ARTIGO

Políticas Públicas em Saúde E Clínica Gestáltica: Tecendo Saberes  e Prática

Políticas Públicas em Saúde E Clínica Gestáltica: Tecendo Saberes e Prática

Jucimara Gonçalves Bernardo1 

Marcus Cézar de Borba Belmino2 

 1 Graduanda do Curso de Psicologia da Faculdade Leão Sampaio, Juazeiro do Norte, Ceará.

 2Psicólogo, formação em Gestalt-terapia, mestre em Psicologia pela UNIFOR e doutorando do programa de  pós-graduação em filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina.

RESUMO

Este estudo objetiva apresentar uma articulação entre o modelo teórico da clínica do  sofrimento ético-político e antropológico da Gestalt-terapia e a prática do psicólogo  nas políticas públicas em saúde. Tal pesquisa faz-se relevante por tentar enunciar  um modelo teórico e clínico aplicável e condizente com a realidade social brasileira,  a saber, a clínica do sofrimento ético-político e antropológico formulada por Muller Granzotto e Muller-Granzotto (2010). Para isso, utilizou-se como ponto de partida os  fundamentos da teoria do self proposta por Perls, Hefferline e Goodman (1997) e  suas possíveis articulações com o campo das políticas públicas em saúde, além de  investigar como a noção de clínica do sofrimento ético-político e antropológico pode  orientar a prática do psicólogo nesse tipo de serviço. Os resultados evidenciaram  que o papel ético do clínico consiste em: acolher o sujeito e escutar o seu apelo por  suporte e inclusão; provocar o desvio e estimular o sistema self a produzir  ajustamentos criativos frente as suas necessidades; atuar diretamente na função de  ego e agenciar com o sofredor modos distintos de reconquistar sua autonomia; e  inserir-se nas políticas públicas, gerir e estimular ações fomentadas nos princípios  da universalidade, integralidade e equidade do Sistema Único de Saúde. À guisa de  conclusão, constatou-se que o modelo teórico da clínica do sofrimento ético-político,  constitui-se como um valioso víeis para a compreensão do sujeito e identificação de  suas reais necessidades. Bem como, possibilita ao psicólogo intervir nos mais  diversos espaços de construção, aprendizagem e produção da saúde.

Palavras-chaves: Gestalt-terapia; Políticas públicas; Sistema Único de Saúde; Sofrimento ético-político e antropológico.

ABSTRACT

This study intends to present a connection between the theoretical model of the clinic  suffering ethical and political anthropology of Gestalt therapy and the practice of  psychologists in public health policies. This kind of investigation is relevant to try to  enunciate a theoretical model and clinical applicable and consistent with the Brazilian  social reality, known as the clinic ethical-political anthropological of suffering  formulated by Muller- Granzotto and Muller-Granzotto (2010). For this, we used the  qualitative research design and literature research that was intended to analyze the  light of the theory of self-proposed by Perls, Hefferline and Goodman (1997), the  possible articulations between Gestalt therapy and public health policies, as well to investigate how the concept of clinical ethical and political anthropology of suffering  can guide the practice of the psychologist in public health. The results showed that  the ethical role of the clinician is: accept the individual and listen to his appeal for  support and inclusion, causing the deviation and stimulate self-system to produce  creative adjustments before their needs, act directly on the function of ego and to  create different ways with the sufferer to regain their autonomy, and insert  themselves into public policies, manage and promote actions promoted the principles  of universality, comprehensiveness and equity of the Unified Health System in  conclusion, we found that the theoretical model of clinical ethical-political suffering,  constitutes itself as a valuable bias for understanding the subject and identify their real needs. And allows the psychologist to intercede in the different areas of  construction, learning and health production.

Keywords: Gestalt therapy; Public policies; National Health System; Ethical and  political suffering.

1 - INTRODUÇÃO

Atualmente, preconiza-se a partir do Sistema Único de Saúde (SUS), um ampliado  conjunto de ações e serviços que incluem entre suas funções, a tarefa de humanizar  as tecnologias de produção do cuidado em saúde e compartilhar modos distintos de  gerir a promoção, prevenção e recuperação da saúde no país (BRASIL, 1990). Além  disso, postula-se uma concepção de saúde pautada na visão integral do homem, e a  doença como sendo um processo de desarmonia relacional que envolve o sujeito e  o seu contexto sociocultural (CARVALHO; COSTA, 2010).  

Neste ínterim, constata-se não só a importância de ter-se uma equipe interdisciplinar que atue de forma ética e compromissada com a realidade social, mas também a  abertura de um vasto campo de atuação para as diferentes áreas da saúde,  inclusive a inserção cada vez maior da psicologia nesse contexto.

Contudo, apesar desta múltipla gama de espaços de atuação tão cara à psicologia,  percebe-se no decurso da pesquisa a imensa dificuldade deste profissional para  conseguir correlacionar teoria e prática e/ou fazer um bom uso de suas ferramentas  teóricas, sobretudo quando se pensa a sua atuação nas políticas públicas em saúde.  Em virtude desta dificuldade prática, levanta-se a seguinte problematização: como a  teoria do self proposta por Perls, Hefferline e Goodman (1997), pode nortear a  prática do psicólogo inserido nos serviços públicos de saúde?  

A Gestalt-terapia como abordagem terapêutica, nasceu a partir de uma profunda  investigação da experiência humana, principalmente aquela vivida nos consultórios  psicoterápicos. Fritz Perls pensou a criação de uma nova abordagem clínica  baseado nas suas experiências como psicanalista e em suas insatisfações com a  teoria e método analítico (PERLS, 2002). Porém, mais do que problematizar só o  campo da psicoterapia, já em seu primeiro livro, Fritz Perls tinha uma preocupação  com a dinâmica social e cultural e sua relação com as experiências neuróticas. No  final da década de 1940, Fritz entrega seus escritos para Paul Goodman que ficou  responsável por desenvolver as ideias redigidas no livro Gestalt-terapia,  principalmente a parte dedicada a pensar uma nova teoria do self (BELMINO, 2014).  Mais do que uma proposta psicoterápica, no livro Gestalt-terapia podemos encontrar  uma crítica social e as bases para pensar uma ampliação da clínica gestáltica para  outros âmbitos tal como a educação e a política (BELMINO, 2014) ou para o campo  das experiências psicóticas e situações de vulnerabilidade social, tal como aquelas  vividas pelos indivíduos atendidos pelas políticas públicas de saúde e de assistência  social (MULLER-GRANZOTTO;MULLER-GRANZOTTO, 2012a).

Sendo assim, esse artigo busca apresentar o modo como a gestalt-terapia -  principalmente àquela fundamentada na teoria do self e o modo como Muller Granzotto e Muller-Granzotto (2010;2012a;2012b) a discutiram – pode contribuir na  atuação do psicólogo no campo das políticas públicas de saúde. Para tanto, a  discussão que se segue procura abordar os seguintes temas: o atual paradigma de  saúde pública (SUS) e sua concepção de saúde e doença; a Gestalt-terapia e sua

noção de saúde e doença, o diálogo entre a Gestalt-terapia e as políticas públicas  em saúde, a teoria do self e sua estreita relação com a clínica do sofrimento ético político e antropológico formulada por Muller-Granzotto e Muller-Granzotto  (2010;2012a;2012b), bem como suas contribuições para a atuação do psicólogo no  contexto da saúde pública.

Assim, ressalta-se que tal discussão faz-se relevante não só por propor reflexões  acerca da atuação do psicólogo nas políticas públicas em saúde, mas  principalmente por tentar enunciar um modelo teórico e clínico condizente com a  realidade social brasileira e aplicável nos diversos contextos da saúde pública, a saber, o modo de se pensar o que ficou denominado de clínica do sofrimento ético político antropológico.

2 - AS POLÍTICAS PÚBLICAS EM SAÚDE  

Ao analisar o percurso histórico das políticas públicas em saúde, entende-se que o  tema saúde sempre foi fonte de preocupação e insatisfação por parte da população  de todos os países. A Declaração de Alma-Ata configura-se como um dos principais

documentos que sublinham a saúde como uma meta social e direito de todos. Tal  declaração nasceu através da Conferência Internacional sobre Cuidados Primários  de Saúde ocorrida no Cazaquistão em 1978, época em que a saúde era conceituada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um "estado de completo bem estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de doença ou  enfermidade" (PORTAL DE SAÚDE PÚBLICA, 2012, s/p).

Contudo, precisamos ressaltar que, anteriormente ao evento supracitado, a Reforma  Sanitária3fora outro marco fundamental da construção das políticas públicas de  saúde aqui no Brasil. A Reforma Sanitária pode ser compreendida como uma prática  democrática, sobretudo por tratar-se de um movimento político, pactuado e  construído a partir da iniciativa popular e inquietação da sociedade civil frente ao  autoritarismo e descaso do poder público com a saúde (PAIM, 2008). Neste sentido,  a Reforma Sanitária isenta-se de ser uma ação ínfima, gestada por um grupo ou  classe específica, e torna-se democrática no momento em que a temática saúde  passa a ser discutida nos mais diversos campos de atuação e espaços públicos,  "atribuindo-se uma categoria política e social principalmente por levar o coletivo à  discussão sobre os conflitos de sua cotidianidade" (FERREIRA, 2006, p. 138).

No Brasil, ela desvela-se na década de 70, em meio à pobreza e repressão da  ditadura militar, com a função de defender a modificação "[...] dos modelos de  atenção e gestão nas práticas de saúde, defesa da saúde coletiva, eqüidade na  oferta dos serviços, e protagonismo dos trabalhadores e usuários dos serviços de  saúde nos processos de gestão e produção de tecnologias de cuidado" (BRASIL,  2005, p. 6).

 

3 Movimento político e social pautado na defesa dos seguintes princípios básicos: "1) a saúde das pessoas como  um assunto de interesse societário e a obrigação da sociedade de proteger e assegurar a saúde de seus membros;  2) que as condições sociais e econômicas têm um impacto crucial sobre a saúde e doença e estas devem ser  estudadas cientificamente; 3) que as medidas a serem tomadas para a proteção da saúde são tanto sociais como  médicas" (NUNES, 2009, p. 20).

Ademais, a partir da VIII Conferência Nacional de Saúde, ocorrida em 1986,  percebe-se não só uma nova reconfiguração no modo de gerir a saúde do país, mas  principalmente, a abertura dos órgãos governamentais para a participação popular  tendo sua relevância comprovada na elaboração de propostas e projetos políticos de  saúde condizentes com as necessidades sociais em questão (BRASIL, 1986).

Destarte, salienta-se que neste período há também uma reformulação no conceito  de saúde apregoado pela OMS, ou seja, a saúde passa a ser vista como uma  questão plural que incorre inclusive na compreensão de um conceito amplo:

“[...] define-se um conceito de saúde pautado nos seguintes fatores: "o meio  físico (condições geográficas, água, alimentação, habitação, etc.); o meio  sócio-econômico e cultura (ocupação renda, educação, etc.); os fatores  biológicos (idade, sexo, herança genética, etc.); e a oportunidade de acesso  aos serviços que visem à promoção, proteção e recuperação da saúde"  (BRASIL, 1990, p. 3-4).

Este modelo conceitual de saúde surgiu a partir da VIII Conferencial Nacional de  Saúde e foi promulgada pela Constituição de 1988, que pressupôs uma mudança de  paradigma do modelo médico-organicista e clínico assistencial, para a incorporação  do enfoque epidemiológico que visa ampliar a rede de cuidados primários à saúde. Como um processo em movimento, eclodiu-se a partir destas propostas de  modificação um novo paradigma de saúde pública: o Sistema Único de Saúde do  Brasil (SUS) que desde a Constituição Federal de 1988, preconiza a saúde como  direito do cidadão e dever do Estado, sendo uma questão coletiva e integral, e  ainda, não mais como sinônimo de ausência de doença, mas uma questão plural  (VASCONCELOS; PASCHE, 2009).  

Atualmente, o SUS é regulamentado pela Lei Orgânica nº 8.080/90 e definido pelo  Ministério da Saúde (BRASIL, 1990, p. 4) como um amplo "conjunto de ações e  serviços" que visam primordialmente "a promoção, proteção e recuperação da  saúde". Suas ações tecno-políticas e práticas diárias devem estar pautadas nos  seguintes princípios doutrinários: Universalidade que garante a todo e qualquer  cidadão o direito de acesso a todos os serviços públicos de saúde; Equidade que  possibilita tratar diferente quem é diferente, ou seja, atender o paciente "conforme  suas necessidades específicas;" e Integralidade que consiste no atendimento  integral do sujeito4e garante-lhe o direito aos serviços de saúde em todos os seus  níveis de complexidades (BRASIL, 1990, p. 5).  

Além disso, seus princípios organizativos são: Regionalização e Hierarquização que  consiste em serviços "organizados em níveis de complexidade tecnológica  crescente, dispostos numa área geográfica delimitada e com a definição da  população a ser atendida"; Resolubilidade que é o atendimento eficiente e eficaz em  toda e qualquer situação de doença; Descentralização, ou seja, cabe aos municípios  a responsabilização “quanto às ações e serviços de saúde” prestada aos cidadãos; e Participação dos cidadãos na construção, implementação e controle das políticas de  saúde em todos os seus níveis (BRASIL, 1990, p. 5).

 

4 "O homem é um ser integral, bio-psico-social, e deverá ser atendido com esta visão integral por um sistema de  saúde também integral, voltado a promover, proteger e recuperar sua saúde" (BRASIL, 1990, p. 5).

Contudo, é importante salientar que para a efetuação destes princípios, que foram  estabelecidos pela Constituição Federal de 1988, o SUS conta ainda com o auxílio  das seguintes propostas: a Estratégia da Atenção primária à saúde (APS)/Atenção  Básica (AB) que consiste em "atender a um território delimitado, e funcionar como a  

porta de entrada para o atendimento com resolubilidade às principais necessidades primárias da população" (CAMPOS; TOLEDO; FARIA, 2011, p. 24) e o Programa de  Saúde da Família (PSF) que:

Foca-se no trabalho em conjunto com usuários, famílias e comunidade  

(Ministério da Saúde / Secretaria de Atenção à Saúde / Departamento de  Atenção Básica, 2006). Através da relação de corresponsabilidade da  equipe de saúde com a população, cria-se um vínculo de compromisso com  os usuários do serviço (Ministério da Saúde. Brasília / Ministério da Saúde /  Secretaria de Atenção à Saúde, 1997, apud CAMPOS; TOLEDO; FARIA,  2011, p. 24).

Nesta acepção, infere-se que para o SUS, a concepção de saúde não está mais  pautada no modelo biomédico, em que o foco do tratamento era a cura da doença e a saúde era entendida "[...] como sendo a ausência de sintomas" (CAMPOS;  TOLEDO; FARIA, 2011, p. 24). A saúde agora é compreendida a partir da visão  integral do homem, ou seja, está diretamente relacionada à integração dos seguintes  fatores: as características biológicas; a singularidade de cada um; a satisfação das  necessidades básicas; e o contexto sócio-cultural e familiar no qual o sujeito  estabelece interações e constrói vínculos. Logo, a "saúde implica em integração com  os territórios de convivências, [e] em condições para o exercício da cidadania"  (PAULA, 2009, p. 2). Sendo assim, é fundamental que o profissional de saúde  apreenda o território como uma força viva de relações que o permita compreender  as formas de estar no mundo das pessoas. Isso se dá, não somente entendendo o  lugar geográfico dessas pessoas, mas sim a partir de suas vivências e da  construção de significado que atribuem àquele lugar que habitam (SOMBINI, 2009).

Destarte, percebe-se um modelo de assistência pautada no princípio da integralidade postulado pelo SUS, e na articulação necessária entre a Estratégia da  Atenção Primária à Saúde (APS) e a Estratégia de Saúde da Família (ESF). As ações passam a ser centradas dentro do território e pensadas "com" e "para" a  comunidade, e "[...] o usuário torna-se protagonista e também um dos co responsáveis para o processo de saúde" (PAULA, 2009, p. 8). Ou seja, as ações  passam a ser baseadas na interdisciplinaridade e não mais na multidisciplinaridade, e possibilitam por fim, a promoção, a criação e a produção de novos saberes e, por  conseguinte, a ampliação da clínica.

Frente a tudo o que já foi exposto, deduz-se que todas estas mudanças no setor da  saúde não devem ser analisadas apenas como uma reorganização dos espaços  sanitários, mas sim, como a tentativa de humanizar as tecnologias de produção do  cuidado em saúde. Corroborando com esta ideia, os autores abaixo explicam que:

Humanizar, no sentido proposto pelo Ministério da Saúde, é mais que  

reorganizar os espaços sanitários, é reorganizar os processos de trabalho,  formar e qualificar trabalhadores, garantir os direitos e a cidadania dos  usuários por meio do controle e da participação popular, é instituir práticas

fundadas na integralidade. (SPINK; MATTA, 2007, p. 47 apud CARVALHO;  SANTANA. J; SANTANA, V, 2009, p. 174).

Humanizar é, nesse sentido, compreender que todos aqueles envolvidos no  processo, sejam usuários, trabalhadores ou gestores, possam viver “a corresponsabilidade entre eles, o estabelecimento de vínculos solidários, a  construção de redes de cooperação e a participação coletiva no processo de gestão" (BRASIL, 2010, p. 4).

Visto isso, é então neste cenário de integração dos diversos saberes e práticas,  ambos perpassados pela produção de subjetividade e recriação das tecnologias de  cuidado, que a Política Nacional de Humanização (PNH) volta seus olhares para o  entrelaçamento dos serviços de modo a tecer redes, ou seja, propõe uma relação  vincular e corresponsabilizada entre os três produtores de saúde, a saber, usuários,  trabalhadores e gestores. Pois se acredita que com esta tecelagem e recriação "[...]  pode-se efetivamente potencializar a garantia de atenção integral, resolutiva e  humanizada" (BRASIL, 2007, p. 7).

Não se trata aqui da implementação de serviços estruturados para tratar grupos  monossintomáticos, ou reduzir o número de usuários e gastos com a saúde pública,  ou produzir diagnósticos categoriais pautados no modelo médico positivista, cujo  foco principal é a doença e não o ser humano que sofre. Trata-se de um novo  modelo ampliado de clínica, que tem como principal objetivo fortalecer as redes de  serviços (as quais por muito tempo funcionaram de forma fragmentada) e aproximar  o vínculo entre os produtores de saúde (BRASIL, 2007).

Neste caso, a ideia de um profissional atuar dentro de umas perspectiva de Clínica  Ampliada, pressupõe que ele deve buscar “ ajudar as pessoas não só a combater as  doenças, mas a transformar-se, de forma que a doença, mesmo sendo um limite,  não a impeça de viver outras coisas na sua vida” (BRASIL, 2004, p. 11). Para tanto,  se requer um profissional que adote uma postura de relação horizontal em suas  práticas, ou seja, que respeite a singularidade de cada usuário e o trate com  dignidade e respeito.

Olhar para o indivíduo buscando compreender sua globalidade e, ao mesmo tempo  sua singularidade, significa acolher o sujeito com toda a sua historicidade,  compreender o modo como ele se relaciona com o meio e apreende as coisas  advindas deste, possibilitar que ele aproprie-se não só desta compreensão (que é  formulada pelo profissional), mas principalmente que ele aproprie-se dos seus  próprios significados ocultos no seu processo de adoecimento. Passando assim, a  utilizá-los em prol do seu auto cuidado, a compartilhar o gerenciamento da sua  saúde e evitando uma postura passiva frente às terapêuticas utilizadas. Frente a  isso, adverte-se que:

“Na medida em que a história clínica traz para perto dos sintomas e queixas  elementos da vida do Sujeito, ela permite que haja um aumento da  consciência sobre as relações da “queixa” com a vida. Quando a doença ou  os seus determinantes estão “fora” do usuário, a cura também está fora, o  que possibilita uma certa passividade em relação à doença e ao tratamento”

(BRASIL, 2007, p. 48).

Com base nesta explanação, entende-se que "a Clínica ampliada exige, portanto,  dos profissionais de saúde [...]", sobretudo, além de uma postura crítica sobre à realidade local e os conflitos sociais, um "compromisso ético com o usuário [...]", ou  seja, capaz de ofertar um serviço que o auxilie a lidar com seus conflitos, "[...] ou ao  menos perceber, estas causalidades externas", (BRASIL, 2007, p. 14). Uma equipe  que esteja a favor da população e não a favor de uma ideologia partidária X ou Y  que possa estar inclusive "contribuindo para o adoecimento de um usuário”  (BRASIL, 2007, p. 14).

Dessa maneira, nota-se não só a necessidade de uma nova forma de escutar e olhar para o sujeito, mas também outro modo de se diagnosticar (ou fazer  diagnóstico), que vá além do modelo biomédico:  

“O diagnóstico [já não mais] pressupõe uma certa regularidade, uma  repetição. [...] [Pois] para que se realize uma clínica adequada é preciso  

saber, além do que o sujeito apresenta de igual, o que ele apresenta de  diferente, de singular, inclusive, um conjunto de sinais e sintomas que  somente nele se expressam de determinado modo. Com isso, abrem-se  inúmeras possibilidades de intervenção, e é possível propor tratamentos  

muito melhores com a participação das pessoas envolvidas” (BRASIL, 2007,  p. 10).

Dada esta enunciação, deduz-se que além do profissional de saúde ter na noção de  homem, o caráter biopsicossocial como eixo norteador para sua elaboração de  diagnóstico, ele precisa assumir, em suas práticas de promoção à saúde, uma  postura ética e compromissada pautada "[...] no incentivo ao crescimento, à  ampliação da consciência e autonomia do indivíduo [...]" (CAMPOS; TOLEDO;  FARIA, 2011, p. 25). E não, utilizar o diagnóstico apenas com a finalidade de  classificar, incapacitar e/ou limitar o individuo à uma dada patologia (CARVALHO;  COSTA, 2010).

Congénere a esta nova proposta de Clínica, escudada pelo Sistema Único de  Saúde, que requer dos profissionais da saúde uma concepção integral de homem e de mundo que lhes permita melhor entender o processo de saúde e adoecimento do  sujeito tem-se a Gestalt-terapia, que é uma abordagem fenomenológica que  compreende o homem e o mundo a partir de uma visão holística, isto é,  biopsicossocial. E que, por assim ser, valoriza primordialmente a relação e a  influência mútua entre o campo organismo/ambiente. Entendendo aqui, o campo  como sendo o solo fértil e/ou limiar ilimitado no qual se dá a relação, e o contato  como “a matéria-prima da relação humana” (CARDOSO, 2009, p. 127).

É, pois, em meio a esta similaridade entre a concepção de homem e de mundo  proposta pela Gestalt-terapia e pelo Sistema Único de Saúde, que entendemos que  a Gestalt-terapia pode ser um excelente ferramenta crítica, leitura de homem e  mundo e proposta terapêutica para se pensar a atuação do profissional de saúde  frente às novas propostas do SUS. Contudo, para que tal façanha se faça, será  apresentada a noção gestáltica de saúde e doença (intrínsecos ao modo como o  sujeito estabelece contato com o mundo e consigo mesmo) para que possamos  entender a relação desse modelo com a noção de saúde integral sugerida pelo SUS.

3 - O DIÁLOGO ENTRE A GESTALT-TERAPIA E AS POLÍTICAS PÚBLICAS EM  SAÚDE

A Gestalt-terapia é uma abordagem que teve como um dos seus principais  idealizadores, o alemão, psicoterapeuta e psiquiatra Frederick (Fritz) Salomon Perls,  a partir de sua releitura da teoria e do método psicanalítico. Na final da década de  1940, Fritz Perls, juntamente com sua esposa Laura Perls migram para os Estados  Unidos e lá, juntamente com outros intelectuais próximos a eles, criaram essa nova  abordagem, tendo a participação fundamental de Paul Goodman, um escritor e  anarquista que foi designado para escrever o livro que sua publicação serviu de  marco fundamental de criação da abordagem, a saber, o livro Gestalt-terapia escrito  em 1951 (Belmino, 2014). A Gestalt-terapia, quando chega ao Brasil em meados da  década de 70, mais precisamente no auge da ditadura militar, teve uma grande  aceitação dado que sua proposta defendia uma atuação libertária, que pregasse a  ousadia e a libertação, ou seja, que tentasse inclusive, romper com a postura  hegemônica e elitista da clínica tradicional. Mais do que uma proposta  eminentemente psicoterápica, a Gestalt-terapia trazia aos solos brasileiros uma  perspectiva ética que se fundamentava na crença na autonomia dos indivíduos, e a  retomada da confiança nas capacidades criativas e autorreguladoras de cada  sujeito. Porém, essa capacidade criativa sempre se dá em uma experiência de  campo, ou seja, a partir de uma experiência que se constitui na fronteira entre o  organismo e o seu ambiente (PERLS, HEFFERLINE E GOODMAN, 1997). A  experiência não pode ser resumida nem ao que ocorre no organismo somente ou no  ambiente somente, mas sim, na troca que ocorre entre ambos, ou seja, no contato  que se estabelece entre organismo e ambiente.

De acordo com Cardoso (2009, p. 127), o contato pode ser compreendido como  sendo a troca que o organismo realiza com o ambiente (na fronteira de contato), ou  seja, é a capacidade que o sujeito tem de separar o joio do trigo (introjetar do meio tudo aquilo que é nutritivo e garante a sua sobrevivência e descartar o que é ruim),  tais funções englobam desde o processo de respiração até a “[...] (constituição do eu  e aquisição da cultura, por exemplo)”.

No entanto, Ribeiro (2006, p. 93), considera que "o contato é o instrumento humano  que transporta a vida, e a vida é a expressão visível dos invisíveis contatos que  fizemos em nossas caminhadas à procura da terra do sempre". Com base neste  autor, percebe-se então, que a noção de contato não diz respeito apenas a uma  comunicação de caráter espacial, ou seja, de um organismo se relacionando com  seu ambiente, nem tão pouco, refere-se a uma dinâmica funcional e dualista, ou  seja, de trocas entre o meio externo (ambiente) e o meio interno (organismo). A  noção de contato tem a ver também, com um caráter inerentemente temporal e  resultante das vivências humanas. Ocorre impreterivelmente, com a passagem entre  o passado e o futuro, ou seja, "[...] acontece em determinado espaço e tempo, uma  vez que o contato é resultante das variáveis psicológicas e não psicológicas que  interferem no espaço de vida da pessoa" (RIBEIRO, 2006, p. 91).

Já para Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2007), o foco da experiência do  contato deve ser compreendido a partir de um sistema de contatos (self), e enquanto  tal, não pode ser entendido como uma relação espacial entre o organismo e o ambiente, mas, fundada em uma concepção eminentemente fenomenológica, o  contato é a própria experiência do tempo vivido, ou seja, a construção de uma  historicidade que reúne não só o resultado de suas experiências anteriores, mas  também o próprio processo de passagem entre um fundo de passado em direção a  uma construção futura. Desvela-se em meio a essa reunião de co-dados "[...] a  criação do novo (campo) a partir das formas que, desde o passado, encontram no  conteúdo atual (no dado) novas possibilidades (um futuro)" (MULLER-GRANZOTTO;  MULLER-GRANZOTTO, 2007, p. 236).

A partir da releitura de Cardoso (2009), sobre a metáfora de natureza instintiva e  alimentar, construída por Perls (2002) em seu livro Ego, fome e agressão, e  correlacionando-a com a noção de temporalidade, intrínseca ao contato, e a noção  de totalidade5introduzida pela Gestalt-terapia, percebe-se que o homem é visto como um ser: relacional "[...] constitui-se e constrói-se a cada momento a partir das  relações que estabelece no mundo [...] [e] contextual, pois encontra-se  irremediavelmente atravessado por inúmeros elementos do campo do qual faz parte,  os quais afetam sua relação com o outro e consigo mesmo" (AGUIAR, 2005, p. 43- 44).

Corroborando com as ideias apresentadas acima acerca da noção temporal,  relacional e contextual do existir humano, e reportando-se a investigação de qual  parâmetro de saúde e doença pode nortear as intervenções do clínico, encontra-se na Gestalt-terapia, que é uma abordagem eminentemente fenomenológica, e mais  precisamente na teoria do self construída por Perls, Hefferline e Goodman (2007, p. 49), uma concepção de saúde e doença pautada no processo relacional e contextual  de "identificação e alienação do self":

“[...] se um homem se identifica com seu self em formação, não inibe seu  próprio excitamento criativo e sua busca da solução vindoura; e,  inversamente, se ele aliena o que não é organicamente seu e portanto não  pode ser vitalmente interessante, pois dilacera a figura/fundo, nesse caso  ele é psicologicamente sadio, porque está exercendo sua capacidade  superior, e fará o melhor que puder nas circunstâncias difíceis do mundo.  Contudo, ao contrário, se ele se aliena e, devido a identificações falsas,  tenta subjugar sua própria espontaneidade, torna sua vida insípida, confusa  e dolorosa” (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 2007, p. 49).

Partindo desta compreensão, intui-se que, se o individuo não consegue se reconhecer enquanto pessoa, pertencente e/ou incluído em seu meio social  (identificar-se com seu grupo), e não pode (é privado) gozar de seus direitos civis e  constitucionais, como por exemplo, o direito à: saúde, alimentação, moradia,  educação, trabalho, etc. (é alienado de seu contexto), ele correrá o risco de perder a  dinamicidade e espontaneidade do sistema self, estará por fim, num processo de  adoecimento.

Exposto tal entendimento, percebe-se aqui, uma visão gestáltica de saúde  semelhante à visão de saúde integral e plural postulada pelo SUS, ou seja, que  norteia tal conceito a partir dos seguintes fatores: meio físico, meio-sócio econômico  e cultural, fatores biológicos e acesso aos serviços de saúde (BRASIL, 1990). Além  

 

5"Perceber o ser humano como uma totalidade significa compreende-lo para além de suas características  isoladas, articulando-as não só a outras características do seu ser total, como também a totalidade do contexto  mais amplo do qual ele faz parte" (AGUIAR, 2005, p. 41).

disso, infere-se que ambas apregoam, não só uma concepção de homem  biopsicossocial, mas também reconhecem nesta visão, a possibilidade de se ter uma  percepção mais próxima da experiência humana e com tudo aquilo, que esteja de  alguma forma, colaborando para com o adoecimento do sujeito.

Análoga a esta teoria, percebemos também na leitura fenomenológica proposta por Augras (1986), também uma noção processual, holística e integral de saúde:

“A saúde não é um estado, mas um processo, no qual o organismo vai se  atualizando conjuntamente com o mundo, transformando-o e atribuindo-lhe  significado à medida que ele próprio se transforma. [...] A saúde encontra-se  nesse jogo de interações. [...] Vê-se que essa definição da saúde como  processo de criação constante do mundo e de si integra também o conceito  de doença: saúde e doença não representam opostos, são etapas de um  mesmo processo” (AUGRAS, 1986, p. 11-12).

Sob esse aporte, a doença passa a ser entendida como sendo um processo de " [...]  desarmonia relacional, seja com o mundo em geral, seja consigo mesmo. Instaura se, pois, uma compreensão de relação psicopatológica e não apenas de uma  patologia enclausurada no indivíduo" (HOLANDA, 1998, p. 41 apud CARVALHO;  COSTA, 2010, p. 13).

Condizente a este pensamento, Zinker (2007, p. 47) explica que a doença pode ser  considerada como sendo o bloqueio do contato, em outras palavras, o autor afirma  que “toda patologia pode ser compreendida como uma espécie de interrupção  crônica e extensa do processo por meio do qual a pessoa se mobiliza rumo à  satisfação de uma ampla gama de necessidades”. E acrescenta ainda, que “o  comportamento atrofiado tem características especiais, e o que para nós parece  „doente‟ é um estado de acomodação aos bloqueios no outro” (ZINKER, 2007, p. 48).

Contudo, em meio a este movimento do self (sistema de contatos) que ora dá-se de  forma fluída e dinâmica e ora dá-se de forma rígida, é importante salientar que:

“A rigidez e o bloqueio no contato não implicam, necessariamente, que uma  (psico)patologia esteja configurada como tal. Como anteviram Perls et. al.  

(1997), em sua sabedoria o organismo se vale de resistências para a defesa  

do self quando este se encontra em situação de potencial ameaça ou  impossibilidade de contato. Os bloqueios, como funções preservativas, são,  

num primeiro momento, estratégias saudáveis e criativas para a  

subsistência e proteção do self” (CARVALHO; COSTA, 2010, p. 14).  

Nesse ínterim, é importante salientar que “chamamos de self ao sistema complexo  de contatos necessários ao ajustamento6no campo", ou ainda, [...] "como estando  na fronteira do organismo, mas a própria fronteira não está isolada do ambiente;  entra em contato com este; e pertence a ambos, ao ambiente e ao organismo”  (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997, p. 179).

 6 O ajustamento pode ser compreendido como sendo "o processo que leva as necessidades do organismo e os  estímulos do ambiente a interagir" (ROBINE, 2006, p. 52-53).

Destarte, em outras palavras, o self diz respeito ao processo de formação  figura/fundo que ocorre no campo (organismo/ambiente) mediante a relação  estabelecida no sistema de contato. No entanto, é preciso ter clareza quanto à  flexibilidade deste processo formativo, pois não se trata aqui, de uma estrutura ou  "[...] uma instituição fixada; [assim como o é, pensado na psicanálise; o self ] existe  onde quer que haja de fato uma interação de fronteira, e sempre que esta existir"  (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997, p. 179). Neste sentido, pode-se dizer  que:

“Chamamos de "self" o sistema de contatos em qualquer momento. Como  tal, o self é flexivelmente variado, porque varia com as necessidades  orgânicas dominantes e os estímulos ambientais prementes; é o sistema de  respostas; diminui durante o sono, porque há menos necessidade de reagir.  

O self é a fronteira de contato em funcionamento; sua atividade é formar  figuras e fundos” (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997, p. 49).  

Trata-se, portanto, de um processo de ajustamento criativo7frente às demandas do  meio (campo), que ocorre não de forma isolada, mas integrando sempre as funções  sensoriais, musculares e vegetativas, ou seja, “o organismo-como-um-todo em  contato com o ambiente que é consciente, manipula e sente” (PERLS;  HEFFERLINE; GOODMAN, 1997, p. 180).

Posto isto, é por fim, com base na presente teoria do self formulada por Perls,  Hefferline e Goodman (1997) que tentar-se-á expor o que ocorre com o self quando  este perde a sua espontaneidade ou é privado de suas experiências de contato.  Contudo, para que isso seja possível, enunciar-se-á a clínica do sofrimento ético político, proposta por Muller- Granzotto e Muller-Granzotto (2010;2012a;2012b).

4 - A CLÍNICA DO SOFRIMENTO ÉTICO-POLÍTICO E ANTROPOLÓGICO

Segundo Perls, Hefferline e Goodman (1997) é frente à preocupação e à eminência  de uma situação problemática real e atual, que o sujeito buscará incansavelmente  dar vazão ao seu crescente excitamento. O qual nada mais quer que solucione seu  problema e/ou encontrar êxito naquilo que supostamente procura.

Destarte, é, pois, na experiência do contato e perante as infinitas possibilidades  advindas do campo organismo/ambiente, que o sujeito terá a oportunidade de criar, no momento atual, uma solução vindoura. Assim, Perls, Hefferline e Goodman (1997, p. 182), explicam que tal criação dar-se-á tanto de forma espontânea: "[...]  tanto ativa quanto passiva, tanto desejoso de fazer algo quanto disposto a que lhe  façam algo [...]", como de forma deliberada, ou seja, o sujeito seleciona a figura  (objeto) de identificação de seu interesse e exclui (aliena) de seu campo (fundo) e  foco de investimento aquilo que não lhe será útil.

Contudo, de acordo com os autores supracitados, o resultado presente (solução  vindoura) em hipótese alguma, constitui-se como sendo fruto de um somatório de  experiências passadas, mas sim, uma espécie de criação processual que se dá  

 

7"O ajustamento criativo representa o processo dinâmico e ativo de interação do individuo com o ambiente para  solucionar situações e restaurar a harmonia, o equilíbrio, a saúde do organismo" (ANTONY, 2009, p. 357).

espontaneamente, e mediante a reunião dos dados passados com as novas  possibilidades de futuro. Salientando ainda, que deste modo, o presente nada mais  é que a travessia "[...] do passado em direção ao futuro, e esses tempos são as  etapas de um ato do self à medida que entra em contato com a realidade [...]"  (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997, p. 180).

É, pois, fundamentado nesta compreensão da experiência humana que Perls,  Hefferline e Goodman (1997, p. 184), propõem a descrição de pelo menos três  aspectos funcionais do self, também considerados "as etapas principais de  ajustamento criativo". A saber, as funções: Id, Ego e Personalidade. Entretanto,  perante a esta concepção de que o sistema self funciona por etapas e de forma  sequencial, Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2007, p. 213), argumentam que em  hipótese alguma as funções Id, Ego e Personalidade devem ser entendidas como  sendo uma "[...] sucessão cronológica. Ao contrário, as três funções são apenas três  pontos de vista diferentes que eu posso ter de uma mesma experiência, [...] O que  significa que, em cada experiência vivida [...], eu tenho concomitantemente as três  funções" atuando criativamente.

Por função Id entende-se o fundo histórico e determinado no qual se diluem "[...] as  excitações orgânicas", as experiências passadas e inacabadas, "[...] o ambiente  percebido de maneira vaga e os sentimentos incipientes que conectam o organismo  e o ambiente" (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997, p. 184). Historicidade esta,  que pode a qualquer momento (na experiência de contato) emergir do fundo de co dados e tornar-se figura (consciente). Congénere a esta ideia, Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2007, p. 214), acrescentam que "[...] a função Id é a 'retenção' de  algo que não se inscreve como conteúdo, apenas como hábito: forma impessoal e  genérica, presença anônima do mundo em mim". E enquanto hábito motor e/ou  linguageiro busca sempre através da repetição a concretude de algo inacabado. O Id é por assim dizer, nas palavras do autor supracitado a função "que mobiliza a  'espontaneidade' do sistema self - a qual não é senão aquela antes apresentada  como a capacidade de sentir, base do excitamento constitutivo da awareness sensorial" (MULLER-GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO, 2007, p. 215).

Já a função Ego caracteriza-se por ser o processo de "[...] identificação progressiva  com as possibilidades e a alienação destas, a limitação e a intensificação do contato  em andamento, incluindo o comportamento motor, a agressão, a orientação e a  manipulação" (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997, p. 184). É ainda, o corpo  em ato, atuando na fronteira da experiência de forma singular e diferenciada, pois,  conforme Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2007, p. 218), escreveram é "[...]  somente na ação que propriamente nos diferenciamos do meio em que estamos  diluídos [...]", ou seja, é quando ocorre o processo de diferenciação do outro.

Por fim, a função Personalidade nada mais é que, "[...] a figura criada na qual o self se transforma e assimila ao organismo, unindo-a com os resultados de um  crescimento anterior" (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997, p. 184). Em outras  palavras, a função personalidade é o processo de aprendizagem, formação e transmissão de uma cultura. Ou seja, àquilo que o sistema self identifica a partir das  ações do Ego e do fundo histórico do Id que se constituíram em uma experiência de  campo. Assim sendo, os autores abaixo alertam que:

“É na forma da função personalidade que se desenvolve a vida moral, os  valores éticos, as instituições e os diversos modo de conhecimento:  filosófico, científico, religiosos... É na forma da função personalidade que o  self passa a fruir de sua própria consistência imaginária. Todavia, essa  consistência é constantemente perfurada pelo vazio do hábito e  ultrapassada pelas criações da função de ego. O self não dispõe dela  eternamente. O que esclarece em que sentido a função personalidade é  também a capacidade do sistema self para replicar, reescrever a si mesmo”.

(MULLER-GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO, 2007, p. 220).

Partindo deste pressuposto, os autores supracitados sugerem tratar-se mais  precisamente, de uma espécie de função antropológica e cultural do homem, esta  que além de ser compartilhada por várias pessoas em uma determinada situação,  pode ser compreendida como sendo a capacidade que o sujeito tem de representar  espontaneamente suas "[...] próprias vivências de contato", (MULLER GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO, 2007, p. 218). Ou seja, identificar-se de  forma concreta com tais representações (imaginárias) e perceber-se reconhecido  nas suas interações sociais.

Ademais, Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2010, p. 2), apontam que por ser "[...]  uma espécie de Grande Outro Social que experimentamos junto aos grupos que  integramos, aos valores que assumimos e aos expedientes linguísticos de que nos  servimos [...]", é que, por conseguinte, a partir da função personalidade que o sujeito  se reconhece enquanto pessoa, pertencente e/ ou incluído em seu contexto social, e  substancialmente dotado de valor para si e para o outro.

Visto isso, é então através da releitura de Perls, Hefferline e Goodman (1997) que  Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2012a), afirmam que a função personalidade  tem um caráter fundamental de trazer ao campo da experiência, uma dimensão  cultural, ou seja, em suas conotações antropológicas.

Em contrapartida, e em meio a esta discussão, ao analisar-se o atual panorama  político-econômico e social brasileiro, de intensa desigualdade social, acredita-se  que não é sempre que em suas experiências de contato, o sujeito encontra nos  dados da realidade a satisfação de suas necessidades primária e/ou goza de seus  direitos civis e constitucionais: direito a alimentação, habitação, emprego, educação  e acesso aos serviços de saúde (MULLER-GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO,  2012b).

Da mesma maneira, Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2010, p. 3), alertam que  perante as adversidades do campo organismo/ambiente "[...] as experiências de  contato podem inclusive malograr". Ou seja, o sistema self pode falhar e com isso,  conduzir os excitamentos à uma das seguintes produções de ajustamento: (1) o  sujeito não assimila os excitamentos (como por exemplo é na psicose); (2) os  excitamentos precipitam-se excessivamente de forma distorcida e desarticulada  (como por exemplo nos transtornos paranoico e bipolares); (3) o sujeito inibe seus  excitamentos e boicota toda e qualquer ação criativa que o lance rumo a um  horizonte de possibilidades futuras (como por exemplo é na neurose); e (4) o sujeito  em meio as suas experiências de contato, não consegue encontrar nos dados da  realidade algo que lhe possibilite identificar-se como sujeito social, possuidor de um

valor reconhecido e compartilhado (como por exemplo é na aflição ou sofrimento) (MULLER-GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO, 2010;2012ª;2012b).

Com relação à experiência do sofrimento ou aflição, Perls, Hefferline e Goodman  (1997, p. 235), anteviram que "como distúrbio da função de self, a neurose encontra se a meio caminho entre o distúrbio do self espontâneo, que é a aflição, e o distúrbio  das funções de id, que é a psicose". Por fim, foi baseando-se nesta compreensão do  self, que Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2010, p. 4), ao retomarem tal  descrição conseguiram definir a aflição como sendo "uma falha no funcionamento  espontâneo do sistema self, o que significa dizer, de uma falha na experiência de  contato, cuja consequência é a não produção de uma função personalidade".

Ademais, os autores deixam claro que no sofrimento ético, político e antropológico, a  espontaneidade do sistema self é furtada exatamente no momento em que o sujeito  (função Ego) é privado de encontrar nos dados sociais (experiência de contato) uma  identificação com seus desejos e/ou expectativas (função personalidade). Em outras  palavras, "[...] apesar de dispormos de um fundo de excitamentos (função id), a falta  

de dados (de uma realidade material e sociolinguística) impede o sistema self de  agir, de desempenhar a função de ego" (MULLER-GRANZOTTO; MULLER GRANZOTTO, 2010, p. 5). E como resultado desta falha, o sistema self é impedido  não apenas de contatar e transitar entre as experiências passadas e as  possibilidades futuras, mas "[...] também se vê impedido de assumir um valor ou  identidade objetiva no presente. A função personalidade, portanto, não se  desenvolve e o processo self sofre em decorrência de não poder assumir uma  identidade objetiva" (MULLER-GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO, 2010, p. 6).

De acordo com os referidos autores, o sentimento de aflição pode ser observado em  pessoas que passaram por alguma das seguintes situações de vulnerabilidade:  sofreram algum tipo de agressão gratuita, abuso ou acidente, perderam um ente  querido (luto), foram por algum motivo excluídas do mercado de trabalho ou  submetidas a condições desumanas e escravas de produção, foram assaltadas por  uma doença grave (ou não grave) ou vivenciaram uma tragédia natural (perderam  tudo na enchente ou na seca por exemplo), foram privadas de assistência médica,  foram "[...] excluídas das relações sociais por conta de preconceitos e conflitos  ideológicos [...]" ou ainda rotuladas como louca, marginal, deficiente ou qualquer  outra categorização pejorativa (MULLER-GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO,  2010, p. 3).

Outrossim, os mesmos autores acrescentam que embora o sujeito possa em  diversas situações sofrer algum tipo de privação, e comprometer significativamente a  função personalidade, ainda assim, não é identificada a ausência de funcionamento  do self, pois em sua sabedoria o sistema self procede criando:

“A criação, agora, não implica a produção de um laço amoroso/odioso com  alguém que deve fazer algo “por nós”, como nos ajustamentos de evitação  [neurose]. Tampouco se trata de uma construção voltada exclusivamente  

para o fundo de excitamentos, não importando o horizonte de desejo  descortinado na mediação das demandas do Grande Outro, como no caso  dos ajustamentos psicóticos (de busca). A criação, em situações em que se  pode verificar sofrimento ético-político, tem relação com a solidariedade,  com os pedidos genuínos de inclusão, na forma da qual efetivamente

atribuímos e reconhecemos o poder do semelhante para nos ajudar”.

(MULLER-GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO, 2010, p. 4).

No entanto, os autores ressaltam que mesmo perante a privação dos dados  da realidade, ainda assim, a função de ego parece conseguir criar. É, pois, através  do "[...] pedido de socorro" que o meio social assume a função de

"[...] um ego auxiliar. [Ou seja] o Grande Outro Social deixa de ser um  demandante [...] para se tornar um 'semelhante'. Funda-se, assim, a  experiência da ajuda desinteressada e um tipo especial de identificação  personalista que é a solidariedade" (MULLER-GRANZOTTO; MULLER

GRANZOTTO, 2010, p. 6).  

Frente a isso, salienta-se que embora os autores acreditem que no ajustamento  ético-político o sujeito reconheça no outro um semelhante, não é o caráter de culpa  e responsabilização que o Grande Outro assume, mas sim o reconhecimento de um  "[...] ego fazedor", ou seja, aquele que sabe como auxilia-lo naquilo (problema), que  até então, era considerado como sendo da ordem do "[...] impossível naquele  momento: a inclusão em determinado contexto social, que pode ser desde um  horário para consulta a uma vaga de internação em um hospital" (MULLER GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO, 2010, p. 6).  

Compreendido deste modo, percebe-se aqui, que o ajustamento ético-político nada  mais é que um pedido de inclusão:

“[...] e reconhecimento, mas um pedido especial, uma vez que ele parte de  alguém que não consegue mais se identificar à realidade natural e social em  que se encontra. Não há um pedido de reconhecimento específico voltado  para esta ou aquela identidade. O sofredor não sabe sequer o que lhe falta.  Seu pedido é para que ele possa voltar a pedir. Trata-se de um ajustamento  cuja meta é encontrar “suporte” para que se possa voltar a criar, para que  os ajustamentos criadores voltem a acontecer [...]” (MULLER-GRANZOTTO;  MULLER-GRANZOTTO, 2010, p. 7).

É então, respaldados no âmbito destas produções de sofrimento ético-político, ou  seja, "[...] o sentimento de aflição decorrente do fato de não encontrarmos um lugar  ético em que possamos estabelecer relações políticas" que Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2010, p. 3) propõe a partir da teoria do self uma nova proposta de  clínica e consequentemente um modo de intervenção específica, a saber, a Clínica  do sofrimento ético-político e antropológico. Isto posto, tentar-se-á agora, tecer  reflexões acerca da aplicabilidade do modelo teórico da Clínica do sofrimento ético político antropológico nas Políticas Públicas em Saúde, mais precisamente na  prática do psicólogo inserido no SUS.

5 - A CLÍNICA DO SOFRIMENTO ÉTICO, POLÍTICO E ANTROPOLÓGICO E A  INTERFACE COM A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE  SAÚDE

A inserção do psicólogo nas políticas públicas em saúde é algo relativamente novo,  sobretudo, porque a psicologia é um campo de conhecimento e profissão recente no  Brasil (AGUIAR; RONZANI, 2007). Ademais, percebe-se que no decurso de sua

história, que a psicologia foi moldando-se gradativamente em virtude das inúmeras  transformações sociais, políticas e econômicas alcançadas pelo país (AGUIAR;  RONZANI, 2007). Assim sendo, Dimenstein (2001, p. 62), assinala que a nova  práxis do psicólogo contemporâneo necessita estar "[...] associada ao processo de  cidadanização, de construção de sujeitos com capacidade de ação e de proposição.  Isso implica em romper o corporativismo, as práticas isoladas e a identidade  profissional hegemônica vinculada à do psicoterapeuta".

Em outras palavras, denota-se em tal rompimento, não só a transgressão do modelo  tradicional de psicologia, ou seja, exclusivamente elitista e voltado para a  psicologização e psiquiatrização do sofrimento, mas principalmente, a resignificação  da psicologia clínica e a exigência de um novo perfil de psicólogo. Exige-se um  psicólogo com compromisso profissional e social, ou seja, com ações direcionadas  às necessidades sociais, à práticas humanizadas, "ao acolhimento e ao vínculo com  os usuários" (DIMENSTEIN, 2001, p. 58).

Na ótica da intervenção, Silva (2001), adverte que não faz sentindo pensar a prática  da psicologia clínica como um serviço exclusivamente particular, restrito apenas a  quatro paredes de um consultório, seguindo os moldes do modelo médico e da  psicologia clínica tradicional (curativa), pois:

“Seu espaço é a rua, a casa do usuário ou qualquer outro lugar propício que  

a comunidade disponha, ou seja, não são mais quatro paredes brancas  

fechadas em si mesmas. As pessoas são assistidas pelo SUS (Sistema  Único de Saúde), pela prefeitura através de secretarias como de assistência  

social e/ou da saúde, o que nos mostra uma clínica como um serviço não  

particular; e o psicólogo aí é um funcionário público”. (SILVA, 2001, p. 80).

Já para Figueiredo (1995, p. 40), “o que define a clínica psicológica como clínica é  sua ética: ela está comprometida com a escuta do interditado e com a sustentação  das tensões e dos conflitos". Semelhante a esta ideia, encontrou-se na clínica  gestáltica a evidência de uma concepção de ética, oriunda do grego éthos, que  significa "morada, abrigo, refúgio, lugar onde somos autênticos e despidos de  defesas, estamos protegidos, abrigados, e podemos receber o outro" (MULLER

GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO, 2007, p. 280).

Neste sentido, pode-se compreender a clínica como sendo "[...] o exercício do dizer  tudo, ou do deixar-se dizer mais além ou mais aquém do que já é sabido [...]", o  lugar da produção do desvio ao outro, ou seja, do encontro e do acolhimento ao "[...]  estranho ou inesperado [...]" (MULLER-GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO,  2012a, p. 6). E o clínico como sendo aquele, que ao provocar o desvio, estimula o  sistema self a produzir soluções novas e criativas frente as suas necessidades.

Posto isto, ressalta-se que no processo terapêutico o papel ético do clínico é o de  propor:

“[...] uma revolução molecular. Uma maneira poética de promover  agenciamentos micropolíticos na polis, pois questionar o sistema capitalista  

não se restringe mais a lutas políticas e sociais em grande escala.  

Microrevoluções ou revoluções moleculares, assim como a ética do  

cuidado, são intervenções políticas extremamente amplas que podem nos  encaminhar a um „estar alerta para todos os fatores de culpabilização; estar

alerta para tudo o que bloqueia os processos de transformação no campo  subjetivo‟” (GUATTARI, 1986, p. 135 apud SILVA, 2001, p. 83-84).

Consonante a este pensamento, Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2010),  sugerem que ao contrário de intervir diretamente nos focos centrais (problemas e/ou  causas sociais) provedores do sofrimento, o papel do clínico deve ser o de escutar o  sofrimento tácito daquele que vos chega. Ou seja, escutar primordialmente o seu  "[...] apelo por suporte, o apelo por inclusão, bem como [ser] aquele que, a partir  desse apelo, pode acompanhar o processo de tomada de decisão que cada sujeito  sofredor (cada função de ego) empreende face aos conflitos e dificuldades que  esteja vivendo" (MULLER-GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO, 2010, p. 4).  Trata-se aqui, portanto, de uma intervenção clínica perpassada pela dimensão ética  e política, que deve ser realizada por:

“Um psicólogo aliado da transformação social, do movimento da sociedade  e dos interesses da maioria da população. Um psicólogo inquieto,  conspirador, que saiba estranhar aquilo que na realidade se torna tão  familiar que chega a ser pensado como natural. [...] Um psicólogo  permeável às inovações que aceite o desafio de, coletivamente, produzir  alternativas à Psicologia tradicional”. (BOCK, 1997, p. 41).

Enfim, uma prática orientada "no ser" e "no fazer" de um psicólogo crítico, ético,  dialógico, criativo e engajado com a comunidade por ele atendida. Que interesse-se  inclusive, por desenvolver mecanismos de ascensão e autonomia da função de ego  e consequentemente a validação da função personalidade.

Do ponto de vista clínico, Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2010), acrescentam  que frente ao sofrimento ético-político a intervenção do psicólogo deve incidir diretamente na função de ego. No sentido de tentar agenciar com o sofredor modos  distintos e singulares, que o leve não só a recuperar a espontaneidade do seu  sistema self, mas principalmente a "[...] reconquistar sua autonomia e voltar a fazer  ajustamentos criadores [...]", seja no consultório, na Estratégia de Saúde (ESF), no  hospital, na escola, em casa, na comunidade, no Centro de Referência de  Assistência Social (CRAS), no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), etc.  (MULLER-GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO, 2010, p. 8).

Intervir a partir da clínica do sofrimento ético-político e antropológico "[...] significa  disponibilizar-se a acompanhar os sofredores em seus pedidos de socorro, de modo  a ajudá-los a encontrar os meios pelos quais eles possam ser ouvidos e atendidos  em seus apelos" (MULLER-GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO, 2010, p. 8).  Destarte, tais intervenções envolvem:

“i) ajudá-los a identificar as suas necessidades (e não seus excitamentos ou  desejos); ii) ajudá-los a reconhecer e constituir o “semelhante” junto a quem  possam merecer atenção e resultado; iii) e ajudá-los a executar as tarefas  que possam valer o resgate de um lugar social Porém, isso não significa  “fazer por”. O trabalho de acompanhamento de alguém em sofrimento ético

político não caracteriza uma forma de assistência social”. (MULLER

GRANZOTTO; MULLER-GRANZOTTO, 2010, p. 9).

De um modo geral, trata-se, pois, como bem anteviram Campos, Toledo e Faria  (2011), de ampliar a autonomia do sujeito, de emancipá-lo, ou ainda, nas palavras

de Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2010), trata-se de acolher e orientar aquele  que genuinamente chega com toda a sua aflição, de ajudar o sujeito não só a  compreender suas reais necessidades, mas principalmente a fazer por ele mesmo,  suas próprias escolhas.

Nesse ínterim, percebe-se que estando embasada em teorias e técnicas, a  psicologia ao voltar-se para a "realidade social" brasileira, avança rumo ao seu  desígnio mais nobre, que é o de servir ao cidadão, inserir-se nas políticas públicas e intervir contra qualquer tentativa de "[...] alienação do paciente no processo saúde doença [...]" (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2011, p. 9-10).

Ademais, Aguiar e Ronzani (2007, p. 18), ressaltam que dentre as atribuições do  psicólogo inserido nos serviços públicos de saúde, estão as seguintes funções: atuar  junto à comunidade, desenvolver atividades psicossociais, terapêuticas e grupais focadas na troca de saberes, na estimulação das potencialidades do sujeito e no  empoderamento social, atuar junto aos profissionais da equipe multidisciplinar, de  forma "[...] a integrar esforços, estimular a reflexão e a troca de informações sobre a  população atendida e facilitar a avaliação e a evolução clínica".

Portanto, a função do psicólogo nas políticas públicas em saúde caracteriza-se por  gerir e estimular ações que enalteçam a qualidade de vida do cidadão, bem como  construir e implementar políticas fomentadas nos princípios da universalidade,  integralidade e equidade do SUS.

6 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base em tudo o que foi exposto, entende-se que atuar no campo das políticas  públicas em saúde não é uma tarefa fácil, sobretudo para a psicologia que nasceu  como uma profissão incialmente elitista e focada nas práticas de consultório. No  entanto, tal inserção é extremamente necessária, visto que não faz sentido pensar a  psicologia fora do campo das ações e relações humanas e/ou alheia à realidade e as transformações sociais.

Ademais, é importante salientar que em hipótese alguma, propôs-se a incumbência de afirmar que a psicologia por si só será capaz de resolver e/ou sanar todos os  conflitos imanentemente humanos e sociais. Pois, foi resguardando-se de qualquer  tentativa de preterir outras profissões no rol da saúde, que ao longo da maior parte  do corpo teórico deste trabalho, os autores referiram-se sempre aos profissionais da  saúde e principalmente aos produtores da saúde. Já que, estes acreditam numa  concepção de saúde perpassada pelos fatores biológicos, físicos, sociais,  econômicos e culturais, bem como executado por um sistema de cuidados  organizado, humanizado e ético.

Enfim, um sistema de saúde fomentado imprescindivelmente: na noção de  integralidade e equidade do SUS, na qualidade e eficácia das ações tecno-políticas,  na interdisciplinaridade, na participação do cidadão e sua implicação direta no  processo de cuidado à saúde, na integração do sujeito aos seus territórios de  convivências, na participação ativa dos gestores, na valorização do sujeito, e por fim,  na defesa e efetivação dos direitos humanos.

Assim, após ter dissertado sobre os princípios organizativos e doutrinários do SUS,  o conceito de saúde e doença, e como a Gestalt-terapia apresenta um modelo  teórico compatível e dialógico com tais perspectivas, é preciso deixar claro que tal  abordagem por si só, é insuficiente para dar conta da enigmática existência humana  e dos complexos entraves sociais. Entraves estes, que acabam por desencadear  desigualdades econômicas, sofrimento psíquico e adoecimento.

Contudo, e após as devidas ressalvas quanto às limitações da Gestalt-terapia, ainda  assim, apregoa-se que a teoria do self e mais precisamente, o modelo teórico da  clínica do sofrimento ético-político, constitui-se como um valioso víeis para a compreensão do sujeito e identificação de suas reais necessidades. Bem como,  possibilita ao clínico intervir a partir da produção de desvios, nos mais diversos  espaços de construção, aprendizagem e produção da saúde.

Visto isto, ressalta-se que tal modelo faz-se relevante principalmente por convir com  a atual realidade social brasileira, que caracteriza-se por ter um alto índice de pobreza e desigualdade social, que acolhe diariamente no Sistema Único de Saúde uma população adoecida que muitas vezes, já não mais acredita em seus sonhos,  ou em qualquer possibilidade de melhoria de vida. Pois são, possivelmente, sujeitos  que além de se sentirem desvalorizados, alienados e/ou excluídos de seu meio  social (que perderam a espontaneidade do seu sistema self), não conseguem se  quer, se reconhecerem enquanto sujeitos humanos, ou seja, identificar-se com uma  identidade concreta e objetiva (função personalidade).

Nesse ínterim, encontrou-se na teoria do self desenvolvida por Perls, Hefferline e  Goodman (1997), e na clínica do sofrimento ético-político antropológico proposta por  Muller-Granzotto e Muller-Granzotto (2010,2012a.2012b), a possibilidade de uma  ampla gama de intervenções terapêuticas no campo das políticas públicas em  saúde. Intervenções estas, que vão desde a ascensão da função de ego, a  estimulação da autonomia e do empoderamento social, a criação de espaços que  prezem pelo o exercício da cidadania, o acolhimento, até o incentivo de  ajustamentos criadores frente às necessidades e os problemas enfrentados.

À guisa de conclusão, é preciso acrescentar que esta pesquisa não se dá por  encerrada, visto que, ainda se tem muito a investigar sobre a aplicabilidade da teoria do self, não só nos espaços de produção e cuidado em saúde concernente as  políticas públicas em saúde, mas também no campo da educação e das  organizações públicas e privadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUIAR, L. Gestalt-terapia com crianças: teoria e prática. São Paulo: Livro  Pleno, 2005.

AGUIAR, S. G.; RONZANI, T. M. PSICOLOGIA SOCIAL E SAÚDE COLETIVA:  RECONSTRUINDO IDENTIDADES. Psicol. pesq., Juiz de Fora, v. 1, n. 2, dez. 2007. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1982-12472007000200003 &lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 23 jun. 2012.

AUGRAS, M. O ser da compreensão: fenomenologia da situação de  psicodiagnóstico. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 1986.

BRASIL, Ministério da Saúde. 8º Conferência Nacional de Saúde. Disponível em:  http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/8_CNS_Participacao%20social%20em %20saude.pdf. Acesso em: 19 JUN. 2012.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Núcleo Técnico da  Política Nacional de Humanização. Clínica ampliada, equipe de referência e  projeto terapêutico singular/ Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde,  Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização – 2. ed. – Brasília: Ministério  da Saúde, 2007.

BRASIL. Lei nº 8.080, de 19 de Setembro de 1990. Disponível em:  http://portal.saude.gov.

br/portal/arquivos/pdf/lei8080.pdf. Acesso em: 02 MAR 2012.

BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. DAPE.  Coordenação Geral de Saúde Mental. Reforma psiquiátrica e política de saúde  mental no Brasil. Documento apresentado à Conferência Regional de Reforma dos  Serviços de Saúde Mental: 15 anos depois de Caracas. OPAS. Brasília, NOV. de  2005. Disponível em: http://bvsms.

saude.gov.br/bvs/publicacoes/Relatorio15_anos_Caracas.pdf. Acesso em: 12 MAR. 2012.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Núcleo Técnico da  Política Nacional de Humanização. Acolhimento nas práticas de produção de  saúde / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Núcleo Técnico da  Política Nacional de Humanização. – 2. ed. 5. reimp. – Brasília: Editora do Ministério  da Saúde, 2010. 44 p.: il. color. – (Série B. Textos Básicos de Saúde)

BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. ABC DO SUS: doutrinas e princípios. Ministério da saúde. Secretaria Nacional de Assistência à  saúde. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 1990. Disponível em:  http://biblioteca.planejamento.gov.br/

biblioteca-tematica-1/textos/saude-epidemias-xcampanhas-dados-descobertas/texto 17-abc-do-sus-doutrinas-e-principios.pdf/view. Acesso em: 20 FEV. 2012.

BELMINO, M. C. A. Fritz Perls e Paul Goodman: Duas Faces da Gestalt-terapia.  Fortaleza: Editora Premius, 2014.

BOCK, A. M. B. FORMAÇÃO DO PSICÓLOGO: UM DEBATE A PARTIR DO  SIGNIFICADO DO FENÔMENO PSICOLÓGICO Rev. Psicologia Ciência e  Profissão. v.17, n.2, 1997. Disponível em:  

http://pepsic.bvsalud.org/pdf/pcp/v17n2/06.pdf. Acesso em: 05 ABR. 2012.

CAMPOS, B.G; TOLEDO, T.B; FARIA, N. J. CLÍNICA GESTÁLTICA INFANTIL E  INTEGRALIDADE EM UMA UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE. Rev. abordagem  gestalt., Goiânia, v. 17, n. 1, jun. 2011. Disponível em  

<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809- 68672011000100005&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 03 FEV. 2012.

CAMPOS, G. W. S. et. al. TRATADO DE SAÚDE COLETIVA. In: NUNES, E. D.  Saúde Coletiva: uma história recente de um passado remoto. São Paulo:  Hucitec; Rio de Janeiro: Ed: Fiocruz, 2009, p. 19-39.

______. TRATADO DE SAÚDE COLETIVA. In: VASCONCELOS, C. M.; PASCHE,  D. F. O Sistema Único de Saúde. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz,  2009.

CARDOSO, C. L. GRUPOS TERAPÊUTICOS NA ABORDAGEM GESTÁLTICA:  UMA PROPOSTA DE ATUAÇÃO CLÍNICA EM COMUNIDADES. Rev. Estudos e  pesq. em psicologia, v. 9, n. 1, 2009. Disponível em: <http://  

www.revispsi.uerj.br/v9n1/artigos/pdf/v9n1a10.pdf>. Acesso em: 20 SET. 2011.

CARVALHO, D. B.; SANTANA, J. M.; SANTANA, V. M. HUMANIZAÇÃO E  CONTROLE SOCIAL: O PSICÓLOGO COMO OUVIDOR HOSPITALAR. Psicol.  cienc. prof., Brasília, v. 29, n. 1, mar. 2009. Disponível em  

<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414- 98932009000100014&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 19 mar. 2012.

CARVALHO, L. C.; COSTA, I. I. A CLÍNICA GESTÁLTICA E OS AJUSTAMENTOS  DO TIPO PSICÓTICO. Rev. abordagem gestalt., Goiânia, v. 16, n. 1, jun. 2010. Disponível em: <http://pepsic.

bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-

68672010000100003&lng=pt&nrm

=iso>. Acesso em: 01 FEV. 2012.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Senhoras e senhores gestores da  Saúde, Como a Psicologia pode contribuir para o avanço do SUS. Disponível  em: http://www.pol.

org.br/pol/export/sites/default/pol/publicacoes/publicacoesDocumentos/conasems_cr epop_v4.pdf. Acesso em: 25 FEV. 2012. Brasília-DF, 2011

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (org.).NASF – Núcleo de Apoio à  Saúde de Família / Conselho Regional de Psicologia 6ª Região de São Paulo – São  Paulo: CRP SP, 2009. In: SOMBINI, C. H. A. M. Saúde Mental na Atenção Básica:  Uma das Possibilidades de Construção no Município de Campinas (SP).  Disponível em:  

http://www.crpsp.org.br/portal/comunicacao/cadernos_tematicos/7/frames/fr_saude_ basica.aspx. Acesso em: 18 MAR. 2012.

DIMENSTEIN, M. O PSICÓLOGO E O COMPROMISSO SOCIAL NO CONTEXTO  DA SAÚDE COLETIVA. Rev. Psicol. estud., Maringá, v. 6, n. 2, dez. 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722001000200008&lng=en&nrm=iso>.  Acesso em: 23 JUN. 2012. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722001000200008.

FERREIRA, G. A Reforma Psiquiátrica no Brasil: Uma Análise Sócio Política. Disponível em:  

http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/Revista/revistas/07/REFORMA.pdf. Acesso  em: 12 MAR.2012.

GONÇALVES, A. M; SENA, R. .R. A REFORMA PSIQUIÁTRICA NO BRASIL:  CONTEXTUALIZAÇÃO E REFLEXOS SOBRE O CUIDADO COM O DOENTE  MENTAL NA FAMÍLIA. Rev Latino-am Enfermagem, v.9, n.2, mar. 2001.  Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rlae/v9n2/11514.pdf. Acesso em: 14 MAR.  2012.

GRANZOTTO, M. J. M.; GRANZOTTO, R. L. A CLÍNICA GESTÁLTICA DA AFLIÇÃO  E OS AJUSTAMENTOS ÉTICO-POLÍTICOS. Rev. de Terapia Gestalt de la  Asociación Española de Terapia Gestalt. Vitoria: Ediciones la Llave D.H., n. 30  (Clínica Gestáltica), 2010.  

______. Fenomenologia e Gestalt Terapia. São Paulo: Editora Summus, 2007.

______. Clínicas Gestálticas: Sentido Ético, Político e Antropológico da Teoria  do Self. São Paulo: Editora Summus, 2012a .

______. Psicose e Sofrimento. São Paulo: Editora Summus, 2012b .

LIMA, T. C. S.; MIOTO, R. C. T. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS NA  CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO: A PESQUISA  BIBLIOGRÁFICA. Rev. katálysis, Florianópolis, v. 10, n. spe, 2007. Disponível  em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414- 49802007000300004&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 22 MAIO. 2011.

MINAYO, M. C. S. (Org.). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. 23 ed.  Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

PAIM, J. S. A REFORMA SANITÁRIA BRASILEIRA E O SISTEMA ÚNICO DE  SAÚDE: DIALOGANDO COM HIPÓTESES CONCORRENTES. Rev. Physis, Rio  de Janeiro, v. 18, n. 4, 2008 . Disponível em:  

<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-

73312008000400003&

lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 06 ABR. 2012.

PAULA, P. P. POLÍTICAS PÚBLICAS ATUAIS DE SAÚDE MENTAL E OS  SERVIÇOS SUBSTITUTIVOS EM BH. In: XV Encontro Nacional da ABRAPSO.  “Psicologia Social e Políticas de Existência: fronteiras e conflitos”. Maceió.  NOV. 2009. Disponível em: http://www.abrapso.org.br/

siteprincipal/images/Anais_XVENABRAPSO/284.%20pol%CDticas%20p%DAblicas %20atuais%20de%20sa%DAde%20mental.pdf. Acesso em: 22 FEV. 2012.

PERLS, F. S. Ego, Fome e Agressão: Uma revisão da teoria e método de Freud. São Paulo: Summus, 2002.

PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus,  1997.

PORTAL DE SAÚDE PÚBLICA. Conferência Internacional sobre Cuidados de  Saúde Primários 12 de Setembro de 1978, Alma-Ata, Casaquistão, URSS.  Disponível em: http://www.saudepublica.web.pt/05-promocaosaude/Dec_Alma Ata.htm#Alma. Acesso em: 19 JUN. 2012.

RIBEIRO, J. P. Vade-mécum de Gestalt-terapia: conceitos básicos. São Paulo:  Summus, 2006.

ROBINE, J. M. O self desdobrado: perspectiva de campo em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2006.  

SILVA, E. R. PSICOLOGIA CLÍNICA, UM NOVO ESPETÁCULO: DIMENSÕES  ÉTICAS E POLÍTICAS. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 21, n. 4, dez. 2001.  Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/

scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932001000400009&lng=pt&nrm=iso>.  Acesso em: 27 nov. 2011.

ZINKER, J. Processo criativo em gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2007

Endereço para correspondência

Jucimara Gonçalves Bernardo

E-mail: jucimarabernardo@hotmail.com

Marcus Cézar de Borba Belmino

E-mail: marcuscezar@gmail.com

Recebido em: 08/01/2015

Aprovado em: 01/09/2015

NOTAS

Jucimara Gonçalves Bernardo: Graduada em Psicologia pela Faculdade Leão  Sampaio de Juazeiro do Norte, Ceará. Especializanda em Gestalt-Terapia pela  Diálogos Cariri, em parceria com o Instituto Muller-Granzotto (Florianópolis, SC) e  Saúde Mental pela Faculdade Leão Sampaio.

Marcus Cézar de Borba Belmino: Psicólogo, formação em Gestalt-terapia,  mestrado em Psicologia (UNIFOR), doutorando do programa de pós-graduação em  filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina.

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 22, 2015, p.67-91 DOI 10.5281/zenodo.15048601

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526