ARTIGO

A postura do Gestalt-Terapeuta

The posture of the Gestalt-Therapist

Márcio Antonio Giansante Martins

Liliane Moreira

RESUMO

Este artigo foi produzido por alunos do Instituto de Gestalt-Terapia e  atendimento familiar. Este tema tem sua relevância levando-se em conta que a  Gestalt-Terapia é uma abordagem relacional - portanto, a postura do Gestalt Terapeuta poderá interferir na relação com o seu cliente, positiva ou  negativamente. Para produzir este artigo foram realizadas pesquisas  bibliográficas baseadas nesta perspectiva. Ser Gestalt-terapeuta é olhar para o  cliente como um todo. É também suspender o julgamento sobre os fenômenos  que ele enxerga no cliente. O Gestalt-terapeuta acredita que todas as pessoas  têm em si potencialidades, que permitem que elas façam a melhor escolha  possível naquele momento. Quem sabe o que é melhor para a pessoa é ela  própria e não o Gesltalt-terapeuta. Ele irá apenas ajudar o cliente a se perceber  e a ficar aware do que ele sente e pensa; aware do que faz consigo mesmo e  de como é sua relação com o mundo.  

Palavras-chave: gestalt-terapia; postura; relação

ABSTRACT

This article was produced by students of the Institute of Gestalt-therapy and  familiar care. This topic has its relevance explained taking into account that  Gestalt-therapy is relational - so the posture of the Gestalt-therapist may  interfere in the relationship with his client, either positively or negatively. To  produce this article were conducted literature researches that based its  production. Being Gestalt-therapist is to look at the client as a whole. It is also to  suspend the judgment about the phenomena he sees in the client. The Gestalt

therapist believes that everyone has within himself the potential to allow him to  make the best possible choice for him at that moment. Who knows what is best  for the person is herself and not the Gesltalt-therapist. He will only help the  client to perceive and to be aware of what he feels and thinks; aware of what he  does with himself and how is his relationship with the world.

Keywords: gestalt-therapy; posture; relationship.

Tendo em vista que a Gestalt-terapia é uma terapia existencial-fenomenológica  (YONTEF, p. 16, 1998), depreende-se que é mais do que uma forma de atuar  em quaisquer áreas da psicologia. Visando mostrar a terapeutas e clientes uma  forma diferenciada de perceber e sentir o mundo, esta abordagem pode e deve  ser estendida para uma maneira de viver, como uma postura diante de todas  as relações.

Percebemos que o que os coloca diante do cliente numa relação autêntica, é a  fé na capacidade de auto-realização em seu crescimento.

Pode-se dizer que a Gestalt-terapia se baseia na crença de que a lei  responsável por governar o funcionamento do ser humano é a da busca da  auto-atualização; uma tendência para atualizar-se.  

Para Fritz Perls, os indivíduos se atualizam dando prioridade para a execução  de ações que visem satisfazer necessidades emergentes. Quando uma  necessidade é satisfeita, deixa de ser figura e outra necessidade emerge. As complicações surgem, neste processo de auto-atualização, quando não há  como satisfazer uma destas necessidades básicas.  

Ao desenvolver este pensamento, Perls se baseou na teoria da auto-regulação  organísmica, proposta por Kurt Goldstein.

Goldstein propõe a auto-regulação como uma forma de atualização do  organismo, através da interação com o mundo, procurando encontrar o  equilíbrio para o sistema. E o equilíbrio acontece quando o organismo  consegue corresponder, satisfatoriamente, ás demandas do meio em que está  inserido. Para Goldstein, o organismo é composto por subsistemas, formando  um sistema maior, que funciona como uma unidade. Algum estímulo que atinja  este organismo, em qualquer de seus subsistemas, vai promover mudanças na  unidade total.

Esta mesma lógica pode ser notada quando um Gestalt-terapeuta observa um  fenômeno no cliente. O profissional nunca observará apenas o fenômeno em  si, uma vez que será somente uma parte do cliente, apenas um dos  subsistemas. Ao invés disto, o Gestalt-terapeuta observará todo o “sistema

cliente” através de uma de suas partes, o fenômeno que estiver emergindo.  

Esta é uma visão fenomenológica de que o todo é mais do que a soma das  partes, proposta por Edmund Husserl. E como base da abordagem gestáltica,  também é utilizada para compor a postura do profissional da Gestalt-Terapia.  Postura é sinônimo de atitude. A postura ou atitude diante de uma situação é  sempre motivacional. Nas palavras de Jean Clark Juliano: “E o que nos  mantém nesse percurso? Será a onipotência, a loucura, a teimosia? A fé, acho  (...)”.  

O Gestalt-terapeuta acredita que todas as pessoas têm em si potencialidades  que permitem que elas façam a melhor escolha possível para elas, naquele  momento. Quem sabe o que é melhor para a pessoa é ela própria e não o Gesltalt-terapeuta. Ele irá apenas ajudar o cliente a se perceber, a ficar aware  do que ele sente e pensa; aware do que faz consigo mesmo e de como é sua  relação com o mundo. O Gestalt-terapeuta é somente um facilitador para que o  cliente se conheça e se perceba. Essa é sua principal função.

Dar uma fórmula para o cliente resolver um problema pode significar que o  Gestalt-terapeuta não confia na capacidade do sujeito de descobrir por si  mesmo, como lidar com as situações. Pelo contrário, a conduta do Gestalt terapeuta deve ajudar o cliente a enxergar a si mesmo e sua própria vida.  Deste modo, é possível encontrar sozinho a forma mais adequada de fechar  suas “gestalten” abertas. Assim, direcionamos ao cliente uma atitude de fé que,  dentro da psicoterapia, implica ter fé no desenvolvimento e crescimento  humano, acreditar na construção de uma relação.  

A teoria que embasa o processo da relação terapeuta-cliente em Gestalt Terapia é a filosofia de Martin Buber (ou filosofia do encontro). Martin Buber era  filósofo, escritor e pedagogo. Em suas publicações filosóficas, deu ênfase à  sua opinião de que, não há existência sem comunicação e diálogo e que  objetos não existem sem a interação.

Buber lutou para que o ser humano saísse de seu egoísmo e estivesse  disposto a engajar-se no diálogo. O homem por si só não existe, ele só existe  enquanto ser em relação com o mundo e/ou com outros homens, assim torna se produto de seus relacionamentos, que são modos possíveis de existência e  refletem duas maneiras de se relacionar que são: a relação Eu-Tu e a relação  Eu-Isso. Ambas são consideradas por Buber como essenciais ao homem.

A relação Eu-Tu consiste em estar presente tanto quanto for possível com o  outro, com poucas finalidades ou objetivos direcionados para si, mas voltados  para viver a relação de forma completa e mútua. Nesta relação acontece um  encontro existencial, é onde se acolhe a alteridade, a singularidade do outro.  Esta relação tem as qualidades de proximidade e franqueza, presença e  mutualidade. Por exemplo: uma mãe só é mãe porque seu filho lhe dá um  sentido de existência: ser mãe. É o Tu que dá sentido para o Eu, assim como o  Eu dá sentido para o Tu. Se o filho morre, a mãe perde o sentido da própria  vida, pois parte dela morre junto com o filho, já que uma mãe só é mãe  enquanto o filho lhe dá sentido.  

Outro exemplo comum: quando um namoro termina, o sofrimento acontece  porque o sentimento de ser namorado/a perde o sentido, e este sentido só  acontece enquanto o outro proporciona que exista.  

Uma relação Eu-Tu não acontece somente entre duas pessoas. Quando  alguém está apreciando uma música, por exemplo, esta música pode dar ao Eu  todo o sentido de sua existência, talvez até muito mais do que alguma pessoa.  Se uma pessoa ouvir uma mesma música em diferentes momentos, poderão  surgir diferentes sentidos para o Eu nestes diferentes momentos.

A relação Eu-Isso é dirigida para um objetivo, tem um propósito. É a  “coisificação” do outro. É quando a outra pessoa é usada para um fim. Quando um filho pede para a mãe lhe pegar um copo de água, neste momento está  acontecendo uma relação Eu-Isso. Se a mãe não lhe trouxer um copo de água,  o filho irá pedir para outra pessoa e se ninguém lhe trouxer, ele mesmo poderá  pegar. Neste caso o outro não está sendo essencial, não está dando nenhum  sentido ao Eu. É apenas um meio para chegar a um fim.  

Na vida é saudável alternar entre ambas as relações. O problema surge  quando a relação Eu-Isso predomina sobre a relação Eu-Tu. Por exemplo, um  casal de namorados pode passar muitos anos tendo apenas uma relação Eu Isso – onde um dá prazer e alegria ao outro, mas não sentido. Quando  acontece o casamento, torna-se muito mais difícil manter uma relação Eu-Isso,  pois surge um novo fator: a intimidade. Em alguns casos, o casamento pode  levar ao término do relacionamento, por se tornar insustentável manter uma  relação Eu-Isso junto com o fator intimidade.  

Quanto à postura terapêutica, ela se baseia na relação Eu-Tu, mas a relação  Eu-isso também pode acontecer, como em qualquer relacionamento. O  essencial é que a relação Eu-Tu determine quando acontecerá a relação Eu isso.

Não há na Gestalt-terapia um sujeito que sabe e outro que espera uma  resposta ou uma orientação. Há um engajamento interessado e disponível,  para olhar com cuidado e atenção o que o cliente mostra e perceber o que  pode estar oculto por algum motivo. Para isto precisamos estar abertos.

No trabalho psicoterapêutico, colocamos todo o nosso ser disponível, aqui e  agora, para uma relação autêntica e singular. Podemos nos disponibilizar para  vivê-la, mas não visá-la como objeto. A relação autêntica simplesmente  acontece.

Estabelecida esta relação, nota-se que o Gestalt-terapeuta é um “guardião da  relação”. Ele deve ter uma prática que possibilite um trabalho profundo com o  cliente. Isto significa um envolvimento no processo de terapia o qual possa lhe  permitir uma percepção real do campo terapêutico - conseguindo, portanto,  acompanhar o cliente nesse processo.  

“O terapeuta somente trata de “acender a luz”, de modo  

que, travando contato com o que vai surgindo na  

superfície, o cliente experimente da forma que puder um  

mundo de possibilidades e de impossibilidades que o  

levam a uma autêntica transformação. (...)Esse é o  

grande mistério de um trabalho no presente: numa  

relação favorável, orientado por todos os sinais à  

disposição num dado momento, o cliente percebe, sente,  

sofre, suporta, age, assimila, retifica, (re)significa,  

reconfigura uma situação inacabada, abrindo espaço para uma vida mais plena e mais real.(...)Ao final de encontros  

facilitadores de crescimento, o cliente leva consigo a  

capacidade de caminhar sozinho no curso de sua vida,  

fortalecido pelo conhecimento de seus recursos  

pessoais.” – (TERESINHA MELLO DA SILVEIRA, 1997)

Para que a relação permaneça genuína, no sentido de não se corromper, por  assim dizer, faz-se necessário também que o Gestalt-Terapeuta não se  perceba como detentor de toda verdade, sabedoria e conhecimento nesta  relação.  

Ser Gestalt-Terapeuta, portanto, também é suspender o julgamento sobre os  fenômenos que ele enxerga no cliente. Ele não pode se deixar levar por suas  próprias crenças e verdades a respeito de um determinado assunto ou  situação. Se o Gestalt-Terapeuta tiver uma determinada visão sobre algum  tema ou alguma crença de que o cliente deve se comportar de certa maneira,  ele precisará separar sua própria crença do que está enxergando no cliente. O  que está longe de ser tarefa fácil, pois sendo ele um ser humano, sua  personalidade, conceitos e pré-conceitos estão presentes e manifestos no  campo. Porém é fundamental saber suspendê-los, em caso de estarem  distorcendo sua percepção.

Para ajudar nesta tarefa, o Gestalt-Terapeuta precisará lembrar que o fato de  ele ter uma crença sobre algo, não significa que isso será verdade para o  cliente. Se ele tiver alguma opinião formada a respeito de um determinado  comportamento que as pessoas devem ter, precisará tomar cuidado para que  isso não se transforme em uma maneira sutil de manipular o cliente a agir da  forma como ele pensa que o outro deve agir.  

Por outro lado, quando falamos da postura de um profissional esperamos que  este observe as diretrizes de um código de ética. Os profissionais psicólogos  brasileiros passaram a ter um código de ética em 15 de agosto de 1987, e na  exposição dos motivos para o desenvolvimento do código encontramos:  

“O Código é a expressão da identidade profissional  

daqueles que nele vão buscar inspirações, conselhos e  

normas de conduta. Ele é, ao mesmo tempo, uma  

pergunta e uma resposta. É um apelo-pergunta no sentido  

de ver o ser humano não apenas como uma unidade  

isolada, mas como um subsistema de um grande sistema.  

É uma resposta enquanto encarna uma concepção da  

profissão dentro de um contexto social e político, que lhe  

confere o selo de identidade, naquele momento histórico”.

(http://www2.pol.org.br/legislacao/leg_codetica.cfm)

Portanto, depreende-se deste artigo que a postura do Gestalt-terapeuta se dá  através de muito mais do que lições e regras a serem seguidas. Postura, ou  conduta, é uma construção existencial. É agregando valores pessoais e sociais, como a própria ética, o respeito ao próximo e a fé na humanidade, que  o sujeito vai tornando-se cada vez mais disponível para viver a Gestalt-terapia na profissão. Aí sim, a relação vivenciada consigo e com o cliente pode  acontecer naturalmente e de forma completa, para que seja o Gestalt-terapeuta  o melhor possível dentro de suas possibilidades como ser humano, antes de  qualquer outra coisa.  

Referências Bibliográficas

LIMA, Patrícia Valle de Albuquerque. Teoria Organísmica.  

http://www.igt.psc.br/Artigos/teoria_organismica.htm. Acessado em 19/11/2013,  22:00.  

HYCNER, R. De pessoa a pessoa: uma psicoterapia dialógica. São Paulo:  Summus, 1995.

HYCNER, R.; JACOBS, L. Relação e Cura em Gestalt-Terapia. São Paulo:  Summus, 1997.

YONTEF, G.M. Processo, Diálogo e Awareness: Ensaios em Gestalt Terapia. Trad. Eli Stern. São Paulo: Summus, 1998.

SILVEIRA, Teresinha Mello. A Gestalt no Contexto da Psicoterapia: Teoria e  Metodologia Aplicadas a um Caso Clínico (p.07-27). In: Presença: Revista  Vita de Gestalt-terapia, 1997 – Ano 3 – Número 4 .

________________http://www2.pol.org.br/legislacao/leg_codetica.cfm.  Acessado em 13/07/2013, 19:35.

Endereço para correspondência

Márcio Antonio Giansante Martins  

E-mail: marciopsic@gmail.com

Endereço para correspondência

Liliane Moreira

E-mail: lilianesmoreira2@gmail.com

Recebido em: 30/07/2013

Aprovado em: 26/11/2013

Revista IGT na Rede, v. 10, nº 19, 2013, p.321-327 DOI 10.5281/zenodo.15042994

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526