ARTIGO

Produção Gestáltica nas Bases de dados SCIELO e PEPSIC:  Revisão Sistemática1 

Gestaltic Production in SCIELO and PEPSIC databases: Systematic Review

Paulo Coelho Castelo Branco

Cândida de Oliveira Carpes

 1 Os autores agradecem o apoio financeiro do CNPq.

RESUMO

Este artigo objetiva analisar as produções de artigos sobre a Gestalt-Terapia e a  Abordagem Gestáltica, conforme uma revisão sistemática no SciELO e no PePSIC,  para refletir algumas características da circulação do conhecimento Gestáltico  nessas bases de dados. Foram catalogados 73 artigos, publicados de 1997 até  2014, analisados segundo as seguintes categorias: ano, autoria, filiação institucional,  periódico, tipo de trabalho e área do conhecimento. Os resultados sugerem que a  circulação das produções investigadas tem as seguintes características: constâncias  de publicações nos anos de 2004 até 2014; hegemonia de artigos publicados em um  periódico; ênfase em produções teóricas; concentração em discussões voltadas para  área Clínica; diversos autores produtivos ligados a Universidade de Brasília; região  Centro-Oeste como eixo de produção. Conclui-se com a sugestão de exercícios  constantes de revisões e outras pesquisas que mapeiem a circulação da Gestalt Terapia e a Abordagem Gestáltica em outras fontes de dados.  

Palavras-chave: Arquivos Abertos; Base de Dados; Gestalt-Terapia; Revisão de  Literatura.

ABSTRACT

This article aims to analyze the productions of articles on Gestalt Therapy and  Gestalt Approach, according a systematic review in SciELO and PePSIC, to reflect  some characteristics of Gestalt knowledge circulation in these databases. Seventy three articles were found, published from 1997 to 2014, analyzed by the following  categories: year, authorship, institutional affiliation, journal, type of work and field of  knowledge. The results suggest that the studied productions' circulation presents the  following features: constancy of publications from 2004 to 2014; hegemony of papers  published in a single magazine; emphasis on theoretical productions; concentration  of discussions on the clinical field; several productive authors affiliated to Brasília  University; Brazilian Midwest as the production axis. The conclusion suggests  constant review exercises and future researches to map the circulation of Gestalt  Therapy and Gestalt Approach in other data sources.

Keywords: Open Archives; Databases; Gestalt Therapy; Literature Review.

INTRODUÇÃO

A Gestalt-Terapia é uma abordagem psicológica que foi desenvolvida por Frederick  (Fritz) Perls e outros colaboradores (como, Laura Perls, Paul Goodman, Isadore  From, Paul Weiz, Sylvester Eastman e Eliot Shapiro) que compartilhavam ideias  sobre os potenciais humanos. Em 1951, a Gestalt-Terapia se consolidou, nos EUA, como uma perspectiva clínica dotada de teoria e prática, focada em intervenções psicoterapêuticas em nível de personalidade e crescimento intra e interpessoal (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). Como uma visada experiencial composta de pressupostos holísticos, fenomenológicos e existenciais, crítica à corrente psicanalítica freudiana e alternativa as psicologias comportamentais,  vigentes nas décadas de 1950-1960, a Gestalt-Terapia somou-se às contendas da  Psicologia Humanista, tornando-se reconhecida como uma abordagem humanística (MOSS, 2001; HOLANDA, 2014).  

Com o desenvolvimento da Gestalt-Terapia, muitas de suas atitudes e premissas  foram utilizadas além do âmbito clínico, nos contextos grupais, comunitários, educacionais, organizacionais etc. Desse advento, surgiu o termo Abordagem  “Gestáltica” para referir a um campo maior de implicação das atitudes “gestálticas” onde existir relações humanas. Fritz Perls, em momento maduro de sua carreira, optou por usar o mencionado termo ao considerar seus trabalhos anteriores (Ego,  Fome e Agressão e Gestalt-Terapia) ultrapassados e demasiadamente eruditos,  além de estar interessado em apresentar outra proposta vivencialmente mais direta  e acessível em seu entendimento e prática (SPITZER, 1988).  

Com a expansão da Gestalt-Terapia e da Abordagem Gestáltica, nas diversas  localidades do mundo, existiu um movimento de recepção dessa vertente humanista  no Brasil, que foi desde os anos de 1960 até uma intensificação nas décadas seguintes. Isso aconteceu devido à criação de grupos de estudos, à vinda de alguns  psicólogos humanistas, às defesas das primeiras dissertações e teses sobre a  abordagem e as traduções das obras de Perls e outros expoentes “gestálticos”. Com  efeito, atualmente, é possível encontrar algumas produções, notoriamente de cunho  histórico, que analisam e refletem o movimento da Gestalt-Terapia no Brasil  (GOMES; HOLANDA; GAUER, 2004; HOLANDA; KARWOSKI, 2004; SUASSUNA;  HOLANDA, 2009; HOLANDA, 2009; PRESTELO, 2012; FRAZÃO, 2013).  

Ao migrar para o Brasil, a Gestalt-Terapia, destarte, colabora com a assunção de  uma Psicologia Humanista brasileira com alguns expoentes nacionais. Esta ascensão não seria possível sem algumas operações sociais que visam à propagação de conhecimentos específicos nos diversos meios de produção  científica que possibilitam a sua circulação, como encontros, simpósios, congressos,  anais, boletins, periódicos acadêmicos, cursos, centros de formação, dissertações e  teses (GRYNZSPAN, 2012). Estes meios de produção e circulação de conhecimento  psicológico são possíveis de ser estudados como objetos que retratam um momento  histórico de desenvolvimento e consolidação de uma abordagem psicológica que migrou de um local para outro e se atualizou conforme as contendas regionais do lugar que a recebeu.

Deste modo, objetivamos analisar as produções de artigos sobre a Gestalt-Terapia e  a “Abordagem Gestáltica” em periódicos nacionais disponíveis em dois bancos de  dados virtuais, o “Scientific Electronic Library Online” (SciELO) e o “Portal de  Periódicos Eletrônicos em Psicologia” (PePSIC), durante o período de 1997 a 2014.  Argumentamos que essa investigação possibilita fazer algumas inferências sobre o  “status” corrente do desenvolvimento dessa abordagem humanista nos aludidos  banco de dados durante o mencionado período. Apontamos que, nesse esteio de  pesquisa, serviram-nos de inspiração alguns trabalhos, norteados pelo método de  revisão sistemática, que investigaram o “status” corrente das produções da Gestalt Terapia brasileira em bancos de dissertações e teses (HOLANDA; KARWOWSKI,  2004; HOLANDA, 2009). Inspiramo-nos, ainda, em pesquisas que investigaram as  produções acadêmicas nacionais de outras abordagens e intervenções humanistas  (SOUZA; SOUZA, 2011; SCORSOLINI-COMIN; SANTOS, 2013; VÉRAS; ROCHA,  2014; SCORSOLINI-COMIN, 2015).

MÉTODO

Elegemos a revisão sistemática de literatura (COSTA; ZOLTOWSKI, 2014) como  estratégia de pesquisa para analisarmos as produções nacionais de artigos sobre a  “Gestalt-Terapia” e a Abordagem Gestáltica em duas bases de dados, ou bibliotecas  virtuais, o SciELO e o PePSIC. O motivo para delimitarmos o SciELO como o  primeiro banco de dados investigado ocorreu em razão do fato desse ser  considerado, segundo a “United Nations, Educational, Scientific and Cultural  Organization” (UNESCO) (PACKER; COP; LUCCISANO; RAMALHO; SPINAK,  2014), o maior provedor de periódicos indexados de acesso aberto do mundo. A  escolha do “PePSIC”, por sua vez, aconteceu por este utilizar o mesmo sistema e  método de busca do SciELO e ser uma fonte da “Biblioteca Virtual em Saúde – Psicologia da União Latino-Americana de Entidades de Psicologia” (BVS- Psi  ULAPSI), que divulga somente periódicos e artigos em Psicologia. Ambas as  bibliotecas são, portanto, representativas ao estudo da produção de artigos sobre  “Gestalt-Terapia” e Abordagem Gestáltica no Brasil.  

Após uma consulta inicial, utilizamos as seguintes palavras-chave disponíveis no  índice de assuntos do SciELO: Gestalt-Terapia, Gestalt Terapia, Abordagem  Gestáltica e Gestalt. No PePSIC foram empregados os seguintes termos, também,  no índice de assuntos: Gestalt-Terapia, Gestalt Terapia, Gestalt-Terapia de Curta  Duração, Abordagem Gestáltica, Grupos Gestálticos, Gestaltpedagogia e “Gestalt”.  Ressaltamos que os descritores em inglês (por exemplo, Gestalt-Therapy) não foram  incluídos na busca, por constatarmos que eles apresentavam os mesmos termos em  português, gerando resultados iguais. Salientamos, ainda, que o motivo dos  descritores de cada banco de dados não serem idênticos ocorre em razão da  variação dos periódicos indexados em cada base. Ou seja, os periódicos e artigos  vinculados ao SciELO não são os mesmos do PePSIC, o que afeta o registro dos  descritores nos índices de cada banco, a despeito de eles serem idênticos ou não.  Analisamos, pois, todos os descritores isoladamente sem combiná-los. A escolha do  período compreendido para a pesquisa foi de 1997 até 2014, ou seja, do ano da  produção mais antiga minutada até o último ano possível de fazer integralmente a  coleta de todos os artigos disponibilizados nas duas bibliotecas virtuais. O levantamento do material bibliográfico ocorreu durante os meses de novembro e  dezembro de 2015.  

Nos dois bancos de dados, utilizamos como critério de inclusão, artigos publicados em periódicos nacionais e produzidos por autores brasileiros que abordaram  qualquer discussão teórica ou prática sobre Gestalt-Terapia e Abordagem  Gestáltica, independente da área de conhecimento em que ela foi realizada.  Incluímos, ainda, as publicações que utilizaram qualquer perspectiva de pesquisa em Gestalt-Terapia e Abordagem Gestáltica. Em cada artigo, fizemos uma leitura  seletiva nos restringindo aos conteúdos apresentados nos títulos, resumos e  palavras-chave. Em caso de dúvidas, procedemos de uma leitura mais geral do texto  para captarmos as informações pertinentes à nossa pesquisa. Foram descartados  da coleta aqueles artigos que não se aproximavam da Gestalt-Terapia e da  Abordagem Gestáltica, sobretudo, os trabalhos sobre Psicologia da Gestalt2 ou  reflexões filosóficas que utilizaram algo desse referencial. Esses tipos de opúsculos  não contemplaram o recorte de nossa pesquisa. Foram descartados, também, os  artigos: repetidos mais de uma vez, havendo somente uma catalogação; publicados  em 2015; procedentes de autores, filiações e periódicos estrangeiros.  

Demonstramos, a seguir na Figura 1, o esquema gráfico de como foi procedida a  nossa estratégia de pesquisa para atingir a amostra bibliográfica final (N = 73).

Os trabalhos coletados e reunidos, segundo esses critérios, foram tabulados e  categorizados conforme o ano, autoria, filiação institucional, periódico, tipo de  trabalho (teórico, empírico ou descrição de experiência) e área do conhecimento.  Ressaltamos que esses procedimentos foram realizados por dois juízes  

 2 Entendemos a Psicologia da Gestalt como um sistema de pesquisas experimentais sobre os processos básicos  de percepção e aprendizagem, composto, inicialmente, pelos estudos de Max Wertheimer, Wolfang Köhler e  Kurt Kofka, e, posteriormente, pelas pesquisas de Kurt Lewin, Kurt Goldstein e outros. A Gestalt-Terapia, por  sua vez, não elabora estudos experimentais e avaliativos sobre os mencionados processos básicos, em razão de  ela ser uma vertente psicoterapêutica que utiliza alguns aportes teóricos e conceituais oriundos da Psicologia da  Gestalt, para fundamentar sua prática e possibilitar a crítica de Perls à Psicanálise freudiana (MÜLLER GRANZOTTO; MÜLLER-GRANZOTTO, 2007).

independentes. As discordâncias no processo de coleta e categorização foram  resolvidas por consenso entre os pesquisadores. Consideramos que a organização desses vários dados bibliográficos dispersos em variados periódicos possibilitou análise e entendimento de algumas características da circulação do conhecimento  gestáltico disponível nas bases de dados SciELO e PePSIC.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A pesquisa realizada sobre os dois bancos de dados (SciELO e PePSIC) evidenciou  o total de 73 artigos. Consideramos que esses trabalhos aceitos e publicados em  diversos periódicos nacionais proporcionaram uma visibilidade sobre a produção de  conhecimento sobre a Gestalt-Terapia e Abordagem Gestáltica e possibilitaram  variadas inferências e reflexões sobre o “status” corrente dessa abordagem  psicológica nesses meios de publicação científica.

No que concerne à distribuição temporal de publicações no período analisado, 1997- 2014, na Tabela 1, observamos que de 1997 a 2003 existiram poucas publicações, com alguns intervalos de produção entre um ano e outro. Entretanto, de 2004 a  2014, percebemos uma mudança em relação à constância de produções de mais de  um artigo por ano.

Evidenciou-se que 2009, notoriamente, foi o ano mais produtivo (n = 19; 26,02%).  Inferimos que, possivelmente, o advento do I Congresso Sul-Brasileiro de Fenomenologia, posteriormente vinculado ao Congresso Brasileiro de Psicologia e  Fenomenologia, tenha contribuído para tal expressão. Esse Congresso, em 2009, consolidou um espaço acadêmico de discussões humanistas, fenomenológicas e  existenciais, das quais a “Gestalt-Terapia” se destaca. Ainda, nesse ano, Holanda  (2009) minutou, a partir de uma pesquisa no Banco de Teses da CAPES, um  aumento de dissertações e teses e, por conseguinte, um contingente maior de  mestres e doutores versados a “Gestalt-Terapia”, sobretudo, nos anos de 1990 até  2008. Ponderamos que esses fatores colaboram para a estabilidade de produções  frequentes, de 2004 a 2014, e com a alta de produção no ano de 2009.  

Ainda assim, de um modo geral, os dados obtidos nos permitem constatar que há  uma escassez de produções de artigos em “Gestalt-Terapia” no circuito de  periódicos nacionais vinculados ao SciELO e ao PePSIC. O conhecimento “gestáltico”, segundo o nosso juízo, baseado nos dados levantados dissemina-se  mais em um cenário extra universitário de centros de formação, os chamados  Institutos de Gestalt-Terapia, que seguem uma tradição iniciada por Fritz Perls. Este,  ao contrário de outros expoentes humanistas, como Carl Rogers, Abraham Maslow e  Amedeo Giorgi, foi avesso a publicar suas ideias em periódicos acadêmicos e  constituiu o seu saber fora do circuito acadêmico, não chegando a se preocupar com  a formação de pesquisadores. Observamos, consoante Holanda e Karwowski  (2004), que a produção de conhecimento gestáltico no Brasil apresenta maior  circulação em livros do que em outras fontes acadêmicas (artigos, dissertações e  teses).

Em relação aos periódicos brasileiros que sediaram os artigos publicados nas bases  analisadas, segundo a Tabela 2, destacamos a Revista da Abordagem Gestáltica – Phenomenological Studies, que exprimiu o maior número de produções (n = 31;  42,46%). Essa revista tem orientação editorial, foco e escopo voltados para publicar  manuscritos fundamentados nas perspectivas humanistas, fenomenológicas e  existenciais, e uma linha editorial que privilegia estudos sobre o tema da “Gestalt Terapia” e Abordagem Gestáltica. Não à toa, a Revista da Abordagem Gestáltica – Phenomenological Studies congrega o maior número de publicações minutadas.

Atentamos, também, para a Revista Estudos e Pesquisa em Psicologia que  apresentou considerável número de produções gestálticas (n = 18; 24,66%). Embora  esse periódico não tenha uma linha editorial focada, especificamente, em publicar  produções humanistas, fenomenológicas e existenciais, no geral, ele demonstra ser  um espaço de divulgação desses saberes por muitos psicólogos brasileiros,  principalmente, de orientação “gestáltica”. Ambos os periódicos analisados,  curiosamente, congregam mais da metade das produções “gestálticas” catalogadas  (67,12%), demonstrando serem espaços propícios à divulgação da Gestalt-Terapia  no SciELO e no PePSIC. Em relação à possibilidade circulação de artigos, por um  lado, os periódicos mencionados oferecem alento aos autores interessados em  publicar seus estudos sobre “Gestalt-Terapia” e Abordagem Gestáltica; por outro, tal  concentração torna essa circulação restrita, tornando o conhecimento “gestáltico” pouco divulgado e disseminado em outras revistas vinculadas as bases  investigadas.

No que se refere aos tipos de artigos publicados, apontamos uma predominância de  produções teóricas (n = 56) em relação aos artigos empíricos (n = 13) e as  descrições de experiências (n = 4). Considerando a maior incidência de trabalhos  teóricos (76,71%) sobre os empíricos (17,81%), reconhecemos que existe uma  carência de produções empíricas em Gestalt-Terapia e Abordagem Gestáltica.  Outros estudos atentaram, também, para a hegemonia de trabalhos teóricos na  produção de dissertações e teses (HOLANDA; KARWOWSKI, 2004; HOLANDA,  2009). Inferimos que essa característica, possivelmente, aconteça em decorrência  de um momento histórico recente. Ao ser recebida no Brasil, nas décadas de 1960- 1970, a Gestalt-Terapia foi disseminada como uma abordagem vivencial, a-teórica,  considerada simples e direta no manejo de suas técnicas interventivas (PRESTELO, 2012). Certamente, a Gestalt-Terapia vai além dessas características. No entanto, foram elas que chamaram a atenção do público brasileiro e possibilitaram a divulgação e o aprendizado desse saber em diversos centros de formação.  Posteriormente, nos anos de 1980-2000, ocorreu maior preocupação em  fundamentar o campo da Gestalt-Terapia e refletir teoricamente os seus trabalhos. Indicamos, como obras pioneiras, as de Jorge Ponciano Ribeiro, “Gestalt-Terapia:  refazendo um caminho” (1985), e Thérèse Tellegen, “Gestalt e Grupos” (1984), pois  representam bem esse movimento de retomada teórica.

A Gestalt-Terapia, por vezes, é acusada de ser uma abordagem destituída de  erudições teóricas (GOMES; HOLANDA; GAUER, 2004). Conquanto, Perls,  conforme explanamos anteriormente, tentasse simplificar o seu saber, incorre  equívoco pressupor tal destituição. Sem dúvida, a postura gestáltica critica os  tecnicismos e a falta de foco nas relações interpessoais e nas experiências que  emergem no presente. Contudo, o que observamos, no Brasil, é um movimento de  abertura a teorizações e reflexões sobre os fundamentos teóricos da Gestalt Terapia. A despeito disso, é característica nessa abordagem a resistência de produzir pesquisas empíricas. Esse problema foi apontado por Taylor e Martin  (2001), os quais ponderam que a Psicologia Humanista contém uma proposta de  Ciência que reconhece a necessidade de mais pesquisas em Gestalt-Terapia. Esta, a despeito da sua escassez de pesquisas empíricas, possui corpo teórico interventivo consistente, bases epistêmicas e visão de sujeito e mundo condizentes  aos ideais humanistas.

Ainda em relação à análise dos tipos de artigos publicados, ressaltamos que  intitulamos como “descrição de experiências” (5,48%) aqueles artigos que se  referem à implementação de serviços de Gestalt-Terapia e oficinas gestálticas em vários campos de atuação profissional. Os artigos relacionados a esse tipo de  produção, não são empíricos, pois não demonstraram trabalhos com métodos de  pesquisa, nem são, tampouco, relatos de experiência, pois não estão situados nessa  categoria de submissão.  

Em relação à distribuição da área de conhecimento dos artigos analisados, segundo a Tabela 3, notamos a existência de discussões enveredadas para diversas áreas.

As discussões clínicas, portanto, são preponderantes em mais da metade das  produções gestálticas investigadas (n = 39; 53,42%). Esse dado coaduna com o  perfil geral da Gestalt-Terapia que, em sua origem, é uma proposta psicoterapêutica.  As áreas da Educação (n = 7; 9,59) e da Saúde (n = 5; 6,85), também, figuraram  como as mais versadas, ainda que com uma discrepância significativa em relação à  área Clínica – podemos afirmar o mesmo em relação às outras áreas tabuladas.  Ressaltamos que entendemos a área de “Produção Acadêmica” como aquela que  engloba revisões sistemáticas sobre a Gestalt-Terapia. Comparamos, ainda, nossos  dados tabulados aos resultados obtidos pela pesquisa de Holanda (2009), sobre as  dissertações e as teses “gestálticas” produzidas de 1982 a 2008, que evidenciou  uma significativa direção para o debate epistemológico. No que concerne à  produção de artigos no período compreendido por nós, em contraste ao estudo do  autor citado, os “Fundamentos Epistemológicos” não figuraram como a área de direcionamento maior, ao contrário da “Clínica”. Esta área, segundo entendemos, é  um importante referencial que subsidia estudos e intervenções no campo da Gestalt Terapia brasileira.

Na análise dos autores nacionais que mais produziram artigos sobre Gestalt-Terapia e Abordagem Gestáltica no SciELO e no PePSIC, catalogamos o total de 120autores e coautores nos 73 artigos tabulados. Estabelecemos um ranque dos cinco  que foram mais produtivos de 1997 a 2014, a saber: Mônica Botelho Alvim (n = 8);  Jorge Ponciano Ribeiro (n = 5); Adriano Furtado Holanda (n = 5); Sheila Maria  Antony (n = 5); e Celana Cardoso Andrade (n = 4). Estes autores ranqueados,  juntos, congregam 22,5% da produção nas bases analisadas, e os demais autores  (n = 93), que publicaram menos de quatro artigos, reúnem 77,5% da produção  catalogada.  

Nessa análise de autoria, expressamos algumas curiosidades em relação aos cinco  autores ranqueados. Todos eles têm vínculos com a Universidade de Brasília (UnB)  e especialização em Gestalt-Terapia (Jorge Ponciano Ribeiro nos EUA e os demais  no Instituto de Gestalt-Terapia de Brasília – IGTB). Existe certa ligação entre esses  

autores: Sheila Antony tem Graduação e Mestrado na UnB (sob a orientação de  Jorge Ponciano Ribeiro), Especialização no IGTB; Adriano Holanda tem Graduação  em Brasília, Especialização no IGTB, Mestrado na UnB (sob a orientação de Jorge  Ponciano Ribeiro); Monica Alvim tem Graduação, Mestrado e Doutorado na UnB  (sob a orientação de Jorge Ponciano Ribeiro) e Especialização no IGTB; Celana  Andrade é Especialista pelo IGT de Goiás, tem Mestrado na Pontifícia Universidade  Católica de Goiás (sob a orientação de Adriano Holanda) e é doutoranda pela UnB  (sob a orientação de Jorge Ponciano Ribeiro). Nessa rede de orientações, Jorge  Ponciano Ribeiro, professor titular da UnB, é a figura central que congrega a  formação dos demais autores ranqueados. Observamos que o alinhamento de uma  formação especializada em Gestalt-Terapia com uma qualificação acadêmica, em  nível de mestrado e doutorado, aponta para uma conciliação entre os circuitos extra  e intra universitários, pouco articulados por Perls.  

Em função da filiação institucional dos autores registrados, estabelecemos o ranque  das Instituições de Ensino Superior, as quais os autores tabulados expressaram  suas filiações, segundo observamos a seguir na Tabela 4.  

Ressaltamos que o total de instituições tabuladas não se refere ao total de autores  mencionados na Tabela 3, pois, para esta categoria, foram excluídos dois autores  que não declararam suas filiações institucionais – ambos se filiaram apenas como

Revista IGT na Rede, v. 14, nº 26, 2017. p. 72 – 86. Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526

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BRANCO, Paulo Coelho Castelo, CARPES Cândida de Oliveira – Produção Gestáltica nas Bases de  dados SCIELO e PEPSIC: Revisão Sistemática

psicoterapeutas. Consideramos como “demais instituições” aquelas que filiaram  autores que publicaram menos de quatro artigos. Entendemos que a UnB (n = 17) e  a Universidade Federal de Goiás (UFG) (n = 10) foram as instituições que mais  filiaram os autores que publicaram no período analisado. Destacamos que, nesse  ranque, duas instituições são brasilienses e três são goianas. Merecem realce,  ainda, a PUC-Campinas e a Universidade de Fortaleza (UNIFOR), duas instituições  de ensino superior com tradições de pesquisas humanistas e fenomenológicas.  

Ao redistribuir essas filiações e suas produções em termos de regiões geográficas  do Brasil, obtivemos a Tabela 5, exposta em seguida:

Foi excluída, na Tabela 5, uma autora brasileira de filiação estrangeira que publicou  em um periódico nacional. O artigo atendeu os critérios de inclusão apontados no  método e entrou nas análises anteriores. No entanto, ele precisou ser excluído, na  confecção dessa Tabela, restrita somente às regiões brasileiras levantadas pelas  instituições tabuladas. Eis o motivo para o total da Tabela 5 ser de 117 filiações.  Percebemos que a região Centro-Oeste expressou a maior circulação de artigos  sobre Gestalt-Terapia nas bases de dados analisadas, em razão das produções de  Brasília e Goiânia e do que pudemos atentar na Tabela 4.

Brasília, historicamente, é uma cidade importante no desenvolvimento da Gestalt Terapia nacional (SUASSUNA, 2008). A cidade, em 1977, incorporou o primeiro  programa brasileiro de formação em Gestalt-Terapia, regido por Walter Ribeiro, além  de contar com as vindas de alguns expoentes da Gestalt-Terapia, como Maureen  Müller-O’Hara (GOMES; HOLANDA; GAUER, 2004). Esse contexto foi fértil à  formação de estudiosos da Gestalt-Terapia no Brasil, possibilitando um solo histórico  que explica a concentração das mencionadas produções nas bases analisadas.  

Na UnB, as pesquisas e as orientações de Jorge Ponciano Ribeiro colaboram,  igualmente, com esse desenvolvimento. O destaque de Brasília e Goiás na Gestalt Terapia brasileira foi apontado, também, pela pesquisa de Holanda (2009). Este, por  um lado, evidencia uma soberania da região Sudeste, pelos Estados de São Paulo e  Rio de Janeiro, nas produções de dissertações e teses sobre Gestalt-Terapia; nosso  estudo, por outro viés, assinala para uma hegemonia da região Centro-Oeste, que  concentra 42,74% da produção de artigos sobre Gestalt-Terapia em periódicos  nacionais, sobretudo pelos Estados do Distrito Federal e Goiás. Conquanto, tenhamos tabulados diversas filiações institucionais distribuídas nas regiões  brasileiras, frisamos que encontramos certa dificuldade no levantamento dessas instituições, em razão de vários autores apontarem mais de uma filiação além da  universitária – geralmente um Instituto de Gestalt-Terapia. Nesse caso, por  consenso, priorizamos somente o registro da filiação universitária de cada autor.  Esse foi um limite do estudo.

Com base nos dados coletados e analisados, percebemos, finalmente, que existe  uma circulação de artigos sobre Gestalt-Terapia que representam um “status” corrente com as seguintes características: constância de publicações nos últimos  dez anos; predominância de artigos publicados na “Revista da Abordagem  Gestáltica – Phenomenological Studies”; ênfase em produções teóricas;  concentração em discussões voltadas para a área Clínica; autores produtivos  ligados à UnB e a especializações em Institutos de Gestalt-Terapia; UnB como  filiação institucional mais representativa nos dados catalogados; região Centro Oeste como eixo de produção nas bases analisadas.  

O levantamento de artigos sobre Gestalt-Terapia e Abordagem Gestáltica no Brasil,  segundo as nossas análises, expressa a circulação de um conhecimento psicológico  que, ainda, luta por se estabelecer no cenário acadêmico de propagação de Ciência.  Para tal intento acontecer, recomendamos mais: publicações em outras revistas de  orientação editorial ampla e não restrita ao humanismo; variedade de produções  direcionadas para outras áreas além da clínica; publicação de estudos empíricos.  

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os dados evidenciados nos artigos recuperados pelo método de revisão sistemática,  de 1997 até 2014, nas bases do SciELO e do PePSIC, demostram que a Gestalt Terapia tem buscado se firmar nessas fontes de circulação de artigos acadêmicos.  Ainda que exista um circuito proficiente de conhecimentos e práticas nos vários  centros e núcleos de formação em Gestalt-Terapia, nos restringimos somente à produção científica encontrada em periódicos indexados no “SciELO” e no “PePSIC”.  Salientamos que as produções disponibilizadas nesses bancos de dados são de  acesso aberto pela “internet”, o que colabora para promover o conhecimento humanista desenvolvido sob a orientação da Gestalt-Terapia e da Abordagem  Gestáltica.

Sobre os limites dessa pesquisa, destacamos a investigação de somente duas  bases de dados, o que incute a premissa, própria do método de revisão sistemática  (COSTA; ZOLTOWSKI, 2014), de que os dados aqui tabulados e as inferências ora  tecidas devem ser vistos como parciais e comparados com outras pesquisas já  realizadas (HOLANDA; KARWOWSKI, 2004; HOLANDA, 2009) e em devir. Mesmo  assim, avaliamos ter obtido material suficiente e representativo para tecer um quadro  geral da produção de Gestalt-Terapia no SciELO e no PePSIC. Outras bases de  dados, como o Lilacs-BIREME, por exemplo, podem ser miradas de futuras  pesquisas que ampliem o conhecimento sobre a circulação da Gestalt-Terapia e da  Abordagem Gestáltica no Brasil. Seguindo a inspiração de outras pesquisas sobre  as produções de conhecimento humanista e fenomenológico que circulam em um  único periódico (CASTELO-BRANCO; ANDRADE, 2011; SACOMANO; FARIA,  2014), como um estudo de caso à parte e alvo de uma futura pesquisa, indicamos a análise da Revista IGT na Rede, periódico acadêmico que, embora não vinculado às  bases então analisadas, caracteriza-se como um importante meio de divulgação de  artigos, especificamente, relacionados ao referencial Gestáltico no Brasil. Com a  articulação dessas partes haveria, pois, dados suficientes para fazer uma  metanálise, que possibilitaria outras inferências sobre a produção de conhecimento  Gestáltico nacional.  

Consideramos, por fim, que o exercício constante e acumulativo de revisões sobre  as produções gestálticas configura tarefa incessante para conhecermos mais sobre  o desenvolvimento e a circulação dessa abordagem em mecanismos de publicação  

científica. Esperamos que a nossa pesquisa contribua com informações para os  profissionais que atuam em Gestalt-Terapia e pesquisadores interessados em  elaborar outros estudos sobre ela.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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COSTA, A; ZOLTOWSKI, A. COMO ESCREVER UM ARTIGO DE REVISÃO  SISTEMÁTICA. In: KOLLER, S.; COUTO, M.; HOHENDORFF, J. (Org.). Manual de  produção científica. Porto Alegre: Penso, 2014. p. 55-70.

FRAZÃO, L. UM POUCO DA HISTÓRIA... UM POUCO DOS BASTIDORES. In: L.  FRAZÃO, L.; FUKUMITSU, K. (Org.). Gestalt-terapia: fundamentos  epistemológicos e influências filosóficas. São Paulo: Summus, 2013. p. 11-33.

GOMES, W.; HOLANDA, A.; GAUER, G. HISTÓRIA DAS ABORDAGENS  HUMANISTAS EM PSICOLOGIA NO BRASIL. In: MASSIMI, M. (Org.). História da  psicologia no Brasil do Século XX. São Paulo: E.P.U, 2004. p. 105-129.

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NOTAS

Paulo Coelho Castelo Branco: Professor Adjunto I do Instituto Multidisciplinar em  Saúde da Universidade Federal da Bahia - IMSUFB. Doutor em Psicologia pela  Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Coordenador do Núcleo de Estudos  em Psicologia Humanista.

Cândida de Oliveira Carpes: Psicóloga Graduada pela Universidade Federal da  Bahia – UFB. Especializanda em Experiência Somática pela Associação Brasileira  do Trauma.

Endereço para correspondência

Paulo Coelho Castelo Branco.

E-mail: pauloccbranco@gmail.com

Cândida de Oliveira Carpes

E-mail: cândida.carpes@hotmail.com

Recebido em 08/08/2016

Aprovado em 16/11/2016

Revista IGT na Rede, v. 14, nº 26, 2017, p.72-86 DOI 10.5281/zenodo.15054572

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526