ARTIGO

Contribuições gestálticas no trabalho com portadores de  transtorno mental através da Oficina de Teatro e imagem

Gestalt contribuitions in working with the mentally ill through teh ]heater  Workshop and image

Ana Carolina Pacheco de Paula

RESUMO

O objetivo deste trabalho é contribuir teoricamente com estudos e práticas  relacionados à atuação do gestalt-terapeuta com grupos terapêuticos, cujo público alvo são portadores de transtorno mental, além de verificar as contribuições do uso  do teatro e da imagem como ferramentas terapêuticas. Partindo da revisão de  literatura, utilizando textos com o embasamento gestáltico que discursam sobre  saúde mental e grupos terapêuticos, somado a experiência prática e teórica da  autora no trabalho com portadores de transtorno mental, em uma oficina de teatro e  imagem, de um CAPS I na Costa Verde do Rio de Janeiro. Neste texto contextualizo  o processo de formação e desenvolvimento desta oficina, reservando um espaço  para reflexão acerca dos conceitos gestálticos emergentes na mesma. Os resultados  apontam o uso do teatro e da imagem como um experimento que mostra-se como  um campo fértil para importantes mudanças na vida dos participantes e uma  interessante ferramenta de inserção social e familiar dos mesmos. Além de um  convite ao terapeuta à utilizar seu ajustamento criativo e ampliar suas possibilidades  de atuação dentro do CAPS.

Palavras-chave: CAPS; Gestalt-terapia; teatro; imagem; oficina terapêutica.

ABSTRACT

The objective of this work is theoretically contribute to studies and practices related to  the role of gestalt therapist with therapeutic groups , whose target audience are the  mentally ill and to verify the contributions of using theater and image as therapeutic  tools . Starting from the literature review , using texts with Gestalt basement ranters  on mental health and therapeutic groups , coupled with practical and theoretical  experience of the author in working with the mentally ill , in a theater workshop and  image of I in CAPS Green coast of Rio de Janeiro . This text contextualizes the  process of formation and development of this workshop , reserving a space for  reflection on the emerging Gestalt concepts in it. The results indicate the use of  theater and image as an experiment that shows up as a fertile field for major changes  in the lives of participants and an interesting tool for social and family relationships of  same . In addition to an invitation to the therapist to use their creative adjustment and  expand their possibilities for action within the CAPS .

Keywords : CAPS , Gestalt therapy, theater , image, therapeutic workshop .

INTRODUÇÃO

O presente trabalho monográfico foi construído durante meu curso de especialização  em Psicologia Clínica (Gestalt-Terapia, Indivíduo, Grupo e Família). Nasceu da  experiência prática e teórica da autora com portadores de transtorno mental, somado  ao interesse nos desafios atuais da saúde pública, em especial a temas  relacionados à promoção da saúde, observando-os sob uma perspectiva gestáltica.

Apesar dos mais de trinta anos da reforma psiquiátrica no Brasil, mostra-se um  desafio constante para a saúde pública, a inserção social, familiar e cultural dos  portadores de transtorno mental. Alguns autores, profissionais de saúde e membros  da sociedade em geral, não acreditam na eficácia da reforma psiquiátrica, alguns a  vêem como uma utopia ou algo cuja responsabilidade está restrita aos profissionais  de saúde mental. Além do pré-conceito e exclusão social historicamente sofridos por  estes clientes.

Tendo em vista a reforma psiquiátrica1vigente no Brasil, regulamentada em abril de  2001 através da Lei Federal de Saúde Mental n.10.216, proponho uma reflexão  sobre a inserção do olhar gestáltico no campo de atenção psicossocial e a  contribuição dos gestaltistas na busca do preenchimento de uma lacuna teórica.  Para tal, partiremos de contribuições teóricas e de experiências práticas em oficinas  terapêuticas que funcionam nesse contexto e utilizam o teatro e a imagem como  instrumento facilitador.

“A visão de homem e de mundo da Gestalt-terapia, bem como  sua forma de compreensão diagnóstica, servem como  ferramentas para a discussão em torno deste tema no campo  da Atenção Psicossocial. Entender o homem como um ser cuja  vivência singular é construída e re-construída a partir das  relações que estabelece com o campo, em um processo  

ininterrupto de busca de auto-regulação e crescimento, nos  permite uma visão mais ampla de suas possibilidades de  existência.” (PEREIRA,2008)

Na última década houve um visível aumento de gestaltistas engajados na luta  antimanicomial, o que podemos observar quanto a produção de textos nos  congressos de Saúde Mental e de Gestalt-terapia. Os pressupostos teóricos da  Gestalt-terapia estão sendo utilizados como instrumento de inclusão social e familiar  para portadores de transtorno mental, com histórico de internações, sofrimento e  discriminação. Porém o embasamento teórico para atuação dos gestaltistas em  

 1 A reforma psiquiátrica é um processo político e social, que visa uma nova forma de tratamento, do  portador de transtorno mental. Ela está aos poucos substituindo as instituições de internação  psiquiátrica, por outros dispositivos substitutivos do mesmo, como os CAPS e as residências  terapêuticas, por exemplo, trazendo uma nova alternativa para o processo de tratamento. Busca a  inserção social,cultural e familiar do mesmo, respeitando seus direitos de individualidade e deixando  claro quais são os seus direitos e deveres na sociedade.

instituições comprometidas com a desinstitucionalização da loucura é algo que está  em construção neste momento através da atuação de profissionais de saúde,  familiares e usuários de serviços de saúde mental.

Torna-se relevante essa construção teórica, visando uma contribuição sobre o  trabalho com grupos terapêuticos com portadores de transtorno mental, utilizando o  teatro e a imagem, beneficiando psicólogos que atuam nesta área, seus clientes,  familiares e pessoas interessadas por este tema.

JUSTIFICATIVA

Na última década podemos observar que apesar de não termos alcançado  efetivamente todos os objetivos da reforma psiquiátrica brasileira, a luta  antimanicomial tem conquistado novos militantes e parceiros. Deixando de ser uma  luta apenas de familiares, portadores de transtorno mental e profissionais de saúde,  ampliando-se para uma luta social, visando uma transformação social.

“A clínica gestáltica tem na noção de saúde seu primordial eixo  norteador. É a crença nas potencialidades dos indivíduos e no  seu direcionamento para a autorregulação que – via de regra –

orienta as ações e planos terapêuticos.” (CARVALHO;  COSTA,2010)

Observando os portadores de transtorno mental, crendo e valorizando suas  potencialidades, temos um olhar diferenciado sobre os mesmos, que gera mudanças  significativas na nossa atuação profissional na área de saúde mental. Com estes  “óculos” podemos construir planos terapêuticos, também chamados projetos  terapêuticos, mais assertivos e coerentes com as características pessoais de cada  indivíduo, favorecendo assim o estabelecimento de vínculos terapêuticos e  comprometimento desses clientes com seu tratamento.

Considerando que estamos em um mundo em transformação, a gestalt-terapia apresenta-se como um excelente referencial teórico para embasar práticas de  inclusão social que visam uma mudança cultural, de uma postura de exclusão,  preconceito e desvalorização da qual há décadas os portadores de transtorno  mental são submetidos. Os grupos terapêuticos que visam a promoção da saúde e  da qualidade de vida de portadores de transtorno mental são uma ferramenta  importante para inserção social, familiar e cultural desses clientes e para  alcançarmos uma verdadeira desinstitucionalização desses clientes.  

Durante minha graduação em psicologia tive oportunidade de apresentar uma roda  de conversa sobre o trabalho do psicólogo com crianças e adolescentes em situação  de abrigo, no ano de 2008, em um Fórum Internacional de Saúde Mental, Saúde  Coletiva e Direitos Humanos. Neste evento tive meu primeiro contato com  profissionais e usuários da rede de saúde mental, sendo que a partir deste momento

busquei me aproximar deste tema. Em menos de um ano estava participando como  voluntária de uma oficina terapêutica que utilizava o teatro e mitos no trabalho com  portadores de transtorno mental em um CAPS II2. Essa experiência resultou na  elaboração e apresentação de um trabalho sobre este tema no I Congresso  Brasileiro de Saúde Mental (2008). Após o término da graduação em 2008, iniciei  meu trabalho como psicóloga em um CAPS I e a primeira oficina que tive  oportunidade de coordenar foi a oficina de teatro, pela qual me apaixonei enquanto  acadêmica, e desde 2009 estou tendo a enriquecedora oportunidade de utilizá-la  como ferramenta de tratamento de portadores de transtorno mental e usuários de  álcool e outras drogas. Essa oficina tem tido importantes transformações de 2009  até a presente data. Essas transformações e algumas experiências advindas deste  processo me motivaram a escrever sobre este tema e serão descritas neste trabalho  monográfico.  

OBJETIVO

OBJETIVO GERAL:

O objetivo deste trabalho é contribuir teoricamente com discussões, estudos e  práticas relacionados a grupos terapêuticos, cujo público-alvo são portadores de  transtorno mental, e compartilhar a experiência da utilização do teatro e da imagem  no trabalho com grupos.

OBJETIVO ESPECÍFICO:

Busco verificar quais as contribuições do uso do teatro e da imagem, segundo um  referencial da gestalt-terapia, proporcionam ao trabalho com grupos terapêuticos  cujo público-alvo são portadores de transtorno mental.

METODOLOGIA

Como metodologia foi utilizado uma revisão de literatura sobre o tema, utilizando  textos de Gestalt-terapeutas, sugeridos na bibliografia básica do curso de  

 2 CAPS – “Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou Núcleo de Atenção Psicossocial é um serviço  de saúde aberto e comunitário do Sistema Único de Saúde (SUS). Ele é um lugar de referência e  tratamento para pessoas que sofrem com transtornos mentais, psicoses, neuroses graves e demais  quadros, cuja severidade e/ou persistência justifiquem sua permanência num dispositivo de cuidado  intensivo, comunitário, personalizado e promotor de vida.”(Ministério da Saúde,2004.pág.13).

Segundo o manual do CAPS, do Ministério da Saúde o CAPS I – municípios com população entre  20.000 e 70.000 habitantes de segunda a sexta-feira; CAPS II – municípios com população entre  70.000 e 200.000 habitantes de segunda a sexta-feira, podendo funcionar com um terceiro período,  funcionando até 21 horas; CAPS III – municípios com população acima de 200.000 habitantes

Funciona 24 horas, diariamente, também nos feriados e fins de semana; CAPSi – municípios com  população acima de 200.000 habitantes de segunda a sexta-feira, assim como o CAPS II ele pode  um terceiro período, funcionando até 21 horas e CAPSad – municípios com população acima de  100.000 habitantes, de segunda a sexta-feira também podendo ter seu funcionando até 21 horas.

especialização em psicologia clínica realizado no IGT3, artigos científicos publicados  no site Scielo e na Revista IGT na Rede, tendo como palavras-chave gestalt-terapia,  saúde mental e grupos terapêuticos, e livros lançados no Congresso Estadual de  Gestalt-terapia no Rio de Janeiro em 2012. Somado ao relato da experiência prática  da autora no trabalho com grupos terapêuticos de 2009 até apresente data, também  chamados de oficinas terapêuticas, em um CAPS I da Costa verde do Rio de janeiro.  Ainda foram utilizados registros desta prática ao longo desses anos, feitos pela  autora em um livro de diário de bordo da oficina de teatro e os vídeos que foram  criados ao longo desta oficina.

O referencial teórico que embasa este trabalho é a Gestalt-terapia, por ser a  abordagem escolhida pela autora para sua prática, e ser a abordagem da qual a  mesma está especializando-se no IGT. Abordarei no decorrer deste texto  pressupostos teóricos desta abordagem relacionados ao tema escolhido, em  especial os conceitos de campo, experimento, ajustamento criativo, self e fronteira  de contato, os quais serão abordados mais detalhadamente no capítulo II.

 

Pretendo no capítulo I contar quando e como começou meu interesse pelo teatro e  pelo uso da imagem no grupo, falar sobre minha experiência como acadêmica e  como profissional e dar uma contextualização do processo de formação e  desenvolvimento da oficina. O capítulo II é um espaço reservado para reflexões,

acerca dos pressupostos gestalticos que pautam a prática da autora neste grupo.  Concluindo este trabalho com as reflexões que fiz ao longo do processo de prática  no grupo e da elaboração desta monografia.

I - EXPERIÊNCIA DA UTILIZAÇÃO DO TEATRO E DA IMAGEM NAS OFICINAS  TERAPÊUTICAS

O meu interesse pela área de Saúde Mental surgiu durante a graduação em  psicologia, quando fazia estágio em um Abrigo para crianças e adolescentes e tive a  oportunidade de apresentar um trabalho sobre minha experiência como estagiária no  I Fórum Internacional de Saúde Mental, Saúde Coletiva e Direitos Humanos na  UERJ em 2008. Este foi o primeiro de muitos eventos de saúde mental dos quais

participei, porém posso afirmar que este foi o momento em que me apaixonei pela  área de saúde mental. Participar deste evento foi um divisor de águas que estimulou  meu desejo em conhecer mais sobre esta área.

Após este evento acompanhei como voluntária o trabalho de uma Oficina de Teatro  em um CAPS II, onde uma amiga de classe estagiava. Meu interesse pessoal pelas  artes cênicas, somado a sede em conhecer mais sobre a área de saúde mental,  culminou em mais um trabalho apresentado em congresso, dessa vez descrevendo  

 

3IGT- INSTITUTO DE GESTALT-TERAPIA E ATENDIMENTO FAMILIAR. Local onde a autora deste  texto, cursou seu curso de especialização em Psicologia Clínica.

os ganhos terapêuticos observados no uso de teatro e mitos em uma oficina com  usuários de um CAPS II, no I Congresso Brasileiro de Saúde Mental na UFSC,  também em 2008. Neste congresso conheci o trabalho de um casal de gestalt terapeutas, Marcos e Rosane Müller-Granzotto, que discutiam, de forma  interessante, sobre a atuação dos gestaltistas nos chamados “ajustamentos  psicóticos” ou “ajustamentos de busca”.

“O ajustamento psicótico não é uma doença. Ele também é um  ajustamento criador, para usar a letra de Jean-Marie Robine. É  uma forma de viver face às condições de campo que a ele se  impõem e que tem relação com um funcionamento atípico da  função id. Nos ajustamentos psicóticos, o self inventa - junto  aos dados na fronteira de contato - a história que ele não pode  reter ou espontaneamente arranjar. Quando bem sucedida,  essa invenção vem substituir os excitamentos que, diante do  dado, i) ou não se apresentaram, ii) ou se apresentaram de  modo falhado ou, ainda, iii) se apresentaram de modo  desarticulado.” (MÜLLER-GRANZOTTO; MÜLLER

GRANZOTTO,2008)

Retornei deste último congresso, decidida a estudar os pressupostos gestálticos, que já me atraiam, como embasamento teórico para atuação na clínica, verificando  sua relação e contribuição no trabalho com portadores de transtornos mentais.  

Após concluir a graduação, um dos meus primeiros empregos como psicóloga foi em  um CAPS I, onde atuo até a presente data. Neste, fui convidada a planejar uma  oficina terapêutica para trabalhar com os usuários, pois no momento em que entrei  estavam reestruturando as oficinas já oferecidas e criando novas oficinas. Não tive  dúvidas em optar pelo trabalho do uso do teatro como ferramenta terapêutica, que já  me encantava. Com base na minha experiência anterior como acadêmica, e levando  em consideração os interesses pessoais dos usuários deste CAPS, estruturei uma  oficina utilizando contos e teatro como ferramentas terapêuticas.  

Nesta primeira fase da oficina de teatro convidava os usuários do CAPS, a utilizar  contos e histórias reais, ou criadas por eles, alucinadas ou não, como instrumento  desta oficina. As histórias compartilhadas pelos usuários eram transformadas em  peças teatrais representadas pelos mesmos. Neste contexto, eles tinham a  oportunidade de fazer valer seu modo de ver o mundo de uma forma visível para  todos, transformando muitas vezes criações pessoais em uma criação compartilhada  e observada através do teatro. Cada membro desta oficina participa ativamente  desta construção, seja como ator, como figurinista ou apenas assistindo a peça e  dando feedback4sobre suas percepções ao assistir a mesma e se de fato ela  expressava ou não a história que foi relatada. Em geral, o usuário que contava a  história ficava na posição de diretor, orientando os demais sobre a forma que a  mesma deveria ser interpretada, buscando aproximar a encenação do imaginário   4 Feedback- é uma palavra em inglês que significa realimentar ou dar resposta a um determinado  pedido ou acontecimento, retorno, crítica.

daquele sujeito. O casal Marcos e Rosane Müller-Granzotto (2012) relatam: “O êxito  nos processos de aprendizagem, de expressão artística e de inserção laboral é  prova da capacidade desses sujeitos para participar da inteligência social.”

Pude verificar que a possibilidade de expressar através do teatro os sentimentos e  pensamentos, além da oportunidade de compartilhar suas vivências através das  artes cênicas, mostrava-se como uma ferramenta facilitadora de inserção social para  os mesmos; observei que através do teatro alguns usuários ampliaram sua rede  social, conseguiram falar de temas e sentimentos que não conseguiam falar em  outras intervenções terapêuticas, como atendimentos individuais ou outros grupos  terapêuticos, por exemplo.  

Inicialmente as peças construídas na oficina eram apresentadas somente para os  usuários que participavam da mesma. Depois de um tempo os usuários solicitaram  que as apresentações fossem ampliadas e os técnicos fossem convidados a assisti las. No dia desta oficina toda a equipe transformava-se em platéia para o nosso  grupo de “atores” que atuavam contando relatos de sua própria vida ou da vida de  seus companheiros de grupo.

Ainda em 2009, o grupo começou a criar algumas peças temáticas, falando, por  exemplo, sobre o natal. Estas peças começaram a ser apresentadas em algumas  festas da instituição, onde já não haviam apenas usuários e técnicos, mas que são  abertas aos familiares e a sociedade em geral. Na apresentação de natal do ano de  2009, filmamos depoimentos dos usuários sobre como estavam se sentindo em  relação à apresentação e posteriormente utilizamos estes vídeos na oficina e o efeito  disso me surpreendeu. Ao ver sua imagem nos vídeos, os usuários experimentaram  uma percepção diferente sobre sua postura e sua forma de se colocar no mundo. O  efeito do uso do vídeo foi tão positivo que escolhi utilizá-lo não apenas em  apresentações em datas festivas, mas inseri-lo como instrumento terapêutico nesta  oficina. Neste contexto a oficina que inicialmente recebeu o nome de Oficina de  contos e teatro, em 2010 transformou-se em Oficina de teatro e imagem.

Inicialmente a oficina de teatro se dava com os mesmos moldes anteriores, porém  durante a apresentação teatral eu filmava com minha câmera fotográfica e  posteriormente, apresentava para eles em meu notebook. Fez-se necessário utilizar  minha máquina e meu computador pessoal nessa fase inicial do uso da imagem  nesta oficina, mesmo não tendo o melhor áudio e a projeção da imagem na tela do  computador ser pequena, para o número de participantes da mesma (de 10 a 18  usuários), pois a instituição não possuía esses equipamentos. Foi notório o quanto a  inserção do uso da imagem, mudou a cara desta oficina e a vivência dos usuários  neste processo.

Em 2011, ainda utilizando os mesmos recursos áudios visuais, a instituição começou  a organizar-se para comemoração do aniversário da mesma, que seria em um  espaço cedido por um resort localizado no mesmo município. Pensando nisso os  usuários propuseram contar, através de uma encenação, o olhar dos usuários sobre  o atendimento no CAPS. Observando que em cada ensaio a peça se configurava de

uma forma diferente, eles pensaram a respeito e sugeriram que ao invés de  interpretá-la no dia do evento de aniversário do CAPS, ela fosse filmada e  apresentada como um “curta metragem” produzido nesta oficina. Motivada com  entusiasmo dos usuários, conversei com a equipe técnica do CAPS e possibilitamos  o uso da estrutura da instituição como um grande cenário, onde os usuários  transformaram-se no personagem que desejavam interpretar, dentre eles técnicos e  usuários da própria instituição ou baseados em experiências anteriores em outros  serviços de saúde mental. Eles criaram um roteiro e escolheram os personagens  que seriam interpretados, através de dinâmicas realizadas nesta oficina. Dedicamos  duas tardes para gravação de nosso primeiro “curta metragem”, onde a instituição foi  o cenário que possibilitou uma ampliação da vivência dos usuários no serviço de  saúde mental.  

No dia do evento, apresentou-se a construção feita por eles nesta oficina, para um  público maior do que o rotineiro, pois neste encontro estavam usuários e técnicos  deste e de outros Centros de Atenção Psicossocial, representantes da sociedade e  das secretarias municipais, como por exemplo, de saúde, educação, segurança,  dentre outras. Ver sua construção em uma projeção semelhante a do cinema, foi  uma experiência inesquecível para eles, abriu novas possibilidades de inserção  social e de legitimar a opinião e expressão dos mesmos perante a sociedade e  família.

Após este evento recebemos em nosso CAPS uma câmera fotográfica com um  áudio e imagem melhor do que a minha câmera, que até esse momento estava  sendo utilizada, e um aparelho de televisão com entrada USB, que melhoraram a  qualidade da produção audiovisual desta oficina. Além de possibilitar aos usuários  uma melhor visualização dos vídeos produzidos nesta e em outras oficinas e em

eventos do CAPS.  

Lembro-me de que em uma das assembléias5realizadas no CAPS, um dos  familiares relatou que sua irmã havia lhe dito que toda sexta-feira (dia em que realizo  esta oficina no CAPS), estava se vendo na televisão e que ela estava preocupada  achando que ela estava tendo algum tipo de delírio ou alucinação persistente. Ao  assistir um dos vídeos desta oficina durante a assembléia e observar a atuação de  sua irmã na peça, compreendeu o que sua irmã disse e afirmou: “Não é que é  verdade?! Eu nunca pensei que ela fosse capaz de fazer isso”. Era notório que algo  estava mudando na forma dos usuários se colocarem no mundo e que isso estava  sendo refletido na forma em que eram percebidos pela sociedade e por seus  familiares.

Esta oficina está em constante transformação e atualização, de acordo com o que é  trago pelos usuários. Inicialmente era realizada no período matutino, devido à  necessidade da oficina de Geração de Renda realizada no mesmo dia, ser feita no  período matutino, alteramos o horário da mesma para o período da tarde. Percebeu

se que neste dia o número de usuários que escolhia permanecer no CAPS para   

5 Assembleias- Reuniões realizadas no CAPS, onde participam usuários, familiares e profissionais  que constituem a equipe técnica.

participar da oficina do período da tarde, era maior que nos outros dias e que a  mudança de horário não prejudicou a frequência dos usuários nesta oficina, mesmo  com o “costume” que alguns usuários tinham de só participarem das oficinas  matutinas em outros dias da semana.

No início de 2012 produzimos um “documentário” baseado em discussões dos  usuários sobre a Luta Antimanicomial, comemorada no dia 18 de maio. Neste  documentário eles escolheram relatar suas experiências pessoais de internação em  hospitais psiquiátricos, discriminação e dificuldades de inserção social e familiar  vividas ou observadas, como um convite à reflexão sobre a importância desta luta,  apresentando o olhar deles sobre este tema. Neste vídeo eles também entrevistaram  alguns técnicos, visando verificar o olhar dos mesmos sobre esta questão.  

No dia 18 de maio de 2012 a equipe do CAPS realizou a I Mostra de Saúde mental,  saúde cultura e inserção social. Montou tendas com o intuito de conscientizar a  comunidade sobre o tema e apresentar o trabalho realizado nas diversas oficinas  terapêuticas. Durante o evento além de apresentarem o documentário em frente a  uma das principais praças públicas da cidade - embora com problemas técnicos para  visualização do mesmo - houve uma tenda da Oficina de Teatro onde três usuários,  escolhidos em um dos encontros da oficina através de eleição entre os participantes,  foram designados a entrevistar alguns participantes do evento. Esta atividade visava checar com o público da Mostra, como estavam compreendendo as informações  trazidas e o que estavam achando sobre este evento. Posteriormente essas  entrevistas também foram utilizadas como material terapêutico. Muitos se  emocionaram ao ver o resultado desses vídeos e a compreensão da comunidade  sobre os mesmos. Esta oficina segue em andamento até a presente data, ajustando

se criativamente as mudanças institucionais e sugeridas pelos participantes deste  grupo. No próximo capítulo estarei ampliando a reflexão sobre a oficina,  relacionando alguns conceitos gestálticos com a prática da autora nesta oficina.  

II - REFLEXÕES ACERCA DA PRÁTICA GESTÁLTICA  

“Não há loucura quando os loucos já confundem os normais” Trecho da música NEÓFITO da Banda Resgate

O trabalho com grupos mostra-se como uma excelente oportunidade de troca de  vivências e interação social. O psicólogo ocupa um papel de mediador para facilitar a  comunicação e troca do grupo, além de ser um instrumento de feedback para o  mesmo. Levando em consideração as especificidades dos clientes portadores de  transtorno mental e das dificuldades apresentadas por grande parte deles de sentir

se pertencente a um determinado grupo, propomos esta intervenção terapêutica em  grupo. Principalmente devido barreiras e preconceitos de uma ideologia social, que  apesar das mudanças advindas da reforma psiquiátrica, tentam diariamente colocá los a margem da sociedade.

O trabalho terapêutico em grupo mostra-se como um espaço favorável, para que  seus participantes compartilhem suas angústias, potencialidades, dúvidas e alegrias;  trabalhar o sentimento de pertencimento a um determinado grupo e de sua própria  identidade e desejos, enquanto sujeito que possui direitos, deveres e espaço na  sociedade.  

Em outras palavras, o próprio grupo, bem como a aplicação de  

técnicas e intervenções específicas pelo terapeuta treinado,  servem como um instrumento para a mudança. Esta  característica dá à psicoterapia de grupo seu potencial  terapêutico singular. (VINOGRADOV, S.; YALOM, I.D.  1992,p.3)

Proponho um estudo sobre o funcionamento do grupo terapêutico, direcionado por um olhar gestáltico, realizado com portadores de transtorno mental, do qual a autora  participa.

Revisitando o caminho percorrido do início da “oficina de teatro” até a “oficina de  teatro e imagem” no CAPS em Dezembro de 2012, pude repensar os diferentes  momentos que vivemos nesta oficina. Para tal escolhi reler anotações referentes a  esta oficina e rever vídeos feitos nela em diferentes momentos. Polster (2001,p.238)  diz: “A gestalt-terapia tenta recuperar a conexão entre o falar sobre e a ação.” É  notória o quanto essa conexão é experimentada nesta oficina terapêutica.

Observei neste caminho o quanto alguns usuários haviam mudado não apenas em  termos de autonomia, expressão verbal e dramatização de personagens, como  muitos deles haviam mudado fisicamente. Era notório no semblante de alguns a  mudança que tiveram em seu “visual” ao longo do processo e o quanto nos vídeos e  fotos da oficina estavam registrados diferentes momentos da vida desses atores.  Nem todos denotavam momentos “bonitinhos” e “arrumadinhos”. Alguns  demarcavam, por exemplo, um momento que antecedia uma crise, mas que mesmo  nesses casos, foram um instrumento para percebermos indícios singulares da forma  que cada sujeito demonstra sua eminente crise. A crise pode variar de uma pessoa para o outra, por isso é importante estar atento à singularidade de cada um, ou seja,  falar alto e aceleradamente pode ser um indicativo de iminente crise para um usuário  e pode ser uma característica pessoal de um outro. Entende-se como crise neste  contexto, uma situação onde há uma ruptura da homeostase6psíquica de uma  pessoa e perda/ mudança dos elementos estabilizadores habituais, sendo  necessário um esforço suplementar para manter o equilíbrio ou estabilidade  emocional.

Alguns usuários ao longo deste processo mudaram também a sua posição dentro do  grupo. Por exemplo, uma usuária que entrou no CAPS com um quadro de depressão  severo, que não conseguia nem mesmo falar por muito tempo, sem que seu choro –

 6 Homeostase pode ser definida , como o processo de busca do ser humano, por uma autorregulação e um  equilíbrio, que o deixe em harmonia com o seu ambiente.

que naquele momento tinha um tom o tanto quanto desesperador a cala-se, impedindo-a de prosseguir em um diálogo. Ao chegar no espaço da oficina ela  conseguia apenas sentar, chorar, assistir e ouvir o que era trazido pelos outros  participantes. Como uma telespectadora, que aparentemente só está com o corpo  presente, buscando distrair-se com o que assistia. Depois de um tempo ela foi  sentindo-se mais confortável para compartilhar suas histórias pessoais e angustias  com o grupo. Ela permitiu a dramatização de algumas de suas vivências, passando  de telespectadora para autora; depois começou a dirigir algumas cenas, permitindo

se ocupar o papel de diretora e em um dado momento sentiu-se segura para tornar se atriz e ocupar um novo espaço naquele grupo.Isto lhe permitiu fazer coisas que  antes parecia que não daria conta. Percebeu o quanto era capaz de criar  personagens, dramatizá-los e se expor perante o grupo sem constrangimentos.  Descobriu que o teatro era um instrumento facilitador para expor suas ideias e  opiniões, inclusive se dando a oportunidade de posteriormente sair do papel de atriz,  abandonando os personagens e transformando-se em uma das principais vozes de  um documentário que falava sobre a luta antimanicomial, pelo olhar dos usuários de  um CAPS. Essa mudança no grupo gerou notórias modificações em seu  comportamento como um todo, saindo do rótulo de depressão severa, para algo  mais ameno, fazendo com que a equipe pensasse em uma possível alta, em um  futuro breve.

“Cada um faz contato com o mundo de uma maneira singular.  Isto porque cada um é singular. No contato ocorre o encontro  

de singularidades. Singularidades que se estranham e se  entranham permitindo o surgimento de uma terceira  singularidade.” (SILVEIRA; PEIXOTO,2012,p.21)

Nesse sentido a oficina operou como um instrumento de ampliação das fronteiras de  contato, de experimentação de novas possibilidades, permitindo com que o seu  contato com o outro e com o mundo mudasse de configuração. Ouso falar que neste  sentido, muitos de nossos usuários experimentam a possibilidade de sair da posição  de PACIENTE, ou seja, daquele que é passivo de intervenções externas, para  CLIENTE, aquele que está ali buscando mudanças em sua vida e que é ator e autor  dessas mudanças, sendo o psicólogo um facilitador e não um direcionador das  mesmas. Esta mudança de visão do usuário do CAPS de PACIENTE para CLIENTE,  por si só é uma reflexão de influência gestáltica, condizente com o entendimento de  usuário, uma pessoa que utiliza um serviço de saúde, contrária a visão de paciente  como alguém que é passivo as intervenções deste serviço.

“...Através da visão gestáltica, podemos perceber o positivo, o  potencialmente transformador, mesmo diante dos limites e  dificuldades mais severos. Acreditamos que aquela é a melhor  configuração possível do sujeito naquele momento, que mesmo  diante de tantas limitações, há ali um potencial criativo que  constrói como pode sua forma particular de estar no mundo. E  é somente desta forma que poderemos “penetrar em sua  paisagem” como sua, como reflexo daquilo que o constitui e,

por fim, acompanhá-lo deste ponto em diante, em um caminho  rumo a formas de encontro mais saudáveis e genuínas.”  PEREIRA,2008, p.182

A oficina de teatro trabalha com as potencialidades de cada participante. O foco não  está no que eles não podem fazer, nem no que o rótulo dado a esses sujeitos, por  sua categorização na CID107. Acredito que a forma como cada sujeito apresenta-se  nesta oficina, é de fato, a melhor forma possível para ele, naquele dado momento.  Nosso interesse está em auxiliar os participantes a perceberem aquilo que são  capazes de fazer e como eles podem fazer valer o seu modo de ser na sociedade.

“...Tomando como exemplo um grupo enquanto sistema-sob

consideração, focalizam-se as relações entre pessoas, papéis,  regras, normas de comportamento, estilo de comunicação,  inserção no contexto social. Ao fazer isto, não se suprime o  indivíduo, por sua vez sistema único. Porém, sua posição e  papel neste ou aquele grupo confere novos significados aos  seus comportamentos, tanto quanto as suas características  pessoais exercem influência na constelação estrutural e  funcional do grupo em questão.” (TELLEGEN, 1984,p.70)

Uma das técnicas que fizeram uma grande diferença no andamento deste grupo, foi  a inserção de imagens. Quando comecei a filmar as peças construídas pelo grupo e  mostrar as produções para os mesmos como forma de espelhamento, pudemos  verificar o quanto este espelhamento gerava mudanças significativas, na forma em  que os participantes observavam-se. Uma das usuárias ao observar-se no vídeo  percebeu o quanto “balançava-se” ao andar e verbalizou desejo de melhorar isso e  começou a prestar mais atenção em seu corpo, em seus movimentos. Percebeu que  uma dor na coluna era um dos principais motivos que a levavam a esse movimento,  buscou um ortopedista, descobriu uma hérnia de disco, está em tratamento da  mesma e teve uma melhora significativa nesse “balançar”. Quando ela começou a  dar-se conta de como estava o seu corpo e começou a prestar atenção nele, isso lhe  motivou a cuidados pessoais e iniciativas que beneficiaram sua saúde. A utilização  da imagem propicia além de um espelhamento, uma possibilidade de awareness8,  ou seja, de dar-se conta amplamente do que está acontecendo.

“É a arte das composições que faz da abordagem gestáltica  uma experiência que ultrapassa os consultórios, as diversas  instituições para poder, por conseguinte, ser uma visão do  mundo onde inclui uma visão de homem que atualiza as sua  potências, os seus poderes através de suas capacidades de  contatar o mundo, o outro, a cidade, o planeta.” (SILVEIRA;

PEIXOTO, 2012 p.16)

 7 CID10- Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados a Saúde, que está em sua 10ª edição.  8 Yontef (1998) define o conceito de awareness, como “uma forma de experiência que pode ser definida  aproximadamente, como estar em contato com a própria existência, com aquilo que é.”

Outro fato advindo da inclusão da filmagem no grupo foi a exposição com  autorização de todos os participantes, dos vídeos criados por este grupo. Os vídeos  relatam o olhar dos usuários sobre diversos temas, como o tratamento no CAPS, a  luta antimanicomial, dentre outros. As encenações apresentadas através de “curtas  metragens” geram autonomia e responsabilidade dos mesmos, que se apropriam do  trabalho realizado em conjunto nesta oficina, como algo construído pelo grupo e  como algo construído por vários atores. Esta atividade trabalha a relação com o  outro e cada um responsabiliza-se por sua parte no processo, seja de filmar, arrumar  os personagens, atuar,assistir e avaliar se a mensagem proposta pelo grupo está  sendo transmitida com clareza ou não, dentre outras funções que o grupo permite ao  participante vivenciar.

Silveira & Peixoto (2012, p.83) relatam no texto no qual apresentam o conceito de  potência artística no livro A Estética do contato que “ A potência artista é a essência  singular daquele que transforma a sua existência, recompondo-se, regenerando-se  com o mundo, mudando o próprio mundo.” Os autores apresentam essa potência  como uma característica do ajustamento criativo, que conta de uma recomposição e  reconfiguração do campo organismo-ambiente, que está em constante mudança.  Creio que falar sobre esta potência nos portadores de transtorno mental, é algo  coerente. Pois entendo que as transformações que os mesmos fazem estão ligadas  ao campo em que vivem e ao campo que criam em seus ajustamentos ditos  psicóticos, tão criativos quanto os ajustamentos de nós neuróticos. E podemos  observar nitidamente, a recomposição e regeneração contínua desses atores, em  suas criações na oficina a qual estamos mencionando no presente texto.  

A visão gestáltica sobre o homem vê o homem como um ser de relação, valorizando  as relações uns com os outros e com o meio. Considerando que o público do qual  estamos falando no presente trabalho, é em geral, rotulado por sua dificuldade e  singularidade na forma de relacionar-se com o outro e com o mundo, um espaço  como esta oficina, que favorece essas trocas apresenta-se como uma possibilidade  de ampliação das fronteiras de contato e das possibilidades de trocas com seus  familiares, amigos e sociedade em geral. Ressaltando que não trabalhamos com  textos prontos, utilizamos para a composição das peças e dos personagens, aquilo  que emerge naquele dado momento, aquilo que é importante para o grupo naquele  dado encontro. O grupo escolhe investir em ensaios posteriores, sempre tendo a  liberdade do texto ser transformado e reeditado por seus atores, que são  verdadeiramente os autores de suas histórias, autônomos e livres para escolher  como irão vivenciar a encenação proposta.  

A escolha em não utilizar scripts rígidos nesta oficina, se dá pelo entendimento de  não engessá-los na rigidez de um texto pronto,mas possibilitá-los a experimentar a  liberdade de exercer sua criatividade.Desta forma visamos uma ampliação dessa  postura para o cotidiano desses usuários, convidando-os a despir-se de uma atitude

rígida e a alargar sua fronteira de contato.  

“O self existe onde estão as fronteiras móveis do contato. As  áreas de contato podem ser restritas, como nas neuroses, mas

onde quer que haja uma fronteira e o contato ocorra, este é,  nessa medida, um self criativo.”

(PERLS; HEFFERLINE,GOODMAN,1997. Pág.179)

Mesmo existindo questionamentos teóricos quanto ao funcionamento do self em um  psicótico, cremos que assim como descrito na citação acima, nas psicoses também  é possível encontrarmos um self criativo. O self pode ser entendido, como a  subjetividade de cada indivíduo que é construída no contato com o outro, no campo  onde este indivíduo está e na relação deste indivíduo com o mesmo.

“Ali já se anunciava a perspectiva diferenciada de self em  relação à forma como é concebido em outras abordagens  teóricas e práticas no campo da clínica psicoterapêutica, ou  seja, a relação intrínseca entre self e campo que cria a base  para a concepção de uma subjetividade desde e para sempre  enraizada nas relações.”(TÁVORA, 2007.pág.193)

Os arcabouços teóricos da Teoria de Campo, que tem uma importante contribuição  para a Gestalt-terapia, traz a compreensão que o self é como algo em processo e  em interação contínua com o campo.

“Algumas pessoas constroem um self que tem continuidade e  harmonia, e simultaneamente se adaptam com flexibilidade ao  campo atual. Pessoas com desordens no self não conseguem  fazê-lo, e suas construções de self não integram  harmoniosamente as construções anteriores, além de não  terem um sentido de coesão, continuidade, segurança e auto

estima em especial quando o campo atual está estressado. Em  vez disso, seus processos e suas experiências de self estão  com freqüência fragmentados estruturados sobre introjeções e  auto-imagens negativas fixadas com rigidez; a noção de auto

estima e coesão dessas pessoas é facilmente destrutível pelas  forças do campo atual, que se apresentam sem uma união  clara e flexível com quem são, e a realidade da situação.  Outras pessoas constroem uma noção fixa para o self, que não  é afetado pelo ambiente, que é sempre o mesmo,  independentemente do contexto. Essa gestalt fixa não tem  flexibilidade, e tem apenas pequena capacidade de  crescimento pela interação no campo.”( YONTEF,1998.p.177)

Os portadores de transtorno mental apresentam muitas vezes uma configuração de  self,que não interage harmoniozamente com o campo, em muitos aspectos inflexível,  denotando uma gestalt fixa. Porém o self é algo que está em contínuo processo e  relação com o campo e podemos observar que o campo, vivenciado por eles no  grupo terapêutico, pode-se apresentar como uma terra fértil para gerar mudanças  em suas gestaten fixas.

“Na teoria de campo, todas as coisas são construídas conforme  as condições do campo e os interesses do percebedor. Tudo o  que é real é construído desta maneira, independentemente de  quão materialmente concreto ou abstrato  seja.”(YONTEF,1998.p.177)

O entendimento da Teoria de Campo também nos faz compreender o quanto a  troca, inerente do processo de atendimento psicoterapêutico em grupo, é  enriquecedora e o quanto os ajustamentos criativos realizados pelos participantes  em todo o processo de grupo, favorece a mudanças em seu estilo de vida e forma

de apresentar-se ao mundo.  

“O experimento não deve se transformar num paliativo ou num  substitutivo para o envolvimento válido. Em vez disso a  experiência é mais comparável à forma da arte. O artista não  recria meramente a cena que vê. Ele combina a realidade “lá  de fora” com sua experiência interior,e a síntese é uma  descoberta,até para ele próprio. O mesmo acontece no  experimento terapêutico. O indivíduo não está tentando apenas  reproduzir algo que já aconteceu ou que poderia acontecer. Em  vez disso,ele se relaciona com a realidade exterior,  expressando suas necessidades nesse momento do tempo.  Ele não está ensaiando para um acontecimento futuro nem  refazendo algo que já aconteceu, mas experimentando no  presente qual a sensação de fluir com awareness para a ação  experimental. Uma vez que tenha sentido o ritmo de seu  momento existencial, ele bem pode se comportar de modo  diferente no mundo exterior do que teria feito antes.”  (POLSTER 2001,p.239)

A utilização das artes neste contexto, nos facilita a acessar em uma linguagem usual  e acessível, a percepção singular de nossos clientes sobre as condições do campo e  nos instrumentaliza, a estudar a forma como esta percepção, os direciona em suas  construções sejam elas de coisas concretas, ou de coisas abstratas, como as  alucinações e delírios. Entendo as alucinações e delírios, como uma forma de  ajustamento criativo dos mesmos e que representam a melhor forma que eles dão  conta, naquele dado momento de se apresentar na relação com o outro e com o  mundo. Tal ajustamento criativo, está totalmente relcionado com a percepção dos  mesmos sobre o campo que estão inseridos. Com este entendimento, reforço a  crença de que atuando no campo, geramos mudanças que podem favorecer a  flexibilidade e ampliação de contato dos mesmos na relação com o outro.

“O experimento é a pedra angular do aprendizado experiencial.  Ele transforma o falar em fazer, as recordações estéreis e as  teorizações em estar plenamente aqui, com a totalidade da

imaginação, da energia e da excitação. Por exemplo, ao reviver  em ato uma antiga situação inacabada, o cliente é capaz de  compreendê-la com mais riqueza e completar essa vivência  com os recursos de sua nova sabedoria e entendimento de  vida.” (ZINKER,2007,P.141)

O homem é um ser relacional. A possibilidade de trabalhar sua forma de se  relacionar com o outro e com o mundo em um grupo, possibilita uma ampliação do  seu entendimento sobre si mesmo. E as ferramentas utilizadas nesta oficina  terapêutica são um experimento, que utiliza das artes cênicas e da imagem, como  um disparador de ajustamento criativo e awareness.

“O experimento de Gestalt é usado para expandir a amplitude

do indivíduo, mostrando-lhe como ampliar seu senso habitual  de fronteiras onde existem emergência e excitação. Uma  emergência segura é criada de modo a incentivar o  desenvolvimento do auto-apoio para novas experiências.  Ações que eram anteriormente estranhas e provocavam  resistência podem se tornar expressões aceitáveis e levar a  novas possibilidades.”(POLSTER e POLSTER, 2001. p.124)

A oficina de teatro e imagem, pode ser visualizada como um grande experimento,  que amplia as fronteiras de contato, favorece a diminuição da rigidez, promove o  desenvolvimento do auto-apoio, possibilita a vivência de novas experiências e  convida os participantes à experimentarem novas possibilidades, não apenas dentro  do grupo, mas em sua vida em geral.

“A Gestalt permite que eu explore a estreita praia de minha  liberdade, às vezes varrida pela tempestade, às vezes deserta,  às vezes quente, ensolarada e perfumada. Ela me acompanha  em minhas produções espontâneas de sensações corporais,  nas emoções que experimento, nas imagens encontradas ou  fantasiadas, nos sonhos noturnos ou nos devaneios despertos,  tudo no contexto atual da relação estabelecida.” (GINGER &  GINGER,1995, p.195)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na história da Gestalt-terapia podemos observar o quanto as artes foram e são  utilizadas pelos gestaltistas como ferramenta de trabalho. Tendo em vista também o  fato do teatro e do cinema serem admirados por pessoas das diferentes faixas  etárias, raças, religiões e classes sociais, entendo que utilizá-los como instrumento

de inclusão social é uma idéia interessante, para ser experimentada como forma de  fazer valer a fala dos usuários de CAPS (Centro de Atenção Psicossocial).

As utilizações do teatro e da imagem enriqueceram meu trabalho no CAPS e  ampliaram as possibilidades da atuação com este público-alvo. Percebi mudanças  significativas na forma desses usuários se relacionarem com o mundo, refletindo  como uma ferramenta facilitadora das relações interpessoais dos mesmos.  

A oficina leva a reflexão não apenas dos usuários, mas também de seus familiares, pessoas da sociedade e nós enquanto profissionais de saúde. Do que de fato essas  pessoas são incapazes? Na verdade quando os escutamos, percebemos que os  mesmos são capazes de ir muito além daquilo que os preconceitos e rótulos  impostos presumem que eles podem fazer.

Estas ferramentas descritas neste texto, nos desafiam enquanto profissionais de  saúde, a utilizar nossa criatividade e lidar com as ferramentas que temos a nossa  disposição, para trabalhar naquele dado momento. Não devemos ter uma visão  rígida que nos engessa e nos gruda a um script, mas encararmos as diferentes  possibilidades que surgem, como uma forma de experimento é algo enriquecedor  para nossa prática.

A ausência de algumas ferramentas que fazem parte do nosso planejamento inicial,  deve ser algo limitador para nossa ação. Entendo que devemos planejar, mas não  ficar presos rigidamente a esses planejamentos; devemos ter recursos a disposição,  mas não utilizá-los como uma receita de bolo; devemos trabalhar com tudo o que é  trazido e é importante para os nossos clientes naquele dado momento. Nós  precisamos estar atentos a melhor forma de agir, naquele dado momento, pois nós  somos nossa principal ferramenta de trabalho.

O uso da câmera nesta oficina tem somente a intenção de nos fazer visualizar, a  experiência pela experiência. Não querendo enquadrá-la em algo rígido, mas  favorecendo o ajustamento criativo de cada um, como um convite para sair da  rigidez que muitas vezes é observada no cotidiano desses usuários.

O CAPS não deve ser entendido como um depósito de seres humanos, o que era e  é observado, ainda hoje em algumas instituições de saúde mental. Proponho o  entendimento do CAPS, como um espaço de possibilidades de reciclagem, onde são  valorizadas as potencialidades de cada usuário.

Espero com este trabalho contribuir com estudo e prática de outros psicólogos e  estudantes de psicologia, e encorajá-los a escreverem sobre suas práticas, visando  enriquecer nossos constructos teóricos.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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YONTEF, Gary M. - V - Introdução à teoria de Campo (p.173-212) In: Processo,  Diálogo e Awareness - Tradução Eli Stern. São Paulo: Summus, 1998.

------------------------------------- GESTALT-TERAPIA (p.15-67) In: Processo, Diálogo e  Awareness- Tradução Eli Stern. São Paulo: Summus, 1998.

ZINKER,J. Processo criativo em Gestalt-terapia. São Paulo:Summus,2007.

Endereço para correspondência:  

Ana Carolina Pacheco de Paula

E-mail: caroldepaulapsi@gmail.com

Recebido em:26/01/2014

Aprovado em:03/02/2014

Revista IGT na Rede, v. 10, nº 19, 2013, p.351-370 DOI 10.5281/zenodo.15043002

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526