ARTIGO

Relato da Experiência em Grupo – Lidando com a Criação de  Vínculos no Grupo

Experience Reporting Group - Dealing with Links Creating the Group Sarah Lia Dávila1 

 1 Psicóloga, CRP 05/44159. Atuante em Psicologia Clínica e concluindo a especialização em Gestalt Terapia pelo IGT - Instituto de Gestalt-Terapia (Indivíduo, Grupo e Família).

RESUMO

O presente artigo parte da reflexão sobre a experiência de atendimento de um  grupo. Esses atendimentos foram realizados em coterapia e fizeram parte do estágio  obrigatório durante a pós-graduação do IGT- Instituto de Gestalt-Terapia. Temos por  objetivo discutir o papel do psicólogo na terapia de grupo, sua preparação para o  trabalho com grupos terapêuticos e também sobre como lidar com o início do grupo  – apresentação dos membros do grupo terapêutico e criação de vínculos. Foi  realizada revisão bibliográfica sobre o tema, tendo como embasamento teórico a  Gestalt-Terapia, e os relatórios dos atendimentos do referido grupo. Apresentamos o  relato da experiência do atendimento em grupo, onde discutimos sobre o contrato  terapêutico, o processo de formação de vínculos entre os clientes do grupo, o  cuidado com a relações interpessoais do mesmo e questionamos nossos  posicionamentos enquanto psicólogas do grupo.

Palavras-Chave: Psicoterapia de grupo; O papel do psicoterapeuta; Gestalt Terapia.

ABSTRACT

This article begins with the reflection on the service experience of a group. These  consultations were carried out in co-therapy and were part of the compulsory training  during graduate of IGT - Institute of Gestalt Therapy. We aim to discuss the role of  psychologists in group therapy, preparation for work with therapeutic groups and also  on how to deal with the beginning of the group - introduction of the members of group  therapy and form bonds Literature review was performed on the subject, with the  theoretical background Gestalt Therapy, and reports of visits of that group. We report  the group care experience, where we discussed the therapeutic contract, the process  of formation of bonds between the clients of the group, the care with interpersonal  relationships and the same question our positions as psychologists of the group.

Keywords: Group psychotherapy; The role of the psychotherapist; Gestalt Therapy.

INTRODUÇÃO

Ao longo de nossa graduação em psicologia, somos acostumados com a antiga  imagem do psicólogo clínico em atendimento individual. Embora todo nosso  desenvolvimento como pessoa se dê em grupo e que os nossos problemas se  reflitam em nossas relações, tende a ser no espaço individual que a maioria das  pessoas tenta buscar a cura para suas dores.

“Essa seria uma das tarefas da clínica que também se encena no espaço  

privado onde o paciente encontra lugar para expressar seus segredos à  

alguém que se compromete a guardá-los, utilizando-os como dispositivo  

para o desenvolvimento do próprio processo terapêutico. É o que chama de  

„tratar o segredo pelo segredo‟” (op.cit,). (QUADROS, 2011, p.60)

O presente trabalho parte de uma experiência de atendimento clínico, porém  falamos sobre modalidade pouco aproveitada nos consultórios, a terapia de grupo.  Fazemos questão de enfatizar o ambiente do consultório nesta frase, pois, de fato, é  nesse espaço que ainda vemos pouco acontecer a terapia de grupo.  Observamos, em nível nacional, o aumento da demanda pelo acompanhamento  psicológico após a implantação do SUS. Através da Lei nº 8.080 ficou estabelecido a  saúde como um direito de todos e a universalidade de acesso aos serviços de saúde  como uma de suas diretrizes.  

O atendimento em grupo, como mecanismo de triagem ou psicoterápico, surge  nesses estabelecimentos, não apenas como uma ferramenta rica em termos  terapêuticos, mas também como uma resposta a essa demanda. Segundo Lo  Bianco et.al (1994 apud, LIMA, 2005, p.432), houve “a necessidade de lidar com  contingentes maiores de indivíduos, levando a priorizar estratégias grupais e focais  para lidar com os problemas trazidos pela população.”

A (psico)terapia grupal funcionaria como uma resposta à necessidade de  

atendimento a uma demanda maior ao passo que ainda poderia continuar a  

ser um espaço de difusão do conhecimento e da intervenção clínicos.  

(OLIVERIA, et al., 2005, p.273)

Foi durante a especialização no IGT - Instituto de Gestalt-Terapia e Atendimento  Familiar 2que tivemos um aprofundamento sobre a terapia em grupo e a primeira  experiência de atendimento em grupo na abordagem gestáltica. As reflexões que  

traremos aqui partem das inquietações, dificuldades, arranjos e desarranjos da  experiência de formação de um grupo terapêutico. Experiência vivida ao longo dos  atendimentos na CS-IGT - Clínica Social do IGT3, em coterapia com a psicóloga  Daniela Ataídes.

Embora tenhamos um desenvolvimento bibliográfico crescente acerca da terapia de  grupo e seus benefícios, o papel que o terapeuta ocupa dentro do grupo e o seu  preparo para a realização desse trabalho ainda tem sido pouco discutido.  

 2 Em todo o restante do presente artigo será usada a sigla IGT para fazer referência ao Instituto de  Gestalt-Terapia e Atendimento Familiar.

3 Passaremos a chamar ao longo do trabalho de CS-IGT.

As inquietações vividas no atendimento de grupo nos motivaram a abordar com mais  ênfase os seguintes temas: O papel do psicoterapeuta na terapia de grupo, sua  preparação para o trabalho com grupos, como lidar com o início do grupo – apresentação dos membros do grupo terapêutico, o manejo do contrato no processo  de condução do grupo e formação dos vínculos.  

Falar sobre esses temas nos fez refletir e questionar sobre nossa própria atuação. A  princípio, não encontramos bibliografia que falasse abertamente sobre esse  processo, portanto acreditamos que compartilhar nossas dificuldades, em relação a  fase inicial de formação do grupo, com os leitores desmistifica a visão do psicólogo  pronto e sabendo lidar com todos os imprevistos, podendo vir a colaborar na  construção de outras pesquisas e experiências de atendimento.

Como matéria prima deste trabalho utilizamos os relatórios desenvolvidos a cada  atendimento em grupo, as anotações em supervisão, além da revisão bibliográfica  acerca do tema. Esta revisão partiu da leitura dos textos base utilizados no curso de  especialização em Gestalt-Terapia, bem como artigos e monografias publicados na  Revista Virtual IGT na Rede, com as palavras-chave: terapia em grupo, grupo, papel  do gestalt-terapeuta.  

Primeiramente abordaremos as ideias encontradas em nossa pesquisa a respeito do  papel do gestalt-terapeuta na terapia em grupo, sem deixar de falar sucintamente sobre a compreensão dessa abordagem com relação ao grupo terapêutico em si.  Em seguida, relataremos episódios da nossa experiência com o atendimento de  grupo, buscando colocar nossas reflexões ao leitor sobre a importância da atuação e  papel do psicólogo no grupo, como no manejo das fronteiras de funcionamento do  mesmo, o papel do contrato terapêutico e o processo de estabelecimento de  vínculos ao longo da experiência com o grupo em questão. Por último, nas  considerações finais, colocamos ao leitor nosso ponto de vista sobre o que julgamos  significativo nessa experiência, o valor do contato na relação com o grupo, a postura  Gestáltica em relação às certezas a priori e, novamente, o contrato terapêutico.  

O PAPEL DO GESTALT-TERAPEUTA NA TERAPIA DE GRUPO

No grupo terapêutico estamos diante de uma trama de relações intrapessoais,  interpessoais e nossa bagagem cultural. O gestalt-terapeuta faz parte dessas  relações, não apenas como psicólogo, mas também por estar presente como  pessoa, ele atravessa e é atravessado por essas relações.

A forma como o terapeuta se posiciona no grupo irá reverberar na dinâmica de  funcionamento do mesmo, como se déssemos o tom dessa orquestra. Ao mesmo  tempo em que podemos assumir uma postura de distanciamento e neutralidade,  também podemos assumir uma postura dialógica, aberta para trocas, postura essa  que somos convidados a exercer dentro da proposta da Gestalt-Terapia.  

A imagem da orquestra parece-nos apropriada para exemplificar o papel do  psicólogo no grupo terapêutico. Cada instrumento tem o seu som e sua forma de ser

afinado. O maestro fica atento ao som de cada instrumento, cuidando para que ao  final da obra tenhamos a sensação de um todo harmônico, onde há presença de  sons e timbres distintos.

Ao verificar o significado de harmonia encontramos duas principais definições:

1. Qualidade de um conjunto que resulta da boa disposição e ordenação  

entre seus elementos; proporção, ordem, simetria. 2. Relação entre as  

partes de um todo (forma, cores, sons, ritmos, etc.), em particular de uma  

obra artística ou literária. (LAROUSSE, 1992, p.576)

A primeira definição fala dos conceitos de proporção, ordem e simetria que nos  remetem a um padrão a ser seguido. A segunda definição usa o termo “relação”,  sem atribuir valores ou trazer conceitos que remetam a uma medida. Essa segunda  definição se aproxima do que gostaríamos de passar aos leitores quando falamos  em harmonia. Harmonia no sentido de entrosamento entre esses sons, onde as  diferenças são aproveitadas para o crescimento do grupo.

Sem assumir a posição nem à frente e nem acima, como faz o maestro, porém ao  lado, o gestalt-terapeuta fica atento às individualidades que se encontram dentro do  grupo. Cada pessoa chegará trazendo seu tom, seu ritmo, suas repetições e  instrumentos desafinados. Até que a orquestra se afine, leva tempo; requer  disposição e comprometimento de todos.

Podemos entender os instrumentos desafinados como os desajustes vivenciados  nas relações interpessoais ou na relação consigo mesmo, dilemas entre as  exigências externas e as necessidades do mundo interno. O processo de afinação é  individual, cada pessoa encontrará seu melhor tom, aquele que lhe agrega saúde.  Portanto, aqui também entenderemos a afinação a partir de outro viés, através do  processo de awareness, conceito que explicaremos logo adiante.  

Dentro do grupo podemos nos deparar com uma pessoa que tende a centralizar a  fala, ou com opiniões diferentes que não são aceitas pelos outros membros do  grupo, ou ainda com o cliente que não consegue falar, estando entre outros.

Para que a união desses instrumentos se transforme em uma orquestra, cada  músico precisa estar atento ao som do seu instrumento e também ao som do todo.  O maestro é aquele que consegue perceber cada som. Se está desafinado ou fora  do tempo, ele se utiliza como “diapasão”, ele é seu próprio instrumento. O gestalt terapeuta também é seu próprio instrumento4de trabalho, utiliza seus  conhecimentos, sensações, e intuições. Cada psicólogo terá seu próprio estilo e  foco, pois utiliza-se das próprias experiências como instrumento para atuar dentro do  espaço terapêutico.

Quando o terapeuta entra em si mesmo, não está apenas tornando  

disponível ao paciente algo que já existe, mas está também auxiliando a  

ocorrência de novas experiências, baseadas em si mesmo e também no  

paciente. Isto é, ele se torna alguém que responde e que dá feedback, mas  

 4 POLSTER, E,M. O Terapeuta é seu próprio instrumento. In: Gestalt-terapia Integrada. São Paulo:  Summus, 2001, p. 35-40.

também um participante artístico na criação de uma nova vida. (POLSTER,  

2001, p. 37-38)

Podemos entender o grupo como um microcosmo da vida, dificuldades pessoais e  de relacionamento, poderão emergir do encontro no grupo. Porém com a diferença  clara e marcante de que esse encontro tem por objetivo o desenvolvimento pessoal, a partir das dificuldades e diferenças vivenciadas no espaço do grupo. “As  oportunidades de crescimento então surgem por atritos reais, e a elaboração da  resolução acontece no encontro real das pessoas” (POLSTER, 2001, p.29)

Quando devidamente trabalhadas, todas essas dimensões vivenciais  

podem ser fontes de aprendizagem e mudança, aumentando a vitalidade e  

a criatividade do grupo em relação ao seu objetivo. Quando ignoradas,  

tornam-se impeditivas, paralisantes e destrutivas para a realização dos  

objetivos e para os próprios participantes. (THELLEGEN, 1984, p.77)

O psicólogo precisa desenvolver a habilidade de entrar e sair da dinâmica do grupo.  Ao mesmo tempo que está inserido, precisa ter um olhar como se estivesse de fora,  pois ampliar seu grau de visão sobre o todo favorece para que essas situações de  empasses nas trocas não sejam ignoradas.

Joseph Zinker (2007, p.113-114) fala de algumas metas que ele tem sobre o  processo terapêutico com seus clientes:

Desenvolva mais awareness de si mesma – seu corpo, seus  

sentimentos e seu ambiente;

Aprenda a assumir a autoria de suas experiências em vez de projetá-las  

nos outros;

Aprenda a tomar consciência (awareness) de suas necessidades e a  

desenvolver habilidade para satisfazê-las, sem desrespeitar os outros;

Passe a ter um contato mais pleno com suas sensações, aprendendo a  

cheirar, saborear, tocar, ouvir e ver, apreciando todos os aspectos de si  

mesma;

Perceba cada vez mais seu poder pessoal e sua capacidade de se dar  

suporte, no lugar de recorrer a reclamações, recriminações, ou  

imputações de culpa a terceiros para mobilizar suporte do meio externo;

Torne-se sensível ao ambiente que a cerca, mas ao mesmo tempo, seja  

capaz de se proteger naquelas situações que lhe forem potencialmente  

tóxicas ou destrutivas;

Aprenda a assumir a responsabilidade por seus atos e as  

consequências destes;

Sinta-se confortável com a awareness de suas fantasias e de sua  

expressão.

A Gestalt-terapia, não utiliza metas a priori no trabalho terapêutico como, por  exemplo, atingir a extinção de um sintoma. Nessa abordagem aprendemos a  valorizar o processo de autodescoberta, o encontro existencial. As mudanças são  compreendidas a partir do processo de awareness5. Nesse sentido, quando Zinker  (2007) utiliza o termo “metas”, ele o faz em consonância com uma perspectiva  ampla, para além de “uma visão apriorística da humanidade”. (ZINKER, 2007, p.113)

 

5“uma forma de experienciair. É o processo de estar em contato vigilante com o evento mais  importante do campo indivíduo/ambiente, com total apoio sensoriomotor, emocional, cognitivo e  energético.” (YONTEF, 1998, p.215)

Para o autor, estar aware é estar ciente de sua experiência. As metas de Zinker  falam de uma ampliação da consciência individual e do todo onde está inserido, para  que o cliente consiga desenvolver habilidades dentro de si que favoreçam contatos  mais saudáveis com o mundo e consigo próprio, uma forma de ser mais madura na  relação com o mundo.  

A Gestalt-Terapia diferencia-se de outras abordagens principalmente pela postura  do psicólogo na relação, se afastando da postura tradicional do terapeuta neutro e  passivo, que encontra na interpretação uma das poucas aberturas para a troca com  o cliente. O que vemos na Gestalt-Terapia é uma proposta de relação dialógica, uma  qualidade de verdadeiramente ir ao encontro da pessoa como pessoa. “Na Gestalt Terapia, estamos no mesmo barco, incomodados por buscas de significados que  caracteristicamente apagam nossas experiências reais.” (POLSTER, 2001, p.34)

Mesmo nos colocando em uma relação horizontal, não podemos nos esquecer de que estamos inseridos, seja no contexto do grupo ou da terapia individual, como  psicólogos. Teremos um lugar claramente demarcado pela nossa função, seja a  frente ou ao lado de nossos clientes. A Gestalt-Terapia nos permite a fluidez entre  estar ao centro e ao lado na terapia.

No processo gestáltico, embora o terapeuta seja claramente uma  

autoridade, ele tem livre movimentação dentro do grupo. Ele pode escolher  

estar no centro, estimulando ativamente o trabalho individual com os  

membros do grupo, ou preferir recuar, afastando-se do centro e participando  como um dos componentes. (ZINKER, 2007 p.185)

RELATO DE EXPERIÊNCIA

Após situar o papel do psicólogo no atendimento de grupo, realizaremos breve relato  da experiência de atendimento de um grupo terapêutico realizado na CS-IGT em co terapia com a psicóloga Daniela Ataídes.  

As sessões que mais nos instigaram e motivaram a escrever este trabalho, foram  aquelas em que precisamos elaborar a despedida de participantes do grupo e, os  atendimentos em que ocorriam a recepção de novos membros ao grupo.

Como se tratava de um grupo aberto, na saída de um cliente recebíamos novos  membros para dar oportunidade àqueles que aguardavam vaga na fila de espera. A  despedida e depois a recepção de um membro no grupo nos trouxe muitos assuntos  para reflexão. Portanto, escolhemos abordar os temas trazidos por estes  atendimentos em que vivenciamos o processo de formação de vínculos entre os  participantes do grupo.

Foi diante destas “chegadas e partidas” que discutimos temas como o da frustração,  as dificuldades de relacionamento no grupo e a nossa dificuldade como  coterapeutas em realizar o atendimento de grupo.

Sabemos que existe um número significativo de busca por atendimento individual.  Segundo nos aponta Estarque Pinheiro (2012), a procura por atendimentos psicológicos de baixo custo no Rio de Janeiro em SPA de Universidades ou gratuito  na rede SUS, é grande e com poucas vagas. A população em geral busca a forma  de atendimento tradicional, individual com o tempo de 50 minutos.

A graduação do aluno de psicologia é, ainda hoje, baseada no procedimento  clássico e no atendimento individualizado. O conceito de atendimento clínico em  psicologia formou-se há muito tempo baseado na tríade de origem médica, doença diagnóstico-tratamento, como nos elucida Quadros (2012, p.190):

Historicamente, a influência do modelo médico notadamente na psiquiatria  

interferiu em nossa prática gerando uma tendência à busca por uma  

atuação que visasse os ajustamentos e/ou as normatizações o que, muitas  

vezes resvalava para a constituição desse campo da clínica como um  

espaço hierarquizado e limitador, revelando não só aspectos de nossa  

herança como também o equivoco de reduzir-se essa prática ao seu local  

de realização, a saber, o consultório.  

O modelo médico, mencionado pela autora, pode nos levar a ocupar um lugar de  saber, e nos colocarmos como aquele que tem uma resposta. Como já mencionado,  o lugar que se pretende ocupar dentro de um processo terapêutico é variável e  possui reverberações na relação construída entre psicólogo e cliente.

Entre as influências antigas da graduação em psicologia e a influência da Gestalt Terapia, nos percebíamos titubeantes ocupando ora o lugar do saber, ora o lugar do  não saber. Ora nos sentíamos coordenando uma terapia em grupo, outras vezes  sentíamos que estávamos ouvindo cada pessoa individualmente em grupo sem  considerar o todo onde estavam inseridos.

O fato de estar imerso numa cultura impregnada de velhos paradigmas,  

muitas vezes impede o psicólogo de orientação gestáltica de dar-se conta  

de posturas que contrariam as crenças que ele próprio diz seguir  

criteriosamente, ou seja, ele corre o risco constante de ter uma postura que  

comprometa a qualidade da relação existencial-fenomenológica. (VIEGAS,  

2009, p. 417)

Foi fundamental a preparação que nós coterapeutas vivenciamos para o  atendimento de grupo ao longo da nossa formação em Gestalt-Terapia. Podemos  compará-la a um processo cuidadoso de desconstrução da máscara da neutralidade  e distanciamento que aprendemos a vestir. Como afirma Quadros (2011, p.64),  “necessitamos reaprender, nesta atuação como terapeutas a experienciar o coletivo  despojando-nos da vaidade e ficando mais confortáveis no lugar do não saber.”  

Aos poucos, com a retirada dessa máscara, nos aproximamos de nós mesmas  enquanto pessoas e descobrimos uma nova forma de ser psicólogo. Aprendemos a  perceber nosso jeito de ser em grupo, a perceber nossas próprias sensações, a  estar em grupo compartilhando ou discordando. Aprendemos a utilizar essas  informações como instrumentos de trabalho ao invés de escondê-las por de trás da  neutralidade.

Algumas vezes, o terapeuta fica entediado, confuso, entretido, com raiva,  

surpreso, sexualmente excitado, assustado, acuado, apreensivo,  

sobrecarregado e assim por diante. Todas essas reações dizem algo sobre  

ambos, o paciente e o terapeuta, e abrangem grande parte dos dados vitais  

da experiência da terapia.(...)  

(...) O que quer que aconteça é combustível para o acontecer terapêutico.  

(POLSTER, 2001, p.36)

É importante situar que cada cliente do grupo que estamos estudando passou antes  pelo sistema de atendimento da CS-IGT, que inclui algumas etapas até chegar ao  início da terapia em si. Cada pessoa que chega à procura de terapia no IGT passa  pela chamada primeira entrevista, atendimento realizado por psicólogo que colhe  informações acerca de sua queixa inicial.  

Na primeira entrevista também é oferecida a proposta terapêutica ao cliente, que  muitas vezes é diferente de sua demanda inicial. Percebemos que em sua maioria,  as pessoas procuram o IGT para atendimento individual, porém na maior parte dos  casos realizamos encaminhamentos ao atendimento em grupo. Maiores detalhes  sobre o funcionamento da CS-IGT e também dos critérios utilizados para realizar  estes encaminhamentos poderão ser encontrados em outros estudos realizados no  IGT. 6 

Ao montarmos este grupo, levamos em consideração o tempo na fila de espera, a  disponibilidade para o horário previamente agendado e tentamos manter a  proximidade entre as faixas etárias. Antes do primeiro contato com o grupo, realizamos um atendimento individual com cada cliente e nesses atendimentos  lemos e realizamos a assinatura do contrato terapêutico. O contrato terapêutico é  padronizado dentro da CS-IGT, possui apenas variações entre as modalidades de  atendimento no Instituto (Individual, Grupo, Casal e Família).

No contrato, combinamos o dia e o horário da terapia, a frequência semanal, a  duração de uma hora e meia e ainda a forma de pagamento. Estabelecemos os  critérios de sigilo, número de faltas permitidas e formas de desligamento. Muitas  pessoas chegam ao consultório sem um conhecimento ou vivência prévia de  psicoterapia, portanto este primeiro encontro serve como explicação do que é um  atendimento psicológico, a que se destina, e oportunidade de se colocar os limites  dessa relação. Sobre este último ponto trataremos mais a frente.

Estamos falando de um grupo semi-aberto, onde “As pessoas entram para ficar,  para fazer seu tratamento, sabem da regra da pontualidade, da freqüência, do sigilo,  mas, de quando em quando, alguém abandona o grupo, tem alta, etc.” (RIBEIRO,  1992, p.94).  

O grupo teve início em junho de 2012 e término em setembro de 2013. Ao longo  desse processo, vivenciamos entradas e saídas de participantes. Inicialmente,  

 6 Ver: PINTO, A. P. O Perfil da Clínica Social do IGT: Da Primeira Entrevista ao Início do  Tratamento. Revista IGT na Rede, v. 10, nº 19, 2013. Disponível em:  <http://www.igt.psc.br/ojs/viewarticle.php?id=448>. Acesso em: 25 fev. 2014.

contávamos com cinco clientes, quatro mulheres e um homem. As idades variaram  entre o intervalo de 24 e 48 anos, traziam questões semelhantes como suas  relações com o trabalho, dificuldades no casamento ou em seus relacionamentos  amorosos, relações com a família e vida social. O único homem do grupo já havia  participado de outro grupo terapêutico na CS-IGT e ele, quando o grupo foi  finalizado em razão do término do período de curso dos psicólogos, optou por  continuar em atendimento em outro grupo.

Uma forma importante de discutir sobre os limites da relação terapêutica é através  do contrato terapêutico. O momento de troca sobre o contrato terapêutico cumpre  um papel de cuidador das relações tanto entre clientes, quanto entre cliente e  psicólogo. São regras que envolvem o sigilo do que for trazido, o compromisso com  o horário de início e término do grupo, as despedidas entre os membros, a  possibilidade de atendimento individual por um dos psicólogos, data e valor do  pagamento.

Ler, conversar sobre o contrato e assiná-lo, não são garantias de que o mesmo será  cumprido integralmente, mas certamente é um ingrediente fundamental para que o  cliente conheça nossa forma de trabalhar e reflita sobre os limites dessa relação.  Como afirma Silveira (1997, p.13 apud ESTARQUE PINHEIRO 2007, p.150), “para  que o cliente saiba o que ele nessa relação pode receber, com o que ele pode  contar, até onde pode ir e decidir se aceita ou não as condições.”

A explicação do contrato equivalente a uma delimitação inicial de um  

“dentro” e um “fora” que asseguram a identidade do grupo enquanto  

sistema. E seja qual for o iniciador do grupo, o estabelecimento de um  

contrato inicial é, em si, um processo dinâmico em busca de um acordo  

funcional básico onde já se delineiam questões de poder. Quanto mais claro  o contrato inicial, melhor. È importante, no entanto, que não se perca de  

vista a necessidade de esclarecer ou reformular o contrato ao longo da vida  

do grupo. (THELLEGEN, 1984, p.76)

Falar sobre o mesmo permitiu que um dos membros colocasse sua dificuldade em  chegar no horário combinado por conta do seu horário de saída do trabalho, o grupo  se demonstrou compreensivo e concordou em alterar o horário de início. A vida  profissional era um dos temas abordados nos encontros e não raro o trabalho foi  motivo do atraso e da ausência de alguns. Levamos o tema das faltas para  discussão do grupo, todos concordaram em reformular o termo do contrato que  determinava a saída das pessoas por duas faltas seguidas.  

A decisão de não seguir à risca o combinado e levar essa questão para o grupo,  gerou muitas dúvidas nos bastidores do setting terapêutico. Enquanto dupla  terapêutica, não conseguíamos ter clareza do melhor caminho. Escolhemos,  portanto, deixar o grupo decidir o que seria possível para eles.  

Revendo essa trajetória, percebemos o quanto essa escolha estava relacionada aos  valores das coterapeutas. Naquele momento, não concordávamos com a  possibilidade de decidir sobre a saída dos membros sem a participação de todos. Ao  mesmo tempo, sentíamos uma dificuldade em frustrar e interromper o fluxo que o  grupo estava formando com atrasos e ausências, formas de ruptura do contrato.

Invariavelmente a frustração apareceu como tema de discussão no grupo, como  veremos a frente.

A falta das pessoas no grupo refletiu-se na dinâmica de integração. Foi possível  perceber o quanto isso fragilizou a formação do vínculo de confiança e intimidade. A  frequência irregular deixava no ar a dúvida de quem estaria presente naquele  encontro, com quem se poderia contar. Por conta dos atrasos, nem todos  conseguiam falar durante o atendimento, o que dificultava que todos se  conhecessem, mesmo fazendo parte de um encontro tão íntimo quanto um grupo  terapêutico. Diante disso, consideramos necessário retomar o contrato anterior e  efetivar a saída das pessoas que não compareciam por três semanas seguidas.

O desenvolvimento inicial e a potência terapêutica dos grupos são  

fortemente afetados pelos seguintes problemas: a rotatividade dos  

participantes, atrasos e ausências são fatos da vida de todos os grupos.  

Infelizmente estes fatos ameaçam a estabilidade e integridade do grupo.  

(VINOGRADOV, 1992, p.74)

Três pessoas saíram do grupo ao mesmo tempo, pois as faltas extrapolaram o  número permitido, de fato a rotina de trabalho não coincidia com o horário dos  encontros. A saída dessas pessoas despertou o sentimento de frustração no grupo  como um todo, inclusive nas terapeutas, como se algo não tivesse ocorrido da  maneira esperada.

O sentimento de frustração também nos afetou. É importante lembrar que mesmo  ocupando um lugar de liderança no grupo, afetamos e somos afetados com o que  ocorre nessas relações. Com o referencial da Gestalt-Terapia aprendemos a colocar  nossas sensações como instrumentos de intervenção.

Perceber a frustração e torná-la figura deixou mais palpável esse sentimento tão  subjetivo e os caminhos para se trabalhar este tema ampliaram-se. Cada pessoa  construiu um conceito e maneira própria de lidar com a frustração ao longo de sua  vida. São situações como essas que nos possibilitam aprofundar sobre temas  esquecidos e interrompidos, colaborando para o desenvolvimento pessoal em grupo.

Um dos fenômenos de maior importância é o desenvolvimento de fortes  

vínculos afetivos, tanto em sentido positivo quanto negativo, que tendem a  

se estabelecer entre os participantes e destes para com o terapeuta. Via de  

regra misturam-se aspectos da relação presente com experiências pessoais  

não pertencentes à situação grupal. (THELLEGEN, 1984, p.77)

O grupo terapêutico é a vida real, as interações, os acontecimentos do grupo nos  remetem o tempo todo para situações que vivenciamos em nossas vidas, algumas  prazerosas e outras dolorosas, porém ricas em crescimento. Sempre é possível  aproveitar uma experiência que ocorre no grupo, para reflexões interiores que  ampliam nossa awareness. Nesse caso foi possível viver em tempo real uma  situação de frustração. Como ficamos quando somos frustrados? Conseguimos  aceitar aquilo que o outro pode nos dar?

Não se trata de um sentimento simples, a frustração quando vivida de forma  saudável, motiva a pessoa a desenvolver seus próprios recursos internos para lidar com a falta. Como afirma Estarque Pinheiro (2007, p.117), “Frustração é uma tensão  que faz parte do desenvolvimento das relações do ser humano com seu contexto  social, inclusive da relação terapêutica.”

Entradas e saídas de integrantes do grupo são movimentos que fazem parte do seu  processo de formação. Como numa viagem de trem, cada pessoa que chega traz  sua bagagem de expectativas, dores, angústias, e estar em contato com o outro  nem sempre será agradável. Alguns vão querer ou precisar sair desse trem; podem  perceber no meio do caminho que pegaram o trem errado ou descobrir que possuem  medo de viajar de trem. Promover a fala sobre esses momentos do grupo faz parte  do papel do psicólogo.  

Nascimento e Bryant (1999) escreveram a música “Encontros e Despedidas” que  recentemente foi regravada na voz da cantora brasileira Maria Rita. Essa música nos  remeteu à dinâmica de entradas e saídas de pessoas no grupo. A música nos  lembra também dos momentos de encontros e despedidas na vida, tema também  discutido em grupo.  

Tem gente que chega pra ficar

Tem gente que vai pra nunca mais

Tem gente que vem e quer voltar

Tem gente que vai e quer ficar

Tem gente que veio só olhar

Tem gente a sorrir e a chorar (NASCIMENTO e BRYANT, 1999)

Como estamos falando do grupo como nosso cliente e como um organismo,  podemos dizer que também identificamos uma forma de ajustamento criativo à saída  dessas pessoas. O grupo descobriu sua própria capacidade para lidar com a  frustração. Os dois participantes que permaneceram nos encontros seguintes,  desenvolveram um laço de intimidade, o que tornou as trocas mais frequentes e  fluidas.  

Aos poucos, os dois integrantes trouxeram temas mais íntimos e angústias do seu  dia-a-dia. Em algumas falas havia o sentimento de valorização desse novo  momento, em como o grupo estava melhor agora, apenas com eles. Aparentemente  foi importante para eles se valorizarem enquanto grupo e reforçar sua identidade.  Foi um caminho encontrado para lidar com a perda anterior. No entanto, isso se  reverberou em uma cristalização perante o novo, surgiu o medo da entrada dos  novos membros.

Não apenas eles descobriram uma nova forma de lidar com esse tema, mas nós  coterapeutas também nos preocupamos e cuidamos da entrada de novas pessoas  no grupo, optamos por cumprir de forma clara o contrato e também buscamos  atividades vivenciais que estimulassem as trocas nesse novo início.

Sem frustração não existe necessidade, não existe razão para mobilizar os  

próprios recursos, para descobrir a própria capacidade, para fazer alguma  

coisa; e, a fim de não se frustrar, o que é uma experiência muito dolorosa, a  

criança aprende a manipular o ambiente. (PERLS, 1977, p.54)

A entrada de novos membros no grupo foi vivenciada com medo. Houve um  intervalo de tempo para nos organizarmos para a chegada dos novos clientes, o  tema pôde ser elaborado. Essa possibilidade trouxe medo da mudança, os  participantes questionavam como o grupo ficaria com isso, como seriam essas  novas pessoas e que mudanças elas trariam ao grupo.

A entrada do novo membro no grupo deve ser bem pensada. A família já  

está constituída, alguns membros já são adultos, outros continuam crianças.  

A matriz grupal já está formada e funciona consistentemente. Tanto a saída  

de um membro como a entrada do novo, devem ser motivo de séria  

discussão pelo grupo, pois a cultura grupal mudará certamente, uma vez  

que o sistema foi modificado. (RIBEIRO, 1994, p.95)

A mudança e o medo que ela traz nos remetem a algo substancial em nossas  relações com o mundo que nos rodeia: O contato. O contato só é possível entre  seres separados, diferentes entre si. Segundo Polster (2001), desde que saímos da  relação simbiótica intrauterina, buscamos a união com o que é diferente de nós, e o  contato é a função que sintetiza a necessidade de união ou separação com as  pessoas, situações, objetos, gostos, etc.

A palavra “contato” tem sido utilizada para definir o intercâmbio entre  

o indivíduo e o ambiente que o circunda dentro de uma visão de  

totalidade, visto que o organismo e o meio são um todo indivisível.  

Contato, desse modo, refere-se aos ciclos de encontros e retiradas no  

campo organismo/meios (SILVEIRA, 2007, p.59)

“A mudança é um produto inevitável do contato porque apropriar-se do que é  assimilável ou rejeitar o que é inassimilável na novidade irá inevitavelmente levar à  mudança.” (POLSTER, 2001, p.113-114). O contato acompanhado de awareness amplia a percepção da nossa identidade, que é dinâmica e se modifica. Ele se dá  através das nossas funções motoras e sensoriais, porém o que determina um bom  contato, “é mais o modo como alguém vê ou ouve” (op.cit, p.114).

No caso do nosso grupo, estamos falando do modo como eles vivenciaram a  interação com novas pessoas, a interrupção de uma dinâmica já conhecida e  estruturada para a possibilidade de vivenciar uma nova dinâmica da qual não se tem  controle. Aparentemente, era mais confortável ficar dentro da familiaridade e zona  de conforto, do que vivenciar o novo.

Ao perceber a presença dessa barreira no campo, optamos por instrumentalizar  nossa percepção com algo que pudesse ajudar a fluir as interações do grupo.  Nesses primeiros encontros, sentimos a necessidade de estarmos um pouco mais  atuantes, às vezes levando alguma atividade estruturada, para incentivar as trocas.

Foi preciso saber dosar o manejo do grupo, em alguns momentos sentimos a  vontade de diluir a barreira que percebíamos no campo, em outros momentos  sentimos que era preciso olhar para essa barreira, falar sobre ela e retirar o  ensinamento sobre o que ela dizia a respeito de cada um presente. Já fomos  recebidos com resistência por sermos diferentes? Resistimos ao novo antes mesmo  de saber o que ele pode nos oferecer? Em que isso nos ajuda?

Quando alguém trazia alguma situação problema, perguntávamos ao grupo o que  eles fariam nessa situação, ou, durante algum relato, buscávamos checar como o  grupo se sentiu ao escutá-lo e nós, psicólogas do grupo, também sempre  trocávamos nossas sensações e percepções com o grupo. Em alguns desconfortos  e mal entendidos que surgiam entre os integrantes do grupo, ajudávamos também a  clarear que elemento na fala do outro havia gerado desconforto. Como seria uma  fala que gerasse menos desconforto?

Zinker (2007, p.184) nos fala do processo de awareness grupal. Assim como o todo  não representa a soma das partes, a awareness grupal não é a soma das  awareness individuais. Para ele é como se um tema virasse figura no grupo e  pairasse no ar, esses são os momentos em que com nossas intervenções  precisamos evidenciar, clarear o tema e trazê-lo para interação grupal. Corporificá-lo  nas interações reais do grupo, assim todos podem elaborá-lo em sua  individualidade.

O contato é uma experiência de comunalidade, comunidade e  

individualidade. Cada pessoa, independente do que estiver fazendo, é  

encorajada a se conscientizar de sua parte na sociedade e de seu papel no  

grupo, conforme esta vai mudando de momento a momento. (ZINKER,  

2007, p.184)

Ainda segundo o mesmo autor, transformar as habilidades e resistências do grupo  em um sentimento de comunidade, integrar temas individuais em criações  comunitárias espontâneas, demanda do gestalt-terapeuta uma sensibilidade  contínua do campo interacional do grupo. Porém não podemos nos esquecer que  essa sensibilidade está sempre em processo de afinamento. Não se compra pronta  e nem se encontra vendendo.  

O afinamento foi um continuum, iniciou-se na preparação que vivenciamos anterior  ao início dos atendimentos com o grupo, se deu em paralelo e continua, mesmo  depois de termos encerrado os atendimentos. A visão de processo está também  implícita na forma como a Gesltalt-Terapia conceitua self 7. Em contraste com as  visões tradicionais em que o self é entendido como uma interioridade pronta, fixa e  que determina nossa personalidade, a Gestalt-Terapia entende o self como um  processo dinâmico e interdependente do contato para sua formação. “Chamamos  self ao sistema complexo de contatos necessário ao ajustamento no campo  imbricado”. (PHG, 1997, p.178)7 

O processo terapêutico tem continuidade na vida de cada um, extrapola o tempo do  grupo e vai para além das paredes do consultório. Os efeitos dessa terapêutica na  vida de cada um não foram objetos desse estudo, porém conseguimos presenciar  uma mudança na dinâmica interna do grupo. Aos poucos, as trocas ficaram mais  fluidas, o grupo estava mais autônomo e o diálogo entre os membros se tornou mais  cuidadoso.

 7 Ver: TÁVORA, Cláudia Baptista. SELF (p. 193-195) In: D´Acri, Gladys; Lima, Patrícia; Orgler, Sheila.  Dicionário de Gestalt-terapia: Gestaltês. São Paulo: Summus, 2007.

Nós, a dupla terapêutica, também nos modificamos em relação ao grupo e a essa  experiência. A insegurança deixou de ser um entrave, passamos a compreendê-la  como uma sinalizadora de que não existem respostas prontas e garantias de  sucesso. As dúvidas e questionamentos podem ser bons aliados de trabalho, pois  sempre nos convidam a revisar nossa prática.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse trabalho partiu da revisão de um caminho percorrido, mas não é o único  possível, e certamente não podemos esperar que os efeitos se repitam em outras  experiências em grupo. Cada fenômeno é fruto de seu contexto específico.  Esperamos que seja proveitoso para outros profissionais, saber do pouco que  aprendemos com essa vivência.  

Se entregar por inteiro na relação terapêutica ou em qualquer outra relação, nos  remete ao conceito de contato, anteriormente explorado. O contato é em si promotor  de mudanças no ser, indo mais além, perceber o modo como fazemos contato em  nossas relações interpessoais e com o mundo que nos rodeia, é libertador.

Através das nossas intervenções no grupo é possível ajudar o cliente a adquirir o  autoconhecimento sobre seu modo de fazer contato. Talvez as intervenções mais  ricas tenham sido aquelas em que menos sabíamos, não partíamos de um  pressuposto. Quando perguntávamos acerca do “como?”, ou colocávamos nossas  sensações para o grupo e perguntávamos ao final, “faz sentido?”.  

Foi importante notar que não sabendo, construíamos um chão para caminhar e  quando achávamos que tínhamos certeza, nem sempre eram certezas que faziam  sentido àquelas pessoas, àquele grupo ou momento. Acreditávamos que  reformulando o contrato poderíamos ajudar na coesão do grupo. Porém o grupo,  como a vida, ou um rio, segue seu próprio caminho.

O contrato tem função de instrumento norteador, principalmente para um processo  terapêutico que é pouco conhecido. Assegura a identidade do grupo e estabelece  um acordo funcional básico.  

Não é função de o contrato promover a coesão do grupo. A coesão é um fenômeno  natural, resultado da afinidade entre as pessoas do grupo e da inclinação que elas  tenham em criar vínculos importantes. Embora não tenha sido nosso objetivo definir  a influência do contrato na coesão dos grupos de maneira geral, podemos afirmar  que neste grupo em especial a forma como lidamos com o contrato foi marcante em  seu desenvolvimento do início ao fim.

Acredito que um dos pontos principais desse trabalho foi tentar demonstrar que ser  psicólogo na abordagem gestáltica, cumprindo o papel de gestalt-terapeuta, é um  processo contínuo sem fim. Ser o maestro e estar ao lado, utilizar-se como  instrumento, cuidar das interações no grupo e ao mesmo tempo facilitar a awareness sobre as experiências vividas, requer uma preparação e afinação rotineiras.  Paradoxalmente, colocar-se no lugar de não saber, para nos colocarmos como

iguais nessa relação e, finalmente, estar presente e inteiro nessa relação, leva  tempo.

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Endereço para correspondência:

Sarah Lia Dávila

E-mail: sarahliapsi@hotmail.com

Recebido em: 13/01/2015

Aprovado em: 27/02/2015

NOTA

DÁVILA, Sarah Lia: Psicóloga Clínica e Pósgraduanda em Gestalt-Terapia pelo IGT  - Instituto de Gestalt-Terapia (Indivíduo, Grupo e Família).

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 22, 2015, p.240-257 DOI 10.5281/zenodo.15048618

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526