ARTIGO

O ciúme nas relações amorosas contemporâneas: um olhar  gestáltico

Jealousy in love relationships contemporary: a look gestalt

Bruna Cabral Vianna Pinto

RESUMO

Pretendemos por meio deste trabalho, investigar o ciúme de caráter rígido,  estereotipado, independente do contexto. Mesmo não havendo qualquer sinal  consistente que justificaria o medo da perda da pessoa amada, o ciumento cria suas  próprias fantasias.  

Tomaremos por base o cenário contemporâneo onde observamos uma maior fluidez  e enfraquecimento de vínculos duradouros, desenvolvendo relacionamentos  voltados para a satisfação de desejos imediatos.  

Abordaremos o tema tomando como referencial teórico a Gestalt-terapia, lançando  mão de conceitos como a teoria de campo, teoria paradoxal da mudança, fronteiras,  contato e suas interrupções.  

Discutiremos o padrão de comportamento comum aos casais que vivenciam um  ciúme excessivo, caracterizando relações nas quais as fronteiras mostram-se  rígidas. Os casais desenvolvem patologias complementares, formando pares que  representam papéis cristalizados.  

Por fim, destacaremos a postura do gestalt-terapeuta, atento às particularidades do  ciúme como um sentimento que deve ser considerado em sua singularidade  existencial para cada pessoa.  

Palavras-chave: ciúme; relações amorosas; cenário contemporâneo; gestalt terapia; contato.  

ABSTRACT

We intend through this work, to investigate the jealousy rigid character, stereotyped,  out of context. Even without any consistent signal that would justify the fear of the  loss of the lover, the jealous creates his own fantasies.

We will take based on the contemporary scene where we see a greater fluidity and a  weakening of lasting relationships, developing relationships aimed at satisfying  immediate desires.

Discuss the issue taking as theoretical main Gestalt therapy, making use of concepts  such as the of field theory, paradoxical theory of change, borders, contact and their  interruptions.

Discuss the pattern of behavior of couples with excessive jealousy, featuring  relations with rigid borders. Couples develop pathologies complementary, forming  pairs that represent roles crystallized.

Finally, we will highlight the position of gestalt therapist, attentive to the particularities  of jealousy as a feeling that must be considered in its existential singularity for each  person.

Keywords: jealousy; love affairs; contemporary setting; gestalt therapy; contact.

INTRODUÇÃO

A palavra ciúme tem origem etimológica no latim zelúmen e no grego zelus, que significa  zelo, receio (MACHADO, 1990). O dicionário Aurélio da língua portuguesa traz a definição  de ciúme como:

Sentimento doloroso que as exigências de um amor inquieto, o  

desejo de posse da pessoa amada, a suspeita ou a certeza de sua  

infidelidade, fazem nascer em alguém; zelos. Emulação, competição,  rivalidade. Despeito invejoso, inveja. Receio de perder alguma coisa;  cuidado, zelo (FERREIRA, 1995, p.154).  

Através da definição, percebemos como o ciúme é um sentimento complexo que pode ser  suscitado em diferentes tipos de relação. O ciúme que abordaremos é aquele  caracterizado pela estereotipia, pela rigidez, sem manter relação com o contexto  presente. Trata-se do ciúme de caráter patológico, tendo em vista que a rigidez  caracteriza a disfuncionalidade, na perspectiva gestáltica. Mesmo não havendo qualquer  sinal consistente que justificaria o medo da perda da pessoa amada, ocorre uma  discrepância entre o que o ciumento percebe, criando suas próprias fantasias com relação  àquilo que vê e ouve.  

O ciúme é um sentimento experimentado por cada pessoa, a partir de suas  singularidades, mesmo que a sua expressão mantenha uma regularidade de uma pessoa  para a outra (NUNES, 2009). Nunes (op.cit) afirma que se trata de um sentimento  atemporal que atravessa diferentes épocas. Para a autora, a experiência do ciúme nas  relações amorosas ocupou diferentes lugares na vida social, de acordo com o contexto e  as concepções das diferentes épocas. Para compreendê-lo na atualidade, torna-se  importante considerar também como ele foi vivenciado ao longo da história, em outras  épocas e contextos. Como disse Lewin (1973), toda experiência do indivíduo pode sofrer  alterações conforme o campo em um dado momento, sendo importante considerar as  forças do campo em que o organismo se encontra. Portanto, dentro de uma perspectiva  de campo, podemos considerar que há diversos aspectos que constituem esse  sentimento: sociais, culturais, históricos, individuais, entre outros. Lewin definiu campo a  partir de várias regiões (sociais, intrapessoais, interpessoais, físicas) que estariam  demarcadas por fronteiras. Descreveu o campo como um conjunto de forças que atuam  no presente formando uma rede de relações entre as partes.  

 

O ciúme e os relacionamentos amorosos ao longo da história

Na cultura romana, o casamento se configurou como um arranjo que se dava como uma  obrigação social para a coletividade. Era motivado pela necessidade de assegurar a  preservação da propriedade. Havia a oferta de um dote pelo pai da noiva ao noivo pelo  fato de que à mulher não era permitido trabalhar (YALOM, 2002).  

No mesmo período, era possível a associação entre atividade sexual e casamento, onde  somente dentro deste o ato sexual teria sentido. Portanto, a fidelidade começou a ser  problematizada, na medida em que era exigida pois constituía um respeito aos direitos do  marido (FOUCAULT, 1993).

Enquanto o ciúme do homem era uma defesa necessária da própria moral do casamento,  por parte da esposa era visto como uma transgressão em relação à postura tolerante e  compreensiva que dela se esperava aos desvios extraconjugais do marido (YALOM,  2002).  

No século XVI, no período do Renascimento, profundas mudanças políticas, econômicas,  culturais e sociais começaram a tomar vulto neste tempo (FROMM, 1974). A religião  perdeu importância e o centro da vida social passou a ser ocupado pelo homem  (BRANDEN,1998).  

Segundo Yalom (2002), houve a valorização de uma maior liberdade de escolha dos  indivíduos que também refletiu nas relações amorosas, onde o amor começou a ser  evocado como condição desejável e necessária para o casamento. O ciúme era tomado  como uma atitude congruente diante de ameaças concretas à fidelidade conjugal.  (NUNES, 2006).

No século XVIII, o Iluminismo foi o movimento que representava as ideias burguesas de  liberdade, com todos os indivíduos tendo direitos iguais: à vida, à liberdade e à posse de  bens materiais (FROMM, 1974). De acordo com Dumont (1985), houve a valorização da  

razão humana e foi marcado pelo individualismo que pregava os interesses individuais  acima dos coletivos, o que também fortaleceu a liberdade de escolha dos parceiros  amorosos.  

Os séculos XIX e XX foram caracterizados pela Modernidade, quando a sociedade  mostrou-se norteada pelo individualismo, tendo possibilitado indivíduos serem livres para  escolher seus parceiros amorosos (BRANDEN, 1998). Surge o Romantismo como  movimento literário que trouxe tendências possessivas e exclusivistas, valorizando um  amor idealizado. O casamento seria o reflexo da escolha do companheiro ideal . Como  assinala Yalom (2002), o ciúme assume um novo lugar na vida social quando surge diante  do temor pela perda do objeto de amor.  

Em meados do século XX, chegamos à contemporaneidade, quando uma lógica  individualista começa a permear os relacionamentos amorosos, trazendo valores como competitividade, independência e liberdade (PLASTINO, 1996).  

O que vai sendo construído historicamente é um relacionamento amoroso marcado pela  fluidez e abertura, metaforizado por Bauman (2004) através da expressão “amor líquido”.  O mesmo autor traz a ideia de uma lógica do consumo com a consequente  descartabilidade dos produtos e das relações. Sendo assim, os indivíduos buscariam  relações que não demandam tanta dedicação e compromisso.  

A abertura e flexibilidade proporcionadas pelo relacionamento amoroso abre espaço para  uma relação mais autêntica, na qual há uma escolha por viver a relação a partir do próprio  desejo mas, ao mesmo tempo, provocaria insegurança. Novas exigências são  demandadas dentro de um relacionamento amoroso, que segundo Vaitsman (1985) são:  a abertura para o diálogo, da negociação democrática, da expressão de sentimentos, da  revelação de si e da capacidade de perceber o outro passam a ser importantes dentro de  uma experiência amorosa que precisa sustentar a si própria.  

A confiança passa a ser fundamental dentro de uma relação amorosa, que não segue  mais um curso predeterminado pelas obrigações tradicionais (GIDDENS, 2002). Precisa  ser desenvolvida pelo casal mas essa dedicação pode ser um preço alto para alguns  (BAUMAN, 2004). O Romantismo foi se desgastando historicamente. No lugar do ideal de ‘amor eterno e insubstituível’ começam a surgir novos modelos de relacionamento que  expressam a flexibilidade de possibilidades. Ainda assim, percebemos a existência de  uma herança desse período, na medida em que muitas pessoas exercitam alguns ideais  românticos em seus relacionamentos. Porém, Luft (2004) esclarece que, dentro de uma  relação, a busca pela fusão total não é atingida. A idealização do parceiro faz com que  sejam projetadas no outro as expectativas que não encontra em si mesmo. Um estado  chamado “solidão” costuma acompanhar os indivíduos, despertando sensações de  desamparo. A aliança com outra pessoa daria a sensação de plenitude, como se não  fossem inteiros (GIKOVATE, 2006).  

Um aspecto peculiar da contemporaneidade é a formação de uma tensão entre  individualidade e conjugalidade na vida do casal. Os ideais individualistas estimulam a  autonomia dos cônjuges, na busca do crescimento de cada um. Ao mesmo tempo em que  também é necessário vivenciar a conjugalidade, os desejos e projetos do casal (FÉRES CARNEIRO,1998).  

Outro aspecto, de acordo com Áries & Béjin (1986), é que os amantes podem optar por  serem fiéis um ao outro, mas não a priori e sim por uma decisão livre.  Pensando sobre o ciúme, este aparece quando há insegurança pela dificuldade de se  estabelecer a confiança (GIDDENS, 2002). Nunes (2006) considera o ciúme inteligível  dentro da lógica onde as relações parecem descartáveis, podendo o indivíduo sentir-se  ameaçado e vulnerável. A autora destaca que a sua problemática se revela dentro de  uma relação amorosa onde há um monitoramento incessante, chegando a gerar  sofrimento psíquico. O indivíduo precisaria resgatar a sensação de segurança obtida  através do controle do outro.  

Casais engessados pelo ciúme

O processo de mudança exige capacidade de fazer contato. Através do contato com o  novo, é possível promover a descoberta e a transformação, pontuou Perls (1951 apud  SILVEIRA, 2007). Através da fronteira que o contato é possível, sendo nela onde também  ocorrem as resistências (Ginger, 2007).  

Olhando não somente para o ciumento mas para o par que se forma e se apoia em sua  dinâmica, lembramos que a constante indiferenciação caracteriza os relacionamentos  doentios, onde os envolvidos na relação apresentam distúrbios de contato. Segundo  Tellegen (1984), um deles pode expressar um excesso de rigidez, ou o outro uma  extrema permeabilidade, acarretando isolamento ou a perda de diferenciação e  identidade. Portanto, nos casos de ciúme excessivo podemos considerar que este  promove fronteiras mais rígidas e dificulta um bom funcionamento desse casal que vê-se  impedido de transformar a relação, enquanto o crescimento de cada membro fica  comprometido.  

Silveira (2007) assinala que são muitos os modelos de relacionamentos e a instabilidade  das uniões afetivas do mundo contemporâneo, demandando que as fronteiras conjugais  sejam flexíveis. Há um processo de união e separação entre os cônjuges, de forma a  exercer suas individualidades. Porém, existem patologias complementares quando o  casal apresenta papéis cristalizados, podendo oscilar entre esses papéis, quando cada  um ocupa em dado momento um deles (Silveira, 2007). No caso do ciúme, formam o par controlador-controlado. Há ganhos na manutenção dos papéis, apesar de tais ganhos  coexistirem com sofrimento e mal-estar.  

Feldman (2005) aponta que, muitas vezes, o ciumento pode encontrar uma falsa  segurança na medida em que provoca insegurança no companheiro quando seduz outras  pessoas de forma explícita, faz ameaças ou consuma uma traição. O ciúme provocado  desestabiliza o parceiro, sendo utilizado como instrumento de dominação.

Ainda sobre a dinâmica comum aos casais que têm o relacionamento atravessado pelo  ciúme, Miller (1995) descreve como muitos casais contemporâneos constroem um  padrão baseado na disputa e na competição pelo controle da relação e na prevalência  das ideias e desejos de cada um dos envolvidos. O autor faz uso da expressão  “terrorismo íntimo” como uma metáfora para descrever os casais que não estabelecem  relação de parceria, estando voltados para os interesses individuais. Trata-se de um  padrão baseado na busca pelo controle do relacionamento, quando as pessoas atacam  os pontos vulneráveis uma da outra mas também de forma sutil, quando a violação pode  ocorrer sendo disfarçada de cuidado. Este casal encontra uma forma conveniente de se  relacionar, que cria uma sensação de segurança, mas na verdade é um subterfúgio para  não terem que lidar com a intimidade e suas questões. O ciúme mantém os parceiros  juntos, mas a uma distância segura um do outro. Os pares vivem um perseguindo e o  outro fugindo, mas não conseguem se encontrar ou diminuir o espaço que há entre eles.    

Mecanismos de evitação de contato e a dinâmica do ciúme  

As pessoas administram sua energia de modo a obter um bom contato com seu ambiente  ou para resistir ao contato, sendo necessário redirecionar essa energia por diversos  modos (POLSTER e POLSTER, 2001). Diante da impossibilidade de satisfazer uma de  suas necessidades e realizar bom contato ou de poder optar pela evitação deste, o  organismo se vê obrigado a recorrer a estratégias que assegurem sua integridade e sua  sobrevivência. Esses mecanismos de defesa não são danosos enquanto não criarem uma  cristalização.  

Podemos pensar o ciúme a partir dos mecanismos de evitação de contato, destacando a  expressão de alguns deles:  

Polster e Polster (2001) assinalam que a projeção é comum ao indivíduo que não é capaz  de aceitar seus sentimentos e ações, pois acredita não dever sentir ou agir desse modo.  A partir disso, aquele que projeta nega o que é seu e o atribui à outra pessoa. Perls  (1988) destaca que o mecanismo é comum aos casos em que a paranoia está presente.  O indivíduo tende a desconfiar e acusar os outros, a partir de sua própria agressividade  projetada. O mesmo autor diz que a pessoa faz hipóteses baseadas em suas próprias  fantasias, mas não reconhece o que faz. Ao invés disso, tende a responsabilizar os outros  por seus próprios problemas. No caso do ciúme, é experimentado como provocado pelo  outro, o que livra a si mesmo de responsabilidade sobre os próprios sentimentos de  desqualificação e insegurança que são projetados no parceiro. É como se o ciúme fosse  provocado pelo outro, o que isenta o indivíduo de responsabilidade, levando-o a uma  vitimização. O ciumento pode também projetar os próprios desejos de trair por meio das  desconfianças sobre a infidelidade do parceiro.

Cavalcante (1997) assinala que o ciumento pode não se satisfazer com as provas  materiais que busca e o liberariam da desconfiança. Ao mesmo tempo em que alimenta  aspectos irreais para fortalecer a própria desconfiança que a relação pode chegar a um  grau tão significativo ao ponto de o ciumento se desligar de seus investimentos mais  significativos para viver através das necessidades e da vida de seu parceiro, construindo  uma relação de dependência quase que absoluta.

Passando à confluência, esta acontece quando a relação é tida entre duas pessoas que  concordam em não discordar por meio de um acordo velado (POLSTER e POLSTER,  2001). De forma cristalizada, o indivíduo não consegue fazer contato com ele mesmo pelo  fato de se ver ligado fortemente aos outros sem diferenciar o que é seu do que é deles.  Quando é um estado disfuncional, a pessoa não pode discriminar entre o que ela é e o  que as outras pessoas são pois as fronteiras de cada um mostram-se pouco distintas  (PERLS,1988). Um dos membros não aceita diferenças e insiste em fazer do  companheiro algo que ele não é. O parceiro atende as exigências do outro, se  submetendo ao que este determina. Mostra-se intolerável reconhecer a dependência,  porque perceber o outro separado de si é precisar desse outro para uma série de  gratificações pessoais (Silveira, 2007). O ciumento torna-se dependente do outro, não  sendo capaz de distinguir mais o que é seu e o que é dele. Portanto, o ciumento é aquele  que carece de autossuporte.

A retroflexão pode ser observada quando o indivíduo trata a si mesmo como gostaria de  tratar as outras pessoas. Ao invés de dirigir suas energias para fora, na tentativa de  provocar mudanças no meio que satisfaçam suas necessidades ele as investe nele  mesmo, colocando-se como alvo do comportamento. Em geral, quem retroflete se  culpabiliza e se arrepende do que faz. Isso porque se enxerga inadequado e sem  satisfação em suas relações com o meio (PERLS, 1988). Tentando combater a sensação  de inadequação, faz as coisas e acaba por refazê-las (RIBEIRO, 1997). No caso do  ciúme, é comum haver verificações excessivas de sinais da infidelidade do parceiro. O  ciumento se culpabiliza e se arrepende do que faz mas não consegue evitar a repetição  desse comportamento.  

Os Polster e Polster (2001) falam sobre um desdobramento da confluência para a  retroflexão quando um dos parceiros viola a confluência, permitindo-se vivenciar algo em  sua individualidade. Diante da própria transgressão, a culpa é um sinal característico,  levando o indivíduo punir a si mesmo, se desvalorizando.  

A proflexão seria uma espécie de combinação de projeção com retroflexão, ou seja, fazer  ao outro o que gostaríamos que o outro nos fizesse (GINGER & GINGER,1995). A pessoa  costuma manipular os outros de forma a receber o que deseja, tendo dificuldade de se  reconhecer como própria fonte de nutrição (RIBEIRO,1997). O ciumento não pouparia  esforços para fazer de tudo pelo parceiro, doando-se inteiramente a ele, na expectativa de  receber elogios e a mesma dedicação em troca. No entanto, pode não ser atendido em  sua necessidade de receber atenção e afeto, o que provocaria insegurança (NUNES,  2009).  

 

 O processo terapêutico  

É bem comum encontrarmos o cliente que vivencia o ciúme de forma excessiva tendo as  suas funções de contato enfraquecidas. Ou seja, o cliente não vê e não ouve, não mais se comunica com o outro com eficiência, o que o mantêm no padrão neurótico. Portanto, é  importante que essas funções sejam trabalhadas na terapia (NUNES, 2009).  Ao falar de ciúme, é bem comum o cliente ficar no conteúdo, explorando os detalhes dos  acontecimentos, solicitando ao terapeuta que analise os fatos com ele. Mesmo parecendo  tentador, o terapeuta não deve combater, questionar ou refutar as desconfianças. Nunes  (2009) assinala que o terapeuta precisa evitar perder o contato com a mensagem  existencial de seu comportamento de ciúme pois o sintoma contém um sentido. De forma  geral, o cliente sabe que suas desconfianças são fantasiosas mas não consegue deixar  de possuí-las, utilizando diversos argumentos para convencer o terapeuta. O terapeuta busca auxiliar o cliente para que seu campo perceptivo possa se reorganizar  quando o que era fundo se torna figura. Ganhando um contorno mais claro, as figuras de  ciúme ficarão mais nítidas para que se possa trabalhar com elas. O cliente traz como  figuras as discussões e brigas por conta do ciúme; seus medos, inseguranças,  sentimentos de menos- valia, introjeções aparecem como fundo (NUNES, 2009).  

Apesar do campo já ter mudado, o cliente ainda reage em relação àquilo que lhe  aconteceu no passado, se impedindo que flexibilize a ‘forma’ estereotipada que  desenvolveu para lidar com o mundo (SPANGEMBERG, 2007). Nunes (2009) destaca  que o cliente não é capaz de ‘estar presente’ e se relacionar com o outro pois se mantém  fiel a fantasias de abandono, desqualificação e menos-valia vivenciadas no passado.  Ocorre a repetição de difíceis experiências que buscam elaboração ‘fora do tempo’.  Tendo isso por base, mais importante que explorar as explicações que o cliente traz para  justificar seu comportamento, é partir para o 'como' o cliente se mantém dessa forma. No  lugar de questionar as fantasias do cliente, o terapeuta terá mais eficácia em investigar  para que servem essas fantasias. Portanto, o cliente visitará a própria experiência e  revelará seus próprios sentidos que levam as suas atitudes ciumentas.  A relação entre terapeuta e cliente é uma possibilidade de reproduzir a ‘forma’ encontrada  pelo cliente para se relacionar com o mundo. Representa um recurso valioso ao processo  terapêutico, na medida em que atenta ao ‘como’ o cliente se ajusta criativamente por meio  de uma conduta ciumenta. Além disso, o cliente poderá obter uma ressignificação de sua  experiência, despertando-o para uma vida com mais liberdade e contato (NUNES, 2009).

A teoria paradoxal da mudança (Beisser, 1980) serve se embasamento para nossa  prática. Ela traz que a mudança acontece quando a pessoa se torna o que é, não quando  tenta converter-se no que não é. Para tanto, é preciso aceitar afetos, pensamentos e  desejos, mesmo que desagradáveis e dolorosos. Portanto, na clínica procuramos focalizar  o que é, agora, solicitando ao cliente que possa fazer contato com o que está fazendo no  momento.  

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No processo terapêutico, mais importante que explorar as causas da insegurança do  cliente, será trabalhar com as próprias funções de contato que, permanecendo  enfraquecidas, mantêm o cliente no padrão neurótico. Além disso, analisar as explicações  que o cliente traz para justificar seu comportamento não é de ajuda efetiva, mas sim partir  para o 'como' o cliente se mantém dessa forma. Ou seja, no lugar de questionar ou refutar  as fantasias do cliente, o terapeuta terá mais eficácia em investigar para que servem  essas fantasias.

Retomando a questão da confluência patológica, o ciumento busca apoio ambiental no  lugar de contar com o próprio potencial (PERLS, 1988). Necessita saber onde seu  parceiro está, com quem, fazendo o que ele faz, indo onde ele vai. Quando o apoio  ambiental falha, não acontecendo como ele espera, surge a insegurança. Sendo assim,  na terapia, é comum o parceiro do ciumento ter mais espaço que o próprio cliente pelo  fato do ciumento torna-se dependente do outro. O trabalho terapêutico pretende ajudar  esse cliente a delimitar seus próprios sentimentos, responsabilizar-se por suas projeções.  A expressão dos sentimentos torna-se mais produtivo do que as acusações feitas ao  parceiro, quando este pode acolher bem melhor do que quando se sente acusado, o que  gera a reação de defesa, de dissuadir o outro de suas fantasias ou até mesmo gerar uma  retaliação (BRANDEN,1980).  

Yontef (1998) afirma a importância do processo de aceitação pois sendo ele mesmo, o  cliente passa a ter uma base sólida para se movimentar. E justamente a possibilidade de  mudança está ligada ao desenvolvimento de autossuporte, sendo primordial que seja  desenvolvido dentro do processo terapêutico do cliente ciumento. Chegando à aceitação  de como é, o cliente será capaz de descobrir o próprio sentido de suas atitudes ciumentas  e começar a experimentar saídas mais funcionais para suas dores.

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Endereço para correspondência

Bruna Cabral Vianna Pinto

E-mail: brunacabralvp@yahoo.com.br

Recebido em: 28/07/2013

Aprovado em: 25/12/2013

Revista IGT na Rede, v. 10, nº 19, 2013, p.239-249 DOI 10.5281/zenodo.15042964

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526