ARTIGO

Trazendo os pais pelas mãos: em busca de um sentido para a terapia de crianças.

Handing the parents: searching a meaning to the children’s therapy.

Luciana Bicalho Cavanellas

Trabalho apresentado na I Jornada Paulista de Atendimento de Crianças em Gestalt Terapia no Instituto Sedes Sapientiae.


RESUMO

Este trabalho pretende pensar o sentido da prática clínica com crianças no universo “adulto” da psicoterapia, procurando observar caminhos que realmente possam ajudar a criança a se desenvolver de maneira saudável e autêntica. O cuidado com o ambiente familiar torna-se imprescindível neste processo.

Palavras-chave: Gestalt Terapia; psicologia, psicoterapia infantil.


ABSTRACT

This work aims to think about the meaning of the clinical practice with children in the “adult” universe of psychotherapy, as well as to examine ways that can help the child grows up in a true and healthy mode. In this process, the care with the family environment becomes indispensable.

Keywords: Gestalt Therapy; psychology; children’s therapy.


Ao longo de dezesseis anos venho recebendo crianças em meu consultório e venho pensando sobre este aspecto do trabalho clínico. As dúvidas e questões sempre estiveram presentes, mas com o passar do tempo foram mudando de cara, tornando-se mais austeras e dirigindo-se à fundamentação do próprio atendimento infantil sob o ponto de vista da psicoterapia.

De um tempo pra cá, o que tenho mais insistentemente me perguntado é: “o que quer uma criança quando me aparece no consultório?” ou “o que querem seus pais?” (parece mais razoável?) ou ainda “do que precisam estas pessoas, umas maiores e outras menores, quando juntas vêm procurar auxílio?”

Vêm em nome da menor, mas às vezes é só uma questão de tamanho, porque o desamparo é o mesmo.. “crianças” grandes cuidando de crianças pequenas, num mundo de adultos sérios e ocupados. Adultos formados a partir do abandono de suas crianças internas que agora se vêem responsáveis por criar seus filhos: novas crianças, exigentes em sua vitalidade e necessidade de serem educadas para poderem crescer e se desenvolver (“...são crianças como você; o que você vai ser quando você crescer?” - Renato Russo).

Sabem de sua tarefa, mas não se sentem instrumentalizados e, sem instrumentos adequados, pensam-se incapazes de realizá-la com sucesso. Tudo se complica quando um pequeno começa a reclamar, gritar, espernear, não corresponder, não render, não se adequar, sofrer.

Surge então um problema mais definido, um sinal de que as coisas não vão bem, um incômodo, um sintoma. Agora já se pode procurar um médico, um psicólogo e pedir ajuda. Já se tem permissão, pois já há algo mais objetivo e concreto, passível de ser analisado e tratado. E é neste contexto que somos procurados.

Convidados a participar deste drama, precisamos conhecer bem o nosso papel; nosso lugar de coadjuvantes numa história que nos antecede e vai continuar quando sairmos de cena; ou seja, é maior e independente de nós. Como atuar então? Como prestar este serviço? Qual o nosso serviço e nossa missão? (Pausa para reflexão ou pelo menos para deixar ecoar a pergunta dentro de nós, antes que a resposta se antecipe, sempre pronta a decidir e feche a questão).

Talvez fosse interessante resgatar a própria história da psicoterapia e em que ela nos serve hoje, nos consultórios, nas universidades, na sociedade de modo geral. Se fizermos este percurso, inevitavelmente iremos nos deparar com palavras como: sujeito, representação, ego, modernidade, dualismo, paradigmas, etc. Mas o que tudo isso pode ter a ver com acolher uma criança em seu sofrimento?

É claro que precisamos de teorias e mapas para nos orientar, mas talvez nossos mapas estejam nos levando a lugares distantes do universo infantil, forjando, ao contrário, a entrada precoce da criança num mundo adulto, segundo esta lógica racional e intelectual que nos orienta e nos promete um pouco mais de segurança.

Seguindo este viés, propomo-nos estar com a criança e avaliá-la de acordo com modelos de desenvolvimento que nos sirvam de referência e que nos possibilitem o entendimento e a posterior comunicação com seus pais. Tudo isso não raro disfarçado de momentos lúdicos e descontraídos, onde procura-se desesperadamente pistas e significados que possam confirmar hipóteses e acalmar a angústia do terapeuta, em busca de conteúdos inteligíveis. As supervisões são exemplos claros de como é possível estar perdido, quando se tenta compreender a criança a partir deste ponto de vista.

“Não sei mais o que fazer! João só quer brincar.”

“Maria não responde às minhas perguntas e não gosta de conversar.”

“Não sei o que vou dizer à família! Paulinho continua agressivo!”

Assim, unimo-nos aos pais no desamparo, porque apoiados em falsas bases e alicerces. Aquelas que nos dizem que precisamos resolver o problema e exterminar o sintoma.

O sintoma nos fala de uma parada no fluxo natural das coisas. É o momento ou a situação em que a dinamicidade do processo vital se interrompe e impede o escoamento do movimento. De modo geral, trata-se de uma parada estratégica em prol da tentativa de resgate de um funcionamento saudável.

Então podemos dizer que existe ali uma sabedoria velada pedindo que se lhe revele e talvez nisto resida nosso principal desafio: enxergar o sintoma como expressão genuína do organismo e colaborar para que a criatividade se restabeleça, trazendo novo horizonte de possibilidades saudáveis.

 

O fato é que, quando lidamos com pessoas saudáveis, nossa principal preocupação deve ser a de acompanharmos o tempo dos processos naturais. [...] Além disso, se conseguirmos ajustar-nos a esses processos naturais, podemos deixar a maioria dos mecanismos mais complexos a cargo da própria natureza, restando a nós apenas observar e aprender. (WINNICOT, 1993).

 

Que pensar então da criança sintomática? Como olhar para este sintoma, tentando buscar um sentido que nos traga à luz e nos ajude também a iluminar caminhos?

Esta criança que nos chega ao consultório, trazida pelos pais, ou por um deles, (ou por algum adulto responsável), parece já trazer consigo uma pequena lanterna, com uma chama acesa e, se observarmos bem, é ela quem vem à frente, trazendo os pais pelas mãos. Eles ainda no escuro e ela lhes abrindo caminho. Ela precisa faze-los ver, mas não sabe como conseguir, pois precisa da sua verdadeira vontade, coragem e motivação. Pede-nos ajuda então, pois sabemos falar a língua dos pais; também somos adultos e alguns trazemos nossa criança bem viva em nós.

A criança vem à frente, mas traz sua realidade, sua história, seu ambiente; sua família, enfim. E alivia-se quando a recebemos e a acolhemos em todo o seu sistema, configurado e reconfigurado, cindido e reformado, sofrido e machucado, mas ainda vivo e responsável por dar-lhe continente para que possa existir. Parece tranqüilizar-se quando constata que estamos abertos e dispostos a ajuda-la nesta empreitada de colaborar com o crescimento de seus pais. Curiosamente ela precisa que eles se desenvolvam e cresçam. “O que educa fundamentalmente a criança é a vida dos pais. Abundantes palavreados e exuberantes gestos não são eficazes ou mesmo tornam-se contraproducentes” (SILVEIRA, 1981).

 

As dificuldades parentais refletem-se inevitavelmente na psique da criança. A criança faz de tal maneira parte da atmosfera psicológica dos pais que problemas secretos entre eles podem influenciar profundamente sua saúde. Quanto menos os pais aceitem seus próprios problemas, tanto mais os filhos sofrerão pela vida não vivida de seus pais e tanto mais serão forçados a realizar tudo quanto os pais reprimiram no inconsciente. [...] A única coisa que pode salvar a criança desses danos é o esforço dos pais para não fugir às dificuldades psíquicas da vida por meio de manobras falsificadoras [...] mas aceitando-as como tarefas, sendo honestos com eles mesmos tanto quanto possível e deixando cair um raio de luz nos cantos mais escuros de suas almas (JUNG apud SILVEIRA, 1981)

 

É neste processo que nós, terapeutas,somos convidados a tomar parte. Não nos enganemos pois. Nem coloquemos todo o foco de nossa lente encima dos pequenos, pois o que realmente querem e precisam é simplesmente poder brincar. Não precisam de análises que lhes destrinchem a alma em busca de rótulos e conceitos rasos.

 

O período dos rabiscos, por exemplo, resulta da dinâmica de seu ser, sem que exista a menor preocupação de achar um conteúdo intelectual para a pura alegria de criar. Seria errado pedir a criança que dissesse o que ‘significa’ aquilo que está fazendo. Correríamos o risco de receber a resposta que uma conhecida poetisa alemã Marie von Ebner-Eschenbach ouviu quando pediu a algumas crianças o significado de uma canção que cantarolavam. [...] Um garoto disse, com superioridade: Precisa significar alguma coisa? [...] Ao brincar, a criança não persegue fins utilitários (HEYDEBRAND, 1959a).

 

No afã de darmos respostas aos pais aflitos, corremos sério risco de não enxergarmos o óbvio diante de nós: a criança precisa de um ambiente seguro e harmonioso que lhe possibilite o brincar em paz. E é por isso que nós, terapeutas, nos abrimos ao cuidado com os pais, padrastos, madrastas, irmãos e qualquer um que possa estar envolvido na criação deste sistema familiar. Não como meros cobradores de soluções imediatas, reforçando a culpa imensa que já acompanha o sentimento de fracasso em relação aos filhos “problemáticos”. Mas buscando aproveitar esta abertura que se deu a partir de um enguiço, de um desconforto que afetou a todos de algum modo. Percebemos então o desamparo trazido pela falta de tempo, pela falta de atenção, pela falta de respeito, pela falta de cuidado, pela falta de amor. E nisto estão todos distanciados de suas próprias necessidades fundamentais. Como então propiciar a um filho algo que não nos damos conta que nos faz falta e se vivemos numa cultura que, de modo geral, desvaloriza as emoções?

 

Existe uma emoção que deve ter sido a base do co-emocionar na convivência que deu origem ao humano. Isso aconteceu quando o conviver no linguajar se tornou o modo de vida fundamental que se conservou, geração após geração, constituindo a nossa linguagem. Essa emoção é o amor. [...] Assim também sustento que apesar de vivermos agora em guerras e abusos, somos filhos do amor. Compreender isso é absolutamente essencial para entender o ser humano, pois em nosso desenvolvimento individual o amor é um elemento essencial, do útero ao túmulo. Na verdade, acredito que 99% ... dos males humanos têm sua origem na interferência com a biologia do amor. Em seu desenvolvimento, a criança requer como elemento essencial (não circunstancial) a permanência e continuidade da relação amorosa entre ela, sua mãe e demais membros da família. Isso é fundamental para o desenvolvimento fisiológico, para o desenvolvimento do corpo, das capacidades sensoriais, da consciência individual e da consciência social da criança. [...]

[...] Como exemplo, seria possível falar de dificuldades de desenvolvimento da inteligência infantil ligadas à aprendizagem da fala ou, mais adiante, em relação ao rendimento escolar. [...] Ou podem surgir problemas de temperamento, angustiantes para os pais que não sabem o que fazer: pensam que amam seus filhos e assim não percebem a negação de seu amor, pois estão limitados em relação a eles. Todas essas dificuldades são expressões da carência amorosa, da ausência das condutas que constituem o outro – a criança, no caso – como um legítimo outro em convivência.

[...] vivemos numa cultura que nega a brincadeira [...] Não sabemos brincar. Não entendemos a atividade da brincadeira. Compramos brinquedos para os nossos filhos para prepara-los para o futuro (MATURANA, 1993).

 

Eis que nos surpreende quando crianças adentram nossos consultórios e nada mais querem do que brincar. Ficamos desconcertados, pois precisamos entender o que acontece e elas não se corrompem facilmente diante de nossa necessidade adulta, racional.

Parece então que precisamos rever este lugar, pelo menos no que diz respeito ao atendimento infantil. A quem pretendemos atender e como podemos realmente contribuir com essas famílias que nos chegam pelas mãos de seus filhos?

Inicialmente precisamos nos abrir para outros modos de pensar, de sentir e de ser. Precisamos manter nossos modelos em lugar de constante revisão e não podemos permitir que se sobreponham ao fenômeno vivo que nos aparece quando estamos na presença de alguém; ainda mais quando este alguém é uma criança. “... o educador não educa pelo que ensina ou pelo que faz na criança, mas pelo que ele é, ou antes, pelo que vem a ser a cada momento em seu trabalho em si próprio. [...] Podemos chamar de educadores os homens capazes de transformar-se” (HEYDEBRAND, 1959b).

Deste ponto de vista, tomara que possamos também nos considerar educadores.

“Não importa que eu tenha uma opinião diferente da do outro, e sim que o outro venha a encontrar o certo a partir de si próprio, se eu contribuir um pouco para tal” (STEINER, 1996).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HEYDEBRAND,C. von - A Natureza Anímica da Criança. Ed Antroposófica. São Paulo, 1991.

SILVEIRA, N. da – Jung: Vida e Obra. Ed. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1981.

STEINER, R. - A Educação da Criança segundo a Ciência Espiritual. Ed. Antroposófica. São Paulo, 1996.

VERDEN-ZÖLLER, G. e Maturana, H.R. - Amar e Brincar: fundamentos esquecidos do humano. Ed. Palas Atenía. São Paulo, 2004.

WINNICOT, D. W. - A Família e o Desenvolvimento Individual. Ed.Martins Fontes. São Paulo, 1997.