ARTIGO

A criatividade como potencializadora do processo gestalt terapêutico

Creativity as an empowering resource of gestalt-therapy process Larissa Lehmkuhl

RESUMO

O presente artigo objetiva compartilhar reflexões sobre a Criatividade na  perspectiva da Gestalt-terapia. Para isso, tratar-se-á sobre como foi e vem  sendo compreendida a Criatividade na literatura e, em seguida, como se dá a  sua relação com a Gestalt-terapia (GT). Embasou-se então na compreensão  de conceitos essenciais à abordagem, desmistificando a concepção histórica  de que a Criatividade é exclusiva de pessoas que a possuem como um “dom” e  observando que o ser humano pode transformar-se e reinventar sua maneira  de ser-no-mundo, ou seja, pode estabelecer um contato que é de fato  ajustamento criativo.  

Palavras-chave: Criatividade; Gestalt-terapia; Ajustamento Criativo.

ABSTRACT

In this article I share thoughts about Creativity within the Gestalt-therapy  approach. Therefore, I will talk about how Creativity has been acknowledged in  the existing literature and which associations can be made with Gestalt-therapy  (GT). Based on essential concepts of the approach, I aim to demystify the  historical concept that Creativity is exclusive for ones who have it as a "gift" and  observe that a human being can change and reinvent its way of being-in-the world. In other words, can conceive a contact that is in fact creative adjustment. 

Key words: Creativity; Gestalt-therapy; Creative Adjustment.

INTRODUÇÃO

O presente artigo tem como objetivo compartilhar algumas reflexões sobre a  Criatividade na perspectiva da Gestalt-terapia, tema que tomou a atenção da  pesquisadora durante a prática como gestalt-terapeuta iniciante. Tal  experiência foi possível a partir do estágio realizado na Clínica Social e  Comunitária do Centro Comunidade Gestáltica – Clínica e Escola de  Psicoterapia. Nesta, havia a possibilidade de atender a comunidade de baixa  renda de maneira gratuita, realizando atendimentos psicoterapêuticos com o  suporte de supervisoras clínica e acadêmica e ainda com o dos demais  estagiários da Universidade Federal de Santa Catarina.

A Gestalt-terapia (GT) foi criada nos Estados Unidos e iniciou no Brasil nos  anos de 1970, sendo rapidamente assimilada como prática (RODRIGUES,  2000). Em sua concepção, compreende-se o ser humano como um todo - o  

que é chamado de holismo -, ou seja, é entendido como um sistema que  interatua com o meio e é composto por partes que interagem e que são  diferentes de sua simples somatória. Em tal sistema, compreende-se que há  uma unidade da mente e do corpo, não sendo possível considerar os  pensamentos, sentimentos e sensações como independentes.

Neste sentido, a Gestalt-terapia considera como autolocalização e  temporalidade o conceito do aqui-e-agora, proveniente das bases  fenomenológicas dessa abordagem. Isso não significa ignorar a historicidade  do sujeito nem o seu constante movimento para o futuro, mas sim valorizar a  vivência de fato, e não explicações sobre essa vivência, como quando se  afirma que há uma causa no passado que, de certa maneira, controla o  presente (POLSTER; POLSTER, 1979).  

Entende-se que a Gestalt-terapia possibilita olhar o sujeito e o mundo como  integrados, considerando a possibilidade de transformação de ambos a partir  do movimento que o primeiro elabora neste mundo e de como é tocado por ele,  que se dá de maneira criativa. É sob essa óptica que o tema da Criatividade  estará sendo abordado. Utilizou-se para isso autores-chave da Gestalt-terapia,  como Perls, Hefferline e Goodman (1997) e Polster e Polster (1979), bem como  referências a respeito do tema que possibilitassem uma visão geral (não  necessariamente científica), como o Dicionário do Aurélio online; na sequência,  buscou-se um entendimento específico para a Psicologia a partir de autores  como Vigotski (2009), Lubart (2007) e Seabra (2008) para então verificar como  a Criatividade é tratada na perspectiva da GT, com Zinker (2007) e Ciornai  (1995), por exemplo. Buscou-se ainda por autores que permitissem a  compreensão da relação entre Criatividade e Gestalt-terapia em diferentes  práticas do(a) terapeuta, sendo exemplos Silva, Carvalho e Lima (2013), que  se referem à Arteterapia, e Oliveira (2010), ao tratar da psicoterapia infantil, a  fim de auxiliar no entendimento de como se dá o processo criativo e como pode  ser favorecido.  

Considerando a criatividade um elemento inerente ao ser humano e que, dessa  forma, não deve ser ignorada no processo da Gestalt-terapia, tem-se como objetivo principal esclarecer a forma como a GT a utiliza como instrumento de  trabalho no setting terapêutico. Dessa maneira, busca-se nesse trabalho expor  alguns conceitos de Criatividade existentes, especialmente em livros e artigos  

do campo da Psicologia, e apontar posteriormente em que momentos  encontram a abordagem da Gestalt-terapia, elucidando também os conceitos  apreendidos pela pesquisadora ao longo de sua prática como Gestalt-terapeuta  iniciante.  

1 - DE QUE CRIATIVIDADE FALAMOS?

Segundo o Dicionário do Aurélio online1(s/d), a criatividade pode ser  interpretada como a “Capacidade de criar, de inventar”, a “Qualidade de quem  tem ideias originais, de quem é criativo” e/ou ainda a “Capacidade que o falante  de uma língua tem de criar novos enunciados sem que os tenha ouvido ou dito  anteriormente”.  

Como se vê, a criatividade é por vezes tratada como algo excepcional do ser  humano, quase como um dom exclusivo de algumas pessoas. A Psicologia da  Criatividade, em algumas vertentes, tem conseguido desmistificar aos poucos  essa concepção, abordando a problemática há algum tempo. Um dos autores  que trabalham nesse sentido é Lubart, em seu livro Psicologia da criatividade  (2007), em que apresenta a história desse conceito e aponta como é  construída tal ideia.

Percorrendo o tempo com o autor, encontra-se Platão que, por exemplo, “[...]  dizia que um poeta não pode criar sem que a musa lhe inspire e deseje. O  poeta, indivíduo extraordinário porque foi escolhido pelos deuses, exprime as  ideias criativas que ele recebeu” (DACEY E LENNON, 1998 apud LUBART,  2007, p. 11). Em tal perspectiva o ser humano recebe a inspiração e a  possibilidade criativa de alguma figura mística ou espírito, o que perdurou até o  século passado. Também é apontada pelo autor (2007, p. 12) outra perspectiva  que se iniciou com Aristóteles, de que a “[...] inspiração tem suas origens no  interior do indivíduo, dentro do encadeamento de suas associações mentais, e  não em intervenções divinas”, ou seja, a partir de então a possibilidade criativa  passa a ser intrínseca ao sujeito, não mais proveniente de figuras externas.

Ainda historicamente, vê-se que o tema da Criatividade perdeu visibilidade  durante o Império Romano e voltou a aparecer no Renascimento; neste, o  “gênio criativo” passou a obter destaque, sendo resultado de algo tanto  genético quanto de condições ambientais, porém, não mais dependente de  fatores sobrenaturais (ALBERT; RUNCO, 1999 apud LUBART, 2007, p. 12).

Segundo o autor, diversos foram os estudos relacionados à criatividade2 que  visaram posteriormente explorar diferenças entre pessoas pouco e muito  criativas, como se dava a criatividade, entre outros. Alguns destes são os  

 1 Disponível em: http://dicionariodoaurelio.com/criatividade. Acesso em maio de 2015.

2 Galton, 1879, 1883; Binet e Simon, 1950; Spearman, 1931, entre outros.

trabalhos de Guilford (1950, 1967), que expunham a criatividade como algo que  se dá a partir da capacidade intelectual do indivíduo para detectar, analisar e  resolver problemas. Já no final do século XX, a criatividade foi tratada como  “[...] o resultado de uma convergência de fatores cognitivos, conativos e  ambientais” (LUBAR, 1999 apud LUBART, 2007, p 15).

Tendo em vista a construção do conceito ao longo desse percurso histórico, a  criatividade tem sido definida por alguns autores3 como “[...] a capacidade de  realizar uma produção que seja ao mesmo tempo nova e adaptada ao contexto  na qual ela se manifesta”, porém, parece que ainda é um conceito não  consensual entre os profissionais da psicologia, sendo a ideia de algo exclusivo  para algumas pessoas perpetuada até os dias atuais.

Money (1963 apud SEABRA, 2008) coloca que a criatividade é compreendida  tendo em vista quatro facetas, que são a situação criativa, o produto da  criatividade, o processo de criação (que é relacionado com a ideia da  criatividade para a resolução de problemas) e a pessoa criativa, suas  características. Ao encontro dessa ideia, verifica-se que essa série de facetas  dificulta uma definição única da criatividade, pois é dependente do que se está  observando: “É o sujeito criativo ou é criativo o produto da atividade específica  de qualquer sujeito?” (SEABRA, 2008, p. 5).  

Vigotski (1986-1934), psicólogo russo, tratou da criatividade como condição  para existência e algo que está “[...] por toda parte em que o homem imagina,  combina, modifica e cria algo novo, mesmo que esse novo se pareça a um  grãozinho” (VIGOTSKI, 2009, p. 14). Nesse sentido, não é percebida como  exclusiva de alguns.  

É nessa perspectiva que a criatividade vai ser então tratada nesse trabalho,  não desconsiderando a complexidade e quantidade de perspectivas levadas  em conta ao tratar do tema e atentando para o fato de que todos temos  potencial criativo para transformar nossa própria realidade.

2 - GESTALT-TERAPIA E CRIATIVIDADE

Tendo em vista os diversos conceitos acerca de Criatividade apresentados, é  possível estabelecer alguns diálogos com a Gestalt-terapia.

Um dos primeiros pontos, de acordo com Ciornai (1995), seria a própria  concepção existencial de ser humano nessa abordagem, na qual ele é  considerado um ser que se transforma constantemente, jamais está pronto,  acabado; assim, reorganiza-se através da sua relação com o meio de maneira  criativa, constituindo cada vez mais sua singularidade a partir da sua  experiência que é única. Nesse sentido, pensando os pressupostos existenciais  

 3 Amabile, 1996; Barron, 1988; Lubart, 1994; MacKinnon, 1962; Ochse, 1990; Sternberg e Lubart, 1995  apud Lubart, 2007.

e a concepção de criatividade para Vigotski (2009), é possível verificar que o  significado dado às vivências emocionais de cada um é também único, pois a  forma como se vive a experiência e sentem-se as emoções depende também  do seu fundo e da sua relação com o mundo.

Essa concepção associa-se ao que aponta Oliveira (2010, p. 361), que a  criatividade na Gestalt-terapia relaciona-se à visão de homem e que  “compreender o homem como um ser criativo é atribuir a este ser a capacidade  de recriar sua história, de construir caminhos, de encontrar novas  possibilidades de ‘ser-no-mundo’”. Dessa maneira, é possível pensar a  criatividade como um suporte, ou seja, como algo que potencializa o homem  para viver como protagonista, como ser ativo da sua existência, elaborando as  diferentes alternativas frente às diferentes situações que lhe aparecem – e que  por vezes são experenciadas como iguais a situações anteriores do decorrer  de sua história.  

É necessário destacar onde se dá a experiência para a Gestalt-terapia e como  a criatividade está implicada nesse contexto. Conceitos fundamentais são o de  contato e de fronteira de contato. Para Perls, Hefferline e Goodman (1997), o  organismo é limitado do meio pela fronteira de contato - e não separado dele – sendo que este é também tocado pela fronteira. Assim, é na fronteira de  contato que se dá a relação entre ambos: o ser inicia sua experiência a partir  de algo do meio que mobiliza sua sensorialidade e torna-se figura4 para ele,  abrindo-se, dessa forma, uma necessidade para o organismo. Nesse  movimento são observados possibilidades e limites de ação existentes para a  satisfação da necessidade em aberto. O contato se “encerra” quando esta é  satisfeita, ou seja, a figura formada é destruída, o que permite então o  delineamento de uma nova figura de interesse para ele. De acordo com  Polster e Polster (1979),  

[...] nossas funções sensoriais e motoras são potencialmente as  

funções através das quais o contato é feito, mas é importante lembrar  

que, da mesma forma que o todo é mais do que meramente a soma  

das suas partes, o contato é mais do que a soma de todas as funções  

possíveis que poderiam entrar nele (POLSTER; POLSTER, 1979, p.  

103).

Conforme Perls, Hefferline e Goodman (1997), apenas o novo é assimilável e  essa assimilação, que se dá no presente, transforma o sujeito para o futuro,  pois o homem também é diferente da soma das suas mais diversas situações  já vividas, ele vai ressignificando e passando a viver diferentemente. É possível  afirmar que existe uma adaptação do ser de acordo com o que lhe é  assimilável no aqui-e-agora e com a modificação do seu presente.

 4 É importante citar também a compreensão de figura e fundo. Tal conceito, que provém da Psicologia da  Gestalt, considera que a figura, que é o que nos capta a atenção, não está isolada, ou seja, emerge de um  fundo que a sustenta. A figura é uma necessidade que nos aparece a partir de algo que toca nossa  sensorialidade e fica em aberto, havendo então a busca pelo fechamento. Já o fundo, de acordo com  Rodrigues (2000) é “[...] tudo o que nos cerca, nós próprios, nossa história ... Enfim, tudo o que possa servir  como contexto para o surgimento de algo” (p. 112).

O contato pode ser chamado então de ajustamento criativo quando seu fluxo é  fluido, pois nesse ciclo de abertura e fechamento de Gestalten se ajusta o que  já é conhecido de maneira nova, criativa, tendo em vista as diferentes  possibilidades e limitações percebidas. Não é necessário que o cliente, ao  buscar psicoterapia, fique tentando estabelecer uma mudança, pois ao contatar  “a mudança simplesmente ocorre” (POLSTER; POLSTER, 1979, p. 102).

É no contato que se dá a awareness, que pode ser concebida como um  processo de dar-se conta de si mesmo a partir dessa relação com o meio. Ela é  caracterizada pelo próprio processo do fluxo figura-fundo, ou seja, existe um  excitamento espontâneo e uma transformação do que é experenciado a partir  disso, abrindo-se nova figura e assimilando-se a novidade ao já conhecido,  tanto de forma sensorial, motora (orientando a ação, mobilizando energia)  quanto reflexiva (dando novos significados) (PERLS; HEFFERLINE;  GOODMAN, 1997).

Tendo em vista que ao contatar lida-se com o novo, é possível concordar com  Silva, Carvalho e Lima (2013) e Ciornai (1995, p. 2) quando colocam que “todo  contato é potencialmente criativo”; também nota-se que a criatividade não é  dependente apenas “do indivíduo”, sendo necessária interação com o meio  para que seja despertada. Um exemplo é quando me deparo com algo que  desejo produzir, como este trabalho; necessito tanto do meu fundo, meu  suporte, carregado de informações e experiências sobre as temáticas aqui  tratadas - ou seja, provenientes de contato anterior com o meio -, quanto dos  materiais para a escrita, que pertencem ao meio, entre diversas outras  possibilidades. Porém, nessa interação eu dou um novo significado à  informação anteriormente obtida e elaboro um texto diferente, com o meu olhar,  eu renovo dando prioridade a fatores que me parecem mais relevantes e que  me tocam de forma que seja para mim uma necessidade explorá-los. Assim,  destaca-se que o objeto criado tanto possui minhas impressões como sujeito  quanto me constitui como sujeito ao passo que me transformo durante sua  criação, o que demonstra, de acordo com Silva, Carvalho e Lima (2013), a  interconstituição de sujeito e objeto.

Na prática da Gestalt-terapia um conceito que se apresenta referente à  Criatividade é o de saúde. Para Rodrigues (2000, p. 47), saúde “[...] implica em  reconhecimento da capacidade do indivíduo em manter-se em contato com seu  contexto [...]”.  

Nesse sentido, tem-se a compreensão da auto-regulação organísmica, que se  refere à capacidade que todos temos de adaptar nossas respostas às mais  diversas demandas do meio que nos surgem, de forma a satisfazer a nossa  necessidade em aberto, sendo esse movimento natural e saudável. Tal ideia  iniciou-se com os estudos de Kurt Goldstein, neurologista e psiquiatra alemão,  que considerava existir uma busca do organismo por equilíbrio frente às  configurações do meio.  

A Gestalt–terapia compartilha com a teoria organísmica de Kurt  

Goldstein da ideia de que tentativa de repetição de padrões de

comportamentos já conhecidos, a não mudança e não exposição a  

situações novas é uma tentativa dos indivíduos de não lidar com a  

ansiedade gerada pelo inesperado. Quando há uma cristalização  

deste padrão, a Gestalt–terapia vai entendê–la como um padrão  

neurótico de comportamento, padrão este que vai levando ao  

empobrecimento das experiências do sujeito, a um repertório  

repetitivo e limitado de comportamentos que não propiciam a  

mudança (LIMA, 2009, p. 89).

Ou seja, quando não é alcançado um equilíbrio porque as respostas se  repetem e a necessidade real do sujeito continua não sendo completamente  satisfeita, está ocorrendo um funcionamento não saudável, tornando-se um  contato não criativo com o meio (OLIVEIRA, 2010; CIORNAI, 1995). Dessa  maneira, a criação de formas de auto-regulação são essenciais para esse  organismo.  

Se a pessoa, em interação com o meio, construiu esse modo de ser ao longo  do tempo (com cristalização de comportamentos e contato interrompido), pode se considerar que houve também uma tentativa de equilibração, visando à  forma como ela percebeu como mais adequada ao contexto que se encontrava.  Porém, percebe-se que “dar respostas velhas a situações novas” dificulta a  experimentação de possibilidades perante as novas situações - inclusive nas  relações sociais -, fazendo parte com frequência das queixas na psicoterapia.

Conforme coloca Tsallis (2014, p. 168), “ter sempre a mesma resposta equivale  a não ter resposta nenhuma [...]”, o que remete aos conceitos de vazio estéril e  vazio fértil. Rodrigues (2000) aponta que em virtude de uma necessidade de  preencher esse vazio e acabar com a angústia da situação em aberto, acaba se preenchendo-o com coisas que na verdade são inadequadas, não lhe  servem. Isso é o chamado vazio estéril, e estando nele é difícil que se criem  novas possibilidades.

Nesse sentido, outro conceito importante é o da Indiferença Criativa. Perls  (2002) relata que para alcançar uma visão mais abrangente do todo é relevante  encontrar determinado ponto, o ponto zero, elaborado a partir do referido  conceito, proveniente dos escritos de Friedlaender:

Em seu livro, Creative indifference, Friedlaender apresenta a teoria de  

que todo evento está relacionado a um ponto-zero, a partir do qual  

ocorre uma diferenciação em opostos. Esses opostos apresentam,  

em seu contexto específico, uma grande afinidade entre si.  

Permanecendo atentos no centro, podemos adquirir uma habilidade  

criativa para ver ambos os lados de uma ocorrência e completar uma  

metade incompleta (PERLS, 2002, p. 45-46).

Dessa forma, o conceito de indiferença criativa visa estabelecer um ponto-zero  para poder olhar os dois polos do mesmo fenômeno, diferenciá-los e observar  as semelhanças, permitindo então verificar como se completam esses  extremos e quais as possibilidades abertas por cada um deles, utilizando o  pensamento diferencial. Busca-se assim não estagnar as experiências, mas  torná-las múltiplas em toda a sua complexidade, sabendo a cada fechamento

que ali há também uma nova abertura (TSALLIS, 2014). Um exemplo da  multiplicidade de opções existentes é trazido por Perls (2002), sobre o uso do  calor: pode servir tanto para desunir moléculas quanto para soldá-las, não  possui uma única funcionalidade. Ao experimentar o que se acredita  pertencente a uma polaridade no polo oposto, recusando-se a aceitar apenas  um polo como verdadeiro, experimenta-se o vazio fértil, que permite a  descoberta do que realmente cabe ao sujeito para preenchê-lo.  

É importante que o gestalt-terapeuta também tenha o olhar atento para as  polaridades trazidas pelo cliente, para o foco dado e o ângulo pelo qual se está  observando as situações vividas. Joseph Zinker (2007) foi um psicoterapeuta  americano que escreveu sobre a criatividade como fundamental no processo  da Gestalt-terapia, não apenas para o funcionamento saudável do cliente, mas  também como necessária à metodologia do gestalt-terapeuta. De acordo com o  autor, “[...] o processo criativo é prejudicado quando cliente e terapeuta  inadvertidamente se identificam com partes isoladas da personalidade do  cliente: o terapeuta anseia por mudanças e o cliente luta com unhas e dentes  por sua ‘integridade’” (ZINKER, 2007, p. 34).

O terapeuta tem o papel de criar e disponibilizar as mais variadas formas de  condução da psicoterapia (como o próprio experimento, por exemplo) a fim de  auxiliar o cliente a estar aware do seu próprio movimento no mundo e  possibilitando a escolha sobre a condição sob a qual prefere continuar esse  movimento. De acordo com Polster e Polster (1979), o experimento pode ser  utilizado de modo a expandir as fronteiras habituais do cliente, ou seja,  possibilita uma maneira de entrar em contato com suas mais diversas questões  de forma segura, sendo importante que o terapeuta observe se é possível para  o cliente estabelecer esse contato no momento.

Isso vai ao encontro também do que coloca Oliveira (2010), que “[...] não  pensaremos numa forma de tornar o cliente [...] um ser adaptado às situações  do seu contexto no sentido de adequá-lo ao que está sendo solicitado. E sim,  trabalharemos com a intenção de desenvolver sua possibilidade de escolha  [...]” (p. 361).  

Nesse sentido, de acordo com Zinker (2007, p. 17), verifica-se que “a terapia é  um processo de mudança de awareness e do comportamento”, o que remete  às definições de criatividade que tratam da elaboração do novo: não significa  que o cliente vai necessariamente alterar sua forma de viver, mas, estando  consciente do que se passa, a própria experiência torna-se nova. O autor  ainda, perante a ideia já exposta de que a criatividade é restrita a algumas  pessoas, que possuem o “talento” da criatividade ou a “permissão” profissional  para usá-la, afirma que “o ato criativo é uma necessidade tão básica quanto  respirar ou fazer amor”, o que possibilita entender que é fundamental a todos  (ZINKER, 2007, p. 21).  

Por fim, percebe-se então que a criatividade está presente na constituição do  sujeito e que é possível visualiza-la e utiliza-la para promover mais saúde para o mesmo, sendo o Gestalt-terapeuta também reinventado constantemente  nesse processo.  

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Um dos primeiros pontos observados é a importância da crença na  transformação do ser humano. Pensar a criatividade é entender que é possível  reinventar-se e estabelecer diferentes concepções que são constantemente  mutáveis; tal processo não é planejado: ele acontece, assim como a vida.

Da mesma maneira, percebe-se que o contato criativo possibilita o crescimento  do ser humano. Pensando na Gestalt-terapia, vê-se que não cabe ao terapeuta  “forçar” um crescimento do cliente, mas é necessário que ele seja um facilitador  desse processo, utilizando experimentos, por exemplo, a partir da sua  

sensibilidade no campo. Tal crescimento significa também possibilitar que a  relação cliente-terapeuta seja interdependente, ou seja, é importante que o  terapeuta permita o caminhar do cliente sem tornar-se “uma muleta” e sem que  se coloque ou deixe colocar-se no lugar de “detentor do que é certo fazer”: não  cabe ao gestalt-terapeuta fazer interpretações e nem dar respostas, o que,  diga-se de passagem, é um desafio tendo em vista a lógica mecanicista em  que fomos constituídos.

Outro ponto a ser levantado é o fato de que, não é necessário utilizar todas as  técnicas conhecidas pela abordagem gestáltica (cadeira vazia, dramatização,  etc.) para dizer-se criativo e/ou possibilitar ao cliente o contato criativo. Um  “ouvir” do terapeuta, aparentemente simples, pode ser o que o cliente necessita  no momento; ser ouvido pode ser algo que ele não costuma vivenciar,  tornando-se o experimentar de algo novo e potencializador de awareness. Da  mesma forma, ouvir sem demais intervenções (ou sem intervenções demais)  também pode ser um processo pouco experimentado pelo terapeuta: se houver  contato criativo, ambos crescem no processo.

Quando o terapeuta ouve ativamente e utiliza da sua criatividade para  possibilitar que o cliente esteja aware das polaridades existentes - olhando  juntamente a partir de um ponto-zero estabelecido -, é possível que ambos  deem novos significados para as mais diversas situações abertas nesse  processo e caminhem juntos para o encontro de coisas que realmente estejam  acessíveis e sejam desejadas pelo cliente.  

A partir do presente artigo foi possível perceber algumas relações do tema com  a experiência como gestalt-terapeuta iniciante. Penso que ainda é possível  explorar mais a respeito da utilização e interrupção da criatividade do gestalt terapeuta, tão fundamental para o processo terapêutico quanto o fundo a  respeito do tema. Conforme descrito inicialmente, o objetivo deste artigo foi  fazer uma reflexão sobre a criatividade na Gestalt-terapia, contudo, ao adentrar  este estudo pode-se observar a relevância do tema como instrumento de  mudança e, assim, sugere-se um estudo de caso onde possa exemplificar de  modo prático tal relevância.

Por fim, ressalta-se novamente que o processo criativo é pertencente a todo o  ser humano e que não há uma concepção de ideal a respeito da criatividade:  cada um é criativo da maneira como lhe é possível. Sendo assim, vê-se que  cabe ao gestalt-terapeuta não buscar respostas para o que aparece ao cliente  na relação terapêutica, mas sim o auxiliar a criar suas próprias respostas,  descobrindo assim diferentes maneiras de trilhar seus caminhos.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CIORNAI, S. Relação entre criatividade e saúde na Gestalt-terapia. Revista do  I Encontro Goiano de Gestalt-terapia. Palestra apresentada em 1995, no I  Encontro Goiano de Gestalt terapia, publicada em 1995 na Revista do ITGT  (Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-terapia) n. 1, Goiânia, 1995.  Disponível em: <http://www.profala.com/artpsico40.htm>. Acesso em: 08 de  maio de 2015.

DICIONÁRIO do Aurélio. Significado de Criatividade. s/d. Disponível em:  <http://dicionariodoaurelio.com/criatividade>. Acesso em: 10 de maio de 2015.

LIMA, P. A. Criatividade na Gestalt-terapia. Estudos e Pesquisas em  Psicologia, UERJ, RJ, ano 9, n. 1, p. 87-97, 2009. Disponível em:  <http://www.revispsi.uerj.br/v9n1/artigos/pdf/v9n1a08.pdf>. Acesso em: 08 de  maio de 2015.

LUBART, T. Psicologia da Criatividade. Porto Alegre: Artmed, 2007.

OLIVEIRA, D. C. A. de. Recriando histórias: o desabrochar da capacidade  criativa em crianças a partir da gestalt-terapia. IGT na Rede, v. 7, n. 13, p.  354-367, 2010. Disponível em <http://www.igt.psc.br/ojs>. Acesso em: 08 de  maio de 2015.

PERLS, F. S. Pensamento Diferencial. In:______ Ego, fome e agressão: uma  revisão da teoria e do método de Freud. Trad. Georges D. J. Bloc Boris. São  Paulo: Summus, 2002. cap. 1, p. 43-57.

PERLS, F.S.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-terapia. Trad.  Fernando Rosa Ribeiro. 2 ed. São Paulo: Summus, 1997.

POLSTER, E.; POLSTER, M. A Fronteira do Contato. In:______. Gestalt terapia Integrada. Trad. De Ricardo Britto Rocha. Belo Horizonte: Interlivros,  1979. cap. 5, p. 100-123.

RODRIGUES, H. E. Introdução à Gestalt-terapia: conversando sobre os fundamentos da abordagem gestáltica. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

SEABRA, J. M. Criatividade. Psicologia.com.pt: O portal dos psicólogos. 11.  Jul. 2008. Disponível em: <http://www.psicologia.pt/artigos/textos/TL0104.pdf>.  Acesso em: 08 de maio de 2015.

SILVA, M. C.; CARVALHO, E. M. de.; LIMA, R. D. de. Arteterapia Gestáltica e  suas relações com o processo criativo. IGT na Rede, v. 10, n. 18, p. 18-36,  2013. Disponível em <http://www.igt.psc.br/ojs>. Acesso em: 08 de maio de  2015.  

TSALLIS, A. C. Indiferença criativa: uma possibilidade pragmática do método  fenomenológico. In: FRAZÃO, L. M.; FUKUMITSU, K. O. [orgs]. Gestalt terapia: conceitos fundamentais. São Paulo: Summus, 2014. cap. 9, p. 163- 179.

VIGOTSKI, L. S. Imaginação e criação na infância: ensaio psicológico:  livro para professores. Apresentação e comentários Ana Luiza Smolka. Trad.  Zoia Prestes. São Paulo: Ática, 2009.

ZINKER, J. Processo criativo em Gestalt-terapia. Trad. Maria Silvia Mourão  Netto. São Paulo: Summus, 2007.  

Endereço para correspondência

Larissa Lehmkuhl

E-mail: larilehmkuhl@gmail.com

Recebido em: 16/10/2015

Aprovado em: 19/01/2016

NOTA

Graduada em 2015 na Universidade Federal de Santa Catarina, cursando  licenciatura em Psicologia.

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 23, 2015, p.315-326 DOI 10.5281/zenodo.15048663

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526