Editorial

Um ano. Nossa revista está fazendo um ano. A “IGT na Rede” foi concebida enquanto idéia no decorrer do Congresso Brasileiro de Gramado. Após um razoável período de gestação ela nasceu em 5 de agosto de 2004, dia em que LAURA PERLS faria 99 anos.

O primeiro aniversário de nossa revista marca o centenário dessa pessoa tão importante na construção do que hoje chamamos de Gestalt-terapia. Certamente podemos dizer que Laura ocupa o lugar de mãe da Gestalt-Terapia. E como boa mãe, Laura trouxe o equilíbrio para a Gestalt. Contrabalançava o espírito ousado de Fritz, pessoa que podemos considerar pai da Gestalt terapia. É claro que uma abordagem como essa, com a consistência que tem não surge do nada. Ela se faz figura a partir de um fundo condizente.

Muito já foi feito no sentido de identificar os antecedentes da Gestalt-Terapia. Fritz e Laura, cercados de outros colaboradores deram corpo ao movimento extremamente coerente com seu tempo. E a coerência com seu tempo trouxe força a nossa abordagem. Cabe a nós, Gestalt-Terapeutas do século 21 continuar a construção deste caminho de forma consistente com o nosso momento histórico e cultural. Se a Gestalt não se constituir coerente com seu tempo se tornará anacrônica, cristalizando rapidamente, passando a ser apenas história. Percebo que de uma certa forma os conceitos Gestálticos são hoje mais fáceis de serem compreendidos do que quando a Gestalt foi forjada. De uma certa forma outras áreas de conhecimento e outras abordagens psicoterapêuticas evoluíram numa direção convergente com a nossa abordagem, que também evoluiu, se tornando mais rica e mais compreensível. Amadurecemos. Digo amadurecemos porque me sinto fazendo parte desse processo.

Nesses 17 anos que venho acompanhando este caminho percebo nitidamente o processo de amadurecimento de nossa abordagem. Quando tive meus primeiros contatos com a Gestalt, durante minha formação, me chamava atenção quanta coisa eu aprendia a partir da pessoa da minha formadora. Quanta coisa não tinha nos livros, eram coisas passadas de pessoa a pessoa. Aos poucos novos conceitos foram começando a ser trazidos para a Gestalt, dando condição a que aspectos extremamente subjetivos desta abordagem fossem colocados na língua escrita. Um exemplo do que estou dizendo foi a chegada dos conceitos dialógicos no final da década de 80 e início da década de 90. Estes conceitos foram muito importantes para ampliar a possibilidade de colocar em palavras aspectos do que acontece na interação humana.

A evolução conceitual da Gestalt-Terapia dá sustentação ao crescimento de nossa abordagem em todos os sentidos. Em termos numéricos, em termos de reconhecimento no universo da psicologia e também no universo do público leigo. Traz uma maior consistência para os núcleos formadores. Alguns absurdos de que tínhamos notícias vindos de núcleos formadores pouco consistentes se tornaram cada vez mais raros. Ainda existem, mas são menos freqüentes.

Acredito que toda essa evolução vem da possibilidade de diálogo que tem caracterizado nossa abordagem, especialmente nos últimos vinte anos, período marcado pela ocorrência dos encontros nacionais. Vem daí a importância de aprimorarmos cada vez mais nossa possibilidade de diálogo. Acredito que a "IGT na Rede", com apenas um ano de vida tem trazido uma influência marcante para nossa comunidade. Acredito que ela teve alguma influência em um aumento que tenho percebido em termos de produções ligadas à Internet. Percebo também que temas como “a história de nossa abordagem no Brasil” têm sido mais valorizados. Por exemplo, como ocorreu no 1º Congresso do Estado do Rio de Janeiro no qual inclusive as pessoas merecidamente homenageadas pelo encontro por sua importância na história da Gestalt-Terapia deste estado, correspondiam aos entrevistados para a nossa Revista Virtual número 2.

É muito gratificante nos sentirmos co-responsáveis pelo semear de influências que parecem estar colaborando com passos importantes no desenvolvimento da Gestalt-Terapia de nosso tempo.

Marcelo Pinheiro.