ARTIGO

A Noção de Tempo e Espaço na Educação a Distância: A  Descentralização do Processo Ensino-Aprendizagem.

The Notion of Time and Space in Distance Education: Decentralization of  the Teaching-Learning Process.

Paulo J.R. Hospodar

RESUMO

O presente artigo tem por finalidade rever a bibliografia a partir do surgimento  da WEB1 2.0 no que diz respeito a noção de tempo e espaço no processo de  ensino-aprendizagem na Educação a Distância (EaD). A literatura que  fundamenta o ensino-aprendizagem a distância orienta para um novo perfil e  relacionamento dos atores (professor e estudante) com o surgimento das novas Tecnologias de Informação e da Comunicação (nTICs)2, tornando  necessário um estudo sobre os impactos deste modelo sobre o sujeito que  aprende e o que ensina, bem como o processo contato/afastamento no  processo dialógico. O tempo-espaço está para além da ideia de espaço físico  e tempo determinado. Essa noção de tempo e espaço tem uma forte  representação, ou seja, na noção atemporal da rede, o curso a distância se  localiza em um tempo e um espaço.

Palavras-chave: Educação a Distância; Ensino Superior; Tecnologias da  Informação e Comunicação; Tempo e Espaço na Educação a Distância. 

ABSTRACT

The present article aims to review the current bibliography starting from the  WEB 2.0 regarding the notion of time/space in the teaching/learning process of  e-Learning education. The available literature that bases the mode of teaching learning guides to a new profile and the actors’ relationship with the emergence  of nTIC, thereby making imperative a study on the impacts of this model on the  subject that learns and teaches. The space-time is beyond the idea of the  physical space and certain time. This notion of time and space has a strong  representation, in other words, in the notion of timeless network, the e-Learning  is located in a time and space.

Keyword: Distance Education; Higher Education; Open University of Brazil;  Technologies of Information and Communication; Time and Space in the  Distance Education. 

 

1Termo criado em 2004 pela empresa americana O'Reilly Media1 para designar uma segunda  geração de comunidades e serviços, tendo como conceito aplicativos baseados em redes  sociais e Tecnologia da Informação;

2Novas Tecnologias da Informação e Comunicação.

Introdução

Com o advento da imprensa o mundo se transformou, bem como a forma de se  comunicar e de interagir. Tal fato transporta o homem para outro patamar  simbólico, e as novas mídias que surgiram ao longo da história alimentaram a  construção de uma cultura global, e a transformação do tempo e do espaço no  que diz respeito à percepção de distância. A partir do aparecimento dos meios  eletrônicos a sociedade se reorganizou, bem como o segmento da educação, e  neste cenário o rádio, invento que surge no final do século XIX, entra no  cenário mundial como um coadjuvante no processo educativo. A comunicação,  então, não mais presencial, preenche a lacuna do espaço, e nasce uma  relação remota. “No processo de ensino-aprendizagem, as atividades  pedagógicas se estruturavam através dos recursos midiáticos, como  atualmente nos utilizamos da WEB3” (SOUZA e SOUZA, 2007).

De acordo com Dorigoni e Silva (2008), “a partir dos anos 40 o processo  tecnológico invade todos os setores da sociedade, bem como o da educação,  atingindo, assim, salas de aula, casas e ambientes de trabalho”. Neste  momento, os autores enfatizam a interferência tecnológica na percepção do  atuar e pensar do sujeito que recebe a informação a distância. Agora, diante  do novo cenário, surgem os desafios para ajustar as nTICs ao processo de  ensino-aprendizagem, bem como observar sua contribuição na construção de  um sujeito criativo e crítico. Ressaltam também, os benefícios das novas  mídias minimizando desigualdades sociais.

Prosseguindo nos desafios do processo de ensino-aprendizagem, com as  novas tecnologias surge a preocupação quanto às práticas instrucionistas  promotoras da não criatividade, que reforçam o processo reprodutivo de  conteúdos, mantendo aquele que aprende em uma posição passiva no  conhecimento. Afinal, com as novas ferramentas midiáticas, os atores  principais devem reformular muitas de suas ações. O professor deverá  descentralizar seu poder e apesar de detentor do saber, deve entender que os  estudantes podem também contribuir para a construção do conhecimento. Os  estudantes, por sua vez, aprenderão novas formas de aprendizagem e  principalmente a ter autonomia e independência, sendo agentes de sua própria  aprendizagem, pois estarão em um novo tempo e espaço. Para os autores, as  nTICs surgem e transformam o ser alterando a forma de perceber o mundo, de  expressar e de transformá-lo.

De acordo com o Decreto n.º 6.303, de 12 de dezembro de 2007 para a  formalização de um curso a distância, destacou-se quatro itens básicos para a  qualidade na educação de um curso superior:

 

3A WorldWide Web (que em português se traduz literalmente por teia mundial), também  conhecida como Web e WWW, é um sistema de documentos em hipermídia (hipermédia) que  são interligados e executados na Internet. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/World_Wide_Web.  Acesso em 13/05/2013.

∙ Professores e estudantes atuam em espaços distintos;

∙ Necessidade de mediação tutorial;

∙ Necessidade de apoio descentralizado ao estudante;  

∙ E o estudante é o centro do processo pedagógico.

Para Costa (2007),  

a própria modalidade EaD traz em seu bojo a noção de deslocamento  

espacial e temporal para professores e estudantes envolvidos no  

processo de ensino-aprendizagem, bem como a estrutura do design  

instrucional que estará orientada para este binômio.  

De acordo com o autor, para assegurar a qualidade deste processo, o apoio  presencial também ocorrerá através de pólos presenciais, espaços físicos que  oferecerão apoio administrativo, acadêmico, bem como uma estrutura  apropriada para desenvolvimento pedagógico.

Para esta modalidade, o processo de ensino-aprendizagem e sua organização  estão orientados para o foco no estudante, isto é, o estudante como centro do  processo pedagógico. No Brasil, quando surgem ofertas de EaD para cursos  superiores, observa-se que há estudantes que moram em regiões remotas e  que não dispõem de computadores, em casa, nem no trabalho. Para contornar  tal impasse, um curso a distância deverá atender as condições daqueles  estudantes e uma tecnologia adequada para não promover o processo de  exclusão, ou seja, oferecer recursos humanos e materiais para o acesso a rede global.

Ainda de acordo com Costa (2007), “em um curso superior na modalidade a  distância, em outro ponto remoto se encontra a tutoria, responsável pela  mediação do processo ensino-aprendizagem”. Este mediador fornece uma  ponte entre os professores e os estudantes. Enfatiza que a interface de  comunicação deve ser adequada para que o estudante se comunique com a  rede do sistema de ensino ao qual está envolvido, bem como realizar tarefas  síncronas4 e assíncronas5, participar de fóruns, comunidades virtuais, e se  utilizar dos recursos oferecidos pela plataforma de estudo. Para um  atendimento de qualidade, esta tutoria estará dividida entre tutoria a distância e  presencial, sendo que a primeira é a mediadora do processo pedagógico para  os envolvidos em um espaço remoto, e a segunda, uma referência da primeira  para o apoio presencial.

 

4Cada bloco de informação é transmitido e recebido num instante de tempo bem definido e  conhecido pelo transmissor e receptor, ou seja, estes têm que estar sincronizados. Para se  manter esta sincronia, é transmitido periodicamente um bloco de informação que ajuda a  manter o emissor e receptor sincronizados. Fonte:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Comunicação_sincrona. Acesso em 19/05/2013.

5Cada bloco de dados inclui um bloco de informação de controle (chamado flag), para que se  saiba exatamente onde começa e acaba o bloco de dados e qual a sua posição na seqüência  de informação transmitida. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Comunicação_sincrona. Acesso  em 19/05/2013.

A Educação a Distância

De acordo com Nogueira (2010), “as nTICs estão imbricadas em diversos  segmentos da sociedade, assim, modificando antigas rotinas e reorganizando o  arcabouço social”. Diversos meios de comunicação estão presentes e a  serviço da humanidade no mundo contemporâneo e globalizado, fazendo com  que a informação transite a tempo e no tempo para outros espaços. Com o  advento da Internet6 as fronteiras desaparecem e o acesso à cultura em geral  está democratizado e descentralizado, formando um novo sujeito que aprende.

No segmento da educação não poderia ser diferente, a EaD promove a mudança no cenário e nos atores no que diz respeito a percepção do tempo e  do espaço. A nova forma de interagir, isto é, em um ambiente virtual cria uma  nova realidade, bem como maneiras de socializar ou ressocializar através de  vínculos. Salienta o autor que com a gama de informações que circulam surge  a dificuldade de filtrar as mais significativas. Assim, compete aquele que  ensina orientar seus estudantes quais fontes disponíveis têm relevância, e  como reconhecê-las para que efetivamente esta se transforme em saber.

Diante de uma demanda social esta modalidade de ensino necessita de uma  reestruturação para uma adequação ao processo ensino-aprendizagem de  qualidade, bem como conjeturar sobre as formas de comunicação. De acordo  com Ponciano (1994), “é imperiosa a necessidade de entrarmos em contato  com necessidade que se manifesta, e que nos impele ao contato, de um fato  existencial para além do binômio em estudo”. Os atores, por vezes, estão em  tempos e espaços distintos, estudantes, tutores e toda a estrutura educacional,  diferentemente do modelo presencial, onde se entende que a aprendizagem  ocorra naquele que ouve e vê – fisicamente, ou seja, percebe. “Esta nova  percepção é a reestruturação do conhecimento dos sujeitos envolvidos no  processo. Este novo elemento é capaz de alterar àquela estrutura antiga,  assim gerando uma nova estrutura” (PONCIANO, 2012, p. 105). Ao imaginar agora este mesmo estudante em um ponto remoto, será necessário ter novos  ambientes que propiciem o ensino-aprendizagem, ou seja, espaços virtuais  como fóruns e chats, por exemplo, para que aquele que aprende exponha  efetivamente o seu saber. Nogueira (2010) “conclui que tais espaços sem a  manifestação dos atores seriam como uma sala de aula em silêncio, ou um  trabalho de grupo sem diálogos”.

O diálogo que acontece nos ambientes virtuais de ensino

aprendizagem, isto é, transformar ideias em escrita, pede uma  

superação do sujeito que transmite, pois este agora não sabendo  

onde o receptor está, nem suas características de interpretação,  

 

6Conglomerado de redes de comunicações em escala mundial, ou seja, vários computadores e  dispositivos conectados em uma rede mundial. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Internet.  Acesso em 19/05/2013.

necessitará de um aprimoramento em sua forma de ler e de explanar  

seus conceitos, conclui Nogueira (NOGUEIRA, 2010).  

Para Yontef (2012), “este diálogo existencial é o encontro de pessoas, que  superam a comunicação verbal ou não verbal, ou seja, este novo diálogo  estará representado nos recursos da rede mundial”.

Tutoria presencial e a distância

Com o surgimento da modalidade a distância, se faz uma comparação com o  modelo presencial, talvez um modelo já vivenciado por boa parte de  professores e estudantes, e certamente a interseção entre essas modalidades  existe, bem como suas diferenças. Esses modelos visam um incentivo a  aprendizagem e a informação, os materiais e atividades precisam estar  ajustados com a proposta pedagógica. “Para as duas modalidades, o foco na  aprendizagem será um fator preponderante para a qualidade do ensino”, (MEDEIROS et al. 2012).

Ainda na interseção das modalidades, cabe ao professor interceder na relação  dos estudantes com o conhecimento, no entanto, o que os diferencia é o  contato direto do professor no modelo presencial, e na EaD o intermédio é através de materiais didáticos. Para esta última, os recursos midiáticos7 são  utilizados através das nTICs, que servem de via de comunicação entre os  envolvidos no processo ensino-aprendizagem. Agora, para que aconteça uma  relação dialógica, tal como sugerido no modelo presencial, aparecem no  cenário os tutores.

Medeiros et al. (2012, p. 91), apresentam um Quadro de atribuições do tutor e  do professor.

Quadro1 – Atribuições do tutor e professor em EaD

Professor Especialista em EaD

Tutor em EaD

1- Desenvolve e elabora os  objetivos e conteúdos temáticos  de sua disciplina

1- Estuda os conteúdos elaborados pelo  professor especialista

2- Acompanha o processo de  conversão de conteúdos para as  mídias e suportes escolhidos

2- Colabora na validação dos materiais

3- Planeja as aulas distribuindo os  temas e os materiais pelo período  de duração do curso.

3- Planeja e realiza as intervenções e  estratégias de interação com os alunos,  em encontros presenciais ou a distância

7Tecnologias de media, incluindo a internet, a televisão, os jornais e a rádio, que são usados  para comunicação de massa. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Midiático. Acesso em:  19/05/2013.

4- Esclarece dúvidas técnicas dos  conteúdos

4- Esclarece dúvidas metodológicas, de  compreensão, e encaminha dúvidas de  conteúdo ao professor especialista

5- Elabora as estratégias de  avaliação e verifica a  

aprendizagem

5- Colabora na elaboração, aplicação,  correção, registro e controle da avaliação  da aprendizagem.

Entre os atores citados no Quadro1, observa-se que o professor atua mais na  escolha e na preparação dos conteúdos, enquanto a atuação do tutor estaria  ligada a parte operacional diretamente, a aplicação pedagógica através dos  recursos midiáticos, e no favorecimento de um clima propício ao processo de  aprendizagem. Ressaltam as autoras que esses atores necessitam de uma  harmonia em suas ações para que os objetivos sejam alcançados. O diálogo  entre professor e tutor deverá ser constante durante o processo de ensino, e  entre todas as atribuições ressalta Medeiros et al. (2012, p. 92), “a de promover  o estudo do material proposto, assim, gerando estímulos para a autonomia do  estudante”.

Dentre alguns princípios da tutoria, o tutor não deve dar aula, pois estaria  impedindo a construção do sujeito que aprende e sua autonomia. Do contrário,  o tutor deve estimular o estudante a preparar, se orientar, dirimir dúvidas em  relação ao estudo, e promover sentido de cooperação entre os envolvidos.  Lembram as autoras que não necessariamente esse tutor dever ser um  especialista naquele conteúdo, mas um especialista em proporcionar a  autonomia para o estudo, e levar o um novo conceito no que diz respeito a  noção de tempo e espaço, pois a EaD não é isolamento. É importante frisar a  ideia de interação levando os alunos a perceberem que não estão  abandonados.

A chegada das nTICs possibilitou a utilização de novos recursos pela tutoria  remota. Houve um crescente número de aquisições de computadores pela  população, e em sua maioria interligada à rede mundial. Os dados coletados no  último censo em 2010, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), demonstram que entre 2000 e 2010 houve um aumento considerável  de aquisição de computadores residenciais, que elevou o índice de 10,6% para  38,3%. Relendo os dados estatísticos do IBGE, o acesso a internet cresceu  consideravelmente em todas as faixas etárias, conforme demonstrado a seguir:

Em 2011, 77,7 milhões de pessoas com 10 anos ou mais de idade

(46,5% do total) haviam acessado a internet nos três meses

anteriores à coleta da PNAD. O acesso à internet continuava sendo

maior entre os jovens, especialmente nos grupos etários de 15 a 17

anos (74,1%) e de 18 ou 19 anos de idade (71,8%).Na análise da

escolaridade dos internautas, observou-se que, de 2005 para 2011,

no grupo dos sem instrução e com menos de quatro anos de estudo,

o percentual passou de 2,5% para 11,8%. No mesmo período, no grupo com 15 ou mais anos de estudo, a estimativa aumentou de

76,1% para 90,2%. Fonte: IBGE – 16/05/2013.

Os dados coletados do IBGE corroboram com a fala de Medeiros et al. (2012,  p. 97), “pois estudantes e tutores dispõem de uma rede e de ferramentas para  sua interação em tempo real”. Agora distanciados, mas unidos, estes podem  ter a percepção de falta de afetividade, pois está em jogo o tempo e o espaço  

dos atores. Esta percepção de isolamento vivida pelo estudante poderá se  transformar em resistência para dar seguimento aos seus estudos, aí o tutor se  apresenta para promover vínculos afetivos entre os envolvidos através de  atividades propostas. A seguir, na Figura 1, uma relação de ações dos tutores  a distância para promover o contato do estudante com o ambiente virtual.

Figura 1 – Relação de ações dos tutores de EaD para promover o contato do estudante com o  ambiente virtual.

Fonte: UAB (Universidade Aberta do Brasil) Módulo 2, aula 06 Tutoria presencial e tutoria a  distância – Universidade Federal Fluminense - 2013

Assim, a tutoria a distância tem disponível vários recursos midiáticos para a  comunicação com os estudantes. Saber lidar com os diversos perfis é uma  competência a ser desenvolvida, pois, por vezes, o estudante não apresenta o perfil esperado para esta modalidade. Não se pode esquecer que, por ser  recente, a EaD traz como base a tutoria presencial, modelo vivenciado por  professores e estudantes. Desta forma, Medeiros et al. (2012, p. 104),  “concluem que todos os atores da modalidade EaD necessitam rever conceitos  para o novo ajuste no processo ensino-aprendizagem a distância”.

O saber, o tempo e o espaço na era das nTICs

A proposta de Charlot (2012) “considera que não existe a construção do sujeito  que aprende ausente de uma relação com o saber”. Ao estudar tal proposta,  as autoras entendem que as relações se constituem pela singularidade do  sujeito que se desenvolve nas relações consigo e com o mundo. Tal relação  com o ambiente demonstra que o sujeito está inserido em um espaço, no  mundo e no tempo, no aqui-e-agora. Com a dinâmica das nTICs, a agilidade, o  pulsar, as interações determinaram diferentes relações de tempo e espaço.

O sujeito que aprende está cada vez mais inserido em um ambiente amplo, e  que não está restrito aos modelos da educação presencial com tempo e  espaço determinados. Percebe-se que a noção de tempo e espaço entre os  dois modelos difere, pois o acesso a informação não está restrito a um local  físico, e se iguala no momento que o estudante pode acessar informações em  espaços diferentes, e em um tempo definido pelo modelo presencial – mesmo  tempo em outro espaço. Para as autoras, as nTICs, estão para além da área  da Tecnologia da Informação, pois estão presentes nas universidades como  um todo, nas salas de aula, laboratórios e com os próprios estudantes.

As universidades se veem diante desta nova realidade, em que as relações e  os métodos antigos se confrontam com as novas formas de aprendizagem e de  posicionamentos de todos frente o processo de educação. “O desafio se faz  pela necessidade da universidade conviver e compreender a geração que já  nasceu dentro de uma sociedade hipermidiática”, diz Freitas et al. (2012, p. 71).  De acordo com Lapa (2008, p.5), “as nTICs são construções da sociedade que  reformulam antigos conceitos de como percebemos o mundo, e afirma que não  podemos dissociá-los”. Acrescenta ainda em Lévy (apud LAPA, 2008, p. 5),  “que ambos se determinam e se transformam em uma retroalimentação – sociedade e tecnologia”. Mas, acrescenta Lapa (2008, p.5), “que as nTICs não  obrigatoriamente trariam transformações, mas oportunidades que podem avigorar ou negligenciar uma construção social”.

As transformações sociais advindas das nTICs, nos apontam para um nova  forma de manifestar comportamentos sociais, e para autora, na educação não  se pode omitir três pontos:

“... velocidade de surgimento e de renovação dos saberes; nova  

natureza do trabalho... aprender, transmitir saberes e produzir  

conhecimentos... tecnologias amplificam, exteriorizam e modificam as

funções cognitivas humanas...”.(LÉVY apud FREITAS et al., 2012, p.  

71).  

Com base na autora, e nos pontos citados acima, o contato consigo e com o  outro é penetrar em uma dimensão que está para além de uma sala de aula,  bem como para tempo. Desta forma, em uma IEs8 existe concomitantemente  tempos e espaços, que modificam a percepção do cotidiano do ambiente de  

ensino.

 

8Instituição de Ensino Superior;

Entende a autora que a educação presencial não está separada desta nova  dimensão espaço-tempo proposta pela EaD, mas respondendo aos apelos  sociais quanto ao acesso a informação. As nTICs não se restringem mais aos  profissionais da área da Tecnologia da Informação (TI), mas a todos os  segmentos da sociedade. Na dinâmica do mundo contemporâneo, o binômio  deste estudo, envolve as IEs em todos os seus principais processos, isto é, no  ensino, na aprendizagem, na construção do sujeito crítico e em benefício da  sociedade. Demonstra ainda a necessidade das IEs atentarem para as  características pessoais e profissionais da geração em que o estudante está  inserido, pois sua experiência está impregnada pelas nTICs.

De acordo com Lapa (2008, p. 10),

professores e estudantes estão em uma relação predominantemente  

próxima e coincidente no modelo presencial, e com esta referência  

espaço-temporal, na atualidade temos a educação tradicional  

presencial, semipresencial, isto é, alternando entre o presencial e a  

distância, e a EaD.  

Moran (apud LAPA, 2007, p. 10), “ressalta que o modelo presencial, conhecido  pelo modelo padrão de ensino, onde tempo e espaço são os mesmos para os  atores em sala de aula”. Já o modelo semipresencial acontece em algum  momento em sala de aula e em outro a distância, com a utilização das nTICs.  Já o modelo a distância não necessariamente acontecerá presencialmente,  mas prevalecerá o distanciamento entre os atores, pois estarão em dimensões  distintas, mas unidos pelas nTICs. Conclui Lapa (2008, p. 10),  

que no modelo EaD, a aprendizagem ocorre nos dois pontos, isto é, o

professor-tutor elabora toda a prática de aprendizagem, que não  

necessariamente ocorrerá com a presença do estudante, este último  

talvez nunca conheça pessoalmente seu professor-tutor ou colegas  

de curso, mas a partir de agora neste novo ambiente sua  

aprendizagem não compreenderá mais a presença de um professor.

“Com as nTICs os estudantes promovem mudanças na dinâmica das IEs,  agora questionando a aprendizagem, bem como o que deve ser aprendido”,  afirma Bicudo (apud FREITAS et al., 2012, p. 72). Neste cenário, aquele que  estuda amplia a visão do conhecimento, e a cultura do conhecimento. “Não  está mais restrito ao saber costumeiro”, conforme Charlot (apud FREITAS et  al., 2012, p. 72), mas sim em relação com a dinâmica global. Esta interação  também levará seus atores a uma nova identidade em função de suas  experiências anteriores. Na contemporaneidade e com as nTICs a afinidade  com o saber é determinada pela relação tempo e espaço, fazendo com que  essa tecnologia se torne um prática social dos estudantes das IEs (Silva apud  Freitas et al., 2012, p. 72) – “...o saber não existe fora de uma relação...” .

Diante disto, as nTICs atuam como a interface entre professor e estudante em  todo o tempo em que estiver conectado com a plataforma de seu curso,  mapeando suas ações de contato com os materiais de estudo, com os colegas  e com o professor. “Agora, o estudante tem a autonomia para utilizar os recursos do ambiente de estudo, não existem barreiras, nem para ele nem para  a tecnologia, quando estiver conectado”, afirma Deleuze (1992).  

Essa nova realidade, estar em qualquer tempo e espaço exige uma

postura do estudante muitas vezes de superação, de desenvolver  

novas competências constantemente, para estar em um nível de  

igualdade não só com seus colegas, mas também com seu professor

(DELEUZE, GUATARRI, 1995).

Conclusão

O ser humano está em constante contato com o mundo, e as nTICs cada vez  mais se apresentam como uma possível interface entre eles. Outras mídias coexistem e não foram apagadas pelo surgimento destas, muito pelo contrário,  se complementam, fazendo nascer um novo conceito de acesso a novas  realidades. “Todas as tecnologias em suas épocas foram modernizadas, bem  como a forma de perceber o mundo através destes recursos, o que nos remete  a boa receptividade do novo através dos tempos” (SOUZA e SOUZA, 2007).

Com o fenômeno das nTICs ditando o andamento do mundo globalizado, as  IEs não podem ficar descontextualizadas, devem se inserir nesta ordem não de  forma passiva, apenas para se inserir, mas com o objetivo de refletir sobre as  mesmas, trazendo o melhor tanto para o processo educativo, quanto para  professores e estudantes envolvidos com as transformações advindas das  novas formas de aprender.  

Sabemos, entretanto, que para que essas expectativas se realizem o  

professor deve coordená-lo e mediá-lo sem temer o novo, buscando  

capacitar-se continuamente para que a construção do conhecimento  

represente um construir juntos, professor e estudante (DORIGONI

e SILVA, 2008).

A WEB 2.0 conduz a novas interações com o saber, a partir de novas maneiras  de se estudar e fazer contato com o novo. “O estudante a partir das nTICs se  torna mais autônomo do conhecimento advindo dos ensinamentos das  disciplinas convencionais ministradas em sala de aula, pois pode ir além,  aprendendo por conta própria” (FREITAS et al., 2012, p. 77).

A EaD, como uma sala de aula sem paredes, supera a idéia física do ambiente  tradicional do ensino presencial através do binômio tempo e espaço, e mediada  pelas nTICs. O estudante desta modalidade amparado por uma estrutura  pedagógica acertada, não se sentirá desorientado por este binômio, pois ele  terá um endereço de acesso virtual, bem como um planejamento e organização  apresentados em um curso presencial. Desta forma, a EaD em sua  atemporalidade se encontra em um tempo e um espaço.  

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Endereço para correspondência:

Paulo J.R. Hospodar

E-mail: pjhospod@gmail.com

Recebido em: 25/12/2014

Aprovado em: 01/02/2016

NOTAS:

Paulo J. R. Hospodar - Graduado em Psicologia na LAUREATE International  Universities – UNI-IBMR; Pós-graduado Lato Sensu - Planejamento,  Implantação e Gestão da EaD na Universidade Federal Fluminense;  Especialista em Gestão estratégica de recursos humanos na Fundação Getúlio  Vargas.

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 23, 2015, p.367-339 DOI 10.5281/zenodo.15048670

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526