ARTIGO

Desafios da prática clínica na formação de psicólogos: revendo  fronteiras e criando possibilidades.[1] 

Challenges in clinical practice in the training of psychologists: reviewing  boundaries and creating opportunities

Laura Cristina de Toledo Quadros  

RESUMO

Este artigo pretende discutir a prática clínica na psicologia, considerando aspectos  históricos e peculiaridades que permeiam esse trabalho. A prática clínica não  constitui-se apenas em questões técnicas. Mais do que isso, ela envolve  sensibilidade, ocupando um espaço entre a ciência e a arte. Nosso desafio é o de  rever as fronteiras dessa prática criando possibilidades que nos permitam  renovações sem que fiquemos capturados na armadilha de formar psicólogos  preocupados com acertos e resultados. Sem prescindir a responsabilidade, fazer  clínica é também correr riscos e isso exige disponibilidade, humildade e  comprometimento.

Palavras-chave: Prática clínica, Gestalt-terapia, Formação de psicólogos.

ABSTRACT

This article will discuss the clinical pratice in psychology considering historical  aspects and peculiarities surrounding this work. Clinical pratice is not only a  technical question. More than this, it involves sensibility, taking a space between  science and art. Our challenge is to review clinical pratice borders enabling  renovations without us to be caught in the trap of training psychologists worried  about successes and results. Not forgetting the responsibility, clinical pratices is  also taking risks and its requires availability, humbleness and commitment.  

Key words: Clinical pratices, Gestalt-therapy, Psychologist's qualification.

O tema “Psicologia Clinica”, embora possa parecer óbvio para uns, suscita uma  gama de reflexões quando o transpomos para o contexto da graduação e, um dos  questionamentos que podemos aqui destacar é simples: “Afinal, o que é psicologia  clínica e como um psicólogo clínico se constitui?” Parafraseando a genial Clarice  Lispector[2] essa é uma questão simples, mas não simplificada. Isso significa, ao  nosso ver, que a resposta à essa pergunta apresenta diversos desdobramentos.  Começaremos pelo nome “clínico”. Este termo revela-nos uma herança oriunda da  tradição médica e, envolvida numa cientificidade positivista, supõe a tríade doença

diagnóstico-tratamento. Considerando as especificidades da prática clínica em  psicologia, é nesse procedimento clássico que, independente da abordagem, se  orientam a formação do aluno de graduação em psicologia. Isso nos leva a mais  uma questão: Que sentidos são atribuídos ao termo “clínica” e que reverberações  ele dispara?

A clínica apresenta-se em várias versões, diferentes abordagens e modos de  intervenção. Não é objeto desse artigo discutir tais diferenças ou mesmo  peculiaridades de cada técnica e abordagem, porém a construção da noção de  psicologia clínica, como já foi dito, guarda estreita relação com o modelo médico  relacionando-a diretamente ao binômio saúde/doença e, consequentemente,  destacando outro par correspondente, identificação do sintoma/cura. Nos  manuais clássicos como o de Hector Fiorini (1984)[3], a prática clínica é descrita  como uma psicoterapia, um tratamento psicológico que engloba pelo menos três etapas: observar, analisar (avaliar, levantar hipóteses diagnósticas) e intervir (aqui,  assumindo o sentido de modificar o que está em curso, visando a supressão dos  sintomas identificados no paciente). Essa é uma perspectiva predominante quando  se remete à clínica. Mas não é a única.

Historicamente, a influência do modelo médico, notadamente da psiquiatria  interferiram em nossa prática gerando uma tendência à busca por uma atuação  que visasse os ajustamentos e/ou as normatizações o que, muitas vezes resvalava  para a constituição desse campo da clínica como um espaço hierarquizado e  limitador, revelando não só aspectos de nossa herança como também o equivoco  de reduzir-se essa prática ao seu local de realização, a saber, o consultório. Tal  versão de clínica, fundada na individualidade, prescindindo a historicidade e  atrelada a uma perspectiva organicista , ainda predomina na graduação, embora  tenha sido fonte de discussão e críticas principalmente a partir de 1980. Segundo  Schneider (2011),

“a clínica é por vezes definida pelo seu “local de realização” (considerada  

como atividade de consultório, de caráter privado, em detrimento das  

atividades de caráter público,por exemplo), ou de sua “área de atuação”  

(clínica ou hospitalar, por exemplo, diferenciando-se, por exemplo, da  

psicologia escolar ou da psicologia organizacional,etc), ou ainda a partir  

da “área de conhecimento (diferenciando-se, por exemplo da psicologia  

social). Na verdade, nenhuma dessas definições é precisa, realizam sub

repticiamente uma compartimentalização da disciplina psicológica, sendo  

fonte de muitas controvérsias. Definir o que é psicologia clínica não é,  

portanto, uma tarefa fácil. (0p.cit, p. 14)  

Em 1994 o CFP publicou uma pesquisa que procurou traçar o perfil do psicólogo  brasileiro. Constatou-se, aí, uma hegemonia da clínica nos moldes apontados  acima, revelando uma psicologia marcada por distorções que nos tem sido cara, ou  seja, uma noção de psicologia dicotomizada, limitada e enrijecida. Mas será este o  nosso destino?  

Numa versão mais contemporânea e fundamentada num outro referencial  epistemológico, Barros e Passos (2001), trazem uma outra perspectiva acerca da clínica, compreendendo-a enquanto experiência de desvio, que produz a criação de  novos territórios existenciais:

O sentido da clínica, para nós, não se reduz a esse movimento do inclinar

se sobre o leito do doente, como se poderia supor a partir do sentido  

etimológico da palavra derivada do grego klinikos (“que concerne ao leito”;  

de klíne, “leito, repouso”; de klíno “inclinar, dobrar”). Mais do que essa  

atitude de acolhimento de quem demanda tratamento, entendemos o ato  

clínico como a produção de um desvio (clinamen), na acepção que dá a  

essa palavra a filosofia atomista de Epicuro (1965). Esse conceito da  

filosofia grega designa o desvio que permite aos átomos, ao caírem no  

vazio em virtude de seu peso e de sua velocidade, se chocarem  

articulando-se na composição das coisas. Essa cosmogonia epicurista  

atribui a esses pequenos movimentos de desvio a potência de geração do  

mundo. É na afirmação desse desvio, do clinamen, portanto, que a clínica  

se faz.(op.cit. p.90, grifos dos autores)

Portanto, passamos agora nessa interlocução aqui desdobrada, a tratar dessa  noção, embora acreditemos que nossa graduação ainda esteja fortemente  impregnada de uma ideia de substancialização e/ou supressão de sintomas.  Atuar na clínica seria, então, introduzir a mudança no outro, o paciente. Mesmo que  possamos discutir a legitimidade dessa idéia de mudança, ressalto que esse foi (e  ainda é) um forte referencial na graduação: o psicólogo clínico é aquele que atua  para promover mudanças. Se constitui aí uma relação de poder?

A versão de Barros e Passos (2001) citados acima, nos propõe uma transposição  do klinikos, onde a relação acontece verticalmente e há implícita a noção do doente  passivo,impotente diante de sua doença, para a afirmação do clinamen compreendendo o ato clínico como possibilidade de desvios envolvidos na  circularidade do processo que vai acontecendo sem imposições ou imperativos.  Não se trata mais de uma clínica para mudança. É uma clínica de movimentos e,  enquanto psicólogos clínicos, nos cabe acompanhá-los sem nos excluir de um  campo de afetações. Podemos, então, experimentar os desvios?

O desvio nos coloca também num risco, a meu ver, inevitável, mas sobretudo  desconfortável: o manejo de nossas próprias questões. Na prática clínica, as afetações não podem ser ignoradas principalmente por ser esta uma atividade  sustentada pela relação. A tradição psicanalítica que funda muitos desses pilares  ainda hoje prevê senão uma real e total neutralidade do terapeuta (neste caso, do  analista), ao menos o controle neutralizador das possibilidades de afetação, de  onde emerge uma preocupação angustiada dos terapeutas em geral: Como é  possível não ser afetado pelo outro? Ser afetado contamina a análise? Se me  sinto afetado, o que eu não estou vendo em mim que eu deveria ver? O que eu  estou fazendo de errado?  

Na contramão disso, atualmente algumas abordagens em psicologia clínica  consideram que a premissa da neutralidade talvez já não seja confortável ou até  mesmo viável para as práticas que atravessam os campos de atuação nas  ciências sociais. Como bem nos aponta Favret-Saada (2005):

De um modo mais geral, meu trabalho põe em causa o fato de que a  

antropologia acha-se acantonada no estudo dos aspectos intelectuais da  

experiência humana, nas produções culturais do “entendimento”, para  

empregar um termo da filosofia clássica. É - parece-me – urgente,  

reabilitar a velha “sensibilidade”, visto que estamos mais bem equipados  

para abordá-lo do que os filósofos do século XVII.( p. 155 )  

O reconhecimento da sensibilidade nem sempre é favorecido na formação de  psicólogos. Na graduação é ressaltada muitas vezes a importância de submeter se a um processo terapêutico visando complementar a formação para o estudante,  mas também para o psicólogo como contraponto à sua atuação. Se o caminho  escolhido é a clínica, a ênfase dada à este aviso é ainda maior. Porém, a meu ver,  este tema não é profundamente debatido. Às vezes a idéia que predomina nessa premissa é a de que a psicoterapia te fortalece como profissional , principalmente  por trazer uma possibilidade didática, ou seja, ao estar em terapia o estudante ou  profissional iniciante estaria também aprendendo o manejo da técnica. Além disso,  está de algum modo subentendido que ‘fazer terapia’ confere uma certa imunidade  em relação às questões vindas dos clientes que poderiam, na ausência desse  monitoramento imunizador, ser misturadas aos próprios conflitos vivenciados pelo terapeuta. Ao enfatizar esse aspecto, não há intenção de minimizar a importância  do processo terapêutico do aspirante à psicólogo. Ao contrário, busco destacar a  distorção da noção de cuidado que é pouco discutida em nossas graduações  como um processo integralizado. A ideia de cuidado inerente à clínica difunde-se  de modo um tanto objetificada, endurecida por uma desejável funcionalidade. O  cuidar de si, ainda que visto como necessário, parece estar separado do cuidar do  outro.  

Escondendo a contradição e intensificando este desvio funcional, não é rara a  disseminação da idéia de que devemos nos cuidar para poder cuidar do outro, de  que devemos buscar o bem-estar para produzir bem-estar no outro O psicólogo,  em especial o psicoterapeuta esta fortemente referenciado numa idealização de  ajuda. Em pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e  pela Universidade Luterana do Brasil (MAGALHÃES et al, 2001), confirma-se a  idéia predominante entre os estudantes de psicologia que elegem a prática clinica  como sendo a atuação fundamental do psicólogo, traduzindo-a como a ação de  “ajudar as pessoas” e “curá-las” de seus males emocionais e existenciais. Tal  idéia ainda abriga influências evidentes da clínica médica marcada pela busca de  resultados e, por que não dizer, pela onipotência de ser o “curador” ou o “salvador”  do outro. Assim, a internalização desse modelo de atuação “clínica-individual-em consultório-particular” é bastante intensa no imaginário dos estudantes e talvez  seja reforçado pela formação acadêmica, apesar de haver hoje uma ampliação  nas propostas de atuação (ver Marconi da Costa, 2008) .  

Muitos estudantes acham uma incoerência ter tantas coisas pessoais mal  resolvidas em suas vidas e escolher cuidar dos outros. Eles produzem em si uma  exigência de estarem bem para exercer a profissão. Será que eles produziram  isso sozinhos? A graduação promove outras possibilidades para pensar esta  questão? Como essa idéia é discutida? Eles acreditam quando outro discurso é apresentado? Como e para que isso se tornou uma verdade? E o que significa  estar bem? Quem define isso?  

Certamente, a terapia do terapeuta não o livra de seus conflitos. Aliás, alguma  clínica livra alguém do conflito? O ofício de ser terapeuta se constrói na  reflexividade, no diálogo constante e no questionamento do que isso suscita. A  clínica é também uma prática política onde nós, enquanto psicólogos, podemos, a  partir de nossas escolhas, criar realidades que podem tanto restringir quanto  ampliar fronteiras entre mundos. Daí a nossa responsabilidade para com a nossa  atuação. Se formos mero reprodutores de um sistema, não criaremos oportunidade  para as surpresas. Mas será que podemos suportar esse risco? O quanto estamos  disponíveis para o novo?  

Talvez nossa formação careça de inventividade. Estar entre a ciência e a arte é  habitar uma espécie de não-lugar e, aparentemente, recusar certos espaços de  invenção ou ineditismo pode trazer uma pseudo segurança que crie uma sensação  de estabilidade. Mas será que isso é possível? Sem querer cometer nenhum abuso  de aventurar-me no jogo apoético das palavras, ressalto que o não-lugar não  significa lugar nenhum. Refiro-me a ele como um espaço mais arejado, não  ancorado em saberes de pretensa verdade. Correlato ao clinamen, o não-lugar  pode ser entendido como mobilidade. Estar na universidade como docente nessa  área traduz-se num questionamento que tanto instiga quanto perturba.  

Sabemos que as múltiplas possibilidades de pensarmos a clínica produzem formas  distintas de atuação. Porém, esse não é um aprendizado que se constrói sem  envolvimento. Os atravessamentos vivenciados, reverberam e trazem  rememorações. E são elas que, muitas vezes são excluídas ou segregadas na  discussão acerca da formação para a clínica. O que evitamos discutir enquanto  professores, supervisores e formadores de profissionais para a prática clínica? A graduação capacita para a prática clínica? A especialização capacita para a  clínica?

Tais questões – mais uma vez simples, mas não simplificadas - nos convocam a  transitar pelo desconfortável lugar do não saber. Num cenário em que se  entrecruzam o “ato médico” e a reivindicação do campo da psicoterapia feita por  outras áreas (como a filosofia e a pedagogia) e outros profissionais, vejo uma  energia deslocada para a discussão sobre a institucionalização da clínica, a  regulação e controle de sua prática e a qualificação adequada para tal sem que, no  entanto, consigamos enfrentar a delicadeza que permeia o nosso questionamento  inicial: “Afinal, o que é psicologia clínica e como um psicólogo clínico se constitui?”  

Quando nos deparamos com a diversidade de instituições formadoras, bem como  as regras que são instituídas para o exercício da prática clínica, vemos tentativas  de se estabelecer parâmetros e de demarcar territórios para o que pode ou o que  não pode ser legitimado no âmbito dessa prática. Tais esforços, não raramente,  afastam as formações (tanto nas universidades quanto nas especializações) de  uma realidade que vêm sempre nos assombrar: a clínica que praticamos está a  serviço do que e de quem? Corrigir? Modificar? Explicar? Entender?Compreender?  Acompanhar? Confirmar?  

Se nos apoiarmos numa clínica como o desvio proposto pelo clinamen, talvez não  haja a possibilidade do verbo no infinitivo e ao lado do que nomeamos de científico,  deverá estar o que compreendemos como sensível, estabelecendo-se aí uma  articulação entre o conhecimento e a sensibilidade. Historicamente, a psicologia  como uma ciência moderna funda-se na dicotomia entre razão e emoção, natureza  e cultura, indivíduo e sociedade, compreendendo muitos aspectos a partir de uma  óptica hierárquica oscilando entre o intelectualismo e o utilitarismo. Será que  podemos, de fato, situar a nossa prática em uma dessas polaridades? O sociólogo  J. Law (2005) nos provoca sabiamente dizendo-nos que continuamos fazendo no século XXI uma psicologia do século XIX. Quando me deparo com as ênfases e  especialismos propostos ao nosso curso e à nossa prática, me questiono se não  estaremos nos afirmando pela fragmentação e, ao invés de tomarmos o desvio  como inesperado, nos mantemos apegados as garantias das retas.  

A clínica que permite desvios, é um campo que situa-se entre afetos e afetações. É  um campo em movimento e, como tal, pretende-se vivo, pulsante, não capturado  nos limites das respostas enquadradas. Assim, mantendo o diálogo com o que foi  exposto e retornando ao questionamento inicial - “Afinal, o que é psicologia clínica  e como um psicólogo clínico se constitui?”- diria, então, sem a pretensão de  esgotamento, mas ensaiando uma resposta inventada a partir do meu percurso  vivido, que:

Psicologia é clínica

Clínica é articulação entre conhecimento e sensibilidade

Clínica é processo

Clínica é desvio

Clínica é inventividade

Clínica é possibilidade

Clínica é impossibilidade

Clínica é artesania

Sendo assim, o que nos constitui como clínicos passa pela intuição, o aprendizado  contínuo, o medo, a ousadia, o conflito, a rebeldia, a vivência, os obstáculos e o  amor. Voltando à Clarice, percebemos, dessa forma, que as várias simplicidades  desse ofício se entrecruzam e se entrechocam nos exigindo a atenção quase  permanente sobre o que realizamos nessa área. Numa inversão do clássico conto  da “Bela Adormecida”[4] onde a princesa foi condenada pela bruxa à dormir durante  100 anos, a prática clínica nos mantém em vigília, acordando e convocando todos  os nossos sentidos. Ressalto que tal metáfora não assume, aqui, o sentido de uma  maldição ou de um controle policialesco; ao contrário, sugerimos uma atenção pelo  viés da sensibilidade. Esse é um compromisso que transcende os manuais, mas  deve apoiar-se numa ética das relações.

Compreendo e vivencio a prática clínica como um trabalho artesanal cheio de  nuances e entremeios que formam figuras sempre diferentes e singulares. Este  não é um ofício que se constitui exclusivamente pela teoria, mas principalmente  pelo “fazer” pois a técnica instituída por mais sustentada que seja não se sobrepõe  ao encontro. A “arte do encontro” é transmitida pelo ato de compartilhar e  fortalecida pelas nossas próprias experiências, configurando uma rede que se  desdobra ininterruptamente. Para finalizar resgato aqui uma outra estória, para  além dos contos de fada, que foi contada no consultório, mas se passou no  cenário da vida, constituindo-se no que pode ser a melhor definição de terapia que  já ouvi e, peço licença para transpô-la como um esboço para definição de clínica  (ainda que tenha dúvidas quanto a real possibilidade de defini-la) :

Final dos anos 90, chegando o novo século, atendia eu uma  

jovem estudante de publicidade que passava por algumas  

tormentas em seu relacionamento amoroso. Tomada por seu  

intenso conflito, esse parecia ser seu único tema de  

conversa, tanto na terapia quanto em seu convívio social. Um  

dia, ela chega ao consultório e inicia a sessão contando, com  

ar meio maroto, a conversa que havia tido com uma colega  

de estágio. Ao escutá-la falar, mais uma vez, acerca de seu  

namoro, a tal colega teria dito:

- Você e a sua psicóloga não ficam “de saco cheio” de falar  

sempre desse mesmo assunto?

- Não, respondeu a jovem estudante, complementando -

Cada vez que eu repito, parece igual mas não é a mesma coisa.... Porque terapia não se faz no infinitivo; terapia se  

faz no gerúndio!  

Assim, pensando nessas possibilidades que costuram esse texto, proponho uma  redefinição de fronteiras que nos permitam mais flexibilidade. O desvio, a  mobilidade, a indefinição, a continuidade, a inventividade, são formas de  compreensão da clínica que transcendem o viés pedagógico, mas perpassam o  aprendizado de uma prática que pode habitar o não-lugar.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Endereço para correspondência

Laura Cristina de Toledo Quadros

E-mail: lauractq@gmail.com

Recebido em: 10/12/2012

Aprovado em: 24/12/2012

Revista IGT na Rede, v. 9, nº 17, 2012, p.187-199 DOI 10.5281/zenodo.15042675

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526


[1] Trabalho apresentado no Congresso do IGT, maio de 2012 na mesa redonda “Psicologia Clínica entre  ênfases e especialismos: a responsabilidade da clínica na Psicologia formação de psicólogos"

[2] Em entrevista concedida à Yllen Kerr em 1963, diante da pergunta “Você se considera  

complicada?”, Clarice Lispector responde, a meu ver, magistralmente:”Simples. Embora meus  vários tipos de simplicidade às vezes se entrechoquem. Simples, mas não simplificada, nem  simplifico os outros. Daí a pergunta, daí os equívocos.”(in, Rocha, E., 2011, p.27). Referencio-me  nesta perspectiva buscando ressaltar a importância de nos debruçarmos diante dessa questão e  trabalharmos exaustivamente sobre ela, visto que a prática clínica em psicologia carrega em si não  apenas diversas possibilidades de intervenção mas também antagonismos que trazem disputas  territoriais por vezes desgastantes. Não há aqui uma pretensão de esgotar um tema tão rico  quanto pertinente. Buscamos uma discussão que nos permita flexibilizar e validar as  peculiaridades que envolvem o termo e a prática.  

[3] Teoria e técnica de psicoterapias de H. Fiorini editado originalmente pela Francisco Alves,  manual ainda utilizado nos cursos de graduação em psicologia e um clássico nos anos 70/80

[4] A Bela Adormecida é um clássico conto de fadas onde uma princesa é enfeitiçada e cai num  sono profundo, até que seja despertada por um príncipe encantado com um beijo provindo de um amor verdadeiro.A versão mais conhecida é a dos Irmãos Grimm, publicada em 1812, na obra  Contos de Grimm, sob o título A Bela Adormecida