ARTIGO

Conjugalidade e amor: um olhar da Gestalt – Terapia na prática  clínica

Conjugality and love: a look at the Gestalt – Terapy in clinical practice Stela Regina Pinheiro Correa Leal

RESUMO

Este estudo demonstra que a atuação do Gestalt-terapeuta está fundamentada  por pressupostos filosóficos, teóricos, pela precisão da técnica que o tornam  capacitado para atender a demanda central do cliente, no caso, a experiência  do indivíduo em sua relação conjugal e a sua ligação com o amor. Para sua  elaboração, utilizou-se o método fenomenológico, de natureza qualitativa,  objetivos descritivos. No presente artigo verifica-se que, para uma relação  salutar, a fronteira do eu e do não-eu dos sujeitos do casal carece apresentar se definida e flexível. Considera-se que o profissional em sua prática  terapêutica diante do sujeito ocupe-se em ampliar o sentido do “eu” ao valorizar  o potencial positivo deste, com o propósito de discriminar os conteúdos: seu,  do parceiro e da relação conjugal.

Palavras-chave: Conjugalidade; Gestalt-Terapia; Amor; Clínica. ABSTRACT

The present study demonstrates that the actuation of the Gestalt therapist is  substantiated by philosophical and theoretical presuppositions and by the  accuracy of the technique that make it capable to attend the central demand of  the clients. In this case, the experience of the individual in his/her conjugal  relationship and his/her connection with love. For its elaboration, we used the  phenomenological method, qualitative research and descriptive goals. This  article verifies that for a salutary relationship the frontier of the self and the not self of the members of the couple lacks to show itself defined and flexible. It is  considered that the professional in his/her therapeutic practice before the  subject should be focused on enlarging the sense of self to enhance the  positive potential of this, with the purpose to discriminate the contents: yours,  your partner’s and your conjugal relationship.  

Keywords: Conjugality; Gestalt Therapy; Love; Clinic.

INTRODUÇÃO

Segundo Carpagiani (2011), o início do trabalho terapêutico é sempre fonte de  angústias, ansiedades e preocupações, pois tanto os conceitos teóricos quanto  o uso da técnica, atenção e ética profissional devem ser colocados em prática  e o futuro profissional da psicologia deverá ter esses passos bem instruídos e  internalizados. Aguirre (2000) considera que ao trabalhar os conceitos teóricos,  o uso das técnicas e a ética profissional, o psicoterapeuta torna-se capaz de  proporcionar um trabalho de qualidade, assim como, a promoção de saúde do  cliente.

Com base nos conceitos teóricos é possível desenvolver uma pesquisa  bibliográfica correspondente com a principal demanda vista nos atendimentos  clínicos referenciados na literatura específica, já que os consultórios de  Psicologia são, além de tudo, locais de produções de conhecimento (CARNEIRO, 2011).

Consideram-se componentes caracterizadores da Psicologia Clínica a ética,  comprometimento do profissional com a história do cliente aliados com a  abordagem norteadora de sua atuação nesse cenário (CARNEIRO, 2011).  Nesse contexto sob o olhar da Gestalt-terapia como abordagem específica,  pautada em pressupostos humanistas, existenciais e fenomenológicos, Ribeiro  (2012, p. 40), afirma “... é nesta tríplice visão que o homem se torna inteligível  dentro de nossa proposta e, uma vez tendo o homem se tornado mais  inteligível, o modo ou os modos de abordá-lo se tornam coerentemente mais  eficazes”.  

A Psicologia Clínica possui o seu surgimento relacionado à clínica médica, e  Freud como seu idealizador. Inicialmente a clínica médica fundamentava-se em  diagnosticar, realizar prognósticos e prescrever tratamentos adequados ao  paciente em dada situação, tal exame realizado no domicílio do paciente  mediante observações e entrevistas. A anamnese como etapa inicial do  tratamento clínico foi criada por Hipócrates, a partir de observações. Os termos  diagnóstico, tratamento e anamnese utilizados no discurso da prática clínica  psicoterapêutica demonstram a influência que esta teve com o discurso médico (VIEIRA; VANDENBERGHE, 2011).  

Ao criar a Psicanálise, Freud modifica alguns aspectos do padrão médico  colocando o paciente como sujeito de sua história e não mais como objeto de  adoecimento ao inserir o seu saber e o seu discurso como centro do tratamento  através da escuta. De acordo com Moreira, Romagnoli e Neves (2007), mesmo  Freud tendo operacionalizado importantes rupturas, a Psicologia Clínica possui  pontos em comum com o modelo médico, como observação e diagnóstico para  uma intervenção e tratamento.  

Segundo Vieira e Vandenberghe (2011), três correntes importantes em  psicoterapia se estabeleceram no início no século XX: as abordagens  psicodinâmicas, as abordagens comportamentais e as abordagens humanistas-existenciais e fenomenológicas. O artigo em questão enfoca exclusivamente  nesta última abordagem, pois como cita Ribeiro (2012, p. 41), “no silêncio de  Perls”, está um convite para um olhar fenomenológico-existencial para a  Gestalt-terapia, conservando a essência proposta por ele. 

O termo Gestalt tem sua origem alemã, e aparece inicialmente em 1523  advinda de uma tradução de um trecho da Bíblia, cujo significado remete a “o  que está diante dos olhos”. Atualmente, a palavra Gestalt refere-se ao  processo de configurar, de dar forma (MAGALHÃES, 2011). Para Ribeiro  (2011): “Gestalt é movimento, é processo de resgate do imediato. O ‘que’ as  coisas são mora no passado, às vezes em um futuro imaginado. O único modo  de ‘surpreender’ a realidade está no presente e aí que a Gestalt das coisas  pode ser captada e se fechar” (p.16). 

Nessa via, o Gestalt-Terapeuta depara-se constantemente com temas da  relação conjugal na prática clínica (FÉRES-CARNEIRO; ZIVIANI, 2010). A  conjugalidade ocasiona na reunião de dois polos subjetivos em busca da  formação de um terceiro polo (MAGALHÃES, 2010, p. 207). Ribeiro (2007)  afirma que é no contato que se finalizam as “gestalts”, sujeitos de relação com percebem-se como existentes através deste. 

Para Hansen (2010) a escolha por um parceiro conjugal é ocasionada por  muitos desejos, no qual o indivíduo eleito estimula os mecanismos de defesa,  ou seja, para que a decisão seja feita são necessários que semelhanças se  estabeleçam em virtude dos desejos e defesas familiarizados.  

Diante da dinâmica do relacionamento conjugal, o amor sempre foi  caracterizado como essencial à sua existência e, além disso, assinala-se como  uma das maiores buscas do ser humano ao longo de sua vida: amar e ser  amado (CARDELLA, 1994).

Nessa perspectiva, o estudo em questão preocupa-se em abordar como a  Gestalt-terapia e seus pressupostos filosóficos e teóricos através da atuação  do psicoterapeuta ocupa-se em abordar a conjugalidade e o amor como  demanda do cliente.

PSICOLOGIA CLÍNICA ENQUANTO PRÁTICA PROFISSIONAL 

Segundo Bock (2008), a Psicologia Clínica vincula-se à prática através da  Psicoterapia, não limitada a esta enquanto exercício, orientada por um método  por clamar uma avaliação, diagnóstico do histórico e do momento atual ao qual  o sujeito se encontra, com objetivo de tornar possível a intervenção  psicoterapêutica, com o aporte de princípios científicos. 

Prado et al. (2012) alertam para relevância do psicoterapeuta fazer uma  reflexão acerca dos pressupostos teóricos que o embasam na prática  psicoterápica; consonante a isso, Vogel (2012) admite que, anterior ao debate da importância do terapeuta na relação terapêutica, é necessária a definição da  teoria aplicada e quais bases têm o seu surgimento, pois estas terão  influências diretas no trabalho desenvolvido. 

Gestalt- terapia como abordagem terapêutica tem o seu nascimento em 1952  por Frederick Perls e sua esposa, Laura Perls, com a publicação, em 1951, de  Gestalt Therapy, redigida por Frederick Perls, Paul Goodman, Ralph Hefferline.  Tal abordagem está consolidada a partir de influências teóricas e filosóficas: o  Humanismo, Existencialismo, e a Fenomenologia como filosofias basilares, a  Psicologia da Gestalt, a Teoria de Campo, a Teoria Organísmica como teorias  de base (SILVA; ALENCAR, 2011). 

O Humanismo, como pressuposto filosófico, centraliza o homem em suas  questões, no fazer-se compreendido e no compreender-se numa concepção de  mundo e de existência, pois segundo Heidegger (2006), só este tem  capacidade de fazer e de se realizar. Tal pressuposto coloca a Gestalt-terapia  ao lado das psicoterapias humanísticas, a um nível que valoriza o potencial  positivo da pessoa em que o cliente empodera-se de si e do mundo, ao  observar suas próprias limitações (RIBEIRO, 2012).

Ribeiro (2012) afirma que tanto para o Existencialismo quanto para a Gestalt terapia, o homem é visto como único, tangível, com escolhas e liberdade,  conscientes e responsáveis. O Existencialismo expõe o sujeito como resultado  de uma experiência única, e que, para compreendê-lo, é necessário que se  faça a partir de sua singularidade, da manifestação do seu subjetivo. 

Uma influência relevante na Gestalt-terapia é a Fenomenologia que, além de  filosofia, é um método que acarreta uma visão específica de mundo ao mostrar  a realidade através do fenômeno familiar à consciência do sujeito, isto é, situações, pensamentos, pessoas, sentimentos. Tal sentido conduziu Husserl a  perceber a fenomenologia como “ciência descritiva das essências da  consciência e seus atos”, em vista de que a relação “sujeito-objeto constitui-se  na intuição originária da consciência”. Dessa forma, o reduzir é essencial para  o entendimento do fenômeno ao se tratar da procura por significado através da  compreensão da totalidade pela consciência (RIBEIRO, 2012, p.65; SILVA,  ALENCAR, 2011). 

Segundo Ribeiro (2012), a consciência é constituída de intencionalidade ao se  direcionar para algo ou alguma coisa; é a tomada de consciência e formação  de um sentido que possibilite a compreensão dos fenômenos vivenciados. 

Consoante a Psicoterapia, para o autor supracitado, tal reflexão traz uma  conduta de paciência mediante o fenômeno-cliente, pois este se observado, se  autorrevela. O psicoterapeuta coloca-se diante dele, descreve-o e compreende o a partir dele e para ele. Nesse encontro, onde o fenômeno se revela, é  promovida a relação com, pois cliente e psicoterapeuta tornam-se inteligíveis  um para o outro ao encontrarem-se como totalidade.

Na prática, o psicoterapeuta é um facilitador do fenômeno, ao ocupar-se com o  que e o como ao atravessar o externo das coisas em busca do contato com o  fenômeno. Para que isso ocorra é fundamental que o terapeuta coloque sua  ‘realidade em parênteses’, num ato de suspensão de qualquer juízo de valor  que lhe pertença. É a chamada “epoché” (SILVA; ALENCAR, 2011). Em linhas  gerais, é necessária que a sua atitude seja de receptividade à realidade do  cliente (MARTÍN, 2013). 

Em vista de tal reflexão a respeito dos pressupostos filosóficos que dão aporte  à Gestalt-terapia, suas teorias basilares passarão pelo mesmo prisma, a  começar pela Psicologia da Gestalt (RIBEIRO, 2012). 

A Psicologia da Gestalt teve como um de seus primeiros responsáveis Max  Wertheimer com o auxílio de Kurt Koffka e Wolfgang Köhler. Estes  pesquisadores ocuparam-se em estudar a percepção, a aprendizagem e a  solução de problemas. Aliados a este conhecimento, a teoria de campo de Kurt  Lewin e a teoria holística de Kurt Goldstein, Perls ampliou a Psicologia da  Gestalt com o intuito de torná-la um embasamento teórico para a Gestalt terapia (MÜLLER-GRANZOTTO, MÜLLER-GRANZOTTO, 2007; RIBEIRO,  2012). 

Como base teórica, ocupa-se principalmente em avaliar a experiência do  organismo em sua totalidade e imediatamente, o todo e suas qualidades, sem  torna-lo um agrupamento de partes (RIBEIRO, 2012). Tal afirmação é extraída  da lei da pregnância elucidada por Perls como “tendência espontânea ao  fechamento de um campo de vivências temporais que é nossa subjetividade” (MÜLLER-GRANZOTTO, MÜLLER-GRANZOTTO, 2007, p.81). 

A aprendizagem em Psicoterapia dá-se quando o cliente evidencia uma  pluralidade de soluções, através de insights, e percebe a situação como um  todo (RIBEIRO, 2012). Em outras palavras: o organismo chega a uma solução  criativa através da introvisão (insights) que altera o seu campo perceptual pela  reestruturação do meio psicológico (SCHULTZ, SCHULTZ, 2011). 

Outra teoria que dá sustentabilidade à Gestalt-terapia é a Teoria de Campo  criada por Kurt Lewin e conceituada por Yontef (1998, p.210) como: 

Teoria de campo é um enfoque ou ponto de vista para examinar e  

elucidar eventos, experimentações, objetos, organismos e sistemas,  

que são partes significativas de uma totalidade conhecível de forças  

mutuamente influenciáveis, que, em conjunto, formam uma totalidade  

unificada contínua (campo), em vez de classificá-las de acordo com a  

natureza inata ou analisá-las com a finalidade de obter aspectos  

separáveis e totalidades formativas e somáveis. A identidade e a  

qualidade de qualquer evento, objeto ou organismo desse tipo  

apenas o é, em-um-campo contemporâneo, e somente pode ser  

conhecida por meio de uma configuração, formada por uma interação  

mutuamente influenciável entre percebedor e percebido.

 

Somado a este, Ribeiro (1999) acrescenta a explicação de Espaço Vital que,  segundo o autor, contém o essencial para o conhecimento da atuação do  indivíduo em um meio psicológico e tempo certo. Ao considerar um sujeito um  ser de relação com, este está em constante contato com o universo numa  dupla dinamicidade, um atuante sobre o outro. 

A Teoria Organísmica de Goldstein exerceu influência nos postulados da  Gestalt-Terapia igualmente a outras teorias de base anteriormente citadas.  Para explicar o organismo, Goldstein utilizou-se de conceitos de figura-fundo.  Na clínica, como prática, esse conceito refere-se a explicar o método  terapêutico como um todo: o cliente como figura e sujeito que verbaliza figuras  (que ora se encontram como figura, ora se encontram como fundo) em função  das necessidades deste, e ao fundo o psicoterapeuta (RIBEIRO, 2012). 

Feita a análise teórica da Gestalt-terapia, Martín (2013) observa que a prática  psicoterápica é responsabilidade do sujeito que a opera e pela forma como o  faz. A história do sujeito deve ser respeitada pelo psicólogo a ponto de não ter  o seu exercício corrompido ou transformado em uma tática de manipulação da  pessoa do cliente.  

As formas mais costumeiras de intervir equivocadamente junto ao cliente são  fornecer ajuda de maneira inapropriada, julgar e determinar obrigações e  deveres ao cliente, dar explicações a este em momentos inadequados  (MARTIN, 2013). 

Expor suas experiências, quando necessário e adequado na terapia, pressupõe  ao terapeuta um interesse no plano afetivo e pessoal, o que dá a esse encontro  o caráter humanitário. A humanidade assinala-se pela capacidade do terapeuta  em apontar as investidas que o cliente realiza em busca de autenticidade e em  

oferecer amparo e reconhecimento. Mediante essa reflexão e ao fato de cada  vez mais na clínica serem apresentados temas como relação conjugal inseridos  na demanda central do cliente (FÉRES-CARNEIRO; ZIVIANI, 2010), o próximo  tópico aborda como a Gestalt- terapia enxerga a conjugalidade. 

CONJUGALIDADE SOB A ÓTICA DA GESTAL-TERAPIA 

A conjugalidade resulta no encontro de dois “eus”, dois pólos subjetivos em  busca da formação de um terceiro eu, “uma identidade compartilhada”  (MAGALHÃES, 2010, p. 207). Ribeiro (2007, p. 11) afirma que é no contato que  se finalizam as gestalts, pois sujeitos são sujeitos de relação com os quais se  percebem como existentes através do contato. 

Para o mesmo autor acima citado, há “tipos de contato: consigo mesmo, com o  outro e o mundo conosco” (RIBEIRO, 2007, p.13). Esses tipos de contato  resultam da subjetividade que o sujeito tem da forma como se relaciona com o  outro e de como a realidade é captada pela sua subjetividade. Ribeiro (2007)  considera que todo contato pressupõe uma relação eu-mundo, ou seja: “primeiro eu existo, depois sinto, penso, faço e falo” para depois este sujeito  perceber a realidade como algo fora de si, perceber a sua própria percepção  acerca da realidade e perceber o que percebeu. 

Silveira (2005) observa a importância do conhecimento sobre fronteira nesse  contexto, descrito pela teoria de campo de Kurt Lewin. Lewin caracteriza o  campo psicológico e social como um grupo de forças atuantes no tempo  presente que formam relações entre as partes. Esse campo possui regiões,  intrapessoais, interpessoais, físicas e sociais, cujos limites são denominados  de fronteiras. Funcionalmente, a fronteira evidencia a distinção e a correlação  dos elementos. Na divisa da fronteira, onde o contato acontece, ocorre “a  percepção, o afeto, a cognição e a ação”. 

Desse modo, para a autora acima citada, a fronteira é o lugar onde há a  discriminação do eu entre o não-eu, de modo que seja necessário que os  limites da fronteira estejam claros para o sujeito, observa-se a importância do  dar-se conta e do elaborar a fim de que o contato com o outro resulte em  encontros e não em experiências a fim de perder-se.  

Hansen (2010) afirma que a opção por um parceiro conjugal resulta de vários  desejos, na qual o companheiro selecionado pode favorecer os mecanismos de  defesa, ou seja, para que a seleção seja feita é essencial que similaridades se  constituam em virtude dos “desejos e defesos” familiarizados.  Nesse sentido, o casal inicia a relação com sua imagem pré-estabelecida,  conforme cita Walsh (2002, p.15) em torno dos papéis que os parceiros  ocuparão nessa relação e até mesmo da duração desta. 

A construção dos papéis e das regras da relação é um processo  

circular de influência recíproca ao longo do tempo. Nenhum casal  

inicia uma relação a partir do zero, cada indivíduo tem um sistema de  

crenças e de expectativas em relação ao casamento estruturado a  

partir da experiência na família de origem e de outras experiências  

matrimoniais e de casal, imerso na cultura de uma comunidade e  

sociedade específica. Esses valores permeiam os nossos modos de  

conceber o casamento e condicionam os nossos modos de ser  

marido e ser mulher. 

Para Magalhães (2010), a escolha de um parceiro por vezes é motivada pela  procura do eu na resolução de seus próprios conflitos, o que acaba por dar  uma sensação de completude no encontro, pois ambos estão com seus “eus”  mal delimitados. Nesse sentido, Cardella (2009) completa: 

Muitas vezes, o casamento passa a ser um meio para suprir  

carências de ordem psíquica por meio de vínculo com outro, que se  

torna objeto de satisfação ou prazer. Esta é a raiz de grande 

frustração e inúmeros rompimentos: quando os parceiros transferem  

um para o outro, ou mesmo para a relação, a responsabilidade  

ilusória de dar conta de necessidades afetivas que transcendem a  

própria relação (CARDELLA,2009, p.48).

Ante a incapacidade do organismo de dar conta de suas próprias necessidades  e promover um contato saudável, este recorre a mecanismos de defesa que  garantam seu funcionamento de maneira cristalizada. 

Nessa questão, a confluência ocorre quando o sujeito se confunde com o outro,  sem discriminação das identidades, pois as fronteiras não estão bem  delimitadas. Nesse contexto, um dos cônjuges nega as desigualdades do outro  e persiste em torná-lo uma extensão de si mesmo (PINTO, 2013). 

Polster e Polster (2001) abordam sobre o desenvolvimento da confluência para  a retroflexão no momento em que um dos parceiros transgride a confluência  que passa a ser exercida como um acordo entre o casal, ao viver a sua  individualidade. A outra parte pode manter-se ressentida, ao exigir que o  parceiro mantenha o elo confluente e direciona a este um sentimento de culpa,  culpa esta que pode ensejar o sujeito a se autopunir. 

A retroflexão é notada quando o sujeito “trata a si mesmo como gostaria de  tratar os outros”. Isso se deve ao fato de investir suas energias em si mesmo  em vez de direcioná-las para fora com intuito de promover uma modificação no  meio que atenda as suas necessidades. Geralmente, o sujeito que retroflete  sente-se inadequado e insatisfeito em relação ao meio. Possui a tendência de  reparar e verificar o que fez várias vezes (PINTO, 2010). 

Hansen (2010) afirma que, ao introjetar, o indivíduo capta para si o que se  encontra no mundo, sem seleção. Aceita o outro de qualquer forma para ser  aceito. No relacionamento, o sujeito introjetor possui fronteira de contato  porosa, vulnerável à demanda dos outros. É comum que este viva em função  de seu parceiro. 

Para a autora supracitada, o projetivo é o oposto do introjetivo, pois se tornam  sujeitos desconfiados, tendem a responsabilizar o outro pelos seus atos, a  serem agressivos e a idealizarem o parceiro em uma tentativa em transformá los no seu ideal de ser amado. 

Em contrapartida, Silveira (2005) remete a uma dinamicidade entre a  individualidade dos sujeitos do casal e a intimidade para a manutenção  saudável do relacionamento: 

dependendo da fluidez e da permeabilidade da fronteira do “nós”, os  

membros do casal se unem como par e separam-se em unidades  

individuais. Aliás, o bom funcionamento do casal depende em grande  

parte de como os parceiros conseguem fazer encontros saudáveis na  

fronteira do “eu” e na fronteira do “nós”. É necessário que prevaleça  

um ritmo harmonioso de união e separação, o qual favoreça, de um  

lado, a intimidade e, de outro, a individualidade.

Relacionado a esse conceito pode-se incluir o ajuste criativo que, quanto à  questão abordada, remete à flexibilidade na fronteira com o intuito de  experenciar novos contatos; para tanto, é fundamental o autossuporte, que instrui o sujeito na busca de uma conduta mais pertinente em dado momento, a  fim de recriá-lo e ressignificá-lo (SILVEIRA, 2007). 

Na união criativa, a capacidade de troca, como o diálogo honesto, por exemplo,  desenvolve a relação favoravelmente assim como cada membro do casal. Para  a autora supracitada, o ajuste criativo na relação conjugal não impede que  ambos entrem em conflito, porém irá colaborar para o conhecimento de si, do  outro e para o relacionamento. Dessa maneira, a conjugalidade é vista como  encontro genuíno em que “o contato, a empatia, o ambiente facilitador e uma  boa instrumentalização dos limites tornam a vida mais plena”. 

Para Silveira (2007), o criar, no relacionamento conjugal, permite que ambos  entreguem-se e estejam presentes em si mesmos, em uma “oscilação entre  serem dois e serem um”; desta maneira, o amor está inerente ao ato de criar.  Cardella (1994) refere que estar disponível ao seu parceiro assim como impor  limites resultam em uma satisfação recíproca, que está ligada às  características do amor de quem as experiências, e desta forma o próximo  tópico abordará o amor e a conjugalidade.

AMOR E CONJUGALIDADE

Para Scorsolini-Comin e Santos (2014), ao examinarem o conto “Substância”, do escritor Guimarães Rosa, definem que o amor é a tinta que escreve a  conjugalidade e dá a esta uma nova configuração diferente daquelas que cada  cônjuge trouxe de seus vínculos parentais. Uma terceira configuração  transformada, atualizada e ressignificada, um eu comum. Silveira (2007) afirma  que esta terceira configuração ,particular dos casais que se amam, surge  através de “nova linguagem, novas regras que definem a peculiaridade do  casal”.

Platão (2012), em sua visão filosófica inatista, define o amor como algo que  sustenta, mas que ainda assim se torna ausente, pois sua natureza o torna  assim. No conto “O banquete” relata a existência de três gêneros na espécie  humana: o macho, a fêmea e o terceiro que é formado a partir da união destes  dois, os chamados Andróginos que, pela sua perfeição e completude,  desafiaram os deuses do Olimpo e receberam como castigo a divisão de seus  corpos, quando foram tornados enfraquecidos. Feita a divisão, cada parte  galgou ansiosamente juntar-se a outra.

Corroborada ao mito platônico, destaca-se o amor romântico, ideal de amor  preconizado na Idade Média cujo sentido fora ampliado aos dias atuais. O seu  surgimento teve como bases constituintes a instauração do amor cortês na  Europa Pré-Medieval (COSTA; BELMINO, 2015).  

Para os autores supracitados, o amor cortês é uma maneira de rebelar-se  contra os modos sociais vigentes na época: o casamento tinha como função a  troca de favores econômicos e sociais pelos senhores feudais, a fim de garantir a manutenção de suas posses. Além disso, há um rompimento com o ideal  sagrado cristão, onde a figura do feminino é intocável e torna-se alvo de  desejo.

Dessa forma, a nova concepção de conjugalidade foi instaurada a partir das  escolhas dos cônjuges e a retirada da responsabilidade dos pais em escolher  seus parceiros. Em consonância com a liberdade de escolha, há a  padronização dos papéis femininos e masculinos na relação conjugal, onde a  mulher é direcionada à educação dos filhos e cuidados com o lar e ao homem,  o provimento deste (OLIVEIRA, 2004).

Nesse sentido, de acordo com Maia (2011), conforme o novo modelo de  conjugalidade se compunha, este se aproxima da idealização do amor  romântico a fim de solidificar o acordo conjugal. Jablonski (2003) afirma que,  apesar da aproximação, que repercute aos dias atuais, a vida conjugal continua  alterando-se conforme as imposições sociais. A fragilidade da relação conjugal  no século XXI, os papéis e funções autorizadas a ambos, a emancipação  feminina, tanto sexual quanto econômica, a variabilidade no modelo conjugal,  visto de um ponto de vista mais individualizado, são aspectos que afastam a  relação conjugal deste modelo romântico.

Em contrapartida, Martins (2008) afirma um ponto em comum entre o amor  romântico moderno e o conceito de amor atual, que é na crença do controle  que homem tem sobre sua vida; neste sentido, Costa (1998) indica cinco  aspectos característicos desse amor:

(a) a idealização de um sentimento pessoal, apresentado como pleno,  

mágico, exático e superior em intensidade e gozo a qualquer outra  

experiência emocional do individuo; (b) a desqualificação moral do  

exercício puramente físico da sexualidade; (c) a exigência de uma  

sexualidade livre e, ao mesmo tempo, submissa ao amor. Só esta  

última condição a torna digna do amor sublime; (d) o estabelecimento  

da sexualidade como pré-requisito da realização do amor sublime e a  

consequente “sexualização do universo” e, por fim, (e) a exigência de  

que o indivíduo entregue sua chance de felicidade ao acaso, já que a  

ele pertence o poder de revelar a pretensa imagem do ser amado que  

ele possui sem saber, e que corre o risco de jamais encontrar  

enquanto viver, pois pode confundi-la com mais uma miragem  

(COSTA, 1998, p.74).

Dessa maneira, com a característica romântica transmitida socialmente nas  relações conjugais, em paradoxo com a preservação da individualidade  presente na Modernidade, o indivíduo pode perceber-se em conflito e  insatisfeito (DANTAS, 2011; COSTA, BELMINO, 2015). De modo geral para  Petersen:

Cada pessoa tem sua coleção particular de idiossincrasias, trazidas  

da infância e de sua experiência. Os seus hábitos são peculiares. Ela  

se sente bem com eles. Pensando em se casar, ela procura alguém  

que também se sinta com ela como ela é e, ao mesmo tempo  

satisfaça as suas necessidades emocionais. Isto significa,  

geralmente, alguém bem diferente dela, e faz parte da atração. Agora

combine essas duas coleções de temperamentos, personalidades e  

características individuais, e veja quanto campo para discordância e  

dificuldades (1985, p.41).

Hansen (2010) afirma que, o conflito se dá quando um sujeito deste casal ou  ambos experenciam necessidades distintas. Dessa maneira, o sujeito que  emana a demanda de insatisfação, poderá recorrer à Psicoterapia, que irá  trabalhar na distinção do conteúdo que é seu, e do que é próprio do casal  (SILVEIRA, 2005).  

Boccalandro (2003) considera que pessoas, que têm dificuldades em suas  relações amorosas, desenvolveram isso desde a infância através de  experiências de abandono, humilhação ou rejeição e como consequência  sentimentos de culpa, menos valia e vergonha. Tal sentimento consolidado  gera um sentimento de separação do seu eu no contato com o seu parceiro.  

Cardella (1994) afirma que, por conta dessa noção equivocada do que é o  amor, a pessoa, que sofreu este tipo de experiência, quando criança, tenderá a  ser atraída por pessoas semelhantes aos pais como uma forma de resolver o  passado. O sujeito mobiliza energia psíquica para manter essa experiência ao  fundo para que não se torne figura e não seja esta revivida; nesse trajeto,  procuram relações que se assemelhem a relações conflituosas que tiveram  com seus pais (MARTINS, 2008).

Dantas (2011) propõe que, nesse caso o Gestalt-terapeuta trabalhe com o  cliente o aumento do sentido do seu “eu”, a fim de que busque seu  autoconhecimento e diferencie os valores familiares introjetados de suas  próprias necessidades, em vistas a que facilitem o seu grau de satisfação.  Desse modo, o sujeito é capaz de lidar de maneira singular em cada situação  (POLSTER; POLSTER 2001).

Martins (2008) ressalta a importância de conceituar o caráter dual da  construção do fenômeno amar na conjugalidade. Mesmo que o sujeito tenha  reconhecido sua insatisfação e recorrido à terapia, no artigo em questão,  ambos os sujeitos do casal cooperaram para o crescimento e estabelecimento  do fenômeno amar.

METODOLOGIA DE DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA

Este artigo tem como perspectiva central discutir a conjugalidade vista a partir  de pressupostos teóricos norteadores da Gestalt- terapia como abordagem  humanista-fenomenológica- existencial no cenário clínico. Ressalta-se aqui a  atuação do psicólogo e o seu olhar individualizado sobre o indivíduo a partir da  conjugalidade e do fenômeno amar como parte intrínseca do processo, de tal  maneira que, para sua elaboração, utilizou-se o método fenomenológico  husserliano como abordagem, segura e livre de hipóteses ao retornar às coisas  mesmas, ao fenômeno percebido diante da consciência. O importante para  essa pesquisa é o modo como a conjugalidade é percebida e vivenciada pelo sujeito no mundo e com o outro, sem fechá-la a um conceito definitivo. Em vista  de tais considerações, utilizou-se a técnica de pesquisa de natureza qualitativa  como forma de abordar o problema central do presente artigo (GIL, 2008).

Holanda (2006) considera que a pesquisa qualitativa tem por responsabilidade  pesquisar, explicitar, analisar fenômenos, estes ocultos ou não, os quais não  são capazes de serem medidos, pois possuem aspectos humanos. Neste  contexto Moreira (2004) caracteriza a pesquisa qualitativa como a  interpretação, em termos de flexibilização no processo de nortear a pesquisa,  ou seja, não há uma determinação exata do caminho da pesquisa, há uma  atenção com o seu contexto na forma com que os assuntos abordados se  ligam na composição do trabalho científico.

Quanto à natureza da pesquisa, segundo Prodanov e Freitas (2009), esta se  constitui em aplicada por ter como objetivo a formação de conhecimentos para  o emprego na prática voltado a resolução de problemas específicos.

Sob a ótica dos seus objetivos esta pesquisa identifica-se como descritiva, pois  tem como objetivo central descrever as características dos fenômenos, assim  como suas variáveis, sem que a interferência do pesquisador se faça nesse  cenário (PRESTES 2003). De outro lado, segundo Gil (2008), há pesquisas  classificadas como descritivas a partir de seus objetivos, mas que servem para  dar um outro olhar ao problema, o que as aproxima das pesquisas  exploratórias. No contexto, esta pesquisa levanta um olhar sob a conjugalidade  e o amor a partir da Gestalt-terapia e suas aplicações práticas como pano de  fundo.

Nessa perspectiva, para Prestes (2003, p.26), “a pesquisa bibliográfica é  aquela que se efetiva tentando-se resolver um problema ou adquirir  conhecimentos a partir do emprego predominante de informações provenientes  de material gráfico, sonoro ou informatizado”.

Gil (2008) considera a importância da pesquisa bibliográfica por autorizar o  pesquisador a um universo de fenômenos maior do que poderia acessar se  pesquisado diretamente, o que amplia a sua importância por se tratar de uma  pesquisa com dados dispersos no espaço. Ressalta ao pesquisador assegurar  as fontes secundárias de pesquisa a fim de não utilizar dados equivocados.  Para tanto, é necessário que se certifique das circunstâncias em que os dados  foram adquiridos, avaliar criteriosamente as informações a fim de evitar  incoerências, discrepâncias e fazer uso de diversas fontes de pesquisa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Psicoterapia gestáltica é, sobretudo, existencial-fenomenológica e humanista,  respalda o psicólogo a enxergar o homem nesse tripé, para torná-lo inteligível  para si e em sua relação com o mundo. Ribeiro (1999; 2007; 2011; 2012)  possui valorosas obras que evidenciam essa visão de mundo e de homem ao elencar o Humanismo, o Existencialismo, e a Fenomenologia como filosofias de  base que, respectivamente, centralizam o homem em suas questões, tornam no ser único e responsável por suas escolhas, um sujeito de significado e  sentido.

Na prática terapêutica, Silva e Alencar (2011) e Ribeiro (2012) concordam que  ao trabalhar esses princípios filosóficos o psicoterapeuta, em sua atitude de  respeito à singularidade do sujeito, trabalha com o potencial positivo e criativo  do sujeito a fim de fortalecê-lo para que este possa entrar em contato com  aquilo que o aflige, para poder agir, pensar e se comunicar de maneira  saudável.

Nos estudos evidenciou-se que, nesse contexto, o terapeuta além de fazer a  suspensão de seus juízos de valor ao estabelecer relação com o cliente, facilita  o fenômeno ao utilizar “o que e o como” em seu discurso, o “observa, descreve  e sintetiza” em sua manifestação no setting juntamente com o cliente para  posteriormente certificar sua percepção do entendido “a oferecendo para  apreciação e deleite do mesmo” (SILVA; ALENCAR, 2011).

Tanto para Magalhães (2010) quanto para Féres- Carneiro e Zivani (2010)  notou-se um crescimento no número de sujeitos que possuem como queixas  clínicas a relação conjugal no qual estão inseridos. Para Polster e Polster  (2001), os indivíduos não procuram mais a prática psicoterápica por estarem ou  não doentes, mas por estarem atentos às suas necessidades e desejos no  sentido de levarem essa preocupação à psicoterapia.

Nessa direção, a noção de contato e fronteira tão bem explicitada por  Magalhães (2010), Ribeiro (2007) e Silveira (2005), torna-se importante para  este estudo. Na conjugalidade, indivíduos de “relação com” entram em contato,  partilham os seus “eu” no propósito de formarem um terceiro “eu”, chamado por  Silveira (2007), Polster e Polster (2001) de “nós”, com desejos e necessidades  próprias do casal, cuja fronteira é bem delimitada.

 

Observa-se que, para um relacionamento saudável, a fronteira do eu e do não eu dos sujeitos do casal precisa apresentar-se definida e flexível, pois é neste  encontro de diferenças que ocorrem o crescimento do “eu” conjugal, o  ajustamento criativo. Segundo Silveira (2007), “é necessário que prevaleça um  ritmo harmonioso de união e separação, o qual favoreça a intimidade e a  individualidade”.

Diante disto foi visto que, quando a fronteira expressa rigidez ou porosidade, o  organismo se vê impossibilitado de fazer um contato saudável ou evitar o  contato, neste caso, recorre às táticas que proporcionem sua integridade e  sobrevivência. Segundo Pinto (2010), os mecanismos de defesa funcionam  como um ajustamento criativo enquanto não cristalizados, uma busca do  organismo em manter o equilíbrio.

Nesse contexto, foi observado, na literatura, quatro mecanismos de defesa:  Confluência, Retroflexão, Introjeção e Projeção. A Confluência é verificada  quando o indivíduo não pode fazer contato consigo, pois se percebe conectado  com o outro, não diferencia o que é seu do outro.  

Pinto (2010) considera que na confluência cristalizada, o parceiro confluente  age como se o outro fosse sua continuação, sem permiti-lo fazer escolhas ou  agir diferente à sua vontade. Quando uma das partes do contrato confluente  

viola a regra, sente-se culpada e submete-se por vezes às indelicadezas da  outra parte. Esta confluência quando rompida pode também se tornar uma  retroflexão quando o sujeito que quer manter o elo confluente pune-se a si  mesmo, “pela auto degradação, humilhação ou sentindo-se sem valor e ruim”,  como uma maneira de oferecer a si o que o outro não ofereceu (POLSTER;  POLSTER, 2001).

Nos estudos levantados a retroflexão se dá quando o indivíduo direciona a si  as energias que direcionaria ao mundo, torna-se o passivo e o ativo de seu  comportamento e possui alta probabilidade de adquirir doenças  psicossomáticas.

Nesse contexto, o introjetivo é o indivíduo que incorpora para si atitudes,  pensamentos e princípios do outro. Possui dificuldades em experenciar o que é  seu, pois, assim como o confluente, não reconhece o que é seu e o que é do  outro. O projetivo busca responsabilizar o outro pelo que é seu, não aceita o  que sente e “distribui em pedacinhos a sua identidade” (POLSTER, POLSTER,  2001).

Diante do que foi visto, percebeu-se que o amor é algo importante a ser  pesquisado quando se trata de relação conjugal, pois de acordo com as obras  de Cardella (1994, 2009) a sua presença é essencial para a construção do “eu”  do indivíduo, porém Costa e Belmino (2015) afirmam que o amor é uma  invenção humana que se refaz e se modifica ao longo dos cenários  socioculturais ao variar conforme os aspectos econômicos, religiosos, sociais  entre outros.

Não há uma unanimidade em relação à definição do que é o amor pelos  autores. Como afirma Martins (2008) é uma tarefa árdua e os que se  aventuram a tal façanha admitem que conceito algum irá exaurir o significado e  o sentido que o amor pode expressar.

Para literatura há uma flexibilização das escolhas amorosas, ao mesmo tempo  em que o sujeito, mediante valores familiares introjetados, escolhe seu  parceiro, tem que lidar com aspectos modernos que se contrapõem a essa  idealização conjugal como: a emancipação da mulher, tanto sexual quanto  econômica, a modificação dos pensamentos à respeito do ideal de um  casamento e da formação familiar e novas divisões de papéis no lar  (JABLONSKI, 2003).

Apesar de existirem outros tipos de amor na literatura (amor próprio, amor  fraterno, amor espiritual e amor materno), no estudo em questão foi enfatizado  o amor romântico e o amor erótico encontrados corriqueiramente nas leituras a respeito do amor e da conjugalidade. O amor romântico encontrado na  literatura como confluente e até mesmo patológico (CARDELLA, 1994) se  distingue do amor erótico por este galgar a prosperidade dos indivíduos do  casal, ao satisfazerem suas necessidades de maneira recíproca e assim se  realizarem individualmente por ambos apoiarem e permitirem o crescimento um  do outro.

A contextualização da conjugalidade como fator influente no mecanismo  psíquico do sujeito é de suma consideração, pois como afirma Ribeiro (2007), o  indivíduo é resultante do contato que realizou durante a sua vida. Dessa forma,  como o ser e o ambiente não são partes rígidas que compõem um campo e sim  flexíveis, influenciadas e influenciáveis ao mesmo tempo, levando-se em conta  que a conjugalidade é o encontro de duas subjetividades que se relacionam e  compartilham uma terceira, com necessidades próprias, conclui-se que, a  conjugalidade é um campo relacional do casal onde acontecem as influências  que aparecem no contexto de cada sujeito.

No campo relacional, quando as fronteiras do eu de um dos sujeitos que a  compõe não estão bem delimitadas ou bastante rígidas, o organismo, numa  tentativa de procurar sua autorregulação, recorre aos mecanismos de defesa  para o seu funcionamento, mecanismos tais como confluência, retroflexão,  introjeção e projeção.  

A relação entre conjugalidade e amor na atualidade possui relevante valor  científico, pois como o amor romântico, oriundo do amor cortês da Idade Média  e introjetado como ideal de amor a ser vivenciado, transformou-se ao longo do  tempo, simultaneamente, houve uma variabilidade nas relações conjugais e  nos papéis que cada indivíduo exerce na relação. Nesse sentido, o indivíduo  entra em divergência com os parâmetros individualistas gerados pelos valores  atuais, os quais o levam a se sentir insatisfeito e entrar em conflito.

Dessa maneira, o sujeito insatisfeito recorre à psicoterapia no intuito de ser  trabalhada a distinção entre o conteúdo que é seu e o que é do casal. Nos  estudos levantados verificou-se que pessoas que possuem dificuldades em  seus relacionamentos passaram por situações traumáticas na infância, que na  fase adulta, tornaram-se dispositivos influenciadores para que houvesse uma  interferência no contato deste sujeito com o parceiro em questão.

Nos estudos verificou-se que a atuação do psicoterapeuta em relação ao  indivíduo que apresenta como queixa central conflitos na relação conjugal é se  utilizar de tentativas que façam com que esse sujeito aumente o entendimento  do seu eu. Uma possibilidade de intervenção seria que o Gestalt-terapeuta  solicite ao indivíduo a construção de frases que se iniciem com o pronome “eu” para depois elaborar com o pronome “você”, no intuito de que ele entre em  contato com o seu conteúdo e seja capaz de distinguir o conteúdo dos outros.

Desse modo, este sujeito ao entrar em contato com o comportamento  cristalizado tem uma “awareness” ao ampliar a sua consciência para o  fenômeno, o que o possibilita conceber meios que satisfaçam a sua  necessidade, em outras palavras, favoreçam o ajustamento criativo que,  segundo Silveira (2005) facilitam o despertar da individualidade e o  amadurecimento dos relacionamentos.

Considerou que o Gestalt-terapeuta em sua prática clínica mediante o sujeito  cuja demanda central é a conjugalidade e o amor trabalha com este em virtude  de expandir o seu sentido do “eu” a fim de que diferencie conteúdos seus, do  conteúdo do parceiro e da relação conjugal. Apesar dos mecanismos de defesa  diferenciarem-se entre si, a pontuação do Gestalt-terapeuta envolve a  valorização do potencial positivo do indivíduo que recorre a clínica no intuito de  fortalecer o seu “eu” para que após isso entre em contato com seus conflitos.

A pesquisa bibliográfica possui poucos levantamentos a respeito do assunto  encontrando-se em sua maioria pesquisas de campo pouco contundentes e  incisivas. Espera-se que a partir deste artigo, sejam feitas novas pesquisas que  complementem o tema exposto por ser tão amplo devido às várias formas de  conjugalidade e de amor não explicitadas nesse trabalho em questão. Nessa perspectiva, o estudo em questão abre a possibilidade para outros  questionamentos e estudos que contemplem a variabilidade da relação  conjugal na atualidade e o papel dos sujeitos nessas relações, o que denota  que, apesar dos objetivos terem sido atingidos no presente estudo, o amor e a  conjugalidade possuem grande forma de sentir e serem vividos, não se  determinando somente à um olhar em relação à isto.

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NOTAS

Stela Regina Pinheiro Correa Leal: Psicóloga graduada na Universidade  CEUMA - São Luís / MA.

Endereço para correspondência

Stela Regina Pinheiro Correa Leal

E-mail: stelareginaleal@gmail.com

Recebido em 29/07/2016

Aprovado em 21/11/2017

Revista IGT na Rede, v. 14, nº 26, 2017, p.51-71 DOI 10.5281/zenodo.15054563

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526