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ARTIGO

O que é Psicoterapia Estratégica?

E sua inserção no Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) da UERJ.

Celso Lugão da Veiga.

Psicólogo especializado em clínica e hospitalar / Supervisor em psicoterapia  estratégica do SPA da UERJ / Professor de psicologia (UERJ).

ABSTRACT

What it is Strategical Psycotherapy? The history of the strategical psycotherapy  sends to the names of Milton Erickson, Gregory Bateson (the Bateson Project,  of 1952), Don Jackson and Mental Research Institute, established in 1958, as  well as the ones of Jay Haley, S.Minuchin, B. Montalvo and C. Madanés. To  weave the history of the strategical psycotherapy would exceed the intention of  this article; the interested reader can explore the subject in M. Elkaïm(1998).  But after all, what it is strategical psycotherapy and as it is taught in the SPA of  the UERJ? According to J. Haley (1991), strategical psycotherapy is any type of  therapy where the therapist initiates what it happens during the therapeutical  process, creating a specific methodology to approach each problem of the  clinical case in question. Of this form, this methodology will include a set of  destined techniques to decide the problems; if this does not occur the therapist  must reevaluate its strategy until finding a strategy adequate that has led of the  conflict for the solution. Ahead of everything this fits to the strategical  psychotherapist to study very, to make innumerable specializations, therefore  thus it will have ability to use an armory of techniques in favor of the resolution  of the problems. One notices therefore that the taught strategical psycotherapy  in the SPA of the UERJ, is a style that goes beyond the model considered for J.  Haley (1979,1991,1993,1998) and C. Madanés(1997), but in summary  harmonizes in relation the central idea of that it has a set of hypotheses on the  maintenance of the problem and a set of interventions that are thought in favor  of the therapeutical change. This model of performance, in terms of the  Philosophy of Science, either perhaps next to a metateoria (critical study of the  theories) of that a particular theory, but this already is another subject.  

INTRODUÇÃO

A história da psicoterapia estratégica remete aos nomes de Milton Erickson,  Gregory Bateson (O Projeto Bateson, de 1952), Don Jackson e o Instituto de  Pesquisa Mental (MRI-Mental Research Institute),fundado em 1958, bem como  os de Jay Haley, Salvador Minuchin, Bráulio Montalvo e Cloé Madanés.  

O período entre 1952 e 1967 foi dedicado mais a pesquisa sobre a terapia do  que a sua prática; enquanto que, de 1967 a 1973, o grupo de Filadélfia,  composto por B. Montalvo, J. Haley e S. Minuchin, criou um modelo de  intervenção e também de formação de terapeutas. Sendo que, em 1975, C.

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Madanés e J. Haley fundaram o Instituto de Terapia Familiar, em Washington.  De lá para cá esta abordagem tem inspirado uma série de terapeutas e  instigado um amplo debate sobre a prática das psicoterapias.

Entretanto, tecer a história da psicoterapia estratégica ultrapassaria o propósito  deste artigo; o leitor interessado pode explorar o tema em M. Elkaïm (1998).

Mas afinal, o que é psicoterapia estratégica e como ela é ensinada no SPA da  UERJ?

Segundo J. Haley (1991), psicoterapia estratégica é qualquer tipo de terapia  onde o terapeuta inicia o que acontece durante o processo terapêutico, criando  uma metodologia específica para abordar cada problema do caso clínico em  questão.

Desta forma, esta metodologia incluirá um conjunto de técnicas destinadas a  resolver os problemas; se isto não ocorre o terapeuta deve reavaliar sua  estratégia até encontrar uma estratégia adequada que leve do conflito para a  solução.

Portanto isto cria uma outra indagação inerente ao campo pedagógico, em  especial ao tema da formação (supervisão) em psicoterapia, “o que” e “como”  ensinar?.

Se “a terapia estratégica não é uma abordagem particular ou uma teoria, mas  um nome para os tipos de terapia nos quais o terapeuta assume a  responsabilidade de influenciar diretamente as pessoas” (Haley, op.cit., p. 19),  então quais seriam as tarefas de um supervisor? Como seria possível ensinar  aos interessados sobre este estilo de praticar a psicoterapia?

Este foi um desafio, iniciado em 1988, no Serviço de Psicologia Aplicada (SPA)  da UERJ, quando da criação dos estágios em psicoterapia estratégica pelo  autor deste artigo, uma vez que sua prática clínica se enquadrava  perfeitamente neste estilo de praticar a terapia.

Inicialmente as supervisões giravam em torno de casos clínicos que serviam  como ilustrações da maneira de agir, sobre os problemas, de um terapeuta  estratégico. E, é claro, havia muita indicação bibliográfica para enriquecer as  demonstrações dos casos com as devidas técnicas, as quais eram exercitadas  também pelos supervisandos.

Com o passar do tempo, automaticamente, foi criado um novo problema para o  estagiário; devido a massa de informações sobre psicoterapia que tinha que  ser assimilada e utilizada, e ainda, na maioria das vezes, com o pensamento  influenciado pela era das escolas de psicologia, muitos supervisandos ficavam  perdidos num mar de conhecimentos sem ter um astrolábio ou uma bússola  para se orientarem.

Percebendo-se isto, foram utilizados cinco referenciais clínicos de um ponto de  vista epistemológico, assim os neófitos continuariam perdidos, mas agora  teriam bússola e mapas...e um supervisor para ensinar o seu uso. Assim, como

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em qualquer campo do conhecimento, quanto mais dedicação maior seria o  aprendizado.

Os referenciais clínicos passaram a ser chamados de referenciais clínicos e  epistemológicos, e seus autores e abordagens específicas sempre mencionadas, afinal deve-se evitar a criptomnésia (Merton,1979,p.73); logo, os  referenciais clínicos ganhavam um novo propósito, idealizado pelo autor deste  artigo, servir de base pedagógica e chave epistemológica para a abordagem  estratégica.

A idéia básica de um referencial clínico ser utilizado de uma perspectiva  epistemológica é permitir a organização de informações, sejam estas  provenientes da anamnese do cliente, sejam provenientes dos estudos teóricos  sobre as técnicas oriundas das diferentes abordagens psicológicas. Portanto,  os referenciais permitem organizar, e usar de forma coerente, técnicas da  Gestalt Terapia, do Psicodrama, da Análise Transacional, da Programação  Neurolingüística, da EMDR , etc.

Partindo-se da premissa que a ciência possui um contexto de descoberta e  outro de validação, e que esta migração de um contexto para outro é  extremamente complexa em se tratando de psicoterapia, deve-se, baseado na  perspectiva pragmática que permeia este campo, pensar na eficácia e na ética;  ou seja, a questão filosófica da ética e a diretriz pragmática da resolução dos  problemas apresentados pelo cliente (eficácia da terapia) devem estar sempre  presentes na formação do psicoterapeuta.

Assim sendo, os referenciais clínicos e epistemológicos funcionam como uma  espécie de mapa sobre o qual pode-se pensar em termos de diagnose e de  prognose.  

O diagnóstico organiza os dados da anamnese e aponta na direção de técnicas  e estratégias (metodologia) para a resolução das queixas do cliente. Logo,  auxilia na organização dos dados estudados pelo terapeuta também.

O prognóstico será justamente a combinação do conhecimento do terapeuta ,  diante do caso clínico, forjando uma estratégia específica para os problemas  encontrados a fim de percorrer caminhos que levem às soluções.

Através do uso epistemológico destes referenciais, o supervisando poderá  exercitar alguns atributos que se espera na formação de qualquer  psicoterapeuta: flexibilidade, organização, competência.

Ilustrando o que se declara acima (para em seguida se falar dos referenciais de  forma sucinta), poder-se-á utilizar a metáfora de uma viagem: o que se faz  quando se quer viajar? Bem....há um ponto de partida e um ponto de chegada,  devem existir obstáculos e recursos para superá-los.

Em termos bem simples esta metáfora ilustra um dos referenciais da  Programação Neurolingüística para se pensar sobre psicoterapia: há um  estado atual...há também um estado desejado pelo cliente (resolução do  problema apresentado ao terapeuta)...obstáculos e recursos. Se a queixa do  cliente é uma fobia, apenas para ilustrar, este é seu estado atual, seu estado  desejado será viver sem aquela fobia. É importante frisar aqui que o estado

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desejado deve ser formulado de forma positiva, no sentido de algo que existe,  por exemplo, se você, voltando à metáfora da viagem, chegasse ao guichê de  informações e dissesse que não quer ir à Búzios, não quer ir à Teresópolis e  também não quer ir a parte alguma...para onde você acha que o funcionário te  mandaria?!

Isto mesmo, como pessoa treinada e educada para aquela função, ele  começaria a fazer perguntas, criando um clima amigável, com a finalidade de  obter dados para poder orientá-lo em sua ânsia de viajar.

Da mesma forma, alguns clientes querem parar de ter fobia, querem parar de  fumar, ou deixar de serem esquizofrênicos...é a mesma analogia, o estado  desejado deve ser um estado positivo; quando você não tiver a fobia vai ter o  que no lugar dela?

Assim, se eu moro no Rio de Janeiro este é meu estado atual, o estado  desejado não pode ser “não morar no Rio de Janeiro”.

É claro que é preciso que haja uma insatisfação com o estado atual para se  nutrir a motivação para mudar, mas a meta é fundamental, é preciso saber para  onde se quer ir, como reconhecer o lugar, senão você pode chegar ao local e  continuar a viagem.

Logo, através dos referenciais (mapas) o supervisando pode planejar a terapia  (viagem); pode pensar nos recursos necessários para alcançar um determinado objetivo, e nos obstáculos que encontrará pela frente durante a  viagem.

Portanto, como em uma viagem, o destino (objetivo da terapia) é negociado  entre as partes (terapeutas e clientes), sendo que um bom guia turístico (o  terapeuta) deve perceber os limites de cada cliente e situação. Imagine um  grupo de idosos querendo fazer uma excursão para uma região montanhosa,  cheia de trilhas íngremes e escorregadias, com o objetivo de ver as  cachoeiras!!!  

Um objetivo para ser alcançado necessita de um avanço estratégico, se você  tem uma meta a ser alcançada, certamente precisará chegar antes em outros  lugares (submetas), e sempre terá que reunir seus recursos para contornar os  obstáculos.

Cabe lembrar também que tudo está em transformação na Natureza, vida e  morte coexistem, tudo é mutável. Já dizia Vinicius de Moraes, “como é que dá  para entender a gente mal nasce e já começa a morrer”.

Decorre desta forma de pensar o Universo, o entendimento de que um recurso  e um obstáculo fazem parte deste processo dinâmico, donde recursos podem  se transformar em obstáculos, e obstáculos podem vir a ser recursos.

Para ilustrar, uma bengala pode ser um recurso para recuperar o movimento,  mas pode virar um obstáculo impedindo o progresso de uma fisioterapia.

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Portanto, em resumo, cada um dos referenciais em psicoterapia é um mapa  que ajuda o psicoterapeuta, e por conseguinte o cliente, a pensar sobre como  realizar a mudança terapêutica.

Entende-se aqui, então, que toda teoria é um referencial pois aponta (ou pelo  menos tenta!) caminhos para a solução do problema.

Baseado nesta idéia, o autor deste artigo, propôs o aproveitamento de alguns  referenciais clínicos como epistemológicos.

Desta forma, independente da era das escolas em psicologia, e até mesmo de  uma abordagem psicoterápica específica, seria possível atingir o argumento  proposto por J. Haley de que a terapia estratégica é um nome para todo tipo de  abordagem pragmática na qual o terapeuta assume a responsabilidade de  criar uma estratégia específica para promover as mudanças necessárias.

Assim, diante destas várias questões, buscou-se na epistemologia das  psicoterapias a chave para iniciar a composição e a exposição do estilo  psicoterápico do autor, perfeitamente enquadrado nesta compreensão de se  praticar a terapia.

Os referenciais foram extraídos da Programação Neurolingüística (PNL), da  Terapia de Crise e da Terapia Não-Convencional. Porém observe-se que o  propósito deste artigo seria por demais estendido caso se explanasse em  detalhes cada conceito, assim serão apenas fornecidos esboços de cada um  dos referenciais.  

Sobre o primeiro referencial (estado atual – estado desejado, etc) muito já se  ilustrou, então passemos a segunda contribuição.

Esta surgiu da sistematização das idéias de G. Bateson feita por R. Bandler e  J. Grinder (1984,1986), idealizadores da PNL. São os chamados cinco níveis  lógicos que podem servir tanto como meio de diagnosticar e prescrever o uso  de técnicas (finalidade original criada por Bandler e Grinder), quanto de chave  epistemológica para integrar as diferentes abordagens terapêuticas, sendo esta  finalidade percebida e atribuída pelo autor deste artigo. Assim dito , espera-se  evitar a criptomnésia, conceito que se refere à possibilidade de que as idéias  estimadas e originais de um cientista possam “ser realmente o resíduo  esquecido do que alguma vez foi lido ou ouvido em algum lugar”  (Merton,1979,.73).

Os cinco níveis lógicos são formados pelos conceitos de identidade, crença,  estratégia,comportamento e ambiente. Cada nível permite mapear dados da  anamnese do cliente e também organizar as técnicas específicas para atuar no  caso clínico, deste jeito, pondera o autor deste artigo, você pode preencher o  esquema com técnicas de quaisquer abordagens desde que tenha estudos e  treinamento nas mesmas.

Em seguida vem outra contribuição da PNL, desta vez o autor é R. Dilts (1998)  e o referencial chama-se “SCORE”; cada letra tem um significado já fornecendo  “per se” uma idéia do que se trata: S = sintomas; C = causas; O = objetivos;R =  recursos; E = efeitos( da terapia). Mais uma vez além de permitir a organização

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dos dados do caso clínico, este referencial serve de chave epistemológica para  açambarcar contribuições de várias correntes do pensamento psicológico, por  exemplo, no que tange aos recursos empregados ou na formulação e  negociação de objetivos da terapia.

O quarto referencial epistemológico e psicoterápico foi se delineando devido ao  atendimento de inúmeros clientes em crise, para tanto foi usada a abordagem  denominada Terapia de Crise, de A. Moffatt (1987).

Este referencial possui cinco estágios, cada um com subdivisões: contenção,  exploração, projeto, contato com o real e separação. Como os demais permite  a organização da história clínica e da atuação do terapeuta.

Finalmente o quinto e último referencial, que aqui se pretende utilizar, destaca  preocupações e questões pertinentes ao lugar do terapeuta e do cliente dentro  da terapia, bem como o objetivo desta e as técnicas para a sua realização.  Este referencial provém do estudo da obra de M. Erickson (1902-1980) por J.  Zeig (1983, 1993) e é conhecido pelo nome metafórico de “O Diamante de  Erickson”. (Bauer,1998,p.101).

Embora não caiba aqui descrever em pormenores os referenciais, apenas para  ilustrar as possibilidades epistemológicas e psicoterápicas diante de um caso  clínico será usado o SCORE de R. Dilts.(op. cit.)  

Assim, o cliente apresentará suas queixas que serão enquadradas como  sintomas (S); deixará transparecer o que pensa, suas crenças, sobre o por que  destas queixas, o que as causa (C) a perturbação e/ou sofrimento; terá objetivo  (O) em relação à maneira de conduzir sua vida ; e, haverá uma expectativa  diante da nova maneira de se portar diante da vida, isto é, diante dos efeitos  (E) da mudança terapêutica.

É claro que com sua experiência o terapeuta poderá locupletar cada item com  detalhes não percebidos pelo cliente, por exemplo, a queixa de alguém sobre  um estado de humor freqüente pode ser consciente, mas o psicoterapeuta  pode observar que esta pessoa também respira mal, se alimenta mal, não se  exercita e dorme pouco, talvez até consuma alguma substância prejudicial à  saúde ! (Alguns dados surgem depois).

Diante de tudo isto cabe ao psicoterapeuta estratégico estudar muito, fazer  inúmeras especializações, pois assim ele terá competência para usar um  arsenal de técnicas em prol da resolução dos problemas, como no referencial  acima os recursos poderiam ser a conjugação de técnicas de PNL,  hipnoterapia, gestalt e terapia sistêmica.

Portanto, diante de um caso clínico, o supervisando aprende que pode usar  uma técnica oriunda das várias contribuições (Psicanálise, Terapia Cognitiva Comportamental, Bioenergética,etc), pois a “terapia estratégica é um modelo  pragmático essencialmente dedicado à intervenção clínica” (J. Keim in Elkaïm,  op. cit., p.269).

Nota-se portanto que a psicoterapia estratégica ensinada no SPA da UERJ, é  um estilo que vai além do modelo proposto por J. Haley (1979,1991,1993,1998)

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e C. Madanés (1997), mas em resumo harmonizam-se em relação a idéia  central de que há um conjunto de hipóteses sobre a manutenção do problema  e um conjunto de intervenções que são pensadas em prol da mudança  terapêutica.

Este modelo de atuação, em termos da Filosofia da Ciência, talvez seja mais  próximo de uma metateoria (estudo crítico das teorias) do que uma teoria  particular, mas isto já é outro assunto.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Revista IGT na Rede, v. 1, nº 1, 2004, p.1-8 DOI 10.5281/zenodo.14851032

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526