ARTIGO

A Presença, a relação, o afeto e o afetar. Observando práticas  grupais

The Presence, the relation, the affection and affecting. Watching group  performances

Marcelo Pinheiro da Silva

RESUMO:

Nesse artigo faço o relato de um trabalho de grupo realizado com uma turma  de especialização em psicologia clínica. Esta atividade teve como tema o  trabalho com sonhos desenvolvido em grupo dentro de um referencial  gestáltico. Discuto nuances deste trabalho, apontando o sentido das  intervenções realizadas. Focalizo em especial aspectos ligados ao afeto e ao  afetar nesta dinâmica. Utilizo a colaboração da autora Vinciane Despret para  auxiliar nesta discussão.

Palavras-chave: Gestalt-Terapia; Grupo; Sonho; Afeto; Afetar; Ator-Rede

ABSTRACT:

In this article I report a group work performed with the clinic psychology post graduation class. This activity had as main subject the work with dreams  developed in a gestalt reference. I debate the nuances of this work, pointing out  the sense of the interventions performed. I focus on special aspects attached to  the affection and affecting in this performance. I resort to Vinciane Despret's  help in order to fulfill this discussion.

Keywords: Gestalt-Therapy; Group; Dream; Affection; Affect; Actor-Network

Este artigo tem como tema o afeto e o afetar nas relações estabelecidas em  um trabalho realizado durante o treinamento de uma turma de especialização  em psicologia clinica. Meu objetivo é investigar aspectos da vinculação afetiva  e do processo de afetação/transformação experimentados nesta situação. Para  tal, coerente com a perspectiva Ator-Rede, parto da descrição detalhada de  minha experiência na coordenação do trabalho realizado. Nesta descrição  busco observar em especial a dinâmica afetiva, isto é, o afeto e o afetar, a  partir de minha relação de coordenador com os membros deste grupo. Após  esta discrição busco interlocução com um dos trabalhos de Vinciane Despret para auxiliar na discussão de algumas nuances importantes encontradas em  minha investigação.

Estávamos em Mendes com uma turma de quarto semestre de curso de  especialização1. Este grupo era composto por 9 alunos 7 mulheres e 2  homens. Na parte da manhã eles trabalharam com a coordenação de outra  psicóloga. Eles fizeram um trabalho com o que chamamos de escultura2. Este  tipo de atividade é muito interessante no sentido de facilitar com que cada um  identifique nuances de sua forma de interagir dentro do grupo. É um trabalho  que tende a mobilizar afetivamente as pessoas de forma intensa. Assumi a  turma na parte da tarde, após o almoço e um intervalo de descanso. Convidei o  grupo para trabalharmos no salão de jogos - um grande salão no qual temos  uma mesa de sinuca, uma mesa de pingue-pongue e duas mesas para jogos  de carta.  

Eu sabia que naquele dia eles já haviam vivido uma série de emoções juntos e  sem a minha presença. Por mais que eu conhecesse bem aquela turma, e me  sentisse muito a vontade com aquelas pessoas, era como se estivesse  "pegando o bonde andando". Senti necessidade de chegar devagarzinho.  Precisava conseguir me conectar com o grupo, estabelecer uma relação. Eles  estavam compartilhando um determinado campo relacional desde cedo, eu não  queria me aproximar de forma abrupta. Não queria estabelecer um corte, mas  sim entrar no bonde, isto é, me apropriar do clima existente e a partir daí levar  o grupo para o trabalho que precisava desenvolver.

Eu tinha a nítida sensação de que destruir aquele contexto emocional para  construir um novo seria muito menos produtivo, no que se refere aos objetivos  que eu tinha naquele momento, do que conseguir me conectar àquele campo  afetivo que já existia. Esta sensação ficou presente em mim em função das  informações que recebi sobre a intensidade da dinâmica que havia sido  realizada na parte da manhã e em função do clima intimista que percebi  imediatamente quando entrei na sala para iniciar meu trabalho.  

 

1Este curso “Especialização em Psicologia Clinica Gestalt-Terapia Individuo, Grupo e Família” tem  duração de 5 semestres tendo o aluno mais um semestre para apresentar uma monografia. 2Escultura é um trabalho experimental no qual os membros de um grupo que tem uma história  pregressa são convidados a produzir esculturas que, de alguma forma, explicitem aspectos  fundamentais da dinâmica daquele grupo, focalizando em especial a inserção de cada membro do grupo  no mesmo. Este trabalho normalmente é seguido de uma discussão verbal.

Estamos falando de uma espécie de campo afetivo, um tipo de conexão afetiva  que estava presente entre aquelas pessoas. Este tipo de afeto com certeza tem  relação com a história daquele grupo, mas também diz respeito a algo local, a  algo daquele momento, é uma espécie de ligação afetiva que estava intensa de  forma singular naquele instante e que, porque era daquele instante, não se  manteria da mesma forma posteriormente, por mais que de certo deixaria  rastros nos momentos futuros.

Quando entrei na sala a turma estava reunida em um canto, as luzes estavam  apagadas, tornando ambiente um tanto sombrio. Optei por não acender as  luzes e me aproximar do canto onde estava a maioria das pessoas. Convidei  os que estavam mais distantes a fazer o mesmo.

Dentro deste contexto busquei introduzir nossa próxima atividade. Iríamos  trabalhar com sonhos. Conversamos por cerca de meia hora naquele ambiente  de penumbra, falando ainda de forma teórica sobre as várias maneiras  possíveis para fazer trabalhos com sonhos dentro de uma perspectiva  gestáltica3.

Meu objetivo neste primeiro momento foi tanto de passar um conhecimento  teórico para aqueles alunos como também, e principalmente, de começar a  criar liga para o que viria depois. Aquela troca verbal me permitiu identificar  pistas sobre o clima do grupo e sobre a presença e a disponibilidade de cada  

um dos membros para estar naquela sala fazendo um trabalho vivencial com  sonhos. O escurinho da sala ajudava a trazer o clima onírico.

À medida que eu ia descrevendo diversas formas de trabalho com sonhos, foi  possível perceber a curiosidade de vários deles se intensificando.  Gradativamente fui percebendo a turma se envolvendo naquele tema. A coisa  foi se dando num crescente e o movimento para experimentar na prática o que  estávamos falando na teoria se deu de forma extremamente natural.

Em uma segunda etapa, já insinuando algo mais vivencial, pedi, de forma  cuidadosa, para que os alunos lembrassem de sonhos significativos. Depois  disso solicitei a que as pessoas que se sentissem confortáveis, contassem para  o grupo sobre os sonhos que recordaram. Vários deles contaram seus sonhos.  Alguns sonhos bem antigos, alguns sonhos recorrentes, outros ligados a  acontecimentos mais recentes.

Até este momento eu estava trabalhando com a turma toda junta, isto é,  ninguém estava ocupando um papel diferenciado. A turma estava envolvida, eu  já experimentava uma conexão firme com um grupo. O campo de trabalho já  estava pronto para seguirmos adiante.

Escolhi trabalhar o sonho de uma das integrantes do grupo. Fiz esta escolha  com firmeza suficiente para definir o caminho, mas me coloquei com uma  postura de consulta em relação ao grupo, de forma a que os vários integrantes  

 

3Existem varias formas que, tradicionalmente, são utilizadas no trabalho com sonhos em grupos dentro  de um viés Gestáltico, inclusive a forma que inspirou o trabalho que fiz com este grupo especifico. Ver  mais em Perls (1988).

pudessem falar da adequação da escolha. Meu o objetivo naquele momento foi  de dirigir, mas sem deixar de escutar os membros do grupo.  

Os fatores que definiram minha escolha foram: o primeiro teve a ver com a  pessoa que trouxe o sonho. Optei por uma pessoa centrada que tem uma  vinculação bastante consistente com a maioria dos membros do grupo.  Percebia também uma vinculação afetiva bem forte entre ela e eu. Este  contexto me dava bastante segurança para trabalhar com ela. Sabia que  conseguiria me fazer entender com facilidade em nossa interação e sabia  também que ela se sentia segura na relação comigo e com o grupo.  

O segundo fator foi o próprio sonho que ela havia trazido. Era um sonho que  tratava de questões bastante atuais e que mexia com aspectos da forma como  ela se relacionava com algumas pessoas que faziam parte do seu dia-a-dia.  Existia uma probabilidade muito grande de este sonho trazer condições para  um trabalho interessante e produtivo.

Após checar a disponibilidade desta aluna para trabalharmos com seu sonho,  solicitei que ela narrasse o mesmo no presente, como se estivesse  acontecendo naquele momento. Durante a narrativa, busquei identificar as  partes do sonho que pareciam mais importantes, isto é, que trazia uma carga  emocional mais intensa, e ou um potencial simbólico que me parecesse mais  rico, levando em consideração o que eu já conhecia sobre aquela aluna.  

No momento seguinte convidei-a para que juntos escolhêssemos a parte do  sonho que iríamos trabalhar. Para tanto utilizei as informações que obtive de  minhas observações enquanto ela narrava o sonho, somadas a percepção da  própria aluna. Era fundamental que a parte do sonho a ser trabalhada fosse  importante para a aluna e que também fosse instigante para mim. Nós dois  iríamos trabalhar juntos com aquele sonho. Quanto mais cada um de nós  estivesse conectado ao que iria acontecer, maior seria a probabilidade de que  o que viesse dali fosse algo enriquecedor.

Não vou entrar em detalhes sobre o sonho. Trabalhamos a partir de uma  dramatização na qual ela escolhia entre os membros da turma pessoas para  fazerem os personagens de seu sonho. Os personagens poderiam ser  pessoas, objetos, sentimentos ou qualquer outro aspecto que tivesse aparecido  no sonho e que viesse a parecer importante no momento em que ela narrou o  sonho antes de encená-lo.

Por acaso, os personagens escolhidos desta vez eram todos humanos. Incentivei-a a selecionar seus atores escolhendo entre seus colegas aqueles  que, por seus traços de personalidade, se encaixavam mais com cada um dos  personagens.  

A escolha dos atores a partir das características dos personagens fez com que  cada um dos membros daquele grupo se percebesse envolvido no processo.  Esta dinâmica colocava em cena nuances sutis das percepções que aquela  aluna tinha a respeito de cada um dos membros daquela turma. Até as  pessoas que não foram escolhidas para ocupar os papeis de personagens  centrais também estavam envolvidas, já que até o fato da não escolha tinha algo a contar sobre a forma com que nossa personagem principal as  enxergava.

Personagens definidos, atores escolhidos, solicitei que ela dirigisse sua cena e  ao mesmo tempo participasse, interpretando seu próprio papel na  dramatização. A direção da dramatização já foi bastante mobilizante. A  dramaticidade da cena foi intensa, tive a impressão de que toda a turma se viu  tocada naquela situação.

A partir da segurança daquele contexto, optei por dar um passo além. Um dos  temas centrais do sonho tinha relação com ser agredida e agredir.  Nitidamente ela só se identificava com o ser agredida. Convidei-a a assumir o  papel de uma das agressoras. Era muito provável que ela tivesse dificuldades  para representar este papel. Meu objetivo era que ela se aproximasse destas  dificuldades dentro deste contexto de segurança.  

Assim que fiz o convite, um dos alunos perguntou se ela teria condições de  fazer aquele papel naquele momento. Optei por ignorar aquele comentário e  assumi a direção da cena, colocando-a para interpretar o papel da agressora.  Assim que ela fez as primeiras ofensas transbordou em choro. Neste instante  interrompi a cena e convidei todos a sentarem para podermos trocar sobre o  que foi vivido.

Existia uma comoção intensa no ar, busquei me sentar no mesmo lugar que  havia sentado no momento que entrei na sala, no início de nossas trocas.  Alguns fatores me levaram a manter esta postura: o primeiro foi dar suporte ao  grupo como um todo. Esta atitude sinalizava para o grupo que estava tudo  bem, que não existia necessidade de algum tipo de socorro urgente. Outro  aspecto que definiu esta escolha teve relação com o fato de que as ofensas  que apareceram no sonho traziam temáticas ligadas à conduta dela como  mulher. Este era mais um motivo para que eu não buscasse uma proximidade  física, o que já seria pouco provável, independente do tema em questão.

Da mesma forma que eu, todos se sentaram nos seus lugares de origem. Um  aluno do sexo masculino que estava originalmente sentado ao lado dela, fez  sinal para uma integrante do sexo feminino que tinha uma ligação marcante  com nossa personagem principal trocasse de lugar com ele, de forma que as  duas ficassem próximas. Não interferi neste movimento.  

Assim que sentamos, convidei-a a ficar com seus sentimentos e dentro do  possível a nos contar o que estava experimentando. Pouco a pouco, ela foi  retomando o controle e tivemos a oportunidade de experimentar uma troca  íntima segura e produtiva. O grupo todo pareceu ter sido tocado por aquela  experiência.  

No dia seguinte tivemos a aula de avaliação do workshop, neste novo contexto tivemos a oportunidade de trocar experiências sobre o acontecido e os relatos  foram bem interessantes.

O aluno que havia perguntado se ela estaria em condições de assumir o papel  de agressora, no instante em que ela se mobilizou de forma intensa, em um primeiro momento achou que eu havia cometido um erro, porem, à medida que  as coisas foram se desenrolando após a mobilização, ele foi se dando conta de  que o que ocorreu depois foi interessante, produtivo e que ela saiu muito bem  da experiência vivenciada.

Na avaliação do processo tivemos a oportunidade de conversar sobre o quanto  este tipo de trabalho só cabe em situações seguras, como a que aquela turma,  que já estava junta há bastante tempo, podia proporcionar.

No momento em que fiz esta discrição escrita daquela experiência, tive  condição de identificar o sentido de uma série de decisões que tomei ao longo  do processo. Muitas escolhas que fiz foram pré-reflexivas. Isto significa que  agi antes para depois pensar no sentido de minhas ações. De forma alguma  isto significa que estas ações se deram de maneira inconsequente. Toda a minha história como psicólogo, o acúmulo de minhas experiências anteriores  se fizeram presentes nos momentos de minhas decisões.  

Um psicólogo experiente e bem posicionado pode tomar decisões extremamente coerentes no desenvolvimento de seu trabalho, mesmo sem ter  condição de naquele exato instante descrever os motivos de sua escolha.  Estou chamando de bem posicionado o psicólogo que não está diante de  algum ponto cego4ou que não esteja por algum motivo fora de seu centro.

O processo de aproximação em relação ao grupo que descrevi envolve  justamente esta busca de estar centrado e presente na relação com o grupo.  Esta presença, este estar conectado, vigilante e atento é fundamental para conseguir acompanhar o grupo, para estabelecer relação com um grupo. É  uma espécie de ajuste fino onde uma certa dança se estabelece.  

A metáfora da dança é muito adequada para tratarmos deste tema. Para que  uma dança a dois seja harmônica, é fundamental que exista interação e ao  mesmo tempo espontaneidade. Se existir a interação e não existir  espontaneidade a dança será mecânica e sem brilho. Se existir  espontaneidade e não existir interação, a dança não será harmônica. Isto é, o  caminho de um não influenciará diretamente o caminho do outro. Cada um  seguirá seu rumo, sem que uma sintonia se estabeleça. As escolhas de um  não afetarão as escolhas do outro.

A presença envolve justamente este estar sensível de forma a se deixar tocar  pelo outro, porém ao mesmo tempo estar presente no sentido de participar de  forma coerente e espontânea da definição dos caminhos. Não estamos  falando de um acompanhar passivo e, sim de uma troca ativa onde eu  acompanho e me faço acompanhar.

 

4Todo ponto de vista traz luz a um horizonte específico. A ideia de ponto cego aqui se refere a  possibilidades de percepção que não se mostram possíveis a partir do ponto de vista de onde  um determinado terapeuta está olhando. Dentro desta perspectiva a história pessoal deste  terapeuta e suas características emocionais têm um papel muito importante na construção de  seu ponto de vista.

Na descrição acima eu cheguei devagar, sem muito alarde e aos poucos fui  conduzindo grupo por terrenos delicados e intensos. Nós tivemos a  oportunidade de experimentar juntos sentimentos muito fortes. Isto só foi  possível pela firmeza da dança que se estabeleceu. Dança que envolveu os  membros do grupo, envolveu a mim como coordenador, envolveu o local em  que estávamos, as estradas que já havíamos caminhado juntos, o fato de as  pessoas estarem alimentadas e descansadas e inúmeros outros fatores. Todo  um caminho precisou ser trilhado junto ao grupo para que as condições  necessárias para o que pudemos viver estivessem presentes naquele  momento.

Tivemos também actantes5não humanos que compareceram por terem sido  convidados e outros que estiveram presentes por simples casualidade. As  luzes apagadas não estavam no script, porém contribuíram de uma forma  marcante para construção do clima que vivenciamos. A pousada  originariamente era um sítio de família para onde muitas vezes mobílias antigas  foram levadas. No salão de jogos poltronas antigas convivem com cadeiras de  plástico, mesa de pingue-pongue, uma mesa de sinuca tradicional daquelas  enormes, quadros antigos, entre outros objetos. De certa maneira este  ambiente mesclado também colaborava com o clima onírico que  experimentamos.

A temperatura agradável, que existia naquele dia, permitiu que pudéssemos  nos instalar confortavelmente naquele ambiente. Se tivéssemos em um dia  quente de verão isto não seria possível. Outros caminhos seriam percorridos, e o que viria desta nova condição, não temos como saber.

A dança em si terminou sendo fundamental para a construção de um certo  conhecimento muito especifico acerca de cada um dos participantes da  mesma. De certo modo a harmonia e a intensidade da troca estabelecida naquele contexto permitiu, entre outras coisas, que aspectos marcantes da  forma com que cada uma daquelas pessoas habitaram aquele espaço ficassem  explícitas. Na medida em que trocamos verbalmente após a experiência, várias  pessoas conseguiram estabelecer relações entre a postura que  experimentaram naquele instante e suas formas de estar no mundo de maneira  geral, em especial a pessoa que trouxe o sonho.

A partir de uma experiência local, desenvolvida em uma situação única e  impossível de ser repetida, uma série de conhecimentos foram construídos e  estes conhecimentos transformam vidas. Foram conhecimentos construídos  sob medida, acerca daquelas determinadas pessoas em um determinado  momento especifico. Foram conhecimentos desenvolvidos a partir da ação, no  movimento. Foram conhecimentos que não se forjaram apenas a partir de uma  aproximação teorizante, com isto não são conhecimentos planificados. São  conhecimentos brutos que dão margem a inúmeras novas construções, como  as que estou fazendo neste momento ao redigir este texto. Enquanto estou  

 

5Actante - termo utilizado no lugar de “ator” dentro da tradição Ator-Rede em função da  tendência a se associar o termo “ator” com a figura humana.

redigindo, estou mapeando o terreno, explorado e conseguindo dar nome a  várias nuances interessantes das experiências vividas.

As atitudes tomadas parecem se manter vivas como actantes, atuam  influenciando diretamente as palavras que brotam em minha mente à medida  em que busco me aproximar daquela experiência vivenciada. Parece existir  uma qualidade especial neste conhecimento construído a partir do ato.  Acredito que Despret pode contribuir com nossa discussão neste momento.

“Um dos exemplos mais explícitos é analisado pela filósofa Donna  

Haraway, quando ela evoca o trabalho de campo da primatóloga de  

babuínos Barbara Smuts. Quando ela iniciou seu trabalho de campo  

em Gombé, na Tanzânia, Barbara Smuts quis fazer como lhe haviam  

ensinado: para habituar os animais, era necessário aproximar-se  

progressivamente. A fim de evitar influenciá-los era preciso agir como  

se ela fosse invisível, como se ela não estivesse lá (Reação).  

Tratava-se, como ela explica, "ser como um rochedo, não disponível,  

de tal sorte que ao final os babuínos se dedicariam a seus assuntos  

como se o humano coletor de dados não estivesse presente." Os  

bons pesquisadores são portanto aqueles que, aprendendo a ser  

invisíveis poderiam ver a cena da natureza de perto "como através de  

um furo num muro". Entretanto, praticar a habituação tornando-se  

invisível é um processo extremamente lento, penoso, freqüentemente  

condenado ao fracasso; todos os primatólogos concordam. E se é  

assim, é por uma simples razão: porque ele aposta no fato de que os  

babuínos serão indiferentes à indiferença. O que não podia escapar a  

Smuts no curso de seus esforços é que freqüentemente os babuínos  

a olhavam e que quanto mais ela evitava seus olhares menos eles  

pareciam satisfeitos. A única criatura para a qual a cientista por assim  

dizer neutra estava invisível era ela própria. Ignorar os índices sociais  

é tudo menos ser neutro. Os babuínos deviam perceber alguém fora  

de toda categoria - alguém que finge não estar lá - e se perguntar se  

este ser podia ser ou não educado segundo os critérios do que faz  

um hóspede polido entre os babuínos.  

Como Smuts resolveu a situação é simples de dizer, bem menos de  

fazer; ela adotou um comportamento similar aos babuínos, ela adotou  

a mesma linguagem corporal que eles, ela aprendeu o que se faz e  

não se faz entre os babuínos. [...] Ela tomou emprestado dos  

babuínos sua maneira de se dirigir uns aos outros. Em conseqüência  

do que, escreve ela ainda, quando os babuínos começaram a lhe  

lançar olhares zangados que faziam com que ela se afastasse isto  

constitui, paradoxalmente, um enorme progresso: ela não era mais  

tratada como um objeto a ser evitado, mas um sujeito de confiança  

com o qual eles podiam se comunicar, um sujeito que se afasta  

quando alertado e com quem as coisas podem ser claramente  

estabelecidas. [...] o sociólogo Gabriel Tarde chamava de uma inter

fisiologia, uma ciência do agenciamento dos corpos. O corpo, nesta  

perspectiva, se liga à proposição spinozista: ele se torna o lugar do  

que pode afetar e ser afetado. Um lugar de transformações. De início,  

sublinhemos que o que Smuts coloca em cena é a possibilidade de  

tornar-se não exatamente o outro na metamorfose, mas com o outro,  

não para sentir o que o outro pensa ou sente como o propõe a  

incômoda figura da empatia, mas para, de alguma maneira, receber e  

criar a possibilidade de inscrever-se numa relação de troca e de  

proximidade que não tem em nada uma relação de identificação. Há, de fato, uma espécie de "agir com se" que leva à transformação de si,  

uma artefato deliberado que não pode nem quer pretender à  

autenticidade ou à uma espécie de fusão romântica freqüentemente  

convocada nas relações homem-animal.

Nós estamos certamente afastados desta versão romântica de um  

encontro tranqüilo. Smuts insiste no fato de que o progresso lhe  

apareceu claramente quando os babuínos puderam começar a lhe  

fazer entender a possibilidade do conflito, lançando-lhe olhares  

zangados. A possibilidade do conflito e sua negociação é a condição  

mesma da relação.[...]

É o que dá este gosto tão especial e particular a estes projetos  

científicos, aqueles para os quais aprender a conhecer aqueles que  

observamos se subordina ao fato de aprender, de início, a se  

reconhecer”.(DESPRET, 2012, p290-293).

Neste fragmento a autora nos fala da importância do estabelecimento de  relação para construção de uma forma de conhecimento que se produz na  troca, na interação. Em contraposição a um conhecimento desenvolvido  através do buraco da fechadura, de um conhecimento desenvolvido olhando de  fora, como que de um ponto de vista privilegiado. Como que na busca do olhar  divino, do olhar que enxerga as coisas como elas são. Como se no final das  contas não tivéssemos sempre perspectivas, como se existisse a possibilidade  de uma relação neutra.  

Não existe um olhar neutro, só o que temos são pontos de vista, quanto mais  nos apropriamos do que de fato temos, mais consistência podemos  desenvolver. Da mesma forma que a primatóloga faz a opção de abrir mão da  falácia da postura neutra, dentro de minha perspectiva de trabalho buscamos  apostar na relação como terra fértil para que o afeto e o afetar se desenvolvam.  Em minha prática como Gestalt-Terapeuta busco ser um guardião da relação6.  Fui convidado a trabalhar deste jeito por meus melhores mestres. Aprendi a  trabalhar assim com meus clientes e alunos. Este caminho tem se mostrado  extremamente gratificante. Existe uma beleza poética que sempre me comove  quando acompanho pessoas, quando as percebo me deixando aproximar,  quando as vejo comovidas e vivas. A possibilidade de tocar o outro e de ser  tocado por este outro me faz sentir vivo e me transforma. Cria afeto e afeta.

No trabalho que descrevi, busquei ser uma espécie de guardião da relação, isto  é, trabalhei em prol da construção de um ambiente de troca, de um ambiente  em que existisse relação. Para existir relação foi necessário que existisse um  encontro entre diferenças de forma e que os indivíduos se apropriassem de  suas características à medida que se relacionassem com um ou vários outros entes. Minha busca foi de criar um espaço de relação e facilitar com que  pudéssemos aprender com o que ocorreu neste espaço de relação. Foi de  aprender com as trocas em andamento, com as relações em processo.

 6 O leitor pode encontrar uma discussão interessante acerca desta forma de experimentaram o  processo terapêutico em Hycner(1997)

Coerente com que nos trouxe Despret (2012) em sua observação de que em  certos projetos científicos “aprender a conhecer aqueles que observamos se  subordina ao fato de aprender, de início, a se reconhecer” neste tipo de prática  grupal quanto mais eu aprendo a me reconhecer na relação que experimento  no contato com o outro, mais condição eu tenho de perceber este outro e de  facilitar com que ele perceba nuances dele mesmo nas experiências que vivemos juntos.  

Nesta forma de relação ambos nos transformamos. Eu me transformo à medida que também posso experimentar e muitas vezes até reconhecer  reflexivamente aspectos meus na interação. O outro se transforma a medida  em que vivencia seus próprios comportamentos e se apropria de nuances de  sua forma de estar naquele encontro.

A relação humana (terapêutica) foi a terra fértil que facilitou o fluir da vida.  Através da troca que experimentamos, transformações se deram. O encontro  que vivemos, em algum nível, deixou rastros em cada um de nós. Existe algo  de Belo nisso! Dá uma sensação de processo! De continuidade! De vida!

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DESPRET, V. Que diraient les animaux, si... on leur posait les bonnes  questions ? Paris: La Découverte, 2012 Tradução: Ronald Arendt.

HYCNER, R.; JACOBS, L. Relação e Cura em Gestalt Terapia – São Paulo:  Summus, 1997

PERLS, F. A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. LTC - Livros Técnicos e Científicos Editora S.A.: Rio de Janeiro, 1988

Endereço para correspondência

Marcelo Pinheiro da Silva

E-mail: marcelo@igt.psc.br

Recebido em: 23/07/2014

Aprovado em: 24/11/2014

NOTAS

Psicólogo Marcelo Pinheiro CRP nº 05/16.499 Gestalt-terapeuta, especialista  em psicologia clínica pelo CRP, especialista em psicologia organizacional pelo

CRP, especialista em atendimento de casal e família na abordagem sistêmica  (I.T.F.- RJ),  

Professor substituto de Psicologia da UERJ, Mestrando em Psicologia Social  (UERJ), coordenador do curso Especialização em Psicologia Clínica - Gestalt Terapia (Indivíduo, Grupo e Família), editor chefe da Revista Virtual IGT na  Rede, coordenador do Centro de Documentação da Gestalt-Terapia Brasileira  e sócio-fundador do IGT e Presidente do XIV Congresso Internacional de  Gestalt-Terapia Rio 2015.

Revista IGT na Rede, v. 11, nº 21, 2014, p.322-333 DOI 10.5281/zenodo.15048437

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526