ARTIGO

O brincar como meio facilitador da expressão da criança sob a  perspectiva da Gestalt-terapia

Playing as a facilitator of the child's expression from the perspective of  Gestalt Therapy

Gerlena Correia Lima  

Deyseane Maria Araújo Lima

RESUMO

Este artigo apresenta o brincar como meio facilitador da expressão da criança  sob a perspectiva da Gestalt-terapia, através de um estudo teórico elaborado a  partir da revisão de literatura, da análise de documentos e da reflexão pessoal.  Objetiva-se refletir sobre o brincar como meio facilitador da expressão da  criança. Pensar o brincar é pensar o desenvolvimento da criança em sua  totalidade, conforme propõe a abordagem da Gestalt-terapia. Nesse sentido, compreende-se que é na relação ininterrupta da criança com o meio que é  constituído o seu desenvolvimento. Os resultados proporcionaram o repensar  sobre o brincar numa perspectiva gestáltica, a partir do olhar e da história de  autores que contribuíram para a psicoterapia infantil, permitindo compreendê-lo  como um meio que facilita a expressão da criança. A análise do fenômeno  contribuiu com o campo de conhecimentos já existentes sobre o fenômeno do  brincar na Gestalt-terapia.  

Palavras-chave: Brincar; Gestalt-terapia; Infância.

ABSTRACT

This paper presents the play as a facilitator of the child's expression from the  perspective of Gestalt therapy, through a theoretical study drawn from the  literature review, document analysis and personal reflection. The objective is to  reflect on the play as a facilitator of the child's expression. Think the play is to  think the child's development in its entirety, as proposed by the approach of  Gestalt therapy. In this sense, it is understood that it is in continuous  relationship of the child with the environment that consists its development. The  results provided the rethinking of playing a gestalt perspective, from the look  and history of authors who contributed to the child psychotherapy, allowing  understand it as a medium that facilitates the child's expression. The analysis of  the phenomenon contributed to the field of existing knowledge on the  phenomenon of playing in Gestalt therapy.

Keywords: Playing; Gestalt therapy; Childhood.

1 - INTRODUÇÃO

A principal motivação em estudar essa temática deve-se às grandes  descobertas encontradas durante o estágio obrigatório em Psicologia Clínica, que é parte da grade curricular do Curso de Graduação em Psicologia na  Faculdade de Tecnologia Intensiva (FATECI), que se referem as  transformações no brincar da criança presente no atendimento infantil, e,  principalmente, como a criança revela as suas emoções, as suas frustações, as  suas ansiedades e quando pode ser ela mesma. Além dos aspectos  mencionados, acrescenta-se a crença nas potencialidades de cada criança,  quando se passa a vivenciar esse processo terapêutico, desenvolvendo a  capacidade de respeitá-las ainda mais.

O objetivo do trabalho é refletir sobre o brincar como meio facilitador da  expressão da criança, tendo como foco a abordagem gestáltica. Os objetivos  específicos são: compreender a historicidade do conceito de infância; analisar  a história da psicoterapia infantil e compreender o brincar como um processo  terapêutico.

Desta maneira, busca-se responder ao seguinte questionamento: como o  brincar facilita a expressão da criança no processo terapêutico? A intenção é  aprofundar o brincar como processo terapêutico e sua potencialidade na  psicoterapia infantil, visto que é um tema que precisa, ainda, ser mais discutido  academicamente.  

O método utilizado foi a pesquisa bibliográfica, através de um estudo teórico  elaborado a partir de fontes secundárias, da análise de documentos e da  reflexão pessoal. Para um melhor entendimento do tipo de pesquisa que foi  realizado, Lakatos e Marconi (1971, p.32) explicam que:

“Os documentos de fonte primária são aqueles de primeira mão,  

provenientes dos próprios órgãos que realizaram as observações.  

Englobam todos os materiais, ainda não elaborados, escritos ou não,  

que podem servir como fonte de informação para a pesquisa  

científica [...]. A pesquisa bibliográfica ou de fontes secundárias é a  

que especificamente interessa a este trabalho. Trata-se de um  

levantamento de bibliografia já publicada, em forma de livros,  

revistas, publicações avulsas e imprensa escrita. Sua finalidade é  

colocar o pesquisador em contato direto com tudo aquilo que foi  

escrito sobre determinado assunto, com o objetivo de permitir ao  

cientista „o reforço paralelo da análise de suas informações‟”.

Pensar a infância no mundo contemporâneo torna-se desafiador e requer um  esforço e uma reflexão profunda por parte da escola e da sociedade. Nesta  temática da infância percebemos avanços, descobertas, mudanças de  comportamento e culturas, que seguem e acompanham fatos históricos que  ainda hoje é estudada, avaliada e comentada por muitos estudiosos.

Somente nos últimos anos o campo historiográfico rompeu com as rígidas  regras da investigação tradicional, institucional e política, para abordar temas e problemas vinculados à história social (ARIÈS, 2012). Nesse sentido, o  contexto sócio histórico é um elemento norteador para o entendimento do  brincar num contexto psicológico.

A partir de Freud, Anna Freud, Melanie Klein, Winnicott, Virginia Axline, Violet  Oaklander, Sheila Anthony, dentre outros autores que influenciaram a  construção do conceito de brincar de uma forma mais aprofundada, será  discutida a história da psicologia infantil e como o brincar tornou-se um meio  que facilita a expressão da criança. As contribuições dos referidos autores trouxeram um olhar mais cuidadoso para os primeiros meios de socialização da  criança, que são a família e a escola, e principalmente para o terapeuta que  passou a ter um olhar diferenciado sobre o brincar, a relação da criança com o  brinquedo, seus movimentos, ações, linguagem.  

Na Gestalt-Terapia, o movimento de ir ao encontro da criança, encontrá-la em  seu mundo e envolver-se em sua brincadeira durante as sessões é a base da  condução do processo terapêutico (AGUIAR, 2014). É essa imersão do  terapeuta no mundo da criança que a permite ser ela mesma e ter sua  expressão facilitada por esse processo de aceitação da criança.

Nesse sentido, o movimento da criança em seu brincar vem modificar, ajustar,  a relação da criança com seu meio e consigo mesma. Quando se analisa o  brincar e a abordagem gestáltica é interessante pensar como esses dois eixos  se entrelaçam, permitindo constatar que a perspectiva do predomínio da  linguagem lúdica nas crianças se articula perfeitamente com a visão gestáltica  de homem, que considera a linguagem verbal não só uma entre várias  possibilidades de contato entre o indivíduo e o meio como também a que se  apresenta mais tarde e se desenvolve devagar (AGUIAR, 2014).

Ao final deste estudo, espera-se despertar nos profissionais que trabalham com  crianças, nos pais e na sociedade um olhar mais sensível e cuidadoso para a  fala da criança e para o comportamento expressado num simples brincar. A  brincadeira é para a criança o seu mundo, é o espaço onde expressa seus  medos, angústias, emoções e sentimentos que, muitas vezes, passam  despercebidos pelos adultos.  

2 - REFLEXÕES SOBRE A CRIANÇA E SUA INFÂNCIA

Para uma melhor compreensão acerca do brincar como meio facilitador da  expressão da criança é necessário remontar a história da descoberta da  infância e como esta é encarada no mundo moderno. Visto ser um tema pouco  debatido, torna-se importante percorrer os estudiosos que procuraram entender  o processo histórico da infância e suas relações com a família, a sociedade, e a  escola, no que se refere ao brincar. Pensando no sentido da infância como  uma construção social, é interessante um estudo sobre sua história, percorrendo um espaço de tempo até a modernidade e uma breve reflexão  sobre a infância já na contemporaneidade.

O conceito de infância tem se constituído ao longo do processo histórico e  social, ou seja, varia de acordo com as formas de organização da sociedade e  as transformações sócio políticas e culturais. Dessa maneira, verifica-se que a  concepção de infância tem atravessado vários olhares e não existiu sempre e  da mesma maneira.

Até por volta do século XII, a arte medieval desconhecia a infância ou não  tentava representá-la. É difícil crer que essa ausência se devesse à  incompetência ou à falta de habilidade. É mais provável que não houvesse  lugar para a infância nesse mundo. Segundo Ariès (2012, p.17):

“A análise da produção existente sobre a história da infância permite  

afirmar que a preocupação com a criança encontra-se presente  

somente a partir do século XIX, tanto no Brasil como em outros  

lugares do mundo. No entanto, mesmo a infância constituindo-se em  

um problema social desde o século XIX, ainda não foi suficiente para  

torná-la um problema de investigação científica. Estudos apontam  

que até o início da década de sessenta a história da infância e a  

história da educação pareciam ser dois campos distintos e  

inconciliáveis de pesquisa”.

No campo histórico pouco se tinha sobre o conceito de infância, não havia  registros dessa história. Com a publicação sobre a “História Social da Infância  e da Família” na França em 1960 e nos Estados Unidos (ARIÈS, 2012) e ainda  em 1974 a publicação do texto sobre “A Evolução da Infância” (MAUSE, 1991), começam a surgir interesses mais amplos no sentido de reconstruir a definição  concisa de acordo com a área de interesse de cada estudioso.

Há vários fatos históricos que relatam a narrativa da infância, dentre os quais se destaca a infância religiosa ainda na época de Jesus, conforme descreve Ariès (2012, p. 20):

“O tema da infância sagrada, a partir do século XVI, não deixaria mais  

de se ampliar e de se diversificar: sua fortuna e sua fecundidade são  

um testemunho do progresso na consciência coletiva desse  

sentimento da infância, que apenas um observador atento poderia  

isolar no século XIII, e que não existia de todo no século XI. No grupo  

formado por Jesus e sua mãe, o artista sublinharia os aspectos  

graciosos, ternos e ingênuos da primeira infância; a criança  

procurando os seios da mãe ou preparando-se para beijá-la ou  

acariciá-la; a criança brincando com os brinquedos tradicionais da  

infância [...]. Todos os gestos observáveis - ao menos para aqueles  

que desejassem prestar atenção neles – já eram reproduzidos”.

Até o século XVII predominava o conceito da criança como um adulto em  miniatura, ou seja, acreditava-se que o raciocínio, os sentimentos e as ações  infantis possuíam os mesmos elementos básicos dos adultos.  

O sentimento de infância ainda não existia na idade média, sendo a criança  tratada da mesma forma que os adultos (ou um adulto em pequeno tamanho),  de forma que as crianças faziam os mesmos trabalhos dos adultos. Não havia diferença no tratamento da criança para o adulto. A infância era apenas uma  passagem para a vida adulta, esperava-se que apenas tivesse mais força e  tamanho para se tornar um adulto.  

“A falta de afeição dos ingleses manifesta-se particularmente em sua  

atitude com relação às suas crianças. Após conservá-las em casa até  

a idade de sete ou nove anos (em nossos autores antigos, sete anos  

era a idade em que os meninos deixavam as mulheres para ingressar  

na escola ou no mundo dos adultos), eles as colocam, tanto os  

meninos como as meninas, nas casas de outras pessoas, para aí  

fazerem o serviço pesado, e as crianças aí permanecem por um  

período de sete a nove anos (portanto, até entre cerca de 14 e 18  

anos). Elas são chamadas então de aprendizes” (ARIÈS, 2012, p.  

154).

Vemos, portanto, que na idade medieval o foco estava em colocar as crianças para trabalhar. Independente da classe social, a partir dos sete anos de idade, elas eram inseridas em famílias estranhas, para assim, aprenderem os serviços  domésticos. Nessa relação, percebe-se que existia uma troca de lar dessas  crianças (ARIÈS, 2012). Neste contexto, não era atribuída importância aos cuidados, sentimentos, emoções, apenas à força do trabalho desse adulto em  miniatura.  

Como nesse período não havia um cuidado e interesse com a vida das  crianças, seus trajes também não eram tratados com zelo, não existia uma  diferenciação nos modos de vestir.  

“As crianças do povo, os filhos dos camponeses, as crianças que  

brincavam nas praças das aldeias, nas ruas das cidades ou nas  

cozinhas das casas continuaram a usar o mesmo traje dos adultos:  

jamais são representadas usando vestido comprido ou mangas  

falsas. Elas conservaram o antigo modo de vida que não separava as  

crianças dos adultos, nem através do traje, nem através do trabalho,  

nem através dos jogos e brincadeiras” (ARIÈS, 2012, p. 41).

A infância era apenas um estado de transição para a vida adulta e esse  processo era vivenciado diariamente com a participação das mesmas em  atividades cotidianas dos adultos. Em um sentido mais objetivo, a criança era  apenas mais uma mão-de-obra que ajudaria na lida da casa, da roça, etc.

“Essa concepção influenciou o tratamento que a sociedade  

dispensava às crianças. Elas recebiam cuidados especiais até os  

sete anos de idade. Depois ingressavam na comunidade dos adultos  

e desenvolviam as mesmas atividades que eles. Nas classes menos  

privilegiadas elas trabalhavam no campo, vendiam seus produtos nos  

mercados, aprendiam um oficio. Não lhes era dispensado nenhum  

tratamento especial. Ao contrário, eram alvo de todo tipo de  

atrocidade por parte dos adultos”. (DE MAUSE, 1991, p. 23).

Percebe-se que a criança não era cuidada, nem respeitada, havendo uma  exploração nas atividades do campo. Não havia infância, higiene, educação.

A concepção da criança como adulto em miniatura também se refletiu na arte.  Na pintura medieval, as crianças eram retratadas com as proporções corporais  dos adultos. Esse fenômeno não pode ser atribuído à falta de habilidade ou de  

técnica dos artistas. É mais provável que o pintor estivesse dando expressão  ao que ele entendia como criança e não ao que realmente via (DE MAUSE, 1991).  

O fato de ser cuidada por muitos fazia com que essa criança não tivesse  nenhuma referência de educação, valores morais e educacionais. O afeto era  inexistente e os laços da amamentação eram destinados à ama de leite que, em muitos casos, era considerada a mãe pelo ato de amamentar.

“A família medieval era constituída por um grande número de  

pessoas, entre familiares, agregados e empregados. Sua função  

básica era a de transmitir a vida, os bens e os nomes; não havia lugar  

para a exaltação de sentimentos – maternos e conjugais – não  

ficando o cuidado e a educação das crianças sob a responsabilidade  

de uma pessoa específica; esta se dava na interação com todas as  

pessoas que constituíam essa família extensa. Sem uma  

preocupação particular com as crianças, assim que elas eram  

desmamadas e podiam ensaiar os primeiros passos eram inseridas,  

sem distinções, em todas as atividades desenvolvidas pelos adultos”

(AGUIAR, 2014, p. 17).

Levada, historicamente, pelos avanços políticos e econômicos a família vai aos  poucos avançando e consequentemente sua relação com a criança também  toma novos rumos.

“Aos poucos o cenário vai sendo mudado com as transformações  

político-econômicas da sociedade a partir da revolução industrial  

onde a família ganha uma nova visão. [...] A nova ordem econômica  

centrada no capital lança a esfera pública à proeminência, destituindo  

a família de uma série de funções que ela antes abarcava. Nesse  

momento, a família passa a constituir apenas uma unidade de  

consumo e reprodução, na medida em que a produção se desenrola  

agora no âmbito público” (AGUIAR, 2014, p. 17).  

Nesse momento, a criança passa a ter um reconhecimento na sociedade. No  século XVIII, com o advento da Revolução Industrial, tem início a consolidação  da sociedade capitalista caracterizada pelo desenvolvimento da ciência, da  indústria, da tecnologia e pelo trabalho assalariado. Com esses avanços, a  criança passa a ocupar um espaço privilegiado, necessitando ser cuidada,  escolarizada e preparada para o futuro.  

“Paralelamente, a criança adquire novo valor e importância; percebe

se que ela é uma riqueza econômica em potencial – o trabalhador do  

futuro. A partir daí surge a necessidade de cuidar mais dessa criança  

e, principalmente, de educá-la. Assim, ela passa a ser alvo de  

cuidado e atenção, pois é vista como tesouro das nações em  

formação” (AGUIAR, 2014, p. 17).  

É interessante observar que somente a partir da Revolução Industrial, quando  o mundo avança em sua política econômica e consequentemente social, a criança tem reconhecida a sua importância, seu valor, passando a ser  percebida como o futuro da nação, aquela que precisa ser cuidada e educada.  Nesse momento, os pais assumem essa responsabilidade na educação dos  filhos, dando-lhes atenção e afeto.

“Passou-se a admitir que a criança não estava madura para a vida, e  

que era preciso submetê-la a um regime especial, a uma espécie de  

quarentena antes de deixá-la unir-se aos adultos. Essa nova  

preocupação com a educação pouco a pouco iria instalar-se no seio  

da sociedade, e transformá-la de fio a pavio. A família deixou de ser  

apenas uma instituição do direito provado para a transmissão dos  

bens e do nome, e assumiu uma função moral e espiritual, passando  

a formar os corpos e almas. Entre a geração física e a instituição  

jurídica existia um hiato, que a educação iria preencher” (ARIÈS,  

2012, p. 194).

Essa mudança político-econômico-social acarretou uma intensa transformação  no conceito de família e sociedade, trazendo consigo valores, respeito,  cuidado, educação, saúde, etc.  

Esse fenômeno de surgimento do “sentimento de infância” vem ao encontro de  uma sociedade capitalista emergente, onde a preocupação com a força de  trabalho dos indivíduos é crescente e implica profundas transformações no  modo de tratar a infância, na configuração da família – que se volta para a  proteção e o cuidado da criança, tornando-se “nuclear” – e na educação formal  e informal dos “futuros trabalhadores” (ARIÈS, 2012).  

Estando nas mãos de muitos, a criança pouco se relacionava com os pais,  escapando desde muito cedo de suas próprias famílias, para as quais o sentimento de infância era escasso e onde não havia interesse para o afeto,  carinho e cuidado. Cuidar era sinônimo de ensinar-lhe uma profissão, uma  atividade qualquer.

“A família não podia, portanto, nessa época, alimentar um sentimento  

existencial profundo entre pais e filhos. Isso não significava que os  

pais não amassem seus filhos: eles se ocupavam de suas crianças  

menos por elas mesmas, pelo apego que lhes tinham, do que pela  

contribuição que essas crianças podiam trazer à obra comum, ao  

estabelecimento da família. A família era uma realidade moral e  

social, mais do que sentimental” (ARIÈS, 2012, p. 158).

A aprendizagem, antes atribuída aos trabalhos domésticos realizados junto aos  adultos nos diversos lares e famílias, tem agora seu papel na sociedade. “A  escola deixa de ser reservada aos clérigos para se tornar um instrumento  normal da iniciação social, da passagem do estado da infância ao adulto” (ARIÈS, 2012, p. 159).

A partir da escolarização, da preocupação dos pais em cuidar melhor das  crianças, de educá-las para um futuro melhor, começa a existir um sentimento  de infância, afeto, cuidado mais consistente, citando a evolução da escola e do  sentimento de infância:

“[...] ela correspondeu também a uma preocupação dos pais de vigiar  

seus filhos mais de perto, de ficar mais perto deles e de não  

abandoná-los mais, mesmo temporariamente, aos cuidados de uma  

outra família. A substituição da aprendizagem pela escola exprime  

também uma aproximação da família e das crianças, do sentimento  

da família e do sentimento da infância, outrora separados. A família  

concentrou-se em torno da criança” (ARIÈS, 2012, p. 159).

Diante do contexto e da análise da produção existente sobre a história da  infância, fica claro que o foco no cuidado e educação das crianças encontra-se  presente a partir do século XIX, no Brasil e em outros lugares do mundo.

Foi somente a partir dos estudos que se começou a pensar e problematizar o  conceito de infância e nos tempos atuais a imagem da criança está integrada  ao conceito de infância (ARIÈS, 2012).

A criança, hoje, é compreendida como um ser social que tem vez e voz própria,  que deve ser cuidada, ouvida, educada e tratada com seriedade e zelo. Com a  criação do Estatuto da Criança e do adolescente (ECA), em 1990, foi legitimado o discurso pelo cuidado e registrado avanço nas políticas públicas  voltadas para a criança e o adolescente.

Com o ECA, a criança passou a ter um espaço de direitos de forma integral e  integrada, sendo reconhecida como sujeito de sua própria história, inserida no  mundo do lazer, da cultura da educação e do desenvolvimento social.

Um fator interessante de se observar nesse processo histórico é que nos dias  atuais não é rara a menção popular à criança como um ser de fundamental  importância para a construção do futuro. Contudo, essa menção remete a uma  questão que coloca a infância no centro de seu paradoxo, uma vez que: no  tempo em que a criança alcança o reconhecimento do seu status enquanto um  ser diferenciado – que se encontra ainda em processo de desenvolvimento e  que, portanto, precisa de cuidados e atenção especial (ANDRADE, 2010), é o  mesmo em que, por motivos sociais, vive-se o desaparecimento da infância (IANISKI, 2009).  

Desta forma, a concepção de infância surgiu imersa no processo histórico,  onde a sociedade capitalista foi se transformando e ressignificando papéis  sociais. Paradoxalmente esta mesma concepção tende a desparecer  exatamente em virtude da dinâmica da sociedade capitalista, que vem  inserindo em seu mundo, mais uma vez, aquele adulto em miniatura,  influenciada pela mídia, pelo consumismo, dentre outros meios.

A partir desse contexto, é importante frisar que a criança ocupa, hoje, um  espaço privilegiado na sociedade, munidas de direitos e deveres. No entanto, a  infância, em muitos casos, lhe é retirada muito cedo ou não é vivida. Falar de  infância é falar do brincar, do fantasiar, do ser criança.

Depois da realização de debates e mobilizações no Brasil, o reconhecimento  dos direitos e deveres da criança foi instituído pelo Estatuto da Criança e do  Adolescente (ECA) que garante a proteção integral deste sujeito pela  comunidade, família e Estado no que se refere a saúde, a educação, ao  esporte, lazer e cultura, a convivência familiar e comunitária, entre outros.

Desta maneira, percebemos que o mundo atual acelerou e mudou, transformou  conceitos, comportamentos, sociedade e família.

“O mundo mudou. Acelerou e se conectou. E nesse novo tempo  

podemos dizer também que a infância encurtou. A palavra foi  

substituída pela imagem. O excesso a simplicidade. O abraço pelo  

objeto. O desejo pela necessidade e a infância pelo consumo”

(TRIGUEIRO, 2012, p. 45).  

O consumismo está abstraindo das crianças o direito de viver uma infância  saudável, de ser criança em sua plenitude. A imagem da criança como adulto  em miniatura, do século passado, onde o trabalho a transformava num  pequeno homem é hoje revivida, quando as crianças passam a ser o que a  mídia ordena. Os lares estão sendo invadidos pelas imagens e propagandas  que convidam pais e crianças a consumirem sem reflexão, vendendo a falsa  ideia da realização de sonhos.

“A infância atual está mercantilizada. As crianças foram elevadas,  

pelo mercado, aos status de consumidoras antes de estarem aptas  

ao exercício pleno de sua cidadania. Elas são, desde cedo, incitadas  

a fazer parte da lógica do mercado e a forma como são olhadas e  

investidas, simbolicamente, pelos outros, passa pela cultura  

consumista. Os pequenos já nascem usando fraldas x ou brincando  

com brinquedos” (TRIGUEIRO, 2012, p. 45).  

É preciso preparar a criança para uma reflexão consciente a respeito do  consumo. A família precisa entender que a criança necessita de espaços para  viver sua infância, ou seja, permitir que ela brinque, tenha opções saudáveis,  seja ouvida, viva seu mundo de fantasias e, principalmente, seja amada e ame.  

3 - ENTENDENDO O PROCESSO HISTÓRICO DA PSICOTERAPIA  INFANTIL  

Com o avanço do conceito de criança e seu desenvolvimento dentro do  processo histórico da sociedade e da família, a criança passou a ser uma  preocupação de alguns estudiosos, tornando-se um objeto de estudo e, consequentemente, conduzindo a uma forma de estudar a natureza do homem.  Ao longo dos últimos tempos, vários termos foram criados a respeito desse  trabalho realizado com as crianças, tais como: ludoterapia, psicoterapia infantil  e psicanálise infantil, dentre outros.

O trabalho psicoterápico com crianças data do século XX, a partir da  abordagem psicanalítica (FREUD, 1980) e se desenvolveu ao longo dos últimos 50 anos no bojo de outras abordagens do ser humano, particularmente por  meio da abordagem centrada na pessoa (AGUIAR, 2014).

Nesse sentido, pode-se afirmar que o surgimento da psicoterapia infantil se deu  ao final do século XIX, quando a infância passou a ser vista com um olhar mais  apurado, com uma visibilidade maior e, ainda, agregado a esse avanço tem-se  

o desenvolvimento da abordagem psicanálitica e os estudos de Freud para a  etiologia da neurose.

É possível constatar o papel da infância na etiologia da neurose e em todo o desenvolvimento da personalidade humana. Com os grandes avanços e  mudanças no cenário sócio-político e cultural, o autor desenvolveu a  abordagem psicanalítica e, como muitos outros estudiosos, começou a  aprofundar seus estudos sobre a análise com crianças.  

“Na busca de situações patogênicas, nas quais as representações da  

sexualidade haviam-se estabelecido e os sintomas como substitutos  

do que estava inconsciente tinham surgido, Freud foi levado cada vez  

mais à vida pregressa do paciente, chegando até sua infância. Isso o  

fez concluir que as impressões desse período da vida de um  

indivíduo deixam marcas indeléveis e fundamentam a disposição para  

qualquer distúrbio neurótico que viesse a sobrevir” (AGUIAR, 2014,  

p.18).  

A personalidade do paciente foi investigada, analisando suas doenças  psíquicas através da análise da sua infância, construindo com isso um novo  olhar sobre a criança, destacando uma fase da vida do indivíduo que nunca  tivera nenhuma importância para os estudiosos. A partir de então, a criança  passa a ocupar um espaço importante. A criança era vista por alguns como  uma “miniatura de gente”, um ser que não entendia nada, não sentia emoções,  sentimentos, apenas crescia (FREUD, 1980).  

No caso Hans, descobriu-se que as crianças podiam se beneficiar de uma  interpretação, na medida em que Hans, pela transformação de seu  comportamento, mostrava-se afetado pelas interpretações adormecidas por  seu pai que, por sua vez, era orientado pelo próprio Freud (FREUD, 1980). É  possível ver, ainda, que:

“Foi nesse caso de 1909 que Freud afirmou a necessidade de a  

criança desenvolver uma fobia, ou “pegar sua bobagem”, como dizia  

o pequeno Hans. O papel da fobia foi estruturante na investigação do  

menino sobre a sexualidade e na construção de seu romance sobre  

as origens e a função diferencial dos pais. Freud diz que é um  

benefício próprio que a criança faz esse movimento psíquico. Assim  

ele chama para si a atenção especial dos pais para as dificuldades  

com as quais se confronta, atraindo ainda os benefícios secundários  

do adoecimento. Além disso, defende-se contra a angústia” (LEAL;  

DUNKER, 2011, p. 38).

Começa-se a perceber que as influências da fala e do comportamento dos  adultos poderiam afetar as crianças (FREUD, 1980).

“Descobrir que elas eram afetadas pelo que os adultos diziam ou  

faziam não fez que estes mudassem totalmente seu comportamento  

com relação à criança, porém legitimou a possibilidade de  

determinado adulto, o psicoterapeuta, agir e falar de modo específico  

com ela afim de que isso trouxesse algum benefício terapêutico. A  

forma que esse agir e falar adquiriu ao longo do desenvolvimento da  

psicoterapia infantil é congruente com as perspectivas de ser humano  

e de funcionamento não saudável, próprias de cada abordagem”

(AGUIAR, 2014, p. 19).  

O pequeno Hans é um caso de referência nas obras de Freud, especialmente  nos trabalhos com crianças, como podemos verificar abaixo:

A psicanálise de crianças tem como referência essencial o caso do pequeno  Hans, justamente porque a especificidade desse tipo de tratamento levanta  questões sobre suas técnicas, a entrevista com os pais, as intervenções, a  duração do acompanhamento e o posicionamento do profissional (LEAL;  DUNKER, 2011).

Outra contribuição para a Psicoterapia Infantil vem de Anna Freud, que  utilizava o brinquedo como uma forma de atrair a criança para o tratamento  psicanalítico e para estabelecer uma relação com o terapeuta. Ou seja, o  brinquedo era apenas um atrativo, visto que a criança gostava de brinquedos e  distraía-se com eles. A psicoterapia acontecia da mesma forma que a dos  adultos, sendo que com crianças era utilizado o recurso do brinquedo com o  objetivo de basicamente seduzi-las.

Outra psicanalista que escreveu sobre o brincar, especificamente como inserir  o brincar em seus atendimentos psicanalíticos com crianças, foi Melanie Klein.  Diferentemente de Anna Freud, que usava o brincar como um atrativo de  manter uma relação positiva com a criança (AGUIAR, 2014).  

Apontaram-se outros pontos importantes que deveriam ser observados na  criança, como a observação para o primeiro ano de vida, que era muito  importante para o desenvolvimento da personalidade da mesma tendo em vista  as primeiras relações que eram estabelecidas nessa fase (KLEIN, 1981).

Com os estudos extensivos e o amplo trabalho, alguns estudiosos foram  também se especializando nessa área, como é o caso do pediatra e  psicanalista Donald Winnicott, que tem em suas publicações um interesse  focado no atendimento com crianças e psicóticos (KLEIN, 1981).

Entre seus aportes teóricos, destacamos a importância conferida à  maternagem, entendida como uma relação de acolhimento e cuidado  estabelecida com o bebê desde o seu nascimento e encarada como construtiva  do ser, uma vez que, segundo ele, “sem a maternagem um bebê não existiria” (AGUIAR, 2014).

A ação de maternagem, segundo o autor, aproxima a mãe do bebê criando um  vínculo forte sendo esse um aspecto construtivo na relação da criança com a  mãe  

“Na tenra infância, essa área intermediária é necessária para o início  

de um relacionamento entre a criança e o mundo, sendo tornada  

possível por uma maternagem suficientemente boa na fase primitiva  

crítica. Essencial a tudo isso é a continuidade (no tempo) do ambiente  

emocional externo e de elementos específicos no ambiente físico, tais  

como o objeto ou objetos transicionais‟ (WINNICOTT, 1975, p. 29).

Esse modo de olhar contribuiu para um aspecto importante no processo  terapêutico com crianças, que é a participação dos pais nesse percurso com a  criança, enquanto tinha como finalidade a participação dos pais apenas para  coletar dados sobre a criança e para a realização do contrato (KLEIN, 1981;  WINNICOTT, 1981).  

Vários teóricos influenciaram esse modo de compreender a criança. Pode-se  perceber a influência forte da Psicanálise com seus seguidores, cada um com  novas ideias na construção de ideologias que aproximassem cada vez mais a  compreensão do brincar da criança. Nessa perspectiva, outras linhas de  

pensamento foram, também, se interessando no estudo de novas  possibilidades de perceber o ser humano, em especial a criança trazendo  contribuições significativas para a Psicologia.

Nesse sentido, outra grande contribuição para os estudos da psicoterapia  infantil foi de Virginia Axline, que tem como referencial teórico a Abordagem  Centrada na Pessoa e que traz como grande marco nessa área a publicação  de Play therapy (Ludoterapia).  

Depois de alguns seguidores da Psicanálise, surge então Virgínia Axline, com  uma nova contribuição para o brincar da criança, numa visão humanista.  

“[...] O humanismo é a atitude filosófica que faz do homem o valor  

supremo, e que vê nele a medida de todas as coisas [...] define o  

homem como o ser que é o criador de seu próprio ser, pois o  

humano, através de sua história gera a sua própria natureza” (KIYAN,  

2006, p. 112).

O termo Ludoterapia nasce com Axline que, com o grande sucesso de Dibs em  busca de si mesmo de sua autoria, mostra uma nova forma de se trabalhar  psicoterapicamente com as crianças, diferentemente do que a psicanálise  vinha desenvolvendo em seus estudos.

Propõe-se uma ação terapêutica não diretiva, que adotando o uso do  brinquedo apenas como um recurso mediador da relação terapêutica, a  atenção se voltava exclusivamente para a criança e a posição do terapeuta  nessa relação era mínima. Sua função era de observação e acompanhamento  da ação da criança no setting terapêutico, realizando intervenções apenas  descritivas.

“O papel do terapeuta, embora seja não-diretivo, não é de modo  

algum passivo e sim de alerta, de sensibilidade e de constante  

apreciação daquilo que a criança está dizendo ou fazendo. São  

necessários uma compreensão e um genuíno interesse pela criança.  

O terapeuta deve ser sempre permissivo e aceitador. Estas atitudes  

são baseadas numa filosofia do relacionamento humano que salienta  

a importância do indivíduo como capaz e digno de confiança ao  

assumir a responsabilidade sobre si mesmo. Consequentemente, o  

terapeuta respeita a criança. Trata-a com honestidade e sinceridade.  

Não há nem irritação excesso de doçura em suas atitudes ao lidar  

com ela. É franco e sente-se à vontade na presença da criança”

(AXLINE, 1972, p.59).

Verifica-se que no processo terapêutico existe uma completa aceitação e  respeito pela criança e especialmente pelo seu tempo. Esta aceitação e  respeito, aliada ao brincar, e a relação estabelecida entre terapeuta e cliente  são novos elementos nessa maneira de compreender e trabalhar  terapeuticamente com a criança (AXLINE, 1972).

Ao passo que novas abordagens foram surgindo, em especial a Gestalt-terapia, podemos destacar as contribuições que vinculavam seus estudos a uma visão  de homem humanista, existencial e fenomenológica. Seus trabalhos voltados  para criança se expandiram da seguinte forma:

“[...] embora a metodologia de trabalho com criança tenha se  

expandido na direção de uma maior participação e atividade do  

psicoterapeuta que por meio de usar técnicas objetivava ampliar a  

consciência da criança a respeito de seus padrões de evitação (ou  

ainda, mecanismos neuróticos) e suas possibilidades de escolha na  

interação com o mundo: „Jim: „o meu desenho tem uma caixa grande  

e uma porção de linhas curvas coloridas dentro‟. Terapeuta: „Muito  

bem. Eu gostaria que você fosse essa linha azul escura que forma a  

caixa, e conversasse com as coisas que estão dentro dela‟”

(AGUIAR, 2014, p. 39).  

É interessante pontuar, ainda, a contribuição da Gestalt-Terapia para o estudo  do contexto familiar no processo terapêutico com crianças (AGUIAR, 2014).

Ao posterior e progressivo desenvolvimento da Gestalt-terapia com crianças,  na perspectiva humanista, existencial e fenomenológica, somou-se a visão de  campo que, entre outras implicações, concorreu para uma maior participação  do contexto familiar na psicoterapia (AGUIAR, 2014).

Dessa forma, veem-se no processo histórico da psicoterapia infantil valiosas  contribuições que, aos poucos, foram ampliando seu leque de possibilidades  de atendimento clínico infantil, tendo sido absorvidas por diversas abordagens  de acordo com suas peculiaridades teóricas.

Em síntese, podemos perceber que em Freud as crianças poderiam ser  afetadas pela fala e pelo comportamento dos adultos; Anna Freud utilizava o  brincar como forma educativa, uma maneira de atrair a criança para o setting terapêutico; Melanie Klein utilizava o brincar como um substituto direto da  verbalização, sendo o brincar a linguagem predominante da criança; Virginia  Axiline introduz o termo ludoterapia com um processo terapêutico totalmente  centrado na criança, utilizando-se de intervenções essencialmente descritivas.

É importante entender que cada autor um teve sua contribuição, possibilitando o uso dos recursos lúdicos, o brincar como meio de expressão e ação, a  aceitação no setting terapêutico, a compreensão do contexto familiar, dentre  muitas outras formas de atuação do terapeuta no atendimento com crianças.  Cada descoberta teve como pressuposto básico a compreensão de homem e  das diversas metodologias de trabalho que cada abordagem acredita.

Diante deste contexto, interessa destacar que vários foram os autores e as  abordagens que aprofundaram seus conhecimentos na tentativa de buscar  meios que pudessem entender o interior da criança. Nesse sentido, torna-se  peculiar falar um pouco da necessidade da criança em fazer o processo  terapêutico.

No mundo atual, como já citado anteriormente, percebe-se que as crianças  estão perdendo sua infância. Estão tendo um acesso rápido a muitas  informações que a cada dia vão sendo renovadas. O novo é novo apenas hoje,  amanhã são milhões de novas descobertas. É ainda um período de  descobertas em relação ao corpo e as situações estabelecidas nos vínculos  familiares e escolares. Emergidos num mundo aonde as informações chegam  de maneira rápida, as crianças sentem a necessidade de adaptação a essa  realidade através do que o mundo lhes oferece.

As responsabilidades e cobranças dentro desse campo podem prejudicar o  desenvolvimento saudável da criança. Os conflitos existentes na família, dentro  da escola ou mesmo em outro tipo de situação podem também causar  adoecimento. Na tentativa de sobreviver ao desencontro consigo mesma, a  criança acaba adoecendo, na tentativa de informar que algo não vai bem e se  ajustando ao meio da maneira que lhe é possível.

“A psicoterapia infantil além de ser recomendada para o tratamento  

de problemas específicos como a hiperatividade, a depressão, a  

mania, também auxilia a criança na escolha de seu próprio caminho,  

uma vez que os outros não poderão escolher sempre por ela.  

Independentemente do diagnóstico, do rótulo que carrega, a criança  

pode se redescobrir e diferente das críticas e das avaliações  

externas, consiga resolver seus conflitos emocionais” (IANISKI, 2009,  

p. 2).  

É importante citar que essas crianças também chamadas “crianças-problemas”  estão em todos os espaços, sejam em casa ou na escola e são encaminhadas  para a psicoterapia geralmente pelos pais ou pelos professores.

“Estes são exemplos de crianças-problema, frequentemente  

encaminhadas a ludoterapia por pais, professores, fiscais, médicos  

ou outro qualquer responsável. As agressivas, perturbadoras, barulhentas são as mais facilmente identificadas como crianças problema, porque estão constantemente criando novas dificuldades,  não somente para elas próprias, mas também para os que têm  contato mais prolongado e íntimo com elas” (AXLINE, 1972, p. 56).  

Dessa forma, existe a necessidade de cuidar do emocional da criança para que  a mesma tenha um desenvolvimento saudável. A psicoterapia infantil irá  auxiliar a criança na escolha de seu próprio caminho, nos ajustes emocionais,  de acordo com a abordagem de cada psicólogo.

“A psicoterapia infantil além de ser recomendada para o tratamento  

de problemas específicos como a hiperatividade, a depressão, a  

mania, também auxilia a criança na escolha de seu próprio caminho,  

uma vez que os outros não poderão escolher sempre por ela.  

Independente do diagnóstico, do “rótulo” que carrega, a criança pode  

se redescobrir e diferente das críticas e das avaliações externas,  

consiga resolver seus conflitos emocionais” (BONEBERGH, 2012, p.  

2).  

Pode-se concluir, portanto, que os motivos que levam as crianças a procurarem  uma psicoterapia infantil são os problemas emocionais que as impedem de ter  um desenvolvimento saudável. A psicologia infantil possibilitará às mesmas desenvolver estratégias saudáveis como forma de interação com seu meio e  consigo mesmas.

4 - UM POUCO DA HISTÓRIA DA GESTALT-TERAPIA

Para falar do brincar sob o olhar da Gestalt-Terapia, torna-se fundamental  conhecer um pouco da vida de Fritz Perls que é o mentor dessa abordagem e  da história da Gestalt-Terapia, visto que a elaboração de sua teoria e prática  está relacionada com sua história de vida.

Perls nasceu em Berlim, Alemanha, em 1893. Filho de pais judeus, Friedrich  Salomon Perls foi o terceiro filho e único homem do casal que vivia num clima  de desajustamento familiar.

“Durante toda sua infância, o pai esteve muito ausente devido às  

constantes viagens a trabalho; tinha ele como característica notória  

“sedução, infidelidade, agressividade e soberba”. Sua mãe era judia  

praticante e nutria forte paixão por teatro e ópera; paixão essa que  

passou a ser de Fritz também” (KIYAN, 2006, p. 18).

Estando numa família onde pairava o descontrole emocional, Perls vivenciou  momentos que marcaram sua vida.

“A irmã mais velha era quase cega, e por isso bastante protegida pela  

mãe, o que gerou em Perls um ressentimento que iria perdurar por  

toda a vida. Anos mais tarde, a mãe e essa irmã morreram em um  

campo de concentração, e Fritz, segundo seu próprio relato, não  

derramou uma lágrima sequer. A segunda irmã, Grete, era um  

perfeito “menino” e manteve com o irmão uma relação mais próxima, chegando a morar com ele durante dez anos, após seu casamento”

(KIYAN, 2006, p. 19).

Em sua vida acadêmica, um fato marcante foi sua expulsão da escola, em  1906, por “conduta inqualificável” o que deixou Perls desconcertado, chegando  a vagar pelas ruas com colegas e se envolver com experiências sexuais com  prostitutas. Anos depois, volta à escola por vontade própria e se interessa pelo  teatro, interesse esse que o levaria para o resto de sua vida e aparecerá muito claramente na Gestalt-Terapia.

“Em 1914 quando da declaração da guerra, foi reformado por má  

formação cardíaca e alocado num serviço auxiliar. No ano seguinte,  

aos 22 anos, inscreveu-se como voluntário na Cruz Vermelha. Em  

1916 foi enviado ao front, na Bélgica, e participou da guerra de  

trincheiras por nove meses, em condições particularmente  

traumatizantes: viu seus camaradas matarem, um a um, a golpes de  

martelo, os solados inimigos intoxicados. Como judeu, foi perseguido  

e enviado aos postos avançados mais perigosos; se intoxicou e foi  

ferido na testa pela explosão de um obus, antes de ser repatriado e  

hospitalizado. Conservaria por muito tempo sequelas desses  

traumas, chegando a manifestar sinais de despersonalização e  

indiferença total pelo meio [...]” (GINGER, 1995, p. 48).

Em 1920, Perls conclui o curso de medicina, aos 27 anos, com titulação em  neuropediatria. Mesmo com essa formação Perls mantinha interesse pelo  teatro e pelos marginalizados, com grupos de esquerda, movimentos hippie e  beatnik e contracultura. Esse interesse dava-se pela vida extremamente  dissoluta que levava. Fritz manteve um fascínio por grupos marginalizados.

“A Gestalt seria marcada por essa hostilidade contra se deixar  

enclausurar dentro das normas “burguesas”, contra se submeter à  

pressão social do stablishment, fosse ele mundano, psicanálitico ou  

político [...]. O individualismo orgulhoso dos gestaltistas seria mesmo  

um obstáculo, durante décadas, à constituição de associações  

profissionais nacionais, pelo temor, talvez justificado, de que elas logo  

viessem a criar normatização esclerosante” (GINGER, 1995, p. 49).

Deste modo, a Gestalt-Terapia foi fortemente marcada por uma hostilidade  contra os interesses e a ordem burguesa. Durante muitos anos, a quebra de  padrões sociais, choques de valores e a rebeldia (sendo incluídos, aqui, o uso  de drogas e prazeres efêmeros) foram conduzindo os atos tanto do homem  Fritz, quanto do pensador e articulador da abordagem da Gestalt-Terapia. E  aos 75 anos Perls foi considerado o “rei dos hippies”.

Em 1934, Fritz e sua esposa foram refugiados da perseguição dos judeus na  Alemanha, ficando instalados em Johannesburgo, na África do Sul, onde  continuaram a exercer suas atividades psicanalíticas, culminando com a  fundação do Instituto Sul-Africano de Psicanálise. Esse foi um período em que  Perls teve muita prosperidade em seus trabalhos, onde foram plantadas as  primeiras sementes que futuramente seriam germinadas e se constituiria a  abordagem Gestalt.

“Nessa época, Fritz ainda respeitava as normas rígidas da  

psicanálise: cinco sessões por semana, de 50 minutos cada, sem  

nenhum contato, físico, visual, como diria mais tarde, um cadáver  

calculador – como a maioria dos analistas que conhecia [...]. Em 1936  

aconteceu o Congresso Internacional de Psicanálise de Praga. Perls  

sonhava ir pilotando seu próprio avião e tornar-se, assim, o “primeiro  

analista voador”! Isso não pôde se realizar... mas esse Congresso lhe  

reservava outros inconvenientes! Ele preparara uma comunicação  

sobre “As resistências orais”, completando as ideias de Freud sobre  

as “resistências anais”, ligadas ao treinamento dos hábitos de  

higiene. Esperava encontrar Freud e submeter-lhe seu texto, mas a  

acolhida deste constituiu um trauma, do qual nunca se recuperou”

(GINGER, 1995, p. 52).  

Essa nova forma de pensar de Perls foi criticada e ignorada pelos psicanalistas  ali presentes. O resultado de sua nova forma de pensar culminou na  elaboração e publicação do primeiro livro Ego, Hunger and Agression – A  Revision of Freud’s Theory and Method.

Logo depois, em 1946, mudou-se para Nova York, para onde seguiu sua  família no ano seguinte. Entrou em contato com grupos de artistas, filósofos,  intelectuais e terapeutas com os quais se sentia afinado em sua forma de  pensar e viver a vida, começando a estruturar mais sistematicamente o que  viria a se constituir nas bases teóricas e, consequente, aplicação de uma nova  abordagem terapêutica: a Gestalt-Terapia (PRESTELO, 2001).

Assim, pode-se, então, falar um pouco dessa nova abordagem que aos poucos  foi sendo construída por Perls a partir de seu primeiro livro.

“Desde esse primeiro livro começam a se esboçar várias noções que  

desembocariam, nove anos mais tarde, no nascimento oficial da  

Gestalt-terapia: a importância do momento presente, do corpo, a  

procura de uma abordagem mais sintética do que analítica, a  

contestação da neurose de transferência, que lhe parece “uma  

complicação inútil e uma perda de tempo”. Ele já preconizava um  

contato direto e autêntico entre o paciente e seu analista e não “um  

pseudocontato com suas projeções”. Tratava também de uma  

abordagem “holística” do organismo e de seu meio, das resistências,  

da introjeção e da projeção, das “emoções incompletas”,  

compreendendo técnicas de visualização, de utilização da primeira  

pessoa do singular, responsabilidade pelos sentimentos,  

concentração no corpo e nas sensações e observação das evitações”

(GINGER, 1995, p. 53).  

Vimos que os fatos apresentados marcaram a vida de Fritz Perls e  influenciaram a criação da Gestalt-terapia que resulta na comunhão entre sua  vida pessoal e profissional. As decepções oriundas do XIV Congresso  Internacional de Psicanálise em 1936, a experiência vivida com a II Guerra  mundial e a pouca receptividade à sua apresentação no Congresso foram  fatores marcantes e decisivos para que Fritz Perls revisse sua compreensão na  Psicanálise. “Foi no ressentimento que Perls encontrou o seu melhor; do  ajustamento criativo dessa situação nasceu a Gestalt-Terapia” (KIYAN, 2006,  p. 202).

Através de toda experiência vivida, Perls pode compreender a importância de  considerar o organismo como um todo e não como um aglomerado de partes  funcionando independentemente das outras. Seus estudos apontam para o  homem como um organismo unificado, não existindo a divisão entre corpo e  mente, entendendo ainda que os pensamentos e ações do homem são  pertencentes à mesma matéria, portanto as ações físicas, do corpo, são inter relacionadas às ações mentais.

4.1 - O Brincar sob o olhar da Gestalt-Terapia

Após relatar um pouco da história da Gestalt-Terapia, torna-se necessária a  retomada do eixo que propõe esse trabalho: o brincar sob o olhar da Gestalt Terapia. Um ponto inicial é a concepção de homem e de mundo, que é algo  

relevante dentro desse contexto, visto que, para que possamos trabalhar  terapeuticamente com um sujeito é importante que tenhamos uma determinada  compreensão de mundo e de homem. “Com isso podemos afirmar que nossa  concepção de homem está intimamente vinculada aos nossos objetivos  terapêuticos, bem como à nossa metodologia, aos nossos recursos e a nossas  técnicas” (AGUIAR,2014, p. 25). Nesse sentido, as compreensões de homem  e de mundo partem do entendimento dos pressupostos filosóficos que se  baseiam a Gestalt-terapia: o Existencialismo e a Fenomenologia e o  humanismo como contextualização dessas escolas de pensamento.

O humanismo filosófico é uma concepção que tem o homem como centro, pois  só o homem “existe”, as coisas “são” (KIYAN, 2006). Pensando dessa forma, entende-se que o ser humano está em constante mudança, ele não é algo  estático, parado, isolado, mas sim um ser sujeito a transformações. Sobre a  Fenomenologia, que tem Husserl como fundador, e no Existencialismo. “A  fenomenologia busca captar o fenômeno que se desvela, descrevendo-o de  maneira mais fidedigna possível” (KIYAN, 2006, p. 98). Já sobre o  existencialismo, acrescenta: “Seu pressuposto básico é a célebre afirmação: „a  existência precede a essência‟. Para ele o homem é livre, e é a partir dessa  liberdade que ele se torna responsável pela sua existência” (KIYAN, 2006, p.  102).

Após as definições que norteiam os pressupostos filosóficos da Gestalt-Terapia  pode-se abordar a concepção de ser humano em Gestalt-terapia, tendo por  base as duas escolas de pensamento filosófico: o existencialismo e a  fenomenologia:

“Ao nos referirmos a uma concepção de homem gestáltica, emerge  

de início a característica que provavelmente melhor define a diferença  

entre a Gestalt-terapia e outras abordagens do ser humano, que é a  

visão integral e não fragmentada do homem e da realidade que nos  

cerca, denominada holismo. A concepção holística de homem e de  

mundo acredita que o universo – ele mesmo uma totalidade –

organiza-se em um número infinito de totalidade que contém em si  

outras totalidades menores, que por sua vez, abarcam outras

totalidades e assim por diante, até chegarmos ao indivíduo, ele  

mesmo também uma totalidade” (AGUIAR, 2014, p. 28).

Partindo desse princípio, entende-se que perceber o ser humano como um ser  global é mergulhar no seu mundo além de suas características físicas  individuais. É entendê-lo no seu entorno, nas várias dimensões que compõem  esse homem.

Assim, também, a criança é vista na sua totalidade, ou seja, percebê-la num  elo de “fios” que se interligam como: emocional, cognitivo, culturais, espirituais,  comportamentais, familiar, escolar, etc.

“Assim, a expressão corrente em Gestalt-Terapia “ver o homem como  

um todo” não significa que vamos perceber a cada instante todas as  

características desse homem “ao mesmo tempo”, mas que para cada  

característica que se apresenta e se revela existe uma série de outras  

com as quais ela tem relações e estão momentaneamente num  

segundo plano” (AGUIAR, 2014, p. 29).

O homem gestáltico é, portanto, um ser humano que vive em constantes  modificações, se constitui e se constrói a cada momento, modifica e é  modificado pelo meio. As relações que estabelece com o meio são elementos  de extrema importância para o seu funcionamento, no sentido global de ser  humano.

“O ser humano cresce e desenvolve-se ao longo do tempo na e a  

partir da relação: nós existimos em relação, não havendo outra forma  

de nos constituirmos que nãos seja essa. É na interação ininterrupta  

com o mundo, desde o nascimento até o fim de sua vida, que o ser  

humano diferencia-se, transforma-se e desenvolve-se como uma  

pessoa com características próprias” (AGUIAR, 2014, p. 30).

Pode-se, então, perceber que todas essas implicações são importantes para a  prática clínica. É peculiar o entendimento dos pressupostos filosóficos que  marcam a Gestalt-terapia, pois é ele que norteará a busca de uma postura para  melhor abordar o ser humano que se apresenta a nossa frente em busca de  ajuda.

Quando se pensa na reflexão do brincar e a abordagem gestáltica é importante  analisar a relação entre esses dois eixos, embasadas no desenvolvimento da  criança, pensando o brincar como um meio terapêutico que facilita a expressão  da criança, sendo esse o substituto da linguagem da mesma.

“Por meio do brincar, pode-se promover na criança as  

reconfigurações necessárias ao bem-estar e ao resgate de um  

funcionamento saudável na sua interação com o meio. Neste viés, a  

Gestalt-Terapia pode ser uma grande aliada para atingir tal objetivo  

de maneira efetiva, já que entende a criança como um ser único e  

singular, que se desenvolve nas relações e que precisa ser entendida  

em seu meio” (NUNES; RODRIGUES, 2010, p. 2).

Diante do tema do brincar, podemos pensar sobre o desenvolvimento da  criança ou desenvolvimento humano na Gestalt-terapia é algo que vem há muito tempo sendo discutido, tendo em vista as bases filosóficas que norteiam  a abordagem gestáltica e entendendo o ser humano na sua totalidade. Sobre o  assunto que: “não priorizamos um viés biológico ou social, mas  compreendemos o desenvolvimento como um processo singular e infinito, a  partir do biológico e do social em permanente interação, num constante diálogo  entre todos os elementos do campo” (AGUIAR, 2014, p. 50).

Deste modo, o desenvolvimento da criança relaciona-se com um processo  ininterrupto que ela estabelece com o meio, ou seja, seu contato com o campo  organismo-meio.

Essa relação constante que a criança estabelece com o seu meio e como esse  mecanismo de contato é constituído em seu espaço com foco na abordagem  gestáltica.

“Na abordagem gestáltica, parte-se do pressuposto de que o homem  

vive isoladamente. Interagindo com seu meio circundante (as  

pessoas que o cercam, os sons que escuta, os cheiros que sente, os  

sabores que lhes transmite o paladar, as ondas luminosas que lhe  

permitem ver, os objetos que toca e tudo que lhe desperta emoção e  

pensamento), o homem é em todos os momentos um ser em relação  

que transforma o mundo e a si mesmo. Essa interação ocorre por  

meio do contato traduzido pelo movimento figura-fundo. Tal como  

uma girândola, que instante após instante faz brotar uma cor  

luminosa, assim é o constante surgimento da figura motivacional, que  

leva o homem a buscar o contato. Assim é a criança. Na família,  

ocupa seu espaço, configura seu campo e reconfigura o campo  

familiar” (ANTONY, 2010, p. 11).  

Nesse sentido, pode-se perceber que a criança entendida em sua totalidade,  traz em si todas as implicações do seu mundo. Ela não vem sozinha para o  espaço terapêutico, carrega consigo sua família, escola, fantasias, angústias,  medos, aflições, etc.

Dentro desse contexto, é interessante apontar a importância do recurso lúdico  no trabalho com crianças, sendo este um meio que facilita sua expressão e  linguagem:

“Observamos um predomínio da linguagem lúdica em detrimento da  

linguagem verbal da criança, que, em muitos casos, ainda se  

encontra em franco desenvolvimento. Por isso utilizamos recursos  

lúdicos – estruturados ou não – para facilitar a expressão e a  

comunicação no espaço terapêutico, e várias técnicas para explorá

las nas diversas atividades realizadas ao longo das sessões”

(AGUIAR, 2014, p. 150).

Brincar com a criança é estar com ela no seu mundo. E é nesse mundo que ela  se comunica e expressa suas emoções. De maneira existencial e  fenomenológica, esse “estar com a criança” exige do terapeuta esvaziar-se do  seu ser e dos seus julgamentos:

“Estar diante de uma criança significa estar diante de um novo  

desafio: o de revivermos nossa infância e o de reconfigurarmos nossa  

história. Momentos delicados em que nossa criança está  

presentificada e vários sentimentos de nossa infância podem vir à  

tona, podem tornar-se figura. E esse é mesmo o maior desafio:  

separar o que é nosso e o que pertence à criança que atendemos.  

Diante disso, precisamos compreendê-la, mergulhar em seu mundo e  

criar estratégia para ajudá-la” (ANTONY, 2010, p.111).  

É interessante pontuar que esse movimento de estar com a criança nasce de  um vínculo de confiança que será estabelecido com ela através do brincar. É, assim, um elo de ligação, onde o brincar facilitará o caminho de ir ao encontro  

da criança e do seu mundo, fazendo com que através do brincar possa  expressar seus sentimentos.

“Se em Gestalt-Terapia utilizamos o experimento como recurso de  

ampliação da awareness, com a criança o próprio brincar é o  

experimento que possibilita a ampliação de fronteiras. Assim, por  

meio do brincar, a criança amplia sua awareness, experimentando o  

mundo em que vive, ensaiando situações e expandindo suas  

fronteiras de contato” (ANTONY, 2010, p. 121).

Outro fator importante é o respeito à totalidade da criança, ao que ela traz para  o espaço terapêutico, por isso a terapia não-diretiva é condutora desse  processo, fazendo com que a própria criança conduza seu processo  terapêutico e o terapeuta atue apenas um mediador. Sobre o respeito ao ritmo  da criança:  

“Deve respeitar o ritmo, o fluir, a espontaneidade e a singularidade da  

criança – que, em seu movimento de autorregulação, manifesta uma  

dinâmica psicológica própria que organiza a escolha dos brinquedos,  

jogos e/ou atividades durante a sessão” (ANTONY, 2010, p. 81).

Pode-se concluir, portanto, que o brincar é o meio facilitador da expressão da  criança, uma forma de estabelecer contato facilitando o diálogo, sendo este um  processo que exige cuidado e respeito. Ingressar no mundo da criança, ir ao  seu encontro, deixar que ela traga para o espaço terapêutico suas  necessidades é antes de tudo ser criança com a criança que está à sua frente.  Assim, o gestaltista desenvolve um olhar atento à experiência do brincar,  despojado da intenção de interpretar o fenômeno que vê (NUNES;  RODRIGUES, 2010).

Permitir que a criança seja criança, esvaziar-se de julgamentos, preconceitos e  simplesmente brincar com ela. Deste modo, a criança expressa seu mundo, vai  tomando consciência de si e buscando meios que possibilitem um  desenvolvimento saudável da sua totalidade.

5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da compreensão do conceito de infância pode-se constatar que ao  longo da história, a criança foi conquistando respeito e cuidado. É possível constatar, ainda, através dos estudos, que o conceito de infância foi sendo  pensado e problematizado e hoje a imagem da criança encontra-se integrada  ao conceito de infância. Percorrendo, ainda, os caminhos da história da  psicoterapia infantil, viu-se a influência de alguns autores que se debruçaram  sobre o brincar da criança e a partir daí foram realizadas pesquisas de autores  que discutiram a história da psicoterapia infantil e como o brincar tornou-se um  meio facilitador da expressão da criança.

As pesquisas realizadas contribuíram para que o objetivo deste trabalho fosse alcançado, entendendo o brincar como um processo terapêutico que facilita a  expressão da criança, um processo que permite à criança um desenvolvimento  saudável, baseado na relação não diretiva, possibilitando que ela seja ela  mesma, sendo esta a sua forma de ser e estar no mundo.

Após realização da pesquisa, percebeu-se que, embora existam alguns  estudos sobre esse tema, ainda são poucos os materiais disponíveis sobre a  temática do brincar com foco na abordagem gestáltica, necessitando de maior  produção cientifica que reitere a problemática.

Os resultados proporcionaram uma experiência pessoal e profissional,  buscando um aperfeiçoamento no atendimento clínico bem como um olhar  mais aguçado e amplo sob o brincar e ainda, abriu espaço para que muitos  olhares diferenciados sejam acrescentados sobre o brincar dentro de uma  perspectiva gestáltica.

Espero que essa pesquisa possa contribuir para a psicologia e para a  sociedade, de modo que haja um olhar mais cuidadoso para a criança e para  os meios nos quais ela estabelece seus primeiros meios de socialização como  a família e a escola. Para a abordagem gestáltica, esta é mais uma experiência  que pretende contribuir para o avanço da Gestalt-terapia com crianças em  nosso país. Nesse sentido, espera-se que o assunto seja visto e analisado por  outros olhares para, dessa forma, suscitar novas maneiras de se pensar o  brincar e a partir daí surjam novos conceitos a respeito deste fenômeno.

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Endereço para correspondência:

Gerlena Correia Lima

E-mail: lennacorreia@hotmail.com

Deyseane Maria Araujo Lima

E-mail: deyseanelima@yahoo.com.br

Recebido em: 12/02/2015

Aprovado em: 25/06/2015

NOTAS

Gerlena Correia Lima: FACULDADE DE TECNOLOGIA INTENSIVA – FATECI - Psicóloga. Professora de História. Especialista em Gestão Escolar e  Coordenação Pedagógica. Realiza atendimento Clínico Infantil no Centro de  Atendimento Clinico e Educacional Maria de Nazaré Domingos - Cidade de  Horizonte/Ce. Coordenadora de Políticas Sobre Drogas do município de  Horizonte/CE inserida no Projeto Beija-Flor.

Deyseane Maria Araujo Lima: Centro Universitário Estácio do Ceará - Estácio  Fic - Psicóloga. Especialista em Educação Inclusiva e Educação a Distância.  Mestre em Psicologia. Doutora em Educação Brasileira pela Universidade  Federal do Ceará (UFC) Professora da graduação e da pós-graduação em  psicologia. Integrante do NUCEPEC/UFC. Membro do Instituto de Psicologia  Humanista e Fenomenológica do Ceará (IPHE).

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 22, 2015, p.28-52 DOI 10.5281/zenodo.15048593

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526