ARTIGO

Reflexões sobre a relação terapêutica: perspectivas da gestalt terapia e do psicodrama

Reflections on the therapeutic relationship: perspectives of gestalt  therapy and psychodrama

Jeane Franco de Oliveira

Érico Douglas Vieira

RESUMO  

O movimento de integração tem como essência o desenvolvimento e a busca  de maneiras alternativas de conceitualizar e conduzir a psicoterapia, com um  olhar para as contribuições de outras escolas. Muitos estudos indicam que a  eficácia da psicoterapia depende mais da relação terapêutica do que da  abordagem do psicoterapeuta. O objetivo deste trabalho é observar os fatores  em comum e os específicos do Psicodrama e da Gestalt-terapia sobre a  relação terapêutica. A Gestalt-terapia é a terapia do contato e considera que o  relacional é a base sólida para a transformação do cliente. O Psicodrama  propõe que o encontro entre psicoterapeuta e cliente seja balizado pela  capacidade do psicoterapeuta em se emocionar com o drama do cliente. As duas orientações valorizam o encontro humano no processo de psicoterapia e  acreditam que a relação terapêutica sólida transcende uma relação meramente  técnica. Os aspectos específicos de cada abordagem podem trazer  construções mais elaboradas de alguns aspectos que podem faltar em cada  abordagem isolada. Quando o psicoterapeuta examina as contribuições de  outras escolas, pode haver uma expansão das possibilidades de  estabelecimento de uma boa relação de ajuda.

Palavras-chave: Gestalt-Terapia; Psicodrama; Relação terapêutica; Integração  em Psicoterapia.

ABSTRACT

The integration movement has as its essence the development and the search  for alternative ways to conceptualize and conduct psychotherapy, with a look at  the contributions of other schools. Many studies indicate that the efficacy of  psychotherapy depends more on the therapeutic relationship than the approach  of the therapist. The objective of this work is to observe the common and  specific factors of Psychodrama and Gestalt therapy on the therapeutic  relationship. Gestalt therapy is the therapy of contact and considers that the  relational is the solid foundation for the transformation of the client.  Psychodrama proposes that the meeting between therapist and client is marked  by the ability of the therapist to be moved by the client’s drama. The two  orientations value human encounter in psychotherapy process and believe that  the therapeutic relationship should transcend a purely technical relationship.  Specific aspects of each approach may bring more elaborate constructions of  some aspects that may be lacking in the single approach. When the therapist  examines the contributions of other schools, there may be an expansion of the  possibilities of establishing a good help relationship.  

Key-words: Gestalt therapy; Psychodrama; Therapeutic relationship;  Integration in Psychotherapy.

1 - Introdução

Na literatura especializada em Psicologia Clínica existem diversos estudos que  enfatizam a importância da relação terapêutica em um processo de  psicoterapia eficaz (ROGERS, 1982; PERLS, 1977). Diversas abordagens  trazem a necessidade de um espaço de acolhimento e continência, livre de  julgamentos para que o cliente se expresse livremente. A relação terapêutica  de qualidade é uma base necessária para a utilização de qualquer tipo de  técnica. De modo geral, todas as psicoterapias convergem na valorização da  relação terapêutica como agente de mudança fundamental (CORDIOLI et al.,  2008).  

Neste sentido, pretende-se neste trabalho de natureza teórica, apresentar análises e reflexões sobre as concepções da relação psicoterapeuta-cliente para a Gestalt-Terapia e para o Psicodrama, investigando os pontos em  comum entre essas orientações. Pretende-se, também, examinar os pontos  divergentes sobre o tema como forma de delimitar as especificidades de cada  abordagem.

A Gestalt-Terapia e o Psicodrama são abordagens relacionais, possuindo  bases epistemológicas em comum influenciadas pela Fenomenologia, pelo  Existencialismo e pelo Humanismo (ALMEIDA, 2006). As abordagens  fenomenológico-existenciais buscam a ruptura com modelos científicos  deterministas, enfatizando a luta do ser humano para dar significado à vida. Há  outros pontos de convergência como a valorização da vivência para além de  análises verbais, como forma de acessar níveis mais profundos da experiência  dos sujeitos. Corre-se um risco em permanecer na superfície quando se  examina a sinergia de concepções, é preciso ter a cautela de serem  consideradas as especificidades de cada abordagem, pois as duas escolas  possuem construções teóricas bem diversas. Além disso, alguns conceitos  teóricos podem ser semelhantes na superfície, mas demonstram suas  diferenças se analisados mais detidamente.

A relação terapêutica é algo muito valorizado por ambas as abordagens. No Psicodrama, o encontro existencial entre psicoterapeuta e cliente é delimitado pela capacidade do psicoterapeuta em se emocionar com o drama do cliente.  Com sua presença, através do respeito, aceitação e compromisso, o  psicoterapeuta auxilia o cliente a explorar suas feridas emocionais (CUKIER,  1998). Na Gestalt-terapia, o psicoterapeuta busca não permanecer preso no  arcabouço teórico e técnico, com o risco de substituir o contato com o cliente  pelas explicações da sua abordagem. O psicoterapeuta se envolve, através do  diálogo e se inclui como pessoa participante da relação (HYCNER, 1995).

Espera-se que este trabalho estimule outros estudos sobre possibilidades de  diálogos entre abordagens que possam enriquecer a prática do psicoterapeuta.  Refletir sobre os pontos em comum da relação terapêutica entre o Psicodrama  e a Gestalt-terapia pode aproximar as abordagens, facilitando trocas fecundas entre elas. Além disso, benefícios podem ser maximizados com a maior clareza  dos potenciais terapêuticos de uma boa relação de ajuda. Assim, o cliente pode  ser exposto a uma maior variedade de atitudes terapêuticas positivas. As  reflexões sobre a importância da relação terapêutica nos conduzem também ao  mapeamento das atitudes necessárias do psicoterapeuta para a construção de  um vínculo que promova mudanças.

Primeiramente, será realizada uma apresentação do movimento de integração em psicoterapia, enfatizando a perspectiva que estuda os pontos em comum  entre abordagens. Depois, abordaremos as concepções sobre a relação  psicoterapeuta-cliente para a Gestalt-Terapia e para o Psicodrama. Por fim,  demarcaremos os pontos em comum sobre a relação terapêutica para ambas  as abordagens, bem como suas divergências ou especificidades sobre o tema.  

2 - O movimento de integração e os fatores em comum

A quantidade de abordagens psicoterápicas vem aumentando vertiginosamente  e esta diversidade convida para o estabelecimento de diálogos entre diferentes  sistemas. Alguns profissionais já se consideram integrativos ou ecléticos (SUNDFELD, 2000). O movimento de integração em psicoterapia consiste em  uma congregação de pesquisadores e psicoterapeutas que se interessam no  desenvolvimento de psicoterapias mais eficazes através da articulação entre as  diversas escolas (VIEIRA; VANDENBERGHE, 2011). Trata-se de um  movimento internacional que busca maneiras alternativas de conceitualizar e  conduzir a psicoterapia apregoando a não limitação a uma escola única, proporcionando um olhar para as contribuições de outras teorias (NORCROSS,  2005).

Existem argumentos favoráveis e ideias contrárias à integração em  psicoterapia. Na perspectiva dos argumentos contrários está a questão dos fundamentos epistemológicos que é frequentemente examinada quando se  pensa na integração entre abordagens. A existência de contradições básicas  sobre a natureza humana, sobre as concepções do processo de mudança e  sobre o desenvolvimento da personalidade pode representar obstáculo  intransponível para o estabelecimento de diálogos entre as escolas (HAWKINS;  NESTOROS, 1997). Neste sentido, as diferenças filosóficas seriam aspectos  que colocam as abordagens em mundos diferentes, ou seja, o nível de  divergência pode ser tal que as abordagens percebem determinados  fenômenos de forma diferente (KHUN, 1970/2011). Pode-se notar, também,  que a integração traz uma ideia de desorganização ou incoerência. Por  exemplo, Figueiredo (2009, p. 181) aponta a possibilidade de criação de  “monstros ecléticos” através da combinação de abordagens. Em outro trabalho,  o autor pondera que o campo das psicoterapias será mais produtivo se cada  abordagem buscar teorizar e pesquisar independentemente em comparação  com tentativas de unificação (FIGUEIREDO, 1991). Por fim, a ausência de uma  linguagem em comum entre os psicoterapeutas de diferentes enfoques produz  no campo uma Torre de Babel que dificulta a comunicação entre as  comunidades com seus jargões específicos (NORCROSS, 2005). Esta perspectiva das ideias contrárias tem sua validade porque pode servir de alerta  aos interessados nos diálogos sobre os limites e riscos da integração. De fato,  pode ser inviável a integração entre abordagens com visões de mundo muito  divergentes. A incoerência é um risco, ou seja, o processo de seleção  indiscriminada de partes de fontes divergentes pode gerar uma mistura  inconsistente de conceitos e técnicas (MARQUIS; WILBER, 2008).

A corrente de pensamento que defende a integração manifesta-se em um  crescente interesse de psicoterapeutas e pesquisadores em experimentar  formas de se trabalhar com mais de uma abordagem (NORCROSS, 1997). Se  o psicoterapeuta cultiva uma atitude de abertura para a diversidade teórica, ele  se torna mais capacitado a enfrentar os desafios impostos pelo fazer clínico. A heterogeneidade da clientela e a complexidade requerida na atuação do  psicoterapeuta motivam o estudo de mais de uma abordagem. Talvez o trânsito  do psicoterapeuta entre diversas teorias tenha uma importância ética, pois  pode ser fonte de maior segurança na atuação profissional e melhorar a  qualidade dos atendimentos ofertados. Além da prática clínica, as abordagens  também podem colher benefícios. Os contatos entre as abordagens podem ser  caminhos que estimulam novas direções de pesquisas. Através da visão de  conceitos externos, cada orientação pode aprimorar seus aspectos ainda  pouco desenvolvidos (EUBANKS-CARTER; BURCKEL, 2005). Como viver  isolado não é possível, o contato com o outro pode ajudar cada abordagem a  superar os próprios impasses. As psicoterapias não estão prontas e acabadas,  mas continuam evoluindo e se desenvolvendo para dar conta das demandas  atuais da clientela. A circulação de conceitos, atitudes e técnicas entre as  abordagens pode ser um processo enriquecedor que vitaliza o campo.  

Existem formas organizadas de integração entre abordagens: a integração  teórica, o ecletismo técnico, a teoria dos fatores comuns e a assimilação  integrativa. A integração teórica destaca a síntese teórica de duas ou mais  abordagens na expectativa de que o produto seja melhor do que uma  abordagem sozinha. O ecletismo técnico é a utilização das diferentes  abordagens práticas unidas sem a adoção de qualquer modelo teórico que  fundamente as intervenções. Podem-se utilizar técnicas que o psicoterapeuta acredita serem eficazes com pouca ou nenhuma compreensão teórica que  oriente sua escolha, mas guiadas por pesquisas empíricas ou observações  clinicas. Na assimilação integrativa, o profissional permanece ligado à sua  abordagem de formação e, ao mesmo tempo, incorpora seletivamente práticas  e concepções de outras teorias (NORCROSS, 2005). Os elementos  incorporados sofrem modificação em função do novo contexto em que foram  inseridos. A abordagem dos fatores comuns implica que existem aspectos  comuns que são os maiores responsáveis pelos resultados alcançados,  semelhantes em todas as psicoterapias (CORDIOLI et al., 2008). É o tipo de  integração que será mais explorado em função dos objetivos do artigo.

As pesquisas envolvendo os fatores em comum demonstram que a eficácia da  psicoterapia depende mais da relação terapêutica do que da abordagem de  filiação do psicoterapeuta (CORDIOLI et al., 2008). De acordo com alguns  achados de pesquisas, somente 10 a 15% dos resultados em psicoterapia advém dos fatores específicos (NORCROSS, 2005). Após a segunda metade  do século XX, as discussões sobre os fatores em comum entre abordagens se  tornaram mais frequentes. No entanto, os representantes das abordagens que  defendiam as contribuições singulares dos seus sistemas de psicoterapia  ficaram incomodados com a busca dos elementos semelhantes (CORDIOLI et  al., 2008). A defesa excessiva da singularidade da própria abordagem pode  ocasionar uma atitude de fechamento às possibilidades de enriquecimento  através das contribuições externas.

O desenvolvimento de uma aliança terapêutica é um dos fatores em comum  mais comumente propostos. Independente da abordagem utilizada existe a  busca de um contexto no qual o cliente sinta-se livre para se expressar.  Através do suporte da relação terapêutica o cliente pode exprimir estados  afetivos desagradáveis, ressignificar experiências passadas e ensaiar o  enfrentamento de questões da vida real (HAWKINS; NESTOROS, 1997).

Nesta vertente, examinar os fatores em comum e os fatores específicos do  Psicodrama e da Gestalt-terapia a respeito da relação terapêutica é o foco do  trabalho. Espera-se que os psicoterapeutas possam maximizar a exposição do  cliente do que é comum e, ao mesmo tempo, que os psicoterapeutas se  deixem influenciar pelas contribuições específicas de cada escola sobre os  elementos necessários para uma relação terapêutica bem sucedida.

3 - A relação terapêutica na perspectiva do Psicodrama

Apesar de ser uma abordagem originalmente grupal, o Psicodrama procura  refletir sobre os aspectos essenciais para uma relação terapêutica de  qualidade. Recentemente, novos desenvolvimentos da abordagem são  direcionados para elaborações de metodologias de atendimento individual em  psicoterapia (MOTTA, 2008).

A relação de poder presente no vínculo é um tema de reflexão freqüente entre  os psicodramatistas. O cliente procura o psicoterapeuta quando está fragilizado  e precisando de ajuda. Consequentemente, o psicoterapeuta pode ser idealizado como o detentor do poder de orientá-lo no momento em que sua  segurança de gerenciar a própria vida está abalada. Tal processo facilita a  submissão do cliente ao método e às regras da terapia que são decididos pelo  psicoterapeuta. A relação terapêutica não é simétrica, sendo caracterizada por  um vínculo de papéis não igualitários (CUKIER, 1998). O psicoterapeuta interpreta, propõe dramatizações, assinala contradições e o cliente expõe seu  sofrimento (BATISTA, 2007). Para Cukier (1998), a submissão da criança que  teve suas necessidades básicas negligenciadas ou violentadas por pessoas  que exerciam o poder sobre elas consistem em experiências marcantes que  podem ficar registradas. Trazendo este raciocínio para a relação  psicoterapeuta-cliente, a questão do poder seria importante objeto de reflexão  para a vivência de um encontro humano. É importante que o psicoterapeuta não assuma o papel do detentor do poder para não fomentar excessivamente o  estabelecimento de transferências. O psicoterapeuta, neste sentido, correria o risco de suscitar a revivência de sentimentos ligados a situações passadas  opressivas. Na seara da Gestalt-terapia, existe a reflexão de que, quando se  alcança uma relação terapêutica sólida, existem muitos riscos envolvidos na  exploração de áreas vulneráveis do cliente. O gestalt-terapeuta busca estar  atento ao ritmo e à capacidade de auto suporte do cliente (HYCNER, 1995). A transferência é um fenômeno ligado à relação de poder presente no vínculo  terapêutico e que é objeto de análise na literatura psicodramática. Na  Psicanálise, Freud observou que o cliente projeta fantasias irreais para o  psicoterapeuta e nomeou esse fenômeno de transferência. Para os  psicodramatistas, o psicoterapeuta não está isento desse envolvimento, ele  também projeta fantasias no cliente no processo de contratransferência. No  encontro da relação terapêutica tanto o cliente quanto o psicoterapeuta possuem experiências passadas, expectativas e desempenho de diferentes  papéis (MORENO, 1983). Perazzo (1994) conclui que Moreno entende a  contratransferência como o mesmo fenômeno que a transferência, em direção  inversa. Além desta concepção, a transferência do psicoterapeuta pode ser a  representação dos sentimentos que o cliente provoca no psicoterapeuta,  semelhantes ao que o cliente provoca em suas relações fora da terapia. Desta  forma, os sentimentos do psicoterapeuta refletem o que as outras pessoas  sentem em relação ao cliente. É importante que o psicoterapeuta instrumentalize esta contratransferência e comunique ao cliente de forma  adequada estas reações. Desta forma, o cliente estaria mais consciente das  reações ou impactos que provoca nas pessoas com as quais convive.

Moreno (1983) afirma que a transferência não acontece em direção à pessoa  do psicoterapeuta e sim ao papel que ele representa para o cliente naquele  momento como, por exemplo, papel paternal, maternal, modelo de pessoa,  amante, etc. O importante é que o cliente tenha espaço e liberdade suficiente  para poder expressar-se e não tenha que esconder os sentimentos em relação  ao psicoterapeuta. Do mesmo modo, é necessário que o psicoterapeuta também seja livre para que possa explicar e interpretar o significado dessa  transferência. Há uma busca em trazer este material à tona e trabalhar de  forma a ajudar o cliente nas suas relações atuais.  

Mesmo admitindo a diferença de papéis, há uma busca de horizontalidade no  encontro humano (FONSECA, 2000). A superação dos fenômenos  transferenciais e a diluição dos mecanismos de defesa proporcionados pela  amorosidade do psicoterapeuta abrem canais de comunicação profundos nos  quais o sofrimento, as potencialidades e tudo o que não pode ser dito nos  espaços sociais convencionais pode vir à tona (ALMEIDA, 2006). A Gestalt terapia também trabalha com a noção de encontro humano, no qual o  psicoterapeuta se coloca como uma pessoa e também percebe o cliente como  uma pessoa real. Neste sentido, existe a possibilidade de crescimento para  ambos os envolvidos no processo de psicoterapia (FERREIRA; PARREIRA,  2011).

A transferência é um fenômeno terapêutico estudado por outras escolas, ao  passo que o Psicodrama possui uma contribuição singular para o entendimento  das relações interpessoais que é o fator tele. Perazzo (1994) afirma que é denominado de fator tele todas as relações que asseguram o encontro e  possuem uma correta percepção recíproca entre as pessoas, se diferenciando  da transferência onde há uma distorção da percepção. Tele é entendida como  uma força de coesão da integração da relação terapêutica. É a estrutura  relacional básica (FONSECA, 2000). É a experiência de fatos verdadeiros,  autênticos e emotivos que acontece no aqui e agora e em via de mão dupla e  que estimula relações estáveis e permanentes. A aplicação das técnicas  psicodramáticas são mais eficazes quando a tele está mais presente do que a  transferência no vínculo terapêutico (ALMEIDA, 2006). Quando o fator tele está  operante, o psicoterapeuta pode propor a representação de papeis imaginários  e reais, o que auxilia o cliente a sair de si mesmo por um momento. Este  descompromisso momentâneo com sua identidade básica, através do aspecto  lúdico, pode auxiliar o cliente a trazer seus dramas e concretizar aspectos  abstratos e subjetivos.

O processo terapêutico tem como meta proporcionar novas perspectivas e  transformações no cliente para que este possa vivenciar e agir de maneira  mais criativa. Portanto, o fator tele pode ser uma ferramenta terapêutica para  alcançar relações mais espontâneas (BATISTA, 2007). O cliente percebe que  tipo de pessoa o psicoterapeuta é e, mesmo que se superem as transferências,  a tele permanece atuante. As psicoterapias, independente da linha teórica, se  baseiam na tele, pois a relação terapêutica real é considerada o principal  instrumento promotor de mudanças (MORENO, 1983). Pode-se entender a  psicoterapia como a influência benéfica de uma relação humana para produzir  mudanças, baseada no fator tele.

A flexibilidade do psicoterapeuta é outro fator importante para o  estabelecimento de uma boa relação de ajuda. O psicoterapeuta procura estar atento para as mudanças que podem ocorrer e permanece com a mente aberta  e flexível. Deve assumir posturas diretivas ou passivas, dependendo da  situação. Há o risco em permanecer preso às teorias e técnicas, sem a devida  consideração pela pessoa do cliente. Cukier (1998) discute sobre as defesas  desenvolvidas pelo cliente pelas quais, muitas vezes, este se sustenta. Se  estas defesas são consideradas e respeitadas, o psicoterapeuta pode analisar  e refletir sobre o melhor momento e a melhor maneira de fazer alguma  intervenção. O psicoterapeuta que fica preso na sua teoria impede que o  cliente entre em contato com aspectos mais íntimos e conflituosos. Pode-se  perceber que na Gestalt-terapia também existe a reflexão sobre a necessidade  do psicoterapeuta se observar para evitar um apego excessivo nas teorias da  sua abordagem (FERREIRA; PARREIRA, 2011).

No processo terapêutico, o psicoterapeuta identifica manifestações internas do  cliente como pensamentos, fantasias e sensações, que podem ser trabalhadas  com recursos verbais ou de ação (FLEURY, 2007). Contudo, é importante que  

o psicodramatista esteja atento para propostas de dramatizações que não  possuam significados verdadeiros da experiência vivida, que não sejam apenas  uma tentativa de evitar a angústia do psicoterapeuta com clientes cristalizados  e com comportamentos estereotipados. A utilização desses recursos  psicodramáticos de maneira indevida evita o contato do psicoterapeuta com a experiência do cliente, impedindo o desenvolvimento deste. A dramatização  não pode ser uma panacéia. Esta reflexão também é uma forma de buscar  estar mais a serviço das necessidades do cliente do que tentar ser  excessivamente fiel à abordagem.  

Há um ideal no qual o psicoterapeuta se coloca como uma pessoa participante  e ativa na relação, o que pode levar a uma prática vivida transformadora (FLEURY, 2007). O psicoterapeuta se deixa afetar por suas experiências  desencadeadas na relação com o cliente e deixa-se envolver com as emoções suscitadas. Além disso, uma das técnicas fundamentais do Psicodrama, a  inversão de papeis, pode estimular uma atitude no psicoterapeuta de tentar se  colocar no lugar do cliente, imaginar e tentar sentir como seria a experiência do  outro. Para além da técnica, seria uma atitude permanente de entrar no mundo  do outro. A ideia gestáltica de inclusão, que seria a busca de se imaginar no  lugar do cliente, se aproxima com a meta psicodramática de inversão de papeis  com o cliente. Contudo, a proximidade traz riscos; há a necessidade de  desenvolver o autocontrole para saber o momento de se expressar na terapia e  conseguir distinguir os aspectos das duas pessoas envolvidas (FÉO, 2007).  Este risco de diluição de fronteiras é tratado com mais pormenores entre os  autores da Gestalt-terapia, como será abordado no próximo item. No  Psicodrama, o processo transformador é uma posição que valida a  singularidade do cliente, desde que a dupla terapêutica participe em uma co criação.

Para a promoção de relações transformadoras o conceito de espontaneidade é  pertinente. A espontaneidade é um conceito central para Moreno e foi definida  por ele como uma capacidade de responder de forma adequada às situações  novas e de uma forma nova às situações antigas (MORENO 1975). A proposta  do Psicodrama é preparar o homem para se libertar das conservas culturais e  desenvolver seu potencial espontâneo e criativo (RAMALHO, 2002). A espontaneidade é uma condição do sujeito em responder com liberdade, e seu  desenvolvimento pode ser dificultado pelos desequilíbrios emocionais que  decorrem do próprio viver no mundo (FOX, 2002). Moreno (1975) afirma que a espontaneidade, a criatividade e a sensibilidade são recursos que nascem com  o homem e são fatores favoráveis ao seu desenvolvimento. No entanto, a  capacidade criativa vai sendo perdida em detrimento do desenvolvimento da  inteligência, da memória e das imposições de padrões morais e sociais. Na  relação psicoterapeuta-cliente, assim como em outras relações, há uma fusão  de roteiros sociais e aspectos singulares nos papeis desempenhados. A  inserção numa cultura prescreve comportamentos através dos roteiros de  condutas contidos nos papeis, mas a criatividade permite a inclusão de  coloridos pessoais nestes papeis.  

Portanto, na perspectiva do Psicodrama, o encontro existencial entre  psicoterapeuta e cliente seria balizado pela capacidade do psicoterapeuta em  se emocionar com o drama do cliente. Com sua presença, através do respeito,  aceitação e compromisso, o psicoterapeuta auxilia o cliente a explorar suas  feridas emocionais, processo que pode ocorrer através dos métodos de ação.

4 - A relação terapêutica na perspectiva da Gestalt-terapia

Há um pressuposto antropológico gestáltico que concebe o homem como um  ser de relação. A ausência de trocas relacionais representa a estagnação do  crescimento e a perda do sentido da vida. Sem o estabelecimento de relações  genuínas não existe saúde emocional (FERREIRA; PARREIRA, 2011). A busca  da psicoterapia se dá quando o cliente passa por dificuldades em se relacionar.  Na psicoterapia, o psicoterapeuta procura proporcionar ao cliente condições  para relacionar-se novamente. O cliente sente uma abertura para vivenciar o  encontro com o outro e estabelecer relações mais autênticas. Para isto, o psicoterapeuta busca estar presente, inteiro, com entrega e aceitação  (FERREIRA; PARREIRA, 2011).

A Gestalt-terapia é a terapia do contato. Para que o contato ocorra é  necessário que existam fronteiras que estabeleçam a diferenciação de  individualidades e que, ao mesmo tempo, sejam permeáveis o suficiente para a  realização de trocas. Através do contato o sujeito mantém a sua identidade e  relaciona-se com o meio em que vive. A partir do desenvolvimento do vínculo  terapêutico, os conflitos intrapsíquicos do cliente emergem e podem ser  trabalhados (HYCNER, 1995). O psicoterapeuta esforça-se na criação de uma  relação de confiança na qual o cliente experiencia de maneira profunda a  compreensão do psicoterapeuta ou, pelo menos, a sua tentativa. O processo  terapêutico será transformador somente se houver envolvimento. Muito mais  que amigável, o psicoterapeuta busca estar disposto a contribuir com o seu self para o encontro (HYCNER, 1995).  

O envolvimento do psicoterapeuta é uma mudança recente no âmbito das  psicoterapias que traz muitas reflexões. Na literatura psicodramática também  está presente a prescrição do envolvimento do psicoterapeuta, que busca estar  mais próximo, deixando-se mobilizar pelo drama do cliente (CUKIER, 1998). O processo terapêutico pode colocar o psicoterapeuta diante de questões  existenciais pessoais quando entra em contato com a problemática do cliente  (CARDELLA, 2002). O contato entre psicoterapeuta e cliente pode desencadear sensações no psicoterapeuta que podem estar relacionadas à  sua própria história. Desta forma, há o risco da confluência que é uma forma  relacional na qual as fronteiras de contato entre os indivíduos se diluem, sendo  um fenômeno passível de existir em todas as relações. Portanto, ocorre uma  fusão por causa da ausência da fronteira. O espaço terapêutico seria um  espaço de relação e diferenciação ao mesmo tempo (MARTINS; MALAGUTH,  2010).

Como a diretriz é estar presente, para que isto ocorra, o gestalt-terapeuta  procura não permanecer preso no arcabouço teórico e técnico. Há o risco de  substituir o contato com o cliente pelas explicações da sua abordagem. O  conceito de presença refere-se à busca do psicoterapeuta em estar inteiro e  disponível na situação, engajado na abertura sem considerações e reservas. A  revelação das formas de existir do cliente se potencializa neste contexto (HYCNER, 1995). Há um ideal no qual o psicoterapeuta cultiva a coragem necessária para abrir mão das técnicas e das teorias da sua abordagem.  Assim, ele abre mão da segurança e proteção e se lança em direção à  incerteza (FERREIRA; PARREIRA, 2011). As reflexões sobre a relação de  poder presente na psicoterapia feita pelos psicodramatistas podem se  complementar com a ideia de abertura do psicoterapeuta proposta pela  Gestalt-terapia. Se o psicoterapeuta consegue se colocar mais como pessoa e  menos como um técnico especialista, abrindo mão de sua posição hierárquica  de poder, talvez ele consiga se apresentar inteiro, disponível e aberto para o  encontro humano.  

A abertura, a presença e a disponibilidade do psicoterapeuta seriam requisitos  vitais para a superação dos modos limitados de existir. Olhar para si é  fundamental; quando o psicoterapeuta consegue estar consciente, há um  contato de qualidade (CARDELLA, 2002). O psicoterapeuta norteia sua  atenção para reconhecer o cliente como uma pessoa real e para ter um  verdadeiro interesse pela sua história. Esse encontro com cumplicidade  proporciona crescimento não só para o cliente, mas também para o  psicoterapeuta (FERREIRA; PARREIRA, 2011).  

Quando a relação psicoterapeuta-cliente está mais sólida, as possibilidades da  psicoterapia são ampliadas, porém os riscos de extrapolar áreas vulneráveis e  resistentes do cliente também são infinitos (HYCNER, 1995). Para o trabalho  com as fragilidades do cliente, a Gestalt-terapia como uma abordagem do  cuidado, cultiva o respeito pelo ritmo do cliente. A contínua preocupação com o  autossuporte do cliente representa uma atitude reflexiva na exploração das  vulnerabilidades do cliente. A emergência da verdade do cliente é propiciada  pela não diretividade do psicoterapeuta (CARDELLA, 2002). Este aspecto  também é desenvolvido na perspectiva dos psicodramatistas, manifestado nas  reflexões sobre a busca de uma horizontalidade na relação terapêutica.  

A prática dialógica do psicoterapeuta implica em posturas como presença,  comunicação e inclusão. A presença indica estar presente por inteiro com o  outro e sem expectativas. A comunicação é um diálogo verdadeiro, com troca  de percepções, palavras e silêncio e sem julgamentos. A inclusão é uma forma  de imaginar o que se escuta do cliente, se permitindo sentir o que o cliente  sente, sem perder a própria identidade. É um momento de sintonia e  companheirismo (FERREIRA; PARREIRA, 2011). Desta forma, o  psicoterapeuta consegue acessar o mundo do cliente, tornando possível  resgatar suas potencialidades mais profundas através da aceitação e da  confirmação da sua identidade. Como foi dito anteriormente, a técnica de  inversão de papeis do Psicodrama se transformou em uma atitude do  psicoterapeuta em se colocar empaticamente no lugar do cliente. Esta postura  se aproxima da prática dialógica gestáltica.

As atitudes descritas pela literatura gestáltica demonstram a necessidade do  constante aprimoramento do psicoterapeuta. Ele busca cultivar a humildade  para poder analisar suas limitações e estar disponível para uma psicoterapia  

pessoal. As abordagens fenomenológico-existenciais consideram que cada  psicoterapeuta possui um estilo próprio e que suas características pessoais se  tornam instrumentos de trabalho. O aprimoramento como pessoa afina esse instrumento. Para ajudar o outro a construir sua morada, há como meta o  envolvimento com a construção da própria. Para estar a serviço do outro, ter um bom autossuporte é uma condição facilitadora (CARDELLA, 2002).  

Portanto, a partir da ótica da Gestalt-terapia, o psicoterapeuta procura  transcender o arcabouço teórico e técnico para evitar a substituição do contato  com o cliente pelas explicações da sua abordagem. O psicoterapeuta se  envolve, através do diálogo, se incluindo como pessoa participante da relação.  A postura não-diretiva do psicoterapeuta respeita o cliente como pessoa capaz de descobrir por ele mesmo suas possibilidades. A Gestalt-terapia é uma  abordagem do cuidado, na qual o ritmo do cliente é respeitado. Não é  necessário impelir o cliente. Através de uma relação dialógica as  potencialidades serão atualizadas.

5 - Psicodrama e Gestalt-terapia: convergências e divergências sobre a  relação terapêutica

Os diferentes projetos de Psicologia demonstram a vitalidade e a diversidade  presentes no campo. Para levar a cabo cada projeto, diferentes subcomunidades de profissionais do território da Psicologia são constituídas. Há a luta pelo aprimoramento das escolas através de publicações, congressos  e cursos. Dentro deste contexto polimórfico da Psicologia, a chamada Terceira  Força é uma subcomunidade significativa, congregando diversas vertentes de  terapias humanistas. Segundo Lima e Holanda (2011), ela foi baseada nos  modelos teóricos e técnicos surgidos entre os anos de 1940 e 1960 nos  Estados Unidos. Dentre seus representantes estão Abraham Maslow, Carl  Rogers, Rollo May, Charlotte Buhler, dentre outros. Foram fortemente  influenciados pela corrente existencialista europeia, principalmente alemã e  francesa. Pretendiam recolocar o homem no centro da Psicologia que, segundo  eles, se tornava cada vez mais cientificista, fria e desumanizada (GINGER;  GINGER, 1995).

A busca da Terceira Força era a denúncia dos moldes deterministas de se  fazer ciência, contidos na Psicanálise e no Comportamentalismo. Estes eram  acusados de tratar o homem como produto e de tê-lo reduzido a um objeto de  estudo, em vez de vê-lo como um sujeito responsável por suas crenças e  escolhas (GINGER; GINGER, 1995). Como elemento de contraposição, as  psicoterapias humanistas apresentam como referencial o potencial de  crescimento dos indivíduos e não seus aspectos patológicos (LIMA;  HOLANDA, 2011). No Brasil, podem ser citadas cinco abordagens associadas  a essa corrente: a Gestalt-terapia, a Psicologia Existencial, a Abordagem  Centrada na Pessoa, o Psicodrama e a Logoterapia (MOREIRA, 2010). A  Gestalt-terapia e o Psicodrama participam deste território, possuindo alguns  pressupostos filosóficos em comum, mesmo com caminhos teóricos diversos  (ALMEIDA, 2006).

Uma das propostas do Psicodrama e da Gestalt-terapia é a busca de  fortalecimento de seus aportes teóricos, tendo em vista que estas abordagens lutam para romper uma imagem de que seriam somente um conjunto de  técnicas. Por outro lado, os membros das duas abordagens valorizam muito a  busca de um encontro humano com o cliente, por isso alertam para o risco do  psicoterapeuta se prender demasiadamente às teorias e aos métodos. No  Psicodrama, a advertência referente à perda de contato com a pessoa do  cliente é proferida, mas falta a indicação de diretrizes claras de atitudes clínicas  para afastar este risco. A Gestalt-terapia, que também valoriza o encontro  humano, formula atitudes que orientam seus membros a se tornarem cada vez  mais envolvidos com o cliente. O conceito gestáltico de presença do  psicoterapeuta – a tentativa de estar inteiro, comprometido, aberto e sem  expectativas – pode ser um bom modelo de conduta para os clínicos. A  abertura do psicoterapeuta o despoja da sensação de segurança e o lança em  um universo de incertezas no qual o mistério do cliente vai se revelando.  Portanto, as duas abordagens valorizam atitudes de transcendência da teoria  para que a pessoa do cliente emerja, mas a Gestalt-terapia formula princípios  mais claros para este fim.

As duas orientações valorizam o encontro humano no processo de  psicoterapia. Portanto, têm como ideal o preceito de que a relação terapêutica  deve transcender uma relação meramente técnica. O psicoterapeuta procura ir  além do seu papel e se colocar como pessoa. O Psicodrama descreve  teoricamente este processo almejado nos conceitos de tele e transferência. A  meta é que a relação terapêutica seja cada vez mais télica, baseada no  encontro verdadeiro, e menos transferencial, com a superação das distorções.  A Gestalt-terapia, por sua vez, fornece os passos práticos para o alcance desta  meta, fornecendo atitudes que o psicoterapeuta poderia cultivar para o  estabelecimento de uma conexão profunda com o cliente. O envolvimento, a  presença, a não-diretividade e a disponibilidade favorecem uma relação  terapêutica mais horizontal. Portanto, o Psicodrama fornece conceitos teóricos  para o alcance de uma relação mais horizontal, verdadeira e promotora do  encontro, enquanto que a Gestalt-terapia fornece as atitudes práticas que o  psicoterapeuta poderia cultivar.  

As duas abordagens valorizam o crescimento e o desenvolvimento do cliente e  não somente os seus aspectos patológicos. As duas escolas entendem de  maneiras distintas a estagnação do crescimento. Na teoria psicodramática, a  perda da espontaneidade e adoção das respostas estereotipadas podem  colocar obstáculos ao estabelecimento do contato como encontro verdadeiro. O conceito moreniano de perda da espontaneidade pode ajudar a ampliar o  entendimento de como ocorre a perda do contato de qualidade, que é uma  preocupação da Gestalt-terapia. A pobreza nos contatos leva uma interrupção  do crescimento, pois este só é possível na fronteira entre o organismo e o  ambiente. Este processo, por sua vez, pode levar a uma perda da capacidade  de ser criativo e espontâneo. Esta relação circular entre o conceito  psicodramático de espontaneidade e do conceito gestáltico de contato está  representada no diagrama abaixo:

Diagrama 01. Relação entre a perda da espontaneidade e as dificuldades no contato

Portanto, as duas abordagens consideram a importância da criação de  condições, por parte do psicoterapeuta, para o crescimento do cliente. O  Psicodrama, valorizando a espontaneidade e a Gestalt-terapia, valorizando as  relações. Ambas respeitando a singularidade do sujeito e suas limitações  diante dos seus problemas.

O Psicodrama e a Gestalt-terapia são abordagens que consideram as  diferentes formas de comunicação que existem entre psicoterapeuta e cliente  como uma contribuição importante para que o processo terapêutico seja  transformador. O Psicodrama acredita que as possibilidades de movimentação  espacial e de trabalho corporal revelam muito sobre as questões do cliente que podem ficar na penumbra quando se acessa somente a comunicação verbal. Ou seja, o corpo em movimento pode expressar intensidades de sentimentos  que o cliente não consegue por meio da fala. A Gestalt-terapia, por sua vez,  acredita que a comunicação e a presença proporcionam ao psicoterapeuta entrar em contato com o mundo do cliente de maneira mais genuína e, assim,  desenvolver uma prática dialógica onde sejam criadas condições restauradoras  e transformadoras para o cliente. A relação dialógica proposta leva a um  aprofundamento existencial do cliente pela forte presença do psicoterapeuta. Neste sentido, o psicodramatista poderia se beneficiar adotando algumas  atitudes da relação dialógica como a presença e o envolvimento do  psicoterapeuta, aspectos melhor delineados pela Gestalt-terapia. Na outra via,  os gestaltistas poderiam adotar mais estratégias de movimentação espacial e  corporal que facilitam uma maior expressividade dos clientes, aspecto muito  bem trabalhado pelo Psicodrama.

Assim como existem pontos de convergência, os aspectos específicos de cada  abordagem podem contribuir para construções mais elaboradas de alguns  aspectos que podem faltar em cada abordagem isolada. A adoção de alguma estratégia clínica de outra abordagem pode ampliar a visão do profissional para  lidar com a complexidade da realidade clínica.  

O Psicodrama possui contribuições específicas sobre a relação terapêutica que  poderiam contribuir para outras abordagens. Os psicodramatistas alertam para  a assimetria da relação psicoterapeuta-cliente e para os necessários cuidados  com o exercício de poder presente no papel de psicoterapeuta. Como a  Gestalt-terapia insiste muito na simetria do vínculo, a observação das  formulações psicodramáticas podem deixar os gestaltistas mais sensibilizados  com as questões de poder presentes na relação terapêutica. Apesar da busca  do encontro humano, o psicoterapeuta possui um papel diferenciado e detém o  poder de estabelecer as regras e isto tem reflexos na relação terapêutica. Por  sua vez, a Gestalt-terapia também oferece contribuições especificas  importantes que servem de complemento para outras escolas como a ideia da  relação terapêutica como base para a mudança do cliente e a necessidade de  um intenso envolvimento do psicoterapeuta como pessoa. Além disso, a  Gestalt-terapia estimula o autocuidado do psicoterapeuta e a necessidade de  diferenciação com o cliente. Como o Psicodrama é uma abordagem  originalmente grupal, as formulações gestálticas sobre a relação bipessoal  entre psicoterapeuta e cliente podem ser utilizadas pelos psicodramatistas.  Alguns autores do Psicodrama, mais recentemente, construíram propostas  para o atendimento bipessoal (ver CUKIER, 1992; FONSECA, 2000), como  tentativas de adaptação do Psicodrama para o atendimento individual. Como a  Gestalt-terapia tem propostas mais desenvolvidas sobre as atitudes desejáveis  do psicoterapeuta numa psicoterapia bipessoal, os psicodramatistas poderiam  se inspirar nas ideias gestálticas de envolvimento e presença como potentes  facilitadores de mudança.

As reflexões sobre a relação terapêutica nos enfoques gestáltico e  psicodramático podem inspirar o campo no desenvolvimento de uma  abordagem transdisciplinar para a psicoterapia. Prochaska e Diclemente (2005)  propõem uma abordagem transdisciplinar para a psicoterapia com uma ênfase  nos processos de mudança. Os autores argumentam que os clientes,  independente da abordagem utilizada pelo psicoterapeuta, percorrem cinco  estágios de mudança: pré-contemplação, contemplação, preparação, ação e  manutenção. Além disso, em todas as psicoterapias os sujeitos passam por  experiências que modificam seu pensamento, seu comportamento ou seu afeto  em relação a determinado problema. Geralmente os processos que promovem  a mudança são: alívio dramático, aumento de conscientização, manejo das  contingências, autorreavaliação e reavaliação do ambiente, para citar alguns. A  proposta dos autores é que exista uma melhor capitalização, por parte do  psicoterapeuta, destes estágios e processos de mudanças para que os clientes  sejam considerados em sua complexidade. Este exercício, que transcende a  utilização de uma única abordagem, busca otimizar a exposição do cliente a mais fatores de mudança (PROCHASKA; DICLEMENTE, 2005). Em relação ao  presente estudo, pode-se propor a adoção de uma perspectiva transdisciplinar  ou transteórica que pudesse refinar mais a compreensão das características de  uma relação terapêutica que potencialize fortemente a mudança do cliente.

Para isto, seriam necessários novos estudos que investigassem em que  consiste uma boa relação de ajuda, independente das abordagens utilizadas.

6 - Considerações Finais

O movimento de integração em psicoterapia possui uma preocupação com a  eficácia da psicoterapia e com a qualidade do serviço oferecido ao cliente. Para  isto, convida os psicoterapeutas a olharem para além da sua abordagem de formação e examinarem o que pode ser aprendido de outras escolas  (NORCROSS, 2005). A busca de desenvolvimento de uma boa relação  terapêutica é uma frequente preocupação dos profissionais integrativos e um  aspecto em comum entre muitas escolas.

A Gestalt-terapia e o Psicodrama buscam a horizontalidade entre  psicoterapeuta e cliente. O psicoterapeuta está a serviço do cliente, tentando  se colocar como pessoa qualificada pelo saber clínico e como alguém que não  detém o poder e que permite a centralidade da experiência do cliente. Para o  encontro humano, o psicoterapeuta busca a transcendência de sua função e de  suas teorias para se conectar com a humanidade do cliente. O Psicodrama traz  a necessidade de relações mais télicas e menos transferenciais, baseadas na  realidade do encontro. A atitude de inversão de papeis com o cliente na  tentativa de se colocar no lugar deste tem paralelos com várias ideias  gestálticas de envolvimento do psicoterapeuta. A presença do psicoterapeuta como pessoa prescreve atitudes de abertura e disponibilidade, sem a criação  de expectativas em relação ao cliente. Respeitar o ritmo do cliente é uma  importante meta da Gestalt-terapia que revela a confiança na sabedoria  organísmica de cada pessoa.  

Neste trabalho, foram apresentadas reflexões sobre as atitudes desejáveis do  psicoterapeuta e as concepções da relação terapêutica para a Gestalt-Terapia  e para o Psicodrama. Espera-se que novos estudos sobre diálogos entre  abordagens sejam estimulados. As aproximações de abordagens podem  evidenciar os potenciais terapêuticos da relação de ajuda. Mapear os  elementos de uma boa relação terapêutica pode orientar para as atitudes  desejáveis que um psicoterapeuta poderia cultivar para estabelecer uma  profunda conexão com o cliente.  

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Endereço para correspondência  

Jeane Franco de Oliveira

E-mail: jeanepsicologia@hotmail.com

Érico Douglas Vieira

E-mail: ericopsi@yahoo.com.br

Recebido em: 09/02/2015

Aprovado em: 14/05/2015

NOTAS

Jeane Franco de Oliveira: Psicóloga Clínica graduada em Psicologia pela  Universidade Federal de Goiás (Campus Jataí).  

Érico Douglas Vieira: Graduado em Psicologia pela Universidade Federal de  Minas Gerais, Especialização em Psicodrama pelo Instituto Mineiro de  Psicodrama Jacob Levy Moreno, Mestrado em Psicologia pela Pontifícia  Universidade Católica de Minas Gerais. Atualmente é Doutorando em  Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, exercendo a  Docência como Professor efetivo do curso de Psicologia da Universidade  Federal de Goiás (Campus Jataí).

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 22, 2015, p.92-110 DOI 10.5281/zenodo.15048604

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526