ARTIGO

Poliamor: da institucionalização da monogamia à revolução sexual  de Paul Goodman.

Polyamory: the institutionalization of monogamy sexual revolution Paul  Goodman.

Tatiane Costa

Marcus Cézar Belmino

RESUMO

Poliamor é um termo que designa a possibilidade de estabelecer múltiplas relações  afetivo-sexuais de modo concomitante, igualitário e consensual, uma modalidade  conjugal que apregoa a primazia do amor não exclusivo e por meio de lógicas  institucionalizadas. Este estudo tem como objetivo conhecer os ideais amorosos da  atualidade a partir das visões de amor romântico e das distinções entre amor e  amizade e entre amor e sexo a que se dispõem os poliamoristas. Usa-se como  interlocutor o pensamento de Paul Goodman, um anarquista, crítico literário e teórico  do cenário norte-americano dos anos 1960, abordando discussões sobre a natureza  humana e a antropologia de Goodman e seus desdobramentos quanto à repressão  e revolução sexual. Esta pesquisa foi realizada mediante revisão de literatura em  livros, revistas e periódicos de circulação acadêmica. Não pode ser compreendida  como um ultimato acerca da temática abordada, ademais agrega contribuições ao  estudo frente ao poliamor, ao verificar que as relações afetivo-sexuais desafiadoras  da norma monogâmica estão cada vez mais comuns e visíveis, historicamente  construídas como alternativa às relações pautadas no mito do amor romântico.  Embora ainda haja pouca literatura publicada na área e pesquisas relativas às  formas não monogâmicas venham sendo negligenciadas pelos estudos acadêmicos.

Palavras–chave: Poliamor; Paul Goodman; Monogamia.

ABSTRACT

Polyamory is a term that refers to the ability to establish multiple sexual-affective  relationships concurrently, egalitarian and in a consensual manner, a marital modality  that proclaims the primacy of love and not exclusively through institutionalized logics.  This study aims to know the romantic ideals of the present time from the visions of  romantic love and the distinctions between love and friendship and love and sex that  are available to polyamorists. Used as interlocutor thought of Paul Goodman, an  anarchist, literary theorist and critic of the American scene in the 1960s, covering  discussions about human nature and anthropology on Goodman and his  developments about the sexual revolution and repression. This research was  conducted through a literature review of books, magazines and academic journals in  circulation. It cannot be understood as an ultimatum about the selected theme, more over it adds contributions to the study about polyamory, verifying that the challenging  emotional-sexual relationships of monogamous norm are increasingly common and  visible, historically constructed as an alternative to relationships based on myth of  romantic love. Although there is little published literature in the area and research on  non-monogamous forms have been neglected by the academic studies.

Keywords: Polyamory; Paul Goodman; Monogamy

1 - INTRODUÇÃO

Este artigo apresenta um mapeamento conceitual de um novo arranjo conjugal  presente na atualidade, o poliamor. Procura assim, compreender como esta  modalidade é vivenciada pelos sujeitos envolvidos, em alternância às relações  afetivo-sexuais baseadas na monogamia e pautadas no amor romântico enraizado na sociedade ocidental. O tema em estudo se torna pertinente ao propor conhecer  de forma intrínseca essa nova forma de relacionamento, sendo, portanto, de  relevância social para a identificação da realidade conjugal da população e os novos  arranjos propostos.

Para tanto surgem como questionamentos a possibilidade das relações  poliamorosas substituírem, no futuro, o modelo conjugal tal qual o conhecemos ou  se apenas ela fixar-se-á como alternativa, dita radical, às construções histórico culturais da monogamia. Tem como objetivo, conhecer os ideais amorosos da  atualidade a partir das visões de amor romântico e das distinções entre amor e  amizade e entre amor e sexo a que se dispõem os poliamoristas.

Traz como base uma leitura do pensamento revolucionário de Paul Goodman,  escritor, crítico literário, psicoterapeuta e crítico político, do cenário norte-americano  dos anos 1960, tendo seus debates perpassados à antropologia, educação,  psicanálise, filosofia, psicologia e outros inúmeros temas (BELMINO, 2014). Goodman é um autor fundamental para a compreensão da vida contemporânea,  suas críticas e propostas ainda são impressionantemente atuais e pertinentes para  se observar como o mundo ocidental ainda está engendrado sob uma tutela de  governos centralistas, alienantes e que destroem a capacidade criativa e o  desenvolvimento humano (BELMINO, 2014).

Esta pesquisa, alcançando a qualidade e profundidade necessárias, poderá  contribuir para a definição de novos indicadores quanto ao tema, que tem se tornado  tão relevante nos últimos anos, de modo a permitir conhecer as visões dos  praticantes quanto à vivência do amor em desconformidade com a prática  culturalmente aceita.

Ademais, a proposta academicamente constitui-se de um tema pouco explorado,  mas que apresenta um potencial de investigação vasto, sendo possível promover  um viés de conhecimento rico à Psicologia ao abordar questões de ajustamentos às  normas sociais embutidos em novas formas de viver, definir e experienciar o amor.

2 - ANTROPOLOGIA E PSICOLOGIA DE PAUL GOODMAN

Em contraposição às ideias marxistas e fascistas de mutabilidade total da natureza  humana, Paul Goodman a pensava como um dos pontos fundamentais a serem  considerados e discutidos em qualquer investigação. Ele partia do princípio de que  esta é dada, porém ao mesmo tempo mutável (VINCENT, 1978). Pautado nas  teorias que utilizam o pressuposto da integração organísmica, - ideia na qual o  organismo constitui-se por meio da relação intrínseca entre aspectos mentais e fisiológicos -, tais como as ideias de Reich, John Dewey e Kurt Goldstein (BELMINO,  2014), pressupõe a unidade organísmica e a necessidade de uma interlocução entre  organismo e meio.

Para Goodman, da natureza humana emanam “três funções básicas: a função  criadora, a função sexual e a função comunitária” (Ibidem, p. 137), sendo que destas  atribui importância superior à função comunitária, julgando-a necessária ao exercício  das demais (VINCENT, 1978).

Goodman entendia que natureza e cultura não se fundem na mesma coisa, são  comunicáveis entre si, mas não unidos a ponto de se tornarem irreconhecíveis. Para  ele há um processo de alienação política da natureza humana, por meio de uma  inibição arrojada desta. Assim, Goodman afirma apenas ser possível compreender  um animal em sua constituição mais básica por meio da vinculação entre o  organismo e o meio (MULLER-GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO, 2012).

O que se desenha na história humana nada mais é que uma sucessão de erros  antropológicos que distanciam o homem cada vez mais dessas funções básicas. A  natureza da sociedade moderna e seu sistema organizado, estatizado e centralizado  frustra o homem nas suas funções orgânicas, onde os riscos de uma vida selvagem  são substituídos por certezas e previsibilidades da vida burocrática, a sexualidade é  reprimida, o outro passa a ser instrumento nas relações humanas e a criatividade  infantil é inibida (PERLS; HEFERLINE; GOODMAN, 1997).

Deste modo os excitamentos, ou seja, a energia que mobiliza as ações do indivíduo  – conceito elaborado em substituição à ideia de libido freudiana -, buscam atualizar se em esferas que, sob a ótica de uma sociedade burocrática e organizada,  apresentam-se hediondos e inaceitáveis, tais como relações sadomasoquistas, a  pornografia, práticas sexuais alternativas, nas formas de degradação do próprio  corpo e nas práticas de violência de guerra (PERLS; HEFERLINE; GOODMAN,  1997). Tais manifestações dos excitamentos são tidas como prejudiciais à produção  e perigosas à ordem social, sofrem repressão conjugada da ética industrial e dos  tabus religiosos e quando conseguem existir, são manifestos geralmente de modo  clandestino e, portanto, culpabilizada, sendo o contrário de uma autêntica libertação  (VINCENT, 1978).

Mesmo diante de formas tão explícitas de alienação da experiência humana,  Goodman acredita ser possível, apesar dos processos coercitivos da sociedade  moderna, encontrar uma ampla gama de capacidades de autorregulação  organísmica. Sendo esta mais que um processo de reorganização homeostática,  Goodman a vê para além do ajustamento do organismo ao meio circundante, há  nessa relação uma capacidade criativa, sempre em busca de uma nova alternativa  àquilo que foi estabelecido. Processo este que Goodman chama de ajustamento  criador ou “ajustamento criativo” (PERLS; HEFERLINE; GOODMAN, 1997, p.60).

Goodman aponta que, o que há de perdido e inadaptado na sociedade  contemporânea não é a natureza humana, mas a própria sociedade, que esquecida  do arquétipo social não se adapta. Assim, aconselha que antes de tentar moldar os jovens a todo custo aos padrões sociais, melhor seria produzir modificações na  cultura e na sociedade que possam satisfazer os desejos e capacidades da natureza  humana (VINCENT, 1978, p.140).

[...] Em suma, é a sociedade, porque se esquecida do arquétipo social, que  

está inadaptada, não o homem. Logo, aconselha Goodman, em vez de  

procurar adaptar os jovens a todo o custo, inclusive pela força, melhor seria  

produzir modificações na nossa sociedade e na nossa cultura, a fim de  

satisfazer os apetites e as capacidades da nossa natureza.

A natureza humana é uma potencialidade e apenas pode ser conhecida da forma  como foi realizada nos feitos e na história. A neurose em si é também uma resposta  da natureza humana, sendo hoje normal e talvez com um futuro social viável  (PERLS; HEFERLINE; GOODMAN, 1997). Sendo assim, Goodman crê como única  possibilidade, o processo de autorregulação organísmica, a capacidade de  ajustamento criativo dos organismos em relação ao meio (BELMINO, 2014).

As formas de coerção e submissão do outro, irão sempre se sobrepor às formas de  ajustamento criativo, “no decorrer dos séculos, fomos nos afastando de nossas  experiências mais elementares e fomos reprimindo nossa sensibilidade e  criatividade” (BELMINO, 2014, p. 127) uma vez que estas são cooperativas,  criativas, não havendo imposição de vencedor e perdedor na vinculação. Já as  relações baseadas no poder são sempre coercitivas, impositivas, submetendo o  outro, manifestando-se no excesso de inibição, tendo como resultado uma  sociedade inibida, ressentida e ansiosa (PERLS; HEFERLINE; GOODMAN, 1997).  

Assim, somente ao voltar-se à própria experiência e retornar a confiança na própria  natureza, o homem pode recobrar a potencialização da comunidade, da  sexualidade, da criação (BELMINO, 2014).

Goodman conclui, portanto, que sempre na luta pelo poder quando o homem se  mostra frágil é nesse momento que constrói estratégias explícitas de ameaça ao  outro, sendo este o projeto que perpassa os eixos de sua investigação, uma ética  anarquista que procura o desenvolvimento da autonomia e da confiança por meio do  ajustamento criativo.

3 - O AMOR NA MODERNIDADE

Em todas as culturas conhecidas há testemunhos da presença do amor-paixão, para  Costa (1998) a humanidade está habituada a pensar que este é um dom natural e  que qualquer forma de coibição ou proibição é desumana e antinatural.

Em uma análise essencialmente ocidentalizada é possível perceber uma tendência à  crença na universalidade do sentimento romântico, porém consonante às ideias de  Costa (1998), o amor é uma construção histórico-cultural, uma crença emocional,  que como tal pode ser mantida, alterada, melhorada, piorada, dispensada ou  abolida, tendo sido, portanto, uma invenção humana.

”O amor foi inventado como o fogo, a roda, o casamento, a medicina, o fabrico do pão, a arte erótica chinesa, o computador, o cuidado com o  

próximo, as heresias, a democracia, o nazismo, os deuses e as diversas  

imagens do universo. Nenhum de seus constituintes afetivos, cognitivos ou  

conativos é fixo por natureza” (COSTA, 1998, p.11).

Assim, tendo-se o amor enquanto invenção humana, este se reconstrói  indefinidamente com o passar do tempo e modifica-se por meio dos contextos  socioculturais, variando de acordo com as nuances econômicas, religiosas, sociais,  etc.

Há uma multiplicidade de significados assumidos pelo amor, de modo que ao citá-lo,  indistintamente, fala-se de qualquer manifestação amorosa sem distinção entre suas  formas – erotismo, fraternidade, paternalismo, etc. Sendo necessário discutir suas  modalidades para que se possam reconhecer suas várias faces na  contemporaneidade (BELMINO, 2010).

Historicamente é possível reconhecer três formas de amor: o amor/philia, o  amor/caritas e o amor/eros, sendo o primeiro aquele que hoje mais assemelha-se à  amizade, implicando num desejo de partilhar a companhia do outro, não buscando  possuir o outro, ao contrário, alegrando-se por ele (BORGES, 2004).

Belmino (2010) enfatiza que é esse tipo de amor que permanece após a paixão  entre dois amantes ter se esgotado, que com o passar do tempo a relação pode ficar  menos baseada na necessidade de posse do outro e mais relacionada ao  contentamento em estar junto.

O amor/caritas (BORGES, 2004) se relaciona a um sentimento de compadecimento  a toda a humanidade, estando na fundamentação ética de vários pensadores  modernos e frequentemente ligados ao cristianismo, uma vez buscar o compromisso  ético e solidário com os homens sem nenhuma exigência em contrapartida. O  erotismo e o apaixonamento dizem respeito ao amor/eros, sendo visto com um  caráter dúbio, pois arrebata de modo irracional, não se tem controle dele, ao mesmo  tempo em que leva ao divino (GOBRY, 2007).

O romantismo amoroso foi e continua sendo marca registrada da cultura ocidental,  segundo Costa (1998) alguns ideais são formados de modo a estarem ao alcance da  maioria e a reverem suas injunções no sentido do aperfeiçoamento, outros resistem  às mudanças, à contingência do mundo, este é o caso do amor/eros.

A vida é prevaricação às normas, insistindo em permanecer o mesmo num mundo  que se tornou outro, o ideal amoroso fez eclodir latentes contradições em sua  história cultural, tendendo a colocar-se o amor como monopolizador da felicidade,  deixando de ser um meio de acesso a esta para se tornar seu atributo essencial  (COSTA, 1998).

Segundo Giddens (1993), na modernidade surgem novas formas de  relacionamentos afetivo-sexuais, onde ainda persistem resquícios do ideal amoroso  e romântico, mas destacando-se a emergência do que chamou “sexualidade  plástica” (Ibidem, p. 10), uma sexualidade descentralizada, liberta da necessidade de reprodução, pautada nos ideais contemporâneos de liberdade, na crença na  possibilidade de viver uma sexualidade de modo livre, sem a obrigatoriedade de  atrelar-se a um relacionamento estável ou a um casamento.

Por meio dessa concepção, Giddens aponta o surgimento do que chamou  “relacionamento puro” (Ibidem, 1993, p.10), o aflorar de uma nova forma de relação  amorosa e sexual, onde ambos os parceiros se mantem pelos ganhos de cada um e  no trabalho individual de manutenção da relação.  

Na época atual os ideais de amor romântico tendem a se fragmentar diante da  emancipação e autonomia sexual feminina, sendo que, na visão de Giddens (1993)  o amor confluente assume nuances cada vez mais consolidadas na sociedade, uma  forma de amor mais ativo, contingente, que por isso entra em choque com as  categorias de “para sempre” e “único” da ideia do amor romântico.

3.1 - RELAÇÕES MONOGÂMICAS – MITO DO AMOR ROMÂNTICO

A figura idealizada do amor apresenta uma longa trajetória, profundamente  arraigada na cultura ocidental, uma idealização que segundo Costa (1998), é  bifronte: idealiza-se o objeto amado e o sujeito do amor. Para ele o sentido do amor  como algo bom e verdadeiro surge no ocidente a partir da Grécia Antiga, sendo  apresentado como um impulso que se dirige a um outro, mostrando semelhanças  com o amor romântico atual.

Na Europa pré-moderna, por volta do século XII, os casamentos eram contraídos  não sobre o alicerce da mútua atração sexual, mas sim da situação econômica. De  acordo com Carvalho (1999), durante a Idade Média, o casamento era produto de  uma negociação entre os nobres a partir de interesses econômicos e sociais, uma  troca entre as famílias para favorecer os patrimônios.

Segundo Costa (1998), a prática de transmissão da herança na Europa do século XII  deixava sem poder e propriedades os filhos mais jovens dos senhores feudais, uma  vez que essa transmissão lateral da herança, e não vertical, fazia com que os  aparentados do herdeiro possuíssem direito aos bens que os descendentes diretos  do senhor feudal não tinham. Cria-se assim, um grupo vasto de jovens nobres que  tinham como única opção para manter sua posição aristocrática e a posse de terras,  casar-se com uma noiva rica.

É dessa massa dos sem-herança que surgem os cavaleiros, precursores do  chamado amor cortês, que ainda de acordo com Costa (1998), era uma forma  aceitável de rebeldia contra os costumes sociais dominantes. Conforme ilustra  Rougemont (2003), o amor cortês, predecessor do amor romântico como conhecido  hoje, nasceu de uma reação contra a anarquia brutal dos costumes feudais. No  século XII, o casamento era para os senhores um puro e simples meio de  enriquecimento e de anexação de terras oferecidas em dote ou prometidas em  herança.

O amor cortês seria então, uma construção social, inaugurando no Ocidente uma  prática cultural nova em relação ao amor, há uma mundanização deste e uma  revalorização da figura feminina, pois de acordo com Costa (1998) a ideia do amor  na época medieval estava intrinsecamente ligada às normas cristãs, um amor  sagrado e para o sagrado, onde o propósito de felicidade seria alcançado na  aceitação da própria renúncia, uma espécie de masoquismo a serviço do amor. Com  o amor cortês há uma lascivização do objeto ideal do amor, a dama, passa a  substituir o lugar do sagrado como objeto de desejo.

Deste modo, ao separar a ideia de amor não só do sagrado, mas também do vínculo  conjugal, o amor cortês prepara as condições culturais necessárias à explosão do  amor romântico que aconteceria séculos mais tarde (COSTA, 1998). O amor cortês  caracteriza-se então por ser a primeira manifestação do amor como hoje é  conhecido, uma relação pessoal, sendo a figura dos trovadores da nobreza de  Provença os precursores dessa nova forma que se alastraria pelas demais regiões  da Europa (LINS, 2007). Ainda segundo a autora o amor cortês respeitoso reverteu  a imagem estabelecida da mulher enquanto ser dominado, desprezado, bem como a  do homem brutal e dominador, trazendo um enfoque onde a mulher é honrada e  poderosa e o homem honrado e gentil.

O amor romântico não era desconhecido na época pré-medieval, mas foi apenas na  Idade Média que foi reconhecido como uma forma de paixão, tendo como essência  considerar o objeto amado imensamente precioso e muito difícil de possuir. Sendo  que proclamado pelo Romantismo está baseado na idealização do outro, mas  também, na impossibilidade de concretizá-lo, é o amor da impossibilidade de  completar sua falta, é ilusório e fugaz (ROUGEMONT, 2003).  

Conforme Belmino (2010) foi só a partir de então que a paixão passou a ser explícita  culturalmente e a manifestar-se entre os casais, o amor apaixonado passou a ser  expresso nessa época, influenciando a literatura, a filosofia, a música e as artes em  geral. Sendo, contudo, no final do século XVIII que surge a ideia de amor romântico.  Ele estava dentro dos padrões da normatividade, pois era considerado puro, no  sentido de que não era proibido ou pecaminoso. Dessa maneira, passou a ser regido  pelos padrões institucionalizados, pois, ao contrário do amor apaixonado, não tinha  caráter avassalador, já que não quebrava a rotina dos casais (BELMINO, 2010).

A indissolubilidade da união conjugal inseriu-se no cenário das sociedades  ocidentais apenas a partir do século XIII (LINS, 2007). Até então a Igreja não  intervinha no casamento dos nobres, era apenas um contrato entre as famílias. Caso  a mulher não procriasse, poderia ser devolvida à família ou colocada em um  convento. O casamento era uma instituição com vistas à estabilidade de uma  sociedade, desempenhando apenas uma função reprodutiva e de união de bens e  riquezas.

Apenas após a transformação do matrimônio em sacramento no século XIII, sendo  celebrado de início na porta da igreja e, somente a partir do século XVII, ao pé do  altar, que se instituiu o casamento monogâmico e inquebrantável. Na idade média e  com a influência do cristianismo, o casamento passou a ser encarado como um sacramento em que intervinha a vontade divina revestia-se de forma canônica e um ministro de culto autorizava a celebração. Apenas com o advento do Concílio de  Trento do século XVI o sacerdote passou a intervir.

Com a separação da Igreja retirou-se dela o controle do casamento submetendo-o  ao Estado, sendo que apenas após a Revolução Francesa, no final do século XVIII  passou-se a adotar a concepção do casamento como um ato meramente civil, um  

contrato, baseado na vontade dos nubentes, sem estar sujeito à intervenção obrigatória da Igreja. Deste modo, com a substituição da Igreja pelo Estado, este  manteve o princípio da indissolubilidade. O molde conjugal monogâmico e insolúvel  é o grande fato da história da sexualidade ocidental (LINS, 2007). Almeida (2006) destaca que a monogamia, enquanto norma valorada e aceita pelas  sociedades ocidentais surgiu sob a forma de resguardo às propriedades e à  herança, uma imposição religiosa que pactuava a exclusividade matrimonial e  desencorajava a troca de parceiros, mas que ao mesmo tempo não recriminava o  concubinato praticado pelos homens.  

Os filhos gerados fora do casamento se mostravam como ameaças ao patrimônio  familiar e diminuição do espólio de herança ao fragmentar o poder patriarcal em  cada vez mais pedaços, institui-se assim a necessidade de garantir um legado aos  filhos legítimos, pautado nos preceitos cristãos de dom divino e do caráter sacro do  casamento, a monogamia surge como regra, cujo peso e severidade recaem mais  na figura feminina da esposa casta e recatada (ALMEIDA, 2006)

De acordo com o mesmo autor, a monogamia, com a introdução do conceito de  amor romântico, produz um sistema que impõe um modelo de relações através de  um cerne de práticas formais e informais, produzindo um determinado conjunto de  sentimentos, como o ciúme, a possessividade, a desconfiança e várias formas de  angústias.

Almeida (2006) ressalta ainda que a monogamia não é meramente um  relacionamento entre duas pessoas, ou mesmo duas pessoas juntas que não se  relacionam com outras pessoas, mas sim um sistema que torna este modelo único, e  cuja forma de exercer essa normatização produz, inevitavelmente, sentimentos  negativos. Tais sentimentos não são, porém, mero produto da prática monogâmica,  mas também seus produtores, pois é através deles que ela também se mantém e se  reforça enquanto instituição social, de início para garantir o monopólio das riquezas  dos nobres em detrimento à divisão da herança com os filhos bastardos, atualmente  como algo imbuído culturalmente e socialmente aceito como padrão de  normatividade.

Prende-se a crença de que o amor romântico é o amor verdadeiro, o que gera  infelicidade e frustrações. O mito do amor romântico enquanto construção cultural  tem como base a estereotipagem sexual das pessoas em homens verdadeiros e  mulheres verdadeiras, envenenando as vidas amorosas. Os escritores de romance e  contos de fada sempre souberam do fascínio exercido, mas também que esse tipo  de amor não dura. No amor romântico ama-se o amor, o fato próprio de amar, o  casal precisa um do outro para arder em paixão, mas não um do outro como cada um é (LINS, 2007).

De acordo com Giddens (1993) o amor apaixonado é um fenômeno encontrado em  todas as épocas e lugares, mas se diferencia do amor romântico, por este ser  culturalmente específico do ocidente. A sociedade ocidental moderna é a única  cultura da história com a experiência do amor romântico como fenômeno de massa.

Não se caracteriza apenas como uma forma de amor, mas como um conjunto  psicológico, uma combinação de ideias, crenças, atitudes e expectativas das  pessoas dominando seus comportamentos. Predeterminando-se como devem ser os  relacionamentos, como agir, sentir e reagir, mas o sujeito é tão condicionado a vivê lo que se torna comum falar de amor como se ele jamais mudasse (ZELDIN, 1998).  

O mundo passa por grandes transformações, no que diz respeito ao amor, o atual  dilema situa-se entre o desejo de simbiose com o parceiro e o desejo de liberdade,  adaptar essa dualidade à do parceiro, negociar os dois desejos, conciliar o amor por  si próprio e pelo outro e tentar ajustar as evoluções recíprocas, são desafios  vivenciados pelos casais modernos, onde a duração da relação passa a ser um ideal  e não mais uma obrigação (LINS, 2007).

A autora ressalta ainda que a tendência atual é o “desejo de viver um amor baseado  na amizade” (Ibidem, p. 245), sendo, para tanto, necessárias novas estratégias e  táticas nunca antes tentadas. Um encontro sem idealização, a reprodução do  passado já não é mais suficiente, uma grande leva de pessoas gostaria de inventar  uma nova forma de amar e historicamente fica evidente que há precedentes, então,  é possível ser feito.

Nessa análise sócio histórica vê-se o amor romântico sair de cena, levando com ele  a idealização do par romântico, as ideias de que ambos se transformem em um só e,  por conseguinte, a ideia de exclusividade, abrindo-se a possibilidade de amar e se  relacionar sexualmente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo (GIKOVATE,  1998). Segundo Lins (2007), a partir do momento em que os modelos de amor,  casamento e sexo se tornaram insatisfatórios, abriu-se espaço para novas  experimentações no relacionamento afetivo-sexual.

Giddens (1993, p.109), chama esse fenômeno de “transformação da intimidade”,  movimento pelo qual homens e mulheres buscam consciente e deliberadamente,  desaprender e reaprender a amar.

Seria, portanto, um indicativo de que no futuro as relações amorosas serão mais  livres e mais satisfatórias. Ao não alimentar fantasias românticas de simbiose com  outrem, cada indivíduo tem a oportunidade de pretender sentir-se inteiro, sem a  necessidade de completude de um outro. Será então possível descobrir as  possibilidades do amor e as formas como ele pode apresentar-se para cada pessoa,  em cada situação, em suas diferentes maneiras (LINS, 2007).

3.2 - RELAÇÕES POLIAMOROSAS

O padrão mais aceito para as relações amorosas na cultura ocidental continua  sendo a monogamia. A pessoa que, estando em compromisso amoroso com alguém  e mantem relações sexuais fora desse relacionamento, geralmente é considerada  traidora e infiel (FREIRE, 2013).

Existem pessoas, no entanto, que aceitam não manter a exclusividade sexual e  afetiva, mantendo relações sexuais com outra pessoa, por meio do pleno  consentimento do parceiro. O poliamor, enquanto modalidade de relacionamento permite que tal situação ocorra (FREIRE, 2013). A sexualidade, bem como as  conjugalidades, sempre estiveram arraigadas nos paradigmas sociais desde os  primórdios das civilizações. De acordo com Rougemont (2003) o poliamor constitui se como fonte de conflito até mesmo para aqueles que defendem sua prática. Há  inúmeras definições sendo que estas apresentam pontos de divergência, mas  também de convergências.

Como consenso há a ideia de que o termo poliamor se refere à prática de um  relacionamento íntimo e sexual simultâneo com mais de uma pessoa, com o  consentimento e conhecimento dos envolvidos, sendo assim, os adeptos desta  modalidade consideram possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo  (ANAPOL, 2010).

Segundo Cardoso (2010) a palavra poliamor foi inventada duas vezes na história e  em dois contextos diferentes, o que, por conseguinte, marca a existência das duas  correntes atuais. O primeiro registro bibliográfico até então conhecido data de 1953  

sob a forma de um adjetivo dado pelo autor de um livro ao rei Henrique VIII  declarando-o como uma pessoa poliamorista, ou seja, que amava várias pessoas,  porém não no sentido empregado hoje. A noção de poliamor em sua vertente pagã e  espiritual, como um adjetivo para referir-se a pessoas que tivessem relações  amorosas e sexuais com mais do que uma pessoa simultaneamente, ou que o  quisessem fazer, e que reconhecessem o direito de outros o fazerem, surge no  contexto da Igreja de Todos os Mundos, em 1990, nos Estados Unidos.

Cardoso (2010) explica ainda que a outra vertente do poliamor possui um cunho  marcadamente menos religioso e transcendentalista, estando mais preocupados em  resolver os problemas surgidos nas relações monogâmicas consensuais da  sociedade ocidental.

Porém, conforme ressalta Lins (2007), os poliamoristas advertem que essa prática  amorosa é uma escolha, assim como o é a monogamia, não uma imposição ou uma  solução mágica aos problemas surgidos nas relações por esse preceito embasadas.  Nessa nova forma de amar também há tantos ou mais desafios quanto o modelo  normativo atual.

Dessa forma Cardoso (2010) define o poliamor como uma forma de não-monogamia  preocupada com o consentimento de todas as partes envolvidas, sendo que a  sociedade vigente mostra esta subcultura como especialmente ameaçadora e  perturbadora das normas monogâmicas.

A filosofia adotada no poliamor considera que amar única e exclusivamente uma só  pessoa pelo resto da vida é algo inconcebível, que o amor não deve excluir o mundo  ou as pessoas. Assim, os indivíduos podem amar e ser amados por mais de uma  pessoa simultaneamente; esta é a lógica que esta ideologia tenta defender  (FREIRE, 2013). Contudo, para que essa forma de relacionamento seja possível,  seus adeptos tendem a cultivar princípios que são norteadores dessa prática, a  saber: honestidade e consenso principalmente.

Lins (2007) apresenta o que seria a crença poliamorista, estes dizem que sua  filosofia baseia-se na aceitação direta e na celebração da natureza humana em sua  essência real. Consideram o sexo não como o inimigo do relacionamento e que o  real prejuízo está na tentativa de repressão do ser natural pelo sistema rígido e  antinatural da realidade monogâmica. Ainda de acordo com a autora os  poliamoristas afirmam que o ciúme não é algo inato, inevitável ou impossível de  superar, utilizam o termo compersion como um oposto ao ciúme, seria “um  sentimento de contentamento advindo do conhecimento de que alguém que você  ama é amado por mais alguém” (LINS, 2007, p.495).

Freire (2013) traz que o relacionamento poliamoroso apresenta algumas  peculiaridades que o divergem das demais formas de relacionamento não monogâmicos com as quais é frequentemente confundido. Um dos aspectos  fundamentais está no fato de que o centro da questão passa a ser o amor, e não o  sexo, tal qual acontece nos movimentos de libertação sexual como amor livre,  casamento aberto, swing, etc.

Desde o século passado, o poliamor enquanto movimento, passou a ter notoriedade,  mais precisamente por volta da década de 1990 quando do seu surgimento, adquiriu  maior visibilidade nos Estados Unidos nos últimos vinte anos, sendo acompanhado  de perto pelo Reino Unido e Alemanha.

Ainda segundo Freire (2013), no Brasil, mesmo que timidamente, o poliamor já  começa a dar sinais de visibilidade, figuras tem-se destacado no cenário nacional  com pesquisas referentes ao assunto tais como a psicanalista Regina Navarro Lins e  no campo da psicologia Terezinha Féres-Carneiro tem-se dedicado a pesquisas  sobre os novos arranjos conjugais, e dentre essas múltiplas conjugalidades está o  poliamor.  

Klesse (2011) sugere que alguns dos discursos do amor romântico foram absorvidos pela noção de amor poli, ao se observar a ênfase que é dada à intrínseca relação  entre o amor, a intimidade, o afeto, o desejo sexual e a valorização da  individualidade no poliamor. Porém ao se propor a ser uma forma de relacionamento  que aceita e acolhe a diversidade, pode-se argumentar que a concepção de amor  poli vence aspectos da dimensão heteronormativa do amor romântico.  

Freire (2013) ainda traz que apesar disso nos discursos quanto à compreensão da  forma de amar, os praticantes dessa modalidade ainda se contradizem ao  considerar elementos como liberdade e compromisso, pois ao mesmo tempo em que  uma pessoa é livre para amar a quem lhe aprouver, ela esbarra nos acordos  estabelecidos nos relacionamentos que restringem de algum modo essa liberdade.

4 - POLIAMOR: DAS RELAÇÕES INSTITUCIONALIZADAS À REVOLUÇÃO  SEXUAL DE PAUL GOODMAN

Goodman (1973) em seu, Ensaios Utópicos e Propostas Práticas (Ensayos Utópicos  y Propuestas Prácticas) apresenta a ideia de que os esforços e proibições  destinados a punir determinadas atividades, não surtem o menor efeito e, na  verdade, chegam a incrementar o mal que se supunha que iriam combater. Para ele  a sexualidade é socialmente já bastante aceitável, mas ao mesmo tempo é também  a origem de um sentimento de culpa, de algo delitivo.

Declara que a sociedade usa a censura como forma de inibir a livre sexualidade dos  sujeitos, sendo ela uma ação dinâmica e emocional que promove efeitos originais e  insuspeitos, deste modo pervertendo o clima sexual da comunidade.

A liberdade de expressão significa, para Goodman (1973), liberdade para falar o que  quer que seja. As palavras não tem valor de ação e as limitações são claras: se  houver a menor incitação ao tumulto cessa-se a liberdade.  

As relações afetivo-sexuais são socialmente institucionalizadas, constituem uma  ação e como tal devem seguir regras e não infligir tabus. Quando alguma das  virtudes ou das formas positivas adotadas pela energia humana é inibida e  condenada, seguramente ela reaparecerá adotando outras características muito  mais perigosas do que as que de início tentou-se reprimir (GOODMAN, 1973).

As travas colocadas pela sociedade quanto à expressão erótica proporciona como  efeito um aumento na necessidade de dar vazão a esta sexualidade, há uma prévia  falta de equilíbrio entre uma acumulação excessiva de estímulos e uma inadequada  descarga destes. A este fato Goodman chama “revolução sexual” (Ibidem, p. 83),  pois não há como a sociedade restabelecer a amnésia ascética de antes, o que  irremediavelmente conduziria a expressões mais virulentas, neuróticas e frustrantes  (GOODMAN, 1973).

Em condições normais, diz Goodman (1973), o afeto aumenta o desejo erótico, e o  prazer experimentado conduz a uma gratidão e ao afeto. Socialmente o que ocorre é  a aceitação da natureza da sexualidade de uma forma abstrata e tolerante, não se  consegue chegar a um arranjo, a uma solução para os dilemas morais, familiares e  pedagógicos que se apresentam durante este período de transição pelo qual a  sociedade passa. O que há é uma sexualidade isolada, no melhor dos casos  higiênica e no pior deles que conduz o sujeito a negar a sexualidade àqueles aos  quais ama.

Pautadas no mito do amor romântico e nas imposições de exclusividade das  sociedades ocidentais as relações amorosas monogâmicas, e alguns dos ramos das  que se auto intitulam não monogâmicas, apresentam um discurso irrevogável de  exclusividade mutuamente consentida, até mesmo os adeptos de outras  modalidades tais como swing e relacionamento aberto se dizem monogâmicos,  sendo pautados por aspectos de possessividade, renúncia, e lutas de poder  (GOLDENBERG; PILÃO, 2012).

Deste modo os arranjos sociais introjetados provocam um sentimento ambíguo no  sujeito que se identifica com a filosofia do poliamor (LINS, 2007). De início  reconhece sua vida como monogâmica, mas aspira que não seja; o que gera culpa,  frustração e vergonha, na maioria dos casos consegue adotar apenas alguns  elementos associados à vivência do poliamor, se reconhecendo nessa posição dúbia  de já não estar tão limitado como um monogâmico, mas não completamente  realizado enquanto poliamorista.  

Para Goodman (2012), é danoso às sociedades reprimir qualquer vitalidade  espontânea, considerando que “parte da hostilidade, paranoia e competitividade  automática desta sociedade resulta da inibição de contato físico” (Ibidem, p. 39).  Sendo que uma sexualidade funcional é provavelmente incompatível com este  sistema massificado.

Assim a monogamia seria o outro absoluto do poliamor, seu completo oposto, sendo  que a principal dificuldade de seus adeptos reside no fato de já haverem sido  monogâmicos um dia, são as margens residuais o que tentam superar, indicando-as  como a principal fonte de frustração inicial (GOLDENBERG; PILÃO, 2012).

Para Barker e Langdridge (2010), há um discurso político em meio à filosofia  poliamorista, a qual situa a monogamia em um regime capitalista patriarcal, com  argumentos anarquistas, pós-estruturalistas e queer para fundamentar a escolha  pelo poliamor, numa busca por identidade com a utilização de conceitos bem  definidos e sob a organização de uma plataforma de objetivos comuns ao grupo.

Partindo de uma argumentação em muito assemelhada ao relativismo cultural da  antropologia do século XX, os poliamoristas, em sua vertente menos conservadora e  mais próxima da visão apresentada por Goodman de vivência da sexualidade, não  intencionam apontar o poliamor como substituto e prática resolutiva aos dilemas da  monogamia. Assim como aborda Goodman (2012, p.41), “é óbvio que toda maneira  de viver tem seus problemas, mas é difícil julgar a experiência dos outros, fazer uma  comparação”.  

Os novos poliamoristas afirmam então, que não há uma escolha melhor que outra;  todas tem um significado humano distinto que deve ser considerado. Abstraem-se as  diferenças e ressalta-se os aspectos que as unificam: todas são pontos de vista, são  caminhos, possibilidades e não respostas concretas e fórmulas acabadas  (GOLDENBERG; PILÃO, 2012).

5 - PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Segundo Marconi e Lakatos (2010), metodologia científica é um conjunto de  abordagens, técnicas e processos utilizados pela ciência com o intuito de formular e  resolver problemas de aquisição objetiva do conhecimento, de modo sistemático.  

Para tanto se utiliza da pesquisa científica, a realização concreta de uma  investigação planejada, desenvolvida e redigida de acordo com as normas da metodologia para alcançar esses resultados.

Pesquisar, em sua significância mais simples, é uma forma de responder  indagações propostas. Minayo (1993), com olhar sob um prisma mais filosófico, trata  a pesquisa como sendo uma atividade básica das ciências em sua indagação e  descoberta da realidade. Uma atitude e uma prática teórica de incessante busca que  define um processo inacabado e permanente.  

Para Gil (2010), a pesquisa tem um caráter mais pragmático, sendo um “processo  formal e sistemático de desenvolvimento do método científico. O objetivo  fundamental da pesquisa é descobrir respostas para problemas mediante o emprego  de procedimentos científicos” (Ibidem, p.19).

Em suma, pesquisa é um conjunto de ações, propostas para encontrar a solução  para um problema, que tem por base procedimentos racionais e sistemáticos, sendo  realizada quando se tem um problema e não se tem informações para solucioná-lo.

Na construção desta pesquisa foi utilizada a classificação bibliográfica, que segundo  Gil (2010), é o estudo sistematizado desenvolvido com base em material publicado  em livros, revistas, jornais, redes eletrônicas, enfim, material acessível ao público em  geral. Fornece instrumental analítico para qualquer tipo de pesquisa, mas também  se esgota em si mesma.

Marconi e Lakatos (2010) trazem que esta tem como finalidade colocar o  pesquisador em contato direto com o que foi escrito sobre determinado assunto,  sendo não apenas uma mera repetição do que já foi dito ou escrito, mas propiciando  o exame de um tema sob novo enfoque ou abordagem, chegando a conclusões  inovadoras.

Para esta pesquisa utilizou-se como base livros, artigos, teses e dissertações  extraídos do SCIELO e da base de dados do Google Acadêmico, sendo de início um  total de quinze artigos, três dissertações, uma tese e dezesseis livros.

Adotou-se uma ótica multidisciplinar, articulando saberes da Sociologia,  Antropologia, e com destaque ao contexto psicológico do conceito de amor  romântico e da não-monogamia como forma de conjugalidade moderna. Para  explicar os elementos constituintes dessa modalidade de relacionamento,  apresentou-se como de fundamental importância o trabalho de Giddens sobre as  transformações da intimidade no mundo contemporâneo, as obras de Paul  Goodman, que versam acerca dos processos de individuação e o conflito criado entre a sociedade moderna e a institucionalização das relações, bem como a  sexualidade e natureza humana e a conceituação histórica de Denis de Rougemont.  

Ao delimitar o objeto de análise o material foi reduzido a seis artigos, duas  dissertações, uma tese e quatorze livros, sendo excluídos aqueles que se  distanciaram do objetivo da pesquisa, tanto por relevância de conteúdo como por  defasagem temporal, para tanto foram mantidos livros clássicos, buscando-se  atualização nos periódicos mais recentes.

O material utilizado mostrou-se referencialmente contundente, útil em suas  propostas e capaz de promover a argumentação teórica necessária.

6 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta pesquisa não pode ser compreendida como um ultimato acerca da temática  abordada. Ademais, ela agrega contribuições ao estudo frente ao poliamor,  constructo essencial para a construção de uma compreensão sob a maneira como  as pessoas pensam e se posicionam frente a esta modalidade de relacionamento.

Freire (2013) explica que os sujeitos que vivenciam relações baseadas nesta  estrutura tendem a ser socialmente isolados devido a sua invisibilidade, identificando  alguns medos comuns que possivelmente surgem, tais como, perda de amizades,  incompreensão, preconceito, etc.  

Goodman (2012) apresenta como principal utilidade do sexo a permissão em  conhecer outras pessoas intimamente e que dada à frieza e fragmentação da vida  comunitária a prática sexual enriqueceria as vidas, uma vez que sua visão pauta-se  na construção de uma humanidade mais elementar, mais selvagem, menos  estruturada, mais variegada, onde as pessoas prestem mais atenção umas às  outras.

Deste modo a abertura ao conhecimento desses novos arranjos conjugais propicia  auxílio também ao terapeuta que, para tornar-se eficiente em seu papel clínico, tem  como necessidade o estabelecimento de um ambiente terapêutico seguro, onde este  sujeito sinta-se confortável e encorajado a discutir clara e explicitamente os temas  relacionados às conjugalidades não monogâmicas.  

Segundo Freire (2013), as relações afetivo-sexuais desafiadoras da norma  monogâmica estão cada vez mais comuns e visíveis, mas ainda há pouca literatura  publicada na área e estudos acadêmicos relativos às formas não monogâmicas têm  sido negligenciados pelas academias.

Entende-se que o estudo apresentado contribui para a ampliação do arcabouço  teórico em torno da temática no meio acadêmico, estando em corroboração com a  literatura da área. Fomenta possibilidades de ampliação posterior e oferece  informações quanto a aspectos psicológicos e sociais que auxiliam a se fazer  possível o entendimento da dinâmica do poliamor, favorecendo uma ampliação das  discussões desses temas nos círculos acadêmicos.

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Endereço para correspondência:

Tatiane Costa 

E-mail: tatianecosta965@gmail.com 

Marcus Cézar Belmino 

E-mail: marcuscezar@leaosampaio.edu.br

Recebido em: 29/06/2015 

Aprovado em: 28/09/2015 

NOTAS: 

Tatiane Costa: 

Graduada em Psicologia, bolsista do Programa Universidade para Todos, com  formação básica em Gestalt-terapia pela Diálogos Clínica Gestáltica e Centro de  Desenvolvimento de Pessoas. Faculdade Leão Sampaio de Juazeiro do Norte - CE 

Marcus Cézar Belmino: 

Psicólogo, Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e  Doutorando em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da  Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Formado em Gestalt-terapia pelo  Instituto Gestalt do Ceará. Bolsista CAPES/DS.

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 23, 2015, p.411-429 DOI 10.5281/zenodo.15048683

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526