psicoterapia. Uma abordagem dialógica estará sempre comprometida com o  

encontro verdadeiro do terapeuta com o cliente.

Desta forma, visto que a Gestalt-terapia preconiza a relação, é fundamental que o  psicólogo adote uma postura relacional através do método dialógico. Como afirma  Yontef (1998, p.251),

A abordagem dialógica exige que o terapeuta aborde o paciente com  

carinho, direta, aberta e atenciosamente. [...] Atenção é uma qualidade que  

pertence a, e é apenas eficaz como parte do processo de contato. É uma  

qualidade de verdadeiramente ir ao encontro da pessoa como pessoa. É  

mais que um sentimento ou fazer algo pelo paciente – é um processo entre  

pessoas.  

Uma das características do grupo atendido no IGT era a estagnação. O grupo  estava paralisado e atribuía isto à experiências traumáticas do passado.  Inicialmente, os sentimentos não eram externados. O grupo falava de suas mazelas  de forma fria e distante e com muito pesar.

Havia uma cliente que, desde o início do grupo e durante alguns meses, se  apresentava sempre do mesmo jeito: as cores das roupas eram escuras ou cinza,  olhar cabisbaixo e triste, rosto fechado, cabelo preso; sentava sempre no mesmo  cantinho da sala, encolhida, de braços cruzados e permanecia com uma das mãos  junto ao rosto, mesmo quando falava.  

Numa determinada sessão foi proposto um experimento ao grupo e ela se recusou a  participar e ficou no seu cantinho. O seu movimento foi respeitado. Numa outra  sessão, ela falou que quando estava muito triste entrava na caverna e se afastava  de todos. Este tema foi trabalhado no grupo que, de vez em quando, “entrava na  caverna”.  

No decorrer da terapia, o grupo foi se transformando gradativamente, suas  características foram mudando e novos espaços foram sendo explorados. A cliente  citada acima passou a usar roupas coloridas e alegres, mudou o penteado, deixou  de sentar no cantinho da sala e se permitiu experimentar outros lugares, sem a mão  no rosto, se expressava mais livremente. Ela já não carregava o peso de outrora.  Deixou o passado pra trás e passou a viver o presente. Arranjou um namorado e,  por fim, saiu do grupo porque mudou de emprego e o havia incompatibilidade de  horário.

O grupo todo passou por esta transformação. Houve um desabrochar pra vida. O  grupo adquiriu movimento e seguiu em frente. A presença terapêutica e o método  dialógico foram fundamentais neste processo.

4 - Postura fenomenológica

A fenomenologia como um método, surgiu com Husserl, que contestava a  independência do sujeito em relação ao objeto, conforme defendido por algumas  correntes filosóficas. Segundo Husserl, não existe neutralidade entre o organismo e  o meio ambiente, entre o sujeito e o fenômeno. Eles estão sempre em relação. Os  fenômenos são apreendidos pelos sentidos, porém eles são dotados de um sentido,  de uma essência. Assim, nasce a ideia de voltar às coisas mesmas.

Posteriormente, a Fenomenologia veio a se constituir num eixo fundamental para a  Abordagem Gestáltica. A Gestalt-terapia é uma fenomenologia clínica, ou seja,  utiliza a fenomenologia como um método no trabalho clínico. Para melhor  compreensão deste tópico, serão apresentados alguns olhares sobre o tema:

• Yontef (1998, p.218): “Fenomenologia é uma busca de entendimento,  baseada no que é óbvio ou revelado pela situação, e não na interpretação do  observador”.  

• Ribeiro (1994, p.46-47): “Fenomenologia [...], é um modo de observar e  compreender a realidade. [...] uma atitude que leva o observador a perscrutar  a realidade a partir dela, deixando de lado seus prejuízos e sem concluir nada  a priori, respeitando o próprio evidenciar-se da realidade, enquanto escolhe o  melhor caminho para auto-revelar-se”.  

• Granzotto (2007, p.110): “[...] fazer ver, com base em si mesmo, aquilo que se  manifesta, tal como, com base em si mesmo se manifesta [...].  

Fenomenologia, [...], não é o estudo do que aparece, mas o fazer ver – no  âmbito da nossa experiência – aquilo que se manifesta desde si, tal como  manifesta desde si”.  

Com base nas definições acima, pode-se afirmar que a postura fenomenológica, na  gestalt-terapia, consiste em observar e compreender a realidade (fenômeno) como  ela é, deixando de lado todas as ideias pré-concebidas, os pré-conceitos. Portanto,  

não cabe interpretação dos dados ou dos fenômenos que ocorrem no “setting” terapêutico.

Trabalhar com o método fenomenológico não é tarefa fácil. É importante que o  Psicólogo tenha consciência de que a interpretação e o julgamento é uma tendência  natural do ser humano para, então, cuidar da sua relação com o cliente, favorecendo  o trabalho no campo terapêutico.  

Ginger (1995, p.36) aponta quatro características da fenomenologia:

• “é mais importante descrever do que explicar: o como precede o porquê;” • “o essencial é a vivência imediata, tal como é percebida ou sentida  corporalmente – até imaginada – assim como o processo que está  desenvolvendo aqui e agora;”

• “nossa percepção do mundo e do que nos rodeia é dominada por fatores  subjetivos irracionais, que lhe conferem um sentido, diferente para cada um”

• “isso conduz, particularmente, à importância de uma tomada de consciência  do corpo e do tempo vivido, como experiência única de cada ser humano,  estranha a qualquer teorização preestabelecida”.

Segundo Ribeiro (1994), “o grupo terapêutico é um campo onde a realidade  acontece”, ou ainda, “o grupo é um dado, uma realidade em si” e, como tal muito  complexo. Desta forma, o psicólogo não deve ceder à tentação de interpretar ou  explicar o que acontece, mas numa postura fenomenológica, deve buscar descrever  sua percepção, tendo sempre em mente que é a visão dele, naquele momento na  relação com aquelas pessoas e não a verdade absoluta.  

Exemplificando o tópico acima, será relatada uma situação vivida durante o  atendimento no IGT. Antes de Iniciar cada encontro, a equipe terapêutica fazia um  planejamento da Sessão. Embora houvesse algumas ações planejadas (questões  burocráticas, avisos, alguma atividade a ser proposta em função das demandas do  grupo), o trabalho terapêutico era realizado a partir dos fenômenos do campo.

Numa determinada sessão, havia três clientes: uma mulher e dois homens. Ela, logo  no início falou do seu medo e nervosismo de contar para seus filhos que estava  namorando. Este assunto mobilizou todo o grupo. Diante disto, foi proposto um  experimento, no qual a cliente seria a mãe e os demais seriam os filhos. Ela, então  contaria a eles sobre sua nova relação amorosa. Todos aceitaram prontamente. O  grupo vivenciou os papéis de forma muito intensa. Emergiram questões que, até  então, não tinham aparecido anteriormente, com uma carga emocional muito  grande, expressada na linguagem verbal e na corporal. Após, foi solicitado ao grupo  que conversassem sobre a experiência vivida, sendo feitas algumas intervenções  pela equipe terapêutica e a sessão foi finalizada.

Nada do que aconteceu estava planejado. O trabalho terapêutico foi se delineando a  partir das demandas do campo, onde vários fenômenos ocorreram. O grupo  conseguiu fazer contato com o que estava vivendo naquele momento. O nosso  papel foi acompanhar o movimento do grupo, nos atendo aos fenômenos e facilitar a  tomada de consciência. A postura fenomenológica favoreceu o trabalho no campo  terapêutico.

5 - Valorização do potencial do cliente

Zinker, (2001), diz que o casal chega ao consultório com um sentimento de fracasso  e destaca que é importante ressaltar suas competências neste momento para que  possam enxergar aquilo que fazem bem, apesar dos problemas enfrentados. Na  medida em que se dá conta de suas potencialidades, o casal começa a ter outro  olhar sobre a situação vivida, se tornando mais esperançoso e confiante nele  mesmo, bem como no terapeuta. A este respeito, Zinker (2001, p.188-189) afirma:  

Os terapeutas devem procurar observar não só as interrupções no  

processo, mas também as competências na interação do casal. A maioria  

dos casais não está consciente de sua própria competência. Apontar suas

competências são intervenções poderosas. Algumas vezes elas são até  

mais poderosas do que as que apontam como eles interrompem a si  

mesmos. O motivo de serem poderosas é que as pessoas não sabem o que  

fazem bem, do mesmo modo que não sabem o que fazem mal. [...] Quando  

você indica as competências que vê em seus clientes e as traz para a  

awareness, você lembra a eles que podem usá-las quando estiverem num  

impasse. Ao se confrontarem com um dilema, eles podem apoiar-se no  

conhecimento do que fazem bem e optar por usar essas competências para  

resolvê-lo.

As colocações feitas sobre ressaltar as competências do casal, na citação acima,  também são válidas tanto para a terapia individual quanto para a terapia de grupo.  Ao assumir esta postura, o psicólogo facilitará a caminhada terapêutica do seu  cliente e, consequentemente, a construção do vínculo terapêutico.    

De acordo com Estarque Pinheiro (2007), a primeira entrevista é um momento de  muita ansiedade, que pode ser amenizada pelo terapeuta na medida em que ele  deixa claro para o cliente que tudo não precisa ser dito de uma vez só, pois haverá  tempo suficiente para que o mesmo se coloque dentro de suas possibilidades.  Estarque Pinheiro (2007, p.142), afirma que:

Em algumas situações o terapeuta pode sinalizar, pontuar e trazer também  

aspectos positivos do discurso do seu cliente de forma a ajudá-lo a ampliar  

sua visão de si próprio e de suas potencialidades, tornando muitas vezes  

este primeiro contato mais ameno e menos ameaçador para o cliente.

Uma das características dos membros do grupo atendido no IGT, era a falta de  confiança em si mesmo para efetuar mudanças que julgava necessárias para seguir  o fluxo da vida. O grupo estava paralisado existencialmente e atribuía este estado a  questões traumáticas vividas. Apesar de, em vários momentos, o grupo demonstrar  grande habilidade para lidar com situações complexas, não conseguia reconhecer a  força que tinha.

Um dos pontos trabalhados durante o atendimento foi o potencial do cliente, sendo  ressaltadas as competências do grupo. Na medida em que a percepção de si  mesmo foi se ampliando, o grupo começou a se movimentar até que, consciente dos  seus recursos, empoderou-se e realizou mudanças significativas e existencialmente  libertadoras, seguindo em frente, para além da terapia.

Desta forma, ao receber um grupo em seu consultório, o psicólogo precisa estar  atento para, na medida do possível, ressaltar as competências do grupo, criando  assim, uma atmosfera de confiança para o desenvolvimento do seu trabalho. Esta  seria, também, mais uma forma de cuidar do vínculo inicial tanto entre clientes,  quanto entre clientes e terapeutas.  

A experiência com grupo no IGT foi muito enriquecedora. Se por um lado houve  frustração por causa da desistência de alguns clientes no início do atendimento, por  outro, a equipe pôde aprender a lidar com a situação e viver a satisfação de  vivenciar um processo completo, com início, meio e fim com os clientes que permaneceram até o término do atendimento. Sem dúvida, o trabalho foi possível a  partir da construção do vínculo terapêutico e, para tal, cada elemento citado acima  funcionou como matéria-prima neste processo.  

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Iniciar um atendimento terapêutico é e sempre será um processo desafiador, quer na  terapia individual ou na terapia de grupo. São muitos os desafios. Para enfrentá-los  o psicólogo precisa estar bem preparado teórica e tecnicamente, mas ao mesmo  tempo, precisa estar consciente de que o trabalho psicoterápico é muito mais que  um saber teórico e um conjunto de técnicas.

No início, do processo terapêutico, é natural o cliente se colocar de forma superficial,  pois tudo é muito novo e ainda não há confiança no grupo que possibilite uma  abertura maior. Este é um momento crítico na terapia. Alguns clientes podem  desistir, não obstante o grande interesse inicial. Embora as variáveis citadas acima  não sejam as únicas causas de evasão no momento inicial do grupo, pode-se  afirmar que elas são responsáveis por muitas desistências. Neste contexto, o  psicólogo tem como tarefa primordial propiciar um ambiente acolhedor, tanto com  relação ao espaço físico quanto à sua postura terapêutica, e, através da sua relação  com o grupo, construir o vínculo para desenvolver seu trabalho.  

A partir deste estudo, mesmo considerando a responsabilidade do cliente, pode-se  inferir que o psicólogo é o principal responsável pela construção do suporte da nova  relação que se inicia e dele precisa cuidar durante todo o trabalho psicoterapêutico.  Por maior que seja o preparo teórico e pessoal do psicoterapeuta, cada encontro se  traduz em uma nova experiência com muitas possibilidades, riscos e  imprevisibilidade. Neste sentido, a primeira entrevista assume importância vital por  ser o momento apropriado para o estabelecimento do vínculo. Entretanto, vale  ressaltar que o cuidado com o vínculo terapêutico deve ser permanente, pois se não  for fortalecido, não haverá condições para a continuidade do trabalho terapêutico.

Desta forma, conforme literatura consultada, alguns itens são de grande relevância  para alcançar o objetivo proposto. Neste trabalho foram destacados os seguintes: a)  o contrato: é muito importante a manutenção do combinado. Além de dar as  diretrizes para a relação grupal, o contrato dá segurança ao grupo e estabelece  fronteiras; b) a postura acolhedora: os clientes, em geral, chegam à clínica com  grande dor psíquica e falar de suas dores é extremamente difícil. É importante  acolhe-los, respeitando as diversas formas de expressão e confirmar seu sofrimento  dando o suporte necessário e assim facilitar este momento; c) a presença  terapêutica: estar presente vai além de ocupar o mesmo espaço físico. É estar  totalmente com o grupo, totalmente conectado, numa presença plena na relação  terapêutica. Para isto é preciso que o terapeuta esteja presente nele mesmo,  consciente do seu momento e dos seus sentimentos; d) a postura fenomenológica:  ser fenomenológico não é só uma questão técnica, mas implica em trabalhar isto na  relação com o grupo para que o grupo se coloque da mesma forma e, por fim, e) a  valorização do potencial do cliente: enfatizar as competências do grupo ajuda a torná-lo consciente dos seus recursos internos para enfrentar as dificuldades da  vida.  

É importante que o psicólogo esteja atento aos fatores acima mencionados,  trabalhando na preparação do solo para que a semente – relação terapêutica –  possa germinar, criar raízes e seguir o curso natural de desenvolvimento.

Às vezes, a pressa, a ansiedade do terapeuta pode levá-lo a descuidar de aspectos  sutis e importantes para o trabalho psicoterápico. Vinculação não ocorre  repentinamente. Construir é um processo. Assim sendo, no processo da construção  do vínculo terapêutico o psicólogo precisa trabalhar consciente de sua  responsabilidade no papel de facilitador/condutor do grupo.

O presente estudo não pretende, de forma alguma, esgotar o assunto, mas sim  promover uma reflexão visando dar uma contribuição para aqueles que quiserem se  aventurar na estrada da psicoterapia de grupo. Certamente, outros profissionais  poderão aprofundar o tema e trazer novas perspectivas para esta modalidade de  atendimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMORIN, T. C. G. W. Dialógico. In: D’ACRI,G.; LIMA, P.; ORGLER, S. Dicionário de  Gestalt-terapia: Gestaltês. São Paulo: Summus,2007. (p.69)

Dicionário Aurélio. Disponível em: http://www.dicionariodoaurelio.com Acessado  em 09/03/2014

GINGER, S. Gestalt: uma terapia do contato. São Paulo: Summus, 1995.

GRANZOTTO, M. J e R. L. M. Fenomenologia. In: D’ACRI,G.; LIMA, P.; ORGLER,  S. Dicionário de Gestalt-terapia: Gestaltês. São Paulo: Summus,2007. (p.110)

HYCNER, R. Relação e cura em Gestalt-terapia. São Paulo. Summus, 1997.

JÚNIOR, A. I. A Primeira Entrevista Na Clínica em Gestalt-Terapia. Revista de  Gestalt nº 4, p. 55-61. São Paulo, 1995.

PINHEIRO, M. E. A primeira entrevista em Psicoterapia. Revista IGT na Rede,  V.4, nº 7, 2007, p. 136-157. Disponível em: HTTP://www.igt.psc.br/ojs/ISSN:1807- 2526 Acesso em: 12/03/2014

RIBEIRO, J. P. Gestalt-Terapia: O Processo Grupal: uma Abordagem  Fenomenológica da Teoria do Campo e Holística. – São Paulo: Summus, 1994.

RIBEIRO, J. P. Vade-mécum de Gestalt-terapia : Conceitos básicos. – 2ª ed. – São Paulo: Summus, 2006. P. 162/165.

SILVEIRA, T. M. A Gestalt No Contexto da Psicoterapia: Teoria e Metodologia  Aplicadas a um Caso Clínico (p.07-27). In: Presença Revista Vita de Gestalt terapia, 1997 – ano 3 – Número 4

TELLEGEN, T. A. Gestalt e grupos – Uma perspectiva sistêmica. – São Paulo:  Summus, 1984. (coleção Novas buscas em psicoterapia; v.22)

VINOGRADOV, S.; YALOM, I. D. I. O que é a Psicoterapia de Grupo?. In:  Psicoterapia de Grupo: um manual prático. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

YONTEF, G. M. Processo, diálogo, awareness. São Paulo: Summus, 1998.  

ZINKER, J. C. A Busca da Elegância em Psicoterapia: Uma Abordagem  Gestáltica Com Casais, Famílias e Sistemas Íntimos - São Paulo: Summus, 2001.

NOTAS

Edilza Wanderleia da Silva Queiroz: Psicóloga graduada pela Universidade  Estadual do Rio de Janeiro, (UERJ); Pós-graduada em Gestão de Recursos  Humanos pela Universidade Cândido Mendes; Formada em Gestalt-Terapia pelo  Centro de Produção da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CEPUERJ);  Especialista em Psicologia Clínica - Gestalt-Terapia pelo Instituto de Gestalt-Terapia  e Atendimento Familiar.

 

Endereço para correspondência

Edilza Wanderleia da Silva Queiroz

E-mail: edi.wanderleia@gmail.com

Recebido em 27/02/2017

Aprovado em 27/02/2017

Revista IGT na Rede, v. 14, nº 26, 2017, p.109-126 DOI 10.5281/zenodo.15054583

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526