ARTIGO

Gestalt-terapia e orientação profissional: um relato de experiência Gestalt-therapy and career counseling: an experience report

Karina Junqueira Menezes

Sílvia Oliveira de Alencar Ovelar

Evelyn Denisse Félix de Oliveira

RESUMO  

A adolescência é uma fase marcada por mudanças, entre elas a transição da  infância para o mundo adulto, cujo marco é o momento da escolha profissional.  Voltada para essa demanda, tradicionalmente, a Psicologia interveio através da  psicometria. Entretanto, reflexões acerca dessa forma de trabalho levaram à crítica  desse modelo, que implicava na ideia do homem certo no lugar certo. Dessa forma,  encaminhou-se a proposição de um novo método, a Orientação Profissional na  perspectiva clínica. Esta tem como foco o sujeito, responsabilizando-o e  propiciando-lhe autoconhecimento para que seja uma escolha consciente. A  princípio, esse modelo formou-se sob orientação psicanalítica, mas este foco  também vai ao encontro da visão de homem da Gestalt-terapia e alinha-se aos seus  pressupostos e técnicas. Com o objetivo de demonstrar esse alinhamento, o  presente trabalho é um relato de experiência de um grupo de Orientação  Profissional formado por 15 adolescentes. Através da discussão teórica e da  descrição das sessões, buscou-se mostrar como os conceitos e métodos gestálticos  podem ser usados na Orientação Profissional. Os resultados da experiência do  grupo mostraram que esses conceitos e métodos são adequados aos objetivos da  Orientação Profissional clínica e podem contribuir para a escolha profissional.

Palavras-chave: Orientação Profissional; Gestalt-terapia; Método Fenomenológico.  

ABSTRACT

Adolescence is a period marked by changes, including the transition from childhood  to the adult world whose landmark is the vocational choice. Facing this demand,  traditionally, psychology intervened through psychometry. However, reflections about  this way of working led to criticism of this model, which implied the idea of the right  man in the right place. Thus, lead to propose a new method, the Career Counseling  in clinical perspective. This focuses on the subject, who is responsible for the choice  and allowing self-knowledge to be a conscious and not just adaptive choice. At first  this model was formed under psychoanalytic, but these objectives are in line with  Gestalt therapy´s vision of man and align their assumptions and techniques. In order  to demonstrate this alignment, the present work it is an experience report of a group  of Career Counseling with 15 teenagers. By describing the sessions with the  theoretical discussion, we tried to show how the concepts and Gestalt methods can  be used in Career Counseling. The results of the group's experience showed that  these concepts and methods are suitable to Career Counseling´s objectives.

Keywords: Career Counseling; Gestalt Principles; Gestalt Methods.

INTRODUÇÃO

A adolescência é uma fase marcada por mudanças, entre elas a transição da  infância para o mundo adulto. O marco dessa passagem é o momento da escolha  profissional, que pode ser vivido com muita ansiedade, dependendo do contexto em  que o adolescente está inserido e do suporte que recebe. Voltada para essa  demanda, tradicionalmente, a Orientação Profissional (OP) era realizada através da  aplicação de testes a partir dos quais se descobriam verdadeiras vocações.  Entretanto, esses instrumentos, sem o desenvolvimento do autoconhecimento, não  propiciavam bons resultados. Em função dessa crítica, começou-se a discutir a  chamada Orientação Profissional na modalidade clínica, a qual implica uma  concepção de homem como sujeito de escolhas, contrapondo-se a uma visão inata  de vocação e do homem certo no lugar certo. (BOHOSLAVISK, 1991).

Inicialmente, essa discussão foi realizada no campo da psicanálise e da  psicodinâmica, que estabeleceram o método clínico devido à ética de respeito ao  desejo do outro. Com esse método visou-se atender melhor ao objetivo de propiciar  condições para o orientando redimensionar suas escolhas, seus ideais, seus  interesses e suas potencialidades por meio do conhecimento de si e das profissões.  Esse método também abarca a ideia de projeto de vida e não simplesmente da  profissão a ser escolhida, oferecendo ao orientado a oportunidade de comprometer se na construção de seu projeto individual e da comunidade em que está inserido  (VALORE, 2010).

Nessa perspectiva, o psicólogo deixa de assumir um papel diretivo, incentivando a  decisão autônoma, não adaptativa. Consequentemente, muda-se da antiga ênfase  do “o que escolher”, para “aquele que escolhe” e “como escolhe” (BOHOSLAVISK,  1991). Pode-se perceber que a discussão no meio psicanalítico e da psicodinâmica  

abrangeu a busca pelo autoconhecimento, a tomada de consciência, o  relacionamento autêntico, a dimensão da vivência e a responsabilização do sujeito.  Tais temas fazem parte do escopo e da constituição teórica e experimental da  Gestalt-terapia e podem ser traduzidos nesta abordagem através dos conceitos de  contato, awareness, relacionamento dialógico, autorregulação, ajustamento criativo  e dos pressupostos da fenomenologia e do existencialismo.  

Percebe-se, portanto, que a discussão iniciada na psicanálise sobre OP no modelo  clínico vai ao encontro da visão gestáltica de homem e mundo e, sendo assim, a OP  clínica pode e deve ser pensada nessa abordagem. Autores da Gestalt-terapia já  iniciaram essa discussão por diferentes vieses (CANEDO, 1997; BARONCELLI,  2012; LILIENTHAL, 2013) e serviram de referencial teórico para este trabalho, o  qual tem como objetivo demonstrar, por meio de uma prática de grupo específica  realizada na cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, como os pressupostos  e técnicas da Gestalt-terapia podem ser usados para a OP clínica.  

Portanto, o presente trabalho relata a experiência da autora com um grupo formado  por adolescentes em orientação profissional realizado em uma Organização Não Governamental (ONG), durante 12 encontros, no período entre março e julho de

2014. A Gestalt-terapia, com seus pressupostos e técnicas, foi utilizada como  abordagem norteadora para condução do grupo. Utilizou-se também a Pesquisa  Fenomenológica para a realização das entrevistas e formação do grupo.  

A seção teórica do trabalho foi dividida em duas partes: conceitos gestálticos que  embasaram a prática e métodos gestálticos utilizados na prática. Em cada uma  dessas partes, os conceitos e métodos são explicados separadamente para que na  próxima seção, do relato de experiência, estes pudessem ser integrados à vivência  relatada.

Sabe-se que o escopo teórico da Gestalt-terapia capaz de embasar a OP é maior do  que a discussão que se propõe neste trabalho, uma vez que essa abordagem se  propõe a pensar a realidade humana como todo, estando nesse todo implícito o  momento da escolha profissional. Dessa forma, a escolha dos conceitos e métodos  a serem discutidos baseou-se em uma necessidade de delimitação teórica para  análise no artigo, como também nos conceitos mais figurais da vivência das autoras  no grupo. Porém, destaca-se que a OP também pode e deve ser pensada a partir  de outros conceitos e métodos da Gestalt-terapia.

CONCEITOS GESTÁLTICOS

Contato

Para a Gestalt-terapia, contato é um conceito chave, fundamental para a relação da  pessoa consigo mesma e com o meio. Por meio do contato, a vida acontece, ocorre  o encontro e o afastamento das relações. Por meio dele a ação humana e  psicoterapêutica se expressa (YONTEF, 1998; RIBEIRO, 2007).

O contato é o relacionamento dinâmico que ocorre na chamada fronteira de contato,  aquela que se estabelece entre duas figuras distintas, sejam elas dois organismos  diferentes, um organismo e algo inanimado do ambiente ou até mesmo o organismo  e uma característica nova dele mesmo. Ou seja, é o ponto em que a pessoa tem a  oportunidade de experienciar o “Eu” e o “não-Eu”, é processo de separação e  ligação (BUROW; SCHERPP, 1985; YONTEF, 1998; POLSTER; POLSTER, 2001;  D’ACRI; LIMA; ORGLEY, 2007).

Pode-se dizer que o contato satisfatório com o mundo e consigo mesmo pressupõe  arriscar, descobrir, desenvolver fronteiras permeáveis o suficiente para que seja  possível distinguir o que é tóxico e precisa ser descartado daquilo que é nutritivo e  pode ser assimilado de acordo com a necessidade dominante. É essa forma de  estabelecer contato que leva ao crescimento (YONTEF, 1998; POLSTER;  POLSTER, 2001). Assim, para Ribeiro (2007, p. 15):  

“O modo como uma pessoa faz contato consigo e com o mundo expressa  

igualmente o grau de individuação, maturidade e auto entrega com que vive  

em um dado momento, porque o contato é a expressão experienciada e  

visível da realidade interna de si mesmo.”  

O contato expressa um modo de ser operacionalizado por três sistemas básicos:  sensório, cognitivo e motor. Esses sistemas em relação com o campo em que o  indivíduo se move e existe formam o self, que se manifesta no eu. Por essa razão, a  maneira como um indivíduo faz contato é construída a partir das formas mais  habituais de reagir aos estímulos do campo a partir desses sistemas (RIBEIRO, 2007). A fim de estabelecer contato consigo mesmo, é necessário tornar-se um fenômeno para si mesmo. Isso apenas é possível quando existe a abertura para a  própria contemplação, para a descoberta, sem medo de qualquer possibilidade,  levando, consequentemente, à experiência do sujeito estar presente para si mesmo  (RIBEIRO, 2006). Dessa forma, o processo de mudança ocorre na razão em que a  pessoa aprenda a fazer contato com suas totalidades (RIBEIRO, 2007).

Awareness

O conceito de awareness vai além da noção de “estar consciente”, refere-se à  capacidade de apercepção do mundo interno e externo, no momento presente, em  diferentes níveis, como o corporal, o mental e o emocional (BUROW; SCHERPP,  1985; FRAZÃO, 1999). É o contato com “aquilo que se é”, logo, para que a  awareness seja possível, é preciso haver contato (YONTEF, 1998). Ainda sobre a  awareness, Yontef (1998, p.236) afirma que:  

“Awareness é uma forma de experienciar. É o processo de estar em  

contato atento com o evento mais importante do campo  

indivíduo/ambiente com apoio energético, cognitivo, emocional e  

sensoriomotor totais. Um continuum constante ininterrupto de  

awareness leva a um Ah! a uma percepção imediata da unidade  

óbvia de elementos díspares do campo. Novas totalidades  

significativas são criadas por contato ware. Portanto, a awareness  

em si mesma é a integração de um problema”.

Awareness torna o paciente consciente de si e do meio, possibilitando-o identificar  aquilo que é mais importante no aqui-e-agora, fatores que geram a possibilidade  para mudança, desenvolvimento, crescimento, para a aceitação dos sentimentos e  dos seus desejos e dos outros (BUROW; SCHERPP, 1985; FRAZÃO, 1999). A  awareness é o momento da percepção da totalidade, da integração que leva ao  sentimento de fortalecimento para mudar. Trata-se de um acontecimento em si, que  não pode ser previsto, ocorre ao acaso, mas que não acontece se não for buscado  (RIBEIRO, 2006).

Autorregulação

O conceito de autorregulação organísmica foi desenvolvido por Kurt Goldstein ao  questionar a metodologia atomística da medicina e propor uma visão do organismo  como um todo. Ao perceber inter-relações entre áreas cerebrais, Goldstein começou  a construir um ponto de vista holístico sobre o ser humano, baseado na visão  sistêmica. A Gestalt-terapia se baseou nesse ponto de vista, que entende o  organismo como vivo, composto de partes inter-relacionadas que formam o todo e  estão em constante relação com o meio para adquirir dele o que precisam para se  autorregular (D’ACRI; LIMA; ORGLEY, 2007).

Ao entender o organismo em constante interação com o meio, percebe-se que a  autorregulação é de natureza relacional. Ao se deparar com o meio e emergirem  necessidades, os indivíduos precisam atendê-las para se autorregular. Uma forma  de fazer esse contato organismo/meio e buscar a autorregulação é o ajustamento  criativo. Trata-se de uma resposta intencional do indivíduo ao ambiente, um balanço entre os recursos e possibilidades internas e externas frente às situações e não uma  resposta adaptativa (CANEDO, 1997; D’ACRI; LIMA; ORGLEY, 2007; BARONCELLI,  2012).

Partindo desses conceitos, para a Gestalt-terapia, a percepção dos seres humanos  é organizada pelas necessidades dominantes. Estas se tornam figuras por meio do  contato ware, que, após emergirem de um fundo, exigem satisfação, abrindo uma  Gestalten. Portanto, a autorregulação se baseia em processos primários para  atender as diversas necessidades, trata-se de uma tendência do organismo e  necessita de contato e awareness para acontecer de forma saudável (D’ACRI; LIMA;  ORGLEY, 2007; YONTEF, 1998; RIBEIRO, 2007). Os indivíduos estão sempre realizando  a melhor autorregulação e ajustamento criativo possível para o momento, a fim de  atender suas necessidades, por mais que externamente possam parecer atitudes  estranhas (LILIENTHAL, 2013).

Existencialismo

Diversos conceitos centrais da Gestalt-terapia – como a existência individual em  relação aos outros, a auto responsabilidade, as possibilidades de escolha – têm  como base o existencialismo (BUROW; SCHERPP, 1985). A Gestalt-terapia em si  era vista por Perls como um tipo de terapia existencialista, pois além de se opor ao  Racionalismo, ao Positivismo, à Ontologia e à Metafísica tradicionais, essa  abordagem propõe que a existência em si não tem valor pré-definido. O sentido da  existência está relacionado à liberdade e à responsabilidade de cada escolha do  indivíduo no seu vir-a-ser (D’ACRI; LIMA; ORGLEY, 2007).

Para D’Acri, Lima e Orgley (2007, p. 98), entre as diversas temáticas que  caracterizam o pensamento existencialista estão a liberdade, as escolhas, os  projetos e a consciência, expressas por meio da compreensão de que “[...] a  existência precede a essência [...] é com base na responsabilidade de seus atos e  escolhas conscientes, e nas consequências destes, que o homem se cria de modo  eminentemente existencial [...]”. E foi nesse sentido que Sartre definiu o que  chamou de má-fé, como uma atitude de negar a responsabilidade sobre a própria  existência, sobre as escolhas e sobre a liberdade de tomar decisões (D’ACRI; LIMA;  ORGLEY, 2007).

O objetivo da Gestalt-terapia é awareness com auto responsabilidade e  desenvolvimento de possibilidade de escolha. Os sujeitos, ao perceberem seu  processo de awareness, podem ser responsáveis e escolher seletivamente  (YONTEF, 1998). Para isso, trabalha-se com o “como” dos comportamentos e  expõe-se a participação do sujeito nesses mecanismos, ajudando-o a aprender, a  lidar com a responsabilidade das próprias ações e sensações. Os avanços na  responsabilização fortalecem concomitantemente o self-support, pois tornam o  sujeito cada vez mais ele mesmo (BUROW; SCHERPP, 1985; RIBEIRO, 2011).  Dessa forma, a Gestalt-terapia aplica a atitude existencial sem ser excessivamente  abstrata (YONTEF, 1998).

MÉTODOS DA GESTALT-TERAPIA

Fenomenologia e Pesquisa Fenomenológica

Husserl propôs que a fenomenologia seria a “busca das essências” ou o “retorno às  coisas mesmas”. Ela não prioriza nem o sujeito e nem o objeto, pois os entende  como indissociáveis na estrutura da experiência intencional. Portanto, supera-se a  dicotomia sujeito-objeto, ao afirmar que toda consciência é intencional, não  desvinculada do mundo percebido, assim como não há mundo sem consciência  para percebê-la. Com isso traz uma nova postura de inquirir fenômenos  psicológicos, focalizada na relação sujeito-objeto-mundo, que não se atém apenas  aos comportamentos observáveis, mas investiga as experiências vividas e os  significados que o sujeito lhes atribui (BRUNS, 2001; D’ACRI; LIMA; ORGLEY, 2007).

Assim, a fenomenologia busca clarear o fenômeno, construir uma compreensão  sobre ele, descrevendo-o para que ele se torne presente enquanto dado da  consciência. Para isso, é preciso que, diante de um relato, coloquem-se ideias e  pré-conceitos entre parênteses, ou seja, suspendem-se os pré-julgamentos para  que o fenômeno em si, enquanto natureza pré-reflexiva, possa ser dado, ou seja,  faz-se a chamada redução fenomenológica (AMATUZZI, 1995; RIBEIRO, 2011). Por  isso, pode-se dizer que a Gestalt-terapia é fenomenológica, já que esta busca  awareness através da awareness. A fenomenologia é o método que a Gestalt terapia utiliza para aprender sobre a awareness (YONTEF, 1998).

Em função dessa natureza fenomenológica da Gestalt-terapia, quando se faz  pesquisa nessa abordagem, a Pesquisa Fenomenológica mostra-se adequada, pois  o pesquisador fenomenológico pretende entender a experiência intencional, vivida.  O elemento central é a intencionalidade própria e constitutiva do relato, ou seja, o  que ele é. Para a análise fenomenológica desse relato, é preciso trazer a  experiência vivida que no ato da relação interpessoal é comunicada. Isso não se faz  por meio de questionários, pois estes trazem informações passadas, mas sim de  forma dialética e mobilizadora. A experiência vivida, quando acessada inicialmente  pelo pesquisador, já não é mais pura, mas composta de concepções, percepções,  construções da consciência, ou seja, versões do vivido. Para se aproximar da  experiência em si é preciso ir além das estruturas já dadas, ter senso crítico, deixar  as estruturas de lado por um momento, fazer a chamada redução fenomenológica  (AMATUZZI, 2001).

Dialógica

A Terapia Dialógica refere-se a uma forma de relacionamento que é construído no  processo de contato. Baseia-se no entendimento do diálogo existencial, o qual  acontece quando duas pessoas se encontram como pessoas, ou seja, cada uma é  impactada pela outra e responde a outra ativamente. Trata-se de um contato  especializado que compreende o relacionamento Eu-Tu proposto por Buber  (YONTEF, 1998). Esse relacionamento é o tipo de contato necessário para a  relação terapêutica, pois somente através da atitude Tu - do verdadeiro encontro - é  possível uma relação profunda que leve ao aumento de awareness, ao crescimento  e ao tornar-se inteiro. Diferente do relacionamento Eu-Isso, em que a atitude Isso  implica que o outro seja objeto de manipulação, um meio para um fim, não sendo  visto como pessoa (HYCNER, 1995; YONTEF, 1998; D’ACRI; LIMA; ORGLEY, 2007).

Para o encontro Eu-Tu não são necessárias palavras, gestos, ou sons não-verbais.  O imprescindível e diferencial são 5 características destacadas por Yontef (1998): 1)  inclusão - entrar respeitosamente na experiência do paciente aceitando-o como ele  é; 2) presença – terapeuta respeitar, conhecer e mostrar seu verdadeiro self; 3)  compromisso com o diálogo – focar na experiência, respeitando-a para que o  resultado seja controlado pelo entre, ou seja, pelo campo que se forma entre os Eu  e o Tu, um campo dinâmico e vivencial onde se expressa a experiência; 4) não exploração – a terapia não é um relacionamento manipulativo e hierárquico; 5) viver  o relacionamento – a cura esta na vivência do diálogo.

É nesse relacionamento dialógico que o Gestalt-terapeuta baseia sua postura.  Busca estar em contato com o outro, atitude diferente do simples ato de prestar  atenção nesse outro, é um processo de penetrar nos sentidos e significados através  da intersubjetividade. Portanto, é necessário abrir mão das introjeções e  pressupostos para permitir a inclusão de um no outro (RIBEIRO, 2006). Dessa  forma, cliente e terapeuta precisam de um falar e escutar ativo, pois a relação  somente se faz quando ambos são vistos e respeitados como pessoas. Necessita se de um falar penetrando na experiência, implicando-se no vivido e de um escutar  diferente da recepção passiva de um estímulo auditivo, trata-se de um escuta  responsável e inclusa (YONTEF, 1998). É o que Hycner (1995) chamou de estar  com o outro em posição de abertura e disposição para esse outro, destacando a  relação, o entre, e não apenas uma das partes, pois é no entre que acontece a cura.  

Experimentos

A busca pela ampliação de awareness, pelo aumento do contato consigo e com o  outro e da responsabilização perpassa e é perpassada, de modo dialético, pela  integração do sentir, pensar e agir. A fim de atingir tal síntese, a Gestalt-terapia  lançou mão de certos recursos chamados experimentos.  

A partir dos conceitos gestálticos, foram desenvolvidos uma série de métodos que  visam aplicar esses conceitos à situação terapêutica (BUROW; SCHERPP, 1985). O  experimento é um instrumento central e multifacetado, um modo de trabalhar  experiencialmente, que promove uma modificação comportamental sistemática por  meio da vivência. Ele expressa algo da ordem do comportamental, saindo da esfera  unicamente cognitiva interior (BUROW; SCHERPP, 1985; ZINKER, 2007). Zinker  (2007) ainda explica que:

“O experimento é a pedra angular do aprendizado experiencial. Ele  

transforma o falar em fazer, as recordações estéreis e as teorizações em  

estar plenamente presente aqui, com a totalidade da imaginação, da  

energia e da excitação.” (p.141).  

Para Burow e Scherpp (1985), os experimentos podem ser aplicados a diversas  situações, assim como novos experimentos podem ser criados, já que não há limites  para a criatividade e fantasia. Para Zinker (2007, p. 145):

“Diversamente do procedimento científico rigidamente estruturado, o  

experimento gestáltico é uma forma de pensar em voz alta, uma  

concretização da imaginação da pessoa, uma aventura criativa”.

O experimento faz com que a pessoa seja sujeito ativo de sua auto exploração, da  sua experiência de aprendizagem. Enquanto o terapeuta ocupa papel de consultor e diretor da criação do cenário, o cliente preenche esse cenário com conteúdos e  sentimentos. Logo, são as questões atuais do paciente, suas experiências de vida,  assim como as do terapeuta que delineiam a natureza do experimento. A criação e  o processo do experimento é uma complexa construção em que ambos cooperam  (ZINKER, 2007).

Além de experimentos com falas, com o corpo, com recursos gráficos e materiais  diversos que visam mobilizar o sentir, pensar e agir, a partir da diminuição das  resistências, existe um tipo específico chamado viagem de fantasia. A viagem de  fantasia é uma técnica utilizada pela Gestalt-terapia para mobilizar os elementos do  fundo, permitindo ampliação de awareness e aumento do autoconhecimento. Trata se de uma técnica particularmente usada com grupos, mas também pode ser  utilizada individualmente com crianças e adultos (D’ACRI; LIMA; ORGLEY, 2007).

Existem, basicamente, duas formas de viagem-fantasia: a dirigida e a não dirigida.  Elas distinguem-se pelo fato de que na primeira há uma condução da viagem por  meio de um enredo e, na segunda, a projeção torna-se mais livre. Nas duas,  recomenda-se um breve relaxamento para somente depois entrar na viagem  (BUROW; SCHERPP, 1985). Através da viagem-fantasia é possível trazer partes da  vivência pessoal que estavam desconhecidas até o momento, aprender mais sobre  si mesmo, trazer à consciência necessidades, desejos, medos, entre outras  questões que precisam ser integradas, comunicar a experiência aos outros,  possibilitando conhecimento mútuo (BUROW; SCHERPP, 1985; D’ACRI; LIMA;  ORGLEY, 2007).

Segundo Yontef (1998, p. 237): “A fenomenologia da Gestalt-terapia  experimental, em parte herdada da Psicologia da Gestalt, utiliza a experimentação  para explicitar.” Percebendo a importância dos experimentos em geral para acessar  o vivido, a Gestalt-terapia lança mão desses recursos tanto nas terapias individuais  como em grupos, em todas as faixas etárias.

Relato de experiência  

A experiência a ser relatada aconteceu em uma Organização Não-Governamental  (ONG) no município de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. A ONG tem como  objetivo propiciar atividades que estejam em sintonia com as necessidades da  comunidade do bairro. Uma parcela dos jovens que a frequentam estava cursando  os últimos anos do Ensino Médio e solicitou um projeto que pudesse ajudá-los na  decisão sobre a profissão a ser escolhida. Dessa forma, a coordenadora da ONG  entrou em contato com a psicóloga e delineou-se um grupo de Orientação  Profissional que pudesse auxiliá-los nesse processo.

O projeto foi divulgado durante duas semanas na ONG e na igreja onde vários  adolescentes que participavam das atividades da ONG também frequentavam. As  inscrições foram voluntárias e espontâneas. Abriram-se 15 vagas e todos os  inscritos passaram por entrevista preliminar, que se baseou no método  fenomenológico. Estas foram iniciadas com uma pergunta que mobilizasse a  experiência, tal qual proposto por Amatuzzi (2001). A partir desse ponto abria-se  espaço para que os adolescentes pudessem relatar experiências.

Formado o grupo, foi realizado o total de 12 encontros, com duração de 120  minutos, frequência semanal, no período entre março e julho de 2014. Nesses  encontros foram utilizados diferentes recursos da Gestalt-terapia: técnicas gráficas  para apresentação do grupo e para vivências de autoconhecimento; técnicas  reflexivas sobre o que conheciam sobre si mesmos e sobre como se escolhe uma  profissão; pesquisa com pessoas próximas sobre como são vistos por elas;  curtograma; viagem de fantasia, visando contato com os projetos de vida; projeção  do filme “Universidade dos Monstros”; “stop das profissões” e técnica R-O  (Realidade Ocupacional); encontros expositivos sobre como está configurado o  mundo do trabalho; informações sobre profissões e palestras com profissionais.  

As idades e profissões que os jovens estavam considerando na época da entrevista  estão relacionadas na tabela abaixo.

Nome Fictício

Idade

Profissões consideradas antes do grupo

A1

14 anos

Medicina e Pedagogia

A2

16 anos

Direito, Engenharia Civil, Audiovisual

A3

15 anos

Não havia pensado em nenhuma profissão

A4

15 anos

Arquitetura, Psicologia e Enfermagem

A5

15 anos

Engenharia Agrônoma e Medicina Veterinária

A6

15 anos

Engenharia Mecatrônica, Design de Jogos ou Robótica

A7

16 anos

Engenharia Civil

A8

16 anos

Administração e Direito

A9

16 anos

Engenharia Agrônoma e Música

A10

16 anos

Pedagogia

A11

17 anos

Bombeiro e Jogador de Futebol

A12

17 anos

Não havia pensado em nada

A13

17 anos

Direito

A14

18 anos

Pedagogia

A15

18 anos

Serviço Social

Resultados e Discussão

O primeiro contato com os adolescentes foi realizado nas entrevistas. Estas foram  iniciadas com uma pergunta que mobilizasse a experiência, tal qual proposto por  Amatuzzi (2001). Iniciaram-se todas as entrevistas com a questão: “Estamos  começando um novo projeto na ONG sobre Orientação Profissional. Qual é a sua  experiência com isso?” E, a partir desse ponto, abria-se espaço para que os  adolescentes pudessem relatar experiências e, por meio delas, percebeu-se que  diferentes questões se repetiam: vivência de fazer escolhas, sentimentos advindos  da “necessidade” iminente de optar por uma profissão, dúvidas sobre quais  profissões estavam considerando escolher, expectativas em relação à Orientação

Profissional e em relação às vivências em grupo. Com base nos fenômenos dados  foi possível começar a elaborar um caminho que pudesse colaborar com esses  jovens em suas vivências e necessidades singulares.

Quando se tem como objeto de pesquisa a subjetividade, é necessário partir de um  método adequado que permita alcançá-la na dimensão da experiência (RANIERI;  BARREIRA, 2010). Métodos quantitativos, padronizados, voltados para  objetividades causais, negligenciam o homem e a situação. A subjetividade e a  experiência humana, devido a sua complexidade, necessitam de uma abertura  metodológica, exigem uma investigação diferente (FLINCK, 2004).

Sendo assim, a entrevista fenomenológica é adequada à pesquisa sobre  subjetividades, pois é possível alcançar o fenômeno da experiência vivida através  da narração. A Fenomenologia volta-se àquilo que se manifesta e o entrevistador  entra em contato com a vivência pré-reflexiva em detrimento de um pré-julgamento.  Dessa forma, a entrevista fenomenológica parte de um roteiro aberto que explore as  vivências, sendo sempre permeado pela atitude empática entre  entrevistador/entrevistado, o que permite o desenrolar da intersubjetividade  (RANEIRI; BARREIRA, 2010).

Após as entrevistas, os encontros foram organizados utilizando recursos e técnicas  da Gestalt-terapia. A prática da Gestalt-terapia se utiliza de recursos, técnicas e  experimentos para promover a possibilidade de conscientização do cliente sobre a  vida como sua própria criação, a fim de ampliar awareness, descobrir polarizações,  integrar forças conflitantes, trabalhar introjetos, energizar o sentir e o agir, estimular  novos autoconceitos e desenvolver auto suporte (ZINKER, 2007). Sendo assim, o  uso desses procedimentos foi ao encontro dos objetivos do grupo, pois para a  escolha profissional é imprescindível o autoconhecimento, a noção de  responsabilidade pelas escolhas e a possibilidade de entrar em contato consigo mesmo e também com o mundo circundante.

O primeiro encontro foi destinado à construção de um ambiente seguro e acolhedor  que abrisse espaço para a expressão das vivências e sentimentos, para a tomada  de consciência e para a escuta respeitosa das diferenças. Assim, a psicóloga  apresentou-se novamente, a proposta também foi reapresentada e foi reforçado o  objetivo de conhecer melhor a si mesmo e o processo de escolher, para somente  depois pensar nas profissões, sendo que a escolha em si poderia não ocorrer ao  final dos encontros.

Segundo Canedo (1997), a resolução da problemática ocupacional não  necessariamente acontece ao final da OP. Sabe-se que uma vez que se inicia um  processo de ampliação de contato e awareness, o processo de resolução se dará  naturalmente, no momento em que isso for possível para o indivíduo, podendo  ocorrer após o término dos encontros. Para Lilienthal (2013), ainda que no final dos  encontros a escolha não tenha sido realizada, o processo é válido por propiciar a  constatação da situação atual de ainda não estar pronto para escolher. Assim, esse  objetivo foi explicado para os jovens desde o início do trabalho.

Neste encontro ainda foram tiradas dúvidas e consolidadas outras questões do  contrato, como: horários, agenda de encontros, questões sobre faltas e outras  regras. Firmou-se também o compromisso de sigilo quanto aos relatos e  experiências vivenciadas no grupo, frisou-se a importância do comprometimento com o processo através da abertura para as atividades e propostas, mas, ao mesmo  tempo foi esclarecido que não havia obrigatoriedade em falar e participar das  atividades, principalmente quando os participantes não se sentissem preparados  para lidar com a situação.  

Na utilização de recursos, experimentos e técnicas gestálticas deve-se tomar  cuidado quanto à exposição a riscos demasiadamente grandes que intensifiquem  medos e bloqueios, pois o objetivo desses métodos é o oposto. Não se pode forçar  alguém a fazer experimentos ou utilizar recursos, uma vez que, muitas vezes, o  trabalho sobre a recusa em realizá-los já pode ser extremamente proveitoso  (BUROW; SCHERPP, 1985). A aplicação desse preceito facilitou o envolvimento  grupal. De início, alguns jovens já relataram gostar da ideia de não serem obrigados  a falar, jovens estes que, posteriormente, durante o decorrer do processo, foram  participativos e comunicativos.

No primeiro encontro ainda foi utilizado um recurso gráfico para apresentação do  grupo. Propôs-se que, em uma folha sulfite branca, desenhassem um cartão de  visitas contendo o que percebessem que seria mais importante sobre eles. O  objetivo dessa atividade foi conhecer como estava organizada a percepção que  tinham de si mesmos e o que escolhiam apresentar aos demais nesse início do  grupo. A discussão posterior deu-se sobre como foi fazer e apresentar o cartão de  visitas, e um dos jovens, nesse início, já demonstrou uma ampliação de awareness  sobre si mesmo. Relatou estranhar a atividade no começo e ao final ter gostado do  processo, pois com isso percebeu um movimento que geralmente faz frente a novas  situações.  

A partir desse relato, o grupo refletiu sobre suas reações diante do novo e a escolha  profissional como uma situação nova em sua vida. Nesse momento, a escuta  fenomenológica foi imprescindível para que a psicóloga pudesse acompanhar o  fenômeno que se delineava, a necessidade emergente de discussão e, então, abrir  espaço para que a energia fosse investida nessa direção.

Após esse primeiro encontro, os demais foram organizados começando com temas  e recursos que ampliassem o autoconhecimento através do contato com o mundo  interno e externo, proporcionando ampliação de awareness sobre como agiam no  mundo, sobre suas necessidades, sobre como o mundo circundante os influenciava,  suas características e projetos. Posteriormente, a temática ficou em torno do  escolher: responsabilização pelas escolhas, sentimentos derivados do ato de  escolher e de deixar de escolher algo. Somente por último o mundo do trabalho e as  profissões em si foram abordados.  

Tal delineamento se fez em função da visão gestáltica de que a experiência de  interação do sujeito com o meio somente é possível através do contato e da  awareness (FRAZÃO, 1999). O contato com a própria existência amplia a  awareness, por sua vez a awareness ampliada aumenta o contado com o que se é,  gerando totalidades novas e significativas e levando a integração de um problema  (YONTEF, 1998). Os jovens precisavam de início, dar-se conta do que eram  realmente, em detrimento do que gostariam que fossem e de seus introjetos sobre  como deveriam ser, para somente depois passarem para questões práticas sobre as  profissões.

Dessa forma, no segundo encontro, foi proposto que se falasse de questões  específicas para autoconhecimento. O objetivo dessa atividade mais estruturada foi  baixar a resistência e a ansiedade do grupo, as quais foram demonstradas através  das dúvidas e questionamentos. Para Zinker (2007, p. 47): “Todo movimento  desperta resistência. Como a experiência é um fluxo constante, também enfrenta  resistências internas.” Segundo o autor, fenomenologicamente resistência significa  um estado relutante que externamente denota rejeição a um comportamento,  conceito ou atitude, mas internamente é uma forma de preservação da integridade  pessoal. Assim, propõe que o gestalt-terapeuta trabalhe não apenas com o aspecto  cooperativo do indivíduo, mas também com o resistente. Nesse sentido, delimitar  temas visou ir ao encontro da proposta da Gestalt-terapia de não ir contra a  resistência, mas sim torná-la mais clara, mais consciente.  

Os temas foram questões sobre sonhos, hobbies, percepção da passagem do  tempo, preferências de disciplinas escolares, interações sociais, evolução escolar,  interesses, aptidões e expectativas. Pediu-se que aqueles que estivessem à  vontade falassem sobre o tema. Na discussão, os mitos ligados à vocação e à  relação hobbies-profissão-disciplinas escolares destacaram-se. No início, pouco  jovens falaram, mas ao final do encontro, percebeu-se que outros integrantes  começaram a falar sobre si ou comentar questões trazidas pelos demais. Com isso,  sentiu-se a diminuição da ansiedade e da resistência dos membros em relação uns  aos outros, à terapeuta e ao processo. Para Burow e Scherpp (1985, p. 95):  

“Através da participação dos membros do grupo no desenrolar dos  

trabalhos individuais, eles vão pouco a pouco aprendendo que seus  

próprios conflitos e problemas não são tão estranhos assim, mas  

aceitáveis. Pelo fato de que praticamente todos pessoalmente se  

empenham, cria-se passo a passo, um clima de confiança que permite  

maior franqueza”.

Após essa possibilidade de maior vínculo grupal, o terceiro encontro consistiu na  aplicação de um experimento. Primeiramente, discutiu-se a importância do  autoconhecimento para a escolha profissional e, depois, foi entregue uma folha de  papel sulfite para que fizessem nela o que desejassem. Após terminarem, foi  solicitado que falassem sobre a possível existência de uma relação entre o que  fizeram da folha sulfite e suas características.  

Buscou-se, através do experimento, utilizar da projeção para baixar a resistência e  trazer à consciência aspectos sobre si mesmo. À medida que expunham suas  percepções, ia-se trabalhando cada uma delas, desvelando estruturas que  revelaram polaridades desintegradas da experiência. Um dos jovens relatou que, no  local onde trabalha, os colegas haviam dito que ele era “chato, mas legal”; a partir  do contato com o mundo próprio, com os sentimentos e significados desse relato, foi  possível que ele percebesse suas características e as integrasse em um novo todo  significativo, entendendo o sentido de ser não “chato, mas legal” e sim “chato e  legal”, como um todo integrado e não excludente. Para Yontef (1998), a Gestalt terapia não trabalha com o conteúdo em si dos relatos, mas com a estrutura da  experiência a partir de questionamentos na forma “o que” e “como”. Tal método de  trabalho permite clarear a figura de contato e ampliar a awareness. Ainda segundo o  autor, “Mera awareness do conteúdo sem awareness da estrutura não está  relacionada com um contato organismo/ambiente energizado.” (p. 72).

Ao final desse terceiro encontro, os integrantes do grupo levaram para casa um  roteiro de perguntas para verificar a percepção que as pessoas que julgassem mais  próximas tinham sobre eles. Para Lilienthal (2013), esse passo é necessário, pois  nessa fase da vida há grande possibilidade de o sistema de referência ser baseado  no externo e não no interno.

O quarto encontro foi iniciado com o curtograma (ZANELLA; ZANINI, 2013) com o  propósito de que os jovens entrassem em contato com aquilo que gostam e não  gostam de fazer e como estão atendendo a essas necessidades. Após esse  recurso, foi pedido que olhassem para o que escreveram nele e os resultados das  pesquisas com as pessoas próximas. Após essa análise, iniciou-se a discussão a  qual caminhou por diferentes vertentes: 1) falta de contato consigo mesmo - através  do relato de duas jovens sobre suas dificuldades em fazer a atividade por não  disporem de tempo para pensar sobre elas mesmas; 2) necessidade de conhecer  características e limites antes de fazer escolhas - a partir da experiência  compartilhada de uma jovem que já não conseguia mais identificar o que fazia por  interesse ou por obrigação; 3) desejos dos pais em relação à escolha profissional  dos filhos - pela história de uma jovem que tomou consciência de que uma das  profissões que considerava partia de desejos da mãe e não dela; 4) introjeções – começando com o relato de dois jovens sobre como receberam as percepções dos  outros sobre eles.  

Percebeu-se, nesse encontro, que a fronteira que esses jovens construíram ao  longo de suas experiências pode ser modificada e reconstruída em função da  energia despendida para estabelecer contato. Para Polster & Polster (2001), fazer  contato é implicitamente a possibilidade de mudança, é incompatível com  permanecer o mesmo. Através do contato, a pessoa é capaz de apropriar-se do que  é assimilável ou rejeitar o que é inassimilável, o que inevitavelmente levará à  mudança. Ribeiro (1994, p. 29) acrescenta que “[...] só no contato profundo e  verdadeiro é possível que o ser humano se reencontre e, nesse reencontro,  encontre a alegria de ser pessoa”.

O quinto encontro tratou dos tempos passado, presente e futuro, através de uma  viagem de fantasia (STEVENS,1977). Para a Gestalt-terapia, entender o homem  enquanto unidade passado-presente-futuro implica considerar o presente como  tempo de contato e transformação do passado e do futuro. No presente estão  contidos ambos os tempos (BUROW; SCHERPP, 1985). A viagem de fantasia,  enquanto experimento que possibilita o contato com a experiência, foi utilizada com  esse intuito de integração, visando que os adolescentes tomassem consciência da  totalidade de sua história temporal no momento presente do grupo, no aqui-e-agora.

Assim, após relaxamento inicial, os jovens foram conduzidos a um retorno ao seu  passado, pela casa da infância, brincadeiras, heróis, desenhos favoritos, medos,  relações interpessoais da época, “o que queriam ser quando crescer”. Aos poucos,  os anos foram se passando; pedia-se que fossem lembrando suas características  físicas, sua forma de se relacionar, suas preferências em cada época, qual o espaço  que aquela criança que foram ainda ocupava em suas vidas até que chegassem aos  dias atuais, entrando em contato com as situações que estão vivendo e a forma  como se percebem no aqui-e-agora para que pudessem se projetar no futuro.

Após o retorno da fantasia, os jovens utilizaram recortes de revistas para expressar  a experiência. A reflexão ficou em torno dos medos e brinquedos de infância, que  levaram ao reconhecimento de características atuais que os acompanham desde a  infância, ainda que de forma diferente. Também foi abordado o tema confiança a  partir de relatos sobre como agem atualmente em trabalhos de escola, sobre suas  dificuldades em confiar nos colegas e, a partir desses relatos, puderam tomar  consciência de que a questão estava relacionada a aceitar formas diferentes de  realizar as atividades, a aceitação da alteridade e do que foge ao controle.  

Todos esses conhecimentos foram atingidos através do trabalho fenomenológico existencial do “como” da experiência que os jovens relatavam e não partindo de  teses pré-concebidas ou temas pré-definidos. Para a Gestalt-terapia, significado e  experiência relacionam-se mutuamente, revestindo-se de valor único e específico  para cada um, por isso descarta-se a interpretação a partir de teorias  preconcebidas, deixando que a experiência e a vivência tenham valor independente,  e que o significado seja desenvolvido (BUROW; SCHERPP, 1985).

No final do encontro, ainda relataram a experiência sobre se projetar no futuro e a  relação intrínseca que havia com a escolha profissional. E ainda: sobre como  imaginavam o estilo de vida de certos profissionais, as pessoas com as quais se  relacionavam, o lugar de trabalho e, a partir desses relatos, foi possível trabalhar  expectativas, distorções e fantasias em relação às profissões.

No sexto encontro, os jovens já possuíam maior contato com o mundo interno e  circundante e, assim, foi possível trabalhar o escolher. Para Polster & Polster  (2001), é através da fronteira de contato que é possível fazer escolhas, pois é ela o  limite que diferencia as pessoas. As escolhas conscientes também estão ligadas ao  processo de autorregulação dos indivíduos, que trata de uma resposta intencional  do indivíduo ao ambiente, um balanço entre os recursos e possibilidades internas e  externas frente às situações e não uma resposta adaptativa (CANEDO, 1997;  D’ACRI; LIMA; ORGLEY, 2007; BARONCELLI, 2012).  

Para trabalhar tal tema, utilizou-se o filme “Universidade dos Monstros” – Universal  Studios. Antes do início houve uma breve reflexão a respeito da responsabilidade  sobre as próprias escolhas e da necessidade de que estas sejam feitas de forma  consciente, para que não fossem irresponsáveis consigo mesmo. Partiu-se de uma  atitude existencialista nesse momento. Após o término do filme, pediu-se que os  jovens anotassem tudo o que havia despertado de reflexão sobre escolhas e  sentimentos para ser discutido no próximo encontro.

O sétimo encontro foi dedicado às reflexões e sentimentos derivados do filme. Os  jovens relataram que passaram a entender de forma diferente a necessidade de  pesar diversos fatores na escolha. Disseram que todos já haviam assistido ao filme  anteriormente e, nas demais vezes, não haviam percebido todas essas questões.  Até este momento muitos talvez estivessem vivendo uma awareness parcial que,  segundo D’Acri, Lima e Orgley (2007), pode-se tratar de um conhecimento cognitivo não  acompanhado da presentificação do sentimento ou da expressão de emoções por  meio da dimensão física, mas sem conhecimento cognitivo.

Pôde-se perceber que, através da liberdade para criar e explorar os níveis  constituintes básicos do contato – sensório, motor e cognitivo –, a Gestalt-terapia  propiciou que os jovens se experienciassem cada vez mais. E, a experiência de forma global, no todo físico e psíquico, por meio dos diferentes recursos e do  contato autêntico chega ao Ah! da descoberta (BUROW; SCHERPP, 1985; ZINKER,  2007). Todo o trabalho realizado anteriormente aumentou o contato com o mundo  interno e com o meio externo dos jovens, levou ao autoconhecimento, à  energização das necessidades e a um continuum de awareness que possibilitou  que, neste momento, chegassem a essa experiência qualitativamente diferente das  demais vezes que haviam assistido ao filme. Ocorreu uma mobilização interna que  os levou a uma percepção diferenciada.  

Muitos adolescentes relataram identificar-se com diferentes personagens do filme e  puderam relacionar a atual escolha profissional com sonhos de infância, com  desejos familiares, com habilidades que reconheceram em si. Um dos relatos,  trabalhado a partir das estruturas da narração e não do conteúdo em si (RIBEIRO,  2011), permitiu que o adolescente entendesse qual característica dele o sonho  profissional que tinha na infância revelava. Percebeu também que isso não  significava que essa profissão necessariamente deveria ser seguida, mas que essa  característica precisava ser considerada enquanto parte dele que poderia ser  atendida em outras profissões. A partir de algo que faz parte da vida cotidiana  desses jovens – um filme – foi possível caminhar ao encontro da totalidade, da  integração do sentir, pensar e agir.

O oitavo encontro ainda girou em torno do escolher. Foi realizado o “Stop das  Profissões”, uma adaptação do recurso proposto por Zanella e Zanini (2013). Era  tirada uma letra através do método tradicional da brincadeira “Stop” e essa letra  serviria para escolher a profissão sobre a qual teriam que escrever: o local de  trabalho, a principal habilidade necessária para a profissão, as pessoas com as  quais o profissional convive, o estilo de vida que leva, o status da profissão, uma  característica do profissional, o mercado de trabalho e um defeito associado a estes  profissionais (estes itens não eram preenchidos necessariamente com a letra  sorteada). Novamente, através de métodos que permitem baixar a resistência e  utilizar da projeção, foi possível tratar sobre fatores importantes a serem  consideradas na escolha profissional. Todos os itens foram trabalhados como  necessariamente implicados com a escolha consciente e responsável. Após o jogo,  também foi possível reconhecer características e necessidades que estavam  associadas às profissões e que, ao escolher uma profissão em prejuízo de outra,  teriam que procurar outras formas de atender às outras partes deles que estavam  relacionadas com as profissões que não foram escolhidas. Para isso, foi necessário  trabalhar o contato e awareness sobre essas partes. Para Lilienthal (2013), é o  desenvolvimento de auto suporte que torna possível fazer ajustamentos criativos  para atender suas diversas partes que reclamam por atenção.  

No nono encontro, foi realizada a Técnica R.O. de Sturm (1998), cujo objetivo  principal é o contato ativo com as diferentes profissões, inclusive as que não  estavam no rol de profissões discutidas pelos jovens. Foram fornecidos aos jovens  cartões com os nomes das diferentes profissões e deu-se a instrução que elas  representariam pessoas. Os jovens precisavam estabelecer relações entre elas,  como se fossem famílias, e depois apresentá-las. Essa técnica foi trabalhada a  partir da perspectiva fenomenológica de investigação do fenômeno e permitiu o  contato com profissões que ainda não haviam sido citadas no grupo e autocorreção  de informações deficientes sobre as profissões. Nesse encontro, a psicóloga também fez uma explanação sobre a configuração do Mundo do Trabalho. Foram  discutidas as diferentes formas de inserção profissional: cursos profissionalizantes,  cursos tecnológicos, auto emprego, empreendedorismo, cooperativismo e vínculo  empregatício. Nesse momento, foi possível identificar e trabalhar questões ligadas à  situação socioeconômica dos jovens, seus sentimentos, receios, perspectivas,  imagens sociais. Segundo Baroncelli (2012, p. 96):

“[...] não podemos ignorar o fato de que lidamos com uma escolha livre e  

situada num sistema cultural, econômico e político específico. Com isso,  

estudar sobre o mundo do trabalho atual, seus aspectos políticos e  

econômicos, a realidade dos jovens e adultos brasileiros no mercado de  

trabalho e as oportunidades e obstáculos existentes, além de ter uma visão  

crítica sobre a concretude da existência do indivíduo que escolhe num  

contexto dado, dentre outros aspectos, faz parte da formação de um  

orientador profissional gestáltico tanto quanto sua compreensão e domínio  

da teoria e metodologia da abordagem”.

Trabalhar essas questões faz parte do entendimento de que esses jovens não  podem ser vistos sem o contexto real em que vivem, mas que também não são  somente determinados por esse contexto. São organismos em um meio que  possibilita recursos para agirem e que, dialeticamente, ao agirem podem mudar  esses recursos. Autorregulam-se e promovem ajustamentos criativos  constantemente.  

No décimo e no décimo primeiro encontros foram realizadas palestras de meia hora  por diferentes profissionais escolhidos pelo grupo: Médico, Pedagogo, Advogado,  Engenheiro, Arquiteto, Médico Veterinário, Assistente Social e Enfermeiro. Nesse  espaço, o foco foi proporcionar que entrassem em contato com a vivência desses  profissionais e explorassem questões do mercado de trabalho.

No décimo segundo encontro foi realizado um fechamento com o grupo através de  recursos gráficos. Foram disponibilizados revistas, lápis de cor, canetinha,  diferentes tipos de papéis e cartolinas. O grupo fez um painel representando o que o  processo havia significado para eles e, depois, preencheram uma avaliação do  projeto.

Após o fechamento, ainda houve entrevistas individuais com os jovens para que  pudessem relatar experiências individualmente, contar mais detalhadamente como  estava o processo de escolha e discutir questões que ainda restaram.  

No fechamento do grupo, nem todos os jovens haviam realizado a escolha, e os que  se mostravam decididos entenderam que esta era a escolha do momento presente  e não necessitava ser uma escolha definitiva e rígida (CANEDO, 1997). Assim, ao  final do grupo, o processo de escolha estava conforme registrado na tabela abaixo:

Nome  

Fictício

Início do grupo

Após o grupo

A1

Medicina e Pedagogia

Medicina

A2

Direito, Engenharia Civil,  

Audiovisual

Direito

Revista IGT na Rede, v. 11, nº 21, 2014. p. 261 – 281. Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526

278

MENEZES, Karina Junqueira, OVELAR, Sílvia Oliveira de Alencar, OLIVEIRA, Evelyn Denisse Félix  de - Gestalt-terapia e orientação profissional: um relato de experiência

A3

Não havia pensado em nenhuma  profissão

Educação Física

A4

Arquitetura, Psicologia e  

Enfermagem

Arquitetura e Psicologia

A5

Engenharia Agrônoma e Medicina  Veterinária

Engenharia Agrônoma e Medicina  Veterinária

A6

Engenharia Mecatrônica, Design  de Jogos ou Robótica

Engenharia Mecatrônica

A7

Engenharia Civil

Engenharia Civil

A8

Administração e Direito

Administração e Direito

A9

Engenharia Agrônoma e Música

Sociologia e Direito

A10

Pedagogia

Pedagogia

A11

Bombeiro e Jogador de Futebol

Bombeiro

A12

Não havia pensado em nada

Saiu do grupo antes do término

A13

Direito

Direito

A14

Pedagogia

Pedagogia

A15

Serviço Social

Serviço Social

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A experiência relatada buscou demonstrar como conceitos centrais da Gestalt terapia foram aplicados à OP na modalidade clínica. Os adolescentes participantes  chegaram ao grupo pela necessidade da escolha profissional. Demonstravam pouco  contato com eles mesmos e com o mundo externo. Parecia haver awareness parcial  do todo e um processo de autorregulação bloqueado. A visão gestáltica propiciou  meios para que o processo de autorregulação pudesse ser desbloqueado através  do autoconhecimento, da ampliação da percepção do todo, da conscientização  sobre responsabilidades e escolhas, da integração do sentir, pensar e agir. Tal  caminho permitiu que esses jovens pudessem reconhecer suas reais necessidades,  formar Gestalten claras e, consequentemente, iniciar um processo de ajustamentos  criativos para atender suas necessidades, e não apenas realizar escolhas  meramente adaptativas. Portanto, os conceitos e métodos da Gestalt-terapia  demonstraram atender aos objetivos da OP clínica.  

A postura do Gestalt-terapeuta foi de acompanhar o fenômeno e instrumentalizar os  clientes para que pudessem desenvolver um auto suporte e um agir autônomo. Isso  foi possível através da abertura às experiências, sem avaliá-las ou julgá-las,  atentando-se para cada fenômeno que se desdobrava e revelava mais uma parte do  todo. Foi uma atitude Eu-Tu, do relacionamento entre pessoas que se implicaram  ativamente na vivência do processo em que encontros verdadeiros e transformadores ocorreram para ambas as partes. Para os adolescentes, no  desenvolvimento de maior contato consigo e com mundo para o atendimento às  suas necessidade e para o agir empático. Para a terapeuta, um encontro  engrandecedor não apenas profissionalmente, com o aprofundamento dos estudos  na área da OP e Gestalt-terapia, mas também pessoalmente, a partir da  possibilidade de observar o desabrochar humano através de um encontro  verdadeiro entre pessoas.

Os conceitos e métodos gestálticos aqui apresentados representam parte do todo  da abordagem gestáltica. Diversos outros conceitos poderiam ter sido abordados  para discutir a OP, pois esta não se esgota nos temas discutidos. Ela é um todo  muito mais complexo que necessita da interação dialética dos outros pressupostos  para que possa ser compreendida em sua íntegra. Portanto, este artigo não  pretendeu dar conta de tudo que a abordagem gestáltica pode contribuir para a  chamada OP na modalidade clínica, mas sim clarificar os temas que se destacaram  na experiência do grupo relatado. Temas os quais sempre foram centrais para a  Gestalt-terapia e, agora, passaram a receber maior atenção por outras abordagens  a partir de outras nomenclaturas.  

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Endereço para correspondência:

Karina Junqueira de Menezes

E-mail: karinajmenezes@yahoo.com.br

Silvia Oliveira de Alencar Ovelar

E-mail: soapsigt@yahoo.com.br

Evelyn Denisse Felix de Oliveira

E-mail: evelyn_psi@hotmail.com

Recebido em: 12/11/2014

Aprovado em: 10/12/2014

NOTAS

Karina Junqueira de Menezes - Gestalt terapeuta clínica com Formação em Gestalt terapia pelo IGT-MS (Instituto de Gestalt Terapia do Mato Grosso do Sul) e, Formação em Atendimento Infantil e Adolescentes pelo IGT-MS.

Silvia Oliveira de Alencar Ovelar - Mestre em Psicologia. Gestalt-terapeuta clínica.  Professora da graduação de Psicologia da Universidade Católica Dom Bosco.  Professora do Instituto de Gestalt-terapia do Mato Grosso do Sul

Evelyn Denisse Felix de Oliveira - Mestre em Psicologia. Gestalt terapeuta clínica.  Professora da graduação da Universidade Católica Dom Bosco. Professora do  Instituto de Gestalt-terapia do Mato Grosso do Sul

Revista IGT na Rede, v. 11, nº 21, 2014, p.261-281 DOI 10.5281/zenodo.15048404

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526