EDITORIAL

Marcelo Pinheiro da Silva

Este é o primeiro documento que publicamos após o XIV Congresso  Internacional de Gestalt-Terapia. Impossível não comentar este episódio  marcante no âmbito da Gestalt-Terapia nacional e Internacional. Resultado de  dois anos de muito trabalho e de muito empenho por parte de todos os  responsáveis por sua produção. Uma história que precisa ser contada.

Assim que recebemos a incumbência de presidir este evento, em maio de  2013, buscamos traçar princípios norteadores para direcionar nossas ações.  Estes princípios, em seus aspectos fundamentais, já foram declarados na  plenária final do XIII congresso internacional de Gestalt, momento do anúncio  de que o XIV Congresso ocorreria no Rio de Janeiro com nossa presidência1.  Naquela ocasião declaramos que trabalharíamos no sentido de construir um  congresso que desse espaço para os diversos estilos de Gestalt-terapia, sem  privilegiar grupos específicos; que fosse um espaço de trocas, priorizando o  relacionamento entre seus participantes; e que fosse um grande evento no que  se refere ao número de congressistas, já que estaríamos em uma cidade que  seguramente abriga uma das maiores concentrações de Gestalt-Terapeutas no  mundo.

Um outro aspecto que definimos como meta foi que os trabalhos apresentados  pudessem ficar para a posteridade, que as vozes dos congressistas pudessem  ser escutadas para além dos dias do evento. Que o congresso pudesse ser  filmado e disponibilizado gratuitamente na internet como já fazemos em relação  aos congressos brasileiros e do Estado do Rio de Janeiro.

Com nossos princípios já definidos, assim que chegamos de volta ao Rio de  Janeiro iniciamos nossos trabalhos. Construímos um cronograma de ação,  convocamos uma reunião para a qual convidamos representantes de todos os  centros formadores, além de professores universitários com quem tínhamos  contato e outros formadores de opinião de nossa cidade. Solicitamos às  pessoas convocadas para participarem deste encontro que nos enviassem  voluntários que tivessem tempo e disposição para trabalhar em nossa  comissão organizadora.

 1 Os Congressos Internacionais de Gestalt-Terapia funcionam em regime presidencialista. A  partir de uma reunião de associações é feita a escolha do local e de um presidente que se  responsabiliza pela coordenação do próximo evento.

A partir das pessoas indicadas e também de pessoas de nossa confiança que  convidamos diretamente, demos início à equipe que teria o desafio de construir  nosso evento. Eram muitos desafios, muitas frentes a serem trabalhadas.  Como construir um evento de grande porte sem nenhuma verba inicial ou  instituição financiadora?

Para fazer frente às inúmeras tarefas nos dividimos em núcleos. O núcleo de  ativação estadual tinha a incumbência de ativar os Gestalt-terapeutas do  Estado do Rio de Janeiro. Para tanto buscou mapear os centros formadores  de nosso estado, procurou manter contato com as diversas universidades sempre com o intuito de estabelecer a conexão do congresso com estas  instituições e divulgar o evento; O núcleo de ativação nacional buscou seguir os mesmos objetivos a nível nacional; O núcleo de ativação internacional  trabalhou no mesmo sentido, buscando mapear os centros formadores ao redor  do mundo, procurando estabelecer contato com os mesmos, além de pesquisar  a história desta série de congressos; Também foi constituído um núcleo de  virtualidade que tinha como objetivo cuidar da estrutura de filmagem,  transmissão online e viabilizar a participação de palestrantes que, na  impossibilidade de comparecerem presencialmente, também teriam a  oportunidade de fazer suas apresentações à distância, enriquecendo nosso  evento; o núcleo de Logística trabalhou no sentido de cuidar de toda a estrutura  física do evento: aparelhagens, tradução, restaurantes, crachás, etc. Nossa  meta era de que cada núcleo tivesse um coordenador e funcionasse de forma  autônoma fazendo frente a seus obstáculos.

Estrutura montada, começamos a busca de superar nossos desafios: O  primeiro e mais básico se referia ao local do evento. Na cidade do Rio de  Janeiro temos poucos lugares com capacidade de abrigar um número superior  a 1.000 (mil) congressistas e nós sabíamos que poderíamos superar os 1300 (mil e trezentos) como de fato aconteceu. Os lugares que poderiam dar conta  deste número de participantes se restringiam a dois centros de convenções: o  Riocentro e o centro de convenções Sul América, ao hotel Windsor e a UERJ.  Para reservar os Centros de convenções e o Hotel precisaríamos pagar algo na  ordem de 40% do valor total do aluguel do espaço antes mesmo de abrirmos  as inscrições do evento. Se tivéssemos uma associação para assumir esses  custos e esses riscos, ou ainda se tivéssemos recebido verbas do congresso  anterior este seria um caminho possível, porém, infelizmente, não era este o  caso. Precisávamos trabalhar com os pés no chão. Por mais que  acreditássemos na possibilidade de atingirmos um grande número de  participantes, não existiam garantias. Qualquer acontecimento que  comprometesse a imagem do Rio de Janeiro poderia frustrar nossa previsão,  no que se refere ao número de inscritos, gerando um prejuízo financeiro que  comprometeria o patrimônio do presidente do evento, já que não temos uma associação nacional de Gestalt-Terapeutas2. Assumir este risco não seria  razoável.

A opção da UERJ se mostrou nitidamente a opção mais sensata: teríamos um  espaço adequado, não precisaríamos usar um dinheiro que não existia naquele  momento, teríamos o aval de uma das maiores universidades do País e, além  de tudo isso, a UERJ tem um papel histórico no que se refere ao  desenvolvimento da Gestalt-Terapia no Estado do Rio de Janeiro. Cabe  lembrar que na época que tomamos essa decisão a UERJ não estava  passando pela crise que se estabeleceu no período de realização deste evento.

O segundo desafio foi na direção de que o evento se fizesse um espaço de  troca para nossa comunidade. Para trabalharmos no sentido de cumprir este  objetivo, já de início, buscamos que a própria identidade visual do evento fosse  construída de forma coletiva. Para tanto criamos um concurso para a  elaboração da Logomarca do evento, com isso nossa logo foi escolhida através  de votação. Mais de 120 pessoas participaram desta escolha. Também criamos  um questionário que foi veiculado, através da internet em 4 idiomas e tinha  como objetivo dar espaço a comunidade no sentido de que os Gestalt Terapeutas dos diversos países pudessem participar de decisões relativas a  aspectos como: o tema central do evento; os tipos de atividades a serem  realizadas; as personalidades a serem convidadas etc.

Na etapa de definição de aspectos ligados à estrutura do evento, buscamos  assegurar que em pelo menos um ambiente teríamos tradução para 4 idiomas,  português, espanhol, francês e inglês3. Fizemos isto com o objetivo de ampliar  a participação de representantes dos diversos países. Quanto à tradução em  outros espaços, estabelecemos que esta seria feita por membros de nossa  comunidade de forma consecutiva e que combinaríamos a distribuição dos  voluntários para fazer a tradução a partir do processo de inscrição em  atividades.

Cabe lembrar que este congresso foi construído dando continuidade a uma  série de eventos nos quais eram raras as atividades com tradução simultânea.  Nas atividades realizadas em salas menores quando existia tradução, o que  era mais raro ainda, esta se dava em situações pontuais e era feita de forma  voluntária, nunca, ou quase nunca para o português. É importante registrar

 2 Com o objetivo de fomentar o desenvolvimento de uma Associação Brasileira de Gestalt terapia, colocamos na programação deste congresso uma mesa para a qual convidamos  representantes de várias associações nacionais de outros países, de forma a que estes  pudessem contar sobre a importância, os ganhos e as dificuldades que foram experimentadas  nas histórias destas associações. Também convidamos para esta mesa uma pessoa que  historicamente vem se empenhando no sentido da construção de uma associação para os  Gestalt-terapeutas do Brasil, no caso Antônio Elmo.

3Inicialmente também pretendíamos disponibilizar tradução para o Italiano, porém como não  ocorreram inscrições de representantes da Itália cancelamos esta possibilidade.

que nos congressos realizados na América do Sul a delegação brasileira normalmente, tende a ocupar o segundo lugar no que se refere ao número de  participantes, só ficando atrás dos países sede.  

Todo este processo deu muito, muito trabalho; exigiu muito, muito esforço, de  todos os participantes da organização de nosso encontro. Passo então a  descrever nossos números finais.

Este acontecimento se fez marcante em muitos sentidos. O primeiro aspecto  tem relação com as dimensões do evento. Tudo indica que foi o maior  congresso desta abordagem realizado em todos os tempos. Ultrapassamos,  como prevíamos os 1.300 participantes. Tivemos mais de 250 trabalhos  inscritos. Considerando que cada trabalho foi avaliado por no mínimo 2  pareceristas e um editor e, que vários deles passaram por bem mais do que  dois pareceristas, podemos afirmar sem medo de errar que foram realizadas  mais de 1.000 avaliações de trabalhos. Além das pessoas contratadas para  trabalhar no evento, tivemos 55 voluntários trabalhando como monitores para  dar apoio aos congressistas. Entre recebidos e enviados foram mais de 14.000 e-mails, isto sem levar em consideração as malas diretas enviadas (e-mails de  divulgação). Estes e-mails foram trocados em cinco idiomas diferentes, a  saber, Português, Espanhol, Francês, Inglês e Italiano. Ao longo de todo o  evento tivemos um ambiente com tradução simultânea para quatro idiomas:  Português, Espanhol, Francês, Inglês. Além de buscarmos apoio voluntário na  comunidade gestáltica para tradução consecutiva das demais atividades,  solução mais adequada para este contexto, nada melhor que um gestalt terapeuta traduzindo outro gestalt-terapeuta, também foram contratados 33 tradutores profissionais para dar apoio aos congressistas.  

Cabe lembrar que, dos 5 congressos internacionais que participamos  anteriormente, nenhum deles teve sequer um espaço amplo com tradução  simultânea continua para 4 idiomas durante todo o evento, quanto mais  tradução consecutiva nas atividades realizadas em salas menores. Nossa  meta era de cuidar de forma especial do quesito tradução, indo além do que se  deu tradicionalmente nesta série de eventos, justamente em função de nosso  objetivo de ampliar ao máximo as possibilidades de troca entre os participantes  deste congresso.

Além dos números marcantes deste evento também é importante citar as  inovações que ele trouxe: foi o primeiro da série a buscar ser transmitido  online; segundo nossas pesquisas, será o primeiro a ter anais oficiais com  ISSN; terá os trabalhos que foram filmados e que tiverem a autorização de  seus autores, disponibilizados gratuitamente online; foi organizada uma  exposição com a história dos congressos Internacionais de Gestalt-Terapia; o programa do evento foi fornecido em mais de um idioma; tivemos atividades de  pré-congresso apresentadas virtualmente (Palestra de Claudio Naranjo e de Erving Polster); tivemos palestrantes apresentando seus trabalhos  virtualmente; tivemos inscrições para atividades artísticas, valorizando os  talentos de nossa comunidade.

Mas, nem tudo foram flores na história de nosso congresso. Enfrentamos uma  crise na UERJ que culminou com o fato de um dos piores momentos, se não o  pior momento, da história desta Universidade ter coincidido com o horário de  credenciamento e da abertura do mesmo. Este fato trouxe consequências  avassaladoras: comprometeu definitivamente o processo de credenciamento4,  impediu a realização das atividades de abertura, e determinou a necessidade  de transferência do evento para a Universidade Santa Úrsula, prejudicando  aspectos ligados à virtualidade, como a transmissão online, ficou perdida toda  a programação social do evento, impediu que a exposição com a história dos  congressos anteriores fosse visitada pelos congressistas. Além disso, tivemos  que reinventar este congresso de um dia para o outro. Mais um desafio que  buscamos superar da melhor forma possível. Podemos afirmar que nenhuma atividade ficou sem espaço para ser apresentada, a capacidade total do evento  não foi prejudicada, só o que não conseguimos manter foi a distribuição dos  participantes em cada atividade5. Para nós da comissão organizadora este foi  um grande feito. Porém, infelizmente, nosso esforço não impediu que alguns  palestrantes tenham feito a opção de não apresentar seus trabalhos.

Desde o início da construção desse encontro, que realizamos com todo o  carinho, paciência e dedicação, não tínhamos como objetivo a perfeição.  Sabíamos que diante da complexidade de nosso desafio a perfeição seria  impossível, até porque esta construção não dependia só da organização, mas  também dos inscritos, de pareceristas que avaliaram os trabalhos, etc. Mesmo  se não tivessem ocorrido os problemas vividos na UERJ o evento certamente  não seria perfeito, mas com certeza nos dedicamos de corpo e alma para que  ele pudesse fluir da melhor maneira possível.

Gostaríamos de expressar nossa gratidão a todos os membros da comissão organizadora deste congresso que buscaram trabalhar de forma empenhada  para a realização do mesmo; aos membros da equipe de apoio e a todos  

 

4Tínhamos previsão de credenciar entre 70 a 80% dos congressistas naquela etapa do evento,  para tanto disponibilizamos um grande efetivo de nosso pessoal, de forma a podermos  organizar 18 filas de credenciamento. Esta meta ficou frustrada com a interrupção precoce  deste serviço. No dia seguinte com o início das diversas atividades do congresso tínhamos de  cobrir apresentações realizadas simultaneamente em 15 espaços diferentes e, além disso, alguns monitores terminaram deixando de participar do evento assustados com o que  presenciaram no dia anterior. Tivemos de diminuir drasticamente o número de filas de  credenciamento, o que inviabilizou esse processo.

5 As 21 salas de aula utilizadas para a maior parte das atividades realizadas na Santa Úrsula  eram maiores e mais confortáveis do que as salas da UERJ, porém os maiores espaços  utilizados na UERJ, isto é, quatro auditórios e o teatrão, não tinham equivalentes na Santa  Úrsula. Este fato inviabilizou a manutenção das inscrições em atividades previamente  realizadas.

aqueles que, mesmo não estando oficialmente ligados a equipe de apoio, buscaram ajudar e com isso tiveram um papel importantíssimo para a  realização deste encontro. Também é fundamental agradecer à UERJ e todos  os seus representantes que abriram muitas portas e que sem estas portas  abertas este evento não poderia ter sido desenvolvido6.

Gostaríamos de agradecer de forma especial a Universidade Santa Úrsula e  seus funcionários que nos receberam com todo o carinho e disponibilidade, em  especial ao Reitor Lácio Cesar Gomes que abriu as portas desta universidade  para o evento e ao Professor e Psicólogo Alexandre Trzan Ávila, pois sem sua  colaboração não poderíamos fazer esta mudança que foi tão importante para  darmos continuidade a este congresso.

Agradecemos também ao Conselho Federal de Psicologia que contribuiu com  R$ 5.000,00 (cinco mil reais) em passagens aéreas e ao Conselho Regional de  Psicologia que contribuiu com uma passagem aérea para a América Latina.

Nem todos os participantes do evento souberam valorizar o que foi feito pela  organização, este fato será tema de pelo menos um artigo, que será publicado  posteriormente, no qual trataremos este tema com todo o cuidado que ele  merece, abordando uma série de nuances, com as quais, ele nos acena.  Acreditamos que a discussão cuidadosa deste tema é fundamental para  superarmos entraves que certamente prejudicam muito o desenvolvimento de  nossa abordagem.

Boa leitura a todos.

Marcelo Pinheiro da Silva

Endereço para correspondência:

Comissão Editorial

IGT - Instituto de Gestalt Terapia e Atendimento Familiar,Rua Haddock Lobo,  369/709 - Tijuca Rio de Janeiro - Brasil CEP 20260-141 Telefax (55) 21 2569- 2650, Rio de Janeiro-RJ, Brasil

Endereço eletrônico: igtnarede@igt.psc.br; marcelo@igt.psc.br

 6 Este agradecimento é justo e necessário, mas não invalida a discordância que a comissão  organizadora deste evento tem em relação a algumas das decisões tomadas pela reitoria da  UERJ nas situações críticas vividas durante o evento em questão.

NOTA

Psicólogo Marcelo Pinheiro CRP nº 05/16.499 Gestalt-terapeuta, especialista  em psicologia clínica pelo CRP, especialista em psicologia organizacional pelo  CRP, especialista em atendimento de casal e família na abordagem sistêmica  (I.T.F.- RJ), Professor substituto de Psicologia da UERJ, Mestrando em  Psicologia Social (UERJ), coordenador do curso Especialização em Psicologia  Clínica - Gestalt-Terapia (Indivíduo, Grupo e Família), editor chefe da Revista  Virtual IGT na Rede, coordenador do Centro de Documentação da Gestalt Terapia Brasileira e sócio-fundador do IGT e Presidente do XIV Congresso  Internacional de Gestalt-Terapia Rio 2015.

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 22, 2015, p.1-7 DOI 10.5281/zenodo.15048581

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526