ARTIGO

A relação terapêutica na Terapia Familiar Sistêmica Construtivista e na  Gestalt-terapia – uma breve reflexão

Beatriz Gorenstin

Márcia Estarque Pinheiro

Monografia Apresentada Por Exigência do Curso de Especialização em Terapia  Familiar do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio De Janeiro,  como um dos requisitos para a obtenção do Título de Especialista. Abril de  1994 - Rio de Janeiro – Brasil

RESUMO

Esta monografia versa sobre a Terapia Familiar Sistêmica, baseada no  Construtivismo e a Gestalt-Terapia, na tentativa de verificar a coerência entre  as duas abordagens psicoterápicas, no campo da relação terapêutica.

Abstract

This monography treats of Systemic Family Therapy based on Constructivism  and of Gestalt-Therapy in an attempt to verify the coherence between both  psychotherapic approaches, within the field of the therapeutic relationship.

Esta monografia é fruto da reflexão acerca de nossa postura como terapeutas  em relação a nossos clientes. Para tal, tomaremos por base nossa experiência  profissional até o presente momento.  

Nosso primeiro contato com a Terapia Familiar Sistêmica foi enquanto alunas  do curso de graduação em Psicologia da Universidade do Estado do Rio de  Janeiro (UERJ). Durante dois anos (1990-1991), fizemos parte da equipe de  Terapia Familiar do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) desta Universidade,  na função de estagiárias. Esta equipe possuía o enfoque teórico da  Abordagem Sistêmica aplicada à Terapia Familiar. Naquele momento  travamos nossos primeiros contatos com o trabalho de alguns autores que se  baseiam nesta abordagem, como por exemplo, Virginia Satir, Paul Watzlawick,  Salvador Minuchin e Maurizio Andolfi, através de aulas teóricas e supervisões  de atendimento.

Em nossa trajetória profissional, obtivemos a formação em Gestalt-Terapia, a  qual tornou-se um referencial importante em nosso trabalho. Dentro desse  contexto, questões como respeito, não previsibilidade, escolha, possibilidade  de crescimento, fenomenologia, dentre outras, têm sido norteadoras de nosso  trabalho em terapia individual. Buscávamos encontrar na área de Terapia  Familiar uma abordagem que tivesse uma visão de mundo e de homem  congruente com a nossa. Esta monografia se desenvolverá no sentido de  tentar encontrar este campo de interseção.

Enquanto alunas do Curso de Especialização em Terapia Familiar do Instituto  de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, atendemos, dentro  da abordagem de Terapia Familiar Sistêmica, como um dos requisitos básicos  para recebermos o grau de especialista, a famílias que recorreram ao Setor de  Família desta instituição no período de Março de 1992 a Março de 1994.

Neste curso, em função de seu caráter didático, não se adotou um autor  específico. Através de aulas teóricas e supervisões, estudamos alguns autores  que baseiam seus trabalhos nas abordagens sistêmicas aplicadas à Terapia  Familiar entre eles Satir, Watzlawick, Minuchin, Andolfi, Haley, Bowen e  Whitaker. Nos últimos seis meses de nosso curso nos deparamos com a  abordagem Construtivista de Terapia Familiar e com o trabalho de alguns de  seus autores que nos impressionaram fortemente, como por exemplo, Lynn  Hoffman, Tom Andersen, Marcelo Pakman, Harlene Anderson e Harold  Goolishian.  

Cada uma das abordagens psicoterápicas sistêmicas de Terapia Familiar  dispensam atenção à questão da relação terapêutica com diferenças entre si.  A relação terapêutica é entendida aqui como a forma segundo a qual se  estabelece a interação entre cliente e o terapeuta. Neste contexto algo que  nos provoca muito interesse é a postura que os terapeutas assumem em  relação às famílias que atendem. Observamos as diferentes possibilidades de  posicionamento do profissional no sistema terapêutico formado pelo  subsistema terapêutico (terapeuta) e pelo subsistema familiar (família cliente).  Em alguns momentos permanecem fora do sistema, como observadores, e em  outros propõem tarefas diretivamente. Nos interessou em especial a forma  como se aproximam da família, quando o fazem, de que forma o fazem e,  principalmente, como escutam o que é dito pela família, e este foi um dos focos  que nos motivou.

A cada autor estudado no decorrer de nosso curso nos questionávamos sobre  nossa própria forma de atuar com as famílias que estavam em atendimento.  Diante das diversas possibilidades de postura de relação terapêutica nos  deparamos com a necessidade de verificar a coerência de nossa atuação  enquanto terapeutas, considerando nossa formação anterior.

O que nos fazia adotar determinadas condutas e o que nos levava a não optar  por outras? O que acontecia conosco que não nos sentíamos "vestindo a  camisa" de nenhuma das escolas sistêmicas de Terapia Familiar de maneira  integral? Em alguns momentos nos deparávamos com uma certa "salada" que  fazíamos com as técnicas que íamos aprendendo, o que terminava por gerar  ansiedade.  

Como já é de conhecimento popular, certos temperos não podem ser  misturados, caso contrário a salada pode azedar, ou no mínimo, ficar difícil de  digerir. Foi diante destas reflexões que nos sentimos motivadas a repensar  nossa identidade enquanto terapeutas de família. Qual será o "nosso  tempero"?

Como conseqüência desse questionamento, o objetivo desta monografia  tornou-se o aprofundamento do estudo da Relação Terapêutica nas duas  formas de trabalho psicológico com as quais as autoras têm tido contato, paralelamente, nestes últimos quatro anos: A Abordagem Sistêmica de Terapia  Familiar Construtivista e a Abordagem Gestáltica.  

Quais as possibilidades de postura que um terapeuta pode manter em relação  ao cliente (família/sistema) para estar de acordo com sua abordagem teórica?  Será possível ser coerente com as abordagens citadas acima ao mesmo  tempo? O que as diferencia? Em que se aproximam?

Estes são questionamentos que sempre permearam nosso trabalho.  Consideramos de extrema importância para nossa atuação enquanto  terapeutas uma reflexão a respeito dos pontos acima levantados.

Neste eixo, por um lado nos deteremos, no Capítulo III, à postura e relação  terapêutica dos Construtivistas, e por outro, no Capítulo IV, à postura e relação  terapêutica dos Gestalt-Terapeutas.

Dentre os terapeutas familiares da abordagem Construtivista, enfocaremos em  nossa monografia Tom Andersen, Lynn Hoffman, Harlene Andersen, Harold  Goolishian e Marcelo Pakman. Eles foram priorizados em função de seu  destaque na área de Terapia Familiar e do seu recente impacto em nosso  trabalho e no Brasil.  

Dentro da Gestalt-Terapia nos deteremos principalmente a Fritz Perls, o  fundador da abordagem e a alguns de seus colaboradores, como Joseph  Zinker, Erving Polster e Miriam Polster.

A abordagem Sistêmica Construtivista de Terapia Familiar vem merecendo  grande atenção dos Terapeutas Familiares no Brasil. Nós não fugimos a essa  regra e nos sentimos motivadas a estudá-la. A proposta de Relação  Terapêutica na Terapia Familiar Sistêmica Construtivista pareceu-nos,  inicialmente, bastante congruente com a da Gestalt-Terapia no sentido da visão  epistemológica que procuramos mostrar sucintamente no Capítulo II.

O entendimento da família como ativa e do terapeuta como agente facilitador  junto à mesma no "recontar de suas próprias histórias" denota uma postura de  tentar aproximar-se da família sem metas "a priori" ou modelos  preestabelecidos onde a mesma deveria encaixar-se. O decorrente  entendimento do sistema a partir do que este entende como problema para si,  naquele momento, pareceu-nos familiar e nos incentivou a esta reflexão.

E, como par deste estudo, nos concentraremos na relação terapêutica da  Gestalt-Terapia, a fim de verificar se seria coerente em termos teóricos,  relacionar estas duas abordagens.

Apresentaremos no Capítulo V nossa reflexão sobre nossa experiência  enquanto co-terapeutas no trabalho desenvolvido nesta instituição. Para tal  traremos alguns pontos importantes do processo terapêutico de três famílias  atendidas por nós no decorrer deste curso. Estes foram escolhidos por  retratarem o que consideramos uma evolução em nossa forma de nos  relacionarmos com as famílias.

No Capítulo VI faremos algumas considerações finais sobre o caminho que  percorremos e sobre nossa identidade profissional, evidenciando que a  necessidade de reavaliar constantemente seu trabalho faz parte da vida do  terapeuta.

"Muitas vezes as idéias que se tem das coisas e do mundo a nossa volta estão de tal modo arraigadas na gente que é impossível imaginá-las diferentes. No entanto, idéias a gente faz, refaz, passa adiante ou simplesmente engaveta. Isto significa que elas não são coisas acabadas, imutáveis, absolutas ou intransferíveis. Como as trilhas que se abrem no mato, seu valor está no uso que delas fazemos. E, principalmente, a extensão em que elas são compartilhadas com nossos semelhantes”.(Bennaton, 1986, p.07).

Em síntese, é dentro desta perspectiva que nos propusemos a realizar esta  monografia com o objetivo de verificar se as propostas de relação terapêutica  da Terapia Familiar Sistêmica Construtivista e da Gestalt-Terapia são  congruentes.  

Capítulo II – Da linearidade ao entendimento relacional

A fim de compreender a priorização de determinados valores e conceitos de  uma abordagem, torna-se necessário observar o contexto epistemológico em  que esta se desenvolveu. Para tal é importante entender a evolução do  pensamento científico. A ciência é produto do homem, e é preciso aproximar

se da visão de mundo daqueles que a produzem, do entendimento que têm dos  acontecimentos e do posicionamento em relação aos mesmos.

Nesta monografia será desenvolvido o tema da relação terapêutica  estabelecida na Terapia Familiar Sistêmica e na Gestalt-Terapia. Para tal,  parece-nos importante relacionar a visão de mundo, na qual os terapeutas  destas abordagens se baseiam, com o modo de relação que assumem e a  coerência adjacente.

Em busca desta evolução do pensamento científico nos remontamos aos  pressupostos científicos e aos valores dos séculos XVI e XVII, onde segundo  Capra (1990), a cultura Ocidental contemporânea tem suas raízes. Neste  período, chamado pelos historiadores de a Idade da Revolução Científica,  houve uma mudança na perspectiva medieval, quando a noção de um universo  orgânico, vivo e espiritual dominante até aquele momento, foi substituída pela  noção do mundo como sendo uma máquina (mecanismo).

A crença cartesiana na verdade absoluta presente em nossa cultura ainda hoje  é muito difundida. Como Capra cita Descartes:

"...Rejeitamos todo conhecimento que é meramente provável e consideramos que só se deve acreditar naquelas coisas que são perfeitamente conhecidas e sobre as quais não pode haver dúvidas." (Capra, 1990, p.53).

Descartes dividia a natureza em dois domínios fundamentais: a mente e a  matéria, sendo que a primeira se sobrepõe à segunda. Seu modelo de  entendimento dos fenômenos era matemático, concebendo o universo e o  homem como máquinas. A natureza funcionava de acordo com leis  mecânicas, e tudo no mundo material podia ser explicado em função da  relação causal e do movimento de suas partes.

A base do conhecimento científico passou a ser, no século XVII, o método de  investigação de Francis Bacon, o qual envolvia a descrição matemática da  natureza e o método analítico de raciocínio cartesiano. Galileu, considerado o  "pai" da ciência moderna, postulou que a fim de descreverem  matematicamente a natureza, os cientistas deveriam privilegiar a quantificação  (formas, quantidades e movimento) em detrimento de outras propriedades dos  fenômenos, como som, cor, sabor ou cheiro, as quais considerava projeções  mentais subjetivas.

Newton, por sua vez, contribuiu para o desenvolvimento científico através de  sua física mecanicista. Segundo ele, todos os fenômenos podiam ser  explicados através de equações fixas, ou seja, leis de causa e efeito. Esta  concepção determinista dos fenômenos permitia que fossem formuladas  previsões lineares a partir de certos estímulos, uma vez que o tempo e o  espaço eram tidos como grandezas absolutas. A questão dos cientistas desta  época era a de apreender a essência dos fenômenos, descobrir "o que é"  dentro de um universo estável e previsível, onde não era levado em conta o  observador. O ideal de toda a ciência era a descrição objetiva da natureza. A  visão mecanicista do mundo foi amplamente aceita e influenciou as demais  ciências nos séculos XVIII e XIX.

No decorrer do século XIX os estudiosos das áreas Biológica, Física,  Psicológica, Química e das Ciências Sociais continuaram desenvolvendo seus  trabalhos dentro de seus referenciais mecanicistas, e ao final deste século,  novas descobertas e novas formas de pensamento foram evidenciando as  limitações do modelo newtoniano.

Paralelamente surgiu a idéia de evolução - vinculando os conceitos de  mudança, crescimento e desenvolvimento - a qual iria influenciar não apenas o  século XIX, como todo o pensamento científico futuro.  

O primeiro passo importante em termos de teoria de evolução foi dado por  Lamarck, o qual propôs que os seres vivos teriam evoluído a partir de formas  mais primitivas e mais simples, sob a influência do meio ambiente. Alguns  pontos desta teoria foram abandonados mais tarde.  

Posteriormente a Teoria de Evolução de Darwin trouxe para a ciência a idéia  de que estruturas complexas se desenvolvem a partir de formas mais simples  (evolução biológica). Esta teoria foi responsável pela ampliação para os  cientistas da concepção Newtoniana. Segundo esta, o mundo era uma  máquina, obra exclusiva do criador. Esta concepção passa agora a incluir  também a possibilidade de autocriação e desenvolvimento.

No século XIX se deu na Física a descoberta e a pesquisa dos fenômenos  elétricos e magnéticos. Estes estudos realizados por Faraday e Maxwell  levantaram questões em relação ao entendimento dos fenômenos universais.  Surgiu o conceito de campo de força para coabitar com o conceito anterior de  uma força simples. O conceito de campo de força, criado por Faraday e  Maxwell, foi utilizado por Kurt Lewin na Teoria de Campo aplicada à Psicologia.

A Física adquiriu uma nova dimensão com a segunda lei da termodinâmica, a  qual foi formulada por Sadi Carnot. Apresenta-se a idéia de que há processos  irreversíveis que ocorrem ao longo de uma flecha do tempo. Esta lei enuncia  que todos os processos avançam numa certa direção, isto é, da ordem para  desordem. Na sua formulação mais geral:

"...qualquer sistema físico isolado avançará espontaneamente na direção de uma desordem sempre crescente." (Capra, 1982, p.68).  

Em meados do século XIX para expressar essa direção da evolução dos  sistemas físicos, numa forma matemática precisa, Rudolf Clausius introduziu  uma nova quantidade a que denominou "entropia" (do grego: energia + tropos  = transformação ou evolução).  

No início do século XX, Ludwig Bolzmann (Alemanha) e Willard Gibbs (Estados  Unidos), ambos físicos, contribuíram para a queda da supremacia da  concepção newtoniana na Física. Através da introdução do uso da estatística  em Física, ampliaram sua validade dos sistemas de grande complexidade para  os sistemas simples também.

No sistema newtoniano eram aplicadas as mesmas leis para múltiplos  sistemas, que se iniciavam a partir de diferentes posições e momentos, e se  acreditava que esta medição física seria sempre precisa em relação aos  momentos iniciais dos fenômenos.

Gibbs apresentou pela primeira vez um método científico bem definido, o qual  propunha que se levasse em conta também a incerteza e a contingência dos  fenômenos. Acreditava que se pode ter em relação a um determinado evento  apenas uma previsão alcançável, algo acerca de sua distribuição e não uma  certeza absoluta decorrente de leis causais. Gibbs fez, dessa forma, uma  introdução das probabilidades na Física, o que a influenciou no sentido de não  mais ter uma postura de previsibilidade em relação aos eventos e sim de  probabilidade. A Física do século XX não mais se propõe a dar conta do que  vai sempre ocorrer, e sim do que pode ocorrer com grande probabilidade.

Com base na teoria das probabilidades proposta por Gibbs e Bolzmann, o  comportamento de sistemas mecânicos complexos pôde ser descrito em  termos de leis estatísticas. Nessa perspectiva se dá o início da transição entre  o universo determinista e o das possibilidades.

No século XX surgiu também a noção de complementaridade de Niels Bohr na  física. Segundo esta, a percepção de um determinado fenômeno está  relacionada com o ponto a partir do qual este é observado. Dessa forma cada percepção do fenômeno é complementada por outras percepções onde cada  uma é validada dentro de seu universo.  

"...a imagem da partícula e a imagem da onda são duas descrições complementares da mesma realidade, cada  

uma delas só parcialmente correta e com uma gama  limitada da aplicação." (Capra, 1982, p.74).

A noção de complementaridade de Bohr, associada ao princípio da incerteza  de Gibbs, revolucionou a Física e sua visão mecanicista do mundo. Passou-se  para o entendimento de que a matéria não existe com certeza, mas tem  tendência para existir. Esta descoberta do aspecto dual da matéria abala a  forma de compreensão dos fenômenos. Abandona-se o mundo  exclusivamente das coisas que são e percebe-se o mundo das coisas como  conexões e interações prováveis. Como Capra cita Bohr:

"...as partículas materiais isoladas são abstrações, e suas propriedades são definíveis e observáveis somente através de sua interação com outros sistemas". (Capra, 1982, p.75).

Verifica-se então que a ciência do século XX caracteriza-se por uma mudança  significativa de paradigma. Abandona-se a exclusividade tanto da concepção  de causalidade linear quanto das leis deterministas dos fenômenos, para  acreditar na probabilidade de ocorrência dos mesmos. O parâmetro de  organização e de intervenção dos cientistas deixa de ser somente a  previsibilidade e passa a ser a probabilidade. Enquanto antes a pergunta  clássica era "o que é" determinada coisa, neste momento o cientista questiona  "como se dá tal fenômeno", conferindo legalidade às possibilidades que nele  estão contidas.  

Gregory Bateson (antropólogo e filósofo) contribuiu para esta compreensão  sistêmica do universo ao acreditar que o entendimento dos fenômenos físicos  enquanto relações deveria ser ampliado para todos os fenômenos. Assim para  Bateson, as relações seriam a base da definição das coisas e, portanto da  realidade. Neste momento, em diferentes áreas do conhecimento, surge o  movimento na direção de uma compreensão sistêmica da vida, a qual baseia

se nas inter-relações e na interdependência dos fenômenos.

"Os sistemas são totalidades integradas, cujas propriedades não podem ser reduzidas às unidades menores. Em vez de se concentrar nos elementos ou substâncias básicas, a abordagem sistêmica enfatiza princípios básicos de organização." (Capra, 1990, p.260).

Enquanto para os mecanicistas as atividades que uma máquina, à semelhança  dos organismos vivos, é capaz de realizar depende de sua estrutura, para a  concepção sistêmica a estrutura orgânica é determinada pelos processos  organizadores que este sofreu e está sofrendo no dado momento em que é  observado.

Falar da concepção sistêmica remete ao pensamento de Bertalanffy, criador da  Teoria Geral dos Sistemas. Esta teoria tem por objetivo formular princípios  aplicáveis aos sistemas em geral, independentemente da natureza das partes  que o compõem e das relações que estas estabelecem entre si (Bertalanffy,  1973).

Esta teoria se constitui em um instrumento valioso que possibilita aplicar  modelos de funcionamento sistêmico de uma área de conhecimento em outra.  Isto não significa uma tentativa de reducionismo científico e sim uma nova  proposta de produção de conhecimento, através da descoberta de  isomorfismos nas leis dos diferentes campos de conhecimento.  

Esta concepção unitária do mundo propõe que o todo é percebido enquanto  unidade pela sua organização interna, a qual é definida pelas relações  estabelecidas entre as suas partes. Isto só é possível na medida em que os  sistemas equivalem a totalidades organizadas, as quais apresentam  características semelhantes como crescimento, diferenciação, ordem  hierárquica, dominância, controle e competição.

Bertalanffy define que os sistemas se dividem em abertos e fechados. Os  sistemas fechados são aqueles que não estabelecem nenhum tipo de troca  com o ambiente e os abertos são aqueles que realizam estas trocas através de  energia, matéria e/ou de informação.

As trocas com o ambiente acontecem nos limites do sistema, ou seja, na  fronteira entre este e o meio.  

"Qualquer sistema enquanto entidade que pode ser estudada em si mesma deve ter limites, quer espaciais quer dinâmicos. Estritamente falando, as fronteiras espaciais só existem na observação ingênua, pois todas as fronteiras são, em última análise, dinâmicas”. (Bertalanffy, 1973, p.286).

A partir da diferenciação entre sistema aberto e fechado, torna-se importante  ressaltar o conceito de eqüifinalidade. No que tange aos sistemas fechados, o  estado final que estes vão atingir é totalmente determinado pelas suas  condições iniciais. No entanto, o mesmo não se aplica aos sistemas abertos.  As possibilidades de troca com o ambiente, seus processos internos e o nível  de complexidade do sistema permitem que os sistemas abertos permaneçam  dentro de sua faixa de equilíbrio homeostático a partir de condições iniciais  diferentes e através de processos distintos.

Todo sistema vivo é essencialmente um sistema aberto, uma vez que é  impossível o fenômeno da vida sem que haja troca em algum nível. A  concepção de Bertalanffy sobre a vida traz embutidas as perspectivas de  crescimento e evolução, na medida em que a partir da troca, o sistema  estabelece uma nova organização interna, irreversível, respeitando o princípio  da eqüifinalidade.

A noção de evolução ganha importância no pensamento sistêmico. Observa se que os organismos têm certo grau de flexibilidade e plasticidade interna, ou  seja, que são regidos pelo princípio da auto-organização. Tal princípio lhes permite se adaptar e/ou evoluir diante das diferentes situações que se  apresentam no ambiente. A organização interna e a função não são  determinadas pelo ambiente, mas pelo próprio sistema, o que denota sua  autonomia diante do mundo.

Os organismos vivos auto-organizadores se caracterizam por dois fenômenos  dinâmicos fundamentais que estão, por sua vez, intimamente ligados à  autonomia. O primeiro é a auto-renovação, entendida como a capacidade que  os sistemas vivos têm de renovar e reciclar continuamente seus componentes,  sem deixar de manter a integridade de sua estrutura total (Capra, 1990). Este  processo é também denominado homeostase e traduz a tendência do sistema  a manter-se num estado de equilíbrio dinâmico que permite a vida. O segundo  fenômeno é a autotranscendência, que se refere à capacidade de expansão  criativa, ampliando as fronteiras físicas e mentais nos processos de  aprendizagem, desenvolvimento e evolução (Capra, 1990).

Assim, podemos concluir que os sistemas vivos têm uma tendência intrínseca a  manter sua homeostase, sem perder sua identidade, bem como a evoluir.  Estes processos se dão através da interação do sistema com o meio. O  sistema tem liberdade para mudar dentro dos limites desta interação. Ele será  tanto mais autônomo quanto maior for seu grau de complexificação para  alcançar a satisfação de suas necessidades, dentro das possibilidades que o  meio lhe oferece. Infere-se, portanto que os processos observados em um  sistema, em um dado momento, refletem, no presente, sua história, sua  dinâmica atual, sua função e nele estão contidas todas as possibilidades de  evolução que este for capaz de criar.

Concomitantemente à Teoria Geral dos Sistemas, surgiu a Cibernética, criada  por Norbert Wiener (Bertalanffy, 1973). A palavra cibernética etimologicamente  vem do grego e significa pilotar, governar, controlar, constituindo-se no estudo  dos sistemas controladores (vivos ou não) através da informação. Esta se  preocupa com o estudo da entrada ("input") e da saída ("output") de  informações de um sistema, independentemente de como este as processe.

A Cibernética traz uma proposta de compreensão global dos fenômenos a  partir do entendimento das relações que se apresentam na manifestação do  mesmo. Estas são estabelecidas através da troca informacional entre o  sistema e o meio. Seu objetivo é explicitar as leis que regem o comportamento  de determinado sistema.  

 "...à Cibernética interessa o modo de se comportar dos organismos e das máquinas (...) Importante é que, ao se debruçar sobre tais fenômenos, ela pinça sempre dois aspectos primordiais: o trânsito da informação e os esquemas de controle existentes." (Bennaton, 1986, p.13).

Assim, esta disciplina insere-se no cenário científico com um intuito de estudar  os mecanismos de controle de forma sistêmica, isto é, através da compreensão  de como se dá a troca de informações (relações) entre o sistema e o ambiente,  sem reduzir tais mecanismos a leis de causa e efeito.

"A máquina, à semelhança do organismo vivo, é (...)  um dispositivo que parece resistir, local e temporariamente, à tendência geral para o aumento da entropia. Mercê de sua capacidade de tomar decisões, pode produzir, à sua volta, uma zona de organização num mundo cuja tendência é deteriorar-se". (Wiener, 1968, p.34).  

A Teoria Geral dos Sistemas mostra a mesma preocupação em acentuar a  tendência dos sistemas vivos a organizar ativamente seu mundo, através da  constante troca de informações com o meio externo.

"O estímulo (isto é, uma alteração nas condições externas) não causa um processo em um sistema de outro modo inerte, mas apenas modifica processos em um sistema autonomamente ativo" (Bertalanffy, 1937, p.133ss, in Bertalanffy, 1973, p.278).

A informação é entendida como uma medida de organização dos sistemas.  Assim, quanto mais complexo for o sistema, maior a quantidade de  informações com as quais ele pode lidar ao mesmo tempo, bem como a  variedade de formas em que estas se apresentam.

O conceito de informação está ligado ao conceito de probabilidade. A  probabilidade de uma dada mensagem (forma de configuração e organização)  ser percebida pelo sistema dentre as várias mensagens que este recebe em  um determinado momento, varia de acordo com a quantidade de informação  que esta contém, respeitando-se a capacidade de absorção do sistema.

O conceito de informação está relacionado à probabilidade e à novidade, na  medida em que quanto menos esperado ou conhecido for o conteúdo da  informação, maior será a probabilidade desta ser percebida pelo sistema  (Wiener, 1968). A autonomia de deliberação do que fazer a partir da  assimilação da mesma caberá sempre ao sistema.

Na Cibernética, o conceito de sistema é tão primordial quanto os de informação  e organização. Sistema aqui é entendido como um todo delimitado por  fronteiras onde se dá a comunicação com o meio externo.

O sistema é tratado como uma "caixa preta" que troca informações com o meio  e dentro de si mesmo, sem perder seu contorno. Isto lhe permite, na medida  de sua complexidade, selecionar as informações que assimilará e que rejeitará.  Desta forma pode exercer certo grau de autonomia sobre a influência do meio  externo nos seus processos internos.

A contrapartida também deixa no ar a questão de como apresentar uma  informação ao sistema de modo a que haja maior probabilidade deste percebê-la. Este questionamento faz sentido na medida em que a mudança no  funcionamento de determinado sistema acontece através da modificação de  suas relações. Um dos caminhos para tal é a inserção de novas informações.  Retornaremos a esse ponto nos capítulos subseqüentes.

Ao receber uma informação nova, o sistema é modificado. Inicia, então, uma  busca de retorno ao equilíbrio inicial, isto é, ao estado de homeostase. Este  processo de retorno ao equilíbrio a partir de informações é denominado  retroalimentação (Watzlawick, 1988) e pode ser atingido principalmente de  duas maneiras.

Uma delas é a retroalimentação negativa, que denota o retorno ao estado de  equilíbrio através da correção do erro, isto é, da correção do desvio da situação  de equilíbrio estático anterior. Outra é a retroalimentação positiva, que se  caracteriza pela ampliação do erro ou desvio, causando uma ruptura com a  homeostase anterior. Este movimento favorecendo a emergência de uma nova  organização, igualmente estável dentro da faixa de possibilidade de  funcionamento do sistema.

"A realimentação pode ser tão simples quanto um reflexo comum, ou pode ser uma realimentação de ordem superior, na qual a experiência passada é usada não apenas para regular movimentos específicos como, outrossim, toda uma política de comportamento.” (Wiener, 1968, p.33).

A Psicologia acompanhou as tendências do pensamento científico de cada  época e traz em si as marcas dessas influências. Já no século XX, segundo  Capra, a escola Behaviorista e a Psicanálise clássica adotaram métodos e  concepções diferentes, porém basearam-se no modelo Newtoniano de  realidade. Posteriormente a influência do pensamento sistêmico também se  estendeu na Psicologia para diversas abordagens.  

No início deste século, os estudiosos da Psicologia da Gestalt detiveram-se  nos processos psicológicos enquanto produtos da interação dinâmica,  privilegiando desta forma a compreensão unificada dos fenômenos totais, em  detrimento da análise dos elementos que os compõem. Esta concepção traz  em seu bojo indícios de uma transição para uma compreensão sistêmica dos  fenômenos psicológicos.  

Dentro da perspectiva mecanicista o homem era entendido como um robô,  capaz apenas de reagir aos estímulos do meio e manter seu estado de  homeostase através da retroalimentação. Na perspectiva sistêmica o homem  é um sistema vivo aberto, organizado, autônomo e em evolução. Nesta  condição é reconhecida a capacidade do homem de organizar seu mundo e de  ser agente de sua própria história.  

A ciência se encontra num período de transição no qual deixa de ser  fundamental a linearidade causal para se privilegiar o enfoque relacional, deixa se de buscar unicamente o "por que" de determinado acontecimento para se  valorizar também o entendimento de "como se dá" determinado fenômeno.

Este período de transição se reflete na Psicologia, abrindo outras  possibilidades para o trabalho psicoterápico. O homem deixa de ser percebido  apenas como uma vítima passiva de seu passado e de seu meio, para ser  reconhecido como um sistema ativo capaz de atuar com a sua história na  construção de sua vida presente, a partir da percepção de como se dão suas  relações atuais. Dessa forma o sistema pode lançar mão de um maior número de informações, que ampliam seu leque de possibilidades de novas  organizações, aumentando a probabilidade de que ocorram mudanças.

Até aqui tivemos a oportunidade de entender melhor o legado que recebemos  de expoentes do pensamento sistêmico. Tendo em mente esta trajetória, nesta  monografia, nos dedicaremos à busca da compreensão de como a perspectiva  sistêmica se reflete na Terapia Familiar e na Gestalt-Terapia. Neste percurso  teremos como foco a relação terapêutica, a qual será entendida aqui como a  interação estabelecida entre sistemas auto-reguladores, que se dá na fronteira  dos mesmos. Os sistemas buscam, através desta interação e de seus  processos internos, uma mudança na situação atual. Esta relação é uma  situação de comunicação interpessoal, onde duas ou mais pessoas  compartilham experiências, se expressando de diversas formas, porém  exercendo papéis definidos a partir do próprio objetivo da psicoterapia, que é  centrada na situação existencial do cliente.

Capítulo III – A relação terapêutica na Terapia Familiar Sistêmica

Consideramos importante, conforme dissemos no Capítulo II, o contexto  epistemológico onde determinados fenômenos se dão. Nesta monografia não  temos a intenção de fazer um relato completo da história da Terapia Familiar, e  sim apenas ressaltar alguns momentos e autores que consideramos relevantes  na evolução do trabalho dos que se propõem a atender famílias dentro de uma  visão sistêmica Construtivista.

As abordagens de Terapia Familiar de base sistêmica possuem uma série de  diferenças que foram sendo salientadas e desenvolvidas através de  aprofundamentos teóricos e da prática clínica. O processo de legitimação da  Terapia Familiar como uma prática clínica e científica foi lento e influenciado  por autores de diferentes áreas de conhecimento.

O surgimento de trabalhos em Terapia Familiar refletiu o desenvolvimento do  contexto social após a Segunda Guerra Mundial, quando houve um aumento  no interesse dispensado à saúde mental. Nos Estados Unidos, neste período,  os psiquiatras foram percebendo que as terapias tradicionais não funcionavam  adequadamente para todos os indivíduos. O tipo de tratamento proposto pela  Psiquiatria Clássica mostrava-se pouco eficiente para abarcar todo o processo  que se dava com determinados pacientes. Tornava-se necessária uma  compreensão mais abrangente das doenças ditas psiquiátricas.

Até o ano de 1950, o tratamento de doentes mentais tinha como foco os  sintomas do indivíduo acometido pelo distúrbio psiquiátrico. Em busca da  melhora do paciente, o mesmo era retirado de seu habitat, geralmente a  convivência familiar, "tratado" e quando estava "curado", era "devolvido" para a  família. Alguns pacientes, ao voltarem para casa, tendiam a regredir nos  quadros de suas doenças.  

A participação que cabia à família neste tipo de tratamento resumia-se a dar  informações relacionadas à história de vida do paciente para colaborar com o  atendimento individual do mesmo. Os dados obtidos, as distinções e os  modelos existentes até aquele momento eram pouco eficientes no tratamento de algumas dificuldades dos pacientes, dentre elas a anorexia, o  comportamento suicida, a esquizofrenia e o distúrbio de conduta na  adolescência.

Não havia, naquele período, uma teoria específica para o trabalho com  famílias. Grande parte dos precursores do trabalho no campo de Terapia  Familiar seguia as orientações psicanalítica ou psicodinâmica e seus trabalhos  iniciais nesta área refletiam estas perspectivas particulares. Muitos dos  terapeutas da época utilizaram-se de sua intuição como guia em suas decisões  de atender conjuntamente vários membros de uma mesma família.

Inicialmente, os trabalhos e pesquisas no campo da Terapia Familiar eram  desenvolvidos de forma isolada. Não existia então grande oportunidade de  comunicação, divulgação ou troca das idéias e experiências desenvolvidas  pelos que voltavam seu interesse para essa área de trabalho.  

Aos poucos foi aumentando o intercâmbio entre os diferentes trabalhos  realizados. Neste contexto pôde-se perceber um grande desenvolvimento e  uma série de mudanças e novas possibilidades em termos de atendimento  familiar.

Gregory Bateson (antropólogo e filósofo), Jay Haley (Teórico da Comunicação),  Don Jackson (psiquiatra) e John Weakland (Engenheiro Químico e  Antropólogo), influenciaram de forma marcante a história da Terapia Familiar  Sistêmica, com o desenvolvimento do conceito de duplo vínculo em seu artigo  intitulado "Toward a Theory of Schizofrenia" publicado em 1956. O duplo  vínculo e o entendimento da função do sintoma levaram ao surgimento do  conceito de homeostase familiar (Jackson, 1957). (Goolishian et alli, 1987)

Outro marco na Terapia Familiar Sistêmica é o Mental Research Institute (MRI),  em Palo Alto, na Califórnia, o qual até os dias de hoje continua influenciando os  que trabalham como Psicoterapeutas, dentre eles os Terapeutas de Família.  Nas décadas de 50 e 60 foi grande o seu desenvolvimento.  

Inicialmente seus estudos eram voltados para a comunicação na esquizofrenia  e na família dos esquizofrênicos. Deslocou-se a atenção dada somente ao  indivíduo em si para as suas relações e o contexto no qual está inserido.  Porém esse foco foi expandido para a interação familiar e seus efeitos em  diferentes fenômenos, como por exemplo, as doenças psicossomáticas, o  comportamento suicida e o distúrbio de conduta na adolescência. Faziam  parte do "staff" desta instituição, dentre outros, Jackson, Bateson, Satir,  Watzlawick, Beavin, Weakland e Haley, os quais entendiam a família como um  sistema social em interação.

Os trabalhos do grupo de Palo Alto, como também ficou conhecido o MRI,  foram sendo divulgados e desenvolvidos através de palestras, "workshops",  programas de treinamento, artigos e livros produzidos pelos membros de seu  "staff".

Em 1962, em conjunto com o Family Institute of New York (depois denominado  Ackerman Institute for Family Therapy), o MRI iniciou o jornal Family Process,  tendo Haley como editor. Até os dias de hoje este jornal tem papel importante a divulgação dos trabalhos realizados em Terapia Familiar em diversas partes  do mundo.  

A Terapia Familiar recebeu inúmeras influências marcantes em seu processo  de desenvolvimento, dentre elas da Teoria Geral dos Sistemas (Bertalanffy).  Todas as abordagens sistêmicas de Terapia Familiar surgiram a partir da base  comum da Teoria Geral dos Sistemas. Esta teoria, conforme descrito no  Capítulo II, é uma abordagem metadisciplinar, desenvolvida por Von Bertalanffy  na década de 40, a qual se propõe a estudar as características organizacionais  presentes nos diferentes sistemas (Bertalanffy, 1973). Conceitos importantes  desta teoria, como: sistema, circularidade, homeostase, retroalimentação  positiva e negativa, eqüifinalidade, evolução, auto-regulação e organização  foram utilizados na Terapia Familiar, possibilitando o surgimento de novas  formas de trabalho terapêutico.

Alguns estudiosos de Terapia Familiar, como o "grupo de Milão", utilizaram  analogias úteis, como o método de perguntas e respostas para facilitar a  solução de problemas, provenientes da Teoria Geral dos Sistemas. Estas  analogias tiveram grande valor na descrição, em termos relacionais, dos dados  obtidos em sua prática clínica e em suas investigações. Os conceitos  sistêmicos contribuíram para o desenvolvimento de modelos sobre  comunicação, processos interpessoais, organização e mudança familiar. Estes  estudiosos deram ênfase conceitual às noções de complexidade e organização, e à busca de metodologias não reducionistas.

As diversas áreas do conhecimento encontram-se em constante transformação  e tendem a evoluir, influenciando-se mutuamente num mesmo momento  histórico. Outra fonte além da Teoria Geral dos Sistemas a influenciar a  Terapia Familiar, foi a Cibernética, a qual, segundo Robert Wiener (1968), tinha  como primeiro objeto de estudo os processos de comunicação e controle em  sistemas naturais e artificiais. Nestes estudos foram utilizados os conceitos de  sistema, informação, retroalimentação e auto-regulação, conforme descrito no  Capítulo II.  

Neste movimento percebe-se com clareza o desenvolvimento de um novo  domínio de estudo, o qual abarca a família e a ecologia das relações humanas,  incluindo também a esfera da comunicação.  

O desenvolvimento epistemológico da Cibernética teve grande influência como  referência conceitual no desenvolvimento da Terapia Familiar Sistêmica. Esta  influência se fez notar através dos trabalhos de Gregory Bateson, Humberto  Maturana, Francisco Varela, Heinz Von Foerster e Ernest Von Glasersfeld. Os  trabalhos destes autores possibilitaram à Terapia Familiar Sistêmica pensar a  respeito de si mesma, de suas próprias práticas e propostas, ou seja, lhe  deram a possibilidade de ficar no nível meta. Neste contexto tornou-se  possível o desenvolvimento de novas idéias, novos termos e novos temas na  Terapia Familiar Sistêmica.  

Influenciada pelo primeiro momento da Cibernética, posteriormente  denominada "Primeira Cibernética", a Terapia Familiar Sistêmica voltou seu  interesse para a neutralização do desvio, isto é para a manutenção da  homeostase do sistema, através da correção do erro (auto-regulação de retroalimentação negativa). Neste período os trabalhos do campo da Terapia  Familiar Sistêmica enfatizavam as regras, os mitos e os padrões interacionais  da família em atendimento e as intervenções terapêuticas visavam restabelecer  a homeostase familiar. Segundo Sluzki (1987), dentre os expoentes dessa  época encontram-se: Jackson, Haley, Watzlawick e Beavin.  

O segundo momento no desenvolvimento da Cibernética ficou conhecido como  "Segunda Cibernética". Aqui passam a ser focalizados os processos de  amplificação do desvio, a auto-regulação de retroalimentação positiva, e os  processos sistêmicos de mudança. Os fenômenos passam a ser entendidos  em termos dinâmicos, enfatizando a dialética estabilidade-mudança. Ilia  Prigogine (pesquisadora em Termodinâmica) e seus colaboradores  correspondem a essa orientação e contribuíram com seus estudos para a  compreensão da ordem através das flutuações. (Sluzki, 1987)

"...Las interacciones no lineales asociadas con fenómenos regulatórios en sistemas abiertos alejados del equilibrio hace posible que el sistema pase de un estado al otro a través de la amplificación de una fluctuación y una bifurcación que corresponde a una solución descontínua para un parámetro del sistema..."(Schnitman, 1987, pg.121).

Em um estado longe do equilíbrio pode ocorrer no sistema a ampliação de uma  flutuação e surgir uma bifurcação. Os pontos de bifurcação são pontos de  instabilidade, onde é possível ocorrer saltos qualitativos que podem  estabelecer novas possibilidades e novos processos neutralizadores. Qualquer  perturbação, por menor que seja, ao redor dos pontos de bifurcação tem a  possibilidade de afetar todo o funcionamento do sistema.  

Neste contexto entende-se que o sistema pode, em condições apropriadas,  escolher evoluir para diferentes modos de funcionamento.

"...Existe más de un estado posible, más de una solución en cada punto de  bifurcación. Esta multiplicidad de soluciones corresponde a una gradual  adquisición de autonomía respecto de su medio" (Schnitman, 1987, p.122).

A Terapia Familiar Sistêmica, influenciada por esta compreensão dos  fenômenos, pôde entender e descrever atividades terapêuticas de que até  então não se falava ou escrevia por falta de conceitos, ou linguagem  pertinente. Surgiram os termos "intervenções geradoras de crises",  "movimentos desequilibrantes" e "atividades provocativas". Estas atividades  tinham por objetivo levar a família para além dos limites de sua organização  atual, e desencadear mudanças qualitativas. Esta influência se faz representar  na clínica pelas modalidades terapêuticas de Salvador Minuchin e Carl  Whitaker.

Outro momento importante no desenvolvimento da Cibernética foi a  "Cibernética de Segunda Ordem". Nesta fase, segundo Sluzki (1987), a  Cibernética passa a incluir a ela mesma como seu objeto de estudo.

De acordo com Marcelo Pakman (1988), Médico, Psicoterapeuta e  Epistemólogo, a partir do momento em que o sub-sistema observador vivo é  incluído no sistema, a linguagem passa a desempenhar um papel fundamental  na produção de conhecimento. Esta perspectiva inaugurou a Cibernética da  linguagem, que passou a ser denominada Cibernética de Segunda Ordem.  

O princípio da incerteza da física quântica, os aportes filosóficos de  Wittgenstein, as contribuições de neurofisiologistas tais como Humberto  Maturana e Francisco Varella, de lógicos como Heinz Von Foerster e Gordon  Pask, de psicólogos evolutivos como Jean Piaget e do antropólogo Gregory  Bateson, entre outros, favoreceram o desenvolvimento da Cibernética de forma  marcante.  

A partir deste momento, a Cibernética deixou de ser unicamente uma  "Cibernética dos Sistemas Observados" para tornar-se uma "Cibernética dos  Sistemas Observantes". O observador passou a ficar atento, tanto para os  fatos que acontecem no ambiente que o rodeia, como também para sua própria  participação no processo de observação e construção do mesmo. Ele é parte  do que está observando, e o que descreve a respeito do que observa é  necessariamente uma descrição de si próprio (Sluzki, 1987).  

Humberto Maturana (Neurobiologista), um dos cientistas mais polêmicos da  atualidade, foi pesquisador do MIT (Instituto tecnológico de Massachusetts),  candidato ao prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, atualmente trabalha no  Instituto de Terapia Familiar em Santiago, no Chile. Através de sua teoria  biológica do conhecimento, questionou o postulado básico da ciência  tradicional, segundo o qual a realidade é externa e independente ao homem  que a observa. Ele propõe que o que se pode ter acesso é a percepção da  realidade que cada indivíduo possui. Relacionada a essa idéia está a noção de  "multiversa", a qual se refere aos muitos significados possíveis que constituem  nossos muitos mundos possíveis.

De acordo com Maturana entidades vivas são "estruturalmente determinadas".  A estrutura é entendida por ele como "os componentes e as relações entre  componentes que constituem uma unidade particular, realizando sua  organização" (Vaz e Magro, 1993). As entidades vivas só podem operar e  existir a partir de, e de acordo com a forma como foram organizadas, de  maneira coerente com sua organização autopoiética. O termo autopoiese foi  criado por Maturana para designar o processo contínuo de auto criação do  organismo vivo.

Outra contribuição importante de Maturana foi a sua concepção de linguagem  enquanto forma de interação coordenada/coordenante. Segundo Vaz e Magro  (1993): "...linguagem como uma maneira de estar juntos coordenando as  coordenações condutais que brotam da vida e convivência." Evidencia-se  então o papel fundamental que Maturana dispensa à linguagem enquanto  fenômeno interacional.

Segundo Goolishian e Anderson (1987), para Maturana o termo linguagem não  se refere apenas a sons ou sinais escritos, mas à função de determinação do  significado da realidade. A Terapia Familiar Sistêmica Construtivista tem em seu cerne a crença de que a realidade é uma construção social através da  linguagem.  

Para Anderson e Goolishian (1988), os seres humanos podem ser definidos  como sistemas geradores de linguagem e de significado, engajados em um  processo dinâmico intersubjetivo e recorrente. Assim a realidade é socialmente  construída por grupos de indivíduos que fazem parte de uma mesma rede  comunicacional. O sistema que procura ajuda do terapeuta é aquele formado  por indivíduos que criaram um problema, enquanto significados em co

evolução.

O modelo de Maturana influenciou a Terapia Familiar Sistêmica Construtivista  que tomou sua teoria do conhecimento e dos sistemas como base conceitual  da atividade psicoterápica.

Esta abordagem traz uma nova perspectiva para o entendimento do processo  de mudança no sistema, assim como para a postura do terapeuta diante deste.  Utiliza uma linguagem que permite uma descrição Construtivista da Terapia  Familiar Sistêmica através da própria inserção do observador e, ao mesmo  tempo, dentro da concepção de evolução de Maturana, respeita o estilo do  terapeuta enquanto observante e observado.

Segundo Goolishian e Winderman (1989), autores que fundamentam sua  prática clínica no Construtivismo, a psicoterapia possui uma estrutura e um  propósito o qual questiona constantemente o desenvolvimento evolutivo dessa  relação. Desde o início a relação interpessoal estabelecida no sistema  terapêutico, isto é, entre o subsistema familiar e o subsistema terapêutico  pressupõe diferenças, respeitando o contexto social, político, cultural e  lingüístico do qual faz parte.  

Tom Andersen (1987), norueguês, professor de Psiquiatria Social, terapeuta  familiar com embasamento Construtivista coloca que as principais  contribuições e influências que recebeu foram os trabalhos de Gregory Bateson  e Humberto Maturana e as observações do trabalho de determinados  terapeutas de família, como por exemplo, alguns membros do grupo de Milão  (Itália), do Ackerman Institute (New York) e do Galvenston Family Institute  (Texas). Em relação a estes terapeutas, muito o impressionou o cuidado e o  respeito que mantinham pela integridade das pessoas com quem trabalhavam.  

Tom Andersen criou uma metodologia de trabalho na prática clínica  denominada "Reflecting Team", a qual é um dos contextos que possibilita o  atendimento familiar de acordo com as premissas da abordagem Construtivista.  Este recurso pode ser utilizado de diferentes maneiras de acordo com as  possibilidades do local onde se desenvolve o processo psicoterápico.

Nem os terapeutas de campo, nem os que observam a sessão - atrás do  espelho ou na própria sala - trocam hipóteses acerca dos problemas da família  e das metas a serem atingidas antes de estar com a mesma. No decorrer da  sessão, os observadores não oferecem diretrizes ou propostas de perguntas e  intervenções a serem feitas. Consideram o sistema terapêutico (formado pelo  subsistema terapêutico e pelo subsistema familiar) livre para tomar suas  próprias decisões e seguir seus próprios caminhos no decorrer da sessão.

O recurso do "Reflecting Team" consiste em possibilitar que os terapeutas  observadores falem o que pensam e sentem a respeito do que percebem que  está se dando com a família e com o(s) terapeuta(s) de campo no decorrer da  sessão.  

A sessão transcorre normalmente de acordo com os temas trazidos pela  própria família por no mínimo uns 10 minutos, chegando algumas vezes a até  45 minutos. A partir do que foi percebido verbal e não verbalmente durante  esse período, os terapeutas observadores colocam de uma maneira respeitosa  e especulativa, na forma de questionamentos, o que pensam e sentem  diretamente para o sistema terapêutico, sem terem feito uma discussão prévia  do que deveria ou não ser dito. Os terapeutas observadores, porém devem  estar atentos para que o que disserem seja suficientemente claro e absorvível  pela família. Esta questão é fundamental para a prática de psicoterapeutas  dispostos a contribuir para a ocorrência de algum tipo de mudança em um  sistema (indivíduo/família).  

Os terapeutas falam durante um tempo que varia normalmente de 2 a 15  minutos por vez. Este tempo não é previsto ou rígido e terá a duração  necessária para que seja dito o que for considerado importante naquele  momento.

Inicialmente, o sistema terapêutico permanece escutando o que é dito pelos  terapeutas que estão observando o atendimento, para depois falar de como foi  a experiência de escutar outros pontos de vista acerca de seu próprio momento  e quais as sensações e pensamentos que lhe vieram à cabeça. Haverá tantas  trocas de fala quantas forem necessárias no decorrer da sessão, porém  sempre o subsistema familiar ficará com a última palavra. Isto é, este  subsistema sempre terá a oportunidade de colocar na sessão seus sentimentos  e opiniões acerca do que foi dito a seu respeito.

Neste contexto o subsistema terapêutico não assume uma postura de ter  previsão e controle da sessão. Ele participa de igual para igual com a família  colocando suas próprias opiniões e sentimentos na sessão.  

"Our new way of working makes us feel that we are participants in a process in wich family members became our equals. We do not feel we can or should control the therapy process, and we accept that we are merely a part of it." (Andersen, T, 1987, p.427)  

Lynn Hoffman, outro expoente do movimento da Terapia Familiar Sistêmica  Construtivista, dá bastante ênfase à noção de uma "voz diferente" para a  Terapia Familiar. Em seu trabalho como terapeuta familiar procura facilitar o  desenvolvimento e a expansão das "vozes" dos membros do subsistema  familiar. Para tal procura estabelecer um espaço de conversa no qual os  participantes possam abordar de uma forma nova as dificuldades que os  afligem. Este espaço permite que sejam ditas coisas que não haviam podido  ser ditas antes; que todos possam participar igualmente, ouvindo os demais e  se colocando.

Ela afirma que a maioria das pessoas tem recursos próprios para solucionar  seus problemas, porém algo em seu contexto as impede. Relaciona esse  impedimento a sentimentos de inadequação e propõe que, em um contexto  menos pejorativo, muitas vezes possa aparecer uma nova solução,  desaparecer o problema ou este terminar parecendo menor do que antes.

O enfoque Construtivista enfatiza o valor da associação e da colaboração entre  o terapeuta e a família. A postura do terapeuta é deliberadamente pouco  ostentosa. Este busca compreender a família, procurando não confrontar ou  culpar ninguém. Esta postura está em consonância com a crença  Construtivista de que a neutralidade é a possibilidade de desenvolvimento de  novas posições a partir do intercâmbio dialógico. O subsistema terapêutico e o  subsistema familiar são convidados a correr o risco de reavaliar e até modificar  suas percepções, preconceitos e valores sem que, em nenhum momento, sua  integridade seja ameaçada.

Na abordagem Construtivista a atividade terapêutica é descrita como uma  atividade dialógica, um diálogo entre terapeuta e cliente (sistema terapêutico).  Aqui o objetivo do terapeuta é facilitar à família que esta perceba que existem  várias perspectivas em relação às situações em que está inserida.  

As sessões transcorrem como uma conversa, onde o terapeuta é um  especialista que acompanha o sistema terapêutico (Conjunto formado pelo  subsistema familiar e pelo subsistema terapêutico). Seu papel é perceber os  diferentes enfoques que podem existir em cada situação, dando-se conta de  que são sempre possíveis pontos de vista alternativos em relação aos  problemas. O trabalho do terapeuta é introduzir de forma bastante respeitosa  na sessão observações com diferenças significativas em relação à descrição  proposta originalmente pela família. As observações (mensagens) precisam  ser na "dose certa", respeitando a capacidade de absorção do sistema,  conforme mencionado no Capítulo II (p.20). O terapeuta acredita que as  observações feitas por ele podem facilitar a emergência de outras perspectivas  para o cliente (família) que aumentem seu grau de liberdade.  

"...el terapeuta familiar no es um agente que opera sobre una familia cambiándola sino que es un participante educado en un proceso de transformación colectiva de significados." (Sluzki 1987, p.67)

O que acontece a partir daí é propriedade da família, resultando de sua própria  participação única na construção das idéias que aparecem na relação  terapeuta/família durante a entrevista.

Lynn Hoffman em seu trabalho, prioritariamente, não se baseia em propor  prescrições ou intervenções. A terapia para ela é o estabelecimento de um  diálogo fluido entre pessoas, das quais ao menos uma tem um problema.

"...la terapia no "se le hace" a alguien, sino que se establece un contexto conversacional del que participa el terapeuta. Esta conversación se organiza de tal manera que las soluciones, con frecuencia, aparecen por sí solas o los problemas terminan pareciendo menos intratables." (Hoffman, L. in Schnitman, p.74, 1992).

A relação que se estabelece no sistema terapêutico (formado pelo terapeuta e  pela família) se caracteriza pela eqüidade e interdependência. Nenhuma visão  da realidade tem primazia em relação à outra que participa do mesmo sistema  terapêutico, portanto a visão do terapeuta não é superior às demais visões  possíveis. O terapeuta acolhe cada família em sua singularidade, escutando-a  e aproximando-se da mesma com curiosidade e respeito, favorecendo que  todos se sintam à vontade para se colocar na sessão.  

Ao aproximar-se da família, é necessário que o terapeuta esteja disponível  para trilhar junto com a mesma um percurso de descoberta, sendo um ouvinte  atento e interessado. O terapeuta deve procurar eximir-se de seus "saberes"  anteriores para poder escutar a família e mergulhar junto com a mesma num  processo de co-construção. Precisa ter sempre em mente que, a partir do  momento em que é formado o sistema terapêutico, o terapeuta passa a fazer  parte do problema e deve, portanto estar atento para sua contribuição na  construção do mesmo.

O processo psicoterápico, dentro deste enfoque, se dá a partir do que é trazido  pela família e da relação estabelecida no sistema terapêutico. O terapeuta  acompanha a família, trocando com seus membros pensamentos, sentimentos  e idéias que emergem a partir dessa relação. Ele tem liberdade de  pensamento e prática, a partir do reconhecimento da subjetividade de sua  compreensão dos fatos e situações. Sem perder de vista as características  próprias de cada família, estando atento para as diferenças culturais, étnicas e  de gênero existentes, o terapeuta pode trazer para a sessão suas opiniões e  sentimentos a respeito do andamento da terapia, situações que considere  relevantes de sua própria vida ou dividir com a família suas próprias  dificuldades. Para tal, torna-se necessário que o terapeuta esteja atento  para o processo que está se desenvolvendo a cada momento no sistema  terapêutico; para que tipo de relação está se estabelecendo entre os  participantes e que este use sua percepção como instrumento na sessão.

"...dependemos de formatos que promueven una revisión continua de acciones y realizaciones como sucede con las playas en las que cada mañana la marea deposita nuevos objetos. (Hoffman, L. in Schnitman, p.76, 1992).”

Lynn Hoffman (Hoffman, L. in Schnitman, 1992) se utiliza, em alguns  momentos, do "Reflecting Team" como recurso nas sessões. Ela propõe tanto  conversas reflexivas entre os terapeutas, durante as quais a família permanece  apenas escutando, como que alguns membros da família assumam o papel de  conversar enquanto terapeutas e os demais membros da família permaneçam  escutando.

Nesta proposta, tanto o terapeuta quanto a família podem observar os  acontecimentos a partir de diferentes pontos de vista. Dessa forma, poderão  perceber as várias faces do problema dentro de um contexto mais igualitário e  menos ameaçador.

As pessoas têm diferentes experiências do mundo ao seu redor e, portanto  diferentes entendimentos do mesmo. Os problemas tendem a surgir quando se  começa a discutir quem possui o entendimento correto (Andersen, 1987). Na  abordagem Construtivista de Terapia Familiar, não se busca encontrar quem  está certo ou errado, ou qual a solução para o problema, busca-se sim,  intercâmbio das várias possibilidades de percepção do que está acontecendo  naquele momento.

“...Este tipo de formatos nos ayudan a hacer distinciones entre el centro y la periferia, en vez de jerárquicas superior-inferior. Son intrísicamente equitativos,  promueven un processo abierto de ida y vuelta (...) el processo reflexivo involucra intercambiar lugares y ésta es una manera excelente de ayudar a las personas (incluyendo al terapeuta) a ver los sucesos desde diferentes puntos de vista. (Hoffman, L. in Schnitman, p.76, 1992)."

O sistema terapêutico é formado por todas as pessoas que de alguma forma  sentem-se afetadas pelo problema atual. Cada membro do sistema terapêutico  tem sua forma de se relacionar com os demais. Torna-se necessário que cada  um respeite a maneira do outro se apresentar para que haja um ambiente  favorável às trocas mútuas de versões, às quais poderão facilitar o surgimento  de novas formas de relacionamentos.  

Neste contexto cada um pode receber e conhecer versões diferentes da  realidade. Através dos diferentes enfoques percebidos e intercambiados cada  um pode ter novas perspectivas de sua própria versão da situação e esta será  enriquecida.  

Para os Construtivistas o trabalho se dá a partir da compreensão que a família  tem do seu momento atual. Aos poucos, o terapeuta vai construindo junto com  ela mais uma versão para este mesmo momento. Com esta atitude, o  terapeuta facilita que o processo se dê a partir dos conteúdos da própria família  e que a mudança aconteça de dentro para fora. O sistema terapêutico não  pode prever o que vai acontecer, como será ou quando irá ocorrer a mudança.

Capítulo IV – A relação terapêutica na Gestalt-terapia

Pensando a relação terapêutica na Gestalt-Terapia, parece-nos importante  esboçar alguns pontos relevantes acerca desta abordagem teórica e, para tal  torna-se indispensável falar de Fritz Perls.

Fritz Perls (1893-1970), criador da Gestalt-Terapia, nasceu em Berlim. Em  1920 formou-se em Medicina e desde o início se dedicou à Neuropsiquiatria.  Ao longo de sua vida sofreu diversas influências marcantes, como da filosofia  de Friedländer, do pensamento existencial de Martin Buber e Tillich; da Teoria  Organísmica de Kurt Goldstein, de Laura Posner, com quem se casou  posteriormente, a qual era graduada em Psicologia na Escola de Gestalt e do  zen-budismo através de Paul Weiss.

Perls se submeteu a análise com Karen Horney e Wilhelm Reich, dentre outros.  Após o Congresso Internacional de Psicanálise de 1936, na Tchecoslováquia,  rompeu com a psicanálise  

Em 1942 publicou a obra "Ego, Hunger and Aggression - a Revision of Freud's  Theory and Method", contando com a colaboração de Laura Perls. Este livro  foi o marco de seu rompimento com a Psicanálise Clássica, a partir de uma  crítica ao associacionismo dominante nos estudos de Psicologia da época.  

Em 1951, Perls publicou, juntamente com Ralph Hefferline e Paul Goodman,  "Gestalt Therapy - Excitement and Growth in the Human Personality", obra na  qual apresentou os pressupostos básicos desta abordagem psicoterápica.  Durante sua vida Perls publicou outras obras e fundou centros em vários  pontos dos Estados Unidos, com o intuito de desenvolver a Gestalt-Terapia.  

A Gestalt-Terapia é uma das herdeiras dos primeiros modelos sistêmicos em  Psicologia (Tellengen, 1984), o que se explícita em sua compreensão holística  dos fenômenos. O termo holístico se refere à proposta da Gestalt-Terapia de  considerar os fenômenos em sua totalidade, buscando apreender o significado  global da experiência presente. Esta herança veio principalmente através da  influência da Teoria de Campo de Kurt Lewin e da Teoria Organísmica de Kurt  Goldstein.

Da Teoria de Campo, a Gestalt-Terapia incorporou o conceito de campo,  formado pelo indivíduo e pelo ambiente no qual ele está inserido. O campo é  percebido, descrito e compreendido a partir das relações estabelecidas entre  as partes que o compõem. O indivíduo é representado como uma área  diferenciada dentro do campo. Por sua vez, esta área fica compreendida em  uma área maior, denominada espaço vital. Este é entendido como o universo  psicológico do indivíduo, que está em processo constante, contido dentro de  fronteiras, que o separam e ao mesmo tempo o mantêm em contato com o  meio externo no qual este está inserido.  

O indivíduo é visto na relação parte/todo com o meio, estando claramente  destacado do mesmo e em processo de troca constante com este. O espaço  vital, por sua vez, também está dividido em partes que se inter-relacionam com  maior ou menor permeabilidade, dependendo da dinâmica interna do mesmo e,  mantendo um nível de tensão interna necessário à vida.  

O campo está idealmente em equilíbrio, ou seja, a energia tende a estar bem  distribuída no todo (campo/espaço vital). A organização interna do indivíduo  define sua forma de funcionamento no mundo a cada momento. Este  entendimento do homem está em consonância com a concepção de sistema  autônomo proposta por Bertalanffy, conforme citado no Capítulo II.

Uma vez que o espaço vital se constitui na realidade psicológica do indivíduo,  apenas forças que provoquem algum tipo de tensão no mesmo são  reconhecidas como fatos e portanto percebidas. A tensão pode ser provocada  por um fato ou por uma combinação de fatos no espaço vital num dado  momento. Uma vez que um determinado fato (estímulo) é absorvido pelo  espaço vital, o indivíduo tem uma gama de possibilidades para administrá-lo e  produzir uma resposta. Esta visão do indivíduo não o reduz a um campo físico  onde se dá a interação de forças, mas traduz claramente uma concepção sistêmica do seu funcionamento, entendendo o comportamento como uma  função do meio no qual ele está inserido.  

O campo, enquanto composto por figura e fundo em interação dinâmica,  contém a história do todo, assim como todas as suas potencialidade. Este  entendimento condiz com a visão sistêmica de que os processos observados  no sistema, no presente, contém seu passado e suas possibilidades de  crescimento.

A formação da figura pode ser entendida como o processo através do qual a  configuração do campo permite a clara distinção da necessidade principal do  indivíduo naquele momento, a partir da relação parte/todo.

"The excitations at the contact-boundary lend their energy to the formation of a sharper and simpler object-figure (...) This process of contacting (...) is in general a continuous sequence of grounds and figures (...) the whole process is an aware mounting excitement. Note that the energy for the figure-formation comes from both poles of the field, both the organism and the environment..." (Perls et alli, 1951, p.403).  

Depreende-se desta passagem de Perls que o homem organiza o meio a partir  de seu contato com o mesmo. Este princípio auto-organizador também já foi  explicitado por Bertalanffy como característica dos sistemas vivos abertos.  

Lewin privilegiou a compreensão de "como" determinado fato afeta ou  modifica o campo, em detrimento do "por que". Na Teoria de Campo, assim  como na Gestalt-Terapia, a preocupação básica é a preponderância do  entendimento sistêmico do fenômeno dado sobre o entendimento causal-linear  do mesmo. A partir dessa visão relacional, em consonância com a visão  sistêmica, pode-se compreender a importância do conceito de fronteira de

contato para a Gestalt-Terapia. A fronteira de contato é justamente onde se dá  a relação entre o indivíduo e o meio externo (no campo), sendo portanto um  lugar de troca que não pertence nem ao indivíduo, nem ao meio,  caracterizando-se justamente pela dinâmica da interação entre eles.  

"... the contact-boundary is, so to speak, the specific organ of awareness of the novel situation of the field..." (Perls, Hefferline e Goodman, 1951, p.259).

Kurt Lewin desenvolveu sua teoria dentro de um modelo topográfico que não  foi seguido por Perls. No entanto, a forma de compreender os fenômenos  psicológicos enquanto decorrência da interação do homem com o meio foi  integrada à Gestalt-Terapia. Para compreender o funcionamento e a interação  entre as partes e o todo, Perls recorreu à Teoria Organísmica de Goldstein.

Goldstein foi um neurologista que se destacou por seu trabalho desenvolvido a  partir dos conceitos básicos da Psicologia da Gestalt. Goldstein trabalhou com  soldados que possuíam algum tipo de lesão cerebral decorrente de ferimentos  de guerra. De seu trabalho com Goldstein, Perls trouxe para a Gestalt-Terapia  a concepção do organismo como um todo, que age e tem funções, em detrimento da tendência dominante na Psicologia da época em estudar as  funções psicológicas isoladamente.

"... Los procesos puestos en marcha por el estímulo no se hallan limitados a la parte del sistema nervioso cuya excitación corresponde al acto (...) el resto del sistema nervioso se halla asimismo afectado en mayor o menor grado, y existe una relación característica entre la excitación de la parte próxima y la excitación provocada en las partes remotas. En este sentido, decimos que el efecto proximal es el proceso de figura y el de la excitación en el resto del sistema nervioso es el proceso de fondo." (Goldstein, 1961, p.20)”.

A satisfação das necessidades em Gestalt-Terapia também é vista  considerando o organismo total e se esta dá através do ciclo de auto-regulação  organísmica (Zinker, 1979). A Gestalt-Terapia utiliza o ciclo como um  referencial para o terapeuta, não como etapas a serem rigidamente obedecidas  pelo cliente. O movimento de auto-regulação pode ser entendido como um ato  organizativo, na medida em que o ciclo de auto-regulação é informacional  (Gorenstin, 1992).  

Para descrever sucintamente este ciclo pode-se dizer que a primeira etapa do  mesmo é a da sensação. O organismo como um todo aos poucos percebe  sensações que são experimentadas como uma determinada necessidade. A  seguir, o indivíduo toma consciência da sua necessidade presente, já na  segunda etapa do ciclo. A partir daí, na terceira etapa, a consciência da  necessidade faz com que o organismo como um todo haja no sentido de obter  a satisfação. Esta etapa se caracteriza pela excitação e mobilização da  energia do organismo para a ação, dentro dos recursos de que dispõe. Chega

se então à etapa do contato propriamente dito, na qual ocorre a saciação da  necessidade através da troca com o meio externo. Finalmente se dá a etapa  de retraimento, na qual ocorre um relaxamento e a perda do interesse pela  figura anterior. Agora o organismo está pronto para a formação de outra figura  a partir da nova organização do fundo.

O princípio da auto-regulação organísmica que rege a satisfação das  necessidades do indivíduo não significa que ele necessariamente alcançará tal  objetivo (Latner, 1986). O homem não é determinado por suas necessidades,  nem se limita ao mero exercício de restabelecimento de seu estado  homeostático. Ele é um ser-em-relação com o que o meio lhe oferece, com o  limite que o meio lhe dá e usa sua criatividade a seu favor nessa relação.

De acordo com o princípio da pregnância ou da boa forma, o todo assume a  melhor configuração possível dentro das circunstâncias presentes. Em  consonância com este princípio da Psicologia da Gestalt, para a Gestalt-terapia  a auto-regulação não é garantia de satisfação ou saúde, mas de que o  organismo está fazendo o melhor por si no momento (Latner, 1986). Neste  processo figura e fundo são interdependentes e igualmente importantes.

"Por lo común pasamos por alto el fondo de un acto y prestamos atención únicamente a la figura. Mas desde el punto de vista de la observación sistemática y de la metodologia esto es falso, pues la figura y el fondo se hallan íntimamente relacionados entre si. Ninguno de ellos puede ser valorado debidamente prescindiendo del otro." (Goldstein, 1961, p.21)”

A Teoria Organísmica defende também que o indivíduo tem uma motivação  dominante para o crescimento e desenvolvimento ordenados, no sentido da  plena realização das suas potencialidade. Goldstein denominou esta  motivação auto-realização.

"...Hemos aprendido que el hombre es un ser que no se limita a luchar por su autoconservación, sino que se halla impulsado a manifestarse espontáneamente y en su capacidad creadora." (Goldstein, 1961, p.143).”

O comportamento é visto, na abordagem gestáltica, como uma forma de  ajustamento criativo do indivíduo à situação presente dentro de uma relação  parte/todo, no sentido da auto-realização através do fluxo figura/fundo.

" ... el impulso único o tendencia básica del organismo es la actualización de si mismo según sus potencialidades, en el grado máximo alcanzable". (Goldstein, 1961, p.160)”.

Na Gestalt-Terapia esta posição de Goldstein está também sustentada pelo  embasamento filosófico existencialista. Segundo este, o homem é o único ser  capaz de se projetar no futuro e construir a si mesmo. (Ribeiro, 1985). A  filosofia existencialista, outra influência marcante na Gestalt-Terapia, propõe o  respeito pela alteridade, que é necessário para a confirmação do cliente  enquanto pessoa também distinta e única.

Após este esboço de alguns conceitos fundamentais das teorias Organísmica e  de Campo, enquanto influências na Gestalt-Terapia, cabem alguns  comentários. Ambas as teorias têm como base a relação parte/todo, provinda  da Psicologia da Gestalt, que, por sua vez, nos remete aos primórdios do  pensamento sistêmico. Assim, podemos dizer que os conceitos de sistema,  todo e campo se equivalem, na medida em que se baseiam nas relações  enquanto via para a compreensão dos fenômenos.  

A Abordagem Gestáltica afirma um modelo autônomo de homem, entendido  aqui como um homem capaz de se ajustar criativamente. Em consonância  com o pensamento sistêmico, a Gestalt-Terapia não reduz o homem a um ser  (ou máquina) que reage a estímulos do meio, sobrevivendo através da  retroalimentação por erro segundo padrões pré-estabelecidos. Esta  abordagem reconhece a autonomia do homem como sendo sua capacidade e  possibilidade de escolher o comportamento que assumirá a cada momento,  segundo seus próprios parâmetros. Esta idéia é plenamente compatível com a  concepção sistêmica de auto-organização.

No senso comum os conceitos de autonomia e auto-suficiência se tornam  nebulosos e/ou se confundem. Buscando a distinção entre eles encontramos,  segundo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1975) as seguintes definições:  Autonomia:"a faculdade de se governar por si mesmo, (Ét.)  propriedade pela qual o homem pretende poder escolher as leis que regem sua conduta". Auto-suficiência:"denota a qualidade do ser que se basta a si mesmo."

O conceito de autonomia, em Gestalt-Terapia, não se confunde com o de auto suficiência. Isto seria um contra-senso em termos gestálticos e sistêmicos, já  que um ser auto-suficiente prescinde da relação, ou seja, da vida. É  justamente através da relação que o organismo se organiza. Esta organização  é o que a Gestalt-Terapia se refere como suporte. O indivíduo obtém seu auto suporte a partir de informações a seu respeito: fisiologia, postura, coordenação,  sensibilidade, sentidos, habilidade motora, habilidade para usar a linguagem,  pensamentos e sensações presentes (Latner, 1986).

Na prática o gestalt-terapeuta tem o papel de facilitar que o cliente possa  perceber (se conscientizar) de como está organizando a cada momento o seu  funcionamento, desta forma ampliando seu auto-suporte. Conscientizar-se  aqui tem o sentido de "awareness" (termo sem tradução em português),  entendida em Gestalt-Terapia como uma informação multidimensional (Gorenstin, 1992). O conceito de "awareness" é primordial na Gestalt-Terapia,  uma vez que é basicamente nela que se centra a possibilidade de contato do  indivíduo consigo mesmo e com o meio. " ... Awareness is the spontaneous  sensing of what arises in you - of what you are doing, feeling, planning..." (Perls, et alli, 1951, p.75).  

Uma vez que a "awareness" se dá, uma nova informação é acrescentada ao  sistema, ou seja, amplia-se a fronteira de contato e se estabelece uma nova  organização, que abre novas possibilidades para o processo contínuo  figura/fundo.  

O crescimento do cliente no "setting" psicoterápico se dá através da relação  com o terapeuta. Esta relação se estabelece entre dois sistemas, o Eu e o Tu  (Buber, 1974). Primordialmente para Buber a relação se dá no "entre" o Eu e o  Tu e coloca esta relação como dialógica, podendo ser entendida como um  encontro, uma relação essencial, um diálogo entre dois indivíduos que os  confirma enquanto seres singulares. Nas suas palavras:

"O Tu se apresenta ao Eu como sua condição de existência, já que não há Eu em si, independentemente, em outros termos o si mesmo não é substância mas relação. O Eu se torna Eu em virtude do Tu. Isto não significa que devo a ele meu lugar. Eu lhe devo a minha relação a ele. Ele é meu Tu somente na relação, pois, fora dela, ele não existe, assim como Eu não existo a não ser na relação". (Buber, 1974, p. XLIX).

Buber entende o homem enquanto uma totalidade ativa. Esta condição lhe  permite estar pronto para estabelecer uma relação dialógica, porém reforça que  ela se dá na reciprocidade entre o Eu e o Tu. Reciprocidade é entendida por  Buber como a responsabilidade, ou seja, a habilidade para emitir uma resposta  diante do convite para relação dialógica.

Para entender a relação Eu-Tu (experiência), há que se recorrer à definição de  relação Eu-Isso (utilização ou uso), que sucintamente pode ser colocada como  o reino da relação de manipulação e de coisificação de um dos pólos da  relação.  

"...o Eu de Eu-Isso usa a palavra para conhecer o mundo, para impor-se diante dele, ordená-lo, estruturá-lo, vencê-lo, transformá-lo." (Buber, 1974, p.LI.).

Dentro da visão fenomenológica da Gestalt-Terapia, pressupõe-se que o que  percebemos de um "cliente" é apenas um aspecto, ou uma forma de  expressão do fenômeno total, dentre outras que estão acontecendo quando  uma relação se estabelece. As limitações inerentes à condição humana não  permitem que o fenômeno seja percebido em sua plenitude. Reconhecendo  essa limitação, o terapeuta precisa ter o cuidado de verificar se sua percepção  é também a do cliente, em relação ao que ocorre naquele momento.  

Ainda dentro dessa visão, o terapeuta reconhece a presença de seus próprios  conteúdos internos na relação que estabelece com o cliente. A fim de se  relacionar com seu cliente enquanto indivíduo singular, o terapeuta busca  colocar "entre parênteses" seus conteúdos pessoais na tentativa de  estabelecer uma relação Eu-Tu (Buber) com o mesmo.  

Este movimento de colocar sua consciência "entre parênteses" é denominado  redução fenomenológica. Assim, cria-se um terreno fértil onde terapeuta e  cliente podem construir um espaço de crescimento e troca. Dessa forma,  afirma-se na Gestalt-Terapia a participação do observador no fenômeno  apreendido.

A abordagem gestáltica é experiencial e trabalha com o aqui e agora. Segundo  Polster (1979), o passado e o futuro são encarados como um fundo que  sustenta o presente. As experiências passadas e as expectativas futuras  influenciam a experiência presente, provocando tensões, trazendo lembranças  e delineando uma figura. Contudo, é no presente que esta figura está se  manifestando e é no aqui e agora que existe a possibilidade de experienciar o  seu significado no fundo atual e de facilitar a mudança.

"... A totalidade emerge através do reconhecimento, da intensificação e do foco contínuo, até que a descarga motora - que está disponível somente no presente - afinal libera a pessoa de viver no passado morto". (Polster, 1979, p.27).

Assim, na Gestalt-Terapia, a relação terapêutica é um fenômeno experimentado pelo terapeuta e pelo cliente naquele momento, pertencendo a essa área de interseção (fronteira) entre os dois sistemas que se auto-regulam  mutuamente.  

Dentro do método experiencial adotado pela Gestalt-Terapia, o experimento  ocupa um lugar de destaque. Foram criadas, adaptadas e desenvolvidas  várias técnicas dentro da abordagem, com o intuito de facilitar que o cliente  experiencie seu funcionamento presente. Cabe ressaltar porém que o  experimento só faz sentido na Gestalt-Terapia enquanto proposta de ampliação  da fronteira de contato do cliente, numa tentativa de facilitar o seu  desenvolvimento em todas as suas potencialidades. Assim, pode-se dizer que  a própria relação terapêutica é um experimento em si.

"Acredito que a "awareness" na relação terapêutica é importante para um bom andamento na terapia. Somos seres relacionais, e é apenas nas relações que conseguimos realmente alguma mudança afetiva e é também nas relações que construímos nossas doenças." (Ribeiro, M., p.32, 1991).

Nesse contexto, o terapeuta pode ser diretivo, respeitando a autonomia do  cliente. O papel ativo só existe porque há espaço para o cliente também ser  autônomo. O gestalt-terapeuta não tem uma forma de organização pré determinada à qual o cliente deve chegar. Na Gestalt-Terapia não existe um  "experimento que não deu certo". Toda e qualquer forma de expressão e  organização que o cliente assumir é igualmente legitimada e sustentada pela  relação terapêutica.

Conforme o princípio sistêmico da eqüifinalidade, o indivíduo (sistema) se auto organiza autonomamente, sob as mais variadas formas, tendendo a se manter  dentro de sua faixa de homeostase. A proposta de relação terapêutica da  Gestalt-Terapia também está de acordo com a visão sistêmica de homem, uma  vez que terapeuta e cliente são entendidos como indivíduos ativos, autônomos  e responsáveis pela relação que entre eles se estabelece.  

Esta crença permite ao terapeuta aceitar e acompanhar qualquer forma de  organização e funcionamento que o cliente venha a apresentar ao longo do  processo terapêutico, reconhecendo no cliente a condição de autor de sua  história. O terapeuta tem uma atitude de disponibilidade e acolhimento que  traduzem seu respeito pelo outro (cliente) que se apresenta a ele.

A clareza na definição dos papéis do terapeuta e do cliente é fundamental para  o desdobramento do trabalho. Clareza não significa rigidez para negociação,  porém reconhecimento dos limites que perpassam todas as relações humanas,  constituindo-se numa oportunidade de ambos experimentarem novas  possibilidades de relacionamento num "setting seguro".

Quando estas condições se reúnem, na relação terapêutica, podemos "tocar"  e "ser tocados" por alguém com quem empatizamos e em quem confiamos.  Neste contexto, podemos nos aproximar e mostrar os aspectos mais  desprezados por nós mesmos e, ainda assim, sentir-nos aceitos e respeitados  em nossa humanidade, podendo integrar partes escotomizadas do nosso ser,  através da reorganização e utilização do potencial humano.

Através da relação terapêutica, o cliente tem a possibilidade de experimentar  uma nova forma de se relacionar. Neste contexto, pode dar-se conta dos  mecanismos através dos quais ele se impede de perceber a configuração do  campo em que está inserido. Portanto, tem a oportunidade de escolher se quer  modificá-los ou não. Acreditamos, enquanto gestalt-terapeutas, que a partir  dessa experiência, o cliente poderá explorar e expandir seu potencial, escolher  e criar formas de se relacionar consigo próprio e com o mundo de uma maneira  mais real e plena.  

Capítulo V – Nossa experiência, nossa evolução

Até este momento fizemos todo um percurso teórico o qual consideramos  fundamental para verificar o que inicialmente, nos parecia possível: a existência  de uma proximidade entre a proposta de relação terapêutica da Abordagem de  Terapia Familiar Sistêmica Construtivista e da Gestalt-Terapia.  

Até o início de nossos estudos para esta monografia, passamos um ano  atendendo famílias no curso de Especialização em Terapia Familiar Sistêmica  desta instituição. Com base nessa experiência teceremos algumas  considerações que se restringirão à relação terapêutica, foco desta monografia.  

Sentíamos falta de uma maior clareza do que nos norteava quando estávamos  com cada uma das famílias no "setting" terapêutico. O que nos fazia seguir  determinado caminho e não outro? O que nos levava a fazer determinadas  perguntas e não outras? O que nos fazia escolher determinadas técnicas?

Ao nos aprofundarmos mais nos pressupostos básicos de cada uma das  abordagens citadas acima, percebemos que a propostas de relação terapêutica  em ambas é muito semelhante. A intenção desta monografia não é verificar  uma total equivalência teórica entre elas, e sim enfocar a relação terapêutica  segundo a proposta de cada uma.

Durante o curso pudemos experimentar dois momentos bem marcantes. Um  foi durante o primeiro ano e meio, quando tanto a teoria estudada, quanto  nossa prática de Terapia Familiar Sistêmica baseavam-se em autores da  primeira e da segunda cibernéticas de primeira ordem. As supervisões  centravam-se basicamente nas descrições das sessões trazidas pelas  terapeutas.  

No último semestre do curso tivemos a oportunidade de conhecer o  Construtivismo, dentro de uma perspectiva de cibernética de segunda ordem.  Tínhamos a sensação de estar entrando em outro mundo de pensamento,  outra forma de trabalhar totalmente diferente em termos de Terapia Familiar.  

Pensar de forma construtivista foi experienciado como um trabalho em cima da  relação estabelecida no sistema terapêutico, formado pelo subsistema  terapêutico e o subsistema familiar, e não no andamento do "caso" em si. A  partir de então passamos a viver na equipe um momento de transição  epistemológica. Os atendimentos ainda eram relatados pelas co-terapeutas e  a supervisão dos mesmos, pela equipe, agora se dava na forma do "Reflecting  Team", o qual foi descrito no Capítulo III.

Neste contexto tornou-se possível sermos trabalhadas como terapeutas e  também como pessoas em supervisão, de maneira menos ameaçadora e mais  profunda. Facilitava-se assim a reflexão a respeito do fenômeno dado na  supervisão, que era utilizado como mais um recurso para o qual o subsistema  terapêutico despertava.  

Para falar de nossa experiência no curso de Terapia de Família é fundamental  lembrar que esta se desenvolveu no contexto do Instituto de Psiquiatria da  Universidade Federal do Rio de Janeiro, durante dois anos (Março, 1992 - Março, 1994). Apesar deste aspecto não ser o cerne de nossa monografia,  não podem passar desapercebidas as características da instituição e a  especificidade da clientela que atendemos, além da forma como fomos  afetadas por elas enquanto pessoas e profissionais.  

No Instituto de Psiquiatria desta instituição, durante este período, convivemos  com os diferentes discursos dos profissionais de saúde dos setores com os  quais trabalhamos: Enfermaria, Centro de Integração Psicossocial  (anteriormente denominado Hospital-dia) e o Infanto-juvenil.  

Tivemos assim a oportunidade de exercitar uma escuta e uma expressão que  possibilitassem a troca entre os profissionais de diferentes áreas que ali se  encontravam, como por exemplo, terapeutas de família, médicos, assistentes  sociais, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psicólogos e demais  funcionários da instituição.  

A clientela é basicamente composta por famílias com pelo menos um paciente  considerado psiquiátrico. Neste contexto mais uma vez percebemos a igual  importância do desenvolvimento pessoal e técnico dos que se propõem a  trabalhar com pessoas que apresentem esse tipo de característica.

No decorrer do curso atendemos várias famílias, sempre em co-terapia,  conforme nos era orientado. Tivemos, então, a oportunidade de formar  diferentes duplas terapêuticas. Em cada dupla pudemos perceber que  atuávamos de formas diferentes. Nesta monografia nos deteremos apenas às  observações de atendimentos realizados em co-terapia pelas duas autoras.

Considerar a nossa relação, bem como a relação estabelecida entre nós e a  família é fundamental para o nosso entendimento sistêmico do fenômeno que  se apresenta e do qual natural e inevitavelmente fazemos parte.

Desta forma, optamos por formar uma dupla terapêutica, por nos conhecermos,  ao menos superficialmente, em função de termos cursado a mesma  universidade e por termos o mesmo embasamento teórico em Gestalt-Terapia.  

Com o transcorrer do curso surgiram situações durante os atendimentos,  discussões dos mesmos e supervisões que nos permitiram uma aproximação  pessoal e profissional muito maior. Houve momentos em que até nos  percebíamos "respirando juntas" e momentos em que parecia que não  estávamos na mesma sessão.  

Á medida em que nos tornamos mais próximas, pudemos compartilhar algumas  de nossas características (dificuldades e virtudes), e nossa relação tornou-se mais fluida. Este movimento incluiu fazermos descobertas a respeito de  nossas próprias famílias de origem e compartilhá-las, não como justificativa  para nossas dificuldades, mas como forma de facilitar a construção de uma  relação de complementaridade e de cumplicidade no "setting" terapêutico.  

Esta relação nos deu também suporte para termos maior flexibilidade nos  atendimentos às famílias, bem como para questionar constantemente nossa  própria prática. Desta relação de co-terapia ficou o gosto pelo exercício  constante de confiança, verificação e confirmação do co-terapeuta.

Experienciávamos em nossa relação de co-terapia, bem como na relação que  estabelecíamos com o subsistema familiar, diferentes níveis de auto-regulação,  de acordo com o nosso nível de organização interna. Observamos que, em  determinados momentos, tendíamos a funcionar de maneira mais rígida com as  famílias. Essas ocasiões muitas vezes "coincidiram" com momentos de  insegurança ou desconforto nossos e/ou da família. Percebia-se congruência  entre o fenômeno dado naquele momento e as diferentes relações que  emergiam no sistema terapêutico.  

A nosso ver ocorreu uma evolução em nosso trabalho em co-terapia no  decorrer do curso. Atendemos três famílias distintas às quais nos referiremos  aqui como família A, família B e família C.  

Os primeiros contatos com a família A se deram durante o quarto mês de  nosso curso. No transcorrer deste processo terapêutico, fomos percebendo  que ainda não nos sentíamos integrantes da equipe de terapia familiar, e nem  suficientemente seguras para atender a clientela da instituição dentro da  abordagem sistêmica.

O atendimento das famílias B e C foi iniciado alguns meses após o primeiro  contato com a família A. No decorrer do processo terapêutico estabelecido  com a família B começamos a perceber como era importante, para nós e para  o andamento do tratamento, a forma como se estabelecia a relação no sistema  terapêutico.  

Ao longo do processo terapêutico com a família C tivemos a oportunidade de  iniciar o estudo da Abordagem Sistêmica Construtivista de Terapia Familiar. A  partir de então passamos a viver a transição epistemológica, anteriormente  citada no presente capítulo, dentro e fora das sessões.

Com cada uma das famílias citadas estabelecemos relações e expectativas  diferentes. Não pretendemos aqui fazer um estudo detalhado de cada uma  delas. Procuraremos ressaltar apenas situações e sentimentos em relação às  famílias que consideramos importantes no decorrer dos atendimentos e nos  restringiremos ao tema desta monografia: a relação estabelecida no sistema  terapêutico.

A primeira família que atendemos juntas foi a família A. Era composta por pai  (PA.), mãe (MA.), filho (FA1) e mais quatro irmãos. Só compareciam às  sessões PA., MA. e FA1, os demais irmãos nunca compareceram e nem  pareciam ter interesse em fazê-lo, apesar de nossos convites.  

A família foi indicada para o Setor de Família pela equipe do Centro de  Integração Psicossocial, então denominado Hospital-dia, desta instituição. A  equipe do Hospital-dia considerou que FA1, o qual tinha o diagnóstico de  esquizofrênico, havia obtido muitos ganhos individuais em seu tratamento  naquele Setor, mas que sua família permanecia sempre distante daquele  processo. Os profissionais do Hospital-dia consideraram que esta atitude da  família não só não o ajudava a progredir, como também o atrapalhava em seu  tratamento.  

Na época, era bastante constante que FA1 passasse bem durante toda a  semana e nos finais de semana, quando não havia atividades no Hospital-dia,  ele entrasse em "crise". A equipe do Hospital-dia considerou obrigatório que a  família participasse mais do tratamento a partir de então e o caminho  determinado foi a Terapia de Família. A permanência de FA1 no então  denominado Hospital-dia foi vinculada ao comparecimento da família às  sessões de terapia familiar.

Desde o início do tratamento percebemos que não seria fácil nos  aproximarmos da família. Logo nos primeiros contatos telefônicos notava-se  que a família não estava motivada para se envolver no tratamento.  

O clima nas sessões era agressivo e nos sentíamos intimidadas pelo  subsistema familiar. Apesar de estarmos percebendo que o subsistema  terapêutico e o subsistema familiar estavam distanciados, parecia-nos  impossível modificar aquele contexto sozinhas.  

A situação ficou cristalizada sem haver modificação na relação estabelecida no  sistema terapêutico. A família faltava muito, chegava atrasada e nos  percebíamos sem disponibilidade interna para investir mais nesse atendimento.  Apesar da proposta ser de atendimento quinzenal, durante esse período só  conseguimos estar com eles por 13 (treze) sessões. O sentimento presente  para nós era o de estarmos constantemente "remando contra a maré".  

Apesar de procurarmos discutir com a equipe, a partir de nossa descrição do  que acontecia em cada sessão, não conseguíamos vislumbrar outras formas  de estar com a família que não fosse nos sentindo acuadas, agredidas ou  desqualificadas. No início do processo, juntamente com a equipe do Hospital

dia e do Setor de Terapia Familiar, tínhamos metas traçadas a alcançar com a  família. Percebíamos a família sem flexibilidade nas relações entre seus  membros e acreditávamos que PA precisava estar mais próximo do filho.  Tínhamos um modelo de família rígido e precisávamos encaixar esta família no  mesmo.  

Parecia-nos impossível aceitar a idéia de que a família optava por permanecer  naquela situação e qualquer alteração nos padrões era demasiadamente  ameaçadora tanto para a família quanto para as terapeutas. Necessitamos da  presença de nossa supervisora para que fosse possível a suspensão formal do  atendimento, um ano após seu início, já que de outra forma nos parecia  impossível. Após o encerramento do atendimento familiar, o então  denominado Hospital-dia, repensou sua posição inicial com respeito ao  tratamento de FA1 ser vinculado à terapia familiar.

Sem disponibilidade do sistema terapêutico a relação não fluía, isto é, não  acontecia terapia. De forma geral, podemos concluir que a família e as  terapeutas sentiam-se acuadas. Aprendemos com esta experiência a  importância da disponibilidade da família para a mudança e das terapeutas  para percorrer junto com a mesma esse caminho.  

A segunda família que atendemos juntas foi a família B. A família era composta  por pai (PB.), mãe (MB.) e duas filhas adolescentes FB1 e FB2. Esta família foi  encaminhada para o Setor de Terapia Familiar pelo neurologista que  acompanhava o tratamento de FB1, a qual tinha o diagnóstico de epilepsia. As  crises de FB1 eram praticamente diárias e esta já havia feito vários  tratamentos, porém não havia ainda conseguido controlar sua epilepsia. O  neurologista considerava que suas crises poderiam ter um componente  emocional.  

O processo terapêutico teve a duração de seis (seis) meses e foi interrompido  em função da total incompatibilidade de horário existente entre a família e as  terapeutas. PB. foi transferido para um local de trabalho mais distante, o que  tornava inviável sua vinda para as sessões antes do expediente, como era de  costume. Paralelamente FB1 e FB2 passaram a estudar em turnos diferentes  em função do que era oferecido pela escola onde estudavam. Naquele  momento o único horário possível para a realização das sessões era às 19  horas, o que portanto estava fora da disponibilidade do Setor de Família desta  instituição.  

No início deste processo terapêutico, nos chamavam a atenção determinadas  características do sistema terapêutico, que acreditamos terem influenciado a  relação terapêutica estabelecida. Sentíamo-nos de alguma forma próximas  dos acontecimentos e sentimentos expressos pelo subsistema familiar.

A família encontrava-se numa fase do ciclo vital que podemos denominar de  etapa de casal com filhos adolescentes e trazia questões relacionadas à  mesma. Nós havíamos passado pela transição desta fase do ciclo, enquanto  filhas, recentemente, e ainda vivíamos paralelamente a passagem de nossos  irmãos pela mesma. Outra característica que consideramos importante  ressaltar desta relação terapêutica é a semelhança de algumas formas de  estabelecimento de relações nos subsistemas desta família com as formas que  vivenciamos em nossas próprias famílias de origem.

Aprendemos com este atendimento, entre outras coisas, a exercitar nossa  capacidade de estar atentas para o que nos é familiar e a colocá-lo "entre  parênteses". Esse exercício nos facilitou ficar livres e abertas para o  estabelecimento de novas formas de auto-regulação.  

Constatamos também o quanto nossa percepção da extensão de nossa  influência no processo pode ser limitada. No Natal de 1993, 9 (nove) meses  após a interrupção do atendimento, a família, através de MB., entrou em  contato conosco. Sinalizou que continuavam em um processo de mudança e  que, de certa forma, apesar de não estarmos tendo um contato direto com a  família, ainda fazíamos parte do mesmo.

Compreendemos que a vivência da relação estabelecida no sistema  terapêutico propiciou mudanças no subsistema familiar (ampliação de um ponto  de flutuação na evolução do sistema). Citaremos um movimento básico  percebido na sessão para expressar essa idéia.  

Inicialmente percebemos cada uma de nós se relacionando com mais  intensidade com subsistemas diferentes, dentro do subsistema familiar, o que  não dificultava nossa interação, enquanto subsistema terapêutico. Ao passo  que uma empatizava mais com o subsistema parental, a outra o fazia com o  subsistema fraternal. A partir da diferença de empatia existente e sua  conseqüente expressão nas relações estabelecidas, pudemos oferecer uma  opção de respeito e convivência com a diferença através da relação do  subsistema terapêutico. Este processo permitiu ao subsistema familiar  experimentar e escolher novas formas de auto-regulação com um maior grau  de autonomia também após a interrupção formal do mesmo.

A terceira família que atendemos juntas foi à família C. Esta era composta por  um casal separado, pai (PC.), mãe (MC.) e dois filhos adolescentes, um rapaz  (FC1) e um moça (FC2).  

MC. Procurou o Setor Infanto-Juvenil desta instituição em função do distúrbio  de conduta apresentado por FC1. Este Setor a orientou a inscrever sua família  no Setor de Família.

A família foi atendida por aproximadamente 16 (dezesseis) meses. Passou por  fases de atendimento semanal, quinzenal e mensal de acordo com o momento  do processo em que o sistema terapêutico se encontrava.

Ao longo desse processo tomamos efetivo contato com a Abordagem  Sistêmica Construtivista de Terapia Familiar, conforme descrito anteriormente.  Experimentamos, então, trabalhar nessa nova esfera, principalmente em  termos das supervisões relativas a este atendimento.

Durante as sessões, nos percebíamos exercitando a atualização constante de  nossa percepção do sistema terapêutico. Conforme mudava nossa percepção  da dificuldade mais pregnante do subsistema familiar, se modificava também  nossa forma de nos relacionarmos com o mesmo. Variamos nossa forma de  encarar e de nos referir a ele no decorrer do processo.  

No primeiro contato nos pareceu estar diante de uma família de pais separados  com filhos adolescentes e, ao longo do processo, esta passou a ser entendida  por nós através de várias outras "definições", como por exemplo: "família com  filho agressivo", "família em que a separação é ambígua", "família com mãe  com transtorno afetivo bi-polar", "família com filhos que cuidam dos pais",  "família com rigidez de papéis", "família com filha suicida", "família com  autonomia sobre seu processo de reorganização".  

Uma característica deste processo terapêutico foi a circularidade da posição de  "problema da família", como se pode perceber através das diferentes  "definições" que demos ao subsistema familiar. Entendíamos o membro do  subsistema familiar que ocupava esta posição como alguém que possuía uma  determinada característica, que afetava e era afetado pelo sistema terapêutico  de alguma maneira, naquele momento. Acreditamos que esta postura adotada pelo subsistema terapêutico foi importante para o desenrolar deste processo.  Esta postura trazia uma nova versão do problema para o sistema terapêutico  dentro da proposta construtivista.  

Neste contexto, podemos perceber que nossa postura de respeito e  confirmação das particularidades de cada um facilitou o surgimento de novas  formas de organização para o mesmo. Estas particularidades eram entendidas  por nós como construções do próprio sistema. Aprendemos com esta  experiência que o respeito pelo que é trazido pelo subsistema familiar, com um  objetivo terapêutico, sem um modelo a priori por parte do subsistema  terapêutico, é fundamental para o processo de ganho de autonomia do  subsistema familiar.

Outra característica percebida por nós neste processo, foi nossa  disponibilidade para atender esta família. Igualmente a mesma mostrava-se  empenhada em comparecer às sessões, apesar das eventuais dificuldades que  enfrentavam - horários de trabalho e escola, crises de MC., etc. Isto se tornou  evidente pela mobilização que havia de ambas as partes para o atendimento  nos horários e freqüências mais variados, dentro do que era oferecido pela  instituição, ao longo do processo psicoterápico.

Este movimento do sistema terapêutico refletiu a motivação e a abertura que  havia, tanto por parte do subsistema familiar, quanto do subsistema  terapêutico, no sentido de se engajar na relação. Isto possibilitou ao sistema  terapêutico uma base sólida sobre a qual se desenvolveu um espaço para  vivenciar e refletir a respeito do fenômeno que era mais pregnante, a cada  momento.  

Esta experiência nos permitiu confirmar, na prática, a crença de que algum  nível de motivação se faz necessário para criar um contexto onde o processo  psicoterápico possa acontecer. Em termos sistêmicos podemos concluir que  dois subsistemas precisam encontrar uma faixa comum de troca informacional  para que a auto-regulação mútua possa acontecer.  

Outra característica marcante desse processo psicoterápico foi a constatação  da mudança enquanto um processo contínuo ao qual nem sempre estamos  atentos. Ao longo de 16 (dezesseis) meses de trabalho observamos mudanças  no sistema, que nos pareciam a princípio pequenas. Por vezes tínhamos a  impressão de que o sistema terapêutico estava estagnado ou até regredido.  Assim, pudemos confirmar que a evolução não é um processo  necessariamente linear.  

Paralelamente à nossa evolução citada acima, o subsistema familiar também  se modificou, o que se expressou diferentemente com cada um de seus  membros.

Na fase final do processo psicoterápico, FC2 pôde escolher experimentar  ocupar um lugar de filha, que precisava ser cuidada e sentir-se amada.  Entendemos que para tal ela se fez valer de diferentes recursos dentro do  contexto em que se encontrava naquele momento, como por exemplo pedir  uma sessão individual a nós quando da morte de seu avô (de quem gostava  muito); pedir explicitamente carinho aos pais; faltar à escola; tentar se suicidar, porém desistindo no meio do caminho e faltar às duas sessões anteriores ao  fechamento.  

Entendemos que, dentro do processo vivido, suas faltas às sessões  expressavam que ela deixava de se responsabilizar pelos compromissos da  família como costumava fazer no início do processo psicoterápico. Na última  sessão, FC2 esclareceu que havia faltado por achar que estava passando por  um momento difícil que não gostaria de compartilhar com o sistema  terapêutico. Disse que estava sentindo necessidade de um espaço próprio e  que já havia iniciado um processo psicoterápico individual.

MC. sofria de transtorno afetivo bi-polar, fato que nos havia passado  desapercebido até que a mesma o trouxe claramente nos primeiros  atendimentos. Chamou-nos a atenção esta constatação. Neste contexto, dois  pontos tornaram-se claros a respeito do subsistema terapêutico.  

O primeiro foi a nossa dificuldade em lidar com a doença mental, evidenciada  pelo próprio fato de nem suspeitarmos de que ela estava diante de nós.  Pensando sistemicamente é importante salientar que o subsistema familiar não  trazia essa questão como o problema naquele momento. No entanto, isto  serviu para nos aprofundarmos em reflexões e trabalhos internos em torno  desta questão.  

O segundo ponto que se evidenciou foi a possibilidade de encarar a diferença,  isto é a doença mental, como mais uma característica daquela pessoa, não  como um rótulo que a define. Durante o processo terapêutico MC. passou por  momentos de crise, em que sua medicação foi reavaliada, modificada e foi  intensificado seu acompanhamento psiquiátrico. No entanto não houve  necessidade de recorrer à internação naquele período, conforme acontecia  pelo menos uma vez por ano até o início da Terapia Familiar.  

Na fase inicial do processo, perceber que MC. era diferente não significou que  teríamos essa questão como meta de trabalho terapêutico, na medida em que  isto não era trazido pelo subsistema familiar como um problema, naquele  momento. Com o desenrolar do processo terapêutico, o próprio subsistema  familiar trouxe esta questão como problema e nessa oportunidade o sistema  terapêutico pôde trabalhá-lo.

Na sessão de fechamento do processo psicoterápico, MC., através de  presentes às terapeutas, mostrou sua perspectiva do processo de mudança.  MC. fez questão de nos dar presentes e cartões individualizados, dizendo que  éramos diferentes e que havíamos lhe transmitido coisas distintas (sic). Ao  mesmo tempo em que fazia questão de nos distinguir enquanto pessoas  diferentes, em termos do subsistema familiar, manteve-se como uma porta-voz,  assinando por todos os cartões que ela própria nos escreveu.

Na mesma sessão, PC. nos transmitiu, através dos cartões de Natal entregues  a nós, seu sentimento ao final desta experiência. Os dois cartões eram iguais  e continham a mesma mensagem: "Nossa amizade vai até debaixo d'água!  Nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos" (sic). Fica nítida em suas  palavras uma modificação de sua perspectiva inicial de que os problemas de  sua família eram individualizados para um entendimento relacional da mesma.

Por sua vez, FC1 pôde constatar que não ocupava mais o lugar cativo de ser "o  problema da família", deixando em aberto a possibilidade de voltar a sê-lo (sic).  Essa fala nos remeteu à idéia de que a flexibilidade que anteriormente não era  explorada pelo subsistema familiar, estava começando a ser experimentada, ou  seja uma nova versão da história estava surgindo.

Paralelamente ao processo da família, não podemos perder de vista nosso  percurso como profissionais em formação. Conforme dissemos anteriormente,  percebemos uma evolução em nossa forma de nos relacionarmos com as  famílias. No contexto desta família esta evolução se torna nítida. Hoje nos  damos conta de que, durante o primeiro ano do processo psicoterápico com a  mesma, faltavam-nos respeito pela organização que estava diante de nós e  uma escuta curiosa sobre as relações ali estabelecidas. Inicialmente  trabalhávamos pensando em metas e objetivos concretos a alcançar com a  família, como por exemplo, transformá-la numa família onde pais separados se  separassem de fato, os filhos crescessem para seguir seu caminho de  autonomia crescente e as crises de MC. pudessem ser administradas de uma  forma mais tranqüila. Neste percurso assumíamos um papel de agente  organizador, coordenávamos os diálogos estabelecidos nas sessões e  procurávamos fortalecer as fronteiras entre os subsistemas.  

Ao começarmos a estudar a Terapia Familiar Sistêmica Construtivista,  verificamos uma mudança em nossa postura profissional, o que se refletiu em  nossa relação com esta família. Conhecemos uma nova forma de estar com o  subsistema familiar, a qual mostrava-se mais coerente com o que  acreditávamos em termos de relação terapêutica. Passamos a abrir mão de  objetivos pré-determinados, para priorizar a construção de um espaço de  respeito e troca, onde as diversas vozes do sistema terapêutico pudessem ser  ouvidas.  

Como exemplo de nossa nova postura de relação, podemos citar o momento  vivido pelo sistema terapêutico em que FC2 tentou cometer suicídio. Pudemos  entender esse movimento como uma voz no sistema terapêutico e responder a  ela sem negar nossos valores pessoais com relação à vida. Acreditamos  sistemicamente que nessa ocasião o sistema terapêutico funcionou em um  nível de auto-regulação mais estreito em função de uma menor organização  transitória.

Ao final deste Capítulo, após trilharmos sucintamente nossos dois anos de  curso de Especialização em Terapia Familiar, fica-nos a certeza de que  estamos em processo de mudança. Este nosso processo implica em trabalho  árduo, questionamento constante, repensar nossa prática e postura  terapêuticas, lidar com impasses, respeitar limites, reconhecer características,  apurar nossa escuta e, além disso, o que ainda temos por descobrir. Ser  terapeuta, para nós, é aceitar o desafio desse processo para o resto de nossas  vidas. 

Capítulo VI – Considerações Finais

Após estudar os pressupostos básicos da Terapia Familiar Sistêmica  Construtivista e da Gestalt-Terapia e de compartilharmos nossa experiência,  traçaremos alguns comentários sobre o que pudemos apreender e observar.

Nossa preocupação no transcorrer desta monografia foi verificar se nossa  postura, enquanto terapeuta, seria coerente ao abraçarmos estas duas  abordagens de trabalho psicoterápico, tendo como foco a relação terapêutica.  

Dentre os pontos que nos chamaram a atenção, encontra-se a forma de  percepção da realidade presente nas duas abordagens. Acreditamos que esse  ponto é fundamental, no sentido de que a forma como se percebe o mundo  reflete a relação que se estabelece com o mesmo e vice-versa. Ao nos  aprofundarmos nestas duas abordagens constatamos que estão no mesmo  campo epistemológico, no que se refere à construção da realidade, o que  poderá mostrar uma coerência entre as propostas de relação. De acordo com  a concepção de Maturana, a percepção da realidade é um evento que inclui  necessariamente, tanto a realidade observada, quanto o observador que a  percebe. Assim, a noção de "multiversa" abarca a interação a nível individual,  bem como a ecologia de interações de um dado sistema. Ele propõe um  mundo de sistemas observantes, compartilhado e construído tanto pelo  observador quanto pelo observado.  

Desta forma Maturana participa da mesma característica epistemológica que já  tinha tradição na Psicologia desde as primeiras décadas deste século  (Psicologia da Gestalt, Teoria Organísmica e Teoria de Campo). Esta tradição,  que se reflete no entendimento relacional do mundo, também influenciou outras  áreas de conhecimento. Dentro desta perspectiva não existe um mundo "lá  fora", sem observador. Esta questão epistemológica está presente na Terapia  Familiar Sistêmica Construtivista e nos primeiros modelos sistêmicos na  Psicologia, e como já mencionamos no Capítulo IV, a Gestalt-terapia é herdeira  destes primeiros modelos sistêmicos.  

Segundo a Gestalt-Terapia, conforme o aporte teórico da Psicologia da Gestalt,  a percepção de configurações se dá através da interação entre o homem e o  meio. O ato de perceber é entendido como a forma através da qual o homem  organiza seu mundo, delimitando figura e fundo.  

Em termos sistêmicos poderíamos dizer que o mundo é um mar de caos e a  vida é uma ilha de organização (negentropia) que sobrevive, se desenvolve e  evolui segundo suas próprias leis, em interação com o meio entrópico. A  noção de "multiversa" de que Maturana fala corresponde na Gestalt-Terapia ao  processo contínuo de formação figura/fundo, que é singular para cada indivíduo  e em cada momento. Esta noção de "multiversa" está em consonância  também com o entendimento da Gestalt-Terapia de que a configuração  presente no sistema a cada momento é sempre a melhor possível para o  mesmo.  

Na abordagem Construtivista a noção de "multiversa" de Maturana se reflete na  concepção da relação terapêutica enquanto uma relação de eqüidade e de  interdependência. Já na Gestalt-Terapia, os participantes da relação Eu-Tu (Buber) ocupam lugares diferenciados na relação terapêutica e se confirmam  mutuamente sem que a percepção de um desqualifique ou se sobreponha à do  outro.  

Lembrando do entendimento do que Buber denominava, Eu-Tu (Capítulo IV),  há que se recorrer a sua definição de relação Eu-Isso (Capítulo IV). Nesse  sentido, através da contribuição de Buber para a Gestalt-Terapia, há sempre a  intenção de alcançar uma relação Eu-Tu, que se denota pelo caráter dialógico,  no sentido de se evitar uma hegemonia desumanizada, no modelo da relação  Eu-Isso.

Ambas as abordagens propõem um modelo de relação terapêutica dialógica,  onde é enfatizada a auto-regulação mútua dos dois subsistemas em interação.  Experimentamos uma relação dialógica, quando, para dar sentido a um  determinado movimento do subsistema familiar, buscamos a compreensão de  nossos próprios sentimentos e impressões relacionadas a esse mesmo  movimento.

Lynn Hoffman, uma das expoentes da Terapia Familiar Sistêmica  Construtivista, cita como parte importante de seu trabalho a ênfase dada à "voz  diferente". Neste contexto surge a oportunidade dos diferentes membros do  sistema terapêutico se colocarem e com isso possibilita o surgimento de novas  versões para uma mesma questão.  

Esta forma de trabalhar mostra-se congruente com os pressupostos da Gestalt Terapia. Ouvir todos os membros da família pode ser entendido como um ato  de confirmação existencial e respeito pela auto-regulação organísmica do  sistema e pela sua percepção do mundo. O sistema, enquanto gestalt, se  organiza da melhor maneira possível no aqui e agora. O surgimento de novas  versões de uma questão equivale, em termos da Gestalt-Terapia, à  possibilidade de explorar as potencialidades do ser humano/sistema.  

Continuamos buscando uma postura de curiosidade, respeito e confirmação  existencial, quando procuramos colocar nossas percepções e versões do  momento que compartilhamos com o subsistema familiar. Tentamos também  permanecer abertas para as novas configurações emergentes. Em nosso  trabalho psicoterápico constatamos que, em muitos momentos, isso não é  possível, porém consideramos importante ter em mente esta meta para  estarmos coerentes com a proposta de relação terapêutica em que  acreditamos.

Os autores construtivistas afirmam que para atender à família, ou ao sistema  determinado por um problema, não é necessário ao terapeuta eximir-se de  seus saberes e valores. A posição de neutralidade é reconhecida como  impossível. O terapeuta construtivista admite que percebe a família  necessariamente a partir de seu referencial pessoal e profissional e, tendo  consciência disto, torna-se apto para observar e ser observado neste processo.  

Da mesma forma, o gestalt-terapeuta se faz presente como pessoa no  atendimento, consciente de si mesmo e da forma como a relação se estabelece  (redução fenomenológica). O terapeuta que trabalha de acordo com esta  abordagem busca colocar seus conteúdos "entre parênteses" e estar disponível  para o encontro existencial com seu cliente. Entendendo que "entre parênteses" não é uma negação da experiência existencial, mas uma reserva  para alcançar outros patamares para o encontro e possibilidade de  conhecimento.

O gestalt-terapeuta usa, neste movimento, a si mesmo como instrumento e se  vale de seu papel na relação terapêutica como caminho de exploração e  conhecimento do fenômeno que vive com seu cliente.

Nas sessões, nos percebíamos usando a nós mesmas como nosso próprio  instrumento, quando trocávamos sentimentos e impressões entre nós e, por  vezes chegando a colocá-los para o subsistema familiar, com o intuito de  compreender a totalidade do fenômeno que vivíamos naquele momento.  

Na abordagem construtivista, a criação de novas versões para o problema ou  para a história da família é uma forma básica de trabalho que facilita a  mudança. Estas novas versões são geradas pelo próprio subsistema familiar a  partir de informações que haviam ficado à margem, ou que não eram  percebidas.  

Lembrando que o ciclo de contato na Gestalt-Terapia é informacional (Capítulo  IV), torna-se claro que o processo terapêutico se dá através do acréscimo de  informações. Este movimento de inclusão de novas informações e modificação  da configuração do sistema é o que em Gestalt-Terapia se entende por  ampliação da fronteira de contato e recuperação da flexibilidade do processo  figura/fundo.  

Ao procurar o Setor de Família desta instituição, o subsistema familiar trazia  sua história. Em nosso movimento de compreendê-la, mantínhamos uma  postura de curiosidade e respeito. Em muitos momentos, a partir desse  movimento do subsistema terapêutico, eram (re)descobertas informações que  possibilitavam o surgimento de uma nova configuração para o sistema  terapêutico.  

À medida em que o sistema terapêutico se deparava com uma nova versão de  sua realidade, construía formas de lidar com ela. Para isso, tornava-se  necessário exercitar sua flexibilidade e criatividade, isto é, a autonomia sobre o  seu próprio processo.

Ao finalizar este trabalho ficamos com a sensação de que ainda nos resta um  longo percurso a trilhar. Fica-nos também a clareza de não sermos gestalt terapeutas de família, nem terapeutas construtivistas individuais. Sentimo-nos  felizes por havermos confirmado a hipótese inicial suscitada experiencialmente  de que a relação terapêutica na Gestalt-Terapia e na Terapia Familiar  Sistêmica Construtivista são coerentes.  

Nossa motivação inicial nos abriu um campo fértil de possibilidades de  crescimento profissional e, ao final desta monografia, fica confirmada uma  identidade enquanto terapeutas sistêmicas. Esta se reflete na postura de  respeito e curiosidade quanto às interações que se estabelecem no sistema  terapêutico, na disponibilidade para estar na sessão, presentes enquanto  indivíduos autônomos, na busca de flexibilidade e clareza para poder lançar  mão dos recursos tecnicamente mais adequados para cada contexto  psicoterápico.

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Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526