1

ARTIGO

Gênese Fenomenológica da Noção de Gestalt1 

Aritgo publicado na revista do X Encontro Goiano da Abordagem Gestáltica.

Marcos José Muller-Granzotto2 

Rosane Lorena Granzotto3 

RESUMO

Este artigo se propõe um estudo sobre a origem e modos de utilização do  termo gestalt junto às escolas filosóficas e psicológicas do final do século XIX e  início do século XX. Interessa, particularmente, os projetos teóricos de Franz  Brentano, Edmund Husserl, bem como a repercussão deles junto às  investigações promovidas pelos psicólogos da forma, tanto da primeira, quanto  da segunda geração. Nosso propósito é estabelecer as bases desde onde  possamos compreender em que sentido a Gestalt Terapia pode estabelecer um  uso fenomenológico do conceito de gestalt.

Palavras-chave: Gestalt, Fenomenologia, Psicologia da Gestalt, Essência,  Gestalt Terapia.

INTRODUÇÃO

Não é só no nome que a Gestalt Terapia se vincula à Psicologia da Gestalt.  Não obstante as críticas que, em vários lugares de sua produção bibliográfica,  Frederick Perls endereçou ao “positivismo lógico” dos trabalhos dos gestaltistas  da primeira geração (Perls, 1979: 81), muitas passagens dessa mesma  bibliografia sinalizam para os trabalhos de Kurt Goldstein, junto a quem Perls  aprendeu um modo específico de emprego do termo Gestalt (Perls, 1979: 151,  188). Para Goldstein (1939: 300-1), Gestalt não é um “fato” elementar cujas leis  constitutivas caberia à psicologia empírica desvendar, mas, sim, o “modo”  dinâmico, segundo o qual os organismos se conservam e se modificam. Por  outras palavras, Gestalt é a dinâmica “figura e fundo” que opera no interior dos  processos de auto-regulação organísmica junto ao meio. De onde Perls inferiu,  segundo ele próprio, um novo modo de se compreender essa experiência que,  muito antes de ser o desvelamento da infra-estrutura temporal de cada um de  nós, é a re-configuração espontânea de nossos motivos temporais em proveito  de nossa materialidade cotidiana: terapia (Perls, 2002: 265). Ora, em que  sentido a noção de Gestalt pode ser entendida enquanto uma dinâmica “figura  

  

1 Artigo publicado na Revista do X Encontro Goiano da Abordagem Gestáltica, Número 10,  2004.

2 Doutor em Filosofia, professor do programa de pós-graduação em filosofia e literatura da  UFSC (Florianópolis, SC) – mjmuller@cfh.ufsc.br

3 Psicóloga clínica, gestalt terapeuta, mestranda em filosofia (UFSC), diretora do Instituto  Gestalten (SC) – ro@gestalten.com.br

2

fundo”? Por que essa dinâmica é eminentemente temporal? Em que termos  essa compreensão de Gestalt estabelece algo de novo em relação ao modo  como os primeiros psicólogos da forma empregavam essa noção? Em que  sentido o emprego da noção de Gestalt pelos primeiros psicólogos da forma  implica um tipo de positivismo lógico? Responder essas questões é, conforme  penso, estabelecer a gênese da noção de Gestalt veiculada pela Gestalt  Terapia. Mais do que isso, respondê-las é, também, ir de encontro com um  modo de pensar que, não por acaso, o próprio Perls reconheceu como  constitutivo da Gestalt Terapia, a saber, a fenomenologia. Afinal, é a partir da  investigação fenomenológica do conhecimento que a noção de Gestalt adquiriu  status teórico e, na teoria de Perls, o nome de self. No presente texto, não  pretendemos apresentar os traços constitutivos da teoria do self. Pretendemos  algo preliminar, que é a apresentação sumária da história do emprego filosófico  e psicológico da noção de gestalt. Nossa expectativa é que esse estudo possa  estabelecer as bases que autorizaram o uso eminentemente fenomenológico  do conceito de Gestalt da parte de Frederick Perls e colaboradores.

II

Não é incomum se ler, em trabalhos que se ocupam de traçar a gênese da  Psicologia da Gestalt, a citação de Christian von Ehrenfels (1859-1932) como o  grande precursor e inspirador das idéias de Wertheimer, Koffka e Köhler.  Contra o que depõem os próprios envolvidos. Wertheimer, Koffka e Köhler  jamais reconheceram nas idéias de Ehrenfels a matriz das suas. É verdade  que, em comum, eles compartilhavam o mal-estar frente ao modo como  Wilhelm Wundt, em Berlim, definia o “objeto” da recém-criada ciência  psicológica. Nem Ehrenfels nem os psicólogos de Frankfurt reconheciam ser o  objeto psicológico o resultado de nossos atos psíquicos, muito especialmente,  de nossos atos de associação. Sequer o aparato físico-fisiológico importado  por Wundt foi suficiente para convencer Eherenfels, por um lado, Wertheimer,  Koffka e Köhler, por outro, de que os objetos psíquicos são construções  mentais, especificamente sinápticas, a partir de estimulações exteroceptivas,  proprioceptivas e interoceptivas. Mas, daí não se segue que Wertheimer,  Koffka e Köhler subscrevessem a alternativa formulada por Ehrenfels. Para  este, concomitantente às partes envolvidas no processo de associação, haveria  uma outra que, à diferença das demais, já resguardaria um sentido de  totalidade nela mesma, independentemente de qualquer ação de associação  das partes: Gestaltqualität. Ainda que Eherenfels admitisse que a percepção  das partes como um todo dependia da percepção de um certo sentido de  totalidade – que ele justamente designava pelo termo Gestaltqualität -, esse  sentido de totalidade não era o objeto percebido (psíquico) como tal. Razão  pela qual, para os gestaltistas, Eherenfels ainda estava preso ao atomismo  inerente à definição de objeto psíquico de Wundt. Diferentemente destes, os  gestaltistas afirmarão que as gestalten já são, por elas próprias, um tipo  específico de objeto. O que nos leva a perguntar, de onde veio a inspiração  para que os psicólogos da forma pudessem conceber as gestalten como uma  objetividade específica? A resposta a essa questão nos remete aos cursos de  Husserl, na universidade de Göttingen, em 1900, quando justamente ele  tentava repensar essa outra alternativa à teoria do objeto psíquico de Wundt,  que é a teoria dos objetos intencionais de Franz Brentano.

3

Franz Brentano (1874) não aceitava a definição de objeto psíquico estabelecida  por Wundt. Isso porque, não obstante concordar com a tese de que todos os  objetos fossem, em algum sentido, construções da subjetividade, o  associacionismo de Wundt não nos permitia distinguir entre objetos psíquicos e  objetos físicos. Ademais, a definição associacionista de ato psíquico não nos  permitia distinguir, claramente, entre o que é da ordem dos atos e o que é da  ordem dos conteúdos. Em algum sentido, atos e conteúdos se confundiam e,  conforme suspeitava Brentano, talvez estivesse aí a dificuldade que impedia  que se estabelecesse a diferença entre objetos psíquicos e físicos. Por isso,  Brentano propôs uma investigação sobre a natureza dos atos psíquicos, de  modo a distingui-los dos conteúdos. E foi nesse momento, exatamente, que  Brentano se deparou, pela primeira vez, com a diferença entre conteúdos que  são dados aleatórios (e que ele chamou de fenômenos físicos) e conteúdos  que, mesmo não tendo sofrido a ação de nenhum ato (razão pela qual ainda  não tem uma forma objetiva), já implicam um sentido de totalidade (fenômenos  psíquicos). Numa linguagem mais própria a Brentano, foi nesse momento que  ele pôde distinguir entre “fenômenos físicos” e “fenômenos psíquicos”.  Enquanto os primeiros diriam respeito às partes de nossa experiência material,  os fenômenos psíquicos tinham a ver com a experimentação de uma totalidade  que, espontaneamente, se estabelecia, antes mesmo que um ato dela se  ocupasse. Exemplo disso são os sentimentos. Antes mesmo de um ato de  percepção, imaginação ou ajuizamento poder identificá-los, nós os  experimentamos como uma totalidade espontânea, muito embora ainda  ambígua – e eis aqui uma primeira formulação da noção fenomenológica de  Gestalt4. Para Brentano, enfim, nós não experimentamos objetos psíquicos  como o resultado de um processo cumulativo de vivências parciais (fenômenos  físicos) – conforme a formulação de Wundt. Os objetos psíquicos são o produto  de atos psíquicos que, a sua vez, estão orientados por totalidades que não  carecem de gênese, quais sejam elas, os fenômenos psíquicos. Estes, então,  são totalidades espontâneas a orientar a direção dos atos da consciência. De  onde se seguiu, por um lado, a definição dos fenômenos psíquicos como modo  intencional de nossa existência e, correlativamente, a definição de objeto  psíquico como resultado de um ato alimentado por um fenômeno psíquico ou  intencional.  

Ora, se os fenômenos psíquicos são uma configuração espontânea a orientar  nossos atos, eles não carecem de ser explicados. Eis a razão pela qual  Brentano vai propor não uma psicologia genética (ao modo de Wundt) dos  fenômenos psíquicos, mas uma psicologia descritiva dessas vivências. Temos  aqui o rudimento programático daquilo que, na pena de Husserl, transformar

se-á em fenomenologia: descrição dessas vivências que, espontaneamente,  configuram-se para nós como totalidades anteriores às partes. Husserl tinha  um especial interesse nessa disciplina revigorada por Brentano, a saber, a  Psicologia descritiva, uma vez que era por meio dela que se poderia esclarecer  algo a que o próprio Husserl, como matemático que era, estava bem habituado,  a saber, as intuições matemáticas. De certo modo, Husserl acreditava que,  diferentemente dos objetos físicos, os objetos matemáticos eram constituídos a  partir de intuições – e não a partir de fenômenos físicos, como as supostas  

 

4 Como veremos mais adiante, essa noção fenomenológica de Gestalt não é exatamente a  mesma veiculada pelos psicólogos da forma, porquanto estes vão entender por Gestalt não um  fenômeno psíquico (ou a vivência de um sentido de totalidade que somos nós mesmos), mas  uma entidade objetiva, ainda que compreendida como totalidade.

4

sensações individuais, ou a partir de uma gramática lógica e,  conseqüentemente, de atos psicológicos. O que não quer dizer que, ao se  ocupar dos fundamentos da matemática por meio de uma psicologia descritiva,  Husserl admitisse todas as teses de Brentano. Para Husserl, tão importante  quanto dizer que os fenômenos psíquicos são totalidades que se impõem aos  nossos atos psíquicos, é dizer que, independentemente desses atos, esses  fenômenos são vividos como uma unidade que é a “nossa” unidade. Husserl  introduz aqui, à noção de fenômeno psíquico de Brentano, um sentido  vivencial, uma certa interioridade, que é a forma primitiva de nossa  subjetividade. Ademais, mesmo concordando em que os objetos psíquicos têm  como origem fenômenos psíquicos, daí não se segue, segundo a avaliação de  Husserl, que eles sejam imanentes ao nosso psiquismo. Husserl inova aqui  propondo a tese de que todos os objetos, mesmo os psíquicos, são  transcendentes à nossa subjetividade, muito embora sejam diferentes entre si.  Afinal, os objetos psíquicos (como os objetos matemáticos) têm atrás de si uma  vivência intuitiva, que não se verifica no caso de um objeto físico. Este último  depende de que um ato psíquico venha reunir as partes (que são os  fenômenos físicos).

Precisamos, entretanto, tomar cuidado aqui. Pois, não podemos confundir  aquilo que Husserl muito bem distinguia, a saber, a ciência matemática (e  todas as demais ontologias regionais, como ele preferia) e a psicologia  descritiva. Isso porque, para Husserl, uma coisa é você construir, por meio de  um ato e a partir de um fenômeno (seja ele físico ou psíquico) um objeto de  conhecimento. Isso é tarefa das ciências. Outra coisa bem diferente é você  descrever os fenômenos psíquicos implicados na construção de um objeto – e  essa, sim, é tarefa da psicologia descritiva. Mas não é apenas isso. Malgrado  Husserl mesmo denominar sua nova empresa de psicologia descritiva, ele fazia  questão de distingui-la da psicologia descritiva operada pelos psicólogos. Isso  porque, os psicólogos – quando comprometidos com um programa descritivo (o  que nem sempre era o caso) – se ocupavam das intuições particulares das  diferentes subjetividades. Já a fenomenologia tinha em vista a descrição  daquelas intuições que são não apenas ocorrências dos sujeitos psíquicos,  mas ocorrências em que nós nos experimentamos como subjetividades, como  unidades de sentido – o que não necessariamente acontece a um sujeito  psicofísico, porquanto também um grupo pode se experimentar como  subjetividade. Por outras palavras, a psicologia descritiva de Husserl visava  descrever intuições que fossem, em verdade, fenômenos psíquicos  intersubjetivos, porquanto se deixassem reconhecer como base necessária de  nossos atos sociais. Husserl denominou essa classe de intuições de essências  e eis, então, que a fenomenologia nasceu como uma Psicologia das essências  ou, conforme Husserl, Psicologia eidética.

Ora, em 1900, quando era professor em Göttingen, Husserl publica as  Investigações Lógicas, obra na qual estão lançadas as bases de um programa  de psicologia eidética. Dentre os ouvintes dos cursos de Husserl encontrava-se  Georg Elias Müller, que era diretor do Instituto de Psicologia da mesma  universidade de Husserl. G.E. Müller imediatamente intuiu, na concepção de  Husserl, algo que a psicologia descritiva de Brentano não permitia, a saber, um  trabalho empiriológico. Precisamente, dado que, para Brentano, todos os  objetos são imanentes à consciência, não há como se estabelecer uma  investigação empírica desses objetos, menos ainda das intuições que os

5

originaram. Mas, a partir do momento em que Husserl afirma serem os objetos  unidades transcendentes, abre-se a possibilidade para uma intervenção  empírica. O objetivo dessa intervenção, segundo G.E. Müller, não seria a  descrição do objeto, nem tampouco a descrição das intuições (ou essências)  desde onde os objetos foram constituídos. O que interessava a G.E. Müller, em  verdade, era a caracterização dessas intuições enquanto leis ou causas de  nossos atos e subseqüentes objetos – o que, evidentemente, Husserl  considerou um disparate. Afinal, na contramão do projeto husserliano, Müller  propõe uma genética dos objetos a partir das intuições (e não uma descrição  das intuições), o que significa abortar o caráter intencional (vivido) daquelas  intuições em proveito de um modo objetivista de apresentá-las – positivismo  lógico de Müller, ao qual Husserl, assim, como mais tarde Perls, não se cansou  de censurar.

Tecnicamente, o que Müller procurava fazer era, a partir dos objetos (que eram  percepções representadas na forma de experimentos), tentar identificar quais  eram as constantes envolvidas (que muito antes do que intuições vividas,  tornam-se estruturas objetivas). Ora, Max Wertheimer era orientado por G.E.  Müller. E com ele desenvolveu um experimento que consistia em duas  ranhuras, uma vertical e outra inclinada mais ou menos 25 graus em relação à  vertical. Quando a luz era projetada primeiro através de uma ranhura e, depois,  através da outra, a fenda iluminada parecia deslocar-se de uma posição para a  outra, se o tempo entre a apresentação das duas luzes se mantivesse dentro  de limites adequados. Wertheimer calculou os limites de tempo em que o  movimento era percebido. O intervalo ótimo situava-se em torno de 60  milissegundos. Se o intervalo entre as apresentações excedesse cerca de 200  milissegundos, a luz era vista, sucessivamente, primeiro numa posição e  depois noutra. Se o intervalo fosse demasiado curto, 30 milissegundos ou  menos, as duas luzes pareciam estar continuamente acesas. Wertheimer deu a  esse tipo de movimento o nome de fenômeno phi. Tratava-se de um fenômeno  que não poderia resultar de estimulações individuais, uma vez que a adição de  estimulações estacionárias não poderia redundar, mesmo para o mais ardoroso  associacionista, numa sensação de movimento. Em 1912, quando publica sua  tese, Wertheimer explica o fenômeno phi em termos muito simples: trata-se de  algo para o qual não há explicação, mas a partir do qual podemos explicar  nossa percepção objetiva: primado do todo em relação às partes. Eis aqui um  exemplo concreto da objetivação das vivências fenomênicas que, de ora em  diante, passaram a ser investigadas como se fossem unidades (e não partes,  como acreditava Wundt) de sentido autônomas, independentes de minha  subjetividade, de meus vividos no tempo. Depois de se mudar para Frankfurt,  Wertheimer encontrara dois colegas que, não obstante terem sido formados em  escolas distintas, compartilhavam com ele o projeto de uma investigação (a  partir de experimentos empíricos) disto que a psicologia eidética de Husserl  havia legado, a saber, as essências ou intuições (de totalidades), que eles  melhor preferiram tratar como estruturas objetivas chamadas gestalten. Juntos,  eles se lançaram na empreitada que consiste em se determinar as  características elementares das gestalten que, dessa forma, deixavam de ser  vividos psíquicos, para se tornar a causa objetiva de nossos atos e respectivos  objetos. E eis que nascia, então, a Psicologia da Gestalt.

6

III

Apesar de ter sido concebida a partir da psicologia eidética de Husserl, a  Psicologia da Gestalt não se estabeleceu como uma psicologia descritiva,  voltada para as nossas vivências, que são as essências elas próprias. Mesmo  aceitando a tese de que todo objeto psíquico estava precedido por um sentido  de totalidade (e não por partes associadas) – qual seja esse sentido, as  essências ou fenômenos psíquicos -, eles não consideravam essas essências  vividos da subjetividade, mas, sim, configurações autônomas. De certo modo,  as essências eram entendidas como estruturas sem interior. Razão pela qual, a  unidade delas tinha de ser explicada. Eis em que sentido, inspirada no projeto  de Georg Elias Müller, a Psicologia da Gestalt nasceu antes como uma  psicologia genética, tal como a psicologia de Wundt, muito embora se  opusesse frontalmente à genética wundtiana (e que consistia em se explicar os  objetos a partir da associação de percepções de dados isolados). Importava a  Max Wertheimer, Wolfgang Kölher e Kurt Koffka (os quais compõem a primeira  geração da Psicologia da Gestalt) compreender o que eram as essências  enquanto “fatos” elementares, independentemente de nosso psiquismo. O que  implicava a introdução de uma postura “objetivista” na consideração das  essências ou intuições, de ora em diante denominadas de gestalten. Ora, para  Husserl, assim como para Brentano, nossas intuições não são ocorrências às  quais podemos atribuir características positivas. Elas são vivências de cada um  de nós e desde onde nossos atos podem constituir objetos. Razão pela qual,  ao considerar as essências fatos elementares que deveriam ser esclarecidos  em seus traços característicos, os psicólogos da Gestalt transformaram-nas em  quase-objetos. O que é algo extremamente problemático, uma vez que, dessa  forma, não só se abortava o caráter vivido (e, nesse sentido, intencional) das  gestalten, quanto se reavivava uma dificuldade crônica, que se impunha a toda  a tradição genética desde o século XVII. Qual seja essa dificuldade, o  esclarecimento do tipo de vínculo que haveria de vigorar entre nossas  representações ou objetos psíquicos (no caso, nossas percepções) e sua  causa objetiva (no caso, as essências entendidas como gestalten). Nem bem  havia nascido, a Psicologia da Gestalt já tinha de lutar contra essa doença  clássica, que incomodava os filósofos há séculos.

De fato, depois de 1912, Wertheimer cada vez mais se distanciou dos motivos  fenomenológicos de Husserl – e que consistiam na descrição do modo como os  atos, a partir dos vividos intencionais (que são as essências ou fenômenos  psíquicos), constituem objetos – para se dedicar a um programa genético de  explicação dos objetos (da percepção) a partir de estruturas autóctones – que  são as gestalten. Isso implicava o árduo trabalho de se determinar,  primeiramente, o que eram tais estruturas. O que efetivamente Wertheimer fez  e divulgou por meio de um conjunto de enunciados empíricos que se tornaram  uma marca distintiva da primeira geração da Psicologia da Gestalt. Em 1923,  Wertheimer apresentou o que ele chamou de princípios da organização da  percepção, os quais costumam ser testados mediante um tipo de prova  demonstrativa (que não vem ao caso aqui reproduzir). Esses princípios e suas  respectivas definições são os seguintes: i) proximidade: os elementos próximos  no tempo ou no espaço tendem a ser percebidos juntos; ii)similaridade: sendo  as outras condições iguais, os elementos semelhantes tendem a ser vistos  como pertencentes à mesma estrutura; iii) direção: tendemos a ver as figuras  de maneira tal que a direção continue de um modo fluido; iv) disposição

7

objetiva: quando vemos um certo tipo de organização, continuamos a vê-lo,  mesmo quando os fatores de estímulo que levaram à percepção original estão  agora ausentes; v)destino comum: os elementos deslocados, de maneira  semelhante de um grupo maior, tendem eles próprios, por sua vez, a ser  agrupados; vi) pregnância: as figuras são vistas de um modo tão “bom” quanto  possível, sob as condições de estímulo, de onde se segue que a boa figura é  uma figura estável., que não pode se tornar mais simples ou mais ordenada por  um deslocamento perceptual. Ora, é preciso não confundir aqui a gestalt,  enquanto essa tendência das partes a assumirem uma certa configuração – que é o que os enunciados empíricos de Wertheimer apresentam -, e minhas  percepções efetivas, que são os objetos psíquicos propriamente ditos. As  gestalten estariam mais próximas daquilo que os fenomenólogos chamavam de  essências intuídas ou fenômenos psíquicos. Todavia, não obstante elas  estarem caracterizadas como totalidades anteriores às partes, elas implicam  antes uma certa “realidade” transcendente ao nosso psiquismo. Mais do que  isso, trata-se de totalidades que se impõem e formatam nossos atos e,  conseqüentemente, nossas representações objetivas – o que lembraria, de  certo modo, a noção clássica de coisa extensa, da metafísica cartesiana.  Somente a última lei, que fala de uma “boa forma” – a qual não pode existir  independentemente da subjetividade, porquanto é a própria subjetividade o  critério do que seja “bom” -, ainda mantém vínculo com a noção de essência  enquanto vivido subjetivo, que é a forma como a fenomenologia propõe a  noção de essência5. De resto, as gestalten já são outra “coisa”, leis de  organização gravitando entre nossos vividos (tal como compreendidos pela  fenomenologia) e nossos objetos efetivamente representados (por meio de  nossos atos).

Ora, essa inclinação objetivista de Wertheimer acabou lhe rendendo  complicações epistemológicas. Afinal, se nossas percepções (ou objetos  psíquicos) estão orientadas desde estruturas autônomas (que não são nossas  vivências, conforme crê o fenomenólogo, mas, sim, gestalten, tendências de  agrupamento das partes de um certo contexto segundo leis próprias), o que  assegura a validade objetiva de nossas percepções? Como podemos saber  que nossas percepções são correlativas a uma gestalt específica? A resposta  para essa questão foi estabelecida nos termos de uma teoria do isomorfismo.  Ou seja, para Wertheimer, é como se houvesse, entre essas essências (que  são as gestalten) e nossos atos (e respectivos objetos), uma forma comum,  uma proporcionalidade um para um (1:1). Mas o isomorfismo, em vez de uma  solução, acabou se tornando mais um problema, afinal, qual é essa forma  comum, como podemos averiguá-la?

Kurt Koffka evita falar da teoria do isomorfismo. Ele tenta resolver o problema  da relação entre nossas percepções e as gestalten apelando para uma postura  que ele próprio denominou de fisicista. Segundo Koffka, a diferença entre  nossas percepções e as gestalten diz respeito apenas a uma diferença de  ótica. Se olharmos por uma ótica molar, o que iremos encontrar é o domínio ou  ambiente comportamental. É nele que estão sitiadas as nossas representações  

  

5 Como afirmará mais tarde Perls, em seu livro autobiográfico (1979: 81-4), o único dentre os  enunciados empíricos da Psicologia da Gestalt que tem repercussão junto à Gestalt Terapia é o  da pregnância, pois somente ele faz alusão àquilo que, para Husserl, era constitutivo das  essências ou fenômenos psíquicos, a saber, a tendência espontânea ao fechamento de uma  necessidade, de um campo de vivências, que é a nossa subjetividade.

8

objetivas. Trata-se do conjunto de percepções e condutas que estabelecemos  de maneira sensório-motora e simbólica. Mas, por outro lado, se nos servirmos  de uma ótica molecular, o que encontraremos é o ambiente que Koffka chama  de geográfico. Neste, localizamos todos os eventos fisiológicos, químicos e  físicos que envolvem nosso organismo e o meio. Ora, acredita Koffka, tanto no  ambiente comportamental quanto no ambiente geográfico estamos diante do  mesmo fato, apenas que segundo óticas diferentes: molar ou molecular. E é  essa diferença de ótica que nos permite pensar a diferença entre nossas  representações objetivas (nível molar ou ambiente comportamental) e as  gestalten (nível molecular ou ambiente geográfico). Em última instância, elas  são a mesma coisa, razão pela qual, um mapeamento dos circuitos nervosos é  complementar a uma descrição de nossas representações objetivas.

Wolfgang Köhler não descarta o fisicismo de Koffka, apenas acha que a  diferença de óticas não esclarece o principal, que é discriminar em que sentido  o ambiente comportamental e o ambiente geográfico são comparáveis. Por  essa razão, Köhler retoma a teoria do isomorfismo de Wertheimer, mas  tentando esclarecer em que consiste a aludida proporcionalidade entre as  gestalten e as nossas representações objetivas. Para tal, Köhler resgata de  Edgar Rubin - um discípulo de Husserl em Göttingen e que, à diferença de G.E.  Müller, manteve-se fiel ao projeto de uma psicologia eidética – o binômio “figura  fundo”. O interesse de Rubin, em verdade, era compreender nossas vivências  de percepção espacial. Ou, por outras palavras, Rubin queria entender as  essências implicadas no processo de construção de representações objetivas  do espaço. E, por sugestão daquilo que aprendera com as Lições para uma  fenomenologia da consciência interna do tempo (1994) de Husserl, Rubin  construiu uma teoria que muito auxiliou Köhler.  

Husserl compartilhava com a tradição, que remonta a Kant, o entendimento de  que a percepção de um objeto material sempre é precedida pela representação  da unidade de nossas vivências materiais no tempo. Para que tal  representação se dê, entretanto, é de fundamental importância nossa intuição  sobre a unidade do tempo, a qual Husserl descreveu nos termos de uma teoria  sobre a consciência interna do tempo. Conforme essa teoria, não devemos  entender o tempo como uma forma a priori da sensibilidade (da percepção  interna especificamente), tal como postulava Kant. Se é verdade que o tempo  tem a ver com a subjetividade, isso não quer dizer que subsista nela como uma  forma. Tempo é sim a experimentação que a consciência tem de seu próprio  fluir, o qual se apresenta, por um lado, como um continuum em constante  mutação (a cada nova vivência, a vivência antiga continua vinculada à minha  existência, apenas que de forma modificada, como um perfil da primeira e,  sucessivamente, como perfil do perfil e assim por diante). Por outro lado, esse  fluir configura-se como uma rede de perfis retidos em torno de cada vivência  atual, de modo a se estabelecer, para essa vivência, uma espécie de horizonte  em dupla direção: passado e futuro. E eis em que sentido, para Husserl, em  cada vivência material, a consciência pode intuir um sentido de totalidade, que  é sua própria vida em constante escoamento ou, numa só palavra, tempo.  Husserl, ademais, vai dizer que essa experimentação que a consciência tem de  seu próprio fluir é a forma mais elementar de nossa vida psíquica (e, nesse  sentido, de nossa intencionalidade), porquanto estabelecemos, sem a  necessidade do recurso a um ato psíquico, um horizonte de perfis para nossas  vivências atuais (as quais sempre requerem um ato psíquico). Razão pela qual

9

Husserl vai chamar a experiência de apercepção da unidade do próprio fluir de  intencionalidade operativa (e não de ato, como no caso de nossas demais  intuições). Por meio dela, deflagramos um “campo de presença” de “perfis  retidos” em favor de “vividos atuais”6. Ora, para Husserl, é essa  experimentação que a consciência tem de si mesma como campo de presença  junto a um vivido material que permite que esse vivido adquira um sentido que,  por si só, ele não poderia ostentar. Tal significa que, se eu vejo uma face e  reconheço se tratar da face de um cubo, é porque, concomitantemente à  percepção material desse dado, comparecem perfis retidos de outras vivências,  que então eu experimento como uma só vida, e exprimo como um só objeto.  Eis em que sentido, para Husserl, toda percepção espacial está alicerçada na  experiência temporal que a consciência tem de si mesma.  

Em 1912, Edgar Rubin toma para si o desafio de descrever, a partir de  experiências de percepção espacial (e não a partir de experiências de  constituição de objetos temporais, como seria mais fácil), esse primado da  intuição temporal. E eis, então, que introduz as expressões “figura” – para  designar o correlato objetivo do ato de visar, em um dado material, uma  unidade de sentido – e “fundo” – para indicar a ocorrência intuitiva de um  campo de presença formado por perfis que, como tais, não são  experimentados materialmente. No experimento do vaso, Rubin mostra como a  representação de uma certa figura (por exemplo, o vaso), depende de que eu  ofereça, para um certo dado material (a parte branca do desenho), um certo  horizonte (fundo) de perfis, em detrimento dos outros dados matérias presentes  ao lado do dado visado (e que assim se tornam quase imperceptíveis, como é  o caso das partes pretas, no experimento de Rubin). Ademais, em favor de sua  teoria, Rubin mostra que posso tranqüilamente visar, na mesma base material,  uma outra figura, desde que eu escolha outro dado material, fazendo  desaparecer o dado de antes em proveito de outros perfis retidos. E eis que  posso, na mesma configuração material em que percebi um vaso, reconhecer  duas faces desenhadas de perfil.

Pois bem, Köhler apoderou-se das experiências de Rubin (que só foram  publicadas em 1915), mas para ressaltar algo que não necessariamente tinha a  ver com os propósitos de Rubin, a saber, que em toda configuração material,  há elementos que são figura e outros que são fundo, podendo ser intercalados,  em alguns casos. Ao fazer essa interpretação, Köhler desprezou a importância  do elemento intencional (que é a configuração subjetiva de um campo de perfis  temporais), como se ele não fosse necessário para a caracterização de uma  figura ou de um fundo. Mais do que isso, Köhler afirmou ser o arranjo figura x  fundo algo característico tanto das gestalten, quanto de nossas representações  

  

6 Caberia, aqui, um parêntesis, em que poderíamos estabelecer uma relação entre a noção de  campo de presença e o conceito de Aqui-Agora da Gestalt Terapia. Conforme acreditava  Frederick Perls, em cada momento de nossa existência, a qual se dá aqui (espaço) e agora  (tempo), temos, co-presentes, todas as nossas vivências passadas, apresentem-se elas como  lembranças ou expectativas. Razão pela qual, não deveríamos procurar em outro lugar, senão  naquilo que o paciente atualmente trouxesse para o terapeuta, a compreensão de sua queixa.  Ainda que Fritz Perls não se referisse explicitamente a Husserl – muito embora falasse de uma  metafísica profunda do tempo como fundamento de sua teoria -, podemos interpretar sua teoria  a partir de Husserl. E isso significa dizer tão somente que, se tudo está no Aqui-Agora, é por  que o Aqui-Agora é um campo de presença, em que co-dados manifestam-se como fundo de  um dado, que então é figura.

10

psíquicas. E eis em que sentido podia falar de um isomorfismo entre as  gestalten e os objetos de nossa percepção.

Ora, não tardou muito para que o próprio Köhler se desse por conta de que o  programa de investigação assumido pela Psicologia da Gestalt alterava muito  pouco aquilo que a própria Psicologia da Gestalt tanto procurava criticar, a  saber, o atomismo das teorias associacionistas. A única diferença que os  gestaltistas conseguiram introduzir era a consideração das sensações não  como partes, mas como totalidades. O que não alterava o quadro de  conseqüências, uma vez que os objetos continuavam sendo concebidos como  a representação segunda de uma positividade de primeira ordem,  completamente desprovida de interioridade e, nesse sentido, estranha ao  homem. E talvez fosse por isso que Husserl dissesse, num tom de desencanto,  que “tanto a psicologia atomística como a estrutural conservam, no mesmo  sentido primordial, um naturalismo psicológico “. (1913: 390).  

IV

Não se passaram muitos anos depois da publicação das Investigações Lógicas  (ocorrida em 1900) para que Husserl percebesse que, se em algum sentido a  fenomenologia deu caução a essa forma de naturalismo, que é a Psicologia da  Gestalt, ele próprio tinha responsabilidade nisso. Afinal, o projeto de uma  fenomenologia escrita como psicologia eidética deixava na bruma o sentido  preciso da “eidética”. Por um lado, Husserl era claro ao dizer que as essências  eram fenômenos psíquicos, efetivamente intuídos pelos sujeitos. Mas, por  outro, dizia serem tais essências ocorrências intersubjetivas – o que dava  margem a que se pensasse em um tipo especial de natureza, que em vez de  concebida como coleção de partes, devesse ser entendida como um conjunto  de totalidades autóctones. E é para reparar essa ambigüidade que Husserl, nos  anos seguintes, se ocupou da consecução de uma fenomenologia que, em vez  de psicológica, se tornaria uma verdadeira filosofia. Husserl entendeu a  necessidade de se suspender o naturalismo recalcitrante em suas posições  iniciais, em favor de uma abordagem verdadeiramente descritiva, que não  partisse da suposição de nenhuma natureza preestabelecida (fosse ela  entendida como subjetividade psicofísica, fosse ela entendida como estrutura  ou gestalt), mas da experiência intuitiva ela mesma. Por outras palavras,  Husserl não queria partir de uma certa representação objetiva (um ente, uma  substância, uma coisa...), mas das “vivências” desde onde toda e qualquer  representação fosse possível. Para tanto, seria preciso se resguardar a  primazia dessas vivências em relação às representações objetivas, o que  Husserl julgou poder fazer assumindo um ponto de vista transcendental. Afinal,  a abordagem transcendental não se dirige a objetos, mas ao “modo” como  conhecemos objetos. Eis em que sentido, então, Husserl propôs uma “redução”  do domínio da fenomenologia, o que significou limita-la à descrição  estritamente dinâmica dos processos de constituição de objetos a partir de  intuições (redução eidética) e à descrição estritamente dinâmica da vivência  (subjetiva e intersubjetiva) dessas intuições (redução transcendental). De onde  se depreendeu uma fenomenologia das essências, agora entendidas não como  vividos “dos” sujeitos psicofísicos, mas como vividos constituidores da  subjetividade empírica. Trata-se, em verdade, de processos transcendentais,  que Husserl reuniu sob o título de “ego transcendental”, querendo com isso  designar não a minha individualidade, mas a minha implicação no todo. O “ego

11

transcendental” não é uma substância – no interior da qual poderíamos  encontrar o universo inteiro -, mas uma dinâmica, um processo que não existe  independentemente das partes envolvidas (subjetividades empíricas, objetos  transcendentes), muito embora não se resuma a essas partes, consistindo  antes na relação que as faz existir. O “ego transcendental”, nesse sentido, é o  “a priori da correlação”, o “a priori do campo”.

Ora, mais do que as duras críticas que Husserl dirigiu à noção de gestalt, a  proposta de uma fenomenologia como descrição do campo de correlação, deu  novo alento a Psicologia da Gestalt, muito embora já não se tratasse da  mesma escola. Podemos inclusive falar de uma segunda geração, muito  embora nem todos os envolvidos se autodenominassem psicólogos da gestalt.  De certo modo, é o próprio Köhler quem começa a transformação, a partir do  momento que admite não fazer sentido se buscar na “natureza” essências  como “gestalten”. As condutas (dos antropóides, por exemplo), não são a  representação de uma essência que estaria a meio caminho entre o mundo  físico e o psiquismo de cada qual. A conduta é muito mais do que isso; ela é o  próprio campo no interior do qual revela-se uma constituição física particular e  uma certa “cultura” de representações, que é nosso psiquismo. Essa mudança  de ótica repercutiu enormemente junto ao trabalho de jovens pesquisadores,  como Kurt Lewin, que reconheceu no tema do “campo” a melhor formulação da  noção de gestalt. Essa deixa de ser uma configuração específica da natureza – e a que nosso psiquismo procuraria representar de modo objetivo -, para se  tornar a própria relação de constituição e diferenciação de nossa  individualidade frente aos outros e ao mundo. De onde Kurt Lewin intui a  necessidade de uma psicologia escrita nos termos de uma teoria de campo.

Kurt Lewin retoma de Koffka a distinção “mundo geográfico e mundo do  comportamento (também chamado de fenomênico, numa alusão ao  psiquismo)”. Mas, diferentemente de Koffka, Lewin não os considera dois lados  de uma mesma moeda, que para Koffka seria a realidade física. Isso porque a  noção de realidade física faz crer que, em última instância, tanto o mundo  geográfico, quanto o mundo do comportamento, estão regidos por leis ou  estruturas extemporâneas à efetivação das condutas e dos eventos materiais.  Contra o que Lewin introduz a noção de espaço vital, noção essa que, em certo  sentido, procura corresponder à noção fenomenológica de campo. O espaço  vital diz respeito à totalidade dos fatos que determinam o comportamento do  indivíduo num certo momento. Ele inclui a pessoa e o meio, e representa a  totalidade dos eventos possíveis. O que não quer dizer que Lewin aceitasse a  pertinência de relações de causalidade entre a pessoa e o meio. Ao contrário,  quando fala de espaço vital, Lewin tem em mente a configuração espontânea  de fronteiras (topológicas e não quantitativas) e direções de deslocamentos  (hodológicos e não geométricos), por meio das quais, junto ao meio  circundante, uma pessoa (que tanto pode ser um indivíduo, como um grupo) se  singulariza. Por outras palavras, o espaço vital tem a ver com o processo  amplo de emergência de figuras no interior de um campo, que é a gestalt.  Aquelas fronteiras (que não são áreas delimitadas, mas regiões de  permeabilidade entre as partes e o todo) e aqueles deslocamentos (que não  são propriedades físicas descritas geometricamente, mas correlações de força  no interior de um espaço topológico) não são leis extemporâneas, ou estruturas  transcendentes às partes envolvidas nesse campo que é o espaço vital. Ao  contrário, elas são as essências fenomenológicas, que Lewin prefere chamar

12

de constructa. Uma constructa, seja ela uma fronteira de permeabilidade ou  uma certa valência de nosso deslocamento no interior de um todo, não é,  portanto, uma estrutura a priori ou física, tampouco um evento privado de  minha subjetividade empírica. A constructa é uma forma dinâmica de  configuração das partes no todo. Entretanto, não obstante a teoria de campo  fazer jus à demanda husserliana de uma fenomenologia devotada à descrição  de uma dinâmica, o recurso de Kurt Lewin à matemática topológica e a física  hodológica acabaram por solapar algo muito caro à fenomenologia, a saber, a  egoidade dos processos transcendentais – e que a fenomenologia designa por  meio da noção de intencionalidade ou motivação. Ainda que Kurt Lewin tivesse  se ocupado de demarcar pessoas, ainda que falasse de valências específicas  de um movimento de deslocamento no interior do todo, essas referências à  subjetividade não conseguiram caracterizar a experiência de apercepção da  unidade de todo – que é o que propriamente caracteriza a intuição  fenomenológica. É como se Lewin falasse de pessoas que não são ninguém,  de um mundo no qual não se está, pois em momento algum ele se deu o  trabalho de descrever a “sua” implicação no todo. Ora, se é verdade que a  fenomenologia suspende o ponto de vista do sujeito psicofísico (que é um  ponto de vista representado, constituído a respeito de nós mesmos), isso não  quer dizer que ela tenha eliminado a subjetividade. O importante aqui é  percebermos que a subjetividade não é um estado, uma qualidade ou uma  ação. Menos ainda uma substância. A subjetividade é nossa participação no  todo. O que efetivamente Lewin não descreveu, malgrado reclamar para sua  teoria o status de fenomenologia.

Ora, diferentemente de Kurt Lewin, Kurt Goldstein sempre foi muito atento à  demanda de “subjetividade” estabelecida pelo discurso fenomenológico, não  obstante só admiti-lo tardiamente. Por outras palavras, Goldstein sempre se  preocupou em demarcar o lugar do sujeito da experiência – o qual não se  confunde com o eu psicofísico ou com qualquer outra representação objetiva  produzida no âmbito de nossas teorias psicológicas. O sujeito da experiência é,  para Goldstein, uma dinâmica de auto-regulação (self-actualization) ou, numa  alusão não confessa à fenomenologia, “essência” (1933: 267).  

A rigor, Goldstein nunca se considerou um fenomenólogo – muito embora, em  sua autobiografia (1967), publicada postumamente, admitisse que suas  principais teses eram muito semelhantes às de Husserl. O interesse pela noção  fenomenológica de subjetividade deu-se por meio de Adhèmar Gelb, assistente  de Köhler e leitor de Husserl. Nas décadas de 20 e 30, Gelb e Goldstein não só  trabalharam juntos, quanto publicaram estudos sobre o problema gestaltista da  relação figura-fundo, o qual, justamente, Köhler importou da fenomenologia. A  preocupação principal de Goldstein, nessa época, era compreender os  distúrbios de linguagem dos soldados vítimas de lesões cerebrais contraídos  na Primeira Guerra Mundial. E no artigo Analyse de l’aphasie et étude de  l’essence (1933), ele esclarece precisamente, em que sentido está a entender  a relação figura-fundo. Esta não é, assim como para Köhler, a lei constitutiva  dessas formações espontâneas, que são as gestalten físicas, ou a forma  específica de nossas representações mentais. Figura e fundo tem antes a ver  com o modo de funcionamento do organismo como um todo. Não apenas isso,  figura e fundo tem a ver com a dinâmica de inserção do organismo no meio. O  que é o mesmo que dizer que, para Goldstein, a relação figura e fundo não diz  respeito a uma certa objetividade, mas a uma certa vivência, a uma certa

13

operação, que ele denominava de “essência”. E, tal como Husserl, Goldstein  compreende essência não como uma coisa (sentido ontológico), ou como uma  finalidade ou tarefa especifica (sentido teleológico). A essência é, segundo o  próprio Goldstein, um princípio de conhecimento, nos termos do qual  deveríamos poder descrever o organismo que efetivamente somos (1933: 267).  

Ora, a descrição dessa essência vivida – que é a implicação global das partes  no todo do organismo e, correlativamente, do organismo no meio – fez mais  que simplesmente reaproximar os conceitos gestálticos (sobremodo o conceito  de figura e fundo) de sua matriz fenomenológica. Ela também - e  principalmente - se prestou à elaboração de uma teoria que se tornou  conhecida pelo nome de “organísmica”. O que não nos autoriza a pensar que  Goldstein estivesse falando de uma certa “entidade” empírica, correlativa do eu  psicofísico. Quando fala em organismo, Goldstein tem em conta aquelas  essências, que são nossas vivências de pertencimento a uma totalidade, que é  a subjetividade que constituímos junto ao meio. A melhor ilustração dessa  noção de organismo, Goldstein a fornece descrevendo o comportamento de  seus pacientes acometidos de lesão cerebral. Segundo observou Goldstein, tal  comportamento só podia ser entendido quando vinculado a um exame da  matriz total do comportamento do paciente. O que, no começo, parecia ser um  resultado direto da lesão, revelava-se, no decurso da observação (na qual  Goldstein se envolvia pessoalmente), uma reação indireta, uma tentativa de  ajustamento das conseqüências da lesão (perda da capacidade de abstração)  ao mosaico da vida por inteiro. Nesse sentido, a mesma lesão física podia  implicar uma variedade enorme de síndromes do comportamento. De onde  Goldstein inferiu a tese de que não somos, primitivamente, o resultado de  causas estruturais (sejam elas atômicas ou gestálticas), mas uma dinâmica de  respostas à estímulos ou de equalização de contingências que desafiam nossa  própria experimentação como totalidades.

Goldstein, entretanto, reconheceu que essa dinâmica se dá em dois níveis  diferentes. Por um lado, temos o nível vital ou conservativo, que consiste nos  sistemas internos de compensação fisiológica, os quais funcionam como um  todo inter-relacionado (onde o que acontece a uma parte tem implicação no  todo). O que poderia sugerir a definição gestaltista de todo. Porém, isso não é  verdadeiro. Pois, enquanto a noção gestaltista de todo sinaliza para um  sistema de equilíbrio desprovido de interioridade (trata-se apenas de um  equilíbrio autóctone das partes), a noção de todo de Goldstein requer uma  interioridade, que é o poder de centragem das células num organismo (1940:  300-2). Essa centragem não é senão a capacidade de cada célula para  “conservar” o “equilíbrio (homeostase)” entre sua própria concentração interna  (razão entre suas partículas solventes e suas partículas solúveis) e a  concentração das células vizinhas. O que implica uma sorte de comunidade,  que se estabelece por meio da liberação e absorção de íons entre as células  envolvidas. Em certo sentido, a noção de todo de Goldstein retorna à noção  fenomenológica de todo, porquanto requer uma centragem que é,  simultanemante, descentramento, assim como a subjetividade fenomenológica  é, concomitantemente, intersubjetividade.

O outro nível da dinâmica organísmica é aquele que Goldstein denomina de  valorativo ou funcional. Ele diz respeito aos sistemas de contato, sensoriais e  motores, pelos quais o organismo obtém do meio o que precisa para atender

14

às suas necessidades vitais. Goldstein descreve aqui o organismo como um  processo de individuação ou auto-realização (self-actualization) no meio (1939:  146). Um organismo sexualmente impulsionado realiza-se no coito, um  organismo faminto na alimentação. Goldstein resgata aqui um outro tema  fenomenológico sobre o qual a Psicologia da Gestalt calou, a saber, nossa  intencionalidade (seja ela operativa, como no caso de nossa auto-realização  sensório motora, ou de ato, como no caso de nossas condutas simbólicas).  Enquanto totalidades dotadas de interioridade, não somos seres isolados do  meio ou, então, passivos frente a ele. Somos capazes de realizar, na  transcendência, modos de ampliação de nossa existência organísmica.  Entretanto, faltou a Goldstein uma reflexão mais específica sobre o sentido  dessa dinâmica de auto-realização, o que exigiria uma teoria da subjetividade, algo que só uma investigação sobre o caráter temporal de nossa dinâmica  organísmica poderia apurar7. De toda sorte, a descrição goldsteiniana do  organismo como um processo de individuação ou auto-realização, mostrou que  não só não somos passivos, como o mundo não é para o organismo um  conjunto de “leis” físicas e químicas, mas uma sorte de sinais e significados. Por conta disso, podemos nos colocar de acordo com ele. Em circunstâncias  adversas, o organismo desenvolve mecanismos adaptativos que podem ser  mais funcionais, ou menos. Um sintoma é, antes de mais nada, uma forma de  ajustamento (Tellegen, 1984: 38-9).

V

Ora, se tivermos em conta os desdobramentos da teoria de Goldstein junto à  Gestalt Terapia, talvez já não pareça estranho que, não obstante assumir o  nome Gestalt, Frederick Perls e seus cols. tivessem recusado quase todos os  enunciados empíricos da Escola de Frankfurt. Da mesma forma, talvez já não  pareça estranho que Frederick Perls tivesse considerado sua própria teoria  uma psicologia eidética, tema da fenomenológica. Afinal, foi o próprio Goldstein  que, ao criticar a Psicologia da Gestalt e resgatar o ponto de vista das  essências, abriu essa possibilidade. Mas isso é tema para um outro trabalho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRENTANO, F. (1944). Phychologie du point de vue empirique. – Paris: Aubier  (Originalmente publicado em 1876).

HUSSERL, E. (1970). Philosophie der Arithmetik. Haag, M. Nijhoff, Husserliana,  Bd. XII (Originalmente publicado em 1891).

______ (1994). Lições para uma fenomenologia da consciência interna do  tempo. (P. M. S. A.lves, Trad.). Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda.  (Trabalho publicado originalmente em 1917).

  

7 Se podemos falar em um acréscimo prestado pela Gestalt Terapia à teoria organísmica, tal  tem a ver justamente com essa reflexão sobre o sentido temporal da dinâmica de auto realização organísmica. O nome que a Gestalt Terapia deu a essa reflexão é Teoria do Self,  entendo-se por Self o sistema de contatos no presente transiente.

15

______ (1975). Articles sur la logique. Paris: Puf (Originalmente publicado em  1894).

______ (1985). Investigaciones Lógicas. (J. Gaos, Trad.). 2.ed. Madrid:  Alianza. (Trabalho original publicado em 1900 e 1901, dois tomos)

GOLDSTEIN, K. (1933). Analyse de l’aphasie et étude de l’essence. Journal de  Psychologie. (257-345)

______ (1939). The Organism. New York: American Book.

______ (1951). Human Nature. Cambrigde: Harvard University Press  (Originalmente publicado em 1940).

KANT, I. (1982). Crítica da razão pura. (V. Rohden e alli, Trad.). SP: Nova  Cultural (Trabalho original publicado em 1881).

KOFFKA, K. (1982). Princípios de Psicologia da Gestalt. São Paulo: Cultrix  (Trabalho original publicado em 1927).

KÖHLER, W. (1980). Psicologia da Gestalt.(D. Jardim. Trad.) B. H: Itatiaia  (Trabalho original publicado em 1947).

LEWIN, K. (1973). Princípios de Psicologia Topológica. SP: Cultrix (Trabalho  original publicado em 1949).

PERLS, F. (2002). Ego, Fome e Agressão. .(G. Boris, Trad.). São Paulo:  Summus (Trabalho original publicado em 1948).

______ (1979). Escarafunchando Fritz dentro e fora da lata de lixo.(G.  Schlesinger, Trad.). São Paulo: Summus (Trabalho original publicado em  1969).

 

PERLS, F., HEFFERLINE, R., GOODMAN, P. (1997). Gestalt-Terapia.(F. R.  Ribeiro, Trad.). São Paulo: Summus. (Trabalho original publicado em 1951).

SPIEGELBERG, H. (1960). The phenomenological Movement. Den Hag, (2  vol).

TELLEGEN, T. A. (1984). Gestalt e grupos. São Paulo: Summus.

Revista IGT na Rede, v. 1, nº 1, 2004, p.1-16 DOI 10.5281/zenodo.14850939 

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526