ARTIGO

 

Gadamer: Um Projeto Metodológico Para Gestalt-Terapia

Gadamer: A Project Methodology for Gestalt Therapy

 

Ananias Queiroga Oliveira Filho*

USF - Universidade São Francisco - Bragança Paulista, São Paulo - Brasil.

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O presente trabalho propôs-se a evidenciar uma relação entre a teoria do filósofo alemão Hans-Georg Gadamer e sua pertinência como aporte metodológico para Gestalt-Terapia. Fez-se um estudo da Gestalt-Terapia tendo por base a concepção do seu fundador Fritz Perls, onde foram explicitados os seus principais conceitos e preceitos a partir de uma análise crítica delineada de maneira a ressaltar a estrutura do escopo teórico e metodológico. Traça-se um paralelo entre conceitos fundamentais de Gadamer, e como estes podem ser de grande utilidade para o gestalt-terapeuta, propiciando a este uma melhor compreensão da experiência no processo de psicoterapia.

Palavra-chave:Gestalt-Terapia; Gadamer; Metodologia.  


Abstract

This study aimed to demonstrate a relationship between the theory of the German philosopher Hans-Georg Gadamer and its relevance as a methodological approach to Gestalt Therapy. There was a study of Gestalt Therapy based on the design of its founder Fritz Perls, which were explained the main concepts and precepts from a critical analysis outlined in order to emphasize the structure of the theoretical and methodological scope. Draws a parallel between fundamental concepts of Gadamer, and how these can be of great benefit to the gestalt therapist, providing a better understanding of this experience in the psychotherapy process.

Keywords:Gestalt Therapy; Gadamer, Methodology.


 

INTRODUÇÃO

A gestalt-terapia (GT) é uma abordagem clínica que compreende um arcabouço técnico e de conceitos específicos em sua concepção teórica e prática. A GT tem como fundador Fritz Perls;  este autor concebeu, a princípio, o que seriam correções ou melhoras da teoria psicanalítica, mas ao não ter o reconhecimento de suas teses pela comunidade psicanalítica, inclusive do próprio Freud, Perls decide constituir uma nova linha de psicoterapia (WALLERSTEIN GOMES, 2001). Ademais, ressalte-se que as proposições de Perls ainda como psicanalista, não se enquadravam no arcabouço psicanalítico. Tomando por base aquelas idéias começa a construção da GT, que tem como principais alicerces epistemológicos a Psicologia da Gestalt, o Existencialismo e a Fenomenologia (RIBEIRO, 1985).

Nesse sentido, o presente artigo tem como figura analisar e propor uma nova base metodológica para a GT de maneira que, neste trabalho, ocorre um ponto de cisão entre a concepção aqui delineada e o comumente aceito em GT (RIBEIRO, 1985; ANDRADE, 2007; PEREIRA, 2008; FERREIRA, 2009). Neste texto defende-se, portanto, que em seu escopo, a GT sofre por precariedade metodológica como propõem Oliveira Filho (2010) e Holanda (2008) em seus estudos.

Oliveira Filho e Wallerstein Gomes (2012) alertam que as matizes da fenomenologia utilizada como base metodológica na GT, mais especificamente as concepções de Heidegger e Husserl, apresentam em aspectos centrais uma clara contradição com os pressupostos da GT. Não é cerne do presente artigo aprofundar nesse tema, por isso recomenda-se a leitura da reflexão teórica proposta por Oliveira Filho e Wallerstein Gomes (2012).

Segundo Popper (2001), o método é o instrumento que viabiliza o entendimento e apreensão produtiva e ativa do conhecimento, para tanto, é necessário se utilizar de uma metodologia coerente com o arcabouço teórico e os objetivos determinados, estabelecendo e conferindo a um estudo ou a uma prática os aspectos consistentes que permitam o uso e a elaboração de saberes dinâmicos de forma válida.

O cerne deste trabalho, visa discutir e debater a propriedade da Fenomenologia do Diálogo de Gadamer como arcabouço metodológico em GT. Na busca não das razões, mas das questões que permitam no processo o desvelar das intenções, este denota, porquanto, ter em sua estrutura dar aporte mais adequado as contingências surgentes no setting clínico, onde são envolvidos por meio dos diálogos os discursos de cliente e terapeuta; donde se encontram o “que é?” de cada um e dão inicio ao processo de “como é?” de uma relação. Ademais de elaborar proposições coerentes com a problemática abordada e questionamentos levantado como forma de construção de uma base de conhecimento mesmo com a convicção que nada aqui será tratado como resposta certa ou fim de um caminho.

A idéia basilar é iniciar, ou melhor, reiniciar uma longa caminhada que não se verte em respostas débeis e superficiais, sobretudo tem função de ser mais um ponto, mesmo que mínimo, de reflexão desta empreitada que é construir conhecimento.   

 

GESTALT-TERAPIA

A definição acerca do que é clínica, ultrapassa os limites de sua origem bem como de sua definição clássica. A clínica tem uma prática e uma definição mais amplas, onde clinicar é a ação de cuidar e de estar ao lado - ação essa não só vinculada ao médico e nem só direcionada a um enfermo e sim ao individuo à procura de uma melhor condição de vida (DUTRA, 2004).

O entendimento acima explicitado denota uma relevância ímpar à clínica, em um mundo onde a realidade não é mais a das patologias ou crises em suas concepções clássicas (BAUMAN, 2001). Ao invés destas, temos pessoas em estados de conflitos e mudanças perenes em busca de auto-compreensão, sem se enquadrarem em concepções nosográficas antiquadas e pré-estabelecidas e sem levar em consideração o eu de cada ser.

A fim de compreender essa realidade, a GT apresenta uma visão perspicaz e capaz de ajudar a empreender essa tarefa (ANDRADE, 2007; ZINKER, 2001) e ainda traz em si a proposta de que não há relação estática onde se estabeleça uma relação de figura/fundo entre emoção e razão. Exemplifica-se este entendimento, a partir das colocações de Robine (2003); em seu artigo o autor enfoca a criatividade, esta ligada à emoção e ao rigor metodológico - e este por sua vez ligado à razão, evidenciando o caráter dinâmico e processual dessa relação. Robine (2003) portanto, relaciona esses dois construtos, que são tidos por muitos como princípios contrastantes.

De certa maneira pode-se exemplifica esse entendimento e sentido nos versos de Fernando Pessoa “O Binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso”, pois há na razão um conteúdo inegavelmente emocional e na emoção um conteúdo racional (DAMÁSIO, 2004). A beleza está no racional, tal qual o conhecimento está nas artes, podendo assim entender que um método pode trazer a tona singularidades e não só normatização.

Há de se buscar a apreensão dos conteúdos dos fenômenos presentes com base nessa relação de influência mútua entre emoção e razão explicitando aqui uma relação de polaridade, que é uma força motriz do ajustamento criativo (ANTONY, 2009). O ajustamento criativo é entendido como processo em que o indivíduo, dentro das possibilidades apresentadas em dado momento da existência, há de construir a resposta mais criativa possível (WALLERSTEIN GOMES, 2001).

A visão de mundo e de ser no mundo que a GT traz em si, são princípios e conceitos de grande complexidade, mas que se adequam ao dinamismo vivenciado na contemporaneidade - uma modernidade liquida no conceito de Bauman (2001). As pessoas enfrentam uma dificuldade em se descobrir ou de desvelar-se sem as muletas sociais impositivas, tais como estereótipos, rótulos, normas e regras imutáveis (BAUMAN, 2001). Na realidade atual de grande volatilidade, as pessoas têm de buscar em si mesmas os seus parâmetros e bases constitutivas, o que provoca um sentimento de não ser e de não estar (BAUMAN, 2001). Esta é a condição ideal do ser humano em uma visão de GT, que é de ser em busca e estar na busca, de modo que o parâmetro humano deve ser a sua intencionalidade mediada pelo processo de diálogo com o mundo, ou seja,: um ser de estar em/nas relações (SAFRA, 2006).

A GT apresenta em seu arcabouço fundamentos necessários não para abarcar a compreensão do ser no mundo, mas para ajudar no auto-entendimento e a elaboração da intenção própria e particular de cada um. Conseguir construir ou discernir a intencionalidade singular como coloca Robine (2003), é a figura norteadora fundamental para um processo de autonomia e auto-compreensão no qual a psicoterapia pode exercer um papel de facilitadora nesta ação de auto-conhecimento de atualização contínua (DUTRA, 2008).

A GT trabalha com base na idéia de contato, que Yontef (1998, p. 237) define: "o contato é o processo básico do relacionamento. Ele proporciona a verificação da diferença entre o self e o outro". O contato é a porta de entrada para as relações e como conseqüência óbvia para o diálogo. Onde se dá o real processo de psicoterapia e se estabelece a verdade, aqui compreendida como qualquer fato ou situação que abra caminhos e possibilidades na psicoterapia.

“Contato significa estar unido por meio da percepção, a alguém ou a algo fora de si mesmo. Posso estar contigo unicamente se estou seguro de que tu és, não eu, de que existimos como entes separados um do outro.” (PERLS, 1973, p.38)

Como já argüia Perls (1977) a GT é terapia do óbvio, pois sua dinâmica ocorre no que é desvelado como fenômeno do agora, não sendo objetivo interpretar as causas, já que esta seria uma atitude de cunho pessoal e individualista acerca do “o que é?”. O terapeuta tem que ter como foco o cliente e estar com ele na relação em busca da compreensão “o como é?” eo diálogo tem que ser estabelecido em grau de confiança mútua.

A construção de um campo perceptivo confiável é fundamental em um ambiente psicoterápico, pois a noção de percepção do campo sensorial norteia a elaboração e forma em que se apresenta ao ser humano, e em conseqüência é como se estabelece o contato material em que se dá o estado awareness. O estado awareness é que produz a intencionalidade organísmica, ou melhor, ela é a intencionalidade organísmica, que vai trazer respostas ponderadas no passado gerando abertura para o futuro (POLSTER & POLSTER, 2001).

Perls define: “a abordagem gestaltista [...] tenta compreender a existência de qualquer evento através do modo como ocorre, [...] procura entender o vir-a-ser pelo como, não o por quê” (PERLS, 1980, pp. 29-30). Esta compreensão torna-se uma ferramenta útil e poderosa em uma atualidade com extrema força e rapidez de transformação.

 

UM PROJETO METODOLÓGICO PARA GESTALT-TERAPIA

“Méthodos, no sentido antigo, significa sempre a totalidade do estudo de um campo de questões e de problemas. Neste sentido, o método já não é um instrumento para objetivar e definir algo, senão que é para participar das coisas de que nos ocupamos. Este significado de “método” pressupõe que nos encontramos já dentro do jogo e não em um ponto de vista neutro.” (GADAMER, 1995, p.34)

A hermenêutica é o campo da filosofia direcionado ao propósito interpretativo do discurso pertinente a um grupo, sociedade ou contexto histórico determinado (STEIN, 2004; DOMINGUES, 2008). O termo foi cunhado por Aristóteles, como título em Peri Hermeneia, um tratado acerca de nexo relacional entre juízo e proposição (STEIN, 2004; GADAMER, 1999). Mas é com Schleiermacher ao afirmar que a “hermenêutica é a arte de evitar o mal-entendido” (GADAMER, 1999, p.255).

Gadamer (2003) ao explicitar a relevância do processo compreensivo possibilitado pela hermenêutica, coloca que:

“A aparição de uma tomada de consciência histórica é, possivelmente, a mais importante revolução por que passamos desde o surgimento da época moderna. O seu alcance espiritual ultrapassa, provavelmente, aquele que reconhecemos às realizações da natureza, as quais transformaram, de uma forma bem visível, a face do nosso planeta. A consciência histórica que caracteriza o homem atual é um privilégio, talvez mesmo um fardo tal como nenhum outro que tenha sido imposto a algumas gerações anteriores.” ( p. 17)

Gadamer (1999), bem define que o processo de desvelamento da realidade se dá com a vivência e sua conseqüência primeira - a aprendizagem - e elucida os sistemas e as relações experienciadas por uma pessoa, o que constitui-se em tarefa complexa e difícil, todavia necessária para compreensão do self e do mundo que o cerca.

“O verdadeiro acontecer só se torna possível, na medida em que a palavra que chega a nós a partir da tradição, e à qual temos de escutar, nos alcança de verdade, e o faz como se falasse a nós e se referisse a nós mesmos.” (GADAMER, 1999, p. 465-466).

Gadamer (2004) estrutura a fenomenológica de sua hermenêutica quando explicita a linguagem como fato imediato das e nas relações. O homem é um ser em relação e deve portanto ser compreendido a partir do fenômeno primeiro das relações: a linguagem através do diálogo, pois esta permite a compreensão do ser por ele mesmo por meio de sua pessoalidade na relação com o outro (GADAMER, 1999).

“Todas as formas da comunidade de vida humana são formas de comunidade lingüística, e mais ainda, formam linguagem. Pois a linguagem é por sua essência a linguagem da conversação. Somente adquire sua realidade na realização do mútuo entendimento. É por isso que ela não é um simples meio de entendimento.” (GADAMER, 1999, p. 450).

Empreender uma interpretação hermenêutica fenomenológica não pressupõe um principio estático de juízo de valor prévio, pelo contrário: estabelece uma dinâmica basilar de relação com o outro pelo meio do que há de comum. A apreensão de si e do outro ocorre através das singularidades e esta forma de desvelamento só se torna válida quando permeada e voltada pela linguagem do diálogo (GADAMER, 1999).

Os preceitos de GADAMER (1999; 2004) se apresentam como fonte consistente e convergente para e com a base metodológica da GT. Como forma de demonstrar este entendimento, hão de ser apresentados conceitos fundamentais e de como eles se relacionam com a GT.

 

DIALOGANDO POR PRÉ-CONCEITOS

“Aquele que se crê seguro na sua falta de preconceitos, porque se apóia na objetividade de seu procedimento e nega seu próprio condicionamento histórico, experimenta o poder dos preconceitos que o dominam incontroladamente como uma vis a tergo. Aquele que não quer conscientizar-se dos preconceitos que o dominam acaba considerando erroneamente o que vem a se mostrar sob eles.” (GADAMER, 1999, p. 532)

O processo terapêutico em GT se dá por via do diálogo travado no âmbito intersubjetivo entre cliente e terapeuta. Como propõe Gadamer (2004) só assim pode-se estabelecer um campo perceptual baseado na mútua compreensão, onde a partir das bases pré-compreensivas dos sujeitos do diálogo, possibilita-se uma comunicação com raízes em um entendimento recíproco na relação dual.

Gadamer (1996) pontua que em uma relação dialógica somente é possível ter uma comunicação onde haja compreensão efetiva de signos, significados e significantes com base nas histórias prévias e por conseguinte nos pré-conceitos. Conclui Gadamer (1999, p. 272): “A compreensão somente alcança sua verdadeira possibilidade, quando as opiniões prévias, com as quais ela inicia, não são arbitrárias”.

“Na medida em que compreendemos, estamos incluídos num acontecer da verdade e quando queremos saber o que temos que crer, parece-nos que chegamos demasiado tarde” (GADAMER, 1999, p. 494). Ademais, o que há de comunalidade significativa entre os “EUs” é o fato de viverem, e em vivendo estarem imersos em cultura - esta inevitavelmente promotora de pré-conceitos - e por mais antitéticas que sejam ou possam parecer os desígnios culturais de cada pessoa, estes convergem como função basilar de tornarem os seus elementos conteúdo formador do subjetivo.

A função acima explicitada na visão é o que constitui a natureza humana e é corroborado em diversos estudos, a ver: Gould (1999), Bahktin (2005), Darwin (2002), Givón (2001), Habermas (1988), Dejours (2005), Robine (2006) e Perls (1980). Todos esses autores defendem que o ser humano, enquanto espécie, constitui sua especificidade através da sua relação com o outro. Porquanto não existe essência interna que nos defina ou nos diferencie de outras espécies em grau qualitativo. Há na verdade a condição elementar do ser humano em se relacionar com o mundo em meio as relações com o outro, estas sempre indo na direção de se fazer entender no e pelo outro (GADAMER, 2004).

Domingues (2008, p. 04) diz:

“Os preconceitos, próprios das diferenças e fronteiras do humano temporal, e não os conceitos desencarnados, apresentam-se como um efeito de uma consciência já sempre habitada pela relação, podendo aí contrariar-se a redução a um ser isolado.”

A fala não dialógica só vem a dizer “do eu” o que vai dizer “do meu” e está inserido e surge no diálogo ou ao que Gadamer (2004, 401) bem conclui: “A partir do diálogo que nós somos”, tendo “o nós” um grande significado na formação da intencionalidade, aqui entendida como “verdade minha”.

A fala monológica acaba por fornecer as convicções das razões do “eu” emais brilhantemente já definia Schopenhauer (2000) em sua obra “A Arte de Ter Razão - 'ter razão é diferente de estar com a verdade'". Ora, assume-se aqui o preconceito não como fator restritivo de um diálogo (BRESSOLIN, 2008; GADAMER, 2004), mas como elemento base para a existência do diálogo, pois só a apreensão do outro e de mim mesmo, configura a alteridade e a partir do que se tem em comum, antes mesmo que se estabeleça uma relação de contato direta. Sendo assim, o preconceito é o pilar fundamental de uma relação entre cliente e terapeuta, porquanto, funda-se no preconceito a premissa que estabelece a constituição do movimento de reciprocidade e afetação própria da relação psicoterápica em GT.

“O que, sob a idéia de uma autoconstrução absoluta da razão, se apresenta como um preconceito limitador, é parte integrante na verdade, da própria realidade histórica. Se se quer fazer justiça ao modo de ser finito e histórico do homem, é necessário levar a cabo uma drástica reabilitação do conceito do preconceito e reconhecer que existem preconceitos legítimos.” (GADAMER, 1999, p. 416)

Não se fala aqui de preconceito como julgamento e sim de história de vida pertencente a cada pessoa e que a acompanha em qualquer espaço ou tempo em que esteja. A dimensão dialógica da relação terapêutica se cria em meio ao que cada um já era e se desenvolve em meio ao que cada um pode vir a ser. Observa Hycner (1997, p. 29): "Entende-se por dialógico o contexto relacional total em que a singularidade de cada pessoa é valorizada"

“porque nós somos conduzidos por aquilo que nos é familiar, porque há acordo, é que nós podemos interessar-nos pelo outro, receber o que é estranho e, daí, prolongar e enriquecer a nossa experiência do mundo.” (GADAMER, 1996, p. 43)

O preconceito em Gadamer (1999) é a carga de que cada um traz consigo de sua história experienciada em seu mundo de e nas relações. Sendo assim, o preconceito é uma forma de construção de um contato com base em elementos comuns que geram um processo empático de identificação entre terapeuta e cliente, fundamental para se estabelecer e desenvolver um processo em psicoterapia na GT. Discernir o que há de si do outro na relação terapêutica, se torna viável quando experiencia-se o que dos dois na relação.

 

QUESTÃO: O Caminho da Verdade

“O questionar é mais uma paixão do que uma ação” (GADAMER, 1999, p. 390)

Gadamer (1999) é taxativo ao afirmar que qualquer experiência é precedia de uma questão, pois esta em suas palavras é “a estrutura lógica para da abertura” (1999, p. 533). O homem se faz movimento ao se questionar e questionando o mundo. As questões se dão no diálogo de forma a evitar a oclusão de possibilidades -  o que tanto caracteriza a eminência do devir que viabiliza o homem enquanto ser no mundo. Assim, a questão só toma sua função de abertura quando ela propicia ao questionado uma reflexão engendrada na abertura de possibilidades (que surgem como respostas) e ao se abrir para questionar-se quanto o que há de si (intencionalidade) em cada uma das possibilidades. Ademais, o diálogo depende concomitantemente da abertura tácita do questionador, pois nessa reciprocidade de direção se dá a afetação mutua e ocorre o processo onde se origina no “o que é?” e tem continuidade no “como é?” (GADAMER, 1999):

 "O sentido da questão, que leva a uma resposta que possa ser operativa, constitui o princípio da abertura no que concerne ao ser da questão – o que é? e do discurso – como é? A hermenêutica filosófica, precisamente, procura reafirmar este sentido, vendo nele uma ilustração da vida da própria interpretação." (DOMINGUEZ, 2008, p. 07)

A GT tem como especificidade a visão da terapia como processo de “buscar” ou “criar” verdades. Cancelo (1991) argutamente define verdade como tudo que abre caminhos e possibilidades, sendo assim a GT não é um caminho delimitado. A verdade em GT, ademais, só é uma possibilidade em meio à disponibilidade de abertura trazida pelo cerne da questão, viabilizando a viagem por caminhos vários sempre a procura da verdade, que nada mais é do que encontrarmos a nós mesmos através do mundo.

“O conceito de horizonte deve aqui ser retido porque ele exprime a elevada amplitude de visão que deve ter quem compreende. Adquirir um horizonte significa aprender sempre a ver além do que está próximo, demasiado próximo, não para afastar o olhar, mas para melhor ver, num conjunto mais vasto e em proporções mais justas.” (GADAMER, 1996, p. 327)

Gadamer (1996) expõe acima a importância da percepção do todo em sua amplitude e complexidade, porquanto dar-se dessa maneira a formação do movimento de angústia assegurado no horizonte incerto, mas que constitui em elemento primeiro para a elaboração ou encontro da intencionalidade velada, ou seja, a intencionalidade é constituída na relação dialógica, essa concepção apresenta maior convergência com as bases epistemológicas da atuação do psicoterapeuta em GT, pois estabelece ênfase na relação que acontece naquele momento, ressalve-se que a ênfase está na relação dialógica vivenciada e não no contexto sócio cultural no qual está inserido o cliente. O desvelamento da intencionalidade se dá na interpretação. Gadamer (1993) alerta que a interpretação não ocorre na afirmação, mas na pergunta:

“E uma idéia é especulativa, quando a relação que nela é enunciada não se deixa pensar como a atribuição inequívoca de uma determinação a um sujeito, de uma propriedade à coisa dada, mas que tem de ser pensada como uma relação especular, na qual o próprio espelhar não é nada mais do que a pura aparência do refletido, tal como o um é o um do outro e o outro é o outro do um.” (GADAMER, 1999, p. 470)

Gadamer (1996) propõe o axioma: “A partir do diálogo que nós somos” (p. 401) e ainda na mesma direção coloca que “porque nós somos conduzidos por aquilo que nos é familiar, porque há acordo, é que nós podemos interessar-nos pelo outro, receber o que é estranho e, daí, prolongar e enriquecer a nossa experiência do mundo” (p. 43).

“Descobrindo sua experiência como sente, move, quando entra em contato e permite que o vazio exista, com o tempo descobre-se que o escuro cederá lugar para a luz e do vazio surge um mundo vivo. O indivíduo ao ver, tocar, sentir em sua viagem, o vazio que agora é fértil, começa a responder emocionalmente ao que percebe de forma transformada, com vitalidade e criatividade.” (PERLS, 1982, p.75)

O homem, portanto, passa a entender e a se configurar como centro de suas possibilidades. O parâmetro humano deve ser a construção de sua intencionalidade, esta entendida como capacidade de discernimento, convergindo assim com o conceito de Insight defendido por Kofka (1975). A laboração da intencionalidade é mediada pelo processo de diálogo com o mundo, ou seja, um ser de estar em/nas relações: “Estas pessoas aqui vão-se embora a dizer que nós somos amigos uns dos outros – porque eu estou entre vós – mas o que é um amigo é o que nós ainda não fomos capazes de descobrir.” (GADAMER, 1996, p. 223)

Gadamer (2004) ao estabelecer a premissa do diálogo e da experiência na questão, esta como talante para abertura do ser no mundo, fornece um vetor de apreensão do processo clínico em GT. Pode-se ter com isso um mapeamento adequado do setting existente no qual reside a relação entre terapeuta e cliente. Não há de se pensar no como enquanto jornada puramente externa do cliente até aquele momento, mas sim um como originários de um o quê postulado na relação terapêutica e não de uma história exclusivamente anterior ao encontro. A viagem do ser em terapia pode então ter seu trajeto aclarado imerso também na experiência do diálogo em psicoterapia, o que é ponto fundamental para o processo de psicoterapia em GT, como pontua Ribeiro (1995). 

 

PSICOTERAPEUTA: O Intérprete

“a verdade em Gadamer não é um método, mas simplesmente aquilo que acontece no diálogo. Atos de interpretação são diálogos, uma conversação constante, dentro da tradição. O interprete projeta o significado provisional, mas estes são desarranjados e re-definidos quando os próprios preconceitos do intérprete são questionados pelo horizonte do texto ou pelo parceiro do diálogo” (LAWN, 2007, p.13).

Gadamer (1996) defende que o intérprete não se faz pela elaboração de sentenças definitivas -  o interpretar acontece no momento da pergunta, ou seja, quando se abrem e está aberto as possibilidades que provém da verdade intencional de cada pessoa. O homem não vive em constância inerte, a constante do homem é a capacidade de reinventar, e assim sendo, de interpretar e reinterpretar a ele e ao seu mundo.

Intérprete não é uma posição pré-definida, e sim inerente a qualquer diálogo, o que não determina o desígnio de eqüidade completa no processo de relação dialógica. Acerca do tema Gadamer (1996) explicita:

“a autoridade não se outorga, adquire-se, e tem de ser adquirida se a ela se quer apelar. Repousa sobre o reconhecimento e, portanto, sobre uma ação da razão mesma que, tornando-se consciente de seus próprios limites, atribui ao outro uma perspectiva mais acertada.” (p. 393)

Fica evidente que Gadamer (1996) não dispõe sobre uma relação hierarquizada, todavia desenvolve sua conceituação de uma relação desigual onde as posições não são tomadas por verdade justificada no mero fato do “quem disse”, mas sim na perspectiva de construção e interpretação dentro da relação onde será pronunciado por meio de questões - não de afirmações reducionistas - o processo no qual tende sempre a produzir um resultante e que será a verdade daquele diálogo para a partir daí produzir uma autoridade.

O terapeuta em GT é um facilitador desse processo dialógico onde o resultante que se busca é a retomada da autoridade do cliente sobre si mesmo em suas vivências. O psicoterapeuta deve se portar como intérprete, assumindo a desigualdade da relação, mas nunca de se posicionando como fonte superior de verdades para que possa, na relação em psicoterapia, ser um acompanhante facilitador no processo de interpretação e conseqüentes reinvenções e apropriações do cliente.

Perls (1979) coloca a importância do papel do terapeuta como aporte e não devendo ser uma escora - o cliente tem que estar envolto em uma relação de segurança e nunca de dependência. Não cabe ao gestalt-terapeuta focalizar o caminho da relação em técnicas e experimentos, pois aí estará tendo uma postura como investigativa e policialesca de enforcar o “por quê?” No dizer de Perls (1977), o uso de técnica deve ser empregado em casos extremos, por se configurar em um “truque.” O autor ainda se refere à mediocridade dos profissionais por fazerem uso demasiado de técnicas, o que acaba por paralisar o amadurecer do outro por ser sabotado pela criação de muletas de fácil acesso.

A proposta de Gadamer (1996) para o intérprete possibilita um entendimento claro do psicoterapeuta em GT como um questionador, que acompanha o cliente em sua jornada. Não se trata aqui de dar um direcionamento; ademais como expõe Gadamer:“aqui encontramo-nos permanentemente sob a ameaça de nos apropriarmos do outro na compreensão e, com isso, ignorar a sua alteridade” (2004, p.396).

Mas questionando, com isso, como ser ao mesmo tempo disponível e possibilitando ao cliente a abertura ao que há de vir bem como o lugar de condutor no processo de auto-compreensão.  

Segundo Gadamer, o compreender é acontecimento.

“A consciência exposta aos efeitos da história sabe da abertura do acontecer do sentido. A coisa da tradição nunca aparece na luz da eternidade. Mas, contra a dialética hegeliana que desemboca no saber absoluto do todo, a Hermenêutica de Gadamer afirma energicamente a finitude do acontecimento lingüístico. A Hermenêutica é uma dialética que sempre se mantém inacabada. O movimento de explicitação e de especulação nunca se conclui.” (RABUSKE, 1994, p. 45)

Assim como já afirmara Perls (1980) que o homem é sempre um ser inacabado, Gadamer também define que o processo interpretativo não finda, mas se refaz continuamente - pensamento esse que converge com as palavras da eminente gestalt-terapeuta Patrícia Wallerstein Gomes, que em aula averba que o processo clínico em GT não possui fechamento, mas há sim des-fecho, entendido como reabertura e por conseguinte, novos questionamentos.

Compor uma estrutura acerca de um método tomando aqui como base o conceito de Gadamer (1995), não é tarefa simples, porém é um caminho deverás imprescindível para uma apropriação adequada da teoria e prática pertinente a GT. Como aqui ilustrado, Gadamer em sua obra acabou por produzir um vasto manancial de grande pertinência e relevância a GT, ainda pouco explorado e/ou estudado, podendo estes estudos ser uma fonte consistente para um aprimoramento do exercício psicoterapêutico em GT.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Acredita-se ter explanado de forma coerente e consistente a concepção de Gadamer e suas possibilidades e pertinência para a prática da GT, bem como para a laboração de um método mais convergente com as premissas e os objetivos que norteiam GT enquanto psicoterapia e forma de compreender o estar nas relações do mundo.

Ao longo dos estudos e pesquisas para elaboração deste trabalho, resultou-se uma reflexão na qual se constatou que a GT não carece de bases teóricas. Ademais, existe uma clara falta de articulação de todo o completo corpo conceitual. Este fato não decorre da falta de embasamento e sim da necessidade de mais estudos e trabalhos não só voltados para uma mera releitura ilustrativa: os estudos em GT devem demandar acerca de caminhos e possibilidades.

O trabalho aqui apresentado não se apresenta como resposta ou conclusão acerca de um novo modelo metodológico para a GT; o objetivo se ateve em elaborar questões e propor possíveis caminhos. Caminhos que ainda devem ser explorados para que possam assumir contornos de uma viagem a ser seguida.

Aceita-se e ressalta-se aqui como fundamento primeiro para o desenvolvimento homem na visão da GT os princípios do questionar e problematizar - princípios estes já defendidos respectivamente por Gadamer (2000) e Popper (2001), assim como os dínamos que impulsionam o movimento de atualização e construção do conhecimento e que permeiam também a noção de relação dialógica defendida pela GT bem como a sua visão do homem como ser de e em processo.

Contudo, o presente artigo apresenta uma possibilidade consistente acerca da viabilidade de um projeto metodológico, a partir da concepção de diálogo e Hermenêutica propostas por Gadamer, que pode fornecer uma articulação dinâmica coerente e válida entre a prática clínica da GT e seu arcabouço teórico.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Endereço para correspondência:
Ananias Queiroga Oliveira Filho
Endereço eletrônico:ananiasqueiroga@bol.com.br

 

Recebido em: 10/08/2013
Aprovado em: 09/09/2014

 

 

NOTAS

*Ananias Queiroga Oliveira Filho é Psicólogo, Mestre em Psicologia Cognitiva (UFPE) e Doutorando em Avaliação Psicológica (USF/SP).