ARTIGO

Reflexões sobre a internet à luz da Gestalt-terapia Reflections on the internet in the light of Gestalt therapy Fabrício Siqueira Basso

RESUMO  

Atualmente, mais do que outrora, estamos envolvidos com a internet e seus  reflexos em nossas vidas. Sejam através dos discursos na clínica (tradicional  ou ampliada), na maneira como somos contatados e contatamos para a  primeira consulta ou durante o processo terapêutico, ou até mesmo em nossos  próprios discursos e gestos na vida, é importante entendermos a internet como  um dado pertencente a um campo em que há um ajustamento, um laço social. Esta nova maneira de se situar e se comunicar no mundo implica o clínico  neste processo, colocando-o e exigindo-o um posicionamento. Sob a ótica da  Gestalt-terapia busco neste artigo abordar questões que surgem ao levantar tal  problematização.

Palavras-chave: Contato; Internet; Ajustamento criativo; Gestalt-terapia. ABSTRACT

Today, more than ever, we are involved with the internet and its reflections in  our lives. Whether it is through the speeches in the clinic (traditional or  extended), in the way we are contacted and contacted for the first consultation  or during the therapeutic process, or even in our own speeches and gestures in  life, it is important to understand the internet as A data belonging to a field in  which there is an adjustment, a social tie. This new way of situating oneself and  communicating in the world implies the clinician in this process, placing it and  demanding it a positioning. From the perspective of Gestalt therapy I seek in  this article to address issues that arise when raising such problematization.

Keywords: contact; internet; creative adjustment; Gestalt-therapy.

INTRODUÇÃO

Nos tempos hodiernos, mais do que outrora, estamos envolvidos, às voltas  com os reflexos da internet em nossas vidas. Não seria diferente na clínica  (tradicional ou ampliada). Casos de sofrimento ético-político e antropológico,  preconceitos diversos, ajustamentos de todo o tipo nos chegam envolvendo a  internet (inclusivos, banais, antissociais, evitativos e de busca).

É mister refletirmos sobre as mudanças pragmáticas que esta tecnologia nos  impõe. Estamos implicados com ela de várias maneiras, sejam nos discursos  do consultório, na maneira como somos contatados e contatamos (para a  primeira consulta ou durante o processo terapêutico), ou até mesmo em nossos  próprios discursos e gestos na vida.  

Entendendo a internet como um dado virtual1 participante de um laço social realizado por nós, sujeitos com-plexos, inter-relacionais, busco refletir neste  artigo sobre alguns pontos que considero importante neste enlace: suas  implicações, como ocorre, e questionamentos diversos sobre o desdobramento  de tal ato/nó em diversos contextos.

Discorro sobre temas que a envolve em: ajustamentos antissociais, sofrimento  ético-político e antropológico, ajustamentos evitativos, ajustamentos banais,  modalidades de prática clínica virtual, enfim, situações que implicam o(a) Gestalt-terapeuta nela e o(a) coloca/exige um posicionamento.

Não procuro desenvolver este artigo para encontrar, tampouco dar,  explicações, mas sim para levantar questões e apontar lugares deste nosso  envolvimento no mundo em transformação.

PROBLEMATIZAÇÃO

O acesso à internet nos possibilitou ampliar vários limites, sendo o principal  deles: o físico. Podemos ter acesso a pessoas de todo o mundo, nos relacionar  com elas por voz, texto ou videoconferência, conversar, divertir, jogar, criar  vínculos, fazer amizades, namorar, fazer sexo “virtual”, aprender, trocar,  agredir, machucar e se machucar, cometer crimes, etc.; temos acesso a  informações variadas de quase tudo, nos formatos de textos, imagens e  vídeos; podemos realizar atos virtuais considerados legais como: pagar contas,  realizar compras, contratar, consultar, acessar contas de bancos, etc. Enfim,  podemos fazer quase tudo que poderíamos fazer fora dela, e tudo isso sem  sair de casa ou em qualquer lugar e a qualquer hora.  

Conseguimos transcender algumas barreiras físicas, espaço-temporal.  Praticamente não há morte na internet. Em certa medida transcendemos nossa  condição mortal. Outra faceta da internet é a de uma memória quase que  eterna e infinita, estando disponível a todo o momento e a todos, bastando  

  

1 Utilizo aqui, por ora, a palavra virtual para designar um dado disponível para uma ação futura,  uma virtualidade, um dado em potencial. Mais adiante discorrerei a respeito desta definição.

apenas uma atualização (um ato). Entretanto, com a entrada da internet – de  uma maneira mais impetuosa e massiva na atualidade -, e as suas  possibilidades, também vieram algumas transformações em nossas vidas,  como a maneira de se comunicar, de se relacionar com o outro e com si  mesmo.

Compartilhamos coisas que, na maioria das vezes, não nos exigem esforço de  expressão, e muitas vezes, nem de compreensão por parte do leitor tampouco  do “falante virtual”. O que se passa?

Estamos diante de uma questão social, de uma transformação em nossas  relações devido a esta massiva e impetuosa influência da internet no estilo de  nossas vidas. Obviamente esta transformação é acompanhada por um viés  econômico: a mercantilização das informações. Conforme Chaui (2014 e s/d),  esta transformação foi-nos apontada nos estudos de David Harvey e Garcia  dos Santos. A saber, respectivamente, pela nova forma do capital, a  globalização, que é determinada pelo capital financeiro, o que o torna  desagregador e fragmentário do universo do trabalho produtivo; bem como,  pela maneira que este mesmo capital globalizado opera: com apenas uma  única mercadoria, a informação.

Além deste viés econômico, do qual não será o foco de meu artigo, a questão  com a qual me ocupo está neste novo modo de vida - talvez não tão novo,  porém mais presente. Não se trata de se posicionar contra esta tecnologia, ou  este novo modo de vida que, inclusive, estou utilizando-a para poder me  expressar e criar sentido. Trata-se, porém, de pensar sobre esta nova maneira  de se comunicar, relacionar-se com o outro, com si próprio, com os objetos, o  íntimo, o privado, o mundo, enfim, esta nova maneira de se situar.

Conforme Levy (1999), a palavra virtual deriva do latim “virtus”, que significa  força, potência. E, é necessário corrigir a noção que temos do senso comum  sobre o virtual. Pelo senso comum, enganosamente confrontamos virtual – como aquilo que não existe, ou é artificial - com o real – como aquilo que de  fato existe. Entretanto, o virtual, segundo a tradição filosófica, se opõe ao atual.  O virtual é aquilo que existe em potência e não em ato, sua tendência é  atualizar-se. Por exemplo, uma árvore está virtualmente presente na semente.  Virtual e atual não são contraditórios, mas sim modos diferentes de ser. Já o real é o que de fato existe.

Também é importante destacar que o autor em tela diferencia “possível” de  “virtual”. “O possível já está todo constituído (...) é exatamente como real: só  lhe falta a existência”, algo que o faça sair do limbo, da condição fantasmática.  Contrariamente à condição estática e já constituída do possível, “(...) o virtual é  como o complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que  acompanham uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade  qualquer, e que chama um processo de resolução: a atualização” (p. 16)

Porém, com a revolução da cibernética e da informática, e o advento da  cibercultura como resultado destas, mudou-se o conceito de virtual para algo  real e já existente, possível de ser atualizado - infinitamente. Mais ainda, é algo que existe sem poder ser localizado no tempo (acrônico) e no espaço (atópico)  determinado. (CHAUÍ, 2014)

Isso significa que pessoas de qualquer parte do mundo, a qualquer momento  ou ao mesmo tempo - quase que em tempo real, sem prejuízos de fusos  horários -, e em qualquer quantidade, “(...) se coordenem, cooperem,  alimentem e consultem uma memória comum” (LEVY, 1999, p.49)

Destarte, a virtualização do ciberespaço substituiu o núcleo da experiência  humana - a presença -, por processos de coordenações atópicos e acrônicos.  (CHAUÍ, 2014)

Chauí (s/d) desenvolve este ponto de vista apoiada nos trabalhos dos autores  Paul Virillo e Maria Rita Kehl e Eugênio Bucci que, segundo a sua  interpretação,

“(...) mostram que o olhar instituído pela mídia nada tem  

em comum com a experiência perceptiva do corpo  

próprio, uma vez que os meios de comunicação destroem

nossos referenciais de espaço e tempo, constituintes da  

percepção, e instituem-se a si mesmos como espaço e  

tempo – o espaço é o “aqui” sem distâncias, sem  

horizontes e sem fronteiras; o tempo é o “agora” sem  

passado e sem futuro” (p.14).

Mas isto, a internet, não será antes obra da transformação tecnológica?  Vejamos o que Walter Benjamin tem a nos dizer.

A INTERNET COMO PRODUTO DA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA

Walter Benjamin, em seu artigo intitulado: “A obra de arte na era da sua  reprodutibilidade técnica” (1955), nos dá algumas pistas acerca do processo  transformador que a reprodução técnica nos impõe2.

A história da obra de arte é marcada de maneira significante pela reprodução  técnica. Esta, era praticada por discípulos nos aprendizados, pelos mestres  para difusão de suas obras, e por terceiros interessados no lucro.

Segundo Benjamin (1955), a história do processo técnico de reprodução se deu  pela primeira vez com a xilogravura, passando por outros processos como a  

  

2 Em sua análise é possível entrever uma intenção política/econômica por traz das reproduções  técnicas amplamente exploradas - como na estética da “objetiva”, por exemplo -, a fim de  manter as atuais relações de produção. Explica Benjamin (1955) que a experiência “tátil”,  “habitual”, das reproduções técnicas, da “reprodução em massa corresponde de perto à  reprodução das massas”, ou seja, a uma espécie de controle das massas. Logo, caminhando,  assim, a humanidade para uma auto-alienação de suas percepções sensíveis originais e, em  última instância, da sua força de trabalho. Em contrapartida, este mesmo processo possibilitou  aos operários aparecer, ver-se e manifestar-se, provocando assim uma revolução cultural.

“estampa em chapa de cobre e água-forte”, mas foi somente a partir da  litografia no início do século XIX é que a técnica obteve um processo mais  preciso e novo, pois “permitiu às artes gráficas pela primeira vez colocar no  mercado suas produções não somente em massa, como já acontecia antes,  mas também sob a forma de criações sempre novas”, dando liberdade assim  para produzir imagens atuais, diárias. Contudo, apesar do salto que a litografia  deu, foi somente com a entrada da fotografia que este processo técnico sofreu  uma mudança drástica: “Pela primeira vez no processo de reprodução da  imagem, a mão foi liberada das responsabilidades artísticas mais importantes,  que agora cabiam unicamente ao olho”. Começou-se a conduzir o olhar. A  construir uma instrução determinada para o movimento.

Contextualizando e reproduzindo o que disse Benjamin (1955): “Se o jornal  ilustrado estava contido virtualmente na litografia, o cinema falado estava  contido virtualmente na fotografia”, faço através da técnica atual, um  computador, o próprio elemento contido virtualmente na litografia e na  fotografia.

Na reprodução tecnológica de uma obra de arte, tal qual a reprodução de uma  imagem animada na tela de um computador (como uma foto, ou um site), nota se a perca de um elemento deveras importante: “o aqui e agora”, “sua  existência única”. E é somente neste lugar, nesta existência única que se  descobre a história e os rastros do trajeto original daquilo que se apresenta.  Nas palavras de Benjamin (1955):

“Generalizando, podemos, dizer que a técnica da  

reprodução destaca o domínio da tradição (d)o objeto  

reproduzido. Na medida em que ela multiplica a  

reprodução, substitui a existência única da obra por uma  

existência serial. E, na medida em que essa técnica  

permite à reprodução vir ao encontro do espectador, em  

todas as situações, ela atualiza o objeto reproduzido.”  

Ao mesmo tempo em que se dá a possibilidade de criação, atualização, ela  retira da criação a sua história e materialidade original. Seu valor cultivado é a  da “perfectibilidade”; sua característica é a “transitoriedade e a repetibilidade” (BENJAMIN, 1955). Ou seja, uma espécie de reprodução artificial, estática,  sem história viva. Afinal, não somos perfeitos, sofremos a ação do tempo e da  matéria, percebemos o mundo de uma maneira bem peculiar e limitada; de tal  modo, que toda criação é sempre original e nova ao mesmo tempo, somos  movimento.  

Ao nos relacionarmos com alguém pelo computador ou pelo celular, por  exemplo, não estamos diante de uma pessoa, ou um público, de carne e ossos,  há apenas nós mesmos e um aparelho tecnológico reprodutor. E, por assim  nos relacionar, utilizamo-lo como tal, editamos, alteramos o mais original do  que foi reproduzido como se estivéssemos mexendo com algo artificial, uma criação tecnológica que, aliás, nos identificamos com tal artificialidade. Nos  con-fundimos com a máquina.

A reprodutibilidade técnica possibilita à massa certa autonomia e notoriedade.  Deu-se palco e voz à massa, antes possibilidade apenas de poucos como os  detentores de mídias televisivas, impressas e de rádios, agora é “Coisa de  todos”. “Com isso a diferença essencial entre autor e público está a ponto de  desaparecer. Ela se transforma numa diferença funcional e contingente. A cada  instante, o leitor está pronto a converter-se num escritor” (BENJAMIN, 1955)

Ora, salvo os recursos necessários para acessá-la como o financeiro e a  cobertura local concedida por uma empresa tecnológica, a internet se  apresenta também com uma característica heterogênea e acessível. Porém,  por termos acesso a ela através de uma tecnologia reprodutora - fragmentada  do ponto de vista das experiências perceptivas e destituídas de sua origem  material-histórica -, acabamos perdendo contingências do fazer.

Há uma concordância, tanto em Chauí (2014) quanto em Benjamin (1955), em  que a reprodutibilidade técnica nos permite reproduzir de maneira não original,  mas de maneira artificial o tempo e o espaço. O contexto, a situação e a  apresentação, o mostrar-se de maneira direcionada e fragmentada são  algumas das características apontadas pelos autores em tela. Pintamos-nos,  nos fotografamos, a utilizamos como “a ótica objetiva de uma câmera” faz, nos  fazemos, reproduzimos tecnologicamente de maneira não originais.

Quais as consequências que esta experiência poderá nos trazer? O que a  Gestalt-terapia pode nos orientar sobre o virtual? Antes de respondermos a  estas perguntas, é preciso entender o conceito de contato e “awareness” em  Gestalt-terapia.

O CONTATO EM GESTALT-TERAPIA

O virtual, a internet, se apresenta como um potencial quase que inesgotável.  Podemos ser quem quisermos, encontramos nela dados o suficiente para servir  a função de ego (já atravessada por um excitamento, pela função id) em seu  processo de identificação e alienação.

Conforme a definição descrita por PHG (1951), Função Id

“(...) é o fundo determinado que se dissolve em suas  

possibilidades, incluindo as excitações orgânicas e as  

situações passadas inacabadas que se tornam  

conscientes, o ambiente percebido de maneira vaga e os  

sentimentos incipientes que conectam o organismo e o  

ambiente” (p.184).

É preciso entender a Função Id não como um conteúdo ou memória, mas sim,  como uma impessoalidade, processo de retenção e repetição de formas que  orientam as ações. Ações estas realizadas por um corpo de atos vislumbrando  dados possíveis, cuja definição os autores em tela definem como Função Ego: “(...) é a identificação progressiva com as possibilidades e a alienação destas, a  limitação e a intensificação do contato em andamento, incluindo o  comportamento motor, a agressão, a orientação e a manipulação” (PHG, 1951,  p.184).

Estes dados, já identificados e disponíveis, nos servirão em outros momentos,  como função personalidade no sistema “self”’.

Entendendo por função personalidade

“(...) o sistema de atitudes adotadas nas relações  

interpessoais; é a admissão do que somos, que serve de  

fundamento pelo qual poderíamos explicar nosso  

comportamento, se nos pedissem uma explicação. (...) a  

Personalidade é essencialmente uma réplica verbal do  

self; é o que responde a uma indagação ou a uma auto

indagação” (PHG, 1951, p.187 e 188).

Separadas apenas didaticamente para entendermos, compreende-se o sistema  “self”, ou suas funções, como dimensões de um mesmo acontecimento, um  ajustamento criativo. “Enquanto aspectos do ‘self’ num ato simples espontâneo,  o Id, o Ego e a Personalidade são as etapas principais de ajustamento criativo  (...)” (PHG, 1951, p.184).

Ora, os dados virtuais do ciberespaço, do computador, também nos servem para fluir, ajustar, contatar. Afinal, “Contato é ‘achar e fazer’ ‘a solução  vindoura’, independente de qual dado disponível seja” (PHG, 1951, p.48).

Para PHG a experiência se dá na fronteira entre o organismo e o ambiente. E o  nome designado para este fenômeno é “contato”. “O contato é ‘awareness’ do  campo ou resposta motora no campo. A ‘awareness’, por sua vez, não é uma  reflexão sobre o problema, mas é ela própria uma integração criativa deste” (PHG, 1951, p.44 e 46).

Entendendo a “awareness” como o movimento, ou uma orientação implícita do  campo, Robine (2006) traduz a palavra “awareness” deste conceito dado por  PHG para compreendermos melhor esta frase: “O contato é conhecimento  imediato e implícito do campo, ou resposta motora no campo” (p.76, grifo meu)

É mister salientar que este contato e a sua fronteira em nada tem a ver com um  “lugar” geográfico ou físico, “pois designa aquilo que em um momento dado  ressalta do fundo como figura e que, portanto, é incessantemente mutável. É  uma outra maneira de denominar a experiência em curso” (ROBINE, 2006,  p.77).

Robine explica que a origem da figura que aparece tem a ver com o “id da  situação” de um “dado da situação”. Ou seja, tem a ver com o excitamento que  escoa na materialidade dada da situação.

MG e MG (2007) interpretam, como Robine, a leitura do contato como uma  unidade de uma determinada vivência temporal em um campo  (organismo/meio), compreendendo a dinâmica deste contato, a “awareness”, como um processo temporal. Para MG e MG, “awareness”

“(...) é abertura sensível (para os dados materiais),  

excitamento (como escoamento temporal pelas  

possibilidades abertas pelos dados) e unificação  

presuntiva (ou transcendente) de uma só história (que são  

minhas experiências de contato retidas)” (2007, p.182).

Portanto, a leitura que se faz do contato em Gestalt-terapia é a de um processo  temporal, ou melhor, um movimento em curso (“awareness”) em um campo.  Este, por sua vez, não é entendido como um lugar espacial - tampouco  reflexivo ou representativo apenas -, mas sim como um intercâmbio entre  materiais. Um intercâmbio entre a materialidade do dado, e as possibilidades  que esta materialidade abre para nossos co-dados, nossas vivências retidas e  projetadas: horizonte de passado e horizonte de futuro respectivamente. (MG e  MG, 2007)

É preciso tomar cuidado ao refletir sobre o tema da internet para não cair em  um pensamento solipsista ou em um sistema fechado, monadal. Cuidados com  definições patologizantes como narcisismo, exibicionismo, voyeurismo, etc.3 Pois, pensar como um sistema fechado em Gestalt-terapia é um erro  epistemológico, haja vista que a teoria do “self” trata-se de uma descrição  fenomenológica do campo, a saber, a experiência de contato mútuo entre o  organismo e o ambiente; e sua leitura se dá nas etapas de contato. É preciso  entendê-la dentro de uma dinâmica temporal, “como um processo temporal”,  um “processo de figura/fundo em situações de contato” no “presente transiente  concreto” (PHG, 1951, p. 177, 178 e 180).

Isto não significa que não podemos utilizar conceitos como o narcisismo,  exibicionismo, voyeurismo, etc. Mas sim, que precisamos compreendê-los  situados em um campo de presença.

Ora, sob este olhar que a Gestalt-terapia tem acerca das nossas vivências, cabe perfeitamente dizer que há contato no uso da internet – seja lá qual  atividade for. Mais ainda, nossas vivências com os dados materiais no mundo  (com uma pessoa, um smartphone, um computador, uma bola, ou outro objeto  

  

3 BELMINO (2010) contribuiu para esta discussão sobre modelos referenciais epistemológicos  no que tange a comportamentos envolvendo a internet e conceitos patologizantes.

qualquer), são da ordem de um movimento virtual (“awareness”) a caminho de  uma atualização.

Mas, será que o contato que ocorre na experiência com a internet difere, em  algum sentido, de outras experiências sem ela?

CONTATO COM A INTERNET

Conforme o conceito de contato em Gestalt-terapia, pudemos compreender  que em nosso uso da internet há contato. Logo, há um ajustamento criativo.  Afinal, “Todo contato é ajustamento criativo do organismo e ambiente” (PHG,  1951, p.45).

Entretanto, a internet se mostra de forma ambígua em relação à criação. Tal  qual qualquer outro dado, podemos olhar para a internet como um lugar  potencialmente de criação: de inspirações, projeções, montagens,  neologismos, produção de textos, expressões, etc.; mas também podemos  entendê-la como um lugar que tem um potencial de cristalização, que “mata”  criações.

É comum compartilhamos frases, textos, imagens, vídeos, sem ao menos nos  por em ação de maneira mais enérgica, ou então sem nos implicarmos naquilo  que nos chega como dado.

A consequência disto, conforme PHG (1951) é uma experiência de pouca  “awareness”, ou seja, pouco contato. “(...) caso a interação na fronteira-de contato seja relativamente simples, há pouca “awareness”, reflexão,  ajustamento motor ou deliberação” (p.69)

Em situações de contato pouco enérgico, fazemos um mínimo de esforço  corporal para expressar algo, produzirmos um gesto. É comum confluirmos,  haja vista que na ausência de uma novidade, ou de uma figura, o self se  expressa fluindo-com.

Mas, devemos culpar a internet por isso? Não. A confluência existe como  ajustamento criador com ou sem ela. Porém, temos de convir que na  dinamicidade das pessoas, animais, seres corpóreos no mundo, têm menos  controle, portanto, mais riscos.

Riscos? Sim, de contatarmos. Seja qual for ou como for, de nos  movimentarmos e encontrarmos o novo, o desconhecido, aquilo que escapa ao  controle. A internet não deixa de fazer parte do mundo, mas faz parte do  mundo de uma maneira mais controlada, onde, nem sempre, se corre “menos  riscos”.

A internet se mostra como uma espécie de “consciência”, lugar onde posso  fixar dados e co-dados para analisar e utilizá-los volitivamente. Traz consigo  uma proposta de domínio das informações. Uma consciência artificial capaz de  dar conta daquilo que não conseguimos: do escoamento do tempo por nós, e

de nossa consciência retardada tentando fixar-se naquilo que consegue  “pegar”. Para PHG (1951) “(...) a consciência é o resultado de um retardamento  da interação na fronteira” (p.69).

Temos uma espécie de possibilidade de consciência ampliada e compartilhada  com a internet. Ela nos possibilita estar nas redes sociais a qualquer hora e a  todo tempo – haja vista que cada inscrição feita nela fica registrada e  disponível para acessar na atualidade de cada atualidade possível. Podemos  ver e sermos vistos quando bem entendermos, bastando apenas uma  atualização.  

Esta possibilidade de ampliação da atualidade compartilhada está posto em  nossas relações de tal modo, que o que ocorre na internet e fora dela, ambos  atuais, agora fazem parte de um mesmo referencial de co-dados disponíveis  para boa parte das pessoas no Brasil (quiçá do mundo). Quando me refiro de  um acontecimento na internet, sinto-o e relaciono-o como um acontecimento na  atualidade – cabe aqui ressaltar o poder que aplicativos como o “whatsapp” e o  “facebook” possibilitam esta vivencia coletiva inscricional e atual dos dados  virtuais.

Um exemplo disto é o caso dos chamados “revenge porn”, ou pornografia da  vingança, onde ex-namorados ou ex-maridos compartilham fotos e/ou vídeos  íntimos de suas ex-companheiras em grupos de conversas, que por sua vez é  compartilhado infinitas vezes pelos participantes de cada grupo compartilhado,  podendo chegar até um nível em que “todos” tenham a informação. Consequentemente, o virtual compartilhado passa a ser o atual compartilhado (todos sabem), provocando assim, na atualidade e na realidade daqueles que  têm suas intimidades violadas e violentadas, graves consequências.

O espaço da internet nos possibilita um maior controle, é fato. Como Benjamin  (1955) já havia dito, a tecnologia “nos abre, pela primeira vez, a experiência do  inconsciente ótico”. Podemos até saber o exato momento em que uma pessoa, que não está na frente dos meus olhos, envia, recebe, e visualiza uma  

mensagem. Podemos usá-la para atestar a atualidade do outro, como tirar uma  foto ou gravar um vídeo no exato momento e enviá-lo para o solicitante quase  que em tempo real. Torna-se consciente um espaço onde ações humanas  eram inconscientes: “os múltiplos aspectos que o aparelho pode registrar da  realidade situam-se em grande parte fora do espectro de uma percepção  sensível normal”.

Com essa nova possibilidade de controle, podemos tentar dominar o outro: aquilo que não sou eu; aquilo que não controlo; aquilo que se apresenta como  um excesso; aquilo que não se deixa dominar, tal qual um excitamento da  função id. Cabendo, portanto, espaço para manifestarmos nossa ansiedade  (enquanto um excitamento inibido) também no ciberespaço. Aliás, este controle  que temos com a internet é um prato cheio para que a função ato, na tentativa  de eliminar o perigo que o excitamento inibido traz expresso pela ansiedade, a utilize de maneira que possa produzir um comportamento obsessivo e  compulsivo.

Ainda como parte deste controle, podemos observar o seu reflexo em nossos  comportamentos imediatistas. Em outros tempos - quando a internet não  estava tão desenvolvida, nem tão presente em nossas vidas -, tínhamos que  lidar por mais tempo com a ansiedade presente quando desejávamos algo, por  exemplo, como fazer uma compra.  

Ficávamos por mais tempo com alguns desejos sem realizá-los, tínhamos que  esperar um pouco mais para concretizarmos. Atualmente, por esta  característica controladora e acessível da internet – e neste exemplo específico  é obviamente explorado pelo mercado econômico -, se tenho o desejo de  comprar algo a qualquer hora ou em qualquer lugar, consigo realizá-lo – concretizo-o, mesmo que virtualmente. Característica da revolução tecnológica  apontada por Benjamin (1955) ”Cada dia fica mais irresistível a necessidade de  possuir o objeto, de tão perto quanto possível, na imagem, ou antes, na sua  cópia, na sua reprodução”.

Se quero ler um livro, por exemplo, que ainda não possuo, não preciso mais  me deslocar para uma biblioteca para lê-lo, nem mesmo me deslocar até uma  loja física para comprá-lo, eu simplesmente acesso a internet e o leio quando e  onde quiser. Não encontro mais limites físicos, temporais, sociais, e até mesmo  humanos para realizar meu desejo. “Fazer as coisas "ficarem mais próximas" é  uma preocupação tão apaixonada das massas modernas como sua tendência  a superar o caráter único de todos os fatos através da sua reprodutibilidade” (BENJAMIN, 1955)

A exemplo de Benjamin (1955), ChauÍ (2014), orientada pelo conceito de  “compressão espaçotemporal” de David Harvey, entende que a internet é um  produto da globalização da produção econômica que transformou a nossa  experiência espaço-temporal. “(...) a compreensão do espaço ou ‘atopia’ – tudo  se passa aqui, sem distâncias, diferenças nem fronteiras – e a compressão do  tempo ou a ‘acronia’ – tudo se passa agora, sem passado e sem futuro” (p.  219).

Por conta desta atopia e acronia, parece ter havido uma mudança de relação  com o nosso desejo. O desejo ganhou liberdade, porém voa tão longe que se  esquece de onde surgiu, o corpo. No ciberespaço posso ser quem eu quiser, fazer o que quiser, e como eu quiser.

Por ter esta proposta de acessibilidade – controlada, intelectualizada, da ordem  da volição –, a fim de realizar desejos e dominar informações, o ciberespaço se  mostra como um grande domínio de In-form(a)ções. Ou seja, é um lugar  potencialmente formador de ações, e, portanto, também negadora de ações.

Entretanto, paradoxalmente, a internet não é somente este lugar descrito como  algo intelectualmente controlado, haja vista que quem a utiliza são pessoas.  Logo, a internet também se apresenta como um sistema aberto, passível de  provocar sensações e estímulos diversos que nos fogem o controle. Por  exemplo: podemos ser atravessados por um afeto conversando com outras  pessoas, lendo um texto que alguém escreveu ou um vídeo que alguém criou.

Conforme nos mostra Benjamin (1955), a tecnologia nos coloca diante de  revoluções sociais e culturais. A internet, como produto da tecnologia, não é  diferente. Coloca-nos diante de mudanças e limites sociais, pessoais e  culturais. Novas culturas e novos paradigmas estão sendo estabelecidos e re estabelecidos com a sua influência.

Somos mediados por representações, valores, ideais, parâmetros  antropológicos (humanos). Nossa relação com o outro e consigo se estabelece  também pela via representativa – o que corresponde à função personalidade  do self. Atualmente alguns parâmetros sociais estão sendo reformulados (atualizados) pela influência da internet. O que antes já era tido como dado,  limites, “leis”, valores, ou seja, como parâmetro, atualmente está sendo  colocada em suspenso, fazendo assim com que nós mesmos a  (re)estabelecemos. Por exemplo, em minha profissão, quando alguém me  manda uma mensagem (considerada por mim como não urgente) em hora fora  de meu horário de trabalho (às 23:00 horas, por exemplo), sou eu quem irei  decidir (dar um limite) se responderei ou não, pois, o parâmetro que diz até que  horas posso mandar uma mensagem para alguém não está mais aqui com  tanta força.

Estamos re-escrevendo os paradigmas de nossas relações - esta via de mão  dupla em que acolho e sou acolhido. Algumas tradições já não estão fortes o  suficiente para nos/nós regermos/acolhermos. A questão aqui, porém, não se  

trata de escrever a favor da tradição – dos valores, culturas, ideologias, e  representações estabelecidas -, mas sim de refletir sobre o movimento que  estamos realizando na atualidade. Aliás, movimento este que parece ser pró indivíduo, dando maior liberdade para a realização do desejo individual na  relação com os parâmetros já estabelecidos coletivamente – conforme dito logo  acima. Aqui, mais uma vez, como percebido por Benjamin (1955), a tecnologia  parece possibilitar ao indivíduo uma capacidade de transgressão social.  

A internet, portanto, é um lugar ambíguo, pois ao mesmo tempo em que é  controlado não é totalmente controlado. É um sistema aberto em que há o  inesperado através de um aparelho fechado (codificado).

Retomando a pergunta: o ajustamento criativo que realizamos com a internet  traz algum componente diferencial de outros ajustamentos sem ela? Em  Gestalt-terapia, apesar da teoria do “self” ser uma descrição de um campo, e  não uma interpretação nem prognósticos dele, PHG (1951, p.69) nos aponta  algo que pode nos auxiliar a pensar sobre esta questão:

“(...) caso a interação na fronteira-de-contato seja  

relativamente simples, há pouca awareness, reflexão,  

ajustamento motor ou deliberação; mas onde a interação  

é difícil e complicada, há uma consciência intensificada.  

Uma complexidade crescente dos órgãos sensoriais  

significa que há necessidade de maior seletividade, à  

medida que um animal torna-se mais móvel e se aventura  

no meio de mais novidades”.

Ou seja, pode ser que com a internet possamos ter um contato pouco enérgico,  com pouca “awareness” (sensorial, relativo à função id; e motórica, relativo à  função ego), por ser em diversas situações uma interação demasiada simples.

Se pensarmos em uma formação de um sujeito que nasce neste momento de  intenso contato com a internet, poderíamos pensar em um “prejuízo” da  “awareness” sensorial e motora deste sujeito. Em outras palavras, conforme  indicado por Chauí (2014 e s/d), é preciso pensar na possibilidade de um  prejuízo da experiência do corpo próprio merleau-pontyano. Este corpo vivido, engajado no mundo, entendido como uma função existencial, e não intelectiva.

Cabendo, portanto, estudos acerca desta temática de como será a constituição,  ou as possíveis consequências, do corpo perceptivo em sujeitos criados em  situações que pouco estimulam seu desenvolvimento corporal perceptivo dele.

Por outro lado, podemos perceber que a internet também nos possibilita  situações em que há contatos vigorosos – “awareness” sensorial, motora e  principalmente reflexiva -, quando levamos em consideração o sistema aberto  que se apresenta para o sujeito na experiência de utilizá-la – como em  relacionamentos virtuais e no (re)estabelecimento de parâmetros sociais, por  exemplos.

A RELAÇÃO COM O OUTRO PELA INTERNET

Conforme observado anteriormente, a utilização da internet possui um grande  potencial de “awareness” reflexiva - correspondente ao processo de contato da  função personalidade do “self”4-, porém, é nas redes sociais, em especial, que  podemos encontrar uma espécie de contato bem interessante: um contato  plástico de minhas representações sociais.  

As redes sociais têm como um dos seus propósitos conectar pessoas,  entretanto, como vou me apresentar ao outro se dá de uma maneira bem mais  controlada que a dinâmica da vida real. Muito em razão disso pela tecnologia,  posso escolher quem eu quero ver, conhecer, conectar, relacionar, conversar,  etc; mais ainda, posso escolher como vou me apresentar, o que eu quero que o  outro veja em mim, pense de mim, enfim, posso escolher o que vou mostrar e,  consequentemente, o que vou esconder. Conforme já dito por Benjamin (1955) - ao falar sobre o fenômeno da exposição perante a massa através do uso  tecnológico -, há uma ação política ao usar a tecnologia.

 

4 ROBINE (2006) e MG e MG (2007, 2012a e 2012b), descrevem a função personalidade como  um aprendizado que se repete, se reescreve no campo social, e que serve ao mesmo tempo  como medida e parâmetro racional de valores éticos, morais, biográficos, institucionais ou de  modos de conhecimento: científico, filosófico ou religioso.

“Seu objetivo é tornar "mostráveis", sob certas condições  

sociais, determinadas ações de modo que todos possam  

controla-las e compreendê-las, da mesma forma como o  

esporte o fizera antes, sob certas condições naturais.  

Esse fenômeno determina um novo processo de seleção,  

uma seleção diante do aparelho, do qual emergem, como  

vencedores, o campeão, o astro e o ditador”

Esta possibilidade plástica que tenho de “controlar” minhas representações  sociais me traz um poder e um grande prazer ao dominá-las e manipulá-las.  Afinal, agora – da mesma maneira como ocorre conosco em relação aos  parâmetros sociais descrito acima-, posso escolher qual definição, valor, olhar,  representações sociais eu quero re-inscrever, compartilhar, e estar identificado. Tenho o controle para mostrar o que eu quero sobre mim, construo a minha  imagem perante o outro conforme o que eu quero mostrar, enfim, eu escolho  qual figura emergir para o outro.

Porém, por estas representações serem, também, a determinação de um  horizonte de passado que não cessa de se apresentar e que não se deixa  dominar – por não serem conteúdos, mas, excitamentos e hábitos  correspondentes à função id do self -, esta manipulação das representações  sociais nunca será de fato controlada. Uma figura é sempre figura de um fundo.  

Motivo pelo qual o outro a ser dominado (conquistado, desejado) também  nunca para de cessar. É comum vermos encontros de amigos, por exemplo,  em que mais de uma pessoa dividi a atenção do momento presente com outras  pessoas e/ou grupos virtuais das redes sociais. A possibilidade do outro – como um desejo, aquilo que ainda não domino, que ainda não tenho; como  aquele que não está ciente daquilo que quero que esteja, por exemplo - parece  ser uma constante a ser dominada (ou realizada).

Quero mostrar para o outro (meu objeto desejado) o que tenho de bom, o  quanto delicioso é aquilo que estou comendo, o quanto estou feliz, lindo, etc. Desta maneira demonstro, também, portanto, o quanto quero ser desejado e o  quanto quero ter/ser dominado. Afinal, quando alguém confirma – curte,  compartilha ou comenta positivamente, por exemplo -, aquilo que estipulo como  objeto a ser desejado, construímos, assim, o domínio do que sou eu, dos  valores e parâmetros ligados a mim e ao outro. Construímos e corroboramos, assim, quem somos: eu e o outro.

Desta maneira, preencho as possibilidades de meu tempo com minhas próprias  representações manipuladas - ou como diria Benjamin (1955), com imagens  reproduzidas não originais -, reforçando-as e confirmando-as.

Portanto, as redes sociais irão nos servir e possibilitar, sempre que puder, a fim  de dominar aquilo que não para de se apresentar e que não se deixa dominar,  um meio de ligação com o outro. Independente se já estivermos nos  relacionando no presente e concretamente com “um outro”.

Parece-me que desta maneira dificilmente nos relacionamos com o outro  (presente) de maneira presente. A utilização da internet, neste sentido, pode  estar nos possibilitando e reforçando a habituarmos a realizar um movimento  em que se acaba evitando a realidade, ou concretude, para dominar o virtual - haja vista a atratividade e facilidade que o virtual traz para o sujeito -, sendo  assim, nos habituarmos a experiências destituídas de algumas de nossa  percepção sensível natural estruturante.

Não se trata de dizer aqui que o virtual possa estar isolando o sujeito do  mundo. Aliás, as redes sociais propõem exatamente o contrário, conforme dito  anteriormente, conectar pessoas. Mas, sim, de que seu uso está transformando  nossas formas de relações no mundo.  

No movimento natural em que o outro ocupa o lugar dos meus desejos, nota-se  nas redes sociais um movimento excessivo da busca imediata de sua  realização - talvez pela acessibilidade, velocidade e facilidade da tentativa de  se realizar desejos no virtual.

Sendo fácil, portanto, encontrarmos sujeitos nas redes sociais agindo de tudo  quanto é maneira para conquistar a atenção deste outro (ele mesmo).  “Vendendo” imagens que cultuam ideais de sucesso e felicidade; postando e  compartilhando fotos de ostentação ligados a si, como as famosas “selfies” ou  vídeos de autopromoção; compartilhando, filmando ou fotografando cenas  explicitas de sexo, tragédias, acidentes chocantes, etc.

Dito de outra maneira, como consequência deste jogo de domínios, avaliação,  aprovação, aceitação, autorização, admiração e motivação que o outro possui  de “mim”, acabamos por encontrar muitos comportamentos do tipo narcisista,  exibicionista e “voyeurista” nas redes sociais.

Não obstante termos a necessidade de estar conquistando o outro, podemos  perceber, também, uma espécie de acolhimento no coletivo. As redes sociais  nos possibilitam sentir-se pertencente a um ou mais grupos de pessoas, a um  

coletivo. Conseguimos muitas vezes deixar de nos sentirmos solitários em  nossa rotina. Encontramos, também, atitudes gratuitas sendo compartilhada  solidariamente, ajudas, cuidados, sentimentos de alegria, felicidade, amizade,  tristeza, etc.

Precisamos reconhecer que com a internet temos, de maneira muito mais fácil  e acessível, maiores possibilidades de encontrar iguais para poder trocar, compartilhar. Isto nos traz alguns benefícios, inclusive terapêuticos, que  abordarei logo adiante.  

Sabendo que a internet é apenas um dado e/ou um co-dado de um  ajustamento criativo, acredito ser importante, agora, pensarmos um pouco  sobre estes ajustamentos na qual ela coparticipa.

AJUSTAMENTOS E INTERVENÇÕES NA INTERNET

Devido ao reflexo das redes sociais em nossa vida (pessoal e profissional),  além das implicações descritas acima, também nos deparamos com situações  no mínimo novas nos contextos clínicos. Como, por exemplo, o  reestabelecimento e delimitações do setting terapêutico. Atualmente, por conta  de nossas inserções nas redes sociais e de sua acessibilidade, é comum nos  depararmos com situações em que o consulente em processo terapêutico nos  interpela questões do processo via redes sociais, como pelo aplicativo do “Whatsapp”. O que fazer? Como proceder?

Esta questão merece uma atenção especial, pois, por ser comum, a maioria  dos clínicos que utilizam o celular e que possuem a ferramenta do “Whatsapp” em sua vida já se deparou nesta situação, ou então, se já não experienciou, terá grandes possibilidades de experienciar.

Em outros momentos, conforme já abordado, tínhamos já pré-estabelecido  certos limites compartilhados, como tradição, “normas de condutas”. Éramos  muito bem delimitados por nosso tempo, espaço físico e geográfico: se alguém  quisesse realizar uma sessão, por exemplo, teria que nos procurar  pessoalmente ou via telefone, e vir até o nosso consultório com hora marcada. Hoje em dia, por conta destas novas formas de experiência - acrônica e atópica -, nos deparamos com uma ampliação dos limites de nosso espaço físico,  geográfico e de nosso tempo. Acarretando, assim, situações em contextos  clínicos como no exemplo já citado, a interpelação de um consulente via  “Whatsapp” – salvo a singularidade de cada situação -, tratando sobre  questões trabalhadas na consulta já realizada, ou demandando respostas a tais  interpelações.

Ora, no exemplo supracitado, o campo, o setting, parece ter perdido os seus  limites “físicos” e “temporais”. Se não delimito, estendo a sessão realizada, ou  então, realizo uma nova sessão via internet. Em ambos os casos é preciso refletir o que é que está sendo feito e como está sendo feito. Em outras  palavras, precisamos delimitar.

Posso encarar esta nova situação, por um lado, como um empecilho, haja vista  que realizo sessões presenciais somente com hora e local marcados, e atender tal solicitação do consulente via internet teria que ser levado em consideração  o rigor teórico-metodológico e ético que pratico, ou seja, se responderei como  um profissional - afinal de contas minha relação com ele é profissional -, tenho  que ter as condições que julgo serem necessárias para poder trabalhar. Por  outro lado, abre-se uma possibilidade, igualmente a anterior: a de realizar uma  nova sessão. Entretanto, no que tange realizar uma sessão via internet, cabe  aqui, portanto, refletirmos sobre os parâmetros de uma sessão, suas  delimitações, como o “objeto” de sessão e o seu tempo.

Se tomarmos como base que uma sessão tem como parâmetro “a pontuação  das “formas” “Gestalten” de evitação, ou de criação, nas quais, por obra do  próprio consulente, o clínico foi envolvido” e que o seu tempo é medido  conforme a “revelação de uma Gestalt em que há manifestação de uma inibição reprimida, ou a superação dela”, então é possível realizar uma sessão  via ‘Whatsapp”, por exemplo (MG e MG, 2007, p. 319 e 320). Obviamente, será preciso delimitar suas características ou propostas no contrato (seja ele  presencial ou virtual).

A Gestalt-terapia, sob esta ótica, se apresenta bem atual, capaz de  acompanhar toda esta transformação nas relações. Isto se dá, acredito, pelo  fato de sua teoria (a teoria do “self”) ser uma descrição fenomenológica do  campo, um “processo temporal”, “um processo de figura/fundo em situações de  contatos” (PHG, 1951, p. 178 e 180). Deste modo, para a Gestalt-terapia, a  acronia e a atopia da internet tem lugar e tempo: no campo  

organismo/ambiente e no presente.

A fenomenologia de Merleau-Ponty nos confirmar esta possibilidade de  inferirmos um ajustamento em uma conversa por escrito, por exemplo. Pois, tal  qual uma fala falante presentificada por um gesto corporal, como em uma  sessão presencial de psicoterapia, na comunicação por escrita (ou em imagens  ou vídeos), também encontramos um excesso, “o excesso daquilo que quero  dizer sobre o que é ou o que já foi dito” (1960, p. 95), a presença de um  estranho, tal qual outrem5.

Em outras palavras, somos afetados no campo por este excesso (função id)  que se manifesta no encontro com os dados (podendo ser uma escrita, uma  imagem ou um vídeo) que nos permite vislumbrarmos um horizonte de futuro (função personalidade), um sentido, uma teoria de ajustamento criativo, por  

exemplo.

Agora, entendendo que há a possibilidade de realizar sessões pela internet6 – haja vista que na Gestalt-terapia o clínico é o próprio instrumento de leitura e  intervenção no campo -, como se configurariam estes campos? Como seriam  os ajustamentos criadores nela?  

Obviamente que é impossível abarcar ou delimitar todos os ajustamentos, haja  vista que todo ajustamento é criativo, portanto, novo e diferente. Porém,  podemos nos orientar pelos ajustamentos que PHG e outros autores nos  descrevem, ou seja, nas descrições fenomenológicas, didáticas, do processo  de contato no campo organismo/ambiente.  

  


5 MG e MG em seu livro Clínicas Gestálticas (2012, p.288 e 289) propõe uma equivalência do  termo “outrem” em Merleau-Ponty à função id da Gestalt-terapia de PHG. Segundo MG e MG,  tal qual o termo “outrem”, a função id também se refere a uma impessoalidade presente no  campo fenomenal. “(...) por não podermos retornar à origem das formas que geram  excitamento, não podemos dizer se elas pertencem a nós ou a outrem. Melhor dizer que elas  são impessoais, como se fosse outro que, à diferença do outro tal como nós o conhecemos na  cultura (outro social), não está determinado, motivo pelo qual o denominamos de outrem.” 6 Vale ressaltar aqui que escrevo do ponto de vista ético da Gestalt-terapia. Esta opção não  exime um possível diálogo em relação às posições éticas estabelecidas pelas resoluções do  CFP, como a RESOLUÇÃO N° 011/2012 que “Regulamenta os serviços psicológicos  realizados por meios tecnológicos de comunicação a distância, o atendimento psicoterapêutico  em caráter experimental” (CFP, 2012)

Podemos encontrar facilmente ajustamentos de todo o tipo - evitativos,  antissociais, banais, de busca, de inclusão -, nas redes sociais, principalmente  em redes como o “Facebook” e o “Whatsapp”. Imagens, frases, textos, vídeos,  áudios, enfim, gestos pictóricos e palavrescos que marcam uma síntese  temporal (horizonte de passado e horizonte de futuro) realizado por um ato.

Ajustamentos introjetivos marcados por imagens, vídeos, frases de mestres,  “diga como sou e como tenho que me comportar, diga o quanto sou culpado ou  o quanto valioso sou”; ajustamentos retroflexivos em expressões que os tornam  vítimas de algo; ajustamentos projetivos, muito comuns em expressões que  versam a culpabilidade de algo ruim: como a política, a religião, instituições,  times de futebol, etc.; ajustamentos confluentes: o repasse, o compartilhamento  de imagens, vídeos, frases, textos, áudios, etc., de maneira impessoal, sem  entender ou “mastigar” antes de repassar o que se recebe, “o outro é o meu  modelo”, “o que o outro me manda é o mesmo que eu penso ou sinto, é uma  verdade, mesmo sem ter me implicado nisto”; e o ajustamento egotista que  pode ser caracterizado por publicações que expressam o cultivo de sua imagem, de sua vida, como algo a ser admirado e desejado “seja meu fã”.

Os ajustamentos confluentes e os egotistas, a meu ver, parecem ter um  destaque especial nas redes sociais. É notável a quantidade de pessoas que  compartilham coisas sem se implicar, como notícias falsas ou imagens e  vídeos de frases prontas; bem como a grande quantidade de pessoas que  publicam fotos e vídeos de autopromoção, seja de seus objetos materiais  (como automóveis, vestimentas, alimentícios), ou de objetos imateriais (como “possuir algo”: textos, fotos e vídeos).

Mas também, vale lembrar que a internet, os jogos, as redes sociais, a  pornografia, são alguns dos objetos mais utilizados nos ajustamentos banais. O  acesso “portátil” do smartphone traz consigo um campo muito fértil para um  ajustamento banal - um campo que permite evitar enfrentamentos de  demandas-, haja vista sua acessibilidade e facilidade de uso. Um exemplo de  ajustamento banal bem comum nas redes sociais são as demasiadas horas em  que passamos vendo sobre a vida das pessoas, jogando, lendo, assistindo, etc.

Não é comum nos depararmos com ajustamentos de busca na internet. O que  encontramos comumente é o que fazem com os ajustamentos de busca:  chacotas, montagens, ações que tratam os sujeitos que produziram um  ajustamento de busca como meros objetos de sua satisfação. Inclusive, este  tipo de ato merece receber um destaque especial aqui, pois tenho notado uma  grande prática do mesmo em minhas redes sociais, a saber, os ajustamentos  antissociais.

Não é difícil recebermos ou visualizarmos conteúdos - compartilhados através  de grupos, páginas de redes sociais ou por mensagens individuais -, de cenas  de tragédias, acidentes, pedofilia, traição, exposições e agressões envolvendo  seres humanos ou animais.

É também verdade que boa parte daqueles que compartilham estes conteúdos  acabam fazendo sem pensar nas implicações (como em um ajustamento

confluente) que isto pode ocorrer. Porém, o efeito que o primeiro ato - o de um  ajustamento antissocial-, realizou é sentido naqueles que recebem tais  conteúdos: um impacto do perverso.

Muitas vezes nos sentimos constrangidos, com vontade de “salvar” aquilo que  vemos nas experiências das fotos e vídeos. Haja vista que nelas sempre há  alguém sendo destruído ou aniquilado.

Se por um lado existem os ajustamentos antissociais, por outro, parece estar  havendo um fenômeno bem perverso nas redes sociais. Uma espécie de  metamorfose da vontade soberana denunciada por Giorgio Agamben (1995)  em seu livro “Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I”.

Agamben expõe em seu livro a tese-denúncia de que o Estado democrático de  direito moderno malogrou ao tentar cessar a vontade soberana, e que ela  continua sendo produzida, metamorfoseada, em nossas relações.

Sua denúncia acerca das características da biopolítica moderna nos faz um  alerta para reconhecermos as metamorfoses deste modelo que organiza e produz nas relações sociais uma relação de exceção, totalitária, uma relação  de inclusão pela exclusão. Um soberano que inclui o outro, porém como vida  nua – destituída de identidade, representações e valores próprios.

No artigo intitulado "Estado de exceção na crítica agambeniana: uma leitura do  sofrimento e possível intervenção à luz da Gestalt-terapia" (BASSO, 2014),  descrevo de maneira mais detalhada sobre o tema; discorro sobre o sofrimento  ético-político e antropológico daqueles que se encontram nas formas de  exceção, bem como a leitura e proposta de intervenção que, a meu ver, a  Gestalt-terapia possa oferecer a estes que estão com a vida nua." 

O alerta de Agamben sobre as metamorfoses da exceção soberana parece-me  fazer total sentido ao pensar em alguns fenômenos que encontro nas redes  sociais. Práticas totalizadoras como o compartilhamento de fotos, vídeos,  perfis, verdadeiros dossiês de pessoas em situações de traição conjugal – o  chamado “revenge porn”7-, conteúdos íntimos compartilhados sem o  consentimento dos envolvidos, intimidades violadas, pessoas sendo utilizadas  como “memes”8, piadas nas redes sociais, pessoas que são marcadas de  

7 Conforme já descrito no texto, o “Revenge Porn” (ou pornografia da vingança) é “(...) uma  forma de violência moral que envolve a publicação (principalmente nas redes sociais) e  distribuição com o auxilio da tecnologia, sem consentimento, de imagens e/ou vídeos de  conteúdo sexual explícito ou com nudez. As principais vítimas são as mulheres e os  agressores, quase sempre, são ex-amantes, ex-namorados, ex-maridos ou pessoas que, de  qualquer forma, tiveram algum relacionamento afetivo com a vítima, ainda que por curto  espaço de tempo”. (CRESPO, 2015)

8 Segundo o site de enciclopédia livre Wikipédia, o termo “memes” é uma referência a um  conceito criado pelo biólogo evolucionista e escritor Richard Dawkins em 1976 no seu livro The  Selfish Gene. Seu conceito leva o mesmo nome, memes, e se refere a uma unidade de  informação capaz de se multiplicar através da propagação de ideias e informações passadas  de indivíduo para indivíduo. Por sua vez, o termo “memes” utilizado na internet tem por  definição “(...) tudo aquilo que os utilizadores da Internet repetem (...) uma ideia que é  propagada através da World Wide Web. Esta ideia pode assumir a forma de um hiperlink,  vídeo, imagem, “website”, “hashtag”, ou mesmo apenas uma palavra ou frase.

maneira soberana, tratadas como verdadeiros objetos, tendo a sua vida “nua”  diante de uma vontade soberana (o compartilhamento).

Um grande avanço foi a criação de leis como a Lei nº 12.965, de 23 de  abril de 2014 (o “Marco civil da internet”) e a Lei nº 12.737/12 (“Carolina  Dieckmann”), que regulamentam o uso da internet no Brasil. Porém, ainda  estamos muito aquém no que diz respeito à legislação da internet no Brasil.  

Entretanto, não posso ignorar o fato de que a própria internet e suas redes  sociais possibilitam, também, humanidades aos mesmos sujeitos em  sofrimento ético-político e antropológico por estarem com a vida nua. Podendo  servir, assim, como enfrentamentos políticos às situações de sofrimento  provocadas por tais vontades soberanas; bem como a possibilidade de  reestabelecer suas humanidades através de solidariedades gratuitas: suas  representações sociais, identidades, e possibilidades de voltar a pertencer a  algo que se identifique. Por exemplo: através da constituição de grupos de  apoio, encontrar e compartilhar com iguais, “ser visto”, encontrar “ouvidos”, etc. Enfim, a internet também é lugar de acolhida ética, política e antropológica.

Agora, após refletir sobre como se configurariam os campos e os ajustamentos  criadores na experiência com a internet, para a Gestalt-terapia, surgem outras  questões práticas. Questões cruciais que influenciam a configuração do campo.

Como a presença do outro, a influência que o olhar do outro traz para a  configuração, a visada de um gesto corporal, enfim, a complexidade que a  presença traz.

Podemos até fazer uma leitura de um ajustamento no fato de realizar um  encontro via internet, porém, não tem como não pensarmos, do ponto de vista  clínico, em possíveis “prejuízos” deste encontro. A percepção do estranho, por  exemplo, manifestado na carne do outro (função id), da expressão corporal da  síntese temporal realizada pelo sujeito (função ato) parece, de alguma maneira,  limitada.

A premissa da Gestalt-terapia de dirigir a atenção para como o consulente está  expressando (a forma), e não o que o consulente está falando (o conteúdo),  fica prejudicado. Qualquer experimento proposto visando a “awareness” sensório-motora terá limitação. Perderíamos, provavelmente, gestos corporais  espontâneos.

Em todo caso, o corpo é quem parece ficar, voluntariamente ou  involuntariamente, como fundo. Têm-se uma tendência para a “awareness” reflexiva. Portanto, reconhece-se uma limitação de compreensão e intervenção do ponto de vista clínico.

Este “meme” pode se espalhar de pessoa para pessoa através das redes sociais, blogs, e-mail  direto, fontes de notícias e outros serviços baseados na web tornando-se geralmente viral”.  (WIKIPEDIA, s/d)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sem dúvida, a internet e as redes sociais nos possibilitam a ampliação de  limites, uma espécie de consciência ampliada compartilhada, acessos e  facilidades diversas no tocante à informações, relacionamentos, desejos,  atividades cotidianas, burocráticas, expressões, experiências, comunicações,  etc. Colocou-nos em atualização, reconfiguração de nossas fronteiras no  campo organismo/ambiente.

Por ser uma forma de agir no mundo está criando novos significados, novos  sentidos, logo, traz novas formas (função id – retenção e repetição de hábitos),  novos valores e representações sociais (função personalidade) e,  consequentemente, novas sínteses temporais (função ego).

Sendo assim, a internet é lugar de contato, porém, como nos orientou PHG9,  nem todo contato há “awareness”. Há com a internet, potencialmente, contatos  vigorosos e contatos pouco enérgicos.

Este último, diz respeito a experiências corporais pobres, experiências que não  incluem características e dimensões essenciais para o aprendizado e  desenvolvimento humano, como a espessura espacial e temporal, conforme  nos alerta Chauí:

“A atopia e a acronia como formas da experiência  

contemporânea são indissociáveis do surgimento de um  

mundo novo, o mundo virtual, desprovido de espessura  

espacial e temporal, no qual nosso corpo, perdendo todas  

as características e dimensões que Merleau-Ponty  

descrevera, se reduz, de um lado, à percepção visual de  

imagens planas e fugazes, e, de outro, à atividade de  

manipulação e controle de operações e sinais propostos  

pelos programas ou autômatos” (2014, p.219).

Tal qual Benjamin (1955) já havia nos apontado acerca da transformação que a  tecnologia nos implicou, a saber: a destituição de nossa percepção sensível  original, a autora em tela corrobora no que diz respeito a este prejuízo da  experiência de um contato fragmentado e empobrecido que o mundo virtual,  um produto da tecnologia, nos coloca. A autora traz à luz a maneira como estas  práticas podem influenciar as assimilações e desenvolvimentos do corpo vivido,  entendido como o engajamento prático do corpo no mundo, como uma função  existencial (não intelectiva). A grosso modo, o corpo vivido aproxima-se da  nossa definição de “awareness” sensório-motor, correspondente à função id do  self, que está relacionada com a nossa forma habitual de como nosso corpo  age no mundo.

  

9 Conforme PHG, “O contato, como tal, é possível sem ‘awareness’, mas para a ‘awareness’ o  contato é indispensável” (PHG, 1951, p.33).

Chauí é categórica, “A atopia e acronia do mundo virtual significam, ao fim e ao  cabo, um processo ilimitado de desincorporação dos seres humanos” (2014,  p.221).

É diante de tal problematização que surgem perguntas a serem feitas. Qual  será a consequência da assimilação desta forma de experiência que, do ponto  de vista da “awareness” sensório-motora, remete mais a alguém espectador do  que ator? De alguém que beija e é beijado pelo teclado, abraça e é abraçado  por uma máquina, vê alguém e é visto por uma tela? Trará prejuízos à  experiência, aos saberes corporal? Quais consequências terão aqueles sujeitos  que serão - ou já estão sendo -, desenvolvidos com vivências mais reflexivas  do que experiências corporais complexas?

Aliás, um estudo sobre o desenvolvimento de uma criança que está em contato  com a internet, jogos, redes sociais, e como constitui suas representações e  seus hábitos faz-se mais que necessário. Como será a constituição de uma  criança que se relaciona desde o nascimento com a tecnologia por intermédio  dos pais? Formas de brincar, se relacionar, conhecer e apreender o mundo, ser  cuidado(?), etc. Seria bem interessante tentar entender este terceiro (ambíguo)  na relação pais-filhos.

Em contra partida, paradoxalmente, é por este mesmo viés da internet, em que  verificamos uma espécie de “desincorporação”, que também podemos ser afetados. Apaixonamos-nos por pessoas “virtuais”, nos excitamos, sentimos  nojo, alegria, sorrimos, sentimos tristeza, medo, choramos. Ora, também com  ela nosso corpo se torna presente.

Sendo assim, o corpo parece resistir à “desincorporação” denunciada por  Chauí (2014) e a transformação da percepção original apontada por Benjamin (1955).

A internet não deixa de ser um dado material e virtual pertencente à configuração de um campo, de um ajustamento criativo. Neste sentido, a  Gestalt-terapia ainda continua atual, nos permitindo acompanhar e servir de  instrumento teórico, metodológico e ético neste novo contexto. Afinal, conforme  já descrito, até no “escrito” é possível vislumbrarmos a formação de uma  gestalt, o nó, a síntese temporal que um corpo de atos faz para se expressar. Ainda que sejam através das palavras (gestos palavrescos) ou através de imagens e vídeos (gestos pictóricos), sou afetado por esta virtualidade tal qual  outro dado qualquer.

Outra pergunta a ser feita é: o que se pode fazer para que a internet não se  torne mais um meio pelo qual uma vontade soberana - como nas situações do  “revenge porn”, em manifestações discriminatórias coletivas, homofóbicas,  preconceituosas, etc.-, provoca nos sujeitos envolvidos o sofrimento ético político-antropológico?

Na própria internet, conforme já exposto, tem este potencial de enfrentamento  e acolhimento ético. Talvez uma conscientização, um alerta para os  ajustamentos confluentes que podem estar corroborando com uma agressão

ao outro, lhe imputando vida nua, possa ser um meio. É preciso estar atento ao  que se está compartilhando, curtindo, corroborando, re-inscrevendo.

Por fim, saliento a importância de estudos, pesquisas e reflexões a respeito  deste campo da internet, que ainda carece, a fim de nos ajudar a compreender  um pouco mais nossas formas de relação no mundo em transformação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGAMBEN, G. (1995) - Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I – 2ª  Ed. – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

BASSO, F. S. (2014) – Estado de exceção na critica agambeniana: uma  leitura do sofrimento e possível intervenção à luz da gestalt-terapia. IGT  na Rede, Rio de Janeiro, RJ, 11.20, 18 09 2014. Disponível em:  <http://www.igt.psc.br/ojs/viewarticle.php?id=477>. Acesso em: 17 01 2017.

BELMINO, M. C. de B. (2010) - O amor na “rede”: um estudo  fenomenológicodos namoros virtuais. Disponível em:  

<http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFOR_55dc0fbc75fa9b16529ce896febc298b  Acesso em: 13 de dezembro de 2016.

BENJAMIN, W. (1955) A obra de arte na era de sua reprodutibilidade  técnica. Primeira versão. Traduzido em português por José Lino Grünnewald.  Disponível em:  

<http://www.mariosantiago.net/textos%20em%20pdf/a%20obra%20de%20arte %20na%20era%20da%20sua%20reprodutibilidade%20t%C3%A9cnica.pdf>  Acesso em: 13 de dezembro de 2016.

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Endereço para correspondência

Fabrício Siqueira Basso

E-mail: fabricio-psi@hotmail.com

Recebido em: 15/12/2016

Aprovado em: 31/12/2016

Revista IGT na Rede, v. 13, nº 25, 2016, p.273-297 DOI 10.5281/zenodo.15054428

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526